sábado, 11 de dezembro de 2010

Abertas as Inscrições para o II Edital Mecenas do Ceará


A Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult) anuncia a abertura de inscrições para o II Edital Mecenas do Ceará, a partir do dia 7 de dezembro de 2010. O processo de seleção objetiva regulamentar o procedimento de inscrição, avaliação e julgamento dos projetos culturais apresentados à captação de recursos através do Mecenato Estadual em consonância com os preceitos da legislação estadual de incentivo à cultura. O edital terá recursos na ordem de R$ 4.788.000,00 (quatro milhões setecentos e oitenta e oito mil reais), que se dará através do repasse de até 2% do ICMS oriundos da arrecadação das empresas do Estado do Ceará.

Constitui objeto do presente Edital o apoio a programas, ações e projetos artístico-culturais apresentados por pessoas físicas ou jurídicas e que tenham por objetivo o fortalecimento do setor cultural cearense e a promoção do desenvolvimento social e econômico do Estado do Ceará, cuja execução esteja prevista para iniciar entre o período de janeiro a abril de 2011.

Todos os programas, ações, ou projetos apresentados deverão desenvolver em seu processo de execução a produção de produtos e serviços que englobem as áreas de artes visuais e fotografia, audiovisual, teatro, dança, circo, música, arte digital, literatura, livro e leitura, patrimônio material e imaterial, artes integradas (projetos, ações e programas que contemplem mais de uma linguagem artística).

O Edital, Anexos e outros poderão ser encontrados por meio do seguinte link:

http://www.secult.ce.gov.br/categoria1/mecenas-do-ceara/ii-edital-mecenas-do-ceara-2010/ii-edital-mecenas-do-ceara

"Reencontro", poema de Raymundo Netto


Sabes, tu já eras minha antes mesmo de nascer

Pois que tua alma fora partida de um mesmo pão

E teu corpo meu já fora

Porque teus poros são iguais aos meus

Meus dedos só cegam nos teus

Tua pele respira em mim

Teu sorriso me esquece da vida

E tua vida na minha é completa.

J. Fernandes, um dos maiores pintores do nosso Ceará, encantou-se

foto: O POVO


Aos 83, morre J. Fernandes


Na quarta-feira (8), a arte cearense perdeu um de seus grandes nomes. Vítima de falência múltipla de órgãos, o desenhista e pintor J. Fernandes (1927–2010) faleceu por volta das 20 horas. O velório ocorreu ontem (9) no cemitério de Caucaia, onde o corpo foi enterrado ao meio-dia. Há aproximadamente 40 dias o artista plástico estava hospitalizado.


Natural de Fortaleza, José Fernandes de Alencar começou cedo seu envolvimento com a arte. Conduzido ao ateliê Raimundo Cela, teve suas primeiras formações. Ficou conhecido por abordar temas cearenses em seus quadros. J. Fernandes era um dos remanescentes do Grupo Scap (Sociedade Cearense de Artes Plásticas), que contava com nomes como Aldemir Martins, Bandeira e Estrigas.


“Eu o conheci no tempo em que a Scap era o centro de atividades culturais. Com seu talento e bom trabalho ele se destacava dos outros”, enfatiza o também artista plástico e escritor Nilo Firmeza, conhecido como Estrigas. O psicanalista Antonio Mourão Cavalcante manteve uma relação de amizade com J. Fernandes na última década. “Ele era uma pessoa muito sensível. Um verdadeiro poeta e extremamente tímido. Era um excelente pintor de nível nacional e internacional.”, disse o psicanalista.


José Fernandes deixou cinco filhos adultos, três mulheres e dois homens, além da viúva Maria Malheiros. O artista ganhou fama por suas participações no Salão de Abril entre 1953 e 1990. Em 1955, foi premiado com a Medalha de Ouro na 11ª edição. “É mais um membro da Scap que desaparece. É mais um bom pintor que deixa de existir. Mas o J. Fernandes ficou na história dado a qualidade do trabalho desenvolvido por ele”, pontua Estrigas. (O POVO)


Chuvas do Adeus


Artista de várias nuances, segundo Nilo Firmeza, o Estrigas. J. Fernandes, um dos artistas plásticos remanescente da Sociedade Cearense de Artes Plásticas (Scap), como Aldemir Martins e Antônio Bandeira, faleceu ontem, em Fortaleza, vítima de falência múltipla de órgãos. Sua obra, dizia Estrigas, "é uma lição de que a arte de ontem ainda é boa para hoje e amanhã".


Estrigas conheceu o pintor e desenhista durante a década de 50, na época em que estava se projetando por meio de suas exposições individuais. Em 1955, seu quadro "Castigo imerecido" foi contemplado com a medalha de ouro no Salão de Abril.


"Escrevi sobre o trabalho de J. Fernandes, muito bem sucedido. Teve uma fase muito próxima do abstracionismo e ainda percorreu o expressionismo e o impressionismo. Embora soubesse desenhar e também fosse um bom aquarelista, ele pintava com óleo e tinta acrílica, técnica que passou a utilizar mais no final", conta.


Entre os temas abordados por Fernandes, Estrigas cita o paisagismo e os assuntos ligados ao mar. "Também fazia figuras e trechos de rua. Tinha muito talento. Era muito reconhecido por pessoas ligadas às artes e muito popular no mercado".


Porém, foi através do quadro "Chuva", que originou várias outras obras em torno do assunto, que ficou mais conhecido. "Todo mundo queria uma chuva de Fernandes. A gente brincava dizendo que ele já tinha pintado o inverno todo", comenta. "É mais uma perda para os remanescentes da Scap, grupo que já está bastante desfalcado. Mas a realidade é essa. Ele deixou o nome e ficou na lembrança das pessoas. Morreu cedo, tinha uma idade respeitável, não se podia dizer que era velho. Mas a morte não escolhe".


Homenagens

Em 2004, o Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (Mauc/UFC) promoveu, dentro do calendário do cinquentenário da Universidade, uma exposição retrospectiva sobre a fecunda trajetória de J. Fernandes, uma homenagem ao artista que, de 1961 a 1990, emprestou seu esforço aos trabalhos do MAUC. Desenhista e pintor, J. Fernandes iniciou-se nas artes plásticas ainda jovem, com desenhos nas calçadas da rua onde residia, em Fortaleza.


Recebeu por algum tempo orientação do mestre Raimundo Cela, especialmente na área do desenho. Com a volta de Cela ao Rio de Janeiro, foi apresentado por Jean-Pierre Chabloz a artistas plásticos iniciados nos movimentos de renovação da arte cearense durante a década de 40, como a criação do Centro Cultural de Belas Artes (CCBA), em 1941, e da Sociedade Cearense de Artes Plásticas, no ano de 1944.


Começou a participar das diversas edições anuais do Salão de Abril, a partir de 1953 e até 1990, e a Salas Especiais nos XXV, XXVIII e XXIX Salões Municipais de Abril (1975, 1978 e 1979), aparecendo ainda na Mostra Paralela aos XL e XLI Salões Municipais de Abril, realizados em 1990.

J. Fernandes participou ainda das mostras "A Paisagem Cearense" no Museu de Arte da UFC (1963) e "Quinze Artistas Cearenses", no Crato (1966). (DIÁRIO DO NORDESTE)

"No Meu Tempo...", crônica de Pedro Salgueiro para O POVO


Alguém disse que começamos a envelhecer quando paramos de criticar a geração mais velha e passamos a falar mal da mais nova. (Algum engraçadinho poderia dizer que começamos a ficar velhos mesmo é quando passamos a esquecer os autores das citações que usamos o tempo todo...)


Meu pai dizia que educação era no tempo dele, mesmo que poucos pudessem frequentar uma escola. E ele mesmo, tendo conseguido fazer apenas até a 5.ª Série primária, alardeava entre os amigos que educação mesmo era naquele tempo.


Como fanático por Orlando Silva vivia a criticar os cantores mais novos. A Jovem-Guarda, então, era apenas um bando de cabeludos que não tinha voz alguma.

— Orlando, sim, esse cantava! Hoje o sujeito deixa crescer o cabelo e passa dez minutos gritando “Debaixo dos caracóis, dos teus cabelos” (cantarolava com voz anasalada, imitando Roberto Carlos) e diz que é cantor!


Apurando bem o ouvido, nos bancos da Praça do Ferreira ou ao pé do alambrado do PV, sempre escutamos alguém dizer: “Futebol, sim, era naquele tempo! Mozart, Gildo, Croinha... Hoje qualquer um é craque”.


Um pessimista de plantão diria que esse “meu tempo” geralmente se refere a uma juventude perdida, bom tempo de esperanças e sonhos, para compensar um presente sombrio de decadência física e/ou mental.


Outro, mais otimista, rebateria que nosso tempo é o de hoje, o que (bem ou mal) estamos vivendo ainda. Mas pensando bem, e sendo justo, não se escreve mais crônicas de jornais como antigamente.

— No meu tempo era outra coisa! Caio Cid... Milton Dias!


PEDRO SALGUEIRO é cearense de Tamboril, nos Inhamuns, mas nasceu numa época em que o interior era tranquilo, acolhedor e próspero. E naquele tempo, sim, adorava passar férias por lá. Hoje está mais violento do que na capital.

"Sobre Relatórios e Artes", crônica de Tércia Montenegro para O POVO

Impressionante como as filas de banco são o palco da vida alheia! Parece que quanto mais fazemos cara antipática, mais nos tornamos ouvintes passivos. Não existe fumante passivo? Pois ouvinte passivo é aquele que ouve sem querer, porque afinal seria deseducado pôr as mãos sobre as orelhas. Entretanto, os assuntos algumas vezes são mais intragáveis que fumaça, quando não beiram o absurdo.


Naquela tarde, duas jovens à minha frente – após trocarem ideias sobre alisamento de cabelo e choque de queratina – passaram a falar de amor. A primeira, uma gordinha de rosa-choque, suspirou quando disse que ia completar um mês de namoro no dia 10. A outra invejou a sorte da companheira; falou que nos últimos tempos estava só “ficando”, e então a gordinha, talvez para atiçar o desgosto da amiga, revelou a surpresa que estava preparando para o amado:

– Eu fiz um relatório de cada dia do nosso namoro...


Não pude deixar de prestar atenção, afrontando as regras de privacidade de fila: arregalei os olhos como quem quer abrir mais os ouvidos. Felizmente, não fui percebida. Ela continuava:

– Para cada dia, contei o que tinha acontecido, se eu tinha telefonado para ele, se ele tinha me telefonado, o que nós conversamos. Se houve dia em que a gente não se falou, eu coloquei também...


Ninguém mais ao redor percebia a gravidade da situação: uma namorada tecia atas, descrições do comportamento de um rapaz, algo próximo de um arquivo de alta espionagem – e chamava isso de prova de amor.

– Assim, ele vai ver que estive sempre pensando nele, e vai adorar!



Tive que virar de costas, para não ver a cara de hipocrisia da outra garota (não podia ser que ela estivesse sinceramente invejando aquela criatividade!). Daí em diante, as duas amigas mudaram de assunto, mas eu fiquei mordida pela imaginação, pensando no pobre rapaz, na sua cara de susto quando abrisse o tal relatório.


Se ele tivesse um mínimo de juízo, pensaria: essa minha namorada é louca, não tem o que fazer, concentrou toda a vida em mim, e em apenas 30 dias analisa os meus atos milimetricamente – vou cair fora já!


Entretanto, outro dia li a declaração de um artista, que disse compor suas obras para vencer o tempo e ter a ilusão de que a existência podia ser traduzível. De repente, pensei se a gordinha de rosa-choque não agia assim. O relatório era uma forma de reviver cada dia do namoro, traduzindo a vida dos dois, ou a vida dela sob a presença dele, a importância dele. Vendo dessa maneira, ficava aceitável e até mesmo bonito. Mas isso dependia de eu estar pensando na situação em horário próximo ao da meia-noite, sob o luar. Naquela tarde, em plena fila de banco, realmente não me pareceu que um diário de namoro tivesse proximidade com as artes...

"Ode à fermosa Mirna Rosa", crônica de Nilto Maciel para o Literatura sem Fronteiras


Acordei doido para acordar, sair de um sonho noir. Andava por rua interminável. Quanto mais caminhava, mais à frente via o asfalto molhado e esburacado, casas fechadas dos dois lados, silêncio e solidão. Dos postes escorria luz amarelada e frouxa, que se espalhava pelo chão. Talvez se avizinhasse a madrugada. Ou aquilo fosse um mundo em ruínas, abandonado pela vida. Deslizavam ratos, em correria pelos cantos, à busca de esconderijos. Ao redor das lâmpadas, voejavam milhões de mosquitos. Eu queria fugir de lá, chegar a um refúgio, meu lar, quem sabe. Mas, cansado, não conseguia apressar o passo. E a avenida mais se estendia. Súbito, os buracos se multiplicaram e se expandiram. Pulava, saltitava, buscava o meio da via, voltava à calçada. Desiludia-me: nunca chegaria à claridade, ao fim da caminhada, ao sossego. Espreguicei-me, espichei-me todo, abri os olhos, sentei-me à beira da cama. Precisava logo de alegria. Lavei a cara, olhei-me com misericórdia e alcancei a copa. Abri a porta da geladeira, agarrei um copinho de iogurte e me pus a perambular pela casa. Fui abrindo portas e janelas, para ver o sol, o vento e a liberdade. Entanto, a tristeza noturna não me deixava. E assim vivi até a hora do almoço. Sentei-me na velha cadeira, prato à mão. Liguei a televisão para me aproximar da realidade do mundo e me afastar de mim: ateavam fogo a carros no Rio de Janeiro, fanáticos muçulmanos espedaçavam crianças com bombas, oradores fleumáticos incitavam os pobres a exterminar o Diabo. Tive nojo de tudo e vontade de reduzir a pó aquele aparelho daninho. Levei o prato à pia. Formigas passeavam famintas. Lembrei-me do quarto de hóspedes, onde há anos cochilam velhos poetas. Por acaso, dei de frente com secular grego: “As mulheres me dizem: – Anacreonte, / Toma um espelho e olha-te! / Velho! Nem tens cabelos nessa fronte!... / vês? O tempo desfolha-te”. Da Grécia rumei para Roma. Alcancei um Quinto Horácio Flaco a dormitar e me pus a soletrar: “Ibam forte via Sacra, sicut meus est mos, / Nescio quid meditans nugarum, totus in illis”. No meio da jornada, fui despertado por um chamamento metálico: acionaram a campainha do portão. Larguei a Selecta Latina e rumei na direção do átrio e, de lá, à entrada. Eis que toda a minha tristeza desmoronou. Diante de mim, a mais bela figura humana surgida aos meus olhos nos últimos sessentanos: Mirna Rosa. Nem me lembrava mais dela. Isto é, da visita que me solicitara dias atrás. Quem lhe falou de mim? Raymundo Netto. Que disse ele? Sua biblioteca é muito rica. E empresto livros a amigos? E dá. Isso não chega a ser verdade. Sabe o que quero? Não. As odes de Anacreonte. Para... Minha dissertação. Anacreonte? Como ponto de partida. E de chegada? Francisco Carvalho. Título. Talvez “De ode em ode: de Anacreonte a Carvalho”. Excelente. Posso ir visitá-lo? Sim, pode. Quando? Bem quiser.


Conduzi-a ao quarto dos hóspedes ilustres. Ela se estarreceu diante das estantes. Passeou os olhos pelas lombadas vetustas e foi de A a Z, num ziguezague estonteante. Senti tontura e me recostei em Machado de Assis, que recuou. Sinto a boca seca. Então beba água. Venha comigo. Fomos à fonte. Nunca decorei nada, a não ser um verso aqui, outro ali. Naquela tarde, porém, lembrei-me de uns versos do Camões: “Descalça vai para a fonte / Leonor pela verdura; / Vai fermosa, e não segura!” São seus? Quem me dera ver-te fermosa, e descalça pelo mato. Regressamos à sala, eu a cambalear, atônito, febril e trêmulo. Ela, esvoaçante, cheia de sorrisos e curiosidades. Carvalho escreveu odes, mas também canções, cantatas, cânticos, elegias, epigramas, minuetos, noturnos, pavanas, provérbios, réquiens, salmos. Você conhece a “Ode Itabirana”? É longa e traz o refrão “Fica torto no teu canto, Carlos”. E “Ode circular”? Começa assim: “No maxilar do rei há restos de ouro / restos de prata, restos de marfim / e de palavras, pêssegos da ira”. A menina se extasiava e eu lia: “Deusa vegetal / de corpo límpido”. Estes versos são de “Ode à Árvore”. Linda é também a “Ode ao Sol”. Leio? Leia. Li: “Ó sol dos deuses olímpicos / me arrebata para os vales / do amor. Ali Eros passeia / em seus dourados cavalos”. Eu não cansava; Mirna descansava. Escute esta “Mínima Ode para um Grande Mamífero”: “O rumor de tua sombra / sacode os espíritos / da floresta”. Você não poderá esquecer a “Ode ao pastor das estações”. Longa, dividida em onze pequenos poemas e dedicada a Octavio Paz: “De verde desenhas o corpo / da mulher amada. O papiro do / ventre, os prados da lascívia”. Genial esse Carvalho. E a “Ode triunfal”? É poesia em alta rotatividade: de Homero, a Camões, a Pessoa. Veja o primeiro terceto: “Estavas, linda Inês, quase em sossego / à sombra dos arbustos da colina / cuidando dos rebanhos do argonauta”.


Invadia-me, pouco a pouco, a volúpia dos faunos. Busquei “Mosaicos eróticos”: “Tudo é breve e límpido no amor. / Tudo se ilumina quando / a ceia da carne celebra o instinto”. Mirna se derretia de paixão pelo verbo de Francisco Carvalho. Li, por fim, “Cântico da nudez”: “Toco tua nudez / de taça que ardesse / ao fogo do vinho”.


Convidei-a para conhecer meu quarto de dormir. Poeta dorme? Não sendo poeta, durmo até demais. E sonha? Com ruas desertas, casarões assombrosos, caminhos esburaquentos. Pelo menos isso serve para escrever. Ou me apavorar. E caí na cama feito um pacote bêbado, atrapalhando o sábado. Chico Buarque? Um pouco.

"As Costureiras de Mamãe", crônica de Ana Miranda para O POVO



A jovem Rachel de Queiroz escreveu uma poesia lírica, mas amarga, sobre uma costureira. Via-a sempre passar à sua porta, “sombrinha aberta, ligeira, sob o sol quente... que importa?”. Rachel lamenta aquela sina de trabalhar em casa alheia, pois a costureira não tinha máquina sua, e ganhava tão pouco que mal dava para ajudar a mãe doente. Os dedos picados de agulhas, as orlas escuras nos olhos rasos d’água, dos tantos serões na faina dos caseados... No entanto, ia alegremente.


Desde criança tive as costureiras em minha vida como personagens quase mágicas, capazes de transformar embrulhos em suntuosos trajes de sonhos, prosa cotidiana em fantasia poética. Viviam em nossa casa moças de que não recordo os rostos, mas sim, seus dedos, dedais, agulhas, e gestos e trabalhos, seus cantos e algaravias. Lembro-me do nome de uma delas, a mais exímia, uma verdadeira artista: dona Zuila, o mesmo nome de minha mãe. Com seus cabelos já grisalhos, dona Zuila fazia especialmente os vestidos de baile, em algum tecido precioso sobre o qual bordadeiras trabalhavam com capricho, criando um espetáculo de gradações e lampejos. Os vestidos de baile eram tão maravilhosos que eu imaginava ser a minha mãe uma rainha. E era assim que ela talvez se sentisse naqueles momentos em que se paramentava para ser recebida nos salões, vendo como por encanto apagarem-se todas as agruras da vida, as barreiras, as humilhações, as desesperanças, todo o passado, enfim, que talvez retornasse ao adentrar a festa.


Mamãe colecionava rendas as mais preciosas, que rendeiras vinham lhe oferecer à porta, e mantinha “cadernetas” nas lojas do Centro, onde suas costureiras iam pegar amostras para que se escolhesse o tecido mais adequado a tal ou qual vestido. As costureiras faziam as compras da metragem necessária, dos aviamentos, também do pano para forro. Trabalhavam em nossa casa, na máquina de costura que não possuíam, instalada num atelier nos fundos do quintal. Os moldes de papel eram desdobrados em cima da mesa de refeições sobre a qual estendiam o pano; calculavam, mediam, cortavam as peças. A nossa sala de jantar ficava animada, com aquelas moças e suas tesouras e fitas métricas, que ali mesmo alinhavavam as partes umas nas outras, enquanto bordadeiras trabalhavam com linhas sedosas e pires cheios de contas, entre sianinhas douradas, rosáceas, miosótis, campânulas, transparências para detalhes...


Às vezes, sobre uma saia rodada, em círculo elas trabalhavam, num alegre e repetitivo balé dançado com as mãos. Enquanto isso, conversavam, riam, escutavam a vitrola, cantavam, comiam tapiocas e tomavam café. Experimentávamos várias vezes as roupas que elas faziam: vestidos do dia a dia ou para domingos ou aniversários, para nós, crianças; ou para nossa mãe, que iam sendo ajustados detalhe por detalhe, sublinhando as curvas do corpo. Os meus vestidos e os de minha irmã tinham pequenas diferenças, ora na cor, ora num tipo de renda da gola, mas havia a intenção de parecerem iguais. Eram preciosos, posso ver pelas fotografias que nos restaram, com minuciosas rendas e nervuras, apliques, todo tipo de enriquecimento que o vagaroso tempo e o orgulho da destreza permitiam. Como minha mãe costurara seus próprios vestidos, quando era pobre e esquecida no interior, antes de casar, tinha uma boa noção do molde, do corte, da costura em si, dos acabamentos, e ela mesma desenhava seus vestidos de festa, feitos então com uma frequência talvez semanal. Vejo nas fotos como eram bonitos e trabalhados. Tenho uma roda de tecido rebordado que foi um dia a saia de um traje de baile, uma coisa realmente bela, que se tornou uma blusa para minhas ocasiões festivas.


Talvez aquelas moças saíssem dali com o dinheirinho na bolsa, fossem comprar o remédio da mãe doente, ou pagar o aluguel da casa modesta, e tivessem a tristeza de que fala Rachel em sua sensibilidade de poetisa mocinha. Talvez se sentissem humilhadas por não terem a própria máquina de costura para trabalharem em casa, talvez tivessem mesmo os olhos fundos e ornados por orlas escuras, e descessem a ladeira, tristes e silenciosas, lamentando a pobreza. Mas eram trabalhadoras, produtivas e talentosas, tudo faziam com o maior esmero, eram artistas; afinal, há um mesmo espírito na construção de um vestido de baile e na de uma catedral, ou na textura sinuosa de uma escrita, onde há espaço para se abrigar “gesto e movimento, graça e malignidade, oferta e ironia, langor e negaceio, dando todo o pano à desmedida inventividade”, dela, a costureira.



ANA MIRANDA é escritora, autora de Boca do Inferno, Desmundo, Dias & Dias, Yuxin, entre outros romances, editados pela Companhia das Letras.

"Id Quo Maius Cogitare Nequit", poema fraterno de Manuel Soares Bulcão Neto


Para Lígia, minha filha

Existe em algum recanto
Do mundo das ideias puras
O poema de amor perfeito.

É o poema que canta
O meu amor por ti:

Canção mais bela
Do que qualquer canção
Que a imaginação humana
É capaz de criar.

Esse poema existe
— Diz o meu coração —,
Embora impossível
Expô-lo em papéis
Com palavras mundanas

— Por ser um poema
De infinitos versos
Escritos na língua dos anjos

(*) Id quo maius cogitare nequit (latim): “Algo maior que qualquer coisa que possa ser concebida”. Trata-se da premissa maior do argumento ontológico favorável à existência de Deus, de Boécio e Anselmo.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

"Impulso na Área Cultural", editorial do Diário do Nordeste (4.11)


A administração pública, no Ceará, sempre se deparou com uma profusão de problemas, em paralelo com a escassez de recursos financeiros, por causa de sua fragilidade econômica. Mas as últimas gestões conseguiram realizar um parâmetro diferente, ao revigorar a atração de empresas originadas em outras plagas, mediante a oferta de incentivos fiscais para consolidar a infraestrutura, a produção industrial e a prestação de serviços, diversificando a receita pública.

O impulso financeiro daí resultante permitiu irrigar setores antes relegados a plano secundário, como a política cultural. Nos últimos anos, os números comprovam transformações substanciais na difusão da cultura, formação de plateias e recuperação dos acervos bibliográficos nos quais repousam as origens históricas, costumes e tradições dos cearenses.


Esse trabalho, partilhado entre Estado, municípios, universidades e instituições culturais, públicas e privadas, permitiu, de início, a construção do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas. Hoje, existem no Ceará, em plena atuação, 192 bibliotecas distribuídas pelos 184 municípios, caso raro no País. Elas foram inicialmente abastecidas por 300 mil livros publicados por editoras locais, como parte da cota de 1 milhão e 50 mil livros adquiridos para a composição dos acervos.


Decorrido o quadriênio da administração em fase conclusiva, a Secretaria de Cultura exibe programas que, bem- sucedidos, serão, em breve, disseminados pelo País, como os agentes de leitura, ação voltada para a promoção da leitura mediada e compartilhada no ambiente familiar ou em espaços educativos e culturais no seio das próprias comunidades. Além disso, 340 agentes de leitura motivam as comunidades espalhadas pelos povoados, distritos e municípios, para a leitura e compreensão de textos nas regiões do Cariri, Baturité, Jaguaribe, Salgado, Ibiapaba, Sertão Central, Litoral Oeste, Fortaleza e sua região metropolitana.


A universalização da política do livro permitiu a aquisição de 27 mil livros publicados por novos autores cearenses, para diversificar os acervos. A coleção Nossa Cultura viabilizou a edição, reedição ou coedição de 107 obras de autores consagrados, dentre eles, o Barão de Studart, Juvenal Galeno, Rodolfo Teófilo, Gustavo Barroso, Joaquim Alves, Papi Júnior, Mário da Silveira, Antônio Sales, Lívio Barreto e outros intelectuais contemporâneos.


Diante desse empreendimento cultural, não foi difícil à Secretaria de Cultura sensibilizar o mecenato para apoiar suas iniciativas. O Prêmio Literário do Ceará de 2010 contemplou com a publicação 110 títulos, no vasto universo de obras literárias habilitadas nas condições previstas no edital regulamentador do certame. O Estado também alcançou a exata relevância dessa política, dotando o Fundo de Cultura, neste ano, de R$ 30 milhões, para patrocínio.


O setor cultural atingiu assim um patamar inovador, pela qualidade da gestão e pela relevância da democratização das políticas culturais, de forma republicana, priorizando as manifestações da criatividade cearense e reconstruindo o expressivo acervo documental do passado.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

"Calcinhas", crônica de Raymundo Netto para O POVO


Por hábito, em tempo demais diante deste monitor, passeio pelos cantos da casa.


Num desses, alonguei-me à cozinha, esbarrando com o cesto de roupas estranhamente deslocado. Conhecendo o método da esposada, senti-lhe o esquecimento, e daí, vítima que sou da convivência cordial (poderia simplesmente fingir não ter visto que todos acreditariam, assim como fazem meus iguais) decidi eu mesmo pôr ao sol, no varal de chão da varanda, tais roupas.


Foi quando me dei conta de que tudo aquilo eram calcinhas (de minha esposa e das duas filhas). Pus-me a estender, uma a uma, a calcinhada. Na hora (quem escreve está sempre pensando bobagens), lembrei uma amiga que defende: os homens acreditam que cuecas nascem, no fundo escuro de suas gavetas, por geração espontânea! Obrigo-me a concordar. Conheço várias mulheres que estranham o infindável tempo de vida de nossas cuecas. Com meu pai também era assim. Geralmente, são elas, as esposas, que se ocupam de renovar-nos o acervo. Ao contrário, nós, homens, somos tomados pelo espanto do nada suficiente das mulheres: nem calcinhas, nem sapatos, e imagine o que mais... Elas são muitas dentro de uma só, justificada a complexidade de suas irresistíveis almas femininas. Comecei a pensar se existiria uma média racional entre o número de calcinhas para cada sutiã ou pescoço. Lembrei também de uma curiosidade: no Japão, para combater o calor, vendem-se, em máquinas encontradas no meio da rua — e em embalagens como as de sorvete —, “calcinhas geladas”, que, segundo os fabricantes, são recomendadas também para serem usadas nas cabeças. Imaginava a ridícula cena, quando percebi que das demais varandas e janelas dos outros apartamentos, algumas vizinhas ou suas empregadas observavam-me ao serviço. Surpreendidas se riam, desapareciam das janelas, escondiam-se por trás das cortinas. Já embaraçava-me, quando veio-me a ideia de colocar os pregadores de roupa (em Londres já existem pregadores com previsão de tempo, sabia?), mas eram tantas as calcinhas...“Haja pregador!” Ah, assim já era servilismo demais... Voltei ao trabalho e as esqueci.


À tarde, porém, num dos passeios pela varanda, constatei: as calcinhas, insufladas pela iniciativa de uma fresca, tomaram vida e voaram rumo ao ignoto. Tragédia anunciada! Pensei na bronca da esposa: “Quem mandou mexer no que não era chamado?” Bem que eu poderia culpar o macaco Chico, o do Lalau, aquele que, tarado por calcinhas, invadia as residências do Bonsucesso carioca a roubá-las e as rasgava em cima dos telhados. “Não, ela não acredita em literatura”... Tive que, então, rapidamente, catá-las no térreo, nas garagens, no jardim. Vendo uma a tremular à grade da janela de baixo, pensei em passar na vizinhança, bater-lhe à porta a recuperá-las. Indecoroso seria o zelador, com fingida normalidade, perguntar-me, calcinhas à mão, “É do senhor, seu Netto?”, e eu ter que, com constrangimento, responder-lhe que sim.


À medida que as encontrava, recolocava-as no varal, desta vez com os pregadores, antes de minha esposa chegar e ver o mal feito. Então, jurei a mim mesmo: nunca mais nesta vida haveria de tocar numa calcinha, a não ser na presença da usuária, e se, e somente se, ela me estorvasse em qualquer coisa.


Raymundo Netto que não entende nada de calcinhas, mas tem curiosidade em ver uma “aumenta bumbum”... Contato: raymundo.netto@uol.com.br blogue AlmanaCULTURA: http://raymundo-netto.blogspot.com/