quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Edital Prêmio Literário para Autor (a) Cearense


O Governador do Estado do Ceará, Cid Gomes, e o Secretário da Cultura, Auto Filho, por considerarem a atividade editorial e toda sua cadeia produtiva como integrante do processo de desenvolvimento cultural e, assim, essencial para o desenvolvimento do Estado, no uso de suas atribuições, tornam público, para conhecimento dos interessados, o Edital Prêmio Literário para Autor (a) Cearense, a maior premiação para a literatura na história do Estado do Ceará, que objetiva garantir a democratização do acesso aos recursos do Tesouro do Estado para, conforme a Lei nº 13.549, de 23 de dezembro de 2004, estimular a produção e valorização dos autores e editores radicados no Estado do Ceará, promover a circulação do livro, preservar o patrimônio literário, incrementar a produção editorial estadual e regulamentar as inscrições para apresentação de propostas e seleção de projetos em Literatura e Cultura em 14 (quatorze) categorias, abaixo discriminadas, sendo atribuído ao presente Edital o valor da ordem de 2.000.000,00 (dois milhões de reais).

O Edital tem como objetivo selecionar e premiar cearenses, dentre escritores, editores, quadrinhistas, pesquisadores, ilustradores, cordelistas, artistas e autores (as) de projetos gráficos em Literatura e Cultura em reconhecimento à originalidade, qualidade intelectual e técnica de seus trabalhos, distribuídos nas seguintes categorias, intituladas em homenagem a autores e intelectuais destacados na cultura cearense:


Prêmio Caetano Ximenes Aragão, de Poesia inédita (R$ 4.285,71 para o autor (a) + publicação);


Prêmio Jáder de Carvalho, de Romance inédito (R$ 4.285,71 para o autor (a) + publicação);


Prêmio Moreira Campos, de Conto inédito (R$ 4.285,71 para o autor (a) + publicação);


Prêmio Milton Dias, de Crônica/Memórias inédita (R$ 4.285,71 para o autor (a) + publicação);


Prêmio Rachel de Queiroz, de Literatura Infantil e Juvenil inédita (R$ 4.285,71 para o autor (a) + publicação);


Prêmio Alberto Porfírio, de Literatura de Cordel inédita (R$ 4.285,71 para o autor (a) + publicação);


Prêmio Otacílio de Azevedo, de Reedição (R$ 2.857,14 para o proponente/autor (a) + publicação);


Prêmio Eduardo Campos, de Dramaturgia inédita (R$ 4.285,71 para o autor (a) + publicação);


Prêmio Braga Montenegro, de Ensaio e/ou Crítica literária inéditos (R$ 4.285,71 para o autor (a) + publicação);


Prêmio Guilherme Studart de Ensaio sobre Tema Cultural inédito (R$ 4.285,71 para o autor (a) + publicação);


Prêmio Luiz Sá, de Álbum em Quadrinhos inédito (R$ 4.285,71 para o autor (a)/ + publicação);


Prêmio Manoel Coelho Raposo, de Publicação de Selo Editorial (execução de projetos de publicação, conforme apresentação de Plano de Trabalho, de coleção constituída de, no mínimo, três livros versando sobre temática CULTURAL específica a escolher);


Prêmio Edigar de Alencar, de Publicação de Revista Literária/Cultural (execução de projetos de publicação, conforme apresentação de Plano de Trabalho, de, no mínimo, três números/edições de revistas, inéditas ou em curso, com tiragem mínima de 1.000 exemplares cada um)


Prêmio J. Ribeiro, de Publicação de Álbum/Livro de Arte (publicação ou republicação de álbum, livro de arte e outras publicações em forma de livro, não contempladas nas categorias acima relacionadas, conforme apresentação de Plano de Trabalho)


Com exceção das categorias de Reedição e Publicação de Álbum/Livro de Arte, poderão concorrer apenas OBRAS INÉDITAS, sendo considerada OBRA INÉDITA, para fins deste Edital, aquela cujos textos que a compõem não foram publicados em conjunto, integralmente, em meio impresso e/ou eletrônico.


No momento da inscrição, as obras/projetos deverão ser apresentados, OBRIGATORIAMENTE, sob PSEUDÔNIMO, com exceção das categorias Reedição, Álbum em Quadrinhos, Ensaio e/ou Crítica Literária, Ensaio sobre Tema Cultural, Revista Literária/Cultural e Álbum/Livro de Arte.


Pessoas jurídicas só poderão concorrer às categorias Publicação de Selo Editorial (exclusivo para pessoa jurídica), Publicação de Revista Literária/Cultural e Publicação de Álbum/Livro de Arte, devendo, no ato da inscrição, indicar a pessoa física responsável por sua execução.


A Subcomissão de Habilitação Técnica selecionará a obra a ser premiada consoante os seguintes critérios:
a) Qualidade literária e estética da obra/projeto
b) Originalidade e criatividade da obra/projeto
c) Pertinência cultural da obra/projeto
d) Qualidade de Projeto Gráfico (incluindo detalhes de produção como ilustração, acabamento, design/arte-final, impressão e encadernação)
e) Currículo do Proponente
f) Atendimento às exigências do Edital
g) Exequibilidade e adequação orçamentária aos valores praticados em mercado, viabilidade de execução, dos prazos para realização, alcance e abrangência do projeto (efeito multiplicador e participação coletiva), interesse público e garantia da visibilidade do Prêmio e do apoio institucional da SECULT.


Além, da premiação e apoio a projetos envolvendo a cadeia criativa e produtiva do livro, a Secretaria da Cultura, em acordo com a UNIGRÁFICA e com o SINDILIVROS, está articulando a possibilidade de elaboração de orçamentos mais reduzidos na produção dos livros destinados ao edital, qualificação técnica das gráficas proponentes (em consórcio com editoras), menores descontos para as livrarias no preço final do livro e a abertura de espaço nas livrarias para lançamentos das obras selecionadas.

As inscrições serão realizadas no período de 18 de fevereiro a 31 de março de 2010. NÃO PERCAM TEMPO NEM A DATA FINAL!

O Edital completo com todas as especificações de apresentação de cada categoria e as normas gerais poderão ser encontrados e impressos por meio do sitio eletrônico da SECULT:




Maiores informações: Coordenadoria de Políticas do Livro e de Acervos/COPLA - (85) 3101.6794 ou pelo e-mail copla@secult.ce.gov.br

domingo, 14 de fevereiro de 2010

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Revista Vida e Educação nº 25




Vida e Educação: revista da Educação Básica, publicação bimestral da, cearense, Editora Brasil Tropical, sob a direção de Sandra Lima Röhl, também presidente da Câmara Cearense do Livro, chega agora ao seu número 25 com uma tiragem de 5.000 exemplares.

Em seu editorial, Sandra Lima assegura que a revista "se preocupa em discutir, dentro de sua área específica, temas que estão na nossa vida, de maneira tão direta, refletindo sobre questões polêmicas e, principalmente, atuando como guia, conselheira de pais, de professores e profissionais da educação, a fim de que exerçam da melhor forma seus papéis tão cruciais para a transformação desta realidade."

Com uma apresentação gráfica esmerada e um conteúdo, como de costume, criteriosamente escolhido, a Vida e Educação, dentre outras matérias, traz:

- Mídia e Infância (Prof. Claudemir Viana, Laboratório de Pesquisas sobre Infância, Imaginário e Comunicação da ECA/SP, fala sobre como os desenhos animados influenciam no desenvolvimento das crianças);

- Música (Elvis Matos, músico e professor da UFC, discute os rumos da música em aulas de artes, conforme a Lei nº 11.769 que torna o ensino da música obrigatório na educação básica);

- Neuroeducação (uma matéria da psicóloga Prof. Ms. Berenice Romanelli sobre a neuropsicologia e o distúrbios de aprendizagem, dentre eles a dislexia, a discalculia, disortografia, TDA/H e outros);

- Diversidade Sexual (Toni Reis, Presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros, reflete sobre as diversidade sexual na escola e as consequências do preconceito e as práticas excludentes comuns da sociedade);

- Observatório (artigo da deputada Rachel Marques, ex-presidente da Comissão de Educação, Cultura e Desporto da Assembleia Legislativa do Ceará, enfocando o parlamento estadual, a qualidade e a universalização da educação)

- E mais: estatísticas, informes, experiências educacionais exitosas (Prêmio Peteca), publicações, entrevista (neste número, com o Prof. Cipriano Carlos Luckesi, da Universidade Federal da Bahia), Religião (artigo do Prof. Dr. Marcos Scussel, do Instituto de Educação Marista Nossa Senhora das Grças - RS) e, finalizando, na coluna Opinião, a Doutora em Educação, Maria José Barbosa, discorre sobre a problemática ainda enfrentada pela Educação de Jovens e Adultos - EJA, mesmo diante das garantias constitucionais.

Enfim, uma revista de cabeceira e competentemente desenvolvida para quem é gestor e /ou profissional da área educacional, mas também para todos nós que temos filhos e acreditamos que pensar educação neste país é a única forma de construirmos um futuro sustentável.

Serviço:

Revista Vida e Educação

Atendimento ao assinante: brasiltropicalfor@terra.com.br

Sugestões e/ou criticas: redacao@vidaeeducacao.com.br

Publicidade: +55 (85) 3214.6971 (Elpídio Júnior)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

"O 'Pão' Nosso! A verdadeira história da Padaria Espiritual", crônica de Raymundo Netto para O POVO


Clique na imagem para ampliar!
Lembrar é tão difícil quanto esquecer. Peço permissão agora, num galope à beira-mar, para abrir a caixa preta do Café Java e, assim, revelar a todos como se deu, realmente, o estabelecimento da sociedade de rapazes de Letras e Artes, vulgarmente conhecida por “Padaria Espiritual”.

Estávamos eu, Pedro Salgueiro, Astolfo Lima, Carlos Vazconcelos, Poeta de Meia-Tigela, Carlos Nóbrega e Nilto Maciel no Assis da Gentilândia, sede de reuniões de promessas literárias, — e digo “promessas”, pois geralmente nunca se cumpre o que se propõe nelas, deixando todas as deliberações para a próxima ou para a que vier depois dela, e se vier —, quando soubemos que o deputado Antônio Sales, poeta e romancista, estava de volta à cidade. Tão mal comentávamos o fato, o vimos sair de uma bodega do Benfica com uma bisnaga de pão francês debaixo do braço. Vinha de conversa com o professor Sânzio de Azevedo, já se indo à Jacarecanga, onde residia há algum tempo.

Fui buscá-los, logo os convidando a ficar, mesmo que por um pouquinho. Antônio Sales, que estava todo em branco, passou o lenço na cadeira antes de sentar. Cumprimentou a todos, puxou um charuto, tragou uma branquinha e, diante do pedido de novidades, revelou-nos o desejo de abrir um grêmio literário genuinamente cabeça-chata. Ficamos impressionados. Sabíamos haver pelo menos uma centena de academias na cidade e que, todos os dias, entre trovas e panegíricos medonhos, criavam-se outras. O cearense, dizem, antes de tudo é um acadêmico. Precisava-se mesmo de mais uma?

— Compreendam, camaradas — argumentou. —, eu não quero apenas mais uma como tantas essas burguesas, formais, retóricas e burocráticas. A nossa tem de ser coisa nova, original, e até mesmo um tanto escandalosa para que sacuda o nosso meio e que tenha repercussão lá fora.
— Mas como o senhor está pensando, dr. Antônio? — questionou o Carlos, já curioso, a pensar como convidá-lo para participar do Bazar das Letras do SESC.

Percebendo a inquietação, Sales forrou, com guardanapos, a cadeira ao lado, e deitou seu pão, ainda quente, enquanto retirava do bolso do paletó umas folhas de papel consteladas por pingos e respingos de tinta. Era o rascunho dos estatutos de tal agremiação. Leu-nos alguns de seus artigos inéditos:
— “Depois da instalação da sociedade, só será admitido quem exibir uma peça literária ou qualquer trabalho artístico que for julgado decente pela maioria.”
— Pronto, já começou mal. — comentou o Pedro, torcendo a boca, franzindo a testa e olhando sabe lá Deus pra onde. — Se tiver que ser julgado pela maioria não vai entrar é ninguém. Não entra. O pessoal daqui, do jeito que é, não deixa!
— É uma pena... Fortaleza mimosa, ex-tapuya, é hoje uma rapariga civilizada. Está perdendo o encanto. É incrível, amigos, que a cidade, ao passo que se alarga materialmente, vai-se estreitando moralmente, de forma a assumir as mesquinhas proporções mesológicas de um lugarejo matuto com todo seu fervilhamento de intrigas, de picardias e bisbilhotices. — lamentou, a prosseguir: — “O distintivo da entidade será uma haste de trigo cruzada de uma pena, distintivo que será gravado na respectiva bandeira.”
Trigo? Cerveja! Todos levantaram os copos. Apoiado!

— “É proibido o uso de palavras estranhas à língua vernácula.” — “Aquele que durante uma sessão não disser uma pilhéria de espírito, pelo menos, fica obrigado a pagar, no sábado, café para todos os colegas. Quem disser uma pilhéria superiormente fina pode ser dispensado da multa na semana seguinte.”
— Estou fora. Que é isso? Não vou pagar nada para ninguém. Eu não sei fazer graça. — reclamou o Nilto, derrubando o gelo da cerveja na unha encravada do seu pé.
— E nós não vamos falar em literatura, não, gente? — entrepôs-se o Astolfo, já impaciente.
— “O associado que for pegado em flagrante delito de plágio, falado ou escrito, pagará café e charutos para todos os colegas.”
— O plágio é um atestado de humildade... — lembrei.
— “Será julgada indigna de publicidade qualquer peça literária em que se falar de animais ou plantas estranhos à fauna e à flora brasileiras, como: cotovia, olmeiro, rouxinol, carvalho etc.”
— Ei, o Rouxinol [do Rinaré] e o [Francisco] Carvalho vão ter que mudar de nomes? — comentou o Nóbrega, explodindo em risadas.
—“São considerados, desde já, inimigos naturais dos gremistas: os padres, os alfaiates e a polícia. Ninguém deve perder ocasião de patentear seu desagrado a essa gente.” Ah, essa parte é importante, gente: “Será punido com expulsão imediata e sem apelo o associado que recitar ao piano...”
— E o que citar trechos de latim no discurso também, não é? Ô coisa besta... — alguém lembrou um lançamento recente.
— “Vai detonar, implodir/ Antigas Instituições/ Vai deitar abaixo o Estado/ Costumes e tradições/ Vai trucidar, chacinar/Abonados, figurões.” — recitou o Poeta, apertando os dedos das mãos.
— Engraçado, né?... Mas a gente não vai falar em literatura, não? — lembrou novamente o Astolfo.
— “A sociedade representará ao Governo do Estado contra o atual horário da Biblioteca Pública e indicará um outro mais consoante às necessidades dos famintos de idéias.” Bem, ouvi dizer que esse problema já foi resolvido... “Publicar-se-á, no começo de cada ano, um almanaque ilustrado do Ceará contendo indicações úteis e inúteis, primores literários e anúncios de bacalhau.”
— Não vai dar certo. Ninguém ajuda nem lê. Já chega ao primeiro número com caquexia pecuniária. — profetizou o Nilto, limpando o bigode com o indicador.
— “As mulheres, como entes frágeis que são, merecerão todo o nosso apoio, excetuadas as fumistas, as freiras e as professoras ignorantes.”
— Uma mulher bonita de mau coração é como a mangaba que tem a polpa doce e o caroço amargo, não é assim, Sales? — tirou da memória invejável, o Sânzio.
— Pois é, Sânzio... Estou pensando em também publicar um periódico quinzenal, mas não sei ainda como vai se chamar... Vai depender, é claro, do nome que dermos à agremiação. — Nisso, Antônio Sales voltou-se ao seu pão e descobriu, surpreso, a cadeira em guardanapos vazios. Bradou: — O pão... que é do meu pão?
Estando todos nós com as bocas devidamente ocupadas, demos com os ombros, a abanar a cabeça...
— Pelos modos, querem me dizer que foi uma alma que levou o pão?
— Vai ver estão montando uma padaria espiritual. — respondeu, espirituoso, o Sânzio.
— É isso, professor... Padaria Espiritual! Padaria... O pão que alimenta o espírito do povo! O Pão! O Pão! Eureka!
Eufórico, Antônio Sales tomou rapidamente as folhas amassadas, colocou o chapéu à cabeça, despediu-se de todos, beijou forçosamente a testa do Sânzio, e arribou-se, como as aves, para fazer história.
— Esse negócio de beijar a gente é de lascar! — afirmou Sânzio com ares de “não gostei” e limpando a testa com o lenço. — Já pensou, rapaz, que coisa de Mandrake? Logo o Antônio Sales... Peraí...
— E o pior, professor, é que saiu e não pagou a conta. Que custa contribuir, né? Mais um! — desconsolava-se o Pedro enquanto o Nilto afirmava:
— Eu não vou pagar. Não convidei ninguém. Só bebi uma cerveja.
— Rapaz, eu só sei que vou mudar de bodega... ô, pãozinho bom... — afirmou, jocoso, o Nóbrega.
— E aí, minha gente, — reclamou o Astolfo puxando mais um cigarro — quando a gente vai começar a falar sobre literatura?

Ficou para a próxima... como sempre!

Antônio Sales (1868 – 1940), cearense, nascido em Parazinho (hoje, Paracuru), publicou “Versos Diversos”, “Minha Terra” e “Aves de Arribação”, dentre outros. Em 1892 criou o programa de instalação da “Padaria Espiritual” (alguns de seus trechos citados no texto), movimento que durou até 1898 e da qual fizeram parte diversos autores cearenses. Ajudou na fundação da Academia Brasileira de Letras, não aceitando, porém, o convite para fazer-lhe parte. Alguns dos trechos de sua fala forma colhidos de seus escritos.

Raymundo Netto é autor do romance “Um Conto no Passado: cadeiras na calçada". Escreveu esta crônica de aniversário para o Prof. Sânzio de Azevedo (11 de fevereiro). Contato: raymundo.netto@uol.com.br / blogue: http://raymundo-netto.blogspot.com



quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Homenagem de aniversário de 250 anos de Bárbara de Alencar

Clique na imagem para ampliar a Bárbara!


Em homenagem aos duzentos e cinquenta anos de Bárbara de Alencar,
nascida a 11 de fevereiro de 1860; e aos trinta anos do
Romanceiro de Bárbara,
de Caetano Ximenes Aragão (1927-1995).

Pelo Poeta de Meia-Tigela

Há trinta anos Caetano Ximenes Aragão publicava o seu Romanceiro de Bárbara, livro cujo título nos remete imediata e não casualmente ao Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. O autor parece querer estabelecer desde o princípio um paralelo entre os episódios da Conjuração Mineira tão magistralmente recriada em versos pela poetisa carioca, e a Confederação do Equador que, no concernente à participação do Ceará, teve na família Alencar alguns dos significativos protagonistas.

Movidos pelo descontentamento frente às medidas do então recente governo imperial de Dom Pedro I, camadas representativas de Pernambuco, da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará unem-se em oposição ao poder monárquico centralizador. Em nosso estado, depois de aguerridos combates, Tristão Araripe chega a empossar-se como Presidente da Província em 1824, no entanto pouco demorando como tal. A pronta e violenta reação das tropas legalistas leva-o à morte em combate, bem como instaura furiosa perseguição aos revoltosos, culminando com o fuzilamento, em 1825, dos mártires Azevedo Bolão, Ibiapina, Carapinima, Padre Mororó e Pessoa Anta — no antigo Campo da Pólvora, atual Passeio Público.

Se Bárbara de Alencar não esteve envolvida diretamente na intentona de 1824, foi figura emblemática em 1817. Não apenas “acobertara” as conspirações de seus filhos Tristão e José Martiniano (este, pai do autor de Iracema), mas alimentara o ideal revolucionário com sua força de — mais do que matrona — matriarca esclarecida do Crato. É o que atesta a carta-testamento do padre, médico e naturalista Manuel de Arruda Câmara: “A D. Bárbara de Crato, devem olhá-la como heroína”. Heroica seria realmente sua postura quando do fracasso, em apenas uma semana, dessa primeira experiência republicana cearense: assim como seus filhos, é presa e conduzida ao antigo Quartel de 1ª. Linha da capital, e encarcerada sem direito a regalia de qualquer espécie. Pelo contrário, viveria dias de extrema penúria até sua transferência por mar para a Fortaleza das Cinco Pontas em Recife e, dali para Salvador, onde finalmente fora libertada, após uma devassa que com seus respectivos sofrimentos e represálias, durara cerca de três anos. O retorno para casa não resultou, porém, exatamente numa alegria: com os bens tomados pelo Império, e o nome enxovalhado (os adversários políticos naturalmente aproveitando-se da ocasião para a disseminação de toda sorte de maledicência), tornaram-se uma espécie de “exílio domiciliar” seus últimos anos. Não se tem notícias do pertencimento de Bárbara de Alencar às insubordinações que se seguiram à sua soltura. Morre em 1832, a vinte e oito de agosto, aos setenta e dois anos.

Eis os fatos que servem de motivo à lírica de Caetano Ximenes Aragão e ao Romanceiro: escrito num período marcado pela agonia do regime militar e início da Abertura, o livro faz do canto a Bárbara um canto à liberdade. O que é simbolizado exemplarmente pela contínua aparição no poema da Ave da Madrugada que “canta de noite e de dia/ é sua maldição cantar/ cantares de rebeldia/ e aquele que ouvir seu canto/ nunca mais se concilia/ será sempre um encantado/ da ave da madrugada”. E que é revelado ainda pelo poeta no Posfácio à obra: “Este poema é uma metáfora sobre a liberdade. Nasceu em tempos de incertezas. Havia medo, exílio, prisões, torturas, homens e mulheres banidos. Bárbara Pereira de Alencar, primeira presa política do Brasil, na ordem do tempo, sofreu prisão, violência, maus tratos, exílio e teve seus bens confiscados. Mas resistiu e por isso e outras razões, é uma heroína marginalizada na História de nosso País”.

“Uma heroína marginalizada na História de nosso País”, diz-nos o poeta. Não deixa de ser verdade, se pensamos no espaço concedido a diversos vultos tornados referências nacionais. Não deixa de ser verdade, se pensamos no espaço concedido a outros vultos tornados referências em nosso próprio estado. Não deixa de ser verdade se confrontamos o que representam as imagens de Bárbara de Alencar e seu filho Tristão Araripe, quando comparadas à imagem que atualmente exportamos como sendo a tradutora de nossa cearensidade: a de um Ceará não só Moleque, mas cuja molecagem vem identificando-se, gradualmente, com o baixo humorismo. Enaltecemos com orgulho a figura de um povo irreverente a ponto de vaiar o próprio sol. Mas diminuímos o valor dessa mesma irreverência quando a igualamos ao riso fácil resultante da piada mal-contada, reprodutora de preconceitos e estereótipos, incapazes de sugerir quaisquer maiores enfrentamentos do status quo. Forjamos cada vez mais a face de um povo que sabe rir (de si); porém, não será esse contentamento algo um tanto forçado, esgar ao invés de sorriso? Quando Caetano Ximenes elege Bárbara de Alencar motivo de sua poética, contribui para o resgate de outra fundamental expressão de nossa formação como povo: a expressão da luta, do confronto, do heroico e do trágico, igualmente cearenses.

Tomemos como simbólico o não nos ter chegado um registro, desenho, nenhum esboço sequer, dos rostos de Bárbara ou Tristão: e empreendamos o avivamento de suas feições, o avivamento de nossas feições, estimulando a presença de seu exemplo entre nós. Se Zenon Barreto soube representar a ausência de tal registro na estátua erigida em homenagem à “Guerreira do Brasil” (para lembrar a obra de Roberto Gaspar), soube também postá-la retilínea e altiva, conforme a vemos na Praça Bárbara de Alencar, na Avenida Heráclito Graça. Felizmente há sempre quem insista na representação de um Siriará combativo, e que sabe fazer da festividade, inclusive, um momento de exaltação dessa “outra face” de que falamos: é o caso de inúmeros anônimos. É o caso também de Maria do Amparo, que mantém um pequeno museu na Casa do Sítio Caiçara em que Bárbara de Alencar nasceu, no município de Exu, sem apoio governamental ou particular algum. É o caso de Oswald Barroso à frente do anual Cortejo dos Confederados; e agora do Maracatu Nação Fortaleza e seu tema “Bárbara Luz da Liberdade”.

Vejam que não é absolutamente necessário que tomemos a vida negativamente, por a assumirmos heroica e tragicamente: é condição maior do trágico, não a dor, mas a insubmissão ante um destino demarcado. Sorriamos, pois: não com escárnio, mas com a felicidade dos que se sabem encantados pela “ave da madrugada/ que canta de noite e de dia/ (...) cantares de rebeldia”.

“Bárbara era feita
de pedaços de brisa
certezas
e terra ensanguentada”
(Caetano Ximenes Aragão)

sábado, 6 de fevereiro de 2010

"Lavanderia na Varanda", crônica (protesto) de Ana Miranda para O POVO


Tenho sido favorável às decisões do Governo do Ceará. O Centro de Convenções me sugere um excelente investimento para a cidade, além de estar bem localizado, e de ser um projeto de arquitetura e paisagismo belíssimo. Até mesmo o polemizado aquário na Praia de Iracema, onde nasci, conta com a minha simpatia. Como nosso maior urbanista, Lucio Costa, compreendo o ponto de vista dos que entendem que a cidade prescinde de símbolos, e seja despojada de qualquer vislumbre de grandeza, em favor de uma plenitude administrativa. Mas, como ele, acredito que, "imanente ou transcendente, há uma intrínseca grandeza no homem e na sua obra, ainda quando aparente a sua negação". A ideia do aquário é perfeita para uma cidade como Fortaleza, que tem no mar uma de suas marcas mais fortes e bonitas. O mar é o monumento nato de Fortaleza. A orla é a maior riqueza do Ceará, pertence ao seu povo, e deve ser cuidada com minúcia e rigor, dentro de concepções inovadoras, ecológicas e sustentáveis.

Claro, os governos precisam cumprir as metas sociais e cuidar de Fortaleza, tanto com a presença universal da administração, como em campanhas educativas para se criar espírito público e desvelo pela cidade, por parte de seus moradores. Mas é correto não esquecer a valorização de Fortaleza frente aos seus habitantes e a sua situação no mapa urbano mundial. O desafio da transformação tem preço, ela é arriscada, precisa ser feita com a maior sensibilidade, mas a sua alternativa é a desesperança, o isolamento e a estagnação. Vemos a experiência de Bilbao, pequena cidade espanhola que tomou expressão internacional a partir da construção de um museu em arquitetura ousada. Vemos o caso de Niterói, com a edificação de um pequenino museu sobre pedra, na orla, de extraordinária presença na cidade, que se tornou mais atraente e valiosa. E, bem pertinho, vemos a proposta amena e benéfica do Parque do Cocó. É até mesmo uma questão de autoestima, tema dos mais candentes por aqui.

Também concordo com a criação de um estaleiro, fonte de riquezas, de trabalho, e outros bens econômicos. Mas a localização do estaleiro em plena orla urbana, num dos pontos mais belos, é incompreensível. Parece-me a mesma atitude de alguém que possui um fabuloso apartamento, com vista para o mar, e resolve instalar a área de serviços na varanda. Basta um passeio pela orla de Santos, ou de Vitória, para constatarmos a destruição de uma possibilidade racional, humana, o desprezo pelo que vale e significa a paisagem na alma de uma cidade. Não apenas a paisagem, mas o preço da degradação urbana que se forma em torno dessas indústrias. Coisas do passado. Nenhuma administração pode se permitir mais esses equívocos. Basta passear pela orla do Rio, pela Barra, pela Lagoa, para ver o oposto, calçadas, jardins, playgrounds, bosques, quiosques, ciclovias... Barcelona, Londres, Paris, Sidney, Manaus, Belém, Boa Vista...

O estaleiro na orla urbana renega o próprio aquário construído para a ocupação de área nobre, em favor da cidade e da população, do mesmo modo como foi feito o belíssimo Dragão do Mar, que, sozinho, numa ilha entre abandonos, perde sua simbologia e força. O grande símbolo dessa ocupação das áreas nobres pelo interesse elevado, pela população, é uma guinada contra a utilização desses espaços como zona de deleite subalterno ou de violência consentida. A cidade, como diz Lucio Costa, é um ato deliberado de posse, de um gesto desbravador. O que se poderia esperar era o contrário, a retirada do porto de Mucuripe para local mais adequado, com todos os seus guindastes, contêineres, caminhões, óleo e fumaça, e que a orla prosseguisse em sua função.
Ali a aptidão é, juntamente com o Titanzinho, ser uma área de beleza e valores naturais, como é o aterro do Flamengo no Rio, artisticamente arborizada, com quadras para atividades esportivas, de brincadeiras infantis, celeiro de tartarugas e golfinhos, praia para pescaria e surfe, calçadas para passeios, lazer e reconforto para os moradores de Serviluz, escolas esportivas, o que está ditado pela sua ocupação espontânea.

Todo esse esforço, pago pela população e empreendido pelo poder público, deve tornar Fortaleza uma cidade moderna e corajosa, não mais uma capital de província, nem uma serva do interesse econômico, mas a tradução da ideia de prestígio e dignidade, associada à noção de coisa pública, acompanhando as preocupações do nosso tempo e as necessidades e sonhos de nosso povo.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Curso "Conhecendo Rachel de Queiroz" - fevereiro a março de 2010

CURSO DE EXTENSÃO
“CONHECENDO RACHEL DE QUEIROZ”
2010 – O ANO DE RACHEL DE QUEIROZ
LEI ESTADUAL N° 14.466, DE 15.09.09 (D.O. de 09.10.09)
VENHA CONHECER MELHOR A ESCRITORA CEARENSE RACHEL DE QUEIROZ E DEBATER SUAS OBRAS COM VÁRIOS PESQUISADORES, EM COMEMORAÇÃO AO CENTENÁRIO DE SEU NASCIMENTO.

LOCAL: AUDITÓRIO DO CENTRO DE HUMANIDADES DA UECE
Av. Luciano Carneiro, 345, Bairro de Fátima Informações: (85) 3101.2026
PERÍODO: de 03 de fevereiro a 31 de março de 2010
(todas as quartas-feiras, de 17h às 19h)
INSCRIÇÕES: De 25 de janeiro a 03 de fevereiro na Secretaria do Centro de Humanidades
Investimento: R$: 10,00 (Com direito a fotocópias e a certificado de 30h/a)
E-mail para contato: cleudene@gmail.com
PROGRAMAÇÃO:

03/02 (quarta, de 17h a 19h30) – Profª. Cleudene Aragão (Letras UECE) – Os fabuladores artífices Rachel de Queiroz e Xosé Neira Vilas: vidasfeitas de terra, mar e palavra.
10/02 (quarta, de 17h a 19h30) – Profª. Cecília Cunha – Rachelzinha: uma escritora em formação.
19/02 (sexta, de 17h a 19h30) – Profª. Vania Vasconcelos (FECLESC) –As três Marias de Rachel de Queiroz e As meninas de Lygia FagundesTelles
24/02 (quarta, de 17h a 20h) – Profª. Edna Carlos (UECE) - Cacau e Caminho de Pedras: literatura e ideologismo político.
03/03(quarta, de 17h a 19h30) – Profª. Arminda Serpa (UECE) - Dôra, Doralina: um nome, a dor, o outro, a flor.
10/03(quarta, de 17h a 19h30) – Profª. Maria Valdenia da Silva(FECLESC) - (In)Formação na crônica de Rachel de Queiroz.
17/03(quarta, de 17h a 19h30) – Prof. Batista de Lima (UECE) - As dicotomias em O menino mágico, de Rachel de Queiroz.
24/03(quarta, de 17h a 19h30) – Prof. Rodrigo Marques (FECLESC) – A participação de Rachel de Queiroz no primeiro modernista no Ceará.
31/03(quarta, de 17h a 20h) – Profª. Lourdinha Leite Barbosa (LetrasUECE) - As personagens femininas de Rachel de Queiroz e Encerramento.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Exposição imperdível: "Fortaleza, contando sua história"

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Resultado 2º Sorteio de Livros de Autores Cearenses

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É com bastante atraso, mas não com menos alegria (maior alegria seria premiar todo mundo que participou), o blogue AlmanaCULTURA presenteia 1(um) de seus leitores com o sorteio de 01 kit de ROMANCES: (1) Yuxin: alma, último lançamento de Ana Miranda, (2) Um Conto no Passado: cadeiras na calçada, livro de estreia de Raymundo Netto (ganhador do I Edital de Incentivo às Artes da SECULT, 2004), (3) Rita no Pomar, de Rinaldo de Fernandes (finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, 2009) e Exuberante Pós-Nada: itinerário ilógico da razão, de Astolfo Lima Sandy (ganhador do IV Edital de Incentivo às Artes da SECULT).

Um dos 73 seguidores e amigos do blogue também receberá O Livro das Horas da Praça do Ferreira, do fotógrafo Jarbas Oliveira e do escritor José Mapurunga, belíssima obra, projeto de Dora Freitas (Lumiar) e OMNI Editora, com apresentação da Beatriz Furtado, e patrocínio da Secretaria da Cultura de Fortaleza.

Os ganhadores, desta vez, são:

Categoria Kit de romances: Miguel Leocádio Araújo (Ceará)

Categoria Seguidor: Shirley Paradizo (São Paulo)

Gostaria de informar ao Érico Bayma, participante assíduo, que em relação à biblioteca que ele está constituindo por meio de sua ONG, embora ele não tenha sido "O" sorteado, mas eu me comprometo a arranjar alguns bons títulos para doação para seu projeto.

Quanto ao Miguel, parabéns, preciso apenas de mais um tempo para conseguir duas das quatro dedicatórias (todos os livros, conforme prometi, serão AUTOGRAFADOS PELOS AUTORES). Até o final da semana de fevereiro daremos um jeito de entregar seus livros.

Shirley, enviarei o seu Livro das Horas pelo correio, ainda esta semana. Para isso, envie para meu e-mail pessoal (raymundo.netto@uol.com.br) o seu endereço, está bem?

A todos os demais participantes, principalmente os mais insistentes, como o Antônio Filho (ganhador da primeira edição), Rô Primo, Urik Paiva, Sônia Nogueira, Fátima Souza, Carmélia Aragão, Nirton Venancio, Ana Karla Dubiela, Geórgia Cavalcante, George Costa, Poeta de Meia-Tigela, Paula Izabela, Luiza Helena Amorim, Carla Castro, Carlos Vazconcelos, Solange Benevides (ganhadora da primeira edição dos "Seguidores") e Lima, agradeço muito, muito mesmo, a amizade e parceria.

Gildemar, quanto ao seu livro para um próximo sorteio, a gente conversa logo mais.

Um grande abraço a todos.


Os "FitoManos" de Raymundo Netto em "Estamos de volta!"

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