quinta-feira, 24 de junho de 2021

Live de Lançamento "Santuário", de Maria de Fátima Maia


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Para adquirir o livro Santuário, de Maria de Fátima Maia


Com a autora: mfmaia@hotmail.com

Pela Editora Confraria do Vento:

https://www.confrariadovento.com/editora/catalogo/item/291-santuario.html


 

SOBRE SANTUÁRIO

Santuário (Confraria do Vento, 2020), de Maria de Fátima Maia, me chega pelas mãos da autora, assim como me chegou, anos passados, sua primeira publicação, Borboletário (Confraria do Vento, 2011), também de poesia.

Em formato pocket e com um design que exala beleza e apuro – do nosso querido amigo Geraldo Jesuíno –, a obra tem o prefácio do prof. Sânzio de Azevedo, outro querido amigo, maior fomentador da pesquisa em literatura cearense, poeta e professor durante anos da disciplina Teoria do Verso na Universidade Federal do Ceará. O professor conclui seu texto com a seguinte afirmação: ““Trata-se de mais um nome que se soma aos muitos que formam o melhor da poesia cearense de nosso tempo.”

Não é pouca coisa.

Também na apresentação, a presença de Ionilton Pereira do Vale e, ao final, o posfácio é da própria autora.

O livro, como o todo, é uma edição muito interessante.

A começar do próprio título, “Santuário”, palavra que evoca “lugar sagrado”.  A obra é para autora esse lugar sagrado, onde as relíquias dessa devoção são as palavras, os versos, a poesia.

Soma-se a isso a predominante cor roxa/lilás, que entre as cores litúrgicas, se refere ao recolhimento, a uma profunda interiorização que leva à esperança.

No processo de seu recolhimento e interiorização literária, Fátima espraia por toda sua obra uma sequência de sonetos – ao todo, 21 – que, mesmo trazendo notas românticas e vocábulos não usuais (“maneiras do século passado”), viola os moldes rigorosos, por exemplo, dos parnasianos. Não se preocupando excessivamente com métricas ou rimas – embora lá estejam – e retirando de todos eles os espaços não preenchidos de intercalação entre quadras e tercetos, mesmo assim não perdendo a cadência gostosa de sua produção.

Não é difícil perceber na voz da autora a semelhança com outra sonetista: Florbela Espanca, que ao defender que “Há uma primavera em cada vida”, encerra seu “Amar!” com “E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada/ Que seja a minha noite uma alvorada,/ Que me saiba perder... pra me encontrar...”

Outro detalhe interessante é que o livro se trata de uma poesia-narrativa, quase um cântico, no qual Fátima, com lirismo sensível e delicado, narra um grande drama de amor a partir do encadeamento de fases, sem de maneira alguma perder a eficácia estético-rítmica esperada de poemas, fazendo jus ao “Santuário”, denominadas: (1) Celebração, (2) Reflexão, (3) Contrição, (4) Remissão e (5) Enlaces.

De forma geral, e podendo conter spoilers, as apresentamos:

CELEBRAÇÃO

Numa contemplação barroca, percebe-se o momento de celebrar a vida, por entender a finitude das coisas e, ao mesmo tempo, desejar a sua eternidade

“Por sabermos o preço deste instante/ confirmamos no aperto de um abraço/ mil atávicas juras dos amantes”, concluindo: “Tu serás para sempre o meu regaço”.

Apesar da voz melódica, perceptivelmente branda, como a confessar um segredo para si mesma, há um forte teor físico, de mãos, pernas, corpos, bocas, desejos e carícias: “Tens o melhor de todos os sabores, /o que excita os sentidos sem pudores/ e alucina a pessoa mais discreta.”

Mas, mesmo quando ele pede que ela não vá embora e confessa “só teus beijos, enfim, calar-me-ão”, ela volta ao “leito-desengano” para “verter teu perfume no soneto”. Amá-lo, percebe, é ferir-se.

Ela é felina, tal qual onça, “uma fera segura e decidida” que pede ao vento – o vento é uma terceira personagem da obra, surgindo como conselheiro, companheiro ou apenas como espectador – que a ajude a guardar as suas garras e que sejam doces os seus versos e seus momentos.

REFLEXÃO

Na sua reflexão, ela volta ao profundo de sua consciência e às lembranças.

É menina, no sertão onde viveu, “crescida entre os espinhos”, andando “sempre descalça”, na “lonjura de quem nunca se aproxima”, com “apetites abafados” e um “coração desconfiado”: “seria pudente crer em ti?”

A verdade: “estamos sempre sós” E chega-nos, em dourada chave: “Nunca mais haverá um outro agora!”

CONTRIÇÃO

Num momento de contrição, sua alma geme arrependida “de escolher o teu peito como sede”. Porém, a resignação: “Minha sina será como Deus queira!”

Ele volta, utilizando as artimanhas que “sequer coram tua face”. Não é o mesmo e está mais velho: “Vejo as cãs do ignóbil cavaleiro.”

Ciente dessa certeza, ela sofre por trazer ainda “O vício de andar aonde tu fores.” Então, como em um sonho, sente um “galope no peito” e “Na garupa da mente ele vai vivo”.

Há muita hesitação, medo, dúvida. Ela percebe haver “sangue na lágrima que espreme” e uma “culpa acesa/que não finda na insone madrugada”.

REMISSÃO

Sente-se humanizada, curada, quiçá, perdoada.

Perdeu o “medo da altura das estrelas”. Objetivamente sente a perda do tempo ao olhar no espelho. Entende o poema que a ele pertencia, como a “carcaça de sonho”.

O perdão, renovado todos os dias, vem com a despedida: “o fatídico dia-desenredo”

ENLACES

Refere-se às gerações, a origem de tudo, a sua família primitiva. O desenrolar da vida que se repete e também se renova. A esperança e a fé que brotam, mesmo nos mais áridos terrenos.

É, no livro, o momento do grande abraço, ou enlace, da autora a todos os peregrinos desse Santuário, que somos nós, os seus leitores, na certeza de que, como a oração sincera, a poesia também enternece e consola a alma.

 

Raymundo Netto

Editor e escritor e dublê de resenhador

 

Sobre a Autora

Maria de Fátima Maia afirma veementemente ser cearense, precisamente, de Pouso Alegre, Minas Gerais. Tanto o é, que nasceu no dia do padroeiro do Ceará, São José, quando sua mãe estava a passeio nas alterosas terras dos inconfidentes. Sua ascendência familiar é de Limoeiro do Norte/CE, onde, hoje, a autora ocupa o cargo de Procuradora Geral do Município. Porém, residiu muitos anos em Fortaleza, onde se preparou para o então denominado vestibular. Cursou Direito, na Universidade Federal do Ceará, e pós-graduações jurídicas. Em 2010, recebeu prêmio Costa Matos de Poesia, promovido pela Alane, Academia de Letras e Artes do Nordeste. É também autora do livro de poemas Borboletário, de 2011.

 


 

sábado, 19 de junho de 2021

"Abusiva", conto de Raymundo Netto para O POVO


“Não há no mundo quem te ame mais do que eu! Não tem, viu?”

Augusto ouvia essa cerimoniosa, sonora e indefectível declaração todos os dias durante anos de casamento. Sabia: depois dela, inútil argumentar. Assistiria, então, à saída dramática da esposa, dando-lhe as costas e enxugando os olhos correntes. Depois, ela se enfurnaria no banheiro por horas, como a contar diante do espelho uma a uma das lágrimas roubadas. Mesmo assim, ainda o despertaria, a hora que fosse, abandonada de si, rogando quilométricas desculpas e promessas em nome daquele imorredouro amor.  

Camila o amava demais. Mais do que o permitido por lei, de forma quase abominável. Maior do que ele, apenas a insegurança e o ciúme devotados àquele marido severamente asfixiado: “Te respeita, mulher... Me deixa em paz!”

Noites demais, Augusto despertaria subitamente por Camila, em olhos transfigurados: “Você ainda me ama? Eu te amo, te quero tanto...”.

No começo, ele achava aquilo “engraçadinho”, “fofo”, mas com o tempo e a insistência, tornou-se in-to-le-rá-vel: “Meu Deus, eu não posso nem mais dormir?”. Também quando assistia às partidas de futebol ou lia atento o seu jornal, era comum ela inventar motivos para ficar passando na frente da TV, mudar o canal ou enganchar-se ao seu pescoço, cobrindo-lhe de beijos caudalosos, a tentar levá-lo para cama.

Com o tempo, Augusto passaria a chegar mais tarde em casa, fazendo qualquer coisa ou coisa nenhuma, na vã tentativa de ela já estar dormindo. Mas Camila o esperava sempre. E, com o entusiasmo de abertura de loja em promoção, jogava-se em cima dele – mais e mais beijos –, trançava um rol de perguntas incômodas, comia do seu prato, fuçava sua mochila, os bolsos da calça, cheirava suas roupas. Uma obsessão medonha.

Quando encontrava a mãe, irmãs ou nora, aflita, exasperava-se no relato da incompreensível agonia do marido. Elas recomendavam fosse devagar, com calma, afinal, ele não lhe dava motivos para ciúmes ou desconfiança. Ela revoltava-se: “Coitadas de vocês que nunca sentiram um amor assim como eu. Eu morro de amor. Morro!” Entreolhavam-se em silêncio e com certo pavor.

Um dia, ele chegou mais cedo em casa. Calado, desviou-se dela e dirigiu-se ao quarto do casal. Lá, começou a sequestrar as roupas do armário e lançá-las numa velha mala. Camila, perplexa, o questionava. Augusto, numa sinceridade perversa, bradou: “Não te aguento mais! Vou-me embora daqui antes que...” Nem concluiu. Ela já estava aos seus pés, súplice como uma escultura de Claudel, na defesa de seu amor eterno. Mal sabia ela que, para ele, “eterno” soava como “inferno”. O inferno daquele amor.

Com a mala em punho, empurrou a mulher e correu para a escada. Camila, desesperada, saltou e agarrou-lhe as pernas, fazendo com que ele tombasse pelos degraus até o encontrarmos estatelado no soalho frio, ora tinto de sangue entornado da cabeça.

Meses depois, Augusto voltaria a casa. Com o trauma, imóvel do pescoço para baixo. Não conseguia falar e, agora mais do que nunca, era-lhe difícil engolir. Porém, enquanto todos cuidadosamente tentavam consolar a esposa, dar-lhe força, parecia ser ela a menos abalada. Sorria com mais frequência no desvelo exemplar ao seu marido paralítico.

À noite, então, do nada, acordaria com forte abraço o indefeso Augusto, entregue e inerte na sua cama-cárcere: “Está sonhando com o quê, amor? É comigo, não é? É comigo?”

 


 

domingo, 6 de junho de 2021

"Noite e Dia", de Raymundo Netto para O POVO


O amor que corre dencanto dobrado em limalhas de pensamento regurgita à tua face de lamento, quando num momento te vestes num sorriso.

Como em margens seguras do sonho impreciso que me te tens às mãos, figura nos chãos debaixos pés uma canção de amor em teu juízo.

Por onde passas és redemoinho. Tua liberdade furiosa, sei, a ninguém pertence. Arrastas e vences o que te importas no caminho e assopras com as pernas as poeiras do teu tempo.

Forte e frágil és sombra de vento. És nubem, és contento, quando deságua de chuva irisa-se em luar. É teu corpo onírica paisagem, tua pele enluarada mingua como a noite a gozar.

Por onde ondeia és maraberto, verde e silente de amaresiar...

Engolindo toda a vida em ti descoberta. Devorando-te pensamentos. Te devorando, Dvorak. Sorris e teus sorrisos são as chaves e achaques.

Por onde teus olhos passam, constelações como em pálpebras declinam. No alvorecer, no arvorescer, noite coroa dia; dia entorna noite e se animam.

Na casta cobiça de construir peça a peça o mosaico de tua alma canora, segredo-lhe meu silêncio. Tu me ouves muda, não o abraças, não o choras.

As palavras são forjadas uma a uma pela língua mais branca, na frase cuidadosamente pró-ferida, na cautela exaurida que a tudo sublima, na neblina que acompanha a mais prenhe solidão.

Preciso de ti... ah, como te preciso... precisamente ou não.

E o horror da confissão me vem como uma dentada, minha alma dilacerada, parto de tudo na vida, o meu bálsamo e a minha dor.

E tu sempre distante, entre risos e risadas, como as frias estrelas a fingir luz e calor.

A minha penitência decora as paredes do meu coração onde sulco teu nome, em gravação, com cinzéis de saudade.

Não é, porém, meu nome que vejo em teus olhos nem de a felicidade. Pois, como no poema, repouso em tua janela, tu és meu in verso, és ela: a minha condenação.

Encontrei-te por dentro em teu corpo desabotoado e na mais linda aflição, de repente, me tomastes ao teu lado.

E eu que não te amava, agora até teu era, e lancei para o céu a tarda espera das alegrias em troca da grande novidade de ver-te nua todos os dias.

Teus olhos de chama que acastanham meu desejo, teu batom na cama a negar-me o teu beijo e no latejo da tua mão na minha, vermelha e quente, a sentença incontinente de teu coração feraz: que enquanto de longe pareces deus, de perto, meu amor, és muito, muito mais.

 


"Sandra", conto de Raymundo Netto


Ernesto mal chegou à praça e foi acolhido por Pedro num entusiasmo delirante: “Cara, sabe quem marcou comigo aqui hoje? A Sandra! Acredita?”

Ernesto, numa aparente indiferença, estranhou: “Pedro, você está lembrado que a Sandra... morreu, né?”

Ernesto, Pedro e Sandra eram na faculdade um trio inseparável. Entre os colegas, sempre à margem daqueles afetos públicos, havia quem garantisse: os rapazes eram jurados de paixão pela moça, e que, em meio à doce e até invejada amizade, travava-se uma aguerrida disputa amorosa a resultar, a qualquer instante, em uma crise dramática. Para isso, bastasse a moça se decidir por um ou por outro.

Sabia-se que os três, além do grude na sala de aula, estudavam juntos, saíam para beber e se divertir, viajavam, compartilhavam quartos – e até camas – de pousadas e hotéis, numa obscenidade de querubins.

Na tão certa e temida noite de formatura, algo aconteceu. Pedro e Ernesto estavam intranquilos, reservados e separados. Criam: a partir de então a chave viraria e cada um seguiria o seu caminho profissional e a sua própria vida. Sandra, pelo contrário, estava exultante, distribuindo vigorosos sorrisos e olhares para o futuro que se anunciava, confraternizando com todos os colegas e misteriosamente dispensando a costumeira e exclusiva atenção à dupla.

Poucos meses depois, veio a bomba: uma doença incurável, repentina e dolorosa tomou conta de Sandra. A notícia se espalhou ligeira, os colegas a socorreram, chegaram junto, choraram juntos, e ela, mesmo morta e recolhida no derradeiro leito na lama, após uma noite quente e sem ar, esculturava a beleza risonha de um amor quase virginal.

Ernesto, logo à primeira notícia, abandonara tudo. Não saía de sua cabeceira por nada, envolvendo-a em carinhos e mentiras esperançosas. Muitas vezes ela perguntava: “E Pedro, onde está que não vem, aquele ingrato?” Nunca soube, mas Pedro sofria horrores. Trancara-se no seu quarto, inconformado, a beber e a chorar noite e dia. Na época, como fosse segredo, confessou a Ernesto o seu desmedido amor. Então, numa simulada surpresa, o amigo sugeriu esquecê-la.

Pedro e Ernesto se viram pela última vez no funeral de Sandra, e não se falaram nem ali nem nunca mais. Até aquele dia, anos depois, quando Pedro o chamou para se encontrarem naquela praça. Nela, Ernesto, muito delicadamente, o inquiria: “Pedro, ela falou mesmo com você? Quando? Como?” Pedro o respondia com uma certeza fulminante: “Ela me ligou, marcou aqui mesmo em nosso baobá. Lembra o baobá?”

No jardim da praça havia um baobá. Uma tarde, antes da formatura, embriagados, ensombravam-se no baobá, quando Sandra sentenciou a amizade tão duradoura quanto ele, estreitando em um abraço o choro doloroso de uma insuportável separação.

“Cadê o seu celular, quero ver essa ligação”, insistiu Ernesto. Pedro procurou nos bolsos, na mochila, não o encontrou. Colocou as mãos na cabeça, desesperado. Como atendera o telefone em casa, devia tê-lo esquecido por lá: “Cara, a gente pode até se desencontrar. Tenho que ir buscá-lo.” Ernesto, assistia com certa dor àquele nervosismo: “Pedro, olha, não tem telefone... Não adianta, ela...” Pedro não o escutava: “Faz assim, Ernesto: fica aqui, caso ela chegue. Não deixa ela ir embora. Vou em casa pegar o celular, vou provar para você. Fica aí, não deixa ela ir embora, volto já!”

De fato, não tardaria nada e Pedro retornava agarrado ao seu celular. Mas estacou ao ver um grande alarido em torno daquele baobá. Pessoas rodeavam o corpo ensanguentado de um homem. Era Ernesto. Esperava a volta do amigo. Distraído, no seu íntimo, queria crer nele. Daí surpreendido por um assaltante, reagiu, sendo brutalmente apunhalado e tombando sobre as robustas raízes.

Pedro quedou-se pasmo ao lado do amigo, quando ouviu o sinal de seu celular. Pegou o aparelho e olhou o visor. Era mensagem de Sandra: “Perdoe-me, querido, sempre amei Ernesto.” E ali, diante de todos, um homem choraria suas dores mais profundas a esmurrar o cadáver indefeso e realizado de um morto.




 

 

domingo, 23 de maio de 2021

"Memorialva", de Raymundo Netto para O POVO


 Publicado originalmente em Os Acangapebas

Há todos os dias cabulosos.

Ante a manhã, se esclarecia: à parede, azulejavam mosaicos coloridos, pedras, vidros, restos de lembranças, rastos de vidas a descer pela coluna diante dos olhos claros, verdeados, de passados brilúmens a se esparramar como o silêncio no quarto vazio.

As paredes nuas em sombras a sacudir-lhe a memória; a remexer o desvão escuro dos medos; a segredar-lhe os romances secretos que não vieram nem virão; a confessar-lhe a ausência de rasgar o coração.

Sonhava-se insone.

À janela, outra parede vinha imprevista — sem remorsos — a estorvar os céus de suas lembranças.

Sobre as telhas enegrecidas, garrafas de plástico, pneus, gatos preguiçosos a desfiar estopas usadas, as manhãs quando a passarada estalejava o sol em asas amarelas.

No canto do quarto, aranha porfiava contra formiga na trama de uma teia. A morte breve, repentina.

Nos tacos, marcas de arrastos pés de cadeiras de palhinha pondo a dormir os olhinhos de retrós arregalados e cabelos retorcidos em fios de loiras lãs. Nos mesmos tacos, os pregos surgindo, a emenda com cimento, o desamor cruel de estranhos moradores a estilar infelicidades.

Baratas! Baratas! Baratas! Odiava baratas!

Nos rodapés, a lama negra, a tinta que salta, a bituca de cigarro, a folha seca que só — e acidentalmente só — desce, o cupinzal abandonado.

A parede ao lado ainda aguava da pia do banheiro. Gélida e nua, tiritava. Frio, frio... Escuro!

A apática porta lhe abria o incômodo do tempo que se perdeu, e, mesmo assim, ela não saía. Ela não saía. Ela não se ia nunca, esperando o fim da eterna idade de não chegar, a envelhecer triste como o quarto vazio, como ela, e cheia de baratas por dentro.



 

segunda-feira, 10 de maio de 2021

"Domingo", de Raymundo Netto para O POVO


 

Publicado originalmente em Os Acangapebas


Domingo. Onze horas. Como se marcada hora, barulhentos, acabavam de chegar. Enfileiravam-se à grade branca entreaberta por saudações breves, tomadas de rostos, beijos vãos. As netinhas, em cabelos de rabos de cavalos, à frente e com solicitação do pai, apresentavam as bonecas, imediatamente esquecidas diante da tevê na sala.

Os filhos, genros e noras, à cozinha, traziam nos olhos indisfarçáveis traços da preguiça ou da curtida noite alta. Colhiam jornais e a correspondência desviada, cumprimentavam o pai a levantar sorridente da cama — sem omitir saudades — e a mãe a empunhar flores do quintal. Puxavam os bancos para o oitão, a área mais ventilada, enquanto outros vasculhavam a geladeira em busca das guloseimas que lá já não estavam desde a meninice.

Hora do almoço! Todos tomavam os seus lugares, os mesmos e respeitados lugares, pequenas hierarquias. O avô se deliciava à larga cabeceira da mesa de pinho feita à encomenda para caber a família. A avó não sentava enquanto todos não estivessem fartos. 

Ali, outra mulher, por trás do balcão americano, com olhos postos à pia no manejo da asa de uma caneca tomada em sabão, ouvia tudo, sabia de tudo, analisava-os, percebia-lhes as mentiras, as vaidades, a disputa entre irmãos pelo amor filial. Espremia-lhes com os olhos e torcia a inveja da boca.

Assim, aos domingos: preparava o almoço, os pratos de um e de outro, mais pratos, a sobremesa com um doce especial, a correria da criançada a lhe pedir tudo, sem reconhecê-la nunca, sequer chamá-la pelo nome, e mais pratos. Depois disso, só solidão e silêncio. Percebia-se velha e acabada, não dava mais conta. Sabia-se apenas para servir. E só!

Num domingo diferente, postou-se à cabeceira por trás do avô. Pediu as falas com um sorriso quase terno, a espanar no ar um pano de prato. Na voz rouca e analfabeta desalinhou um segredo: pôs veneno! Daquela macarronada tradicional de família, tudo acabaria ali e agora. Pronto era só isso. Desculpasse, mas não aguentava mais.

Um jovem pai desperta, corre desesperado por um corredor de soluços, vômitos e gritarias sufocadas. Na sala, as suas menininhas, felizes, limpavam com o bracinho rechonchudo o sorriso lambuzado daquele molho gostoso, receita da vovó.




segunda-feira, 26 de abril de 2021

"Trégua", de Raymundo Netto para O POVO

 


Deu-se que assim quedou-se sozinha numa quitinete antiga, inda dura de pagar, aos maus cuidados do esquecimento. Tentaria, mas voltar para casa dos pais, nem pensamento, nem coragem.

Angustiava-lhe, contudo, o banheiro. Às horas escuras, as baratas reinavam. Por vezes, queria usá-lo, mas à visão nojenta e aterradora de dezenas delas desistia-lhe a vontade. Percebia-lhes nas gretas da parede, nas frinchas do piso, no descuido do ralo, por todos os cantos. Saíam elas protegidas, ligeiras, com propriedade tradicional de uso.

No abrigo escuro da noite, no travesseiro, além do seu cheiro em tudo, podia ouvir centenas de terríveis patas a deslizar. Corriam, acasalavam-se. Mais baratas, cada vez mais. Pânico!

Ao banheiro, quando inevitável, sentava-se no aparelho: abraçada aos joelhos, encolhia as pernas e acompanhava de olhar para cima a lâmpada num estalar piscativa. Sabia, a qualquer momento de saltar pela porta nunca fechada. Angustiava-se a chorar. Arrependimento matasse, morria.

Pela manhã, acendia a luz do banho, e assim a deixava, por tempo, com suficiência para dominar o território, anunciar o tratado de paz: baratas e ela. Só depois se encorajaria ao chuveiro, sempre alerta ao descuido de uma ou de outra a apresentar-se sem respeito à suposta trégua.

Esforçava-se, por isso, a passar o dia fora: em busca do emprego, a merendar, a pretexto de visita, em casa de amigas, a encostar-se no banco da pracinha, a repensar a volta no último degrau da escada.

Na quitinete, quando vencida, olhava pela porta do banheiro e lá estavam as malditas.

Naquela noite, o calor sufocava. Sem banhar-se, sem o sono, enlouquecia.

Acendeu a luz. Alvoroço entre os insetos. Pacto rompido. Recuaram. Silêncio.

A moça se despiu. Pendurou as roupas em inalcançáveis. Passos inseguros a encostaram a um canto. Pronto. Imaginou: “a água as espanta!”

Molhava o corpo nu, alvo e belo, quando a lâmpada deu último estalo e caiu como a noite. Escuro absoluto. Silêncio quebrado. Centenas de patas. O derradeiro grito se ouviu, agonioso, devorado por seguinte silêncio a ecoar até a chegada de outra moça fugidiça a responder ao convite da tabuleta de frente do prédio: “Temos Vagas”.




terça-feira, 13 de abril de 2021

Documentário "A Fortaleza da Cultura", lançamento HOJE, 13 de abril no Canal FDR


O documentário em média-metragem A Fortaleza da Cultura (35 min), iniciativa da Fundação Demócrito Rocha em parceria com a Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (SecultFOR), se une ao Álbum Fortaleza Ilustrada na celebração dos 295 anos da cidade de Fortaleza (13 de abril de 2021).

Segundo Raymundo Netto, criador do projeto e responsável pelo argumento, a produção tem como objetivo apresentar ao público as experiências coletivas criativas e criadoras existentes na cidade, despertando a reflexão e o debate sobre a cidade e seu campo e diversidade cultural, o nosso repertório urbano, a preservação de nossas identidades, as manifestações tradicionais populares, em especial, nos bairros da periferia, “os mais ricos espaços de criação de modos de vida e de experimentação estética”. (Fortaleza 2040).


Nele, convidamos alguns representantes da resistência de nossa cultura, riqueza transmitida de geração a geração, para nos apresentar o que fazem, como fazem e o que sentem, e a sua história, de onde veio e para aonde vai: mestre Zé Pio (Boi Ceará)/Barra do Ceará, mestre Kiliano (reisado Nossa Senhora de Fátima) /Barra do Ceará, Bruno Perdigão (Bloco Carnavalesco Luxo da Aldeia)/Mercado dos Pinhões, Zé Testinha (quadrilha Zé Testinha)/Vila União, Edmar Freitas (quadrilhas juninas)/Messejana), mestre Lula e mestra Karla (Capoeiristas da Associação Zumbi Capoeira)/Granja Portugal e Raimundo Praxedes e Janaína Baobá (Maracatu Nação Baobá)/Bela Vista.

Esperamos que apreciem, curtam e compartilhem essas histórias d’ A Fortaleza da Cultura.


Documentário A Fortaleza da Cultura

Lançamento no Canal FDR: 13 de abril de 2021 às 19h e reprise dias 24 e 28 de abril às 18h.

Canal FDR:  48.1 (aberta) | 23 (Multiplay) | 24 (Net) | 138 (Brisanet)

Endereço Virtual: https://youtu.be/lj0lrJUv3VY














 

segunda-feira, 12 de abril de 2021

"Ilusionista", de Raymundo Netto para OPOVO


 Samuel, quando veio ao mundo, em vez de chorar, clamava: “quero ser mágico!”

Assim, desde de a sua meninice, peregrinava por jornais, revistas, manuais e internet e colecionava álbuns de figurinhas em busca de conhecer e se aproximar dos grandes prestidigitadores de sua época. Nesse intuito, fugiria da casa paterna resolvido a apreender os segredos milenares e maravilhosos do ofício.

Debulhadas inúmeras folhinhas de parede, o adolescente se via perdido, sozinho e faminto num mundo de inimaginável realidade, até a chegada na cidade do famoso Gran Circo Internacional. Entusiasmado, Samuel se dirigiu a ele, enfrentando a fila de pretendentes a serviços temporários, pois faria qualquer coisa, desde que pudesse se aproximar de Eugênio Roudin, o mágico, o melhor de todos. 

Aceito, passava o dia varrendo e limpando a coxia, lustrando objetos e, no momento do espetáculo, carregando pesos, vendendo pipoca, milho verde, balões e brinquedos de néon. Ali, dessem qualquer espaço, Samuel não perdia a oportunidade de anunciar: “Seria o maior mágico do mundo!”

Às noites, no sereno frio da manta naftalínica, seduzido pelo vagalumear das estrelas perdidas na vastidão do cortinado negro, fantasiava o seu picadeiro de encantamentos.

Um dia, de tanto se enxerir, perturbar a todos e assediar Roudin, conseguiu arrancar dele a promessa de treiná-lo como seu assistente. Seu objetivo, enfim, se realizaria.

Porém, para a surpresa do mágico, apesar do entusiasmo e a declarada paixão pela arte do ilusionismo, quando Roudin pôs numa mesa uma série de objetos utilizados em seus truques, como baralho, cordas, lenços, flores artificiais, moedas, dados, argolas, entre outros, o rapaz se resumia a esfregar as mãos e fitá-los com uma ansiedade vazia de qualquer experiência. Roudin pensou: “Teria que começar do zero!”. Para piorar, quando o fez, tudo indicava que Samuel não tinha a menor aptidão para a coisa. Era desastrado, desconcentrado, uma tragédia: um coelho descia-lhe pela perna da calça, se enrolava em lenços coloridos, tropeçava em fios de náilon disparando papéis coloridos pelo colarinho, escapavam-lhe pombos pelas mangas da camisa, esparramavam-se copas e ouros pelo chão... nada haveria de dar certo.

Após várias tentativas e frustras recomendações, Roudin surtou. Era uma absoluta perda de tempo... do seu tempo! Já não entendia de onde o rapaz tirara aquela ideia de que um dia poderia ser mesmo um mágico de verdade. Era, isso, sim, um inútil e grandessíssimo pateta que jamais dominaria o universo da magia.

Os colegas de circo, sentados nas arquibancadas a admirar os ensaios do garoto, nunca haviam visto o elegante mágico perder as estribeiras. E alguns, por considerarem Samuel um tanto pedante pelas suas incontáveis afirmações de ser o maior mágico do mundo, diante de suas trapalhadas, gargalhavam e o vaiavam a valer, numa estrondosa, constrangedora e irremediável humilhação

Transtornado, Samuel assistia ali, por meio da plateia de seus próprios colegas e mentor, o coração dilacerar em rasgos perversos de solidão. Ainda diante do achincalhamento geral, abaixou-se, sacou um punhado de terra molhada por suas lágrimas, moldando com ela uma ave entre as mãos. Soprou seu bico e, como que puxando alfenim, fez crescer o grande pássaro vermelho a emitir sons dolorosos e estridentes. O fracassado artista, então, saltou sobre seu dorso, subindo em voo ligeiro através das estrelas costuradas na lona circense, sabe-se lá Deus para onde, determinado a nunca mais acreditar em sonhos.



quinta-feira, 1 de abril de 2021

AlmanaCULTURA Recomenda: LANÇAMENTO "Contos Escolhidos"


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O livro Contos Escolhidos, de autoria de Angélica Sampaio e Grecianny Carvalho Cordeiro, já está disponível (versão impressa) e à venda no site da Editora Sol Literário, com direito a uma linda sacola personalizada, por meio do link www.editorasolliterario.com.br

Também está disponível a versão digital pela Amazon:

https://www.amazon.com.br/Contos-escolhidos-Angélica-Sampaio-ebook/dp/B0913GVVRS/ref=mp_s_a_1_7?dchild=1&keywords=angélica+sampaio&qid=1617286126&sr=8-7

Os(As) interessados(as) podem aproveitar e conhecer, pelo site da Editora, diversos outros títulos de ambas as autoras, em diversos gêneros e temáticas distintas e por preços convidativos.

Vá lá, conheça a prosa dessas autoras, o AlmanaCULTURA recomenda.

Sobre o Livro:

São narrativas mitológicas, principalmente, que brotam desde o mundo clássico greco-romano, passando pelas lendas medievais, resgatando mitos indígenas da região quixadaense, para desembocar numa narrativa lampiônica em que não há derramamento de sangue.

O leitor atravessa esse universo sem tédio e sem cansaço, diante da dinâmica da contação de histórias envolventes, que mesmo conhecidas, algumas, recebem contornos novos e sequestram o leitor de forma prazerosa.

Logo na primeira parte do livro, Angélica Sampaio, telúrica, como em suas outras obras anteriores, privilegia cenários quixadaenses e transita entre OVNIS pacíficos e antigas lendas indígenas.

A segunda parte do livro, que traz os contos de Grecianny Carvalho Cordeiro, leva o leitor a mergulhar em tempos heroicos do mundo greco-romano, com seus deuses e heróis. Logo na primeira narrativa, “Ragnarök”, o leitor experimenta
a fúria dos deuses e só respira normal quando chega à última linha do texto. 
O único consolo nesse percurso é que se o leitor nele morrer será de forma heroica e portanto as Valquírias o conduzirão ao Valhala.