segunda-feira, 9 de novembro de 2020

"O Estandarte do Coronel", de Raymundo Netto para O POVO


Coronel Oswaldo era um viúvo octogenário. O síndico perfeito. Homem de temperamento forte e austero, se distinguia pela invulgar habilidade de comando, fruto de anos dedicados às Forças Armadas de um Brasil. Procurassem, fosse na hora que fosse, acolhia pacientemente as lamentações das moradoras — os maridos não lhes davam a menor bola — que o palmeavam e o exaltavam na hora da janta: “Que homem esse é o seu Oswaldo!”

Entretanto, guardava ele um silêncio: a doraguda de um falo desanimado. Para o orgulhoso militar, imperdoável. Soube, porém, num fortuito dia, e decidiu implantar uma prótese peniana. Tudo envolto no mais absoluto sigilo, claro, e que Deus o livrasse se alguém supusesse um dia daquela sua vergonhosa fragilidade!

Com a tecnologia a seu favor, Oswaldo não deixaria mais de bulir em seu brinquedo. Nem acreditava naquilo. Soubesse, teria feito antes... Passou a querer a toda hora, a todo instante. Fosse mulher, passasse por sua revista, agora sabia: apertava aquela bombinha na mais segura possibilidade.

As domésticas, diaristas, as mocinhas da rua e mesmo uma ou outra colega de faculdade da filha, vacilassem, o coronel as colocava em sua linha de fogo.

Mas, iniciada a brincadeira, ao acionar a bombinha milagrosa, tinha ele a mania de exigir da companheira a apresentação de continência ao “glorioso estandarte”, como assim apelidara o membro ora ascendente e vigoroso.

As coitadas, a princípio, o faziam por graça, depois percebiam-lhe o modo estranho, exigido cerimonialmente a cada nova intervenção. Atrevessem dispensar-lhe tal continência, o desagrado era profundo, de esboçar uma carantonha, puxar as parceiras ao colo e dar-lhes tapas vigorosos na bunda, que era para discipliná-las. A ordem, então, seria no tapa!

Daí, em pouco, a mania do coronel passou a povoar o clássico fuxico das áreas de serviço do prédio. As senhoras fingiam, outras nem tanto, mas enojavam-se da tara do velho. Os moleques de rua, montados em bicicletas, passavam-lhe a prestar continências gargalhosas. Os maridos não deixavam mais suas mulheres trocarem miúdos com aquele homem, outrora muleta útil do matrimônio alheio, que, por fim, teve a sua primeira grande derrota em campanha sindical, desde que passara a residir no “Morada das Palmeiras”. Estava, enfim, des-mo-ra-li-za-do!

Sem o posto sindical, vítima de chacotas, amargando a solidão da popularidade, o pobre e inútil coronel tombou. Encostou os coturnos.

A cerimônia fúnebre se deu no salão de festas do condomínio. As senhoras rezavam pela alma daquele pecador que, apenas em seus últimos tempos, seduzido foi pelo mundano. A filha era, de fato, a única a dispensá-lo o pranto sincero. Foi quando o absurdo se deu: ao jogar-se com uma coroa de flores sobre o corpo paterno, sabe-se lá como, acionou a dita bombinha e o velho "estandarte", resistindo à morte, apontou ao céu. Abismada e sem saber o que fazer, a filha caiu para trás numa vergonha não apenas tão grande quanto à da plateia feminina que, maquinalmente, batia a última e desejada continência ao coronel.




 

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

"Dolorosa", de Raymundo Netto para O POVO


 A sisuda e determinada viuvez de Dolorosa era de causar espanto até no falecido.

Não fosse para comprar o pão matutino, nunca de sair às ruas, de oferecer-se em janela e muito menos de se desocupar em calçada. Durante o dia, flagrada em oração diante do bem cuidado oratório onde descansavam aromáticas flores do campo em torno do derradeiro retrato de seu inesquecível amor. Depois, por horas, calava a respiração na imagem do morto, sabido que impressa ainda mais no peito em luto. Assegurava cumprir a clausura em vida, pois se dava por jurada ao ser amado, aquele que, dizia, só lhe contrariara uma única vez: na prematura morte!

Assistindo àquele martírio, imploravam os amigos: “Tão moça. Vai, mulher, viva!”. Para Dolorosa, todavia, amor que o tempo consome não é amor. O verdadeiro, único e exclusivo amor, herança maior do Deus que um dia os unira, sobrepujava a tudo, inclusive, a ausência física, merecendo ele toda e qualquer renúncia. Realmente era esse seu pensamento. Uma agonia, porém, a enredara, justo na solidão das eternas noites, quando suores e desejos eram contidos violentamente a pedradas de vergonha pela casta consciência. Sim, vivia ela um dilema secreto: o despertar do querer por outro homem.

João era um jovem auxiliar de padaria, bem mais moço que Dolorosa. Há meses, naquele estabelecimento, um descuido: trocaram olhares, e, num desses, Dolorosa fraquejou. No momento não sabia, mas João já a observava. Soube ele daquela viuvez defendida a todo custo. Isso o atraía profundamente. Também ele, às noites, em seu catre cheirando a farinha, se via perdido em lençol e no domínio da branquidão do corpo intacto daquela mulher. Imaginava ela entregue e em delírios, por tanto vigor reprimido. Naquelas manhãs, mesmo quando apartados pela lonjura incalculável do balcão, lia, escrito nos olhos divinos dela, a recusa ao toque alheio. Vê-la, sentir a polpa dos seus dedos ao receber os trocados do pão, buscá-la no interior das janelas da casa escura, passaram a ser as suas motivações de existir nesse mundo.

Um dia, Dolorosa despertou lívida e mais cedo que o de costume. Aguardou a abertura das portas de ferro da padaria. Correu ao longo do balcão e dirigiu-se ao rapaz. Entregou-lhe um dinheiro: “Moço, preciso ir à rua. Você poderia levar meus pães mais tarde em minha casa?”

João, surpreso, não recusaria. Assim, ao vê-la passar de volta, imediatamente enrolou os pães e plantou-se à sua porta, cuja soleira, há anos, não cruzava um coração masculino.

Dolorosa o aguardava. Ávida, abriu a porta e, por instantes, os dois permaneceram parados e mudos. O que João não sabia é que ela não o via exatamente como a vida o pintara, mas, sim, um quadro mórbido e repugnante. O corpo em ruínas e farrapos. Os ossos e traços de músculos revelados por entre carnes escuras carcomidas em vermes. A caveira sorridente a denunciar olhos amarelecidos, a língua negra e seca. Apenas os restos da imagem do homem que um dia o marido, e não o João, foi.

Depois, cerrada a porta, a respiração de ambos abrasava a casa de tal modo que os espelhos da sala embaçaram, recusando assistir ao ritual feroz e lascivo daqueles amantes que exalavam, no ardor do suor e do amor, o perfume frio e acolhedor da mais fiel sepultura.



terça-feira, 27 de outubro de 2020

"Houve uma vez um Anarquismo em Fortaleza", de Tião Ponte para o AlmanaCULTURA


 Tião Ponte ao lado de "Flor Punk"

Foi assim:

No início dos anos 1980, à medida q a ditadura militar caía feito um viaduto, crescia um sôfrego desejo de liberdade no país após tantos anos de mordaça. Sem esperar pela oficialização do fim da ditadura – pois quem sabe faz a hora, não espera acontecer –, a nossa gente sofrida despediu-se da dor, voltou a sorrir e já falava, cantava, encenava e publicava expressões e criações sem de medo de censura, prisão e tortura.

Duas dessas manifestações, no entanto, foram surpreendentes: a volta do anarquismo depois de quase cem anos, e o aparecimento do movimento punk. No meio disso tudo, eu fazia o mestrado em São Paulo e também fiquei tomado por aquele clima contagiante, mas especialmente tocado por esses dois movimentos.

De uma hora pra outra, emergiam núcleos anarquistas em São Paulo e em outros estados; na Bahia o jornal libertário Inimigo do Rei voltava a ser publicado, enquanto livros de história do Brasil resgatavam o movimento anarquista brasileiro durante a Primeira República.

Paralelamente, jovens proletários do ABC paulista e de subúrbios de Sampa criavam o movimento punk no país. Suas roupas, falas, zines e canções explicitavam q punk e anarquismo estavam intrinsecamente ligados.

Cheguei em São Paulo em 82 com cabelo grande, barba, mochila de couro, roupa colorida, casado, comunista e assoviando Chico e Victor Jara. Voltei para Fortaleza em 84 de cabelo curto e espetado, sem barba, com roupas escuras, separado, anarquista e trazendo LPs dos Ramones e dos Ratos do Porão.

Voltei também muito desejante de criar um grupo anarquista de estudos & ação q contasse também com a participação dos punks da cidade, caso existissem. Existiam: tinham bandas, faziam zines, sofriam repressão policial e participaram de bom grado do nosso “Coletivo Anarquista de Fortaleza”. Mais: embasbacaram e sacudiram os esqueletos da multidão que compareceu às duas festas que realizamos, uma na quadra do CEU e outra no Pirata Bar (que, à época, estava revolucionando a noite da cidade). Tais festas foram notícias no O POVO e serviram para lançarmos nosso zine O Mutante Visionário e vender exemplares do Inimigo do Rei, já q havíamos nos associados ao grupo baiano que o editava.





Havia dois líderes naturais entre os punks, o Dedé Podre e a Flor Punk. Esta era vocalista, letrista e baixista da Resistência Desarmada, primeira banda de rock de Fortaleza formada só por mulheres.

Creio que aprendemos mais com os punks do q eles conosco. Eles tinham a vivência anarco-punk cotidiana e de rua q nós outros integrantes, de classe média, não tínhamos.

Solidariedade, companheirismo, debates, performances e fruições marcaram a existência do nosso Coletivo e da nossa convivência com os punks nos três anos q durou essa curta, para mim inesquecível, viagem.


 

PS: Quase 40 anos depois, os LPs dos Ramones e dos Ratos do Porão continuam convivendo numa boa com os dos Chico e do Victor Jara na minha discoteca. 

 


quinta-feira, 22 de outubro de 2020

"ARTE LITERÁRIA VERSUS MERCADO EDITORIAL: DUAS FACES DA MESMA MOEDA?", com Raymundo Netto (23.10)


Clique na Imagem para Ampliar!

Palestra Virtual

ARTE LITERÁRIA VERSUS MERCADO EDITORIAL:

DUAS FACES DA MESMA MOEDA?

Data e Horário: 23 de Outubro (18 horas)

INSCRIÇÕES GRATUITAS: 

https://doity.com.br/moranafilosofiaempandemia-23deoutubro

 

APRESENTAÇÃO: Raymundo Netto (escritor, editor, produtor cultural e gerente editorial e de projetos da Fundação Demócrito Rocha-FDR)

 

SINOPSE: Neste encontro, discorreremos sobre o fazer literário e as regras tácitas ou não que regem o mercado editorial contemporâneo. Qual o papel do(a) escritor(a), quais as suas expectativas e anseios, por que escreve e porque escreve o que escreve, onde quer chegar, quais as suas frustrações e por que elas existem. O conflito entre criador e criatura em um convite para refletirmos juntos.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura. Mercado editorial. Escrita Literária. Profissão Escritor.


SOBRE O PALESTRANTE: Jornalista, escritor, editor e produtor cultural. Autor de Um Conto no Passado: cadeiras na calçadaOs Acangapebas (Prêmio Osmundo Pontes de Literatura, da Academia Cearense de Letras), Crônicas Absurdas de Segunda (finalista do Prêmio Jabuti), Quando o Amor é de Graça!Cronologia Comentada de Juvenal GalenoCentro: um coração malamadoPadre Cícero: o filmeNilto Maciel: perfil biográfico; e dos infantojuvenis A Bola da VezA Casa de Todos e de NinguémOs Tributos e a CidadeBoto Cinza Cor de Chuva. Cronista convidado do Vida &Arte do jornal O POVO desde 2007. Coeditor das revistas CAOS PortátilPara Mamíferos e curador da Maracajá; Coordenador de Políticas do Livro e de Acervos da Secult-CE (2008-2011), curador da IX Bienal Internacional do Livro do Ceará, redator do Prêmio Literário para Autor Cearense e coordenador da I Feira do Livro do Ceará em Cabo Verde. Recebeu a Medalha Boticário Ferreira em 2012. É gerente editorial e de projetos da Fundação Demócrito Rocha.

 

INSCREVA-SE NO CANAL DO MORA NA FILOSOFIA: 

youtube.com/moranafilosofiaufal

 

INFORMAÇÕES ADICIONAIS SOBRE O PALESTRANTE:

·         Escritor cearense Raymundo Netto é finalista do Prêmio Jabuti:

https://www.opovo.com.br/noticias/fortaleza/2016/10/escritor-cearense-raymundo-netto-e-finalista-do-premio-jabuti.html

 

·         LPA com Raymundo Netto - O QUE A LITERATURA FAZ COM VOCÊ?:

https://www.youtube.com/watch?v=RSyXFF4mg5g

 

·         CABECEIRA 2 | Raymundo Netto:

https://www.youtube.com/watch?v=KVPaqZvesDU

 

·         CABECEIRA 1 | Raymundo Netto:

https://www.youtube.com/watch?v=t0LDUvOEDKU

 

·         PROGRAMA DIÁLOGO - RAYMUNDO NETTO - Escritor e Produtor Cultural:

https://www.youtube.com/watch?v=mArD-cFC9Ko

 

·         Revsita Maracajá:

http://fdr.org.br/maracaja/

 

Mora na Filosofia (Blog): 

http://moranafilosofiaufal.blogspot.com/

 

Mora na Filosofia (Facebook): 

https://www.facebook.com/nafilosofiaufal/

 

Mora na Filosofia (Instagram): 

https://www.instagram.com/moranafilosofiaufal/

 

ORGANIZAÇÃO:

Maxwell Morais de Lima Filho

Curso de Licenciatura em Filosofia - ICHCA/UFAL

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6620816919487159

Site do Curso: http://www.ichca.ufal.br/graduacao/filosofia/

Telefone: 82 3214-1325

Endereço: ICHCA (Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes)

UFAL – Universidade Federal de Alagoas / Campus A. C. Simões

Avenida Lourival Melo Mota, s/n, Cidade Universitária – Maceió – AL

CEP: 57072-900


 

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

"Nataly Pinho, a ilustradora", de Pedro Salgueiro para O POVO


Nataly Pinho
 

Jamais cogitei escrever deliberadamente “para” crianças, embora sempre tenha lido com prazer autores especialistas ou eventuais do gênero; talvez por achar, ingenuamente, que teria que fazer concessões temáticas e estilísticas para agradar ao público ledor “de menor”. Claro que era não só preconceito, mas principalmente ignorância sobre o assunto.

Um amigo me alertou sobre alguns contos meus em que meninos eram protagonistas, pensei vagamente em reuni-los num livrete pretensamente infantojuvenil, cabotinamente com a intenção de aproveitar a lucrativa onda de escrever para alunos; meu pudor me salvou mais uma vez, resisti até agora quando a Editora Moinhos, capitaneada pelo Nathan Matos, resolveu juntá-los no volume Meninos & outros demônios.

Mas um pouco antes disso criei coragem e retomei certa história que há anos boiava na cabeça, uma improvável amizade entre um garoto de classe remediada e outro que morava no Campo do América, comunidade pobre incrustada milagrosamente no meio dos bairros burgueses de nossa sonsa loirinha destrambelhada pelo sol: desse novelo saiu Beto bola, Beto bala.

Comecei a história, que foi crescendo, virando páginas e ganhando vida própria; e logo em seguida, muito inseguro com o tema e a linguagem, passei a mostrá-la para amigos escritores, e foi numa visita ao poeta Alves de Aquino que meu texto chegou às mãos dessa fantástica artista-plástica Nataly Pinho, ainda cursando Letras na UFC e titubeante em se dedicar de corpo e alma à pintura, muito ligada à faculdade de Letras e, posteriormente, ao magistério no IFCE, onde é uma dedicada professora no Aracati.

Se eu estava temeroso em relação à narrativa, perdi toda a insegurança quando vi os esboços de ilustrações feitos por ela; daquele momento em diante tive certeza que o livro um dia sairia, e certamente “pregados” naquelas ilustrações, que “ainda precisavam de uns retoques”, segundo a minuciosa professora-pintora que nasceu em Fortaleza e se criou em Pacajus.

Da época desse primeiro contato até hoje, a história e os desenhos (competentemente fotografados pelo Pedro Humberto) caminharam juntos por mais de dez anos, entraram na fila de 2 editoras (uma delas me retornou com o “boneco” pronto, mas com outras ilustrações), quando participou de um edital da SecultCE e finalmente virou livro, com um detalhe de que no projeto foram utilizadas todas as pinturas feitas para serem escolhidas apenas algumas, tão empolgado fiquei com a arte da ilustradora.

Agora os 2 autores assinamos a capa, pois – nesse casamento de texto com ilustração – ambos merecem o nome de coautores da obra, visto que andaram juntos desde as fases titubeantes de esboços até esta dolorosa de espera do término da pandemia para que se possa fazer um discreto lançamento conjunto, quando farei questão que Nataly Pinho esteja ao lado autografando, em parceria, esse sofrido, porém prazeroso, projeto de mais de uma década de espinhosa caminhada.



sábado, 26 de setembro de 2020

"Carmélia", de Raymundo Netto para O POVO

 

“1, 2, 3 Carmélia! 1, 2, 3 Carmélia!”

A criançada, como em quase todas as tardes dominicais, se reunia no meio da praça ensombrada de árvores pacatas a enredar-se nas mais diversas brincadeiras infantis, sendo, entre todas, a mais cobiçada a de pique-esconde. Porém não o era para Carmélia, uma menininha desengonçada, magricela e deveras distraída, que mesmo portadora do verme filosófico e do hábito de guardar latas, sentia a curiosa necessidade de convivência com outros, talvez para ter a certeza de que existia de verdade ou que ainda estava viva.

Contudo, havia naquela brincadeira uma frustração intolerável: era sempre a primeira a ser encontrada! Quando isso acontecia, padecia horrores, e a partir de então, era vê-la ali, no pique, sentada inerte como um poste, assistindo à tardia chegada dos outros participantes. Alguns até conseguiam, com uma incompreensiva habilidade, chegar até o ponto e se salvar. Outros poderiam também ser encontrados pelo pegador, mas só após muito tempo, o que alargava a agonia da menina, sentindo-se diminuída, incapaz, ao contrário dos demais, eufóricos à espera daquele derradeiro redentor a gritar, para desespero do pegador: “1, 2, 3 Salve Todos!” Comum era ela voltar para casa arrasada, se jogando entre as suas latas e pensando alto, num ímpeto belchiórico de amar e mudar as coisas: “Eles verão... no domingo será diferente!”

Assim, naquela tarde, estava mudada – embora ninguém a notasse –, confiante, com ares de segredo. Não sabiam, durante a semana, Carmélia mapeara aquela praça de ponta a ponta, todos os espaços, buracos e esconderijos. Daí, como planejara, enquanto a pegadora fechava os olhos e contava, aos berros e ligeira, até 100, ela já sabia onde seria o seu perfeito escondedouro.

A menina era toda entusiasmo e animação. Ali, em completa escuridão, podia ouvir os passos e a correria seguidos da sentença: “1, 2, 3 João! João!” O menino deveria estar chorando de ódio, pensava. Era o primeiro. Não ela, mas ele. Com o tempo, ouviria um a um dos jogadores sendo denunciados pela pequena pegadora que, provavelmente, já estranhava o seu inexplicável paradeiro.

Roendo as unhas trêmulas, olhos imóveis na sua própria emoção, estampava um sorriso malino: “Não vão me encontrar, não vão!”

Passaram horas, dias, anos e ela prosseguia na brincadeira. Aquele cativeiro quase não a comportava mais, tinha fome, todavia gritava-lhe o espírito vingativo: “Acham que eu sou boba, mas não sou besta não. Eles vão ver...”

Um dia, entediada e incomodada com o silêncio, olhou com cuidado por cima de seu esconderijo e não viu ninguém. Estranhou também não encontrar a árvore escolhida como ponto do pique-esconde. Levantou-se com vagar e mesmo sem saber onde bateria o pique, pulava alto, as lágrimas cascateando nos olhos, numa alegria de circo: “1, 2, 3 Salve todos! Salve todos!... eu ganhei, eu ganhei!” E nenhum de seus coleguinhas apareceu. Ali, apenas alguns pedestres, garis e os pombos se admiravam daquela moça comprida e seminua a balançar o corpo com singular desembaraço.

E foi assim, tropeçando, às gargalhadas e com o coração retinto, que chegou em casa e encontrou a mãe, magra e envelhecida, a colocar a mesa. Vendo a filha despontar na soleira, olhou para o relógio da parede: “Até que enfim, Carmélia, a sopa já estava esfriando.”



segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Lançamento de "Quando o Amor é de Graça!", de Raymundo Netto, no Festival Letras & Músicas (25.9)


Clique na imagem para ampliar!

Festival Letras & Músicas

Data e Horário: 25 de setembro de 2020, às 16h30

Transmissão On-Line

festivalletrasemusicas.com.br

  

Novo livro de crônicas do escritor Raymundo Netto

chega às livrarias apaixonando os leitores.


“Num contraste essencial das coisas verdadeiras,

o amor é de graça e, por isso mesmo, não sai barato!”

(Raymundo Netto, Quando o amor é de graça!, pg. 10)

 

Em Quando o Amor é de Graça! (Ed. Dummar), de autoria do escritor cearense Raymundo Netto (1967), estão reunidas cerca de 50 crônicas, publicadas inicialmente entre 2007 e 2017 no jornal O POVO, em que o amor nos fala baixinho ao pé do ouvido.

Desta vez, o leitor é flechado por um cupido despedaçado, imagem que ilustra a quarta capa do livro, e que nos dá pistas de que muitas vezes histórias de amor não nos são tão românticas quanto parecem. Despedaçado, mas sem perder o humor característico dos seus textos cronísticos, Netto surpreende ao trazer com leveza assuntos, sobretudo, fugidios como a separação, a morte e as desventuras de amores não correspondidos ou findados prematuramente.

Para quem já acompanha o autor nos periódicos cearenses, a obra é um convite para a leitura despretensiosa e apaixonante como um flerte juvenil. Mas para quem ainda não se aventurou nas narrativas do autor, este também pode ser um ótimo primeiro encontro. Afinal, a narrativa curta permite uma leitura mais rápida e fluída de quem já nas primeiras páginas reconhece o caprichoso trabalho linguístico e inventivo do escritor.  É paixão à primeira vista!

A obra, que foi vencedora do Edital de Incentivo às Artes em sua categoria, conta ainda com apresentação do jornalista, poeta e editor Camilo Pestana e ilustrações do artista plástico Jabson Rodrigues. Prepare o seu coração e boas leituras!


SERVIÇO

Livro: Quando o Amor é de Graça!

Editora: Dummar (EDD)

Gênero: Crônicas

Onde comprar: Livraria Lamarca (Benfica, Fortaleza) e Livraria Dummar (na sede do jornal O POVO, Fortaleza) e também, para todo o país, na livraria digital livrariadummar.com.br

Preço: R$ 38,50

 

SOBRE RAYMUNDO NETTO

Jornalista, escritor, editor e produtor cultural. Entre as obras de ficção, é autor do romance Um Conto no Passado: cadeiras na calçada, ganhador do I Edital de Incentivo às Artes da Secult, de Os Acangapebas (contos), ganhador do Prêmio Osmundo Pontes da Academia Cearense de Letras e do Edital de Literatura da SecultFOR, de Crônicas Absurdas de Segunda, ganhador do Edital de Incentivo às Artes da Secult/CE e finalista do Prêmio Jabuti 2016 e de Quando o Amor é de Graça! (crônicas), ganhador do Edital de Incentivo às Artes da Secult/CE. Entre seus ensaios: Cronologia Comentada de Juvenal Galeno (coleção Nossa Cultura da Secult-CE), Centro: um coração mal-amado (coleção Pajeú da SeculFOR), Padre Cícero: o filme (coleção Memória do Audiovisual Cearense da FDR) e Nilto Maciel: perfil biográfico (coleção Terra Bárbara das EDR). Entre os infantojuvenis: A Bola da Vez, A Casa de Todos e de Ninguém; Os Tributos e a Cidade; Boto Cinza Cor de Chuva, pelas Edições Demócrito Rocha. Cronista convidado do caderno “Vida & Arte” do jornal O POVO desde 2007. Coeditor das revistas CAOS Portátil, Para Mamíferos e curador e editor da revista Maracajá (FDR); Coordenador de Políticas do Livro e de Acervos da Secult, responsável pela coordenação editorial das suas coleções (2008-2011), membro do Conselho Curador da IX Bienal Internacional do Livro do Ceará, redator e elaborador do Prêmio Literário para Autor(a) Cearense, coordenador da I Feira do Livro do Ceará em Cabo Verde e membro da Associação Amigos do Museu do Ceará. Recebeu a Medalha Boticário Ferreira em 2012. Desde 2009, mantém o blog AlmanaCULTURA. É gerente editorial e de projetos da Fundação Demócrito Rocha (FDR).





 

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

"Os Acangapebas", por Grecianny Carvalho Cordeiro


Crítica literária nunca fui, tampouco pretendo vir a ser. Sou apenas uma leitora inveterada e apaixonada que não se contém quando lê um livro que adora, e por isso mesmo deseja compartilhar seu encanto com outras pessoas.

Os Acangapebas, que em tupi-guarani significa “cabeça-chatas”, de autoria de Raymundo Netto, é justamente o tipo de livro que merece ser compartilhado.

O autor possui um estilo bem original; brinca com as palavras com elegância associada a uma leveza impressionante, capaz de inserir o leitor dentro de cada narrativa como se fora um protagonista. E então nos encontramos e nos perdemos em cada personagem; em cada cena, tão nítida em nossa imaginação que parecemos vivenciá-la; nos mais variados enredos cotidianos com desfechos surpreendentes; ao final, constatamos: a vida é realmente assim.

O pescador orgulhoso pelo filho escolher seguir sua profissão (“Luzeiros”); Cícera, a mulher que perdeu sua identidade com o casamento e não mais se reconhece (“Álbum de Fotografias”); Raimundo Arievaldo, o feliz dançarino que não perdia uma boa dança de salão (“O Tio Dançarino”);  a enfastiada rotina de um homem que quando saía de casa era “uma vontade de ir-se e de chegar-se” (“Em Pregos”); a angústia de alguém em depressão (“Portas Fechadas”); a desimportância de uma idosa, recolhida como lixo (“O Gato da Vovó”). Especialmente marcante é “Gêmeas”, sobre o pai que de tudo fazia para agradar as filhas que se rivalizavam, obrigando-o a uma difícil decisão diante de uma tragédia. Um pai “com a frágil e única esperança de não lhes ter decepcionado mais uma vez.”

 E quando imaginamos que leremos somente crônicas, o “Intermezzo” abre passagem para contos, igualmente magistrais. Destaco aqui, a emocionante história do palhaço Cambalhota, a guardar tantas dores atrás de sua máscara.

Parafraseando Raymundo Netto em “Cadeiras na Calçada”, confesso que, usando da prerrogativa de leitora, fiz uso dessa licença para mergulhar nas entranhas do pensamento e na alma de cada personagem a mim apresentados de uma forma tão encantadora.

Os Acangapebas não é livro para ler com pressa, é para degustar, compassadamente, delicadamente...

Grecianny Carvalho Cordeiro

Promotora de Justiça e romancista