sábado, 29 de dezembro de 2012

"Loura Desposada do Sol", crônica de Pedro Salgueiro para O POVO



Sempre gostei desse verso de Paula Ney sobre Fortaleza. Tanto que resolvi em algumas crônicas fazer gaiatices com ele. A “loira” foi carinhosamente desmilinguida para “loirinha” e a “desposada” cruelmente metamorfoseada para “desmiolada”, “destiorada”, “descabelada”, “desterrada’, “desbotada”, “desancada” e outros mais.
Desde que deturpei pela primeira vez o famoso verso recebo reprimendas, elogios, brincadeiras de leitores e colegas de escrita. Alguns mais carrancudos me mandaram ler mais, que eu fosse conhecer o poema original de Demócrito Rocha, outros educadamente (e sutilmente) me sugeriram que já haviam “topado” com aquela frase em algum lugar; uns me corrigiam apenas mandando a cópia do longo texto trabalhosamente copiado, vários me cumprimentaram pela sacada “espirituosa” do uso do esplêndido verso de Antônio Sales.
Resignei-me e continuei a usar a brincadeira, sem maiores preocupações com os puristas e/ou os brincalhões de plantão. Até que fiz uso de “A nossa burrinha loura desmiolada pelo sol” em meu livro de crônica Fortaleza Voadora, de 2007, e recebi a estranha mensagem de uma suposta correligionária (dessas que saem da faculdade quase sem saber de nada e, de cabo eleitoral, são logo alçadas aos muitos cargos comissionados que terrivelmente infestam os nossos três poderes) me espinafrando por estar falando mal, usando até termos “depreciativos”, de nossa prefeita Luiziane Lins. Não precisa dizer que ri muito, depois respondi negando e confessando que até votei nela (a prefeita) e previ (para a moça) que ela logo chegaria aos cargos mais alto dentro da administração municipal.
Mas, pasmem!, com o passar dos anos comecei a ler minha inocente gaiatice nas bocas (ou melhor, nas páginas) de outras pessoas. O saudoso Aírton Monte vez por outra tascava a reles frase corrompida no meio de uma de suas divertidas crônicas. O amigo Ricardo Kelmer a vive citando em palestras e até em convites eletrônicos. Dia desses o contista-arquiteto Brennand Bandeira me ligou perguntando se realmente aquela frase era “minha”, pois a vira numa ótima página do Romeu Duarte (e o pior, diz ele, atribuída a outro), eu imediatamente esclareço que não, dou a fonte original (e correta) e assumo apenas a peraltice da deturpação. Até um anacrônico grupo de recitadoras de versos noite dessas deu o vexame de citar erroneamente o glorioso verso durante um dos mil e quinhentos lançamentos de livros mensais de nossa culta loirinha esfarrapada pelo sol.
Claro que minha pouca vaidade jamais permitiria que eu me ofendesse pelo uso indiscriminado do que foi apenas uma simples molecagem: a deturpação de um importante símbolo de nossa cidade. Mas de vez em quando dá vontade de fazer como aquele escritor que estava assistindo a uma palestra em que, lá pelas tantas, uma ideia sua foi citado como de outro. E, mesmo sendo tímido, o “verdadeiro autor da importante descoberta” se levantou da plateia e interpelou o palestrante:
— Me desculpe, nobre amigo, mas esta frase não é de fulano de tal! Sei que não estou sendo educado te interrompendo. Mas “esta” ideia é minha, e tenho tão poucas que acho justo defendê-las com unhas e dentes!

"O Ano Envelheceu", crônica de Pedro Salgueiro para O POVO



O ano envelheceu cedo, senhores, eventos de toda sorte foram apodrecendo suas vísceras, minando seus frágeis alicerces. 
A cidade envelheceu de política e futebol, viveu mais de bastidores que de cenas, envelheceu nas sombras, construiu em silêncio suas podres carnificinas.
O país envelheceu devagarinho, com tanta lama à direita e à esquerda do surrado caminho.
Envelhecemos todos, estupefatos com o fim esperado, longamente anunciado, engendrados em seus vis maquinários.
Apodreci eu, por dentro e por fora; cada tripa escondida no mais recôndito lugar: esconderijos de todas as vergonhas minhas e dos outros, todos.
Apodreceram os inimigos fartos em maldades e covardias. Apodreceram todos, como as demais coisas esquecidas nos armários mais esquecidos.
Apodreceram os poetas engalfinhados com as lutas mais vãs, mais comezinhas e fúteis, como brigas de casais que nem sabem mais por que brigam essa briga em comum, mal sabendo que são o fazem é o que lhes restam, como restos de peixes apodrecendo nas coxias de uma calçada do subúrbio mais distante.
Apodreceram todos os domingos, as segundas, as terças e quartas, as quintas e os poetas de quinta, apodreceram as sextas, mas ainda restam luminosos (até quando?) os sábados.
Apodreceram os ladrões, engravatados ou não, os donos de bares mal humorados pelo eterno fel que nos servem impunes.
Apodreceram todos, enfim, desta infame loirinha desmiolada pelo sol. Apodreceram os daqui e os que vieram do interior. Apodreceram de sol e de sal.
Apodreceram, principalmente, os que se encharcaram de perfume, de roupas caras, de livros raros, de desculpas esfarrapadas...
Apodrecemos nós. Os simples mortais deste lado de cá das mil e uma Aldeotas, dos seus vis e servis clubinhos.
Apodrecemos e escorremos sem fins pelos buracos dos trens subterrâneos que nossa insana arrogância cava há séculos. Que nossa burguesiazinha sonsa cava há séculos, que nosso escroto povinho cava há séculos...
Pois o ano envelheceu, senhores, e apodrecemos todos na espera deste outro que bem já nos diz a que vem!
O ano apodreceu, senhores...

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

"Quando o Amor é de Graça XIX: Amores (se) Vãos", de Raymundo Netto para O POVO (12.12)


Drummond, Vinicius, Bandeira, Quintana e Paulo Mendes Campos


"Depois de te perder, te encontro, com certeza,
talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada; nada aconteceu.
Apenas seguirei, como encantado, ao lado teu." (Chico)

A primeira garota a despertar-me o sentimento de esquecer de mim tinha nome de flor, entretanto, nada de peitos, nem bunda, as pernas eram finas e os cabelos escureciam o rosto alvo, decorado em sardas, de quase não ver os olhos acastanhados. Ora, ela contentava apenas 9 anos! Nem sei como se deu, nem como começou. Lembro apenas de seu sorriso e do inocente desinteresse a minha figura esquálida, repleta de apelidos, protegida dos colegas moleques pela irmã mais velha.
No ano seguinte, mudando de escola, encantei-me por outra garota, mais madura, com 10 anos, que habituava cobrir as mechas negras em gorro de crochê azul. Eu, nos finais de semana, por não suportar-me em saudades, ia ao mercadinho em frente a sua casa, com a desculpa de comprar biscoitos, mastigados com a lentidão da espera de a qualquer momento vê-la — e apenas isso — passar por trás do muro baixo.
Com o fiar dos anos, a adolescência, percebi: passava à calçada uma, apaixonava-me. Cruzava por ali outra, também. E assim se movia a torcicolos o coração de menino para lá e para cá, enamorando-se intensamente, sempre de súbito, por estranhas das quais nunca foi merecedor sequer de descuidoso olhar.
Aos 13, num esboço de reflexão prematura, pensei: alguma coisa está errada! Desconfiei se não constatava ali a promessa de um tarado, um pervertido. Promessa essa, decerto, não cumprida ao longo de uma vida sempre muito solitária, ensimesmada e pensativa. Na época, ironicamente, o desejo de seguir a carreira sacerdotal, a Bernardo Guimarães — eu gênio e a cidade proibida, Margarida —, nada de envolvimentos que pudessem atrapalhar o destino já escolhido. Ainda assim, entre os intervalos dos serviços de igreja, passava horas infindas da mais pura adolescência ouvindo músicas melosas, gastando-me em sinceras e bizarras quadrinhas apaixonadas. Que sacrilégio, hoje sei, com tanto que já se disse em completude sobre o amor... Talvez, por isso, quando um candidato a poeta mostra-me seus versos, dá-me logo a vontade de dizer-lhe: “Desista enquanto há tempo! A boa poesia é sempre muito difícil e a falha, assim como ao violino, é imperdoável”.
Não surpreende então que meu primeiro beijo tenha-me chegado em uma tarda noite aos 20 anos — por iniciativa de uma garota de ideias cacheadas e com nome de pintura —, e durado dois anos de um tempo que no próprio se encerrou, deixando-me largo ensinamento: a melhor coisa do fim de um primeiro amor é descobrir ser possível ter início um segundo, assim como também concluí-lo e partir para um terceiro ou a um quarto. Tudo é questão de decisão. Para os mais românticos, os quase religiosos, isso é demasiadamente herético, cabendo um protesto magatônico de eu não saber de fato o que é amar ou ser amado. Sim, considero a possibilidade de caber-me tal maldição do egoísmo, do desamor profundo e da esterilidade de um coração ateu, embora compreenda que grande fosse esse amor não caberia nele a vaidade ou afetação. Sabe-se lá se “l'amour n'est pas pour moi”, como apontava-me uma amiga aos gritos de uma canção. É-se possível o maior amor do mundo ser aquele do momento, sem tempo de mágoa, remorso ou ressentimento, apenas brilho no peito livre de um tudo, mesmo de não caber na memória o rosto da amada, posto tal chama viniciana, a levar, como sonho, por poucas horas, um dia ou dois, ou tão contrário a si mesmo, como amor camoniano, por uma vida inteira. Para mim, o amor anda de mãos dadas e é no beijo perfeito que devora o seu espírito. Agora, sentado à janela a emoldurar um imenso céu estrelado que não existe em minha vida, trago na pele o que vem de Drummond, o mesmo que me matou em desastre: “Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na concha vazia do amor à procura medrosa, paciente, de mais e mais amor. Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa, amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.”

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

"Segredos", Pedro Salgueiro para O POVO (05.12)



“O que se diz é que o desejo atual das pessoas de se mostrar, de se exibir, de que sua vida tenha testemunhas (o exemplo citado é o das pessoas que penduram sua vida na internet), talvez seja o resultado de uma nostalgia da velha ideia de que Deus era testemunha de tudo que fazíamos, de nossa vida inteira.”
(Javier Marías, entrevista aO GLOBO)

Numa das poucas pistas que deu para o fato de ter deixado de escrever (ou pelo menos de publicar), Raduan Nassar disse, em rara declaração, que o escritor é como aquele menino que os pais colocam na sala diante das visitas para se mostrar: recitar versos, cantar de cor uma canção, fazer “de cabeça” operações matemáticas, tocar algum instrumento musical ou simplesmente dizer gaiatices.
Sempre me intrigou o motivo que leva alguém a transpor para o papel (hoje à tela) seus segredos mais bem guardados, suas taras mais secretas, seus instintos menos públicos. Deixa-me de cabelo arrepiado (o pouco que tenho) a perspectiva de que um estranho me desvende atrás do novelo de uma frase. Que do emaranhado de palavras brote, para um atento leitor, o monstro que sou (somos todos nós!?) na intimidade do coração.
Assusta-me a necessidade desenfreada que as pessoas têm (temos) de se expor, de se “amostrar”, de se desvendar inteira para essa multidão de estranhos que as (nos) rodeiam. E essa carência de reconhecimento, de não serem anônimas no mundo, (ou sempre foi assim, hoje apenas é mais visível?) se tornou doentia.
O exibicionismo impera na internet e fora dela. Facilmente sabemos quase tudo da vida de qualquer um: não só de seu corpo, tatuagens e manchas, mas até nuanças emocionais. Fotos e confissões disputam espaços nos blogs e sites. Fala-se publicamente de finanças e sexo, de trabalho e viagens, de projetos e sonhos. Nós — sem que nenhum governo tirano, nenhum sistema político sofisticado, nos obrigue — nos colocamos numa bandeja prontos para ser servidos.
Quisesse saber de segredos, antes: necessitava o marido suspeitoso contratar detetive para seguir a esposa (ou o contrário, claro), a empresa enviar funcionário à vizinhança do futuro empregado. Serviços secretos, de espionagem doméstica ou empresarial, pública ou privada, proliferavam em várias escalas da sociedade.
Hoje não, bastam alguns minutos na frente do computador e já sabemos o signo, as preferências culinárias, a ideologia política ou religiosa, as taras e fetiches e até (pasmem!) projetos de vidas e sonhos de qualquer pessoa, seja ela uma simples doméstica ou um pedante professor universitário.
Claro, não colocamos todas as verdades, pois muitas vezes nem mesmo nós as sabemos. Deixamos apenas pistas. Fotos e pegadas que jamais (me fala um amigo fanático pela “grande rede”) poderão ser apagadas.
Se formos baixos, ficamos altos; se pobre, ricos; se desinformados, copiamos citações no Google.
Criamos nossos próprios “fakes”. E saímos (pior, nem mais saímos) por aí completa ou parcialmente Frankensteins.
Resta-nos somente, na nossa incontrolável ânsia de exposição, saber quem vai nos inventariar no futuro.
Quem vai comer esse prato quente que ora servimos a todos?

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

"Literatura? No Ceará não tem disso não!", crônica de Raymundo Netto para O POVO (28.11)



Quando tive que elencar obras de autores cearenses para publicação na coleção “Nossa Cultura” da Secretaria da Cultura do Ceará, achei que teria alguma dificuldade. Qual nada. Acabei por descobrir que a maioria dos livros publicados no Ceará só teve uma primeira edição — muitas vezes em tiragens mínimas —, mesmo aqueles que são considerados referências da historiografia literária: “O Canto Novo da Raça”, livro inaugural do modernismo no Ceará, “Coroa de Rosas e de Espinhos”, de Mário da Silveira, autor precursor desse modernismo, “Prelúdios Poéticos”, de Juvenal Galeno, marco do romantismo cearense, “Quem Com Ferro Fere com Ferro Será Ferido”, também de Galeno, pioneiro da dramaturgia escrita e encenada no Ceará, inédita e publicada 151 anos depois, “Obra Perdida de Américo Facó” (“Sinfonia Negra” e “Poesia Perdida”), “Minha Terra” – poesia parnasiana —, e “Retratos e Lembranças”, ambos de Antônio Sales, “O Livro dos Enforcados”, contos de Gustavo Barroso, “Romanceiro de Bárbara”, poesia épica de Caetano Ximenes Aragão, dentre outros. Para mim, é histórico e notório o desinteresse com a manutenção e difusão do nosso patrimônio literário. E, confesso, digo “nosso” sem acreditar muito na existência do sentimento de pertença do povo cearense, a mesma “inexistência” que estimula a destruição completa dia após dia do patrimônio artístico-cultural e arquitetônico no Ceará. Chego até a crer que os posteriores “lamentos”, após as constantes derrubadas nos feriados prolongados, são falsos, frutos da simples falta do que fazer ou dizer.
Durante a pesquisa para a publicação de tantos títulos, descobri também que há pouquíssimos estudiosos na temática — o que a princípio deixou-me confuso — e os que ainda encontro, muitos deles, escrevem sobre as obras baseados na pouca e rara crítica literária existente, sem jamais ter tido o trabalho de lê-las, confiando piamente nas opiniões, por vezes equivocadas, de antecessores. Também encontrei outros que defendem, sem tremer a cara, erros históricos, mas que, como ninguém sabe de nada nem tem o interesse de saber, acabam por deixar como estar sem entender que aquele erro difundido e propagado, num futuro não tão distante, pode vir a ser levado a sério.
Conheço muita gente do curso de Letras que afirma, estranhamente, não gostar de literatura, menos ainda da cearense, que não conhecem. Acham uma bobagem perder tempo discutindo e estudando isso, enquanto cada vez mais a linguística ganha novos adeptos.
Na escola, depois do advento do ENEM, se fala cada vez menos sobre a literatura do Ceará. A impressão que se tem é que aqui, além da aridez do clima, também nossos escritos não vingaram. Nada se colhe de bom no Ceará é o que provamos.
Enquanto que no curso de História da Universidade Federal do Ceará as disciplinas de História do Ceará I e II são obrigatórias, no curso de Letras, da mesma UFC, as disciplinas de Literatura Cearense I e II são optativas e, devido a diversas questões, não são ofertadas em todos os semestres. Ora, é óbvio que se essas disciplinas fossem obrigatórias — são muitos os argumentos em defesa disso —, não faltariam professores nem alunos para ela. Tememos que a ausência da oferta, a aumentar a cada semestre, se torne ainda mais frequente, a exemplo do princípio número um do marketing: “Aquilo que não é visto não é comprado!”. Outra prova disso: quando lançava os livros da coleção “Nossa Cultura”, não raro os editores presentes me diziam que eu só editava aqueles livros porque trabalhava em órgão público, pois que todos sabiam: aqueles livros não eram de interesse de consumidores/leitores. Creio que eles não estavam enganados. Apenas pelo fato de a Bienal do Livro ter como tema a Padaria Espiritual — temática criada por mim — fez com que algumas editoras investissem na publicação de livros em torno dela, assim como sabemos que outras editoras só se empenhavam na publicação de clássicos e contemporâneos cearenses quando as obras eram, na época, elencadas no Vestibular. E, por esse motivo, apenas por esse, os professores e alunos das escolas do Ceará as liam. Mas, o melhor: muitos deles se surpreendiam com a possibilidade de se ler e de se gostar da literatura feita em sua própria terra.
Da mesma forma, penso qual é o estímulo de um professor para se debruçar na pesquisa e no estudo de algo tão desvalorizado, sem procura, quanto essa misteriosa, inalcançável, talvez odiosa, Literatura Cearense.
Dia desses fui convidado para participar como jurado de uma semana cultural em uma grande escola de Fortaleza. Numa das salas, uns adolescentes apresentaram uma espécie de jogral com recortes de textos poéticos de autores, a maioria contemporâneos, de outros estados. Perguntei o porquê de escolherem aqueles autores sem destaque nenhum. Responderam-me: “eles eram desconhecidos e as pessoas precisavam saber que há muita coisa boa na nova poesia brasileira”. Surpreso, perguntei, então, o porquê de naquela lista não constar autores cearenses. Foi quando uma mocinha de olhos brilhantes de 16 anos, linda e ingênua como uma pérola alencarina, respondeu-me no ato: “No Ceará não existem poetas." A orgulhosa mãe da menina, que distribuía bolachas e cafezinhos para a audiência, tremeu-se toda com a afirmação lampejada da criatura, objeto de seu candor: "Tem certeza disso, minha filhinha?". Sim! Como todo jovem, naquela idade, ela tinha todas as certezas do mundo!

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

"Seremos nós, apenas nós, os babacas?", crônica de Raymundo Netto para O POVO


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Foto: José Mendonça (engenheiro e irmão de escritor)

Desde que começamos a divulgar a ausência de oferta das disciplinas de Literatura Cearense I e II no curso de Letras da Universidade Federal do Ceará, o que é um FATO, não nos interessando a situação exposta pela Coordenação do Departamento de Literatura, mas as razões que levaram a ela – e que a coordenadora juntamente com a direção da instituição certamente deverá tentar resolver –, começamos a ouvir alguns indivíduos, inclusive do “meio”, dizerem que isso é uma grande bobagem, que não existe razão para se falar em literatura cearense, quiçá uma brasileira, ou que a boa literatura se sustenta sem precisar “dessas coisas”. Pois bem, afirmo, categoricamente, que esses tais ou são muito ingênuos, mal-intencionados ou uns babacas de carteirinha que não sabem o que dizem nem para que lado se torce um parafuso.
Olhem, que engraçado: o meu irmão, chegando ao aeroporto de Recife, encontrou, no meio do amplo saguão, um quiosque-vitrine onde se lia “Leia Livros Pernambucanos: Movimento em Defesa do Livro e do Autor Pernambucanos”. No interior do quiosque, uma pequena mostra de sua produção.
Lembrando: quando trabalhava na Secretaria da Cultura, perguntaram-me se poderia ir à cidade de Granja, terra natal do padeiro Lívio Barreto, para lançar o seu póstumo “Dolentes”, marco do simbolismo no Ceará. Fiquei eufórico pela oportunidade de falar sobre o malfadado autor e apresentá-lo em seu próprio berço. A maior parte do público nem sabia que livro era aquele e qual a sua importância. Da mesma forma, deparo-me vulgarmente com a falta de conhecimento dos alunos (e professores) dos cursos de Letras sobre autores locais. Entretanto, impressiona-me ainda mais perceber o quanto eles ficam encantados quando falamos sobre as “novidades” desta literatura que eles, julgam, deveriam saber. Há esperança nos jovens desenvenenados!
Há bem pouco tempo, a Universidade Federal do Ceará, esta mesma, numa ação inédita, elencava títulos de autores cearenses para o vestibular. Como essa fábrica, a do vestibular, funcionava bem, logo centenas e centenas de alunos os liam e queriam conhecer de perto os seus autores: Pedro Salgueiro, Airton Monte, Angela Gutiérrez, Natércia Campos, Eduardo Campos, Ana Miranda, Linhares Filho... Conheci esses alunos nessa época. Percebia com entusiasmo a admiração desses jovens. Daí compreendi o grande feito da Universidade: provara que era possível se ler a produção literária local e, mais, se gostar dela! O vestibulando, ao encontrar nossos autores, tinha os olhos brilhantes, emocionados. Tremia na hora do autógrafo. Pedia aos colegas para que tirassem aquela foto.
O mesmo, felizmente, acontece nas salas de aula da disciplina de Literatura Cearense do escritor Prof. Batista de Lima, na Estadual, onde há anos ele prioriza a leitura de autores cearenses vivos. Apresenta-os aos alunos, distribui livros, convida para lançamentos, incentiva e os acompanha. É um grande trabalho feito sem necessidade de holofotes, mas cujo resultado é assistido e aprovado por quem reconhece a importância do gesto de nosso Batista. Também na UECE, a Profa. Sarah Diva Ipiranga arrasta diversos alunos na peregrinação em busca de nossos autores esquecidos, como quase todos o foram por muito tempo e ignorância. Assim também posso dizer das professoras e escritoras Aíla Sampaio e Hermínia Lima e, felizmente, tantos mais.
Do nosso lado, aplaudimos programas como o “Papo Literário” da TVC, sob o comando da Landinha Markan e Mônica Silveira, que promove e divulga os escritores e suas obras, independentemente de sua notoriedade social. Caso raro. Também, há algum tempo, a professora, radialista e grande leitora, Lílian Martins, entrevista com habilidade, competência e amor os autores cearenses, provocando-os e divulgando o melhor de suas obras no “Autores e Ideias”, da FM Assembleia. O “Bazar das Letras do SESC”, programação mensal cujo entrevistador, e também escritor e leitor crítico, Carlos Vasconcelos, abre um espaço valoroso de divulgação de autores cearenses por meio de um bate-papo acolhedor, sempre acompanhado pelo “Abraço Literário”. O “Templo da Poesia”, movimento iniciado pelo poeta Italo Rovere e que já vem arrepanhando tantos outros em seu “Palco Aberto”, reunindo anônimos e renomados em torno da música e da literatura. Outras, muitas, são as iniciativas voluntárias de difusão da literatura cearense e da produção literária local.
Infelizmente, também são muitos os que proclamam fazer algo pela literatura, pelo livro e pela leitura, mas na realidade são fraudes, lançadores de fumaça, uns interesseiros, buscando vantagens pessoais, falando por si, presentes apenas em momentos políticos, festejos sociais, com candidatos e estátuas a tiracolo, falando em nome da ordem coletiva – geralmente ausente – para justificar seu brado isolado e oportunista.
Por ora estamos aqui, diante do Centro de Eventos, gritando vivas para uma anônima Padaria Espiritual. Ela, apenas um traço moleque de tudo quanto ainda temos a descobrir.
Que se queime a orelha dos babacas: se nós não criarmos meios e condições de se conhecer a nossa literatura, não serão os paulistas, nem os cariocas, menos os baianos que o farão, visse?

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Edições Demócrito Rocha na Bienal Internacional do Livro do Ceará


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As Edições Demócrito Rocha apresenta cinco eventos durante a Bienal  Internacional do Livro do Ceará.
Todos mais que convidados.

Dia: 10.11.2012 (SÁBADO)
Horário: 19h30 às 20h30
Local: Arena Multicultural Luís Sá (Arena Jovem) |Mezanino 1 (Bloco D Pavilhão Leste)
É PRA LER OU PRA COMER? A História da Padaria Espiritual para Crianças
de SOCORRO ACIOLI.
Lançamento e bate-papo com a autora da obra, ganhadora do I Edital de Incentivo às Artes da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, categoria Obra Inédita em Literatura Infantil, em 2004, do selo “Altamente Recomendável” da FNLIJ, e integrante do Catálogo de Bolonha.

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Dia: 13.11.2012
Horário: 19h30 às 21h
Local: Sala 2  Bruno Jaci (José Carlos Jr) |Mezanino 2  (Bloco D Pavilhão Leste)

MODERNISMO NA POESIA CEARENSE: Primeiros Tempos
de SÂNZIO DE AZEVEDO.
Conversa com o autor e lançamento de obra ganhadora II Prêmio Ceará de Literatura, da Secretaria da Cultura do Estado, categoria Ensaio, em 1994. Dentre outras novidades, a inclusão dos fac-similares dos raríssimos números 1 e 2 da revista Maracajá, suplemento de O POVO, veículo de divulgação dos modernistas cearenses.

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Dia: 14.11.2012
Horário: 18h às 19h30 
Local: Auditório Félix Guanabarino (Adolfo Caminha)| Mezanino 2  (Bloco D Pavilhão Leste)

ESCRITA & TRAÇO: Patativa do Assaré, o canto do poeta passarinho, coletânea de textos e produção visual dos alunos do Colégio Farias Brito, fruto de um concurso interno, terceira edição da série que já contemplou Rachel de Queiroz e Cecília Meireles.

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Dia: 14.11.2012
Horário: 19h30 às 20h30
Local: Café Java (Andar P) (Bloco D Pavilhão Leste)

OS ESPANTOS, de TÉRCIA MONTENEGRO.

Bate-papo com a autora e lançamento do seu primeiro livro de crônicas, selecionadas dentre as publicadas no jornal O POVO.

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Dia: 17.11.2012
Horário: 16h30 às 17h30
Local: Arena Multicultural Luís Sá (Arena Jovem) Mezanino 1 (Bloco D Pavilhão Leste)

MEU CADERNO DE BORDO, de EFIGÊNIA ALVES.

Bate-papo com crianças e jovens e lançamento da obra, uma novela, elencada para compor a coleção da série “Eu Sou Cidadão”, da Associação para Desenvolvimento dos Municípios do Ceará/APDM-CE. 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Uma tarde longa e escura de um dia não vivido




Preciso me Encontrar
(Cartola)

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
sorrir prá não chorar.

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar...

Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir prá não chorar...