domingo, 21 de setembro de 2025

“O Riso Feito Faca: algumas considerações sobre ‘Coisas Engraçadas de não se Rir’, de Raymundo Netto, por Carlos Carvalho


Para ver de perto, clique na imagem

Atores e atrizes costumam dizer que é muito mais fácil fazer chorar do que rir. Eles estão certos, pois fazer rir é uma arte que exige de todos aqueles que a exercem uma maestria que beira um dom, uma dádiva.

No campo da literatura, o riso costuma exigir muito mais dos autores do que as construções semânticas que podem causar no leitor sensações de dor, nojo, indignação e cortes na carne de fazer espirrar sangue. E é esse tipo de riso que observamos nos contos “tortos” de Raymundo Netto, em seu Coisas engraçadas de não se rir (2024) que, feito faca, “cortam a carne” de leitoras e leitores, tirando-os de suas zonas de conforto e jogando-lhes na cara situações engraçadas de rir, mas também de não se rir.

Coisas engraçadas de não se rir foi publicado no ano de 2024, com revisão de Mayara Freitas, projeto gráfico de Dhara Sena, Raymundo Netto e Welton Travassos, com ilustrações de Guabiras e design de Welton Travassos.  

O livro é constituído de 43 contos, sendo alguns mais breves que outros, mas que seguem de muito próximo aquilo que nos diz Edgar Allan Poe (1809 - 1849) em seu ensaio Filosofia da composição, de 1846, ou seja, observam as questões relativas ao tamanho, unidade de efeito e método lógico. É claro que os escritores não têm a obrigação de saber ou seguir tais direcionamentos, mas escrever da melhor maneira que conseguir, colocando no papel ou na tela aquilo que desejam, pois, como muito bem nos diz Sérgio Sant’Anna (2021:157): “o conto não existe”. Assim, não deve ser preocupação do contista dizer “o conto é isso”, “o conto é aquilo”.

Mick Jagger, acrescenta Sant’Anna, não fala sobre as coisas: ele é a própria coisa acontecendo. E assim, mais importante que qualquer teorização, é fazer literatura que esteja sempre na vanguarda e em conexão com a realidade que insiste em esmagar o ser humano. No entanto, ainda conforme Sant’Anna (2021:160), não adianta fazer arte de vanguarda se tiranizo as pessoas ao meu redor e colaboro com o fascismo. Fazer literatura também é sobre isso.

Raymundo Netto é sabedor dos caminhos que atravessam a cultura, a arte e a literatura. É um escritor consciente das mudanças e dos impactos que um bom texto pode causar. Logo, ao trançar suas narrativas com o fio do riso, Netto o faz com a semelhante habilidade com a qual Dalton Trevisan costurava seus contos com o fio da dor, da faca no coração. Assim, ao mergulhar nas histórias que compõem o livro de contos em questão, percebe-se nitidamente o domínio da narrativa curta que o autor de Os Acangapebas adquiriu ao longo do tempo.

Percebe-se, a partir de Coisas engraçadas de não se rir, um salto qualitativo na sua escrita, que o coloca entre os melhores autores cearenses contemporâneos. Por ser cronista (leiam do autor o livro Crônicas Absurdas de Segunda), Raymundo Netto traz para o seu conto as minúcias que os olhos treinados do cronista e do jornalista (o autor também é jornalista) conseguem capturar de maneira leve, objetiva e sutil, fazendo com que suas histórias pareçam aquelas conversas que ainda se dão a bordo de cadeiras na calçada.  

E é usando de sua habilidade enquanto escritor, que Raymundo Netto recorre ao riso como o élan necessário para costurar as narrativas do seu mais recente trabalho. Dessa forma, em Coisas engraçadas de não se rir, o riso se apresenta como forma de subversão e corta tal qual a faca só lâmina de João Cabral de Melo Neto, ou como na releitura de A palo seco, de Belchior, quando diz: “e eu quero é que esse canto torto/feito faca corte a carne de vocês”.

A subversão é, conforme o dicionário Aurélio (2010), o ato ou o efeito de subverter (-se). É ainda a insubordinação às leis ou às autoridades constituídas. É a revolta contra elas. É a destruição, a transformação da ordem política, social e econômica estabelecida. É uma revolução. Assim sendo, o verbo subverter abriga o sentido de voltar de baixo para cima; revolver, agitar e, entre outros, revolucionar. E é também pra isso que serve a literatura.

No conto de Raymundo Netto, essa subversão se dá aos olhos do leitor quando o autor se utiliza do cômico e do riso, unindo tudo aquilo a que se propõe na construção dos contos que compõem o livro. Assim sendo, é preciso lembrar que conforme Henri Bergson (1859 - 1941), em seu livro O Riso: Ensaio sobre a significação da comicidade, de 1899, que apenas o humano é cômico. Uma paisagem, afirma ele, poderá ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia; mas nunca será risível. Bergson lembra que é bastante comum ouvirmos a expressão “o homem é o único animal que sabe rir”. Para ele, essa expressão ficaria mais completa se a ela fosse acrescido outra que diz “um animal que faz rir”. E assim teríamos: O homem é o único animal que ri e que faz rir.

Ainda conforme Bergson, o riso é sempre “o riso de um grupo” e “tem uma função social”. Mas afinal, o que devemos compreender pela palavra “riso”? O riso consiste no ato ou efeito de rir. Também pode ser compreendido como alegria, satisfação ou coisa ridícula. Rir também significa zombar ou ridicularizar. Destarte, o riso é por natureza, subversivo, ou seja, é algo capaz de transformar ou destruir o que está posto, estabelecido.

Por muito tempo na história da humanidade, o riso foi considerado pecado, coisa do diabo. Isso ocorria, certamente, pela capacidade que tem o riso de ridicularizar; subvertendo valores estabelecidos e tidos como imutáveis. Assim sendo, o riso foi por muito tempo considerado não apenas um pecado mortal, mas imoral e destruidor do Estado e da fé, por exemplo. Dessa forma, o riso foi censurado, sendo punidos com a morte todos aqueles que ousassem desafiar a Inquisição.

Lembremos, por exemplo, das passagens nas quais os monges copistas são assassinados no livro O nome da rosa (1980), de Umberto Eco por, teoricamente estarem rindo a partir da leitura que faziam do livro A comédia, supostamente o segundo livro da Poética, escrito por Aristóteles.  Em tempos outros, sob sistemas autoritários, o riso continuou a ser perseguido e criminalizado. Muitos artistas, no entanto, utilizaram sua arte para fazer frente aos desmandos das elites políticas, ao arcaísmo da sociedade, bem como ao Estado e seus aparelhos ideológicos constituídos. Assim sendo, é possível afirmar que o autor de Coisas engraçadas de não se rir se utiliza do riso como forma de subverter determinados valores socioculturais observáveis no espaço e no tempo da produção dos seus contos. O riso, tal como está dito no livro de Umberto Eco, mata o temor.

E é por essa razão, entre inúmeras outras, que Coisas engraçadas de não se rir, de Raymundo Netto, mostra-se em consonância com seu tempo por seu caráter universal, contestatório e atemporal, e assim o será enquanto houver alguém que, mesmo pelos cantos da boca, insista em rir do que quer que seja.

 

Carlos Carvalho

Doutor em Linguística Aplicada,  

professor na Universidade Estadual do Ceará (Uece)

e cronista nas horas vagas.


 

"Coisas Engraçadas de Não Se Rir", por Bruno Paulino


Comecei a ler Coisas Engraçadas de Não Se Rir, novo livro do grande cronista Raymundo Netto — para tentar descansar um pouco a cabeça da correria louca dos últimos dias.

O livro reúne várias histórias curtas, crônicas bem leves, algumas líricas e outras cômicas. Estou deliciando-me com seu estilo bem simples — mas exaustivamente laborado, pois preciso, enxuto. Adoro a sutileza, o fino da ironia, e a aparente “despretensão” com que Raymundo Netto escreve e brinca com as palavras.

Dei muita risada com a crônica "Literatura Cearense versus Brad Pitt".
Raymundo Netto tem olhos abertos para o mais trivial do cotidiano — o absurdo e o rotineiro que ninguém enxerga ele consegue ver e transformar numa sátira bem acabada, — coisa de poeta.

Escrito com “a pena da galhofa” e um tantinho das tintas da “melancolia” e do melodrama, acho que o livro, por fim, diverte a todos.

Lembrei de Nietzsche, quando no seu Ecce Homo, assertivamente recomendou: “Ridendo dicere severum”.

Sou fã de carteirinha do cronista Raymundo Netto.

 

Bruno Paulino

Poeta, cronista, contista, cordelista, pesquisador e professor.



 

"A Diferença entre o Caramujo e o Caracol na Trilha Humana" (sobre o e-book de Marília Lovatel), de Raymundo Netto


“Um livro sobre muros que encarceram letras, sobre uma parede que separa o passado do futuro.”

 

O Despojo do Caramujo: breve romance de despedida, de Marília Lovatel, como não poderia deixar de ser, é um livro sensível e reflexivo. A voz empregada pela autora se assemelha à poética de Salvaterra: breve romance de coragem, e, como a primeira, prende o(a) leitor(a) ao descortinar a narrativa lentamente, em breves capítulos, às vezes com máximas, pistas que surgem como pausas para tomar fôlego, e descobrirmos as personagens – quatro muito bem construídas e que emocionam por sua humanidade e atualidade – e as suas dores, numa técnica que, me parece, a autora desenvolveu e se encontrou, não à toa ter sido com ela que foi a ganhadora do Prêmio Barco a Vapor, um dos maiores do país.

Marília é portadora de um currículo literário bem-sucedido e invejável, razão pela qual não me espantaria ser ela a ganhadora do Prêmio Kindle de Literatura 2025, com o qual concorre com o seu O Despojo do Caramujo. Deveria.

A concha pode até estar vazia, mas o livro, seu primeiro e-book publicado pela Kindle na plataforma da Amazon, é absolutamente CHEIO.

Recomendo demais a sua leitura.

Leia você também, acessando e deixando a sua avaliação em:

https://www.amazon.com.br/despojo-caramujo-breve-romance-despedida-ebook/dp/B0FPJJSGPQ/ref=sr_1_291?dib=eyJ2IjoiMSJ9.6wmvCEyOCfw-wHvKpf26lREQn79XnBPD-4IsnNJActKzVVx_WrFPkPaygf0lhmCQfyxiLVp5v0kXPoaGYwRMDQ.HpnYlfCPuDZyX0FDEAJRyyyRXzOTlAa0sz18_vSrF1k&dib_tag=se&qid=1757418895&refinements=p_n_publication_date%3A5560469011&rnid=5560468011&s=digital-text&sr=1-291&xpid=MV0djkF-f-Aof

 


 

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

"O Popular Luis Fernando Verissimo", de Raymundo Netto para O POVO


Foto: Sylvio Sirangelo


O leitor ou a leitora de Luis Fernando Verissimo quando assiste a suas entrevistas, não importa o período, nunca o encontra.

Há sempre ali um “outro” homem com o olhar quase alheio e a fala tão plácida a dar a entender um certo desinteresse em esticar a conversa. Ao contrário do outro, as respostas, histórias e descrições se repetem muito frequentemente, sem momentos de arrebatamento, de movimentos ligeiros de mãos e braços, nenhuma súbita gargalhada, nem piadas, nada que evidencie o Verissimo do papel, aquele que por mais de 50 anos chegou à casa de brasileiros, seja pelos seus escritos, cartuns/quadrinhos ou adaptações para programas de TV ou cinema, divertindo, encantando e despertando reflexões sobre as coisas das mais desimportantes às mais existenciais.

Diante dessa minha “incomodação”, esse mistério que nem o irrequieto detetive Ed Mort poderia resolver, voltei à crônica “O Popular”, aquela que intitula o seu primeiro livro – com o curioso subtítulo “crônicas ou coisa parecida” –, publicado na década de 1970.

Verissimo nos conta dessa pessoa que tem “uma fatal curiosidade pelo detalhe supérfluo, um fascínio irresistível pelo insignificante”, aquela cujo “habitat natural é à margem dos acontecimentos”. Assim o descreve: “um sujeito com as mãos nos bolsos e um embrulho embaixo do braço”.

Não importa o que esteja acontecendo no mundo, esse tal sujeito pode ir, por exemplo, comprar alguma coisa no armazém e na volta parar e dar uma espiadinha num território de guerra, assalto ao banco ou numa liquidação em loja de artigos femininos. E não, não há perigo algum para ele, pois jamais será vítima de nada, como também nunca será ele o entrevistado. Os transeuntes, os passantes, esses sim, mas o Popular jamais!

Penso que o cronista é esse Popular, um fino e inviolável observador das coisas e das gentes. Mas essa percepção em si, por mais aguçada e minuciosa que seja, não nos impactaria se não fosse registrada em papel. Um fato que se deu para Verissimo aos 33 anos, por obrigação, pela necessidade pecuniária de sobrevivência da família – estava casado com a dedicada e gentil Lúcia Helena, sua guardiã, e tinha uma primeira filha, hoje, além de jornalista, roteirista e tradutora, também escritora: Fernanda Verissimo.

Nos anos seguintes ao “O Popular”, ocupando espaços em grandes periódicos do país, além de mais dois filhos – Mariana e Pedro –, acumulou uma produção extraordinária, como poucos, atingindo em cheio os seus leitores, e por eles sendo reconhecido pela brilhante agudeza, ironia e diversidade de seu humor e pela revelação de nossa risível sociedade (des)humana, promovendo e consolidando a grandeza do gênero crônica, um dos mais democráticos – cabe tudo nele – e o mais brasileiro de todos.

Porém, a vida, conforme o cronista, é apenas “um breve hiato de perplexidade entre dois vazios.” A morte, essa “titica”, é uma das únicas certezas da vida. Outra delas, assim penso eu, é a nossa incapacidade de aceitá-la plenamente.

Numa noite verissimas dessas, uma de suas “cobras” – a combinação do seu gosto por quadrinhos com suas limitações como desenhista, dizia – pergunta: “Será que há vida após a morte?

A segunda cobra responde: “Parece que sim, mas tem que ter pistolão!”

E, afinal, meu querido Verissimo, vai nos deixar sem saber o que o Popular traz nesse embrulho?

 





 

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

"A 'Subsequência' de Weaver Lima", por Raymundo Netto para O POVO


“A linguagem das Histórias em Quadrinhos trabalha com o tempo”. Com essa frase, o artista multimídia e arte educador Weaver Lima, curador da mostra “Subsequência”, com sede na Caixa Cultural, inicia e conclui a sua apresentação curatorial.  Projetou-me à mente a figura misteriosa de Ouroboros, a serpente – ou dragão – que tenta comer a sua própria cauda. Essa simbologia de origem incerta, encontrada em culturas e tradições, carrega diversos significados, entre eles, a natureza cíclica da existência, as interconexões, mas também a renovação e a transformação de tudo e de todas as coisas.

O título da mostra é intrigante. Subsequência é uma palavra encontrada na matemática e refere-se a “uma nova sequência formada pela seleção de alguns elementos da sequência original, mantendo a ordem inicial desses elementos”. Nas artes visuais, subsequência pode se referir a uma sequência de imagens que se desenvolvem ao longo do tempo. A palavra em si, vai além, naquilo que vem depois, como a consequência da sequência, algo que a sucede. Nos quadrinhos, por exemplo, seria algo que os transcendem, que rompem as suas “fronteiras” ou limites. Aliás, é preciso lembrar que, por definição, o gênero híbrido Histórias em Quadrinhos é uma sequência de imagens e/ou palavras utilizadas para, grosso modo, contar uma história. Esses elementos estão em sequência para que essa narrativa visual possa ser lida. Daí a denominação de “arte sequencial” aos quadrinhos. Contudo, conhecendo o espírito inconformista e iconoclasta do Weaver, imaginei que não encontraria ali nada parecido com Disney, Maurício e muito menos mangás. Estava certo: nada ali se prendia aos que vimos cotidianamente em revistarias. Os homenageados da mostra eram aqueles que abriam a trilha expográfica do Weaver: Marcus Francisco (falecido em 1980), autor do “TIPO blocomagazine” (ali, alguns originais inéditos e impressionantes da década de 1970), e o escultor, ilustrador, artista plástico, muralista, multipremiado e octogenário Hélio Rola, autor de quadrinhos non sense em “Rock’ndRolla and Leviana” (dele, algumas obras em quadrinhos em uma perspectiva bastante singular, sendo a maioria sem título). Ao todo, nove artistas cearenses de distintas gerações, técnicas e estilos, cuja produção transita entre artes visuais e quadrinhos: Felipe Kehdi (mestre em Ilustração e Quadrinhos pela Elisava, em Barcelona, Espanha, com duas animações, uma na parede e a outra no piso, proporcionando uma experiência de grande ludicidade e comunicação, além de leituras múltiplas), Camila Sombra (“Roupa Suja” (óleo e acrílica sobre tela) é incrível, assim como a arte ilustrada na cama e em travesseiros de sua instalação), Juliana Siebra (que abrigou um espaço com um colchão, encimado pela frase em neón: “Preciso de Mais tempo”, e ladeado por dezenas de ampulhetas, uma mesa com carimbos de estrelas, um sketchbook com desenhos da artista, uma linda HQ em P&B, “Sala de Comando”, na prateleira e diversas folhas em pergaminho que caíam do teto – como se o céu desabasse sobre ela, a personagem – com 10.958 estrelas desenhadas, uma por cada dia de sua existência), as gêmeas “Uinverso” (uma telha de vidro ou acrílico na qual eram projetadas imagens com cores e texturas diferentes, conferindo um certo movimento à peça), Érica R. (peças em bordado e crochê – e um “espelho invertido”), Luci Sacoleira (belíssimas capas pintadas da “Revista Caderno”, uma para cada mês do ano, e ilustrações que tomavam as colunas do salão) e Marissa Noana (uma representação dos povos originários, com grande sensibilidade).

Para mim, ficou claro que uma das propostas dessa excelente exposição era justamente revelar que existem outras formas experimentalistas ou não de se contar histórias graficamente. Que é preciso fazer uso da criatividade para a geração de novas possibilidades para essa linguagem, rompendo tabus estilísticos e formais, padrões convencionais da indústria do consumo de massa, muitas vezes focadas apenas no entretenimento puro e besta, mas que não despertam a reflexão ou a crítica e não têm compromisso com a evolução dessa arte. A “leitura” que pudemos fazer nesses quadrinhos pintados, pendurados ou projetados nas paredes, no piso, nas instalações é impactante, provando que devemos explorar mais esses espaços de novas “leituras”, ampliando o nosso repertório criativo e, segundo Fábio Zimbres, “preservando a surpresa da criação”.

Só lamento não ter escrito isso antes da exposição findar...






 

domingo, 10 de agosto de 2025

"Pais", de Raymundo Netto


Hoje é um dia comum como todos que nos amanhecem e nos convidam a viver, sendo o resto, o que vamos fazer com esse dia, absolutamente por nossa conta.

Um sistema consumidor nos diz ser o Dia dos Pais, mas não existe esse dia, porque todos os dias são dias dos pais, de ser pai, de ser filho ou filha de um pai. E esse pai nem precisa estar mais por aqui, nem precisa ser biologicamente o seu, você nem precisa conhecê-lo, também como não é exigido de você que o ame, independentemente da situação de ânimo que existe ou simplesmente pareça não existir entre vocês.

A vida é breve. Certeza única. E tenho a nítida e muito próxima impressão que perdemos tempo demais e que amamos sempre de menos. Dessa vida aproveitamos bem pouco, enquanto tentamos nos distrair para não perceber que temos que fazer alguma coisa que, por algum motivo, nos parece ser difícil demais de encarar, de dizer, de fazer.

O que nos resta são alguns momentos, felizes ou não, mas que podem ser únicos, mesmo quando aparentemente acontecem todos os dias, como ares de ternura, embora monotônicos, o que os tornam especiais.

Às vezes, sem eles, a vida perde o sentido, e voltamos à mesma estrada simplesmente porque nos parece ser o caminho mais seguro a seguir e nós sempre preferimos não arriscar muito. Temos medo do que essa “outra vida” pode nos proporcionar... e somos tristes.

O amor de pais não tem cara de outdoor nem aparece em telas. Existe particularmente no mais profundo de seu coração, e você que é pai não sabe explicar de onde veio, mas se surpreende sempre quando lhe toma os olhos em lágrimas e aperta-lhe o peito de emoções antes não conhecidas.

As filhas e os filhos são presentes que nos tiram de uma outra estrada e nos apresentam novos horizontes, nos tiram de nós mesmos, do nosso conforto, dessa mania de não ser ou viver o outro. Ser pai nos ensina todos os dias – ou deveria nos ensinar – a pensar fora da nossa caixa, a criar empatia, a nos desdobrar para amar a vida que existe lá fora... mas isso não acontece sempre, nem com todos, pois é poderoso demais.  

Para você, pai, um dia a refletir, recordar, para abraçar, beijar e deixar o amor fluir e ser amado. E que todos os seus dias possam ser também assim: de Pais e Paz.


 

terça-feira, 1 de julho de 2025

"Em Nome do Pai", de Raymundo Netto para O POVO


Meu pai, José Pedro, o "Deca"
(1939-2018)

Não há quem negue a importância do nome, esta designação oficial de nossa existência dita cuja, seja ela a mais vã impossível, atribuída seja por quem for, a nos acompanhar pela vida à morte, falando de nós ou por nós como uma marca, às vezes como uma chaga.

Um nome bem escolhido nos coloca à frente, principalmente quando inicial “a”, ou, ao contrário, nos diminui, quando feio, cacofônico, antiquado, com sentido dúbio ou estranho, fruto do engenho experimentalista dos pais.

Há tantos nomes bonitos, fortes, significantes — em alguns países asiáticos realizam-se cerimônias dirigidas por sábios que “adivinham” a função de mundo daquele ser e a coloca em seu nome — mas na hora da escolha de um nome, os pais ou os enxeridos de plantão, os “pitaqueiros”, esquecem de atentar para a criaturinha que o levará às costas, às vezes, suportando o ridículo de uma predileção momentânea.

Meu nome é Raymundo Netto. Nasci numa noite de São Pedro. Fogos estrepitavam nos céus e minha mãe não duvidava que me nomearia “Pedro”, assim como meu pai, José Pedro, que nascera à mesma data. Entretanto, papai dizia-lhe “Não. Ele terá o nome de meu pai: Raymundo!” Chegava à minha mãe o tom grave do nome. Insistiu na tese “José Pedro Júnior”, afinal, era tão raro um filho, e logo o primeiro homem, nascer no mesmo dia de um pai... Mas este não vacilava: “Será Raymundo!”.

Minha vó Alice, a mãe de meu pai, tentava: “Pedro Raymundo?”, porém, entendia a minha mãe: “Deus me livre, me parece nome de sanfoneiro...”. Com a determinação insistente de meu pai, ela, desconsolada, pensou: “Pelo menos será Raymundo Netto, e poderei chamá-lo por Netto”.

Certo assim ficou e nos ecos mais longevos de minha vida, nem lembrava por um dia daquele Raymundo que parecia não ser eu. Cresci sem precisar dele, não tendo por ele nenhuma afinidade, sem encontrá-lo, apenas oficialmente, quase como um segredo de família ou uma doença autoimune.

Até as professorinhas, nas reveladoras chamadas de classe, o preteriam. As garotas da velha ponte que ainda não caiu, quando não saciadas após o “Netto” apresentado, insistiam: “Netto de quê?”. “Raymundo...”, e elas prosseguiam: “Pois então, Netto...”

É, o pobre do Raymundo não emplacava mesmo. Um azarão, condenado a esconder-se sob uma máscara de ferro nas masmorras cartoriais. Não fosse encargo de capa de livro, há vinte anos, inda estaria por lá.

De assim, sempre na mesa larga de família, em volta do casal paterno, vez ou outra, numa espécie de efeméride infantil, tornava-se assunto: “Como vocês tiveram coragem de, olhando para aquele ser indefeso, careca e banguela, gritar-lhe à cara: Raymundo?”. Era graça, mas mamãe baixava os olhos e denunciava: “Foi o seu pai...”. Este calado, não fosse com ele. Estranhamente, aqui constato: nunca me chamou por toda a vida pelo primeiro nome. Nunca!

Há anos, numa dessas mesas domingueiras, recorri como sempre, em momento de silêncio, ao assunto que até me parecia engraçado. Mas, pela primeira vez, meu pai levantou-se, ainda calado, dirigiu-se à porta da cozinha e, de lá, voltou-se de banda e afirmou: “Se você quiser mudar o seu nome, pode mudar, mas eu escolhi para você o melhor de todos os nomes: o do meu pai!”





 

terça-feira, 17 de junho de 2025

"Praia de Iracema: uma vitória para quem?", de Raymundo Netto para O POVO

 



Comissão de intelectuais à frente da campanha da "Praia de Iracema"

Comecemos essa boa prosa durante o nosso habitual café da manhã esclarecendo uma dúvida que percebo nebular em alguns: “a Praia de Iracema tem apenas 100 anos?”

Claro que não! Durante toda a existência terrena, sabe-se lá Deus quando minou, diante de tantos acidentes geomorfológicos, esse marzinho em nossa costa desposada do sol. O que está sendo celebrado como centenário em 2025, na verdade, é apenas a mudança da denominação antiga da região, “Praia do Peixe”, para uma nova, “Praia de Iracema”.

E, de fato e por lei, essa mudança aconteceu no dia 7 de maio de 1925.

Atentemos que, até o início da década de 20, não se brigava para morar diante do mar. Ao contrário, quem morasse ali, construía as suas casas de costas para a incômoda e zoadenta seleção de ondas e coleção de areias.

Os pescadores, sim, por uma questão muito lógica e prática, residiam por ali, em casas humildes feitas de taipa ou mesmo em palhoças. Na praia, esses nativos guardavam as suas jangadas e instrumentos de pesca. Naquela região, eram procurados por comerciantes de feira ou mesmo por pregoeiros individuais que compravam o fruto de seu trabalho. Ali mesmo os pescadores, quando preciso, tratavam essa pesca. Isso, naturalmente, liberava um odor não muito agradável para os novos veranistas da elite cafuçu cearense.

Daí, chegou-se a um tempo em que aumentou o número de casas e bangalôs na região litoral. Ter um imóvel de veraneio na praia passou a ser chique e saudável. Foi quando começaram a achar ruim morar na Praia do Peixe.

O Nordeste: vespertino de ação e informação católica, um dos jornais mais conservadores e atrasados do estado, afirmou: “[...] afinal, hão de todos convir que é de fato grotesco apelidar-se, assim tão feiamente, uma das nossas formosas praias, habitadas pelo escol social fortalezense, na época mais agradável do ano. [...] Aquela estação balnear, com os seus confortáveis chalés de estilo moderno, requer, por certo, outra denominação menos repulsiva.”

Não era novidade: rico se incomoda com o pobre, não gosta de tê-lo como vizinho – nem de vê-lo prosperar –, por isso surgiram os bairros de Jacarecanga, Aldeota e agora a Praia de Iracema.

Maria Adília Albuquerque de Moraes, uma das pioneiras feministas do Ceará, intelectual e residente no local, na revista Ceará Ilustrado, de Demócrito Rocha e Tancredo Morais (seu marido), também não gostava daquele nome e passou a chamá-lo em seus textos, por conta própria, de Praia de Iracema, como em uma sutil campanha... e pegou! Outros moradores se reuniram e pressionaram o prefeito da época. Como argumento, a comemoração dos 60 anos de publicação da obra-prima de José de Alencar, uma homenagem e tanto.

Naturalmente, com a chegada desses novos elegantes moradores, os pescadores desapareceriam, aos poucos, do cenário da ora bucólica Praia de Iracema.

Fato: historicamente, não apenas em Fortaleza, as comunidades pobres litorâneas, especialmente as pesqueiras, são ameaçadas por truculentas e covardes remoções, vítimas da especulação imobiliária, mas ainda assim resistem na luta por seus direitos territoriais, pela preservação de seus modos de vida e costumes tradicionais e contra o racismo ambiental.

As ditas “elites”, mancomunadas a governos não alinhados à justiça social, pressionam, em nome de “seu progresso”, a essas comunidades. Oxalá que nós todos estejamos atentos a essas “tenebrosas transações” e tomemos o devido partido, quando for necessário, pois a vida de cada um nos importa!


domingo, 1 de junho de 2025

"O Explorador de Sepulturas", de Raymundo Netto para O POVO


Francisco José Jr., capturando o último exemplar em estoque de 
Fortaleza Belle Époque, de Tião Ponte

Quem andar pela Padaria Romana ou curtir shows de bandas vintage, corre o risco mortal de se encontrar com ele: Francisco José Jr., um homem reservado – a ponto de parecer não estar ali –, de óculos, com extensa calva e usando camisas do Rock’E’rrou... Decerto é o solteirão mais cobiçado... pelas caveiras! Sim, na cidade se comenta a boca miúda que é ele o maior explorador de cemitérios do Ceará, quiçá, da Terra das Palmeiras, e, sem dúvida, da Terra dos Pés Juntos, domínio sombrio que a ele fascina e desafia.

Há anos, o sociólogo, bacharel do Direito e servidor público traz no peito a missão de peregrinar pelos umbrais do Cemitério S. João Batista, a estação que une a vida e a morte, onde os espíritos se despem de sua inútil carcaça humana em busca do significado da existência, da finitude de tudo e do nada... Entre os cadáveres de sua predileção, os da Padaria Espiritual, que não descansam em paz desde de seu chafurdo rotineiro, ainda mais depois da ereção do novo Café Java da Marlene Matos.

Franzé encontra esses despojos mortais, muitas vezes, pobres diabos entregues à própria morte, em jazigos descuidados, depredados e deserdados, órfãos das famílias. Emociona-se e, sensível como é, palestra com todos, e consegue vez ou outra um “mecenas” que encampa a causa e os reforma, como aconteceu com o túmulo de Antônio Sales e de Waldemiro Cavalcanti.

O arqueólogo da necrópole já dessepultou 14 que estavam desaparecidos. Mas não se limita a isso. É um obstinado. Em sua cruzada particular, sai à procura dos familiares, seja em qualquer parte do país e no entorno do Planeta. Destrincha redes sociais, liga, manda cartas e flores, mensagens em garrafas, sinais de fumaça, e-mails, sobras intelectuais. Alguns familiares abordados negam parentesco, correm horrorizados com coroas de alhos e cruzes a ver fantasmas, enquanto outros se rendem a ele, buscam saber mais sobre aquele ilustre antepassado desconhecido e, pior, intelectual, que, até então, deixara como única herança o seu código genético caboclo.

Contudo, Franzé também não tem paz. “O próprio viver é morrer”, lembra-se do Pessoa. É cutucado por forças ocultas, provocado por elas. Os espíritos, como encostos, o utilizam como canal para voltar, serem lembrados neste mundo e até publicar livros, como aconteceu com Sabino Batista.

Um dia, contou-me, encontrou o jazigo de Lopes Filho, membro da Padaria, autor de Phantos, obra simbolista publicada meses antes da obra de Cruz e Souza, marco do Simbolismo brasileiro. Contudo, com a mente nublada de horrores de outro mundo, o pesquisador esqueceu completamente de sua localização. Porém, quando seus olhos anoiteceram, “Ora (direis) ouvir estrelas!”, Lopes Filho apareceu para ele, embriagado, com flor à lapela, à mão uma “branquinha”. Franzé ouviu, paciente, o detalhado e trôpego percurso descrito pelo poeta. Na manhã seguinte, cumpriu a orientação e encontrou a tal sepultura.

Também conta que noutra noite a sua EXposa estava com a coletânea de “O Pão” – informativo da Padaria Espiritual – às mãos, e pôs-se a ler um texto em homenagem ao confrade Xavier de Castro, recentemente morto. Naquele momento, como se proferisse uma liturgia macabra, as juntas dos mosaicos do chão estalaram e, um a um, em torno da leitora, começaram a partir, como se o chão fosse abrir e dele emergisse escorpiões, gafanhotos ou algo mais sobrenatural.

Agora, Francisco José me diz estar às voltas com o Espiritismo... Quer mais? Sim, conhecer os mistérios do além-túmulo, pois do aquém, confessa: “Já estou é enjoado!”




 




 

domingo, 18 de maio de 2025

"À Procura do Café Java", na íntegra, de Raymundo Netto para O POVO


Café Java em 1908


Café Java em 2025


O Café Java, o original, foi fundado em 1886, num canto da praça do Ferreira, quase em frente ao atual prédio da Caixa Econômica, pelo popular Manuel Pereira dos Santos, o “Mané Coco”, marmorista, bombeiro voluntário e um dos personagens da historiografia do cinema no estado.

Com influência francesa, sua estrutura em madeira seguia a estética art noveau, com uso de lambrequins – elementos ornamentais recortados em madeira para adornar os beirais para baixo e para cima –, convergindo na cumeeira – era um telhado de duas águas –, e guardando a parte de cima da sua fachada, de ponta a ponta, uma grade de taliscas também de madeira.

Era nele que se reunia, anualmente, no 1º de abril, a “tropa” responsável pela organização da “maior festa popular da Fortaleza antiga”: o Festival da Potoca, ou, melhor dizendo, da mentira! Também ali, se encontravam os apreciadores da aguardente do Cumbe, trazida pelo Mané Coco de sua terra, o Aracati.

Os seus clientes passavam pelo imenso “Cajueiro da Mentira” e colhiam de seus galhos mais caídos os suculentos cajus para degustar com a boa pinga, enquanto outros bebiam o cafezinho simples, coado na hora, jogavam dominó e/ou esbanjavam seus sonhos, ideias e escritos. Entre eles, Ulisses Bezerra (27) e Sabino Batista (24) sugeriram a um jovem amigo poeta, o irreverente Antônio Sales (24), a criação de um grêmio literário. Ora, o Sales não curtiu. Disse: “Só se fosse uma coisa nova, original e mesmo um tanto escandalosa, que sacudisse o nosso meio e tivesse repercussão lá fora.” Ele não gostava de formalidades, retóricas, discursos e academias. Mas, provocado, criou o título e elaborou o seu “Programa de Instalação”, uma espécie de Estatuto, menos oficial e mais debochado.

Assim, em 30 de maio de 1892, em um imóvel alugado na rua Formosa, 105, fundaram a mais original agremiação artístico-literária do Ceará: a Padaria Espiritual (1892-1898).

Depois do disputado evento, todos se dirigiram para tomar um cafezinho no Café Tristão, do qual nunca ouvi falar.

Na verdade, nas Atas da Padaria Espiritual, não encontramos registro de nenhuma “fornada” (sessão) dos “padeiros” (gremistas) que tenha acontecido no Café Java, embora, ainda em 1892, após terminada uma delas, se dirigiram a ele. Então, não é correto dizer que algumas fornadas foram realizadas por lá.

Também sabemos que, quando da distribuição de seu informativo “O Pão”, os padeiros se abancavam no Java como ponto estratégico de encontro e venda aos seus leitores.

Em 1920, porém, o prefeito mandou derrubar, vítimas do “progresso”, os quatro quiosques existentes nos quatro cantos da praça do Ferreira, verdadeiras vítimas do “progresso”. No entanto, o Mané Coco já havia vendido o Java há mais de duas décadas e abriria um outro Café, o Central, novo ponto de encontro dos últimos padeiros.

Quando houve o anúncio, pela Academia Cearense de Letras, de um “outro Café Java”, também no Centro, mas em local diferente do original, acompanhei.

Estranhei tratar-se de uma “réplica”, o que visivelmente não é, pois é totalmente diverso, não só no material da estrutura, que é de ferro, como em toda a sua arquitetura e ornamentos.

Não sei se realmente esse negócio vai vingar, se será possível, diante do eterno descaso ao Centro, realizar tais programações culturais prometidas pela entidade naquele espaço, que é bastante reduzido, além de ser possivelmente uma onerosa manutenção. Espero que seja possível.


E dói demais assistir, logo ao lado, a igreja mais antiga da cidade, a do Rosário, quase se desmanchando à própria sorte: suja, enegrecida, com portas deterioradas, totalmente pichada e já saqueada. Mais à frente o prédio do Museu do Ceará que, desde 2012, comemorou o “início da reforma”... sem fim! Parece ser demais exigir do Poder Público uma atitude decisiva de proteção, conservação e preservação de nosso centro histórico.



Voltando ao Café Java... eu, da forma como gosto e acredito em livros, acho que seria uma homenagem muito mais relevante e efetiva à Padaria, a publicação e a democratização do acesso à população cearense da prometida coleção “Biblioteca da Padaria Espiritual”, composta de cerca de 14 títulos desses padeiros, pois o que vemos é que muita gente diz comemorar essa agremiação sem nunca sequer ter lido uma dessas obras por eles escritas, simplesmente porque não são acessíveis! Afinal, “Fornecer pão de espírito aos povos em geral” não era o objetivo maior da Padaria?

Então, como diria Antônio Sales em suas sessões: “Está aberta a fornada.”