segunda-feira, 12 de maio de 2014

Resenha de "Criaturas", por Anallies Borges, graduada em Letras Português/Literatura, professora e atriz, para o site Intocados


Criaturas, livro de Rochett Tavares, lançado pela La Barca Editora, vencedor do Prêmio Otacílio de Azevedo (reedição), promovido em 2010 pelo Governo do Estado do Ceará, traz como proposta a narrativa de contos de horror que nos fazem imergir no universo do desconhecido, levando-nos a um estado de perturbação não só pela forma surpreendente com que cada enredo se apresenta, mas também pelo fascínio de desvendarmos os mistérios que se esgueiram de nós em cada frase escrita.
O livro apresenta como título a proposta do que será compartilhado no decorrer de seus oito contos, ou seja, um convite a mergulhar num universo das histórias de horror, apresentando-nos não só o lado sujo das criaturas “amaldiçoadas” por um aspecto sobrenatural sombrio, mas também o incômodo que é perceber que se pode sentir tal asco por seres humanos cada vez mais desumanizados e transformados por seus atos obscuros em Criaturas.
Nascido na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 1975, Rochett Tavares tem sua estreia como escritor com a obra Criaturas, a qual se apresenta como o resultado de um interesse que surgiu ainda na sua infância: aventuras fantásticas. O que era um passatempo tornou-se uma necessidade de expor através de seus próprios escritos a influência dos diversos escritores de fantasia que teve no decorrer de sua trajetória de leitor, mas na presente obra a que me proponho resenhar há, sem dúvida, a forte influência e inspiração de H.P. Lovecraft, no que diz respeito, principalmente à construção da narrativa.
Não se trata, portanto, de um romance, mas sim da junção desses contos que, na verdade, se apresentam como capítulos, páginas de um destino que se esconde num lado oculto que, durante dias e noites ao redor do mundo, vai sendo cumprido por vezes com a ajuda do próprio homem, através de sua curiosidade, malícia ou ingenuidade.
As narrativas, na sua maioria, passam-se em locais da Europa ou dos Estados Unidos em épocas ou contextos diferentes. Pode-se perceber, no entanto, que cada conto traz um enfoque à forma de construir a narrativa de horror. A preocupação, portanto, se concentra em: mostrar um cenário obscuro com um enredo que toca o sobrenatural, mas cujas ações humanas tornam-se o verdadeiro horror a ser ressaltado sem eufemismos; vasculhar, através da psique humana, o horror particular vivenciado pelos personagens; apresentar o elemento sobrenatural, desconhecido, como algo que faz parte da realidade e que se cumpre como destino muitas vezes através da colaboração do próprio homem.
Nesse âmbito, pode-se perceber que, em muitos contos, são abordados seres escusos (sobrenaturais ou não), que dominam a escuridão das ruas, os recônditos dos bairros, sempre havendo uma mescla de mistério em que, por mais que enxerguemos claramente a presença do elemento fantástico em alguns contos, em outros, os desfechos nos apresentam como um enigma a ser decifrado ou complementado pela nossa leitura.
O foco narrativo varia, podendo ser de narrador em primeira pessoa a narrador-observador onisciente. Em “Retrato de Família”, cujo narrador é personagem há uma visão parcial do que está sendo narrado, quase como uma evocação de imagens, lembranças que se misturam num fluxo de consciência, em que aos poucos são reveladas respostas ou lembranças reticentes. O horror se apresenta como o grande conflito do narrador-personagem que participa da Segunda Guerra Mundial, perdendo sua visão romantizada da vida e mergulhando no absurdo frio de uma guerra até aquele momento totalmente sem sentido.
“A comporta de saída escancara-se na praia, abandonando os infelizes à frente, à mercê de uma implacável salva. Como fardos de feno arremessados num celeiro, o que outrora eram jovens cheios de vida hoje amontoam-se uns sobre os outros, deixando...
A água gélida espeta meu corpo como pequenas lanças, envolvendo membros antes vigorosos com um torpor convidativo.” (Criaturas, p. 17-18)

As cenas do conflito que ocorre nas praias de Normandia no Dia D da Grande Guerra são descritas de forma detalhada, misturadas à visão de angústia do personagem em encontrar-se em tal situação desesperadora para ele. Trata-se inicialmente de um horror psicológico que, todavia, também será tocado pela presença do sobrenatural num conflito que ultrapassa a compreensão do que é realidade.
Já no segundo conto da obra, “Visita ao Necrotério”, que se passa na França, a narrativa em terceira pessoa nos conduz à mente perturbada de Maurice Lacroix, um investigador de polícia, que tenta descobrir o autor de uma série de crimes que se assemelham a outros cometidos décadas antes. Tal personagem se lança a desvendar a mente do psicopata que procura, mas o leitor é surpreendido pela dúvida que sonda o horror particular do personagem que, por vezes, se surpreende com a riqueza de detalhes que ele adivinha, quase como lembranças do crime que investiga. A luta trágica do personagem se estabelece pela tentativa de manter a sanidade em meio à investigação, ao mesmo tempo em que vivencia e se surpreende ao se defrontar com o desconhecido em sua mente.
“Enquanto vasculha as entranhas do cadáver, Maurice Lacroix é assaltado por emoções desconhecidas. O roçar de seus dedos na matéria estática e gélida do cadáver provoca ondas de um calor espasmódico, como se a carne morta da jovem desconhecida à sua mercê transmitisse-lhe os impulsos próprios às carícias feitas em um objeto vivo...” (Idem, p.82) 

Em outros contos, como em “Bom Garoto”, o foco narrativo também em terceira pessoa, apesar de onisciente, opta por levar o leitor a desvendar o enigma quase em parceria com os personagens. Por sinal, tal episódio traz um momento em que a crueldade da “criatura humana” é posta em xeque, assim como nos surpreende perceber que os seres inumanos podem expressar atitudes mais humanas do que nós.
A obra guia o leitor a um mundo desconhecido, cuja narrativa, por vezes propositadamente reticente, conduz a leitura para um nível da curiosidade, quase como instigando o interlocutor a complementar tais “lendas” com testemunhos seus. Mesmo quando o foco é em terceira pessoa, a narrativa, por seu mistério, nos parece um apanhado de testemunhos, como um quebra-cabeça para que nós possamos desvelar um segredo maior que está oculto, algo que se esgueira pelas sombras da noite. Cada rua, cada beco, cada fato histórico parece ter como pano de fundo a presença constante desses seres sobrenaturais, porém não se exime o homem de sua crueldade em determinadas atitudes que podem influenciar no desfecho desse destino oculto.
O que nos deixa reflexivos é até que ponto as criaturas podem ser mais humanizadas do que o próprio homem em determinados contos, pois elas são, por vezes, levadas pela necessidade que a maldição lhes impõe. Os atos cruéis tornam-se uma luta pela pseudossobrevivência desses seres que estão no limiar de uma pseudoexistência. A morte e a vida são uma tênue linha seguida por eles, que não têm opção e se submetem a perder a identidade humana que um dia tiveram para seguirem essa nova espécie de existência; outras vezes se entregam a essa exigência dessa nova forma de coexistir com o homem, deixando-se levar pelo instinto, mesmo que, para isso, suas ações se tornem dor para outrem.
Contudo, nota-se também que a dor, o egoísmo que guia essas novas formas de “não-vida” pode se apresentar no inconsciente de todo ser humano plenamente vivo, tanto por atos insanos como meramente egoístas, mostrando que o pavor e as tragédias também existem (e, por vezes, primordialmente existem) por conta da própria ação do homem.
A coletânea de contos traz, nesse sentido, esse incômodo ao coração do leitor, que percebe que por trás de toda dor há, nem que seja ínfima, a participação do próprio homem e que as criaturas sobre as quais se pode jogar a responsabilidade de atos considerados maléficos, por vezes são meras observadoras ou se aproveitam do que a ocasião oferece para se manterem “vivas” nessa nova realidade à qual foram imersas por sua maldição.
A obra, portanto, pode ser lida por qualquer pessoa que esteja disposta a imergir nesse submundo de mistérios incontados, que nos são compartilhados para que possamos refletir também sobre nossos próprios atos. Os segredos, os sussurros das personagens sobre o que presenciaram, vivenciaram na escuridão, essas verdades contadas em Criaturas nos fazem refletir sobre nossos valores no dia a dia, percebendo que no espírito está, por vezes, a saída.


"Criaturas", de Rochett Tavares, o macabro e o horror na literatura no Ceará

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Daniel Iturvides Dutra, mestre em Literatura Comparada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, apresentou, para a revista Estação Literária, a resenha "Criaturas: o horror de Rochette Tavares", em que trata da obra Criaturas, de Rochett Tavares, obra da literatura fantástica, publicada por conta do Prêmio Literário para Autor Cearense da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (na categoria Prêmio Otacílio Azevedo), Edital este que eu tive o privilégio de redigir e defender durante o período em que atuei na Coordenadoria de Políticas de Livros e Acervos da Secult, e que possibilitou, de uma única vez, a publicação de 110 obras, dentre poesias, crônicas, contos, literatura infantojuvenil, quadrinhos, reedições, cordéis, ensaios/críticas literários, ensaios históricos/culturais, álbum de artes, dentre outros. 
Criaturas é um livro com oito contos ambientados no terror, gênero pouquíssimo explorado na literatura brasileira, o que enaltece mais a escolha de Rochett.
Nos diz Daniel, quando paraleliza o autor com autores como Poe, Henry James e Lovecraft, que "a forma como o autor constrói lentamente uma atmosfera macabra em seus contos, apresentando ao leitor um cenário de aparente normalidade que aos poucos vai desconstruindo ao longo da narrativa, é a maior virtude de Criaturas."
Para ler a resenha na íntegra:
http://www.uel.br/pos/letras/EL/vagao/EL11-Res3.pdf

Sobre o autor Rochett Tavares:
Nascido na cidade do Rio de Janeiro (RJ), Rochett Tavares começou a se interessar por aventuras fantásticas aos oito anos de idade, quando conheceu as histórias de Conan, o bárbaro, de Robert E. Howard, por meio de revistas em quadrinhos. Outros heróis tornariam-se, desde então, referências importantes, não só incentivando a leitura, mas também contribuindo para a formação de sua personalidade. Os filmes de terror, como  “Força Sinistra” e “Nas Montanhas da Loucura” também influenciaram Rochett, além das obras de H.P. Lovecraft.
A necessidade de entrar no mercado de trabalho fez com que Rochett Tavares seguisse o caminho da Informática, especializando-se em técnico de processamento de dados na Escola Técnica Itu – RJ.
Em 1993 mudou-se com a família para Fortaleza, Ceará, onde ingressou, em 1985, na faculdade de Filosofia da Universidade Estadual do Ceará (Uece), onde é professor de informática.
O prazer e a necessidade de criar e escrever histórias de horror, entretanto, não o abandonaram: quando teve contato com o RPG (Rolling Playing Game), a inspiração ia muito além do que precisava para compor o histórico dos personagens que interpretava nos jogos que narrava e jogava.
“Criaturas” é a sua primeira obra impressa.
Nesses tempos de discussão de uma literatura fantástica, de horror, sobrenatural, ficção científica, dentre outras, vale a pena estar atento ao trabalho de Rochett.
Para saber mais sobre Rochett Tavares, adquirir seu livro, podemos acessar o seu blog:

http://rochetttavares.blogspot.com.br


VII Concurso Internacional Crônica & Literatura, de Uberlândia, Minas Gerais: Inscrições GRATUITAS até 30 de maio


VII CONCURSO INTERNACIONAL CRÔNICA &LITERATURA:
PRÊMIO LITERÁRIO ADEMAR INÁCIO DA SILVA (ALTERADO EM 16/04/2014)
“Romper as cercas da solidão do ser e, quem sabe, tornar-se alguém...” (Ademar Inácio da Silva)

 O Concurso Crônica & Literatura é um programa cultural idealizado e promovido por Ivone Gomes de Assis, desde 2005. O concurso passou a receber o apoio da Assis Editora por intermédio do programa “Projetos Culturais”, desde 2009. A partir de maio de 2013 a palavra “internacional” foi incorporada ao título do evento, passando, este, a ser nomeado de “Concurso Internacional Crônica & Literatura”.
Inscrições abertas e GRATUITAS até dia 30 de maio de 2014, para textos inéditos (CRÔNICAS OU POESIAS que não foram publicadas em livros, antologias, ensaios, concursos, jornais, nem esteja postado em blog ou site)

Tema: "Solidão"
e-mail para inscrições: projetosculturais@assiseditora.com.br

e-mail para dúvidas: cronicaeliteratura@gmail.com

Endereço para envio dos trabalhos:
“VI CCrInt-Literatura Ademar Inácio da Silva”
DESTINATÁRIO: Assis Editora Ltda. Rua José Antônio Teodoro, 76, bairro Aparecida, Uberlândia - MG   CEP: 38.400-772.

Outras informações e regulamento: http://cronicaeliteratura.blogspot.com




sábado, 10 de maio de 2014

"Quem terminará as tarefas do morto?", homenagem de Pedro Salgueiro a NILTO MACIEL em O POVO

Nilto Maciel em Limoeiro, 2011, durante a I Feira do Livro
(foto: Raymundo Netto)

Quem completará as inadiáveis tarefas do morto? Quem acabará de arrumar sua penúltima mala, na qual só faltava uma camisa engomada, já que a calça de brim jazia bem dobrada ao lado da pasta com o fecho aberto até quase a metade (por onde dali a pouco ele enfiaria o discurso de abertura de um congresso macabro).
Quem terminará de pôr sua derradeira postagem na página que era seu barco, sua âncora, sua tábua de salvação de náufrago sem remissão? Qual dos amigos postará um primeiro e o último comentário póstumo, com a bendita insulina do elogio fácil que tanto azeitava o parco sangue do morto?
Quem de nós, amigos de sempre e os ausentes, aparará pela última vez as unhas tortas do morto; qual deles se sentará desconfortável no sofá puído, sobre a velha toalha com emblema gasto do glorioso “Tricolor de Aço”, que tanta tristeza vinha trazendo ultimamente ao finado?
Quem completará o último romance do corpo magro e putrefato que jaz inocentemente estendido no pequeno corredor entre o banheiro, o quarto de dormir e a sala?
Quem ouvirá de sua boca minúscula que aquele seria seu Ulisses, seu canto de cisne, sua última e mais perigosa jogada: depois da qual não se sustaria pedra sobre pedra do que imprudentemente escreveu antes?
Quem da famigerada corja dos companheiros de copos, de colegas de geração, de novos e velhos parceiros de penas, escutará suas derradeiras idiossincrasias, seus restantes insultos velados, suas últimas indiscrições escritas?
Quais dos ouvidos singelos, limpos e sempre disponíveis, escutarão suas reles blasfêmias de ateu reimoso, seus vãos arrependimentos, suas dolorosas lembranças de infância, por onde desfilarão – irremediavelmente sumidos – seus pais, tios, irmãos, todos mortinhos covardes que o foram deixando sozinho pelos pedregosos caminhos da vida?
Quem dentre os muitos companheiros de vida ecoará pelos ventos suas iras, sonhos, amores, dissabores, langores, sussurros e preces?
Quem raspará a rala barba diária do morto, quem cofiará com seu modo único o velho bigode aparado tão baixo, discretamente escondendo o riso cínico, a impune maledicência, os dentes finos trincados de dor?
Quem dentre os já mortos o vai auxiliar no profundo estudo da geologia dos campos santos? Quais dos Josés, Aírtons, Edinardos, Aldas, Alcides, o ajudarão a aparar as raízes desse imenso “mato baixo” que somos no fundo todos nós que por aqui restamos?
Quem editará seus livros esquecidos, os quase concluídos e – principalmente – os que ainda seriam escritos? Quem os postará nos correios para os tantos admiradores desse Brasil tão grande? Quem receberá, por sua vez, a enorme quantidade de livros que lhe enviarão todos os novíssimos poetas desse país gigante?
Quem vai restaurar os derradeiros filmes, fotos e lembranças de vida para mostrar no moderno projetor, que ele havia acabado de comprar e posto no quarto para presentear as quatro filhas quando elas aqui por ventura aportassem?
***
Não! Não! Senhores! Um morto assim não deveria morrer tão cedo, pois ele ainda tinha diversas coisas a fazer, bastantes (e inadiáveis) tarefas para completar...
E muita, muita vida ainda por viver!

“Demorou dias a agonia de Ascânio Bustamante Coimbra. Vomitava versos, retorcia-se na cama, agitado, febril, voz sumida. E finalmente expirou, translúcido como a evidência, magro, quase ossos, e a pele manchada de letras.”

 (do conto " O translúcido Ascânio", de Nilto Maciel)

sexta-feira, 9 de maio de 2014

"Diário de Licânia", de Audifax Rios para O POVO

Nilto Maciel, por Audifax Rios
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Escrevo sob o sol dos trópicos, ora escondido em carregadas nuvens negras que, geralmente, dão em nada. Latitude, 04; longitude 40: coordenadas que saem do mapa para o coração. Onde o rio Acaraú é um filete de prata sobre o leito verde, tal a escorregadia porção de mercúrio com a qual brincávamos no laboratório de ciências do ginásio. Ou cerveja derramada na mesa de sinuca desaguando na caçapa do mar. Muito verde, pouca safra. Muita esperança, pouca vontade de resolver o problema da seca.
Leio o Cherrizinho de Martine Kunz, biografia do Cláudio Pereira em feitio de oração. Estou surpreso, o texto é lindo, comovente. O Pereira está na área, vivíssimo. Ninguém traduziu e nunca dissecará o Cláudio tão perfeitamente, tão pereiramente. Sem cair na armadilha do panegírico, como ela alertou. No decorrer da epopeia dialoga com o parceiro e vai desfolhando a memória da casa azul de bolinhas brancas, da praia generosa, da Fortalezamada. Suspensa no tempo como a balouçante gaiola de porta aberta, desabitada. Livre como o texto delicioso.
E um que não escreverá mais. Releio o conto “Casa mal-assombrada” de Nilto Maciel, que se foi dias atrás. Mera coincidência, mas ali está um documento premonitório. Adeus, amigo. Ficarei com teus pedaços literários, punhalzinhos enfiados na mula preta; patas de cão e pescoço de girafa; donzelas e guerreiros, cabras e bodes e os varões navegadores de tua Palma, tua Macondo. Vastos abismos da Baturité de Monte-mor a instalar luzeiros do mundo para aclarar as helênicas noites deste itinerário incerto.
A praça do Congresso é um bulício só. Muita alegria, muita gente bonita. Mormente depois que finda, na Matriz, as celebrações em honra a Maria. Hoje, os muitos carros e motocicletas emprestam à bucólica paisagem empáfia de metrópole. E o som dos paredões, um atestado de imbecilidade. Há uma disputa de quem é possuidor do aparelho mais possante e mais valioso. Tem carro de passeio ocupando quase todo o espaço com estridentes alto-falantes. Impedindo a salutar conversa de calçada. A qualidade da música é secundária, não importa, o que conta são os altíssimos decibéis. Quanta ignorância!
No quintal do meu refúgio cresceu uma ateira e, ainda de caule franzino, já pariu quatro frutinhas. A primogênita foi amadurecida no pé e arrancada sem o talo do miolo, de tão mole. Uma delícia. Sim, tem milho, feijão, jerimum e melancia na feira, muito pouco, é certo, mas pra quem não contava com nada... A produção de peixe é, igualmente, diminuta, um cará de palmo custa quinze pratas.
O escritor conterrâneo Clauder Arcanjo nos intima a cuidar de uma edição fac-similada de O Município de Sant’Anna, livro escrito em forma de folhetim no jornal de mesmo nome editado pelo abolicionista José Mendes Pereira e Vasconcelos. Conta a história da terrinha desde os primórdios até o final do século XIX e foi editado em 1926 pelo Correio da Semana de Sobral. Clauder tem projetos de biblioteca e editora por aqui, uma fundação que levará o nome de Licânia que por alguns anos batizou nossa Santana. Em tempo: Licânia é o nome científico de oiticica.
Outro santanense, este do Estreito de José Alcides Pinto, andou por estes pagos, palmilhando caminhos remotos, revendo antigos companheiros. É pioneiro de Brasília e escolheu Caldas Novas para curtir a aposentadoria. Advogado, é também poeta e pertence à Academia de Letras daquela cidade goiana. Voltou turbinado, banhado no Acaraú quase seco e com a mente refrescada pela aragem tangida à dragão do anjo maldito, o dito Alcides Pinto, a bênção!
Pois então, nada mais de novo sob o sol equatorial, só os sons quase imperceptíveis dos cantos santos entoados por quatro gatos pingados que acompanham o andor da Virgem aos lares onde não mais se oferecem licor de mutamba aos músicos da bandinha Padre Araken da Frota. Sem a tuba do Zé Borges e o bombardino do Camarão.

"Direitos Autorais e Livro Digital", curso GRATUITO no Espaço O POVO de Cultura & Arte (10.05)


Direitos Autorais e Livro Digital

Gilberto Mariot, advogado, é especialista em Gestão de Direitos Autorais e das Novas Tecnologias. É editor e professor de Direito Civil, da Propriedade Intelectual e Internacional Privado.
Este curso se propõe a atualizar as informações sobre a legislação sobre os direitos autorais e suas controvérsias diante das novidades do setor editorial proporcionadas pelas novas tecnologias.
Data:10 de maio de 2014, sábado (5 horas/aula)
Horário: Das 8 às 13 horas
Informações:
As inscrições podem ser feitas pelo site
edicoesdemocritorocha.com.br
O número de vagas é limitado.

Entrada franca.

Consulte a programação completa pelo site
http://www.opovo.com.br/espacoopovo/

Realização
Fundação Demócrito Rocha



quinta-feira, 8 de maio de 2014

Narcisismo ontem e hoje: 100 anos do artigo de Freud: "uma introdução ao narcisismo" (9.5)


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Narcisismo ontem e hoje:
100 anos do artigo de Freud: "uma introdução ao narcisismo"
com
Valton de Miranda Leitão

Data: 9 de maio de 2014 (sexta-feira), às 17h30
Local: rua Castro Monte, 1364
(Escola de Psicoterapia Psicanalítica de Fortaleza - Faculdade Farias Brito)

Informações: 8726.0779/3486.9152


sábado, 3 de maio de 2014

"Última entrevista de Nilto Maciel", hoje, dia 3 de maio, às 15h, no programa Autores e Ideias


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(Arte do designer Helton Oliveira sob foto de Raymundo Netto. 
Seleção de texto de Lílian Martins)


HOJE, 3 de maio de 2014, sábado, às 15h, homenagem da Rádio FM Assembleia (96,7 MHz)
NILTO MACIEL
no Programa Autores & Ideias, com a produção e mediação de Lílian Martins
Essa foi a última entrevista do autor para a rádio. Imperdível. Compartilhe e ouça.


"Dois pra Lá; Duas pra Cá...", crônica de aniversário de Raymundo Netto, para Lua e Lia (02.5)


Liana e Luana

Dois de maio de dois mil, quarto duzentos e vinte e dois (eu lia "dois dois dois"), foi quando vi pela primeira vez, de perto, minhas duas filhas, as gêmeas Luana Rachel – uma homenagem à mãe, Ana Rachel – e Liana Rebeca, nascidas de oito meses, ainda miudinhas. Chamá-las de "minhas", soava-me estranho, quando sabia ser na conferência dos brincos o seu reconhecimento: Lua, a que nasceu primeiro, usaria os de ouro; a Lia, os de pérola.
Saímos do hospital logo, e a Rachel, extremamente zelosa, pôs-se a cuidar de tudo: ajeitar o berço, trocar roupinhas (ela pessoalmente havia bordado lençóis, pagãozinhos e outros itens que a sua mãe, a d. Fátima, havia costurado), escovar os fios raros de cabelo, e, juntamente com suas irmãs, cunhados e sobrinhas, paparicava aquelas recém-chegadas dorminhocas, num quarto cor de rosa, cheiroso, à pouca luz e tomado de música de ninar e de muitas expectativas anteriores. Medrando "quebrá-las", passei dias as evitando. Um dia, porém, Rachel, após contínua rotina mal dormida, não atendeu a um chorinho despontado. Atrevi-me assim, a tirar a criança do berço e a fazê-la dormir. Era Liana. Naquela noite, pela primeira vez colocaria uma filha nos braços. Sentei-me na cadeira de balanço e a encostei no meu peito, sentindo no seu, o coração bater forte e ligeiro. Acariciei-lhe a cabeça e assisti-a dormir, bocejando gostoso com um bico rosado, a mão de dedos compridos descansando em mim, numa paz de fazer inveja e amor.
Nos outros dias, levantava-me à noite mais constantemente, já as acolhia com mais segurança, trocava-lhes as fraldas, e, com o tempo, elas foram crescendo, se relacionando com nosso mundo, sorrindo com a boca banguela e, balançando a cabeça desajeitada, subtraindo-nos de nós mesmos, envolvidos numa aura sincera e desinteressada de renúncia, num exercício único de afeto.
Daí, durante um ano não soube o que era dormir uma noite completa. Torcia para que não acordassem juntas, o que acontecia, mas raramente. Então, as acobertava em mantos coloridos (um amarelo e outro rosa), as abraçava (cada cabeça deitada num ombro) e as levava para passear nos jardins do condomínio da Bela Vista, olhando estrelas frias num passo cadenciado pelo quase sussurro de musiquinhas infantis. Geralmente, ao chegar no último bloco, elas se entregavam e dormiam, mas, se isso não acontecesse, eu tinha a certeza de que aquela noite seria comprida. Lembro-me da sensação de admiração que tive quando acordei, pela primeira vez, com o sol brilhante dependurado no céu, fosse essa a coisa mais invulgar do mundo.
Desaforadas, elas cresceram e, hoje, aos 14 anos, não posso carregá-las mais (embora ainda me caibam) nos braços, nem elas dormem com "musiquinhas". Preferem curtir o One Direction, Little Mix, Selena Gomez, Ariana Grande, Demi Lovato... Não suportam "posers"; leem John Green (elas chamam "João Verde"); se riem do "Sismance", vlog de meninas, Alana e Karina, que trocam até mensagens com elas; gostam de História (da "professora má", a Virgínia, e do Alexandre), são loucas de paixão por animais, principalmente pelo rabugento Lupi; e, o mais importante de tudo: escondem, mas têm o sorriso mais feliz de todo um mundo. Parabéns, filhas.