segunda-feira, 25 de setembro de 2023

"O 'Livro das Ausências', de Hermínia Lima", por Raymundo Netto

 


Hoje é um dia especial, pois aqui nos reunimos, não apenas para celebrar mais um feito, um legado cultural de Hermínia Lima, que admiramos, enquanto mulher, mãe, amiga, militante, profissional e poeta, mas também porque neste ambiente ora respiramos, falamos, lemos e nos alimentamos de poesia.

Contudo, trago aqui uma constatação nada original, mas sempre necessária: a poesia é de uma inutilidade singular. No mínimo, uma utilidade inútil, como defendida por filósofos, estudiosos e até, com um certo embrulho no estômago, pelos próprios ou pelas próprias poetas ou poetisas.

Entre esses poetas, o marginal Alcides Buss, autor da obra Círculo Quadrado, que afirma que a autenticidade da poesia reside exatamente na sua inutilidade. E entende os poetas como “seres bastante incomuns que escrevem com o corpo todo”, o que os diferem dos demais escrevedores que usam só as mãos, os mais simples, ou aqueles que usam as mãos conjugadas à memória, à imaginação, ao pensamento. Mas nada, assegura ele, se compara ao poeta que escreve com o corpo todo.

E quando fala do corpo todo, admite que o seu corpo e o corpo do mundo também se entrelaçam, se fundem ou se completam sinergicamente, de maneira que o sol, a lua, as estrelas, o crepúsculo, as marés, os mares e os seus mistérios, as árvores, as flores que desabotoam nos jardins, os seus perfumes, os animais, as crianças, os homens, as mulheres, os seus amores ou dores, tudo, tudo é acolhido nesse corpo todo.

Sabemos que a poesia percorre um caminho indefinível que vai da pacífica oração ao exorcismo, da quase inocente magia à bruxaria, da sensação leve da harmonia à angústia do caos. Mas nunca, nunca é passiva.

Diante desse cenário, nos perguntamos para que serve à poesia... Ou talvez, a quem ela serve? Ao sistema consumista? À estrutura do poder, da política? À necessidade premente e imediata de lucro todo o tempo, toda a hora, a qualquer custo, como as demais engrenagens de nossa vida a nos escravizar, aprisionar, a nos adoecer, a nos arrebatar covardemente a vontade de viver? O que assistimos hoje é o amargor vencendo a doçura, a ternura que, juramos, não poderia ser perdida.

Não, a poesia é inegociável e, ao contrário das coisas mundanas, ela é livre, pois ninguém a possui e ao mesmo tempo ela, se a porta estiver aberta, nos encontra quando menos esperamos. Quando abrimos os olhos pela manhã ou ao chegar à janela e nos depararmos com a beleza ainda virgem do céu, de um sol despertando molinho, molinho... Quando diante do olhar cheio de vida de uma criança faladeira; quando nos é roubado aquele beijo, mesmo que ainda mudo, num instante em que parecia que nada, nada mais poderia nos acontecer; ou quando a xícara de café quente nos toca os lábios e divisamos coisas que não estão mais aqui, que se perderam em um dos desvãos de nossos caminhos. Sentimos os cheiros, os sabores, ouvimos as suas vozes e nos dá saudade... E saudade, como registra Neruda, é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já.

Hoje, quando a luz acordou o dia

Cada raio acordou em mim uma saudade.

Uma saudade agigantada,

Dilatada pelo pulsar de desbotadas lembranças.

Lembranças dos dias que não vivemos,

Dos encontros que não tivemos,

Do grito abafado pelo desejo contido.

Lembranças da chuva que ainda nuvem...

E v a p o r o u . . .

Até então falamos da poesia, agora falemos dos poemas.

Algumas pessoas, nós os chamamos de poetas e/ou poetisas, se aventuram e ousam com coragem, talento e renúncia a colher desse mundo imaterial os insumos e, tal qual Prometeu o fez, quando roubou o fogo dos deuses para entregar aos homens, modelam e transformam essa luminância poética em forma de poemas, disponibilizando-os para a humanidade.

É o que a Hermínia faz hoje ao nos oferecer o seu Livro das Ausências, uma coletânea de poemas captados desse universo muito íntimo da poeta, desse corpo em interação com o mundo, mesmo que apenas o seu, que ela classifica de ausências que cantam, que gritam, que pulsam, que saltam e que sangram.

E, em meio a eles, seus poemas, independentemente da classificação da autora, nos trazem outras ausências, entre elas as que nos calam, que nos confrontam, que nos devoram até o ponto de ser tão presentes na nossa vida.

O titã Prometeu foi punido por Zeus, que temia que, com o fogo, os homens pudessem se tornar tão poderosos quanto os deuses. A punição era dolorosa: Prometeu, eternamente amarrado a uma rocha, assistiria a uma águia a devorar seu fígado. O órgão se regeneraria diariamente, e, para todo o sempre, a tal águia o comeria.

A nossa poeta, que ora celebramos, nos fala em algum instante de verso: “o respirar enfermo, o peso insuportável de todas as dores do mundo”. E daí trazemos Vinicius: “assim como o poeta só é grande se sofrer” ou “que todo grande amor só é bem grande se for triste”.

Mas então ouvimos um conselho de Hermínia:

Há momentos em que o grito aprisionado

Se agiganta.

Nessas horas, o melhor,

É escancarar a porteira do peito

E permitir vazão

Ao que vem da garganta.

 

A ausência de alguém, de um tempo, de um lugar é um estado de alma. Algo que pode nos faltar materialmente, mesmo que sintamos ou saibamos nunca distantes, quando desse alguém, desse tempo ou lugar nós precisamos, bastando apenas nos conectarmos com a nossa, vamos chamar assim, consciência.

Há, no entanto certas ausências que parecem um sequestro de si, que por vezes nos doem tanto, principalmente enquanto estamos distraídos, e a gente acha até que não pode suportar:

As fotos no velho álbum

Trazem de volta uma saudade

Que rasga o tecido da tarde.

As fotos sorriem para mim

E me fazem chorar.

 

Marilena Chaui nos faz refletir que “falamos porque cremos nas palavras e nelas cremos porque cremos em nossos olhos: cremos que as coisas e os outros existem porque os vemos e que os vemos porque existem. Somos, pois, espontaneamente realistas.”

E é esse mundo realista e transbordante de poesia que encontramos na tessitura da obra de Hermínia, cuja seiva principal a percorrer suas páginas são memórias, sensações, lembramentos, desejos, delírios, despedidas e distâncias.

Tuas cordas nas minhas cordas,

Minha pele nas tuas mãos.

Tu, um vento; eu, uma canção.

Passaste, passei, passamos,

Em vão?

Hoje, somos sombra, ausência,

Saudade e silêncio,

Ou nuvem a dissolver-se

Na noite, na escuridão.

 

Hermínia escreve com todo o corpo. Cada ausência por ela segmentada nos traz a sua presença, uma faceta distinta e verdadeira, e é na verdade dessas saudades poetizadas é que as suas palavras nos tocam. O corpo da poeta em consonância com o corpo do mundo, de todo mundo. Memórias que também são nossas e nos são tão caras, pois são o nosso repertório de vida.

A casa adormeceu silenciosa.

Só as redes cantavam

Sua canção de punhos em movimento,

Acalantando o sono e os sonhos,

Nos braços alaranjados

Das maternas e ternas varandas,

Volutas ao vento vivo e violento

De um outubro saudoso e sonolento.

 

E mais adiante os seus fantasmas, quando seus medos gritavam saindo de sua boca; a chuva a cantar do lado de fora pela janela; o recanto seguro entre as pernas da mãe a pedalar na velha máquina de costura;  as cadeiras na calçada; o cavalo Ventania; o pião de madeira carrepeteando pelo chão e outras brincadeiras de menina-menino; os temperos-cheiros da avó, como beiju de 3 dias guardado para festejo no café da tarde; o seu avô Luís com seus bolsos repletos de bombons; as saudades da terra que a acolheu, São Luís do Maranhão, com suas histórias, seu bumba-meu-boi, da “batucada dos pandeirões, em couros febris tocando toadas na beirada das fogueiras”; o Bento, em tudo ali, o inesquecível Bento.

Além disso, para não trair sua trajetória, encontramos poemas com teor sensualíssimo, arrebatador, eu diria até terrivelmente apaixonados, de marcar com ferro e deixar em carne-viva de brasas:

Se eu pudesse,

Eu pousaria acesa,

Sobre ti,

Como um sol nascente,

De pele incandescente,

E beijaria, calma e solenemente,

Os teus desejos mais insanos.

Se eu pudesse,

Eu rasgaria a pele dos teus pudores,

Eu seria a soma de todos os teus amores,

Só para desaguar em ti,

Minha lava de anseios,

Sobre as tuas costas.

Se eu pudesse,

Eu te sufocaria com beijos,

E queimaria, com o meu vulcão,

Teus rebanhos apascentados,

Sobre tua tranquilidade de pastos.

 

Hermínia, minha amiga, agradeço demais, em nome de todas e todos nesta plateia, esse livro-presente, que honra e dignifica a poesia, a nossa literatura cearense e brasileira.

Hoje num panorama em que há tantos poetas e tão pouca poesia, chega a nós uma obra como essa em que ela está marcadamente presente, com a sua força e pulsar, assim como nós vemos você, e concordamos:

Quando uma leitura nos encanta,

O livro que nos fala nela,

Enquanto conta,

Também canta e acalanta

Nossos desencantos.

O livro acalma saudades

E peles inquietas.

Preenche lacunas abertas

E irriga o vale da vida

Saciando, com saberes,

Nossas sedes e ausências.

 

Meus mais sinceros parabéns.

 

Raymundo Netto, 23 de setembro de 2023



segunda-feira, 28 de agosto de 2023

"Síndico", de Raymundo Netto para O POVO


“Só pode estar roubando, quem mais faria questão de ser síndico?” Ele faria: o Sebastião. Desde criança, quando aquela tia chata lhe puxou a bochecha e lascou a pergunta clichê: “O que o Tiãozinho da titia vai ser quando crescer, hein, hein?”, ele jogou de lado a chupeta e respondeu franzindo a testa: “Sínico!”

A família toda voltou-se para o rebento, imaginou mil coisas, mas a mãe, recebedora da língua de fogo de pentecostes que lhe dá proficiência no idioma Bebês, traduziu com tranquilidade e surpresa: “Ele quis dizer síndico... mas o porquê eu não sei. Síndico?”

Para uma coleguinha mais tarde, em um papo entusiasmado de adolescente, Bastião confessava: “Não vejo a hora de ser síndico.” Esfregava as mãos com apetite e até babava quando acariciava ali os seus anseios: “o líder maior de um condomínio!”. A menininha sardenta, com sua tola incompreensão, apertava o indicador na testa e dizia: “Mas, Tião, ninguém quer ser síndico...” O rapaz olhou para a moça em uma superioridade hostil, riu com o canto da boca e contestou: “Não é querer, mas poder. Ser síndico é para os escolhidos. Se não entende isso, não me serve como esposa.” É claro que depois dessa a garota lhe deu as costas e ele nunca mais a viu.

Ao final do ensino médio, Tião, que se debruçava eternamente nas quatro operações, foi eleito em uma assembleia do prédio onde morava com sua família. Seria síndico, oficialmente, quite com suas obrigações condominiais. Nos próximos anos, jamais perderia o posto. Começara como voluntário, sem remuneração, mas devido à eficiência quase sacerdótica agora estava contratado.

Não parava em seu apartamento, a não ser para refeições e à noite para dormir, claro, se não faltasse luz ou água, se o motor da bomba ou do portão elétrico não queimasse, se viesse o porteiro, se o elevador não travasse, não houvesse eventos no Salão de Festas, briga de família nos corredores ou alguém com som às alturas depois das 22h... Resumindo, quase não dormia, mas às 6h estava de pé, próximo à guarita da portaria, cumprimentando e desejando bons-dias a todas e a todos.

Seu orgulho maior era um molho de incontáveis chaves coloridas que carregava para cima e para baixo, tilintando e anunciando a passagem do “manda-chuva” do condomínio, ao mesmo tempo que pesava-lhe o cós da calça, deixando à vista o rego das nádegas.

Por falta de um santo especialista, era devoto de são Pedro, o dos porteiros, e, cria que, por extensão, dos síndicos. Com ele pendurado em uma correntinha no pescoço, passava o dia entrando e saindo dos apartamentos quando convidado, o que acontecia com frequência, para ajudar as senhoras donas da casa, as filhas dessas donas ou suas diaristas nos assuntos mais banais, como trocar uma lâmpada, observar uma privada vazando, colocar um pesado garrafão de água sobre a pia, segurar um cesto, empurrar sofás.

Ele, prestativo, tinha tempo para tudo, inclusive para tomar um café e ouvir confissões daquelas pessoas solitárias.

Um dia, anunciou-se um incêndio em um dos apartamentos. Um bem grande. O porteiro interfonou a todos: “Evacuar! Evacuar”!

Tião bateu à porta dos condôminos da brigada de incêndio: ninguém! Foram os primeiros a chegar à calçada.

Rapidamente a fumaça e o fogo se espalharam por todo canto. Não se sabe como, nem ele acreditava, mas as mangueiras não ejetavam água e os extintores não davam vencimento.

Súbito, ouvia gritos desesperados, corria aos andares em brasas, com labaredas que escorriam até dos forros de gesso, e descia com aqueles moradores. Descia, mas iria voltar, poderia ter outros. Pedia que subissem com ele para ajudar. Ninguém subia: “É louco?”.

Os sprinklers estouravam um a um nos andares, porém, era tarde, o edifício era mesmo que ver um quadro de Pompeia. Mesmo assim, como um capitão deve afundar com seu navio, Tião não arredaria o pé dali.

Quando os bombeiros finalmente chegaram, encontraram, em meio ao ambiente úmido e esfumaçado, apenas destroços carbonizados do prédio e de seu maior guardião, reconhecido somente pelo molho de chaves a luzir à luz de lanternas tardias.





 

domingo, 13 de agosto de 2023

"Amor e Mussolini", de Raymundo Netto para O POVO


– Pelamordedeus, não fale em política, não fale!

Rosa parecia absolutamente transtornada ao convidar o namorado Vladimir para um jantar com seu pai, o velho Giuseppe: “Ele não é má pessoa, mas tem umas ideias...”

Vladimir a abraçou ternamente. Era da paz, boa gente como dizem, e a tranquilizava: “De boas, meu amor, acalme-se, vai dar tudo certo. Vou adorar o seu pai. Eu não te amo?”

Na marcada noite, Vladimir chegou pontualmente com um buquê de margaridas, sendo recebido por Rosa a manifestar um sorriso tão aflito, que ele não conseguiu esconder: “Você nunca trouxe outro namorado aqui antes, não é?”

Imediatamente por trás dela viria um alegre e gordo pai, seguido pelo irmão Benito, os quatro se apertando na soleira da porta: “Pode chiamarmi Pepe, figlio mio”, e questionou, “Vladimir é russo, non?” Abraçando-o, Pepe o conduziu pelo estreito corredor, deixando para trás Rosa a ralhar com o curioso e metido irmão.

“La mia casa, tua casa”, dizia Pepe, apresentando a sala de estar, que tinha, em lugar de destaque, um poster imenso de Benito Mussolini: “Nostro grande Duce Mussoliniani!”

Vladimir apenas sorria, intimidado e bastante comprimido pelo largo e forte abraço do velho que logo o levou à mesa de jantar, empurrou-o em uma cadeira e bradou pela Rosa: “Amore mio, viene qui!”

Rosa e Benito correram para a cozinha e passaram a preencher a toalha xadrez da mesa com diversos pratos com massas, molhos e cálices de vinho. No centro dela, uma garrafa verde encimada por uma vela que se derretia pelo gargalo. Os guardanapos eram verdes, brancos e vermelhos, numa clara alusão à bandeira italiana: “Sono um nazionalista. O país é la nostra famiglia, e Dio acima de tutto.” Ali, sem se perceber, Vladimir propôs: “Só nos falta dançar a Tarantella”. Um minuto de silêncio se fez. Rosa engasgou a seco e Benito olhou para o pai. Pepe, por instantes pensativo, se pôs a gargalhar: “Já gostei do ragazzo, já gostei”, tapeando forte nas costas do descarnado Vladimir a tossir, enquanto Pepe colocava um disco com obras de Verdi, Puccini e Vivaldi: “Questas músicas sono divini...”

Sentando à mesa, enfiou o garfo em seu primo piatto, e com suposto desinteresse, perguntou: “O que acha della democrazia?” Vladimir, surpreso, cuspiu vinho na mesa, Benito olhou fixamente para Vladimir e Rosa correu para cozinha para trazer mais guardanapos.

“É um regime para os piccolos”, afirmou Pepe. “La gente non está preparada para decidir. O presidente, este si, tem que ser forte, severo, para comandar la nazione.”

Vladimir assentia com a cabeça, mantendo a boca fechada a garfadas de espaguete, incomodado com o olhar fixo, assimétrico e quase demente de Benito à sua frente: “Por que a Rosa nunca me falou desse irmão?”, pensava.

Percebeu a namorada quase a não parar na cadeira, sempre encontrando um motivo para ir à cozinha, ao banheiro, e sempre voltando com os olhos úmidos, perceptivelmente constrangida. De repente, o Pepe deu um murro na mesa e os talheres quase chegaram ao teto: “TORTURA!”, gritou, “Chi non ama la própria Pátria merece la tortura!” Daí, pôs a mão no peito e cerrou os olhos com firmeza: “L’Italia è il paese più bello del mondo, su questo non ci piove!” Abriu os olhos, suspirou docemente, pegou a mão de Vladimir, apertando-a bastante, e sorriu: “Sono un progressista, figlio. Defendo la liberdade, graças a Dio.” E voltou os olhos cúmplices – assim como todos nós – para o Mussolini na parede, reverenciando-o. Depois, olhou com uma ruga na testa para o calado Vladimir e, trazendo três pequenos depósitos com molhos, perguntou: “Quale preferisci?” Sem saber que molhos eram aqueles, mas sem querer fazer desfeita, respondeu: “Hummm... O vermelho.”

Giuseppe, apoplético, levantou-se e puxou a toalha da mesa, derrubando tudo no chão: “Comunista! Diavolo! Vagabondo! Vai fuori da casa mia, ingrato!”

Rosa correu aos prantos para o seu quarto, enquanto Benito continuava com olhar fixo em Vladimir que, de supetão, arrancou o guardanapo vermelho da gola da camisa e respondeu: “O senhor é que é um maluco fascista... FASCISTA!”

E sem se despedir nem de Rosa, saiu em desabalada carreira, não antes de virar o quadro de Mussolini de cabeça para baixo, ao som das risadas patéticas de Benito.

 

 


 

segunda-feira, 31 de julho de 2023

"Preserve-se Raymundo Netto", de Armando Lucas para o AlmanaCULTURA


O que entra por um ouvido e sai pelo outro chama-se olvido. Dessa passagem costuma não restar qualquer marca, nem mesmo a título de cera residual. É que o esquecimento raspa tudo. Raymundo, como lembram os versos de Drummond, rima com mundo. Parece pouco!? Não o é. Os próprios versos de Carlos, aqui ainda o Drummond, em que se ouve dizer o que parece gracejo (gracejo no sentido de, diante de tão vasto mundo o que pode um homem comum senão tirar um sarro da relação entre a existência e os recursos formais possíveis da representação do real poetizável?), o guardam do alcance do olvido (este buraco negro da memória). Não é pouco rimar Raymundo com mundo, não é pequena a rima de mundo com Raymundo, porque nosso Raymundo dá as mãos ao mundo. Por isso, vale a pena. Sim, vale a pena preservar Raymundo Netto! Que não lhe cubra corpo e alma o manto do olvido! O que se deu com muitos; como se dará com outros tantos.

A sorte dos Carlos, a sorte do mundo, é haver um Raymundo com um pé na poesia e outro no mundo. O mundo de Raymundo Netto é vastíssimo, mas é sobretudo vastissimamente alencarino. Tirar esse mundo, em especial, o seu domínio cultural escrito, de debaixo do manto do esquecimento é uma das faces do trabalho desse Netto do pai de Deca Costa. Eu disse faces. Sim, são muitas. Não cabe aqui listá-las; haveria imprecisões.

Não sou pesquisador como ele o é. Não tenho, como ele a tem, dos Titãs a sanha para passar além da serra da Aratanha. Sou seu leitor; sou admirador de seu trabalho raymundo neste mundo alencarino. E, antes que eu apresente uma materialidade dessa admiração, digo que assim como há o manto do esquecimento, há o da lembrança.

Quando as crônicas quinzenais de segunda no jornal O POVO (absurdas, ordinárias ou memorialistas); quando os editais de incentivo à cultura; quando os cursos à distância pela Fundação Demócrito Rocha; quando a edição de livros sob sua curadoria pelas Edições Demócrito Rocha; quando esse tanto de fazeres diversos não possa mais estampar seu sorriso sempre acolhedor, que possa um novo manto sudário estampar sua face síntese: Raymundo Netto de mãos dadas com o mundo, o mundo alencarino!

Quanto à materialidade da minha admiração, ei-la: em 2019, por volta do mês de setembro, do forro da biblioteca escolar, pendurou-se um nome. Abaixo dele há uma estante: é uma gibiteca. Quando um aluno, em vez de tomar nas mãos um exemplar de HQ, dirige os olhos para o alto, invariavelmente duas são as perguntas que faz: o que é?; quem é? À primeira eu respondo sem delongas: “Um nome: Raymundo Netto”.

À segunda a resposta vem com um convite: "Senta que lá história!" Convoco os Acangapebas; leio uma crônica absurda de segunda; pondero que o amor pode sair barato quando é de graça; puxo um exemplar da coletânea Enem. Então, chamo sua atenção para o nome que aparece em todo esse material e pergunto: "Merece ou não merece estar lá no alto?"

O reconhecimento do merecimento se dá pela exclamação de assombro expressa pelos olhos arregalados e a confirmação desse assentimento, pelo movimento, com o queixo caído, da cabeça para cima e para baixo. É tudo? Não. Eventualmente, algum aluno pede pela explicitação da relação entre o nome e a gibiteca. Então, estendo as mãos e lhe ponho diante dos olhos, ainda arregalados, um fascículo do Curso Básico de Histórias em Quadrinhos, outro do Curso Quadrinhos em Sala de Aula: estratégias, instrumentos e aplicações, o livro História das Histórias em Quadrinhos no Ceará, a revista Antologia HQ. “Vês?” Raymundo Netto: ora organizador, ora coordenador geral e editorialista.
Raymundo rimar com mundo é muito na poesia do Carlos Drummond de Andrade. Pouco são um novo santo sudário e uma singela biblioteca de escola pública. Pois se uma biblioteca municipal inteira não está capaz de impedir que a memória criativa do Carlos Cavalcanti se perca em uma rua qualquer do esquecimento, o que dizer de duas ações pequenas que apenas fazem a vida, enquanto viva, valer a pena?

Os dois Carlos estão mortos. O Drummond é lembrado sempre que Raymundo rima com mundo. O Cavalcanti, olvidado, só é lembrado quando Raymundo, para além de rimar, é, por seu esforço, solução quase milagrosa (lembremos: de água fez-se vinho) para a transformação de seu esquecimento em sua lembrança.

Raymundo Netto está vivo! Vivíssimo! É vasto! Vastíssimo! É alencarino! Alencariníssimo! Por isso, pena em sua lida em prol da memória alencarina. Por isso, por sua pena nos convoca a pelejar em prol do alimento nativo que alimenta nossa memória alencarina. Sem Raymundo não saberíamos o valor do que poderíamos perder ao esquecimento. Com Raymundo sabemos que podemos pelo menos esgarçar o manto do esquecimento daquilo que deve permanecer vivo na lembrança. Viva Raymundo Netto! Preserve-se ( , )Raymundo Netto!




 

"Ora, Sapos!", de Raymundo Netto para O POVO


Pereira gastava muito dinheiro com dermatologistas.

Há tempos, inexplicavelmente, assistia à sua pele engrossar, descamar, tornar-se áspera e grudenta. O porquê daquilo ninguém sabia. Enquanto isso, o homem mais parecia um gato de tanto se lamber e se esfregar com pomadas, cremes, loções e sabonetes por horas intermináveis, e nada resolvia aquela aparente tragédia doméstica. Para piorar, em uma noite sinistra, não conseguiu dormir. Uma coceira profunda tomava-lhe o corpo e o juízo. Na manhã seguinte, ainda torpe, ao confrontar o espelho... Bufo: havia virado um sapo!

Naquele momento, sentiu-se aliviado, pois temia ser algo mais sério. Afinal, a coceira passou e o mistério estava ali resolvido. Retirou o pijama e, ainda diante do espelho, admirava-se. Pensou: “Gosto do verde...” Foi quando sentiu uma sede danada e correu para debaixo do chuveiro, onde se postou de cócoras por prolongado tempo.

Após o banho, tentou vestir-se para ir ao trabalho, mas sentindo-se sufocado colocou apenas a gravata e o chapeuzinho, saltando apressado para tomar a sua habitual condução.

Nem é preciso dizer o quanto o coitado penou. Não é fácil enfrentar as extensas filas, o empurra-empurra e a multidão que entope os transportes urbanos. Com sua estatura e aquelas patas não conseguia se segurar em canto nenhum. Apenas por um milagre não foi pisoteado no bonde pelo populacho insensível às suas debilidades.

No escritório não seria diferente. Recriminaram o seu atraso e a deselegância de seus trajes. Também se tornou alvo de chacota alheia, logo apelidado de “Pereireca”. Aliás, com os novos e grandes olhos, enxergava melhor do que antes e descobria os colegas que lhe apontavam o dedo, riam-se dele e apostavam naquela demissão.

Pereira sentiu-se humilhado, derrotado, solitário como uma freira. Como nunca, sentia na pele verruguenta um constrangimento moral próprio das coisas desnecessárias da vida.

Seu retorno para casa naquele dia foi devastador. Não havia sapo mais desanimado no mundo. Foi quando passava pela calçada a Rosie, uma moça de cabelos curtos, piercing no nariz e braços tatuadamente coloridos. Ao ver aquele sapo, parnasianamente aguado, arrastando a maletinha, seu coração ambientalista e nerd partiu-se em cacos. Soluçava o Pereira com o dedo em riste e o lábio inferior tremulento: “Meu pai não foi rei!”

Empática, Rosie o abrigou em seus braços sinceros, aduziu a face anfíbia aos seus lábios e admitiu-lhe um beijo largo e quase escatológico.

Daí, aconteceu o que acontece todos os dias quando as mulheres beijam os sapos: eles desencantam! Só que, em vez de príncipe, havia apenas o nosso Pereira.

A Rosie, que não era muito afeita a homens e se dava melhor com os bichos, ali mesmo rompeu a relação, bateu as asinhas e venceu o horizonte para sempre.

Só posso dizer que o Pereira um dia encontraria alguém que o amasse do jeitinho que ele era, homem ou sapo, e que nas noites de chuva, após tórrido instante amoroso, poderíamos ouvi-lo a coaxar, enquanto comia moscas, na beira do rio.






 

segunda-feira, 17 de julho de 2023

"Procura-se Caio Cid", de Raymundo Netto para O POVO


Fui convidado pela Biblioteca Municipal de Pacatuba a falar a um público de técnicos de bibliotecas daquela região a respeito do escritor pacatubano Carlos Cavalcanti, o “Caio Cid”.

A referida biblioteca, cuja denominação não por acaso é “Carlos Cavalcanti/Caio Cid”, completou 50 anos de existência, inaugurada em 1973, um ano após o falecimento do escritor que também empresta o nome a uma rua da cidade, porém, não duvido que a maior parte da população não tenha a menor ideia de quem seja o sujeito por trás deste nome, assim como hoje são poucos, ali ou em Fortaleza, por exemplo, que sequer tenham lido algo escrito por ele. Aliás, quem o procurar pela internet ou em sebos virtuais é capaz de crer que nunca tenha existido de verdade.

Intriga-me: como um jornalista, poeta, contista e cronista diário dos mais lidos e festejados em sua época pode simplesmente ser varrido da memória geral. Claro, ele é apenas mais um autor cearense e esquecer de todos que cometeram esse delito sacrílego é quase uma regra...

O certo é que Carlos nasceu no sítio “Limão”, na serra da Aratanha, em Pacatuba, a 22 de fevereiro de 1904. Provável filho de agricultor, aos 10 a 12 anos recordava “o ombro calejado do pote [de água] e mão grossa da foice” e que tinha uma única regalia na vida: montar o “Mimoso”, seu carneiro de estimação. Montado neste animal, ia ao Carapió, um vilarejo da região, “calças curtas, descalço”, gastar 1 cruzado com pé de moleque, macaxeira cozida e tapioca.

Ainda na serra de sua infância, diante de “rumorosa solidão, palmeirais alegres e águas claras” acostumou o coração ao culto da natureza, em cujo altar rimou, “ingênuo e deslumbrado”, os seus primeiros versos. Não poderia supor que mais tarde ingressaria na Literatura por meio da poesia, da dor e do sucesso. O poema elegíaco Aleuda (1934), publicado pelo então jornalista aos 30 anos, relatava em detalhes sublimes de dor o padecimento de Aleuda, sua irmã mais nova, falecida em 1931, e de sua mãe Agripina, a quem denominava “minha noiva/fada da serra”.

A obra, prefaciada por Leonardo Mota, foi um sucesso estrondoso, merecendo uma crítica generosa de renomados autores, como Antônio Sales – costumava afirmar que Caio era um poeta a escrever prosa – e Gustavo Barroso, o que lhe garantiu uma tiragem de 3 mil exemplares em segunda edição, tendo uma terceira em 1966.

No ano seguinte, publicaria Aguapés (1935) e Gitirana (1938), ambos de crônicas e contos. Em 1950, de crônicas, teríamos Canapum e, em 1958, Conta-Gotas.

Antônio Martins Filho, eterno reitor e criador da Universidade Federal do Ceará, escreveu sobre Caio Cid em Conta-Gotas:

Enfileirando-se à corrente de escritores brasileiros que procuram dar à crônica um valor destacado entre os gêneros literários – autores como Rachel de Queiroz, Rubem Braga, Fernando Sabino e Henrique Pongetti –, Caio Cid constitui, nos círculos intelectuais do Ceará, um exemplo digno de admiração, pela graça que dá aos seus escritos, pela agudeza das observações, pela maneira pessoal de tratar os assuntos e, sobretudo, assim como assinalamos, pela fidelidade com que se mantém nessa jornada iniciada há tantos anos e que, com certeza, ainda perdurará por muitos anos.

A temática de Caio Cid apresenta uma mescla de imaginação e observação, de poesia e de realidade: saudade, a natureza, o sertão, a rotina, o comportamento humano – há uma desilusão inconsolável com o ser humano – e a morte, esta sempre solene, merecedora de todas as atenções. Também era um humanista. Tendo vivido e acompanhado o sofrimento de sua avó com hanseníase, isolada em sua própria casa – escreveu uma crônica sobre a afetuosa avó, separada de todos em seu quartinho –, foi um dos defensores da construção da Colônia Antônio Justa. 

Embora tenha atuado na Secretaria de Polícia e na Câmara Municipal de Fortaleza, o jornalismo sempre foi o seu terreno: O POVO (onde estreou a coluna “Conta-Gotas”, cuja reunião originaria a obra homônima e derradeira), O Estado, O Nordeste, Gazeta de Notícias e A Rua, entre outros – consta que, em breve período, também trabalhou em jornal do Rio de Janeiro.

Suas crônicas diárias – poucos exemplos temos no Ceará desses cronistas diários, como João Jacques e Airton Monte – promoviam debates, retornavam em forma de cartas à Redação que respondia como lhe convinha, em um estilo franco, honesto e, por vezes, contundentes, a surpreender o próprio autor.

Foi casado com Nilza de Sá Cavalcanti, que chegou a sofrer de “doença mental”, falecendo e deixando-o viúvo com duas filhas: Orlani e Agripina.

Os colegas recomendavam que saísse do luto eterno, representado pela gravata preta, mas ele os respondia: “Quero ter sempre por fora do peito a cor do meu coração.”

Em 1963, receberia o diagnóstico de câncer na laringe, passando por uma cirurgia e perdendo a voz.

Contudo, foi em 21 de agosto de 1972, às 22h, no Hospital São Raimundo, aos 68 anos, que calou-se definitivamente o cronista, sendo sepultado no cemitério de Pacatuba, sua terra natal.

Quem se atreve a devolver ao nosso povo essa voz?

 

***

A seguir, um poema seu publicado no jornal O POVO em 2 de janeiro de 1943:


O Beijo


Eu já vivia a meditar no crime,

no delito sacrílego e sublime

de lhe beijar a fonte peregrina.

Mas hoje – estava escrito – hoje era o dia

Dessa vitória imensa e pequenina.

 

Venha o castigo! Enfim, se eu for punido,

jamais hei de me mostrar-me arrependido

daquilo que me faz alegre e ufano.

Beijar na testa é culto à inteligência.

E esse meu gesto foi, na sua essência,

elevado demais pra ser humano.

 

Eis como aconteceu: a sós, na sala,

“Feche os olhos assim...” Um beijo estala

e o resto não sei como se passou.

Enquanto eu me sentia em doce enleio,

Ela, num misto de rancor e anseio,

Igual à sensitiva se quedou.

 

Se alguém lhe visse os olhos, se alguém visse

a expressão de censura e de meiguice

que em seu divino rosto apareceu!

Era a modesta flor, inda orvalhada,

A tremer de pudor, e revoltada,

Contra o sol matinal que o surpreendeu.


 

segunda-feira, 3 de julho de 2023

"Crônicas de meu Pai", de Raymundo Netto para O POVO


Todos têm — e aí o “quase” é certo — o melhor pai do mundo. Daí de não tomar tempo alheio a endossar o clichê. Meu pai, José Pedro, pelos amigos o “Deca”, para os colegas o “Costa”, é pernambucano. Sargento do Exército — imitando o pai, cabo mestre-carpinteiro Raymundo —, veio a Fortaleza com 25 anos, onde morou no sobrado da tia Francisquinha, na Padre Mororó. Depois, num baile do extinto clube General Sampaio, conheceu Zenaide, a “Zena”, estudante de odontologia — pioneira entre as mulheres no curso da UFC —, minha não-sabia-ainda mãe.

Em calções, “descobriu” que os filhos gostavam sempre mais das mães, então decidiu ele, na certeza franca de menino, que amaria mais a seu pai. E assim foi.

Conta que o vovô era durão e quando dava a bater em um filho, coisa rara, aproveitava e batia em quem estivesse por perto — eram 8 os irmãos — e tivesse lá o seu saldo de palmatória. Já sargento, homem feito, um dia chegou em casa num momento desses e, seu pai, vendo-lhe à porta, disse: “Venha, você, que também não é flor que se cheire!”. Estranhou, mas com devido respeito filial, ainda pediu: “Papai, deixa só eu tirar a farda porque apanhar de farda...”

Meu pai sempre fora conhecido pelo bom humor, pelas tiradas espirituosas e inteligentes, pela visão leve de vida, pelo cuidado gratuito com as pessoas e pela generosidade com os que estavam à sua volta e dele precisavam. Sem exagero, “pai de todos”, nunca o vi reclamar de nada ou praguejar de coisa alguma, ao contrário, muito prático e sem tempo para queixumes, resolvia tudo numa facilidade que chegava a nos dar, ingênuos por natureza, a impressão de que qualquer coisa no mundo seria possível. Contudo, ainda lembro-me do dia em que levou minha vitrola, presente de Natal, para consertar — veio da loja defeituosa — e a roubaram de seu carro, provavelmente por descuido seu. Chegou em casa, aflito. Eu, a perguntar pela vitrola, e ele sem me responder, botando a casa abaixo em busca de dinheiro para comprar outra. Minha mãe, guardiã de seu ordenado, entregue inteiro e religiosamente todos os meses, sabendo do ocorrido, o revelou sem vexames para mim e, diante do olhar encabulado de meu pai, assim só o vi desta vez, sentenciou: “Deixa para lá, Deca, ele não devia merecer. Depois compra-se outra.” O que ela fez, sim, anos tarde demais.

Éramos seis crianças, tinha ele uma Kombi. Por isso, dava-se a oferecer carona a todos, e estes se sentiam à vontade de convidar outros, e assim por diante — chegou a dar segunda viagem para “cumprir a lotação”. Em época de pouca legislação, a Kombi saía ruidosa, portas abertas, com panelas, gaiolas e até com bicicleta dentro, distribuindo gente e gargalhadas pela cidade.

Assim também era de caber todo mundo a nossa casa: “ovelhas negras” de família, mulher que apanhava de marido, filho que dava trabalho, parente “em trânsito”, gente doente, candidatos a suicidas, empregadas gestantes — chegamos a ter três de uma só vez —, mãe solteira ou rico que ficou pobre, todos acabavam no endereço da Benjamim Barroso. Era quase uma pensão. Até um dia desses, mamãe, pessoalmente, fazia o prato, escolhendo a melhor comida para dar aos esfomeados da calçada. Assim como, até há pouco tempo, e isso me faz falta, todos os domingos, seu Costa, olhando para cadeira vazia, dava a tamborilar os dedos na mesa larga da cozinha, feita sobre medida para família grande, e cantava trechinho de música preferida: “Naquela mesa ele juntava gente e contava contente o que fez de manhã/E nos seus olhos era tanto brilho/Que mais que seu filho/Eu fiquei seu fã.”

 

 


 

domingo, 2 de julho de 2023

Carta de Aniversário de José Mendonça para o irmão Raymundo Netto (29 de junho de 2017)


Carta de Aniversário de José Mendonça para o irmão Raymundo Netto

 

Raymundo Netto, o artista, desde de pequeno você já mostrava que era um artista, desenhando e criando histórias em quadrinhos. Lembro que você tinha até personagem criado por você, mas não consegui lembrar o nome.

Diferente do Tony, você nunca foi adepto das práticas esportivas, nem de vídeogames e coisas do gênero.

Desde de novo gostava de ler. Lembro-me da gente voltando do Colégio Militar e você comprando o livro Dom Quixote. Eu achava estranho que alguém na sua idade comprasse um livro com letras tão pequenas e sem gravuras ou coisa parecida.

Você sempre foi um líder por onde passou, e lembro das eleições para “presidente do quarto”, onde você sempre conseguia puxar o Tony para votar em você. Depois a sua liderança na faculdade e em tudo que você entrava.

Você sempre foi uma referência para mim, principalmente no campo intelectual e cultural. A música entrou forte na minha vida através de você. Quando começou a tocar violão, eu achei o máximo e fui atrás de aprender também. Ficava olhando você tocar e quando parava eu pegava o seu violão para tentar copiá-lo. As músicas do Roberto Carlos e dos Beatles também vieram através de você.

Você mudou radicalmente a sua vida, coisa de artista, fiquei impressionado com essa virada profissional, sair da zona de conforto para entrar em um mundo novo, mas um mundo que realmente tem tudo a ver com você. Queria eu ter essa coragem.

Todos os prêmios por ti conquistados ainda não são nada perante o trabalho já desenvolvido por você. A vida tem de ser muito mais justa com tudo que você produziu, na literatura (romances, poesias, crônicas), músicas e trabalhos em prol da cultura. Você merece muito mais deste mundo.

Raimundo Neto, Raymundo Netto, “Pedro Ligeiro”, aquele que até o nascimento foi um acontecimento e história típica de artista.

Parabéns. Muita saúde, paz, sucesso e felicidades sempre para você, meu irmão. Um grande beijo do seu irmão “Dedé”.

 

Fortaleza, Ceará, 29 de junho de 2017.








 

sexta-feira, 23 de junho de 2023

"Bairro Benfica, capital Gentilândia", de Pedro Salgueiro para O POVO


Fortaleza é pródiga em criar bairros fantasmas. Explico o que deveria não ter explicação: a importância da Igreja da Piedade justifica que se troque um pedaço do Joaquim Távora, nos arredores do dito templo, pelo “Bairro da Piedade”, qualquer dia desses algum vereador desocupado (desculpem o pleonasmo!) propõe oficializar a alcunha (cá pra nós, neste caso bem mais simpática); o velho Alagadiço, também por causa da paróquia de lá, se transformou magicamente em São Gerardo – e como o Alagadiço foi esquecido, criaram o Alagadiço Novo, que agora dizem se chamar José de Alencar, muito justo, não!?

A Estação de Otávio Bonfim ali ao lado virou Paróquia do Otávio Bonfim um pouco além e todos esquecemos o Bairro Farias Brito, mas o filósofo cearense bem que merecia ser nome eterno do Bairro, porém restou o consolo de já ser cidade (que espero não troquem pela alcunha de algum obscuro deputado).

Já o meu querido Benfica ficou para trás com a importância e charme da Gentilândia, mas achando injusta a troca e “natural” esquecimento convocamos um congresso ali bem no coreto da Praça da Gentilândia (ainda existia coreto por lá, alguém logo me desmente dizendo que era apenas uma caixa d’água com um patamar embaixo, mas danem-se as precisões da memória). Foram chamados: um casal de estudantes da Reu 125, outro da residência estudantil Bérgson Gurjão, dois proprietários de bares (Srs. Luís Picas e Chaguinha), um representante da MEMOFUT (Cristiano Santos), três editores da Pindaíba (acho que Manuelis Fonseca, André e outro que esqueci), a Gorete do Guaraná, alguns organizadores do Sanatório Geral, a moça que iniciou o “Quem é de bem fica”, o prefeito da praça de alcunha 14, enfim, havia todo tipo de gente, até os pseudoescritores dos Poetas de Quinta.

Depois de muita confabulação, papo-cabeça e outros nem tanto, resolveu-se constituir emissários para fazer consultas aos poetas Francisco Carvalho (que não morava no bairro, mas trabalhava na Reitoria da UFC), José Alcides Pinto (que morava lá na Vila Cordeiro, quase no Centro) e Marly Vasconcelos (que residia em Fátima, porém cursou Letras na UFC), com as respostas (que cá pra nós não ajudaram muito, pois Carvalho ficou timidamente em cima do muro, Zé Alcides apenas perguntava se tinha belas poetas participando da discussão e Marly prometeu fazer um belo poema sobre o assunto).

Mas depois de algumas arengas, muita fumaça, guaraná e cachaça, o Poeta de Meia-Tigela propôs deixar as duas alcunhas em filosófica dúvida e que cada um, democraticamente, decidisse por si... No que me inspirei pra dar minha única contribuição até hoje ao meu adorado torrão: que continuássemos como Bairro do Benfica, porém com a Capital da Gentilândia – pronto! Prego batido e ponta virada... quem não concordou também não discordou!

Levamos, imediatamente, para Tom Barros assinar o decreto e mandamos para publicação!