domingo, 14 de fevereiro de 2021

"Artes & Ofícios", de Pedro Salgueiro para O POVO


Em nossa infância (na pequenina Tamboril dos anos 1970) vivíamos no Bairro das Pedrinhas, que era bem simples e no qual só existiam, quando lá chegamos, umas 7 famílias. Fomos morar numa ruazinha ao lado de 2 casais de tios; e, ao redor desse trio de casas sem cercas entre os quintais e um terreiro amplo que se estendia até os fundos de uma antiga maternidade, reinávamos quase 30 crianças (ainda hoje erramos a contagem dos muitos primos) entre brincadeiras, idas à escola General Sampaio e visitas diárias ao casarão dos avós maternos, que moravam no Centro.

O mais espantoso, visto da distância de hoje, é que essa multidão de meninos e meninas fora sustentada por pais muito pobres: um pedreiro, um ferreiro e um sapateiro, que mantinham sempre um roçado para ajudar na alimentação (sem falar nas sacrificadas mães, que tinham de dar conta de tudo no dia a dia dessa imensa legião): dos 10 filhos do pedreiro Luis Petronílio, apenas 1 perseverou na profissão do pai; dos 9 do ferreiro Zé Inácio, nenhum seguiu batendo ferro; e dos 6 do sapateiro Arimatéia Salgueiro, quem quis alisar sola que nem meu velho?

Essa antigas profissões têm sobrevivido a duras penas, quase não se encontra mais um ferreiro para confeccionar foices, enxadas ou armadores, isso tudo se compra nas casas de ferragens ou mesmo nos supermercados, como se não existisse mais a figura fuliginosa do mestre araponga. Ainda hoje guardo na memória o bater de ferro e o roncar do fole e o chispar do fogo da oficina do meu tio Zé (na mesma rua havia a oficina do mestre Toquinho); dos antigos sapateiros só tenho notícia do seu Zé Manela, ainda na ativa, e do artesão Anastácio Cícero (que, pelo adiantado da idade, já não trabalha), quando tudo que se calça é comprado (também como se fosse produzido por milagre) nas lojas, abstraindo a figura curvada dos nossos lambe-solas de antigamente, a exalar o delicioso cheiro dos couros, vaquetas e colas. Os pedreiros não, estes continuam firmes e fortes, aumentaram em número e qualidade, são disputados por todos para erguer e conservar casas e prédios comerciais.

Porém os ofícios que mais me encantavam quando menino eram os “carregadores d’água” em seus jumentinhos cheios de canecos de madeira dependurados em ganchos de ferros nas cangalhas escanchadas dos sofridos animais (quem da minha idade não se lembra de seu Dãêta, Izim e Quiza choteando atrás de cacimba boa pros lados do Cuandu?) e, também, a profissão rara (esta, sim, a que mais me impressionava) dos “espanadores de tetos” com suas vassouras de cabos compridos a tirar casas de aranhas, ninhos de pássaros e até cobras dos frechais altíssimos das velhas casas: recordo bem de seu Antônio Roseno varrendo ao contrário tesouras e cumeeiras do casarão do meu avô Chico Inácio; mas inesquecível mesmo era avistar seu Antônio Dino (mais conhecido como Sembereba), com seus quase 2 metros de altura, vindo lá das bandas do Papoco para espanar com seus vassourões gigantes os muitos casarios da cidade, parando em cada calçada para contar histórias mirabolantes, tiradas engraçadas, com seu vozeirão de gigante, no ombro um imenso capo de vassoura cuja ponta da frente já se encostava à parede do mercado e a de trás ainda vinha na Grota da Mijada, na entrada da rua.



 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

"A Rede", de Raymundo Netto para O POVO

 

Cansado de ouvir os reclamos da mulher todos os dias à beira do fogão, Zé Panapanã, que acabava de chegar da lida na roça, ainda salgado em suor e com as pernas “à milanesa”, largou a enxada e mergulhou na primeira rede que encontrou no alpendre.

Quando pronto o almoço, não se buliu. Nem quando a mulher, insistente, sacudia o punho daquela rede: “Tá morto, Zé? Ôxe, nem pra comer se mexe? Avia!” E nada.

Poderia ser birra, o Zé era teimoso e ao mesmo tempo não tinha ambições, nem as pequenas, maisqueria o sossego do que tudo no mundo. Dali não sairia, nem para comer, para ir ao banheiro, pitar seu cigarrinho ou dormir.

A mulher se preocupou, mas achava que o turrão não resistiria à frieza cortante da noite. Porém, ao acordar, ela o encontrou ainda mais embiocado, não se vendo nem uma brechinha do homem na rede: “Vai trabalhar hoje, não, preguiçoso? Aqui não tem café pra gente dorminhoca, viu?” Não adiantava. Por mais que Solange berrasse às franjas da rede, o Zé não dava um pio. Dias depois ela decidiu consultar o farmacêutico da cidade que, na falta de outro doutor, poderia ter com o marido: “Tá custando dentro da tipoia, seu Augusto. Não levanta pra nada, nem pra comer, nem pras necessidades. Deve de tá doente... mas não fala nada...”

O farmacêutico estranhou a história e, por curiosidade, descambou a visita.

Chegou batendo sonoras palmas no batente da casa, como se não soubesse estar logo ali, recolhido na rede, o marido de Solange.

Arrastou um tamborete, tentou puxar conversa, sem sucesso. Perguntou se sentia dor, se havia diarreia, alguma anemia, dificuldade de respiração. Com esforço, vez ou outra ouvia um sussurro, uma espécie de “deixe estar” ou coisa parecida. Puxava o pano da rede tentando abri-la para examiná-lo e não conseguia. Já irritado, porém percebendo a aflição da mulher, receitou algumas mezinhas: “Deve ser somente alguma verminose associada à cisma mesmo. Paciência.”

Todavia, o certo é que nem Solange conseguia que o Zé tomasse qualquer coisa, como nem aqueles poucos sussurros se ouviam mais. Ela apelaria, então, ao jovem pároco local. Ele, de cara, denunciava a ausência divina no coração daquele homem que, inclusive, nunca pisara a soleira da igreja e não cumpria sequer com os seus sacramentos.

Em uma primeira visita, tentou extrair, inutilmente, uma tal confissão. Depois, clamando aos surdos céus, o provocou a levantar-se dali, ameaçando-o até de excomunhão. Nada! “Está endemoninhado, só pode. Contra as forças do Todo-Poderoso ninguém pode, dona Solange. E como deixar de atender a uma esposa tão amável, caridosa e temente a Deus como a senhora? Só endemoninhado!” E abraçava àquela mulher, que nem tinha ideia de que era aquilo tudo, e cuja face pousava agora menos inocentemente na sacra batina quase tão cerrada quanto a rede do Zé.

No domingo, uma romaria se quedava em torno da encolhida rede de Zé Panapanã. Dezenas de fiéis da paróquia, empunhando missais, velas de todos os calibres, terços e rosários, cantavam hinos e rezavam pela cura do marido de Solange, que já trazia ares de viúva, mas uma viúva bem fornida, disposta, aparentemente melhor do que antes da crise, sempre ao lado do padre, cuja oratória – confessava – lhe causava um certo frenesi.

Foi ali, naquele instante divinal, que alguém apontou de joelhos para a rede que se abria lentamente. Todos, boquiabertos, se abraçando ou fazendo o sinal da cruz, testemunharam sair da fresta aberta da rede uma borboleta cujas asas batiam incessantes, carregando a criaturinha para onde avermelhava o horizonte e para longe daqueles barulhosos vizinhos.



sábado, 30 de janeiro de 2021

"Do Lado de Lá da Barra", de Pedro Salgueiro para O POVO

 

Um dos recantos que mais me encantavam quando cheguei à nossa loirinha destrambelhada pelo sol, lá pelo começo dos anos 1980, era a Barra do Ceará, principalmente o lado de lá da Barra: uma novidade pra mim, que vim de uma cidadezinha à beira da nascente do rio Acaraú, quase sempre seco. Aventura que se tornava mais emocionante porque temperada pelo medo de quem não sabia nadar. Agarrava-me com unhas e dedos o beiço do barcote que nos transportava por uma ninharia, então eu fechava os olhos e rezava em silêncio, perdendo parte daquela beleza de paisagem.

Dia desses, vendo uma postagem nas redes sociais do meu amigo jornalista Eliézer Rodrigues (que divide comigo tanto o amor à Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção quanto ao pequeno Fortim, à beira do rio Jaguaribe) vi uma linda foto em preto-e-branco dessas embarcações que atravessavam para o lado de lá da Barra do Ceará, acompanhada do texto: “O OUTRO LADO DA BARRA DO CEARÁ – Antes da construção da ponte sobre o rio Ceará que liga Fortaleza a Caucaia, em 1997, uma das diversões dos fortalezenses, principalmente aos domingos, era ‘tomar banho no outro lado da Barra do Ceará’. E a travessia era realizada por pequenos barcos artesanais, denominados de ‘bateira’, trabalhados em madeira de louro ou de cedro. Cada embarcação transportava 20 pessoas, e a passagem custava 1 cruzeiro, moeda da época, por cada passageiro. Ao todo, trabalhavam na domingueira cerca de 50 embarcações”. (As informações são detalhes contidos na primeira reportagem realizada pelo jovem Eliézer no jornal O POVO, no seu primeiro plantão de fim de semana, num domingo de janeiro de 1975).

O episódio me lembrou duma história que o saudoso amigo Nilto Maciel sempre me contava (e eu fazia questão de sempre fingir que não a tinha ouvido dele já uma dezena de vezes, esperando sempre um detalhe que ele acrescentava ou modificava nas inúmeras versões). Dizia de um casal de amigos recém-casados, que viera em férias com ele de Brasília, e depois de visitarem, num sábado de manhã, os pontos turísticos mais badalados da capital resolveram deixar as esposas voltarem de carro para o hotel e seguiu, com o empolgado turista brasiliense, para lhe mostrar um recanto belíssimo, de um pôr de sol inigualável; pegaram um barquinho nas areias do rio Ceará, deslizaram nas ondas calmas até o outro lado, deram uma volta pelos arredores e depois se sentaram numa barraquinha de palha, onde uma sujeito lhes serviu cervejas geladas em imensos isopores com gelo.

Conversa vai, lembranças vêm, assustaram-se com o adiantado da hora, o sol ainda nem acabara de mergulhar nas águas, pediram a conta apressados e procuraram os barquinhos. Nada, nenhum deles, um senhor lhes informou que aos sábados o último voltava às 16 horas, o desespero bateu, a inevitável escuridão os acalmou, com a ajuda do barraqueiro, que os deixou dormir nuns bancos e caixas de conservar peixes; esperaram o primeiro transporte do domingo para atravessar o manso rio, de onde pegaram táxi de volta ao hotel.

Resumindo a involuntária aventura: os familiares estavam em polvorosa, alguns tinham ido às rádios divulgar o desaparecimento, outros procuraram nos hospitais, até um mais pessimista fez visita ao IML. A vergonha das explicações, a confusão dos disse-me-disses resultaram numas férias interrompidas e quase um casamento desfeito.



domingo, 17 de janeiro de 2021

"Peso Leve", de Raymundo Netto para O POVO


 “Como é gostooosa!”. A fala saía lenta, quase soletrando, ilustrada em sorriso malicioso por um dos rapazes da turma de “pesos pesados”, os saradões daquela academia de ginástica. Os demais colegas, em círculo, aprovavam, como calangos, com a vazão de outras palavras e observações pervertidas sobre aquela mulher, uma Vênus a reinar naquele Olimpo cafuçu.

Úrsula, em seu desfile e graça, ouvia tudo, percebia os olhares, sabia ser cobiçada, e achava justíssimo, afinal, muito bela, seu corpo era até confessamente invejado pelas colegas que repetiam a bulir em seu relevo tonificado por Deus: “Amiga, ah, se eu tivesse um corpão desses...”

Nas suas despretensiosas passagens pelas fuças dos rapazes – suor descendo-lhe o pescoço, a blusa fina encharcada, a retaguarda que era quase uma bateria de Escola de Samba – era de costume as cantadas, os convites indecorosos, a oferta de números de celular.

Contudo, o que nos importa saber é que, logo ali do outro lado desse salão, encontramos outra pessoa, um homem muito magro, comprido, feio até, do time “peso leve”, daqueles que mais repetem do que puxam ferro, que não chamam nenhuma atenção num ambiente desses, nem a nossa, não fosse por uma particularidade: é ele o marido de Úrsula!

Sim, Leopoldo, no passado não distante, num ato de coragem despropositada ou durante uma oportuna vantagem de momento, conseguiu levar Úrsula ao altar. Mas, para resumir, ela seria profundamente infeliz nessa união. Não admirava o marido, não curtia a sua companhia, não sentia por ele a mínima atração. Achava mesmo que estava era doida quando consentiu nesse casamento, para ela, uma expiação.

Ali mesmo, naquela academia, só chegava sozinha, ele que fosse depois, não queria ninguém no seu pé. Pior: não permitia que lhe dirigisse a palavra, pois as pessoas – que nem sabiam serem eles casados – poderiam achar que ele a vigiava: “Não me envergonhe, senão eu não sei do que serei capaz!”

Leopoldo a obedecia fiel e mansamente. Evitava falar com ela e assistia com muita resignação aos olhares lascivos sobre aquele corpo que, até então, achava possuir. Por outro lado, compreendia os rapazes, pois ele também o desejava e, há tempos, não conseguia sequer aproximar-se sem o risco de morte.

Noite dessas, estava ela inconsolável, buscando roupa para ir a um shopping. Insatisfeita, quase chorava, diante da constatação das “malditas celulites”. Leopoldo, com a meiguice de uma mãe, tentou contornar: “Meu bem, só quem acha celulite é mulher. Homem não repara nisso, não...” Para quê? Ela começou a agredi-lo com cabides, porta-retratos, vasos e o que mais tivesse a mão: “Saia daqui, cafajeste! Você não entende nada de mulher meeesmo!!!” Então, mais uma vez o marido se recolhia, rabinho entre as pernas, e voltava ao trabalho, a sua cachaça de esquecer a vida de rejeição e humilhações impostas pela mulher amada.

Tanto trabalhou e produziu que um dia foi chamado pela Diretoria da empresa. Ganhara um aumento, uma promoção, proposta de morar no exterior. Naquela noite, nem dormiu.

Na manhã seguinte, Leopoldo estava na academia, quando, subitamente, Úrsula atravessou ligeira o Salão sem dar a menor bola para o grupo de rapazes, e se dirigiu a ele carinhosa, trazendo-lhe um squeeze de água gelada. Deu-lhe um beijo, um abraço apertado, disse que não fosse embora sem ela, e voltou às máquinas.

A turma de rapazes não entendeu nada. Eles olharam basbaques para aquele nunca notado fiapo de homem: como? quando? por quê? E nós?

Leopoldo olhou para eles e, pela primeira vez, abriu um sorriso luminoso e seguro. Mirou aquela mulher linda, soberba, desmanchando-se em suor divinamente perfumado no reles colchonete e, voltando-se aos rapazes, balançou a cabeça com desdém: “Celulite demais!”



quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

"Demócrito Rocha, o pai d' O POVO: 93 anos


“(...) É no jornal que o povo encontra o seu pão espiritual de cada dia. O jornal descortina-lhe o mundo, vencendo distâncias. É a lanterna mágica do progresso. É a força propulsora e condutora das massas insatisfeitas, para as grandes reivindicações de seus direitos postergados pela cáfila absorvente dos magnatas de todos os tempos. Quando o povo geme escravo, entorpecido pelas algemas do cativeiro, indiferente à violência paralisante do grilhão, o jornal é o sangue novo, forte e generoso a nutrir-lhe as células dormentes, a despertar-lhe os neurônios amortecidos, a ondear-lhe, nas veias, a torrente vigorosa e enérgica da revolta. O povo precisa de mais gritos que o estimulem, de mais vozes que lhe falem ao sentimento. Eis por que surgimos...” (Editorial de Demócrito Rocha para o primeiro número do jornal O POVO, em 7 de janeiro de 1928)

 

Foi assim que, em 7 de janeiro de 1928, há 93 anos, surgia O POVO, a mais tradicional, democrática e conceituada folha do Ceará, na voz corajosa e ousada de Demócrito Rocha, seu sonhador-mor.

Como era bem de Demócrito, tanto o nome do jornal como o seu logotipo foram escolhidos por meio de concurso. Ele gostava de ouvir a “voz do povo”, e, durante o período que dirigiu o jornal, escrevia, fazia enquetes, criava outros concursos, provocava o leitor, ao mesmo tempo em que liderava o “banco da Opinião Pública”, um dos integrantes das “sociedades dos banquistas” — pequenas agremiações que nasciam em torno dos bancos da praça do Ferreira, reunindo membros de diversos segmentos da sociedade (jornalistas, poetas, comerciantes, professores, políticos, profissionais liberais etc.) a discutir de um tudo: das coisas mais importantes ao trivial anedotário.

Demócrito teve origem humilde, cedo ficou órfão e teve que trabalhar duro (aos 12, era operário), fortalecendo-se em caráter, idealismo e senso de justiça e liberdade. Assim, não temia o debate, ao contrário, se alimentava da polêmica, tinha gosto pela interatividade, pela participação popular, pela opinião de outrem.

As primeiras edições de O POVO saíram de uma impressora de segunda mão, na sede alugada no entorno da praça dos Leões. Já no segundo ano de jornal, Demócrito, também poeta e notável cronista, lançou o suplemento literário Maracajá, veículo que revelou os nossos autores modernistas para todo o Brasil (Rachel de Queiroz, Jáder de Carvalho, Mozart Firmeza, Mário de Andrade do Norte, Heitor Marçal, Edigar de Alencar, Suzana de Alencar Guimarães e o próprio Demócrito, sob o pseudônimo de “Antônio Garrido”, entre outros), numa época onde isso dificilmente aconteceria (alguns dos textos foram reproduzidos na Revista de Antropofagia de São Paulo, e há matérias sobre o Maracajá em diversos dos grandes jornais do país).

Justamente no primeiro aniversário de O POVO, em 7 de janeiro de 1929, Demócrito presentearia seus leitores com “O rio Jaguaribe é uma artéria aberta”, poema que o consagrou, sendo um dos mais representativos do modernismo cearense. Apaixonado pelas palavras, mesmo quando extinto o MaracajáO POVO continuou durante toda a sua existência, até hoje, sendo a grande janela da literatura.

Também foi Demócrito o criador do título e do sistema eleitoral do “Príncipe dos Poetas Cearenses”, quando na sua Revista Ilustrada (1924-1925), além de promover concursos de versos na rádio PRE-9, de João Dummar.

Li, há mais de 20 anos, um livro do jornalista Daniel Carneiro Job, que nos conta algumas histórias de Demócrito, entre elas, a de uma emboscada no centro da cidade, em 1927, quando por ordem do governador (presidente da província) Moreira da Rocha, 12 policiais o encurralaram e deram-lhe murros, pontapés e golpes de rebenques, afastando os populares, indignados diante da covardia, com ameaça de revólveres. Não bastasse, arrastaram-no, sangrando, a Photo Salles, na praça do Ferreira, para tirar uma “prova da eficiência da lição”... O jornalista, com 39 anos, foi levado nos braços do povo para sua casa, onde até a madrugada, diversas personalidades, amigos, representantes de entidades e/ou partidos políticos, além de professores e estudantes de odontologia (ele era cirurgião-dentista) uniram-se em oratórias e em vigília ao seu bravo porta-voz. Anos antes, em 1922, em represália ao seu apoio ao comitê de Nilo Peçanha e J.J. Seabra, recebeu notificação de transferência (atuava como telegrafista, à época) de Fortaleza ao Mato Grosso, o que só não aconteceu devido à intervenção de dom Manuel e de Antônio Sales.

Da mesma forma, perseguido pela polícia, foi ele, em 8 de outubro de 1930, a anunciar no Palacete Ceará (prédio da Caixa Econômica do Centro) a vitória da Revolução e a deposição do presidente Matos Peixoto, o “dançarino”, sendo levado nos braços do povo para o coreto da praça onde discursou sob aplausos efusivos: “Como um tubo de matéria fecal jogada ao monturo, caiu o governo podre que infelicitava o Ceará!”, bradava.

Em 2021, o jornal O POVO aniversaria: 93 anos, dia a dia, de histórias do Ceará, o seu maior acervo jornalístico, seja na cultura, na arte, na política, na economia, nos esportes, na ciência e em todas as demais áreas, além de consolidar o seu papel de grande prestador de serviços ao povo cearense.




 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Mostra Especial Rogério Sganzerla: 75 anos, no Cine São Luiz (programação de janeiro)

 


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Em JANEIRO, o Cineteatro São Luiz coloca em cartaz GRATUITAMENTE a Mostra Rogério Sganzerla - 75 anos.

Serão exibidos seis filmes deste que é um dos cineastas mais importantes do Brasil.

Sganzerla é sinônimo de genialidade. Em 1968, aos 22 anos de idade, realizou o filme “O Bandido da Luz Vermelha”, indicado pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade.

Durante todo o mês a mostra estará em cartaz. Serão adotadas medidas de segurança sanitária, com limitação da capacidade de acolhimento de público.

Confira, abaixo, os títulos e horários:

·       O Signo do Caos: 7/1 às 17h

·       Tudo é Brasil: 8/1 às 16h45

·       O Bandido da Luz Vermelha: 9/1 às 16h45

·       Nem tudo é verdade: 14/1 às 17h15

·       Sem Essa, Aranha: 15/1 às 17h

·       Copacabana Mon Amour: 16/1 às 14h

·       O Signo do Caos: 21/1 às 17h

·       Tudo é Brasil: 22/1 às 16h45

·       O Bandido da Luz Vermelha: 23/1 às 16h45

·       Nem tudo é verdade: 28/1 às 17h15

·       Sem Essa, Aranha: 29/1 às 17h

·       Copacabana Mon Amour: 30/1 às 14h



“Pretende Ser Escritor?”, de Rinaldo de Fernandes para o “Rascunho”


Publicado originalmente no jornal Rascunho, edição de janeiro/2021.

 

A escrita literária nunca resulta só do impulso, da inspiração. Precisa também de processos racionais, de técnicas, enfim, de uma elaboração consciente. O escritor que se apressa em publicar, sem lapidar ou pensar exaustivamente o seu texto, corre o risco de apresentar para o seu eventual leitor material de pouca ou nenhuma qualidade.

Não se faz literatura só com os sentimentos, com as emoções, mas sobretudo com a linguagem, com a palavra bem pensada, com muita elaboração textual. Todo escritor, por outro lado, precisa ter como base a obra de outros escritores. Ser influenciado por um bom autor, pelo menos no início da carreira, é positivo. Depois é preciso encontrar uma dicção própria.

Para o jovem que pretende se enveredar pela ficção, por exemplo, ler Graciliano Ramos poderá ser muito proveitoso. Graciliano é um autor de estilo conciso, de frase enxuta, sem derramamentos. Também será extremamente benéfica a leitura de Machado de Assis, autor de estilo clássico, límpido, comunicativo.

Outro autor de prosa enxuta, elíptica, é o contista paranaense Dalton Trevisan. É muito importante para quem escreve ter boas ou consagradas referências literárias. E sempre estar lendo certos autores contemporâneos ou mesmo relendo seus autores preferidos.

Por fim, a questão do prazer da escrita. Além de lidar com a materialidade da língua, de se expressar através das palavras, há ainda, para o ficcionista, o imaginário, a fantasia com que ele trabalha. Manejar palavras é algo de fato trabalhoso, mas que dá muito prazer ao ficcionista. Assim como é prazeroso mobilizar a fantasia, coabitar os mesmos ambientes de seus personagens, entrar na pele de cada uma das figuras que ele cria em suas ficções.



 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

"Pandemia Didática", de Raymundo Netto para O POVO


     O ano de 2020 não foi apenas o ano da pandemia, mas de aprendizado.

É certo que a história mundial desse nefasto agente agressor não será esquecida, em especial por aqueles que perderam familiares e/ou amigos durante a sua vigência. Também como é certo que culturas, estratégias e hábitos “novos” deverão permanecer e outros serão criados na iminência de prováveis – por que não? – novos agentes potencialmente perigosos em um futuro – se deixarmos esse futuro acontecer.

É incrível que um germe tenha o poder de fazer sumir os sorrisos, não apenas pelo uso protocolar das máscaras, mas pela insegurança, pelo medo, pela constatação de nossa pequenez e fragilidade diante do universo.

Infelizmente não pensamos nisso todos os dias, pois se o fizéssemos não teríamos coragem nem de jogar papel no chão, desperdiçar água na lavagem de carros ou de calçadas e das torneiras de casa, entre outros maus costumes que nós ainda teremos que assistir, pois com tudo isso que aconteceu e que acontece, homens e mulheres ainda se unirão todos os dias, na sua irresponsabilidade e descompromisso rotineiros, para transformar esse mundo num local pior e impossível de viver.

A hipocrisia, o consumismo, a ignorância, o preconceito, a violência, entre tantos outros atributos de uma não civilização, em pleno século XXI, são encontrados em cada esquina, muito bem maquiados e vestidos, com ares de bem-sucedidos, privilegiados muitas vezes por “padrinhos” ou eleitos em “temerosas transações”, bastando um pouquinho de convivência ou a emissão de umas poucas frases para se perceber tratar-se de uma farsa, alguém “que se passa”, vazia e inútil.

Muitas dessas pessoas (parasitas) agem toxicamente na sociedade, contaminando a outros iguais na sua incapacidade de leitura de mundo ou de empatia, sem chance de reflexão e/ou de crítica, prisioneiros do seu exclusivo querer, do seu individualismo, da sua mania de julgar os outros pela sua história cômoda de privilégios.

Contudo, disfarçam bem, sorriem bastante, aparentam generosidade e fé, porque necessitam de aprovação, precisam ser reconhecidos. Eles, muitas vezes, ocupam cargos em instituições públicas e privadas – e pasmem: até educacionais e órgãos do Poder Público – e nelas atuam como capachos, uns lambe-botas, prontos a servir e a vender a alma se preciso para não perder o assento que, pela competência e talento, jamais conseguiriam. Porém, estarem lá já denuncia o nosso fracasso.

Muitos, em atitude fascista e em prol de fomentar a sua cruel e tirânica perseguição social – compreender a democracia para eles é impossível –, usam a bandeira de suas pátrias e o discurso religioso como escudos, conquistando milhares de pessoas anestesiadas pelo ideal da salvação espiritual ou cantadores automáticos de hinos. Não entendem que a bandeira de um país é apenas um trapo velho se não tratamos de cuidar daquilo que ela representa, que é o seu povo, as suas riquezas (naturais, materiais, imateriais), a sua cultura, a sua identidade, elementos hoje que estão sendo covardemente abatidos.

A pandemia nos revelou muita coisa sobre essa gente. Muitos dos seus (des)valores nos foram revelados. “Caíram as máscaras” (essas máscaras) e só não vê quem não quer, quem não aprendeu ou não consegue mais aprender nada, que vive nesse mundo plano da Idade Média, propagando um deus particular que serve unicamente a seus propósitos de ostentação e poder.

Eu acredito em mudança, no aprendizado planetário. Naqueles outros. Acredito em 2021.

 

domingo, 27 de dezembro de 2020

"A Sombra e sua Claridade", de Pedro Salgueiro para O POVO


No meio de tantas notícias ruins, tragédias públicas e privadas, governo necrófilo negacionista das ciências e pastores (também padres) charlatães, nos deparamos com diversas reações ao caos, desde o desespero à improvável tranquilidade; para procurar uma sociabilidade que se tornou difícil com as restrições de uma pandemia, vamos enchendo os muitos grupos das redes sociais na internet com nossa presença excessiva, onde gritos de dor e lamentos convivem com a pilhéria e ódio de outros, o desespero com a fé (nem sempre somente a religiosa, mas das artes, da política etc.), o riso inocente se mistura com o palavrão... o escárnio com o otimismo... infinitas são as misturas possíveis, quase todas explosivas, vezes cínicas, excludentes noutras.

Não há grupo, familiar ou de amigos, de reles conhecidos, de superficiais partidários dos mesmos afãs, que não tenha paredes trincadas, laços eternos azedados, amizades desfeitas, parentescos renegados, juras eternas esquecidas... Novos pactos de amor e ódio, união ou intolerância vão fincando raízes: nunca mais seremos os mesmos!, dizem uns; com o sofrimento havemos de melhorar!, esperam outros... Ah, não, o ser humano será sempre o mesmo!, desdenham os pessimistas... Deus está na frente de tudo!, acreditam outros... E dessa mistura ampla e rasa vão surgindo verdades provisórias e ligeiras... que não sabemos aonde vão dar.

Nosso humor estará refém dessa rede de intrincada de opiniões, suas intrigas e soluções: estou triste e procuro um amigo ou grupo mais leve que me libere o enorme peso; quando mais revoltado vou às cavernas da ira de outros nichos buscar pólvora para meus estopins... Vivo, pois, a mercê dos meus e dos outros humores (não seriam horrores?). Não só nas gentes de carne e osso procuro âncoras, trisco nas músicas, peças e livros: dia desses desisti de conversar com um amigo quase sempre bem-humorado, mas que nesse dito dia estava deverasmente intratável: “Tudo em paz por aí?”, iniciei otimista. “Como assim?”, me respostou com outra pergunta. “Como poderia, né!?”, apaziguou... Mudei de assunto, percebendo que não teria arrego nem consolo. Desisti e fui para um dos meus livros de segurança à cabeceira (O Barril Mágico, de Bernard Malamud); olhei onde o marcador estava e continuei a leitura: “Davidov, escrivão, abriu a porta sem bater, entrou mancando no cômodo e sentou-se, cansado. Pegou o caderno de anotações e pôs-se a trabalhar. Rosen, ex-vendedor de café, abatido, com olhos sem esperança, estava sentado, imóvel, com as pernas cruzadas em sua cama estreita. O cômodo era quadrado, limpo, porém frio, iluminado por um globo de luz fraca. Eram poucos os móveis: a cama, uma cadeira dobrável, uma pequena mesa, velhas cômodas sem pintura – não havia armários, tampouco havia necessidade deles – e uma pequena pia com um pedacinho de sabão verde barato na saboneteira. O cheiro forte do sabão se espalhava no ar. A velha persiana preta estava totalmente baixada, o que surpreendeu Davidov.

      – Por que não levanta a persiana? – perguntou ele.

      – Deixe como está.

      – Por quê? Está claro lá fora.

      – Quem precisa de claridade?

      – Então do que é que o senhor precisa?

      – De claridade é que não é – respondeu Rosen.”

Percebi que mesmo no livro continuava conversando com o amigo depressivo, então larguei o volume e fui tentar um cochilo.




 

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

"O Espelho", de Raymundo Netto para O POVO


 

Circulou em vermelho o anúncio de jornal.

Viera do sertão esperançando melhoras de vida. À procura de um emprego, tinha passados os dias e, mesmo batendo em diversas portas, só recebia nãos.

Fora acolhido à casa de um irmão e passava bem tantas e quantas vezes, porém, de um momento para outro, ansiou empregar-se sem tardança.

Tudo porque percebera que a cunhada se dava ao entusiasmo de sua presença. Dias-há, a sonsa dera para cruzar seu caminho a camisolas e distraía-se: porta do banheiro aberta quando a feita do banho. Ademais, nunca levava a toalha para o banheiro. Era chegar ao chuveiro e gritar: “Fulano, traz a minha toalha... Eu esqueci!”

Temia que seu irmão percebesse a folga da esposa e viesse lhe tomar satisfações.

Decidiu: tão logo arranjasse um emprego, fosse qual fosse, alugaria um cantinho, um quarto-e-sala qualquer, mas sairia dali antes que o pior se abancasse.

Naquele dia, então, acordara mais disposto, diferente, entusiasmado. Refletia esperanças!

Cedo, encaminhou-se ao endereço do anúncio: um escritório. Cerrou com os dedos o nó meio que penso da gravata, sacudiu a mão nos ombros, segurou firme a pasta do currículo e adentrou.

Sentou-se na recepção entre outros candidatos e esperou a sua vez.

Por motivo ignorado, a secretária logo lhe devotou um olhar sorridente e sedutor, desusando o recato. Encabulado, respondeu com falsa simpatia e polidez.

Chegara a sua vez, finalmente. Ela o pegou pela mão e o encaminhou, com olhos fitos nele, à gerente. Esta, por sua vez, pareceu surpresa, admirada com sua presença e, imediatamente, para seu estranhamento, pôs-se a tratá-lo com gentilezas explícitas.

Ela o ouvia, o ouvia, mas limitava-se a observá-lo em olhar profundo, tão íntimo e contemplativo que o confundia. Foi quando ela moveu os lábios uma única vez e sussurrou suspirosa: Já está contratado! Só!

Sem acreditar, ele perguntou o que iria fazer, qual a sua função, mas ela insistia: não importava, faria qualquer coisa, ou coisa nenhuma; poderia, se assim o quisesse, e se não, que não o fizesse... Estava contratado!

Agradeceu e, quando quis sair, ainda ouviu a insistência da gerente e da secretária: ficasse mais um bocadinho...

Na rua, deu-se o mesmo: as mulheres, de todos os lados, miravam-lhe com sorrisos desvelados, irrefletidos, sem pudores, enternecidos... Esbarravam-se nele, como ao acaso, como quisessem vê-lo mais de perto, tocar-lhe, senti-lo.

Correu para casa, trancou a porta e foi ao banheiro. Torceu para que a cunhada ali não estivesse.

Encostando-se à pia, teve a conclusiva revelação: ante o armário do banheiro, percebeu que, ao invés de sua costumeira face, havia apenas um espelho!