sábado, 20 de junho de 2020

"De Alma Lavada", de Raymundo Netto para O POVO



O casamento acabou!” Há tempos, sabiam, mas agora estava na casa do sem jeito.
Amalarico era obcecado pelo trabalho, a “razão primeira de sua vida”. A esposa, demorou, cansou-se da competição com aquele que denominava ser a sua “amante” – ou quem sabe, a amante seria ela? Não estava enganada. Compulsivo, trabalhava o tempo inteiro, mesmo quando em lazer, ao comer, ao dormir e nas horas mais íntimas. Sentia um gosto formidável em produzir, acordando muitas vezes à madrugada com novas estratégias, ideias, que lhe chegavam mais velozes do que gatos correndo pelo telhado.
Saindo de casa, já em novo apartamento, comemorou, a princípio, o silêncio absoluto, a ausência das interrupções de seu delírio laborioso para reclamações ou inúteis solicitações da incompreensiva mulher. Por outro lado, para sua surpresa, em poucos dias, aquele silêncio se apresentara um pouco demais, como de quase morte.
Para piorar, não sabia viver só. Com a separação, montar o apartamento, ter que pensar em atividades banais de rotina, no que comer, em limpeza da casa, lavagem de roupa, tudo isso o estorvava profundamente, pois que o afastava do seu bem querer: o trabalho!
Desabafando, quase em prantos, a uma colega, ela o aconselhou, entre outros, a adquirir uma boa máquina de lavar. “Não dá trabalho nenhum. Faz tudo e deixa sua roupa bem sequinha...”, assegurou.
De primeiro, diante do aparelho recém-instalado, o enfadonho maquinismo e a fria leitura de seu manual. Resignado, aprendeu o uso e comprovou a sua eficiência. E mais: com pouco, passou a atentar a um movimento estranho na casa, um barulho novo, que ia e vinha em pausas intermitentes, rompendo aquele silêncio lúgubre... era a sua máquina de lavar! Contemplando-a na sala, pensou: “Ela não me deixa sozinho.”
Despertando agora daquele nada social, às vezes, parava o seu trabalho e sentava-se diante de sua porta circular, quase um imenso olho, a ele atento e servil. Tomava um sorvete, ali, quando durante um sobressaltado e quase hipnótico ciclo de secagem, sentiu em seu peito algo que há muito não sentia. Uma excitação, uma vontade de virar-se ao avesso, o coração premido. Aquela máquina, como ele, trabalhava todos os dias, com grande ânimo, e sem lhe exigir nada. Sim, não tinha dúvida: ele a amava, numa adoração de botar em joelhos as musas do brega.
E desde esse dia, passou a conversar com ela e a almoçar na área de serviço. Logo mais traria também o seu colchão, onde dormiria ali, pelo menos, às tardes. Trazia-lhe presentes e a vestia em belas capas florais. Para ela, só o melhor sabão – líquido, claro, pois em pó achava áspero demais para sua amada – e amaciantes com essências perfumadas: lavanda, alfazema.
Meses depois de tal aliança, porém, sonhava Amalarico com umas seis ciclópicas criaturinhas metálicas cirandando ao seu redor, quando acordou assombrado: um estrondo, seguido por um tremor escandaloso, ouvia-se na sala. Quando ainda entontecido correu a ela, flagrou a sua amada, em sacolejos sobre os pequeninos e alvos pés, arrastando sua mangueira, a sair em fuga pelo hall e escadaria afora, na tentativa de livrar-se de uma vez daquele amor sebento e abusivo.




domingo, 7 de junho de 2020

"Ari: no tempo da lamparina", de Raymundo Netto para O POVO

Selo comemorativo dos 50 anos de Arievaldo Vianna, por Jô Oliveira.

Arievaldo Vianna não era apenas um homem, mas um sonho.
Para alguns, um quixote, um quaresma, uma sherazade de calças, um fabulador de voz grave e declamante, com seu colete de couro a berrar suas histórias em palcos naturais das calçadas, das praças, dos postes, numa delirante genialidade quase beirando à dulcíssima loucura, como alguns outros com quem dividia a sua mala de romances e baú de gaiatices.
“No ano sessenta e sete/Do outro século passado/Nasci naquele recanto/E fui por Deus inspirado/A beber daquela fonte/Perto do reino encantado.”
E bebia e se banhava, de quase se afogar, dessa fonte de trovadores, tocadores, violeiros, sanfoneiros, bumbas-meus-bois e, claro, à lamparina, na rede ou em alpendres, ou nas manhãs azuis, sobre o tapete da bagaceira de engenho, em meio à capoeira, à voz alta, dos folhetins de cordéis, “sua leitura de primeira hora”.
O bravo menino sertanejo do sítio Ouro Preto, alheio às necessidades que a vida lhe trouxe para fazer-se forte, crescia assim, imerso entre a roça e o mundo fantástico: beijocador de princesas, amigo de reis, escalando muralhas de castelos, desafiando dragões, assistindo a gargalhar muito às pelejas de demônios com cangaceiros.
Quem diria que essa tripinha de gente “desasnada” pela leitura da vó Alzira se criaria poeta, ilustrador, fanzineiro, radialista, publicitário, xilogravurista, colecionista, historiador, biógrafo, capista, editor, pitaqueiro, amigo de todos... e alguém a quem as letras brasileiras deveriam tanto?
Quando nos encontrávamos, era uma grande alegria, e se eu não pedisse arrego, não me deixava ir. Num galope à beira-mar atropelava uma história com uma pesquisa, uma leitura com uma piada, uma reclamação com uma proposta editorial que iria nos enriquecer a todos... Mesmo quando depois confirmava: “Minha mulher chegou à triste conclusão de que eu não sei vender a minha arte, não nasci para ganhar dinheiro. As pessoas me procuram e eu sempre cobro muito abaixo do que deveria”.
Meses mais novo do que eu, tinha no falar – e eu o admirava por isso – uma extrema autoridade, uma altivez, mas uma autoridade legítima, uma altivez não pedante, de quem sabe e que transmite esse saber, não o ocultando sovinamente como se fosse um privilégio, uma dádiva divinal. Estive com ele em diversas ocasiões distintas e NUNCA o vi se gabar de nenhum dos prêmios que recebeu, das inúmeras publicações e dos livros que vendia em editoras nacionais, de entrevistas de toda parte do país das quais era convidado. Sabia o amigo Arievaldo, por ser ele um dos grandes, que os prêmios são apenas reflexos e consequências daquilo que fazemos e do que realmente nos importa. Para os fracos e os pequenos, tais desnecessários reconhecimentos podem se tornar armadilhas de espírito. Arievaldo não precisava deles. Era um artista!
Militava na educação, na leitura, nas artes populares e sertanejas. No palco, falava desenvolto, cheio até a tampa de histórias para contar. Criativo, inteligente, impulsivo e impossível.
Agora, dia 30 de maio de 2020, os quase anjos João Grilo, Pedro Malasartes e o Cancão de Fogo, sob a bênção de São Francisco, desceram dos céus em busca do menino grande Ari e o levaram para se assentar ao lado de Patativa, Santaninha, Leandro Gomes de Barros, Alberto Porfírio, Leota e Ribamar Lopes numa conversa que se já era sem fim, agora é que não se acaba no meio desse sereno de estrelas do cordel, a literatura mais genuína e brasileira de nosso Brasil.
Nossa gratidão, irmão Arievaldo, príncipe do cordel cearense.



segunda-feira, 25 de maio de 2020

"No Canto da Sereia", de Raymundo Netto para O POVO



Cavalo-Marinho, mãe. Ele pegou um cavalo-marinho”, apontava a menina para o irmão Zenor, que chegara da praia, naquele momento, esbaforido e delirante, agarrado suspeitamente a uma garrafa velha cheia d’água do mar.
Correu ao seu quarto ainda ouvindo a irmã resmungar, após desatenção da mãe: “Deixa seu irmão, menina! O bichinho...”
No quarto, Zenor botaria a garrafa em cima da cômoda, abriria a janela e passaria o resto da manhã apreciando o seu achado: uma sereia. Ainda pequena, uns 10 cm. A criatura estava naturalmente incomodada, debatia-se contra o plástico e, por vezes, parecia sufocar. “Muita areia...”, pensou Zenor, que logo daria um jeito de pedir ao pai para comprar um aquário de verdade.
Anos se passaram e muitos aquários quebraram enquanto a sereia crescia, sempre aos olhos atentos e obsessivos de Zenor. Os seus pais achavam ótimo que o rapazinho tivesse encontrado um hobby, pois não saía de casa, portanto não tinha amigos, não falava com ninguém, era absolutamente alheio a tudo e a todos, menos à sua sereia.
Enquanto tratava seu aquário, como em um pacto de silêncio eterno entre ambos, passava horas a observar fascinado, quase babando, a sua presa. Os compridos e encrespados cabelos esverdeados, como algas, oscilando lentamente ao movimento do corpo muito alvo, pele aparentemente de bebê, embora áspera. Os seios salientes e sem aréolas, o majestoso pescoço, a ausência de lábios, pequenas brânquias atrás das orelhas, a cauda longa de escamas denteadas e brilhantes. A irmã, quando criança, gostava de ajudá-lo nessa tarefa – tinha afeição pela criatura. Porém, adolescente e feminista, tornou-se contrária ao absurdo e inútil cativeiro. O pai, interessado apenas nas coisas do mundo, pensava em como aquilo um dia poderia contribuir nas finanças domésticas. A mãe apenas a julgava pálida e magra demais.
Vez ou outra algum dos vizinhos adentrava, por curiosidade, o quarto. Também fotógrafos de revistas científicas e da imprensa local buscavam frestas de janelas para captar imagens da curiosa fêmea marinha. Todos eram violentamente enxotados pelo rapaz grandalhão, obeso e de fala pouco compreensível que se tornara o Zenor.
Tinha ele outro segredo. À noite, nunca conseguia dormir. Ao travesseiro, percebia os olhos dela muito abertos – naturalmente, não tinha pálpebras. Aquele olhar fixo em sua direção trazia o mesmo ar acusador e odioso de todos os dias. Estaria acordada? Estaria dormindo? Não sabia. Contudo, a brilhância do olhar amarelado, no negrume do quarto, parecia a de um farol. Pela manhã, amanhecia em ruínas à mesa do café, preocupando os pais pela sua saúde já debilitada.
Quando adulto, passou a morar só com a mãe – o pai falecera e a irmã comprou um apartamento.
Nesse tempo, guardava sua sereia no quintal, numa caixa d’água. 
Era meio-dia. Sua irmã veio visitá-lo e almoçar com ele, a pedido da mãe em viagem. Ele já estava à mesa, quando ela dirigiu-se ao quintal para dar um “oi” à sereia. Não a encontrou: a caixa d’água vazia, encostada ao muro. Voltou à cozinha e perguntou ao irmão por ela, o que acontecera com ela. Esfregando a manga do suéter na boca oleosa e garfando o prato, ele apenas respondeu: “Tem gosto de salmão... Adoro salmão”.
E desde esse dia, Zenor dorme um sono formidável, sonhando sempre com outras sereias.



domingo, 10 de maio de 2020

"Hoje eu só quero falar de passarinhos...", de Raymundo Netto para O POVO


Última foto em que apareci com minha mãe



Em homenagem a minha mãe que se encantou em 2016.

Dizia Drummond: “Fosse eu Rei do Mundo,/ baixava uma lei:/Mãe não morre nunca”, mas como sou apenas um Raymundo, cuja lei se limita à desconfiança de todas as leis, à busca da impossível liberdade (inclusive das coisas materiais que não preenchem o espírito) e à aventura de assistir e colorir pensamentos e humanidades, o que posso fazer é continuar celebrando a vida que acontece. E, exatamente no dia destinado àqueles que se foram, ela, essa mãe, parte ao seu encontro marcado. Do peito, o suspiro anônimo de profundo consentimento e, de repente não mais que de repente, do silêncio se fez e se faz um poema.
No horizonte, me germinam as memórias queridas, os momentos singulares e imorredouros de uma vida tomada pelas rédeas da coragem, determinação e abundante amor. Eu acredito não haver um só momento em minha vida em que ela estivesse ausente, pois habita inapelavelmente no que sou, de forma que me são tomados os ouvidos, mesmo agora, pela voz de suas palavras, e, nas angústias, pela sua tácita companhia.
Seguindo o coração diligente, foi mãe de seus irmãos, depois de seus alunos, antes de ser mãe de seus seis filhos, e também antes de assumir a maternidade de outras centenas de pessoas que buscavam seu amparo em momentos de aflição, de dor, de desespero. Uma mulher que não dá chance a queixumes e cuja a vida é breve num “cuidar que se ganha em se perder”.
Em seu consultório, montado em casa, atendia seus pacientes com alegria, num sorriso que abraçava. Enquanto enrolava o algodão na pinça, contava histórias, tomava conhecimento dos dramas pessoais, aconselhava, orava ou cantarolava alguma canção feliz – para desviar os maus pensamentos, dispersar energias negativas ou o cansaço.
Ao vê-la repousar distraída no leito frio, envolta em luminoso adorno de pétalas brancas, uma lembrança me seduziu: era um almoço na casa de minha avó, sua mãe. Um dos últimos. Na sala pequena, tomada pelos dez filhos, esposos e esposas, uma música antiga vibrava no ar. Um dos filhos tomou de abraço a vó Zilma, já bem velhinha e por vezes até apática, e dançou com ela. Os demais filhos passaram a revezar-se na dança. Quando minha mãe assumiu a sua vez, minha avó levantou os olhos acinzentados e repartiu um sorriso. Difícil mensurar o quanto de vida havia nele. Quantas segredos de amor e de compartilhamento ele continha. Estava ali a sua despedida e a sua gratidão. Mãe e filha, em um instante de milagre, entendendo por “milagre” a mais sublime e sincera expressão de doação e renúncia que se pode esperar na Terra.
Sim, eu sei que a saudade, como canta Manuel de Barros, “não precisa do fim para chegar”, e vai doer, mas vai doer diferente, como a música que nos embala uma distância sem volta e nos tira do mundo “que gira depressa” num ensejo gratuito de paz e de recordações.
Hoje, estou feliz, minha mãe saiu da “gaiola”: é livre! E na certeza de que os poetas, como aqueles que amam, “podem ver na escuridão”, trarei comigo a dona Zenaide, com toda a gratidão desse encontro maior do que o mundo: “Uma passarinha me ensinou uma canção feliz e quando solitário estou, mais triste do que sempre sou, recordo que o ela me ensinou.” Nunca adeus!


terça-feira, 5 de maio de 2020

"O Lugar e um Poeta", de Sebastião Rogério Ponte


Meus tempos de glória foram de 1880, quando nasci, a 1917 quando então o cinema surgiu em Fortaleza e começou a roubar o público de mim. Depois o rádio, os clubes etc., e por fim a TV e os shoppings completaram o meu vazio. É paradoxal, porque sou belo, amplo, tenho árvores, flores, plantas, passarinhos, e vento Zéfiro passeia constante entre minhas três compridas alamedas (em que moças e rapazes elegantes desfilavam, flertavam), os combustores artísticos (que me iluminavam como se fosse dia), as esculturas de divindades gregas (que me dão uma distinção clássica) e os longos bancos (que recolhiam as de vestidos compridos farfalhantes e os de paletós para momentos de descanso). Se não bastasse, minha alameda mais formosa oferece uma vista panorâmica do mar.
Os gemidos do hospital vizinho não alcançavam as valsas tocadas em meu coreto, e a ladeira luxuriante da rua aqui do lado não me maculava, pois escura e oblíqua.
Hospitaleiro, meus portões estavam sempre abertos para acolher as multidões que me ocorriam às quintas de noite e aos domingos o dia inteiro. Hoje, poucos me percorrem. Deve ser por isso que me deixam sem cuidados, sem jardins e águas limpas em meus tanques.
Fui cenário de momentos memoráveis entre meus quatro cantos: declarações de amor apaixonadas, olhares encantados, músicas inebriantes, mulheres e homens e crianças lindas, gente rica com toda pompa e gente do povo com roupas simples, porém decentes. Pudesse eu escrever tudo de belo e comovente de que fui palco, daria um livro inesquecível.
Se me permitem, conto apenas um feito, um dos mais pungentes que se deu em meu espaço no início do século passado, perpetrado por alguém que, avesso a holofotes, raramente me visitava.
Chamava-se ele Raimundo Varão, era poeta – o mais excêntrico deles. Alto, magro, cabelos revoltos, alvo como uma vela, era soturno, tinha seis dedos em cada mão, só se alimentava de bolacha Jacob com cerveja e criava com carinho um sapo cururu em sua casa.
Não ligava para moda ou aparência: usava roupa até ela se acabar no corpo esguio e também não era dado a banhar-se todo dia – porém, sempre lavava cuidadosamente as mãos quando ia manusear livros, sua única paixão... Única, até o dia em que, fato que nunca acontecera consigo, apaixonou-se! Para surpresa de todos, eu incluso, Raimundo Varão metamorfoseou-se completamente: vestiu roupas novas, vivia banhado e cheiroso e, milagre maior, agora sorria e brincava (mas o sapo ele manteve).
Assim ficou até que chegou aquela noite, inesquecível para mim e para alguém, em que adentrou decidido o meu recinto, com semblante grave, portando uma dor lancinante que o arfar do peito traduzia. Passou pelos poucos amigos sem lhes responder aos cumprimentos, procurou com os olhos algo ou alguém, parou entre as esfinges e, diante da pequena multidão que ali se distraia, fixando o olhar em determinado grupo, declamou com voz embargada e doze dedos trêmulos:  
Anjo, mulher, demônio a quem venero!
Sombra que almadiçoo e que bendigo!
Luz dos meus olhos, infernal perigo,
causa do meu eterno desespero!
Ante esses versos de candura e fogo, todos à volta pararam para ouvi-lo. Fez uma breve pausa para recuperar o fôlego e continuou:
Se esquecer-te é o que mais quero,
dar-te em minh’alma sacrossanto abrigo
e concentrando as lágrimas comigo,
as minhas próprias carnes dilacero...
Contendo-se para não desabar antes que pudesse concluir seu poema, arremeteu tomado de viva emoção:
E se em teu peito a compaixão não medra,
eu irei pela senda do calvário
arrancando um soluço a cada pedra!
Partiu rápido deixando para trás o silêncio que se quedou entre todos.
Ninguém viu, mas eu vi: aproveitando a estupefação das pessoas, uma senhorinha saiu lentamente de perto do grupo para onde o poeta esteve olhando e, baixando a cabeça, ocultou duas lágrimas que escorriam de cada um dos seus olhos.           

Sebastião Rogério Ponte                                  



segunda-feira, 27 de abril de 2020

"Linguagem", de Raymundo Netto para O POVO (27.4)



“Mulher intelectual não pega homem!” Ouvira isso inúmeras vezes, mas naquela noite de coração desértico, quente e vazio, seria diferente.
Ao espelho, vestia, quase em lágrimas, a roupa mais fatal. O próprio corpo queria saltar do vestido, ela não se reconhecia, envergonhava-se, mas nada importava mais!
Chegou a um pub. Pouca luz, muita fumaça, ar alcoólico e frenético barulho. Por ela, se jogaria na barra de pole dance, mas dirigiu-se ao bar, pediu uma bebida, a mais forte, que guardou entre os dedos até quando chamaram ao pequeno palco o poeta, um rapaz magrinho de cabelo avermelhado. Ele pegou o microfone, olhou para o público desatento e declamou aos gritos o seu poema.
Em meio à barulheira, o tilintar de copos e as risadas expressivas, ele continuava uma falação ardente, suspirosa e inútil, enquanto ela, mesmo quando alguém já apalpava a sua bunda, fitava-o. Não se sabe se por um instinto atávico e autossabotador, certo é que sentira tanto amor ali, capaz de encher até buraco sem fundo.
Ao final, aproximou-se dele, em uma indisfarçável timidez. Imersos no alvoroço, se olharam em risinhos desnecessários, quando ela deixou escapar: “Estou sem calcinha.”
Ele riu desconcertado: “Que comentariozinho mais exótico... ”
Extasiada, respondeu: “A um cantinho mais erótico? Agora? Sim, podemos ir, sim.”
Ele insistiu ao seu ouvido: “Não, eu disse exótico!” Ela, pasma consigo mesma, engoliu de vez o trago e emendou: “Sim, eu também. Foi o que eu disse... exótico?”
Marcaram então de se encontrar no sábado próximo, quando ele a levou ao zoológico para ver o recinto dos pandas. Era alucinado por pandas. “Que fofo!”, ela pensou.
Após uma hora de jujubas, aulas de cultura chinesa, veganismo e pandas, ela encorajou-se e tascou: “Sim, mas... você não gostaria de ir agora a um motel?”
Ao convite inesperado, ele murmurou: “Eu preciso que saiba de uma coisa...” Ela adiantou-se: “Você é gay? Ai, meu Deus, esse amor por pandas...”, quando ele acudiu: “Não, não sou gay... Eu sou virgem!” Aliviada, ou quase, estranhando ainda a resistência, pensou que seria uma experiência singular. Ele insistiu: “Mas muito virgem. Virgem demais. Nunca beijei uma mulher. Apenas espelhos, dorso da mão...” Ela nem quis saber e o trouxe à boca, quando, naquele momento tão inaugural, em vez do aguardado beijo recebeu uma tremenda lambida.
Ela sentiu um nojo colossal: “Que foi isso?” Ele queria mais. Nova tentativa. A lambeu outra vez, desta vez o rosto inteiro. O poeta tinha uma língua abundante, descontrolada. Tomara gosto e não pararia mais, se ela não se lembrasse de um falso e emergente compromisso. Ele compreendeu. Segurando a baba e com os olhos brilhantes, insistia: “Quando nos veremos outra vez? Quando?”
Não sabia o motivo, se por ser de Humanas ou pelo desespero de quem se afoga, mas o recebeu em sua casa.
Desta vez, sem cafés, enxerimento na estante de livros, entre outras preliminares, foi ele que se atirou sobre ela, afoito e covardemente, num apetite absurdo, rasgando-lhe as roupas e lambendo-a inteira, dos pés à cabeça e vice-versa. E a lambeu tanto, mas tanto, por horas sem fim, que pela manhã não havia mais nenhum pedacinho desejoso dela para contar história.



quarta-feira, 22 de abril de 2020

"Para Pensar e Viver nosso Patrimônio Cultural", de Luiza Helena Amorim



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Para Pensar e Viver nosso Patrimônio Cultural

Luiza Helena Amorim
Jornalista e mestranda em História Social
(Grupo de Estudos e Pesquisa em Patrimônio e Memória - GEPPM )

Quem faz a nossa História? Uma das formas de responder essa pergunta é através da escrita acadêmica, mas muitas vezes esta linguagem não é acessível, é hermética. Porém, existem pesquisadores que percorrem um caminho paralelo. Eles produzem conteúdo com uma linguagem acessível, voltados para um público não especializado. É a chamada “Divulgação Científica”, mas que na historiografia atual pode se situar dentro do campo da História Pública. Em comum, compartilham com a preocupação sobre a circulação dos conhecimentos, mas também se aproximam de “um exercício de responsabilidade social”, nas palavras de Nisia Trindade Lima, socióloga da Fiocruz.
Em tempos de embates pelo valor da cultura e dos seus bens, questões econômicas e retração do poder público, a Fundação Demócrito Rocha teve a sensibilidade de aproximar a Academia e a comunidade, em um esforço para difundir a importância da nossa cultura e promover a cidadania oferecendo o acesso às informações, segundo consta no site da instituição, valorizando-a “como setor estratégico para o desenvolvimento socioeconômico sustentável, fortalecendo a intersetorialidade e a transversalidade”. A ação é simples e impactante: o curso online “Formação de Mediadores de Educação para Patrimônio”. Vale destacar que quando se fala em Educação Patrimonial, esta deve ser feita de forma horizontal, o que significa contar com a participação da comunidade e também dos detentores das referências culturais.
Em doze fascículos, o leitor se familiariza com questões legais, conceitos históricos, reflete sobre a realidade do entorno em que vive, bem como o contexto sociocultural e ambiental; é provocado a pensar sobre a importância de “reconhecer, proteger e valorizar o patrimônio cultural do município na sua diversidade de memórias e identidades”.
O material foi produzido por especialistas, dos quais alguns, são integrantes do Grupo de Estudos e Pesquisa em Patrimônio e Memória (GEPPM) da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Neste tempo de isolamento social, o curso é uma alternativa para repensarmos os valores da cultura brasileira e dos espaços em que vivemos (a cidade edificada, o bairro, a rua), mas também as nossas práticas culturais vivenciadas e idealizadas. Quando a pandemia passar, e voltarmos às nossas rotinas (sem esquecer a dor que a doença nos causou), que possamos estar juntos dos nossos, ver o pôr do sol, e habitar os patrimônios da nossa cidade.


segunda-feira, 13 de abril de 2020

"Quarentena", de Raymundo Netto para O POVO



Meu lado ficcionista, de leitor de clássicos, quadrinhos e muita ficção científica, não me deixa assombrar pela guerra microbiológica atual. Aliás, durante a vida inteira, essa era uma das certezas – ou pelo menos potencial possibilidade – que trazia na vida, além da outra, a morte, aquela hoje noticiada como novidade, quando a novidade mesmo é o nome do algoz, pois a morte vitima milhares de pessoas diariamente por motivos mais banais (acidentes de trânsito, ausência de socorro e atendimentos em hospitais) ou mesmo absurdos e inaceitáveis (assassinatos, guerras, violências, fome), sendo que muita gente, em condições privilegiadas e seguras, nunca deu a menor importância a isso – até agora!
Alguém, antes da decretada quarentena, me disse frio ou insensível diante do coroado monstro, mas não é nada disso. Assisto a noticiários, mais de um, todos os dias. Leio notícias em portais seguros e confiáveis pelas redes sociais – evito assistir a vídeos e mensagens sem fontes que se alastram mais do que a curva pandêmica –, mantenho o isolamento social e me previno como posso, seguindo protocolos de higiene, também preocupando-me e aconselhando cuidados a amigos e familiares que, espero, ultrapassem mais essa crise sem sequelas.
Contudo, o mais importante: tento não introjetar esse quadro em mim. Nem o vírus nem o pânico e muito menos a contagiante morbidez propalada.
Vejo diversas pessoas adoecidas pelas redes sociais, gente que não está conseguindo manter a sanidade mental, tomada pelo pavor e pela insegurança, distribuindo-os aos mais próximos. Deprimidas, esgotadas e intranquilas, não conseguem aproveitar para fazer planos, executar aqueles projetos impedidos pela rotina antiga, fazer exercícios (ou amor), jogar com familiares, ler bons livros ou assistir a filmes, pois a cabeça não consegue concentrar-se em mais nada que não seja a lista de infectados e mortos no mundo.
Eu, do meu lado, vivo o hoje, um dia por vez – hábito que trago há anos –, não exigindo muito do futuro, agradecendo por acordar e estar com aparente saúde, por ter condições tecnológicas para conseguir realizar o meu trabalho com a máxima atenção e zelo possíveis, imaginando algo que vai nascer em meio à treva quarentena, mas que em breve será luz e beleza. Tudo passa, como diz o Alencar.
Mesmo ciente do número de pessoas que não têm recursos e condições para atravessar essa chuva com a mesma tranquilidade, sei que não posso deixar-me ser tomado por essa angústia. Se eu puder ajudar, ajudo, contribuo, não me esquecendo de que me lembro dessas mesmas pessoas sempre, inclusive na hora do voto, cujo resultado faz toda a diferença em momentos como esse ou de outros que, certamente, virão.
Tenho esperança, não a largo por nada, e a minha crença na vida, não no ser humano, mas na vida, a nossa maior aliada para a construção de um novo mundo, um lugar onde não predominem tantas injustiças, desigualdades, sofrimentos, doenças e mentiras. É por isso que pretendo continuar acreditando, até a última chama ou lágrima, no que há por vir.




domingo, 12 de abril de 2020

"A Casa Onde Nasci", de Amália Simonetti



Essa é a casa onde nasci!
Casa amarela de telhado alto com três portas de madeira na calçada! Uma delas é a porta do quarto onde nasci, numa manhã de sol quente do século vinte!
Casa do corredor dos quartos sem janelas, com redes balançando família, histórias, sonhos e vidas. VidaFamílias!
Casa de sala acolhedora e terraço do cacimbão, terraço da mesa grande que abraçava as quatro gerações da família e amigos em cada refeição!
Casa da cozinha do fogão à carvão e panelas de barro exalando cheiros. Casa do oitão do fogão e forno à lenha e muitas conversas fiadas! 
Casa do quintal do quarto dos livros, da casa do Porco, do vento das plantas, do cheiro das flores e sabor das frutas. Quintal das crianças e suas brincadeiras e peraltices pé de imaginação.
Casa da calçada das lavadeiras, dos banhos de chuva, das cadeiras de balanço, das noites de lua cheia, das prosas, poesias e muitas histórias para contar.
Essa é a casa onde nasci! Casa Sá Leitão da rua do córrego, rua do Rio Açu!
Casa da minha infância crianceira!

segunda-feira, 30 de março de 2020

"O Homem que não Sabia Morrer", de Raymundo Netto para O POVO



Benigno despertou em um assombro extraordinário. Por cima dos olhos tingidos de pavor, uma interrogação reluzia: “Qual o sentido de minha vida?”
Mastigando cereais vencidos à mesa há anos solitária, buscava por algum premeditado e egoístico ato heroico – como na maioria os são. Precisava abraçar uma causa nobre, aquela a valer alguma fatia de glória imediata, o suficiente para sua alheia autoestima.
Assistindo na TV a um histérico e dispensável noticioso policial – como a maioria também o é –, soube que em certo lugar, na fronteira do país, havia contrabandistas de órgãos humanos. Por associação esdrúxula de ideias, imaginou o destino de tais órgãos: o salvamento de outras vidas! Sem demora, comprou passagem e se dirigiu àquele lugar resolvido a lhes ceder um rim.
Contrariando a máxima do Barão de Itararé que afirma “de onde menos se espera, daí é que não sai nada”, nem mesmo eu sei explicar como o tonto, extasiado na sua felicidade burguesa, conseguiu encontrar tais contrabandistas.
Eles, claro, ainda ressaqueados da noite anterior, riram-se a valer – também sem entender nada – e, com todas as honras, o anestesiaram e, depois, em torpor profundo, o rebolaram no bagageiro sujo da van, sala de cirurgia improvisada. 
Nesse momento, diante da inesperada novidade, os malvados perceberam que poderiam tomar não apenas um rim, mas os dois. Aliás, se já estavam ali mesmo, por que não arrancar tudo aquilo que pudesse ser de proveito? Assim o fizeram. Levaram tudo: rins, fígado, coração, pulmões, córneas, pâncreas, intestinos... e o que deu. Motivados por uma bizarra gentileza, fecharam as suturas e largaram o corpo gordo e nu à beira da estrada.
No dia seguinte, Benigno acordou. Sentia-se mal, porém, mais leve. Sem córneas, não viu ninguém. Percebeu pelo corpo as diversas costuras grosseiras e malfeitas. As linhas de fios grossos espetavam o inchaço da pele inteira. Todavia, mesmo quando percebeu-se enganado, não conseguia sentir ódio, pois a ele faltava o coração.
Ao ser encontrado por populares, tentaram em vão descobrir contatos de parentes, amigos, colegas que pudessem vir buscá-lo, socorrê-lo em tão inusitada situação. Mas ele não se lembrou de ninguém – e não foi porque levaram também o seu cérebro, só por diversão, é claro. O homem adorava a solidão, era avesso às manias e celebrações humanas e ao cheiro de animais. Desconfiava de todo mundo, evitava sair de casa, seu maior refúgio, e assim afastou-se de tudo e de todos.
No leito ao corredor do hospital de caridade, ao questionar o médico plantonista sobre a gravidade de seu caso, recebeu cruel prognóstico: “Lamento, o senhor não pode mais morrer!”
Sim, com a ausência de seus órgãos vitais, seria impossível o infarto, a trombose, cirrose, enfisema, tuberculose, demência, nem a simples pneumoniazinha... “Meu Deus, estou perdido para sempre”, angustiava-se o desanimado Benigno, cujo sangue gelava parado em seu corpo imortal, enquanto revelava-se que, de fato, já havia morrido desde quando passou a não existir para mais ninguém.