“Há muito acredito que o realismo é fantástico”
(Gay Talese)
Biografar,
em tese, é uma impossibilidade, pois não há vida que caiba em um livro.
Contudo, as biografias são sedutoras e curiosas, ocupando prateleiras do
mercado editorial, enquanto despertam paixões ou ódios. Talvez os dois ao mesmo
tempo. De qualquer forma, ruins são aquelas a despertar a mais inevitável
apatia.
Na
vida, como na arte, não importa o que se faz, mas COMO se faz. Quando falamos
em arte em biografia, nos referimos à forma como se constrói esse texto. Sim, você
pode ter um trabalho de pesquisa profundo, repleto de datas, informações, registros
relevantes e precisos, mas se oferecer esse rico “pacote” em um texto maçante,
por vezes, de insuportável leitura, de nada adiantará todo o seu empenho:
perderá seu leitor.
Daí,
nos últimos meses, participei do curso “A Arte da Biografia”, ministrado por
Lira Neto e promovido pelo Armazém da Cultura de Albanisa Dummar. Tenho
interesse em escrever uma, pelo menos, e o que me atraiu na proposta era a
metodologia da pesquisa e de sua catalogação. Entretanto, o curso não se limita
a isso.
Em
2022, a Companhia das Letras lançou A Arte da Biografia: como escrever
histórias de vida, de Lira Neto, escrita a partir de notas de aula do seu curso
ministrado na Universidade do Porto, em 2021. Embora no curso não seja
obrigatória a aquisição da obra, ela consiste em grande facilitadora para maior
compreensão do seu conteúdo e é um excelente guia de escrita criativa da
narrativa de não ficção.
Essa
abordagem do “criativo” na biografia é um dos pontos mais fortes no curso.
Diferenciar o processo criativo do romance histórico, por exemplo, e da
biografia, ambos baseados em histórias reais, embora ficção e não ficção,
respectivamente, despertou em mim um gosto maior pelo exercício desafiador desse
gênero biográfico.
Virginia
Woolf já advertia que o romancista, por trabalhar com ficção, mesmo utilizando
personagens e fatos reais, tem toda a liberdade de criação, enquanto o biógrafo
é manietado, ou seja, tem as suas “mãos atadas”, é preso ao rigor documental. O
que não se pode afirmar, por meio de registros, fotos e documentação, é
invenção, fantasia. No caso, a imaginação do biógrafo é limitada pelo “real”.
Por
isso, segundo Lira, “o biógrafo deve ter senso de detetive, olhar de
antropólogo e espírito de arqueólogo”. Mas, no momento da escrita, deve fornecer
o seu trabalho de investigação e pesquisa de forma envolvente, “transportando o
leitor à cena”. Assim, o curso se apresenta também como veículo de escrita
criativa, entendendo que o biógrafo precisa ter domínio da técnica narrativa: a
fuga dos lugares comuns (clichês) e de juízos de valor, mais fluidez, clareza, ritmo,
recusa ao maniqueísmo, controle de advérbios, diversificação vocabular, a
escolha dos verbos de ação, manejo estético das descrições – impondo o tempo de
leitura –, o estabelecimento de relação de alteridade com o biografado, o cuidado
de não cair num individualismo exacerbado nem correr o risco de sufocá-lo em
contextos monumentais, construção de cenas de apelo sensorial, além de “uma boa
dose de fascínio pelo universo inerente à pesquisa”, afinal, “ao se biografar
alguém, biografa-se também seu contexto”.
Na
tentativa de “por a mão no ombro transparente de um fantasma” (André Maurois),
os biógrafos ou “retratistas
de almas”, como definia-se Plutarco, um revolucionário do gênero, devem se esforçar
para captar minúcias da vida do biografado, os detalhes que aproximam o leitor do
objeto da pesquisa, das particularidades que o humanizam, denunciando as suas “imperfeições”
e méritos.
No
curso, como no livro, Lira ilustra a teoria com a experiência própria de composição
de sua reconhecida obra, suas aventuras, desventuras e suas “correções
emergenciais de rota”, o que torna cada aula imperdível. O livro em si, já é
uma grande aquisição para candidatos a biógrafos e, pasme, mesmo para
ficcionistas e escritores de forma geral.
No
mais, é “calçar os sapatos do morto”, nem santificar nem demonizar ninguém,
compreendendo as suas contradições, vícios, virtudes e a nossa frágil
humanidade.










