domingo, 31 de janeiro de 2010

"A Maior Invenção do Mundo", crônica inédita de Raymundo Netto para LITERAPIA nº 13, da SOBRAMES


Omahr Prabahvanadaba, filósofo das bandas do oriente, passou tanto tempo de sua vida a transcender os limites da matéria, reflexo turvo que a natureza nos impõe, que certo dia, de tanto meditar, desmaterializou-se, fez-se todo pensamento sarapintado em pacotes de luz. Seus escritos, entretanto, deitados em papiros conservados pelo esquecimento em ânforas sob as estrelas — e areias — do Egito, sobreviveram ao seu desaparecimento e gritaram revelações perturbadoras aos maiores doutos da ciência.

Num desses famosos manuscritos, descortina a origem da Terra e da Humanidade. Nele, consta que a grande invenção sobrenatural do mundo caberia a um deus, uma entidade de uma engenhosidade e poderes fabulosos e incognoscíveis que, diante do nada absoluto e enfadante, riscou um palito de fósforo — incrivelmente anterior ao produzido, apenas em 1827, por Johnny Walker (não confundir com o Striding Man) — e pôs-se a criar este mundo. Digo “este”, pois acredita o Mestre Omahr que os demais orbes são apenas esboços malfadados da inexperiência do onipotente que, adiante, criou os elementais do fogo, da água e do ar, e deles advieram as bactérias, unidades sincréticas entre o vegetal e animal que, desprovidas de ego-vacuidades, fixaram-se nas dunas e no lodo e com seu enxerimento atávico logo os transformaram em simples cidades, colônias e florestas de samambaias carboníferas.

Até então, por não querer testemunha nem aplauso, a divindade não criara vida animal. Antes a música, que nada mais é do que matemática cantada. Construída a fantasia do idílio, empunhou terra vermelha e, certo de que dela poderia extrair uma obra de arte ou um penico, optou em moldar o ser humano.

Assim, tomando-se no espelho, o fez. Este ser era, pois, homem-mulher, como ele e os querubins. Logo, lançou vigorosamente a sua criação ao mar, partindo-a em duas metades e completando-as, como cream crackers, em água e sal, yin e yang, dia e noite, quente e frio, positivo e negativo: Adão e Loã.

Loã, mais bela e muito virgem, não aceitou a preferência dos paparicos de deus ao privilegiado e empossado capataz do novo mundo, o jovem Adão, muito bobo, sempre brincando de bilas e correndo atrás de ovelhinhas. Passou a desafiar o pai que, em sua infinita impaciência, condenou-a a pratear o céu entre os mundos em forma de lua, onde até hoje repousa a feiticeira branca, ainda cheia de fases provocativas.

Trocando uma ideia com deus, Adão que preferia a má companhia à solidão, e cansado de masturbar-se em noites de luar, negociou uma de suas costelas — sabia-as muitas e antevia possibilidades... — em troca de uma diva. Soubesse Anatomia, ofereceria o apêndice, cujo único objetivo é dar dinheiro aos cirurgiões.

Deus ex machina, penalizado com a criança, criou a moça Eva, menos bela, magra e falsa como a origem e mais submissa. O supremo, entretanto, condiciona: “Não poderão, de forma alguma, comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal!” Ora, todo bom pai sabe que a proibição só seduz... E assim, o casal viveria num paraíso, não fosse a presença da serpente que, ninguém sabe como, convenceu a curiosa mulher a comer tal fruto do pecado: a manga! Como Eva convenceu Adão a também chupar essa manga, aí já é fácil deduzir...

E deus não perdoou — e quem inventou o perdão, então? — e os expulsou dos seus jardins castigando a mulher com dores no parto e ao homem com o relógio de ponto. E como deus não dá asas à cobra, ao contrário, arrancou-lhe as patas, condenando-a a rastejar-se e a ser odiada pelas mulheres (assim como as lagartas e baratas) até as últimas gerações.

Adão e Eva, sem ocupação e com secular libido, amavam-se debalde (mas ele não tinham sido expulsos do paraíso?), e daí vieram os filhos: Caim e Abel. Os coitados, como numa lagoa azul, não souberam educar seus filhos, não havia escola nem a SuperNanny, e a ira entre eles cresceu a ponto de um irmão matar o outro. O assassino — não havia delegacia nem noticiários populares — foi banido de casa, castigado por deus a carregar chifres — que as más línguas diziam ser herança do pai — mas logo encontrou um lugar melhor (havia outro?) onde ninguém o conhecia, vivendo biblicamente feliz para sempre.

Adão viveu apenas 900 anos. Deveria ter algum viagra natural, pois continuou a gerar filhos que transavam uns com os outros, na mais pura e incestuosa matemática celestial.

O deus, desiludido com a má criação, mas sem dar o braço a torcer — à nossa imagem e semelhança, deveria tê-lo —, agitando as pontas de seu lenço, lançou suspiros ao infinito e clamou: “Que calor! Que desenfreado calor!” E, para encerrar o invento, criou o escritor para que registrasse tudo, sabido que seus seguidores seriam todos pescadores e pastores analfabetos. Nascia a Crônica e o Machado! Mas, ah, que pena, os inventores da imprensa foram os ateus chineses...

Raymundo Netto, autor de O Conto no Passado: cadeiras na calçada e dos infanto-juvenis A Bola da Vez e A Casa de Todos e de Ninguém (ambos pela Edições Demócrito Rocha). É coeditor do CAOS Portátil: um almanaque de contos e da Para Mamíferos e, desde 2007, é cronista convidado do caderno Vida & Arte do jornal O POVO.

"Antes que a Chuva Chegue", crônica de Pedro Salgueiro para O POVO (29.01)


I - Caça ao turista.

Férias, sol, suor e cerveja: alegria na cidade!
Está aberta a nova temporada de caça ao turista.
O taxista engrena três meninas novas no pedaço, combinam porcentagens, discutem locais... o porteiro do hotel da Beira-Mar, do motel da Parangaba e do quitinete no Centro concordam com os índices. Os pais das meninas também.
Os restaurantes confeccionam novos cardápios, sempre com alguns números a mais.
Os meninos doiradinhos de sol descem o morro, canelas secas e ligeiras atrás do “gringo velho”, que desapareceu no Novo México e, dizem, reapareceu em Iracema.
Os sujeitos das vans caçam vítimas, “atenção!, senhor, três praias por 80 réis.”Bugues assassinos esperam novas vítimas, enquanto isso cavalos, burros e jumentos cagam na onda branquinha.
O paredão de som ameaça com o mais novo sucesso da Axé Music e do Forró Eletrônico.
Três novos garçons foram contratados na barraca, os olhos vermelhos miram câmaras e celulares.
No velho teatro, pseudo-humoristas desenferrujam velhas piadas, bufônicas, histriônicas e carregadas de preconceitos. Sacaneiam o carequinha, o gordito, o branquelo...
Arrancam o riso a fórceps. Fecham o velho turismo nosso dos “três pés”: Praia, Prostituição Infantil e Piada de Mau Gosto.
“Está aberta, senhores, a nova temporada de caça aos turistas. Mas, por favor, não os assustem para que voltem! Vivos!”

II - Para-didáticos

Depois da famigerada corrida às compras de Natal e Ano Novo, os esfomeados comerciantes já afiam novamente suas garras por trás dos mil livros escolares...
Além, os primos pobres ensaiam sadismos entre as árvores da Praça dos Leões:
— Olha aqui, freguês!, me mostra sua lista! Aqui a gramática novinha, já com o novo acordo ortográfico... Não tá riscada!... Custa 80 paus na livraria.
O “freguês” se esquiva do vendedor, do trombadinha e vai atrás do Papai Noel, que cortou a barba e é especialista em para-didáticos...
Quando se sente segura telefona para o marido, “que é melhor comprar no colégio dividido em seis vezes”... Não chegam a um acordo e ela sai apressada, arrastando o menino e três sacolas cheias na direção do Passeio Público.

III - Pré-carnavais

Ano bom que se preze só se inicia depois do carnaval, o meu apenas após a Semana Santa. E olhem lá!!!
E uma das desculpas preferidas do cearense é a de que “o carnaval não, mas o pré-carnaval aqui é ótimo”. Lenda urbana, igual ao “Perna Cabeluda” (que é de Recife), “a Loira do Banheiro” e a recente “Railux Preta”. (Aliás, somos pródigos em lendas urbanas, as mais variadas e nocivas possíveis: a de que o turismo beneficia a todos, a de que temos por aqui futebol, a de que a cidade é bela... e outras mil mais.)
Pois bem, se o carnaval em três dias (?) já incomoda meio mundo, imaginem os diversos pré-carnavais em cada canto desta nossa desvalida loirinha desvirginada pelo sol. Do Periquito da Madame ao Vai dar o Carlito, da Cachorra Magra ao Rosca de Chifre do Zé Walter, do Num Ispaia senão Ienche, do Luxo da Aldeia ao finado Quem é de Bem fica. E tomem marchinhas mal tocadas pelos ouvidos afora, e tomem fedor de mijo pelas calçadas semana adentro, e tomem cerveja quente pelo fígado alheio, e tomem “saidinhas” de bloco pelas ruas adjacentes... E tomem, nós, insossos fortalezenses, barulhos sem fins pelo mês de janeiro em diante... E tomem, todos nós, no...

Pedro Salgueiro escreveu O Peso do Morto, O Espantalho, Brincar com Armas, Dos Valores do Inimigo e Inimigos, todos de contos; além de Fortaleza Voadora, de crônicas.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Só os Egoístas Serão Felizes! (O Marquicismo na República dos Borós)

"Os Retirantes" de Cândido Portinari


Só os Egoístas Serão Felizes (O Marquicismo na República do Boró)
“Quem trabalha não tem tempo para ganhar dinheiro!”, sou prova, até então, viva, disto. Trabalho o tempo inteiro: em casa sou o último a dormir e o primeiro a acordar. Até quando na praia, pés na brancareia, a mente ansiosa em produzir... Dias e dias, incluídos finais de semana e feriados, contadas quatro horas de sono e a volta à rotina quase desperta do ofício! Tantas promessas que nem sei como ainda tenho amigos...

Também não sei como alguém consegue viver (não digo sobreviver) cumprindo oito horas de “batente”... Depois do “ponto”, o descuido com a vida é fatal. Família, amigos e prazer? Esqueça! Solidão... Será que viver assim vale a pena?...

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Domingo passado, um casal bateu palmas em meu portão. Após dispensáveis apresentações o homem perguntou, “na lata”, se eu era feliz. Disse-lhe: Acho que não! (mas o que é que ele tinha a ver com isso?) Sorriu satisfeito, feliz com a minha "infelicidade" — comportamento muito comum entre bípedes como nós — ou porque era essa a sua deixa para apontar-me um folhetinho de regras básicas para alcançar a apregoada felicidade. Ao final, disse-me, puxando para si a mulher — gorda, feia, suada e com dentes amarelos — que eles, sim, eram felizes.

— Ah, é? Que bom... — normalmente, esse papo entreportão findaria com um de nada “obrigado” e eu voltaria mais que depressa ao computador para quebracabecear a crônica que comecei acima, mas, inesperadamente, surpreendendo até a mim, pus fim: — ... e vocês não têm vergonha disso, não?

Por mudos instantes, ficaram perplexos. De sorridentes, suas feições passaram a medonhas: cerraram os dentes, saltaram os olhos, torceram a boca, largaram-se as mãos, derrubaram os sagrados papeletes na calçada.

— Digo isso — continuei — porque não acredito que alguém consiga ser feliz num mundo onde haja tanta injustiça, maldade e sofrimento. Vocês não assistem a noticiários, não?
— Só passa coisa ruim. Prefiro as palavras de Deus... — afirmou, orgulhoso.
— Pois é. Tem muita coisa ruim mesmo... e a gente precisa saber! Saber, por exemplo, que tem tanta gente... nossos irmãos... sem ter um lugar digno para morar, mesmo quando na cidade encontramos, por todos os lados, imóveis abandonados, vazios e inúteis, bons terrenos cheios de mato e lixo. Saber também que a maior parte deles pertence a poucos, ou aos mesmos, donos. Você não acha que sendo a cidade um bem natural de todos, ela deveria ser melhor distribuída? Não acha que deveria haver uma lei que estipulasse um teto máximo de acúmulo de “riqueza” para evitar a concentração de renda tão desigual e absurda como nós temos por aqui?
Você acredita que nos dias de hoje, numa cidade como essa, no tempo em que alguns bairros esbanjam luzes de Natal, noutros não se têm água encanada, esgoto ou iluminação elétrica nas ruas, e que nesses locais nem a polícia tem coragem de entrar?

Juro que eu não entendo por que enquanto muitos têm que espremer o orçamento familiar, viver de empréstimos, sofrer humilhações e privações para garantir o carioquinha diário, rapazes “abençoados” gastem o equivalente a seus salários numa noite de restaurante se amostrando àquela moçoila deslumbrada que ele também quer comer... E por que, Deus seu, enquanto alguns, ainda não contentes, têm dinheiro suficiente para sustentar inclusive as futuras gerações, outros trabalham a vida inteira em condições vexatórias, até mesmo após a aposentadoria, fazendo bicos dias e noites, serviços grosseiros, mesmo doentes e sem plano de saúde, pegando conduções lotadas de madrugada ou em trânsitos caóticos para garantir a sobrevivência dos netinhos, pois a renda da família inteira junta não dá para levar? É justo que as crianças dessas famílias — que já nascem com a restrita concessão de existir e sem o tributo advocatício — sujeitem-se às escolas de ensino precário, nas quais além de conviver em meio a atrocidades, como drogas e prostituição, ainda lhes sejam negadas o futuro ingresso à universidade pública, esta garantida com promessas de comemorações para os filhos dos privilegiados que têm dinheiro para pagar as particulares, hoje, maquinais fábricas de vestibulandos?

Ah, pobres pais, trabalhadores, que chegam a dormir nas calçadas das escolas para garantir a matrícula do filho, crente que assim ele poderá ter um destino diferente dos seus...
Conhece algum professor de escola pública, amigo? Eu, sim. São mal remunerados, não reconhecidos e, muitos, mesmo assim, tiram do seu para conseguirem ministrar as suas aulas, sabia? Na nossa cidade, alguns ainda têm que ser escoltados pela viatura policial para garantir a sua segurança, temerosos da ira de alunos marginais.

Então, me diga, como ser feliz sabendo que, neste momento, alguém pode invadir casas honestas, estuprar menininhas, espancar velhinhos e não sofrer a devida (impossível) punição? Ou sabendo que pessoas dormem à rua, usam drogas e vendem seu sexo para comprar pirulitos, ao mesmo tempo em que a indústria da corrupção prospera à cara limpa no país, fruto da justiça cega e paraplégica e das costas largas de gente “dita” bem-sucedida, admirada pelo sucesso à custa da compra de colunistas sociais e do sacrifício da dignidade de vida de um povo? Tudo em nome das drogas do poder e do dinheiro. Dinheiro, droga de dinheiro. Droga, vicia mesmo!
Muito pior é estar convencido de que as pessoas julgam que tudo isso nada tem a ver com elas, que nós só temos o que merecemos, que quem nada tem é porque não estudou, é vagabundo, cachaceiro ou coisa e tal. É tão mais fácil fechar os olhos — e o coração — e fingir não saber que a nossa vaziúda sociedade é um jogo de cartas marcadas onde muitos, a maioria, já nasceram condenados a viver sem amor, família, teto, escola, princípios e futuro. Mas os destinos se encontram...

O dinheiro e o poder, verdadeiros deuses da nossa fiel e desumana humanidade, justificam tudo. O sistema diz, a todo instante: Não reaja! Não importa, não reaja! Como não? Até quando não iremos reagir? Até nos tomarem tudo? Até conseguirem nos convencer a vender a alma em troca de um par de tênis ou de uma porcaria de celular? Aí pode?
Como ser indiferente a isso tudo e dizer simplesmente que é feliz, cara? Tem que ser muito egoísta para ser feliz assim, não acha?

— A verdadeira justiça será concedida de graça a todos os que têm fome e sede de fazer o que é correto. A ceia de Jesus é farta... — arrematou com olhos de vidro, em tom de decoreba profética. Foi quando, fitando-os, percebi-os bem demais para compreender qualquer coisa. Foram-se, abanando a cabeça — a mulher a consolar o marido que lamentava, certamente, a ignorância deste ente condenado à treva — mas felizes!


*****

Volto agora à crônica, desgostoso com a conversa chata e a lembrança da cara lavada de um punhado de bem intencionados adormecidos que proclamam a justiça exclusiva pós- morte. Pois eu cá falo da vida, essa efêmera, passageira, mas primeira certeza, até que a segunda, a morte, nos separe. E para aqueles que perdem seu tempo, que fecham os olhos e ouvidos e se consolam com esta resignação besta e cômoda, digo: Vão, vão assistir a novelinha das oito, os tediosos programas de domingão, vão encher a cara nas micaretas envolvidos em pré-panos de chão caríssimos, curtam a vida, explodam seus cartões de crédito, comprem, gastem com tudo que não precisam e engordem a porca paralítica dos capitalistas. Desperdicem bastante, joguem fora o futuro e o mundo de seus filhos, percam a ternura e sejam felizes, porque eu, simplesmente, não tenho coragem. Ouça-os: Não reajam! Não reajam! E, se puderem, tenham um Feliz Ano Novo, pois bem-aventurados os que não sentem, pois deles é o reino (falido) da Terra!

Raymundo Netto que entra ano, sai ano e não vê nada de novo na República do Boró. Contato (talvez seja melhor não...) raymundo.netto@uol.com.br blogue:http://raymundo-netto.blogspot.com



sábado, 2 de janeiro de 2010

"ADEUS", crônica inevitável para uma insustentável relação


1º de janeiro de 2010. Esta será, certamente, a última vez em que me sentarei aqui, exatamente aqui, para escrever alguma coisa e enviar a vocês. O primeiro dia do ano, dizem, pede mudanças. Estou em mudança, saindo de uma vez da casa 59, a amarela da Vila Doutor Alencar, casa esta em que habito há já sete anos.


Retornei ao Monte Castelo de minha vida, bairro de meus pais, no qual vivi mais de vinte primeiros anos e onde deixei enterrados meus principais alicerces, lembranças, saudades e esperanças. Principalmente as esperanças, dois coelhos brancos e a gata Marie.


Aluguei a casa geminada (tinha uns sessenta anos), sem garagem, varanda à beira da calçada, à portas fechadas. Era triste, cor cinza. Em cada cômodo um lustre em estilo diferente. Todos feios, cheirando a tristeza e a esquecimento. Interruptores de madeira corriam em fios na parede irregular de tijolos brancos. O telhado enegrecido coberto de entulhos. Os pisos de mosaicos encardidos ou de tacos atacados por cupins. No quintal, a antiga fossa aberta. A casa contornada por combogós. “Deve ser tão quente...”, pensei.


Aluguei-a de uma senhora de 82 anos, hoje falecida, que me convidou gentilmente para conhecer também a sua bicentenária casa num largo terreno do Camará: “Sabia, seu Netto, que ainda guardo o meu pagãozinho?”


Pois bem, reformei a casa. Pintei-a de amarelo. Nas janelas de vidros coloridos, cortinas de pano. Transformamos a fossa — aterrada de entulho do telhado e por tais lustres — num jardim que minhas gêmeas, à época com dois anos, chamavam de “mais feliz”, tendo o cuidado de preparar um canteirinho para cebolinhas. Plantamos uma árvore que trouxe nos ombros e hoje é um grande benjamim que chora suas folhas pelas areias do quintal com um som gostoso de chuva. Plantamos também lacres coloridos e uma espirradeira, local preferido pelos bem-te-vis para montar seus ninhos. Mandei fazer um banco de alvenaria (em forma de “u”) coberto de xadrez vermelho (à noitinha silenciosa esfria tanto...), contornando a área de serviço, e pus, no meio, uma mesa larga formicada e branca para receber os amigos para o café e festejados festivais de sushi com moedas japonesas espalhando a boa sorte na mesa das visitas. Ao final da tarde, ou à noite, colocava as cadeiras na calçada, costume diário ainda na Vila. O vento encanado com cheiro de mar corria frouxo e fresco. Leituras despreocupadas fazia ali, a balançar em minha cadeira de palhinha e molas, quando sabia: “Os melhores lugares da casa são a calçada e o quintal...” E eram. Passavam o rapaz da chegadinha, o algodão doce, o verdureiro, o sapateiro, o picolé, o peixeiro, o homem da “fezinha”... Ficávamos muitas e muitas vezes na calçada até as primeiras horas da manhã. Às vezes, ao lado, uma vizinha executava ao piano a Lua Branca da Chiquinha ou a Bachianas nº 5 de Villa-Lobos. Olhava eu para o céu tão constelado e azul a admirar a dança dolente da copa da árvore em frente à janela da rua.


Há um dia de cinco anos, movido por uma dor que me tirava juízo, decidi dar continuidade a um projeto idealizado há tempos e, então, escrevi meu primeiro livro Um Conto no Passado: cadeiras na calçada. Minha vida mudou. Conheci não a maior parte, mas todos vocês que agora me lêem e que me honram em ter-me como amigo.


Enquanto as meninas cresciam, convidaram-me para escrever no jornal. Ganhei outro prêmio e muitos, muitos livros (não li nem metade). Ia a lançamentos, quase todos, tardava a chegar e, em lua alta e acompanhado por latidos e apitos distantes, descia o caminho de paralelepípedos que consegui colocar ali, após resistir à tentativas de outros moradores de capeá-lo com o negro asfalto. Herança que deixo, agora, mesmo que incompreendido por alguns...


Fecho agora todas as portas para a Vila Doutor Alencar. Fecho-as para sempre. "Sempre é tarde, nunca é tarde"... Digo que não me importo, finjo não me custar nada, mas uma lança de tristeza insiste em me fazer lembrar. Olho para os lados e vejo nascer aqui Américo Lopes, um cearense como eu, sentado em frades de pedra a assistir o espetáculo solar de arraias coloridas. O vejo crescer, apaixonar-se, cometer seus erros e contar histórias que eu já conhecia todas. Por fim, vejo-o morrer para dar-me vida. Ainda aqui, recordo-me d’A Moça do Zepelim Prateado, minha primeira crônica para as segundas d’O POVO, e depois dela todas as outras, em quase três anos (completa em abril), e meu encontro com tantos personagens queridos (entre vivos e mortos) de nossa literatura: Quintino, Moreira, Manelito Eduardo, Zé de Alencar, Clóvis, etc. Fecho as portas também para Pantico, o garoto d’A Bola da Vez, doido para inaugurar sua bola de futebol, e para a Itapuca Villa que, depois do Cadeiras..., consegui salvar em A Casa de Todos e de Ninguém. Fecho as portas para Os Acangapebas, gerado ainda nesta cadeira, lido, relido, mas que não nascerá em tempo de conhecer a nossa casa, assim como os Cadeiras na calçada 2 e 3 e mais dois infantis.


Fecho as portas para o passado, para minha história, e não deixa de incomodar-me o pensamento que outros (estranhos) passarão por esta casa, tomar-lhe-ão conta, e, mesmo sem o saber, se apossarão um pouco de mim.


Acho que não acontecerá, mas se um dia eu passar por aqui e cruzar esta rua estreita (pela outra calçada), penso que a casa estará diferente, talvez mais feliz, melhor utilizada e mais bonita. Quem sabe não nos reconheçamos, eu dê meia-volta em passos ligeiros, descubra que a tal lança se quebrou e que o melhor é esquecer, pois não há menor chance para nós. Nunca houve!


“Suave a luz da lua desperta agora
A cruel saudade que ri e chora!
Tarde uma nuvem rósea lenta e transparente
Sobre o espaço, sonhadora e bela!”

PS: durante alguns dias estarei incomunicável, mas logo, logo darei notícias e enviarei meu novo telefone residencial. Grande abraço.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Entrevista do Tex Willer Blog com Rouxinol do Rinaré

Entrevista de José Carlos Francisco do Tex Willer Blog, blogue português, com Rouxinol do Rinaré, cordelista cearense.

Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?

Rouxinol do Rinaré: Nasci a 28 de Setembro (mês de Tex) de 1966, em Rinaré (pequeno lugarejo, com um açude enorme e imensos rochedos que lembram alguns cenários das aventuras de Tex), no sertão central do Ceará (Estado do Nordeste do Brasil). Nas minhas 4 décadas de existência já fiz um pouco de tudo: trabalhei no campo (sou filho de agricultor), na indústria têxtil, vendi livros, fui fotógrafo amador, trabalhei no comércio de frutas (CEASA) e actualmente vivo da minha literatura. Sou poeta cordelista com mais de 70 títulos publicados (entre folhetos e livros) por várias editoras do Brasil, trabalhos que assino com o nome artístico Rouxinol do Rinaré. Minha renda vem dos direitos autorais e das Oficinas de Literatura de Cordel que ministro.

Quando nasceu o seu interesse pela Banda Desenhada?
Rouxinol do Rinaré: Meu interesse pela Banda Desenhada nasceu em 1978, quando saí do campo e vim morar na capital do Estado (Fortaleza), com o meu irmão mais velho, recém-casado. Aliás, o meu irmão, Severino Batista, influenciou-me muito na minha formação como leitor. Primeiro com as leituras dos “romances” de cordel e depois com as BD’s.

Quando descobriu Tex?
Rouxinol do Rinaré: Eu já lia outras histórias em quadradinhos, mas Tex conheci em 1984, por meio desse meu irmão que lia um pouco de tudo. Daí foi paixão à primeira vista! Então, como eu não tinha condições de comprar, comecei a trocar por Tex todas as revistas que já possuía… Era um martírio ler o famoso “continua no próximo número”, pois muitas vezes dependia dos outros para saber o final da história.

Por que esta paixão por Tex?
Rouxinol do Rinaré: Dentre outras coisas porque me identifico com a personagem italiana em tudo… Tex (ou Bonelli?) vê o mundo como eu vejo, principalmente no que diz respeito aos valores: não julgo ninguém pela sua condição social nem pela cor de sua pele e fico indignado com os “esquenta-poltronas” (os políticos burocratas e corruptos). Além disso, como não tenho formação acadêmica, costumo dizer que a Literatura de Cordel e a revista Tex foram as minhas faculdades. Levando em conta a pesquisa histórica de Bonelli (quem lê Tex sabe) ninguém se assuste se eu afirmar que toda uma bagagem de “conhecimento geral” adquiri com uma revista Tex em mãos: a disputa por domínio de fronteiras entre o México e os Estados Unidos, as influências e questões da França com o Canadá, a Guerra de Secessão, as histórias das colonizações e o massacre dos povos indígenas, particularidades das culturas árabes, chinesa, grega etc., etc….

O que tem Tex de diferente de tantos outros heróis dos quadradinhos?
Rouxinol do Rinaré: Tex é um herói mais real, “de carne e osso”, digo, sem super-poderes. Suas indignações, seu senso de justiça, sua coragem e capacidade de solucionar tramas complicadas fascinam-me!

Sendo você um tão conceituado poeta da literatura cordelista, alguma vez escreveu algum cordel inspirado em Tex?
Rouxinol do Rinaré: Sim. Meu cordel “O JUSTICEIRO DO NORTE” tem influência de Tex, principalmente no que diz respeito à ambientação, ou seja, a minha personagem é fictícia, mas o cenário da história é real. Começa no Nordeste e termina na Amazónia (no Norte), com episódios em períodos históricos (bem conhecidos pelos brasileiros) que vão desde as grandes secas, o tempo do cangaço, ao famoso “ciclo da borracha”. A origem da personagem também lembra Tex (o herói que vinga a morte do pai e começa a fugir e fazer justiça mundo afora), mas a inspiração, na verdade, foram alguns cangaceiros famosos, como Antonio Silvino (que inclusive aparece no enredo), que viveram antes de Lampião.

Qual o total de revistas de Tex que você tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Rouxinol do Rinaré: Minha colecção é modesta, devido à minha condição financeira. Tenho cerca de 600 revistas: as da extinta editora Vecchi, algumas da Rio Gráfica, da Globo (poucas, incluindo as coloridas e o 1º almanaque) e estou tentando comprar todas as especiais da Mythos, sempre que há lançamentos. Todas são importantes, mas orgulho-me de possuir o livro capa dura “O ÍDOLO DE CRISTAL” (inclusive tenho-o repetido para permutar), a edição nº 1 da Vecchi (O Signo da Serpente) e 2 BESTSELLERS da Itália que ganhei de presente do meu amigo italiano Alex Grecchi.

Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem italiana?
Rouxinol do Rinaré: Quero coleccionar tudo, mas não tenho conseguido muita coisa, além das revistas e livros. Tenho umas blusas personalizadas que mandei pintar e uma estatueta que paguei para um escultor fazer. De material oficial tenho o Chaveiro (que acompanhou a Tex Anual nº 6 do Brasil), alguns pósteres e o bóton (pin) português dos 60 anos de Tex no Festival da Amadora.

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Rouxinol do Rinaré: Resposta difícil esta… Vou destacar 3 histórias: “Navajos em Pé de Guerra”, “A Fabulosa Cidade de Ouro” e “O Grande Rei”. Dos desenhadores gosto de vários, mas destaco Galep, Erio Nicolò, Letteri e Claudio Villa. Já o argumentista maior foi mesmo o velho Bonelli, sem desprezar os demais!

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Rouxinol do Rinaré: Acho que já falei o que me agrada mais na personagem: seu senso de justiça, sua coragem e inteligência. O que me agrada menos é o facto de ele quase não ter tempo para o amor. Coloco-me no lugar dele e, como gosto das mulheres, acho uma falha nesse aspecto do enredo (…risos…).

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que é?
Rouxinol do Rinaré: Creio que é um conjunto de detalhes e valores com os quais pessoas diferentes se identificam… Somam-se tudo que já citei antes, ao facto de Bonelli não se deter ao faroeste clássico, ou seja, além do convencional enredo western muitas histórias do Tex acontecem em lugares diferentes e se reportam a épocas diferentes, com as situações das mais diversas: civilizações e mundos perdidos, seitas de fanáticos, magia e terror, espionagem, aventuras em alto mar, enredo com uma pitada de ciência (especialmente quando aparece o Bruxo Mouro) e até extra-terrestres.

Costuma encontrar-se com outros coleccionadores?
Rouxinol do Rinaré: Actualmente sim, mas passei um período meio sem ter oportunidade de contactos. O acesso à Internet facilitou bastante, tanto para contactos com pessoas do universo do Tex, quanto do Cordel.

Como vê o futuro do Ranger?
Rouxinol do Rinaré: Nosso herói ainda vai encantar muitas e muitas gerações de leitores… VIDA LONGA PARA TEX!

Para concluir, poderia nos brindar com um poema dedicado a Tex?
Rouxinol do Rinaré: Claro que sim, e com prazer. Segue:

UMA LENDA DO OESTE

No oeste há uma lenda
Que ultrapassa fronteira
Um mito que se confunde
Com história verdadeira
Um herói que sua saga
Vai de fogueira em fogueira…

O sol com o olhar de fogo
Impiedoso, escaldante,
Aquece as rochas do Canyon
Por onde desafiante
Vai passando um cavaleiro
De porte impressionante!

A cavalgar um corcel
Belo, possante e ligeiro,
Impõe respeito e poder
O porte do cavaleiro
Com dois revólveres nos coldres
Parecendo um pistoleiro.

Era um herói solitário
Quando a saga começou
E como fora-da-lei
No oeste cavalgou
Mas fora um mal entendido
Que mais tarde superou…

Humilhações, injustiças,
Nosso herói não admite.
Em defesa do mais fraco
Supera qualquer limite:
Transpõe desertos e vales
No cavalo Dinamite.

Cavalgando por desertos,
Da morte vendo a miragem,
Por vales e pradarias
Com destemor e coragem,
Nosso herói tem vida intensa
No velho oeste selvagem!

Seu travesseiro é a sela,
Entre as feras faz pernoite.
Amigo do homem honrado,
Mas pro patife é açoite.
Respeitado entre os navajos
Como o chefe “Águia da Noite”.

Quem é esse cavaleiro
Que o perigo ousa enfrentar?
Não me pergunte, ouça o vento
O seu nome sussurrar:
Willer… Tex Willer,
Um justiceiro sem par!

Prezado pard Rouxinol do Rinaré, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.
Rouxinol do Rinaré: Eu é que agradeço, pelo privilégio de participar deste tão conceituado BLOGUE
Abaixo o endereço original do Tex Willer Blog:
http://www.texwillerblog.com/wordpress/

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Crônica de Pedro Salgueiro para O POVO (18.12)

Noel, Coca-Colas & Iguarias (pequenas cenas de Natal)







I - Mamãe Noel

Fim de ano chegando, tempo de pensar na vida, pesar os pontos bons vividos, analisar os inevitáveis entraves. Tirar os calos dos pés, as unhas encravadas, o pelo crescido das narinas. Polir as orelhas, que também se encheram daqueles tristes cabelos caídos da calva.
Fim de ano: sinônimo explícito de velhice.
Alguns ficam tristes, se amuam, casmurros, em seus casulos.
Eu não, pois tive uma infância feliz; com pais bons, amorosos, que sempre espremiam a pobreza e compravam o mais simples presentinho de Natal. Quando não tinha, bastava ir à casa de Dona Tizinha pegar uma bola canarinho, um apito... um sonho!
Os tempos mudaram, os irmãos se espalharam, o pai se foi, a mãe resiste firme: Mamãe Noel!
II - Duende Verde
Na esquina da 13 de Maio com Carapinima o já tradicional Papai Noel Verde pede tranquilamente suas esmolinhas. A barba branquinha reluz ao sol, de vez em quando dá um tchauzinho e um sorriso irônico ao vendedor de churros no outro lado da rua. Que não lhe retribui, mas sapeca baixinho para o freguês:
- O pilantra tem uma vila de casas lá no Parque São José. Diz pra todo mundo que todo Natal levanta mais uma.
III - Nossa Senhora de Assunção
Ali no cruzamento da Duque de Caxias com Assunção uma preta velha de seus 60 anos rege a filha de 15 que já lhe deu dois netos. Levanta a mão apontando o carro com o vidro abaixado que se aproxima.
Como se movesse os fios de marionetes a velhota controla a filha, as duas netas, além de cinco ou seis crianças que tomou emprestado das vizinhas.
De tardinha ressona encostada na parede; os meninos brincam dispersos pela calçada. A filha tenta se livrar do abraço do vendedor de CDs piratas.
IV - Outdoor
No radinho de pilha do vendedor de bombons na parada de ônibus da 24 de Maio:
"Os dois bons velhinhos se livraram das roupas e do gorro no cesto de lixo assim que terminaram o assalto, mas não foram encontradas as barbas..."
O dono da banca e duas senhoras com sacolas de compras olharam desconfiadas para o Papai Noel da loja de roupas, que tranquilamente descansava as velhas pernas sentado à sombra do outdoor no banquinho do PARATODOS.
Na sua mão esquerda uma latinha de Coca-Cola.
Pedro Salgueiro é escritor e funcionário público. Edita, em parceria com outros escritores, as revistas de literatura e arte Caos Portátil: Um almanaque de contos e Para Mamíferos.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

domingo, 6 de dezembro de 2009

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Crônica de Raymundo Netto para O POVO (04.11)


Crônica
Raymundo Netto
especial para O POVO
Presciência Crônica: Uma Odisseia sem Homero
Fortaleza, cidade sede, 2070. Abaixo do plúmbeo céu, o trânsito disputado por carros e pessoas declina da tradicional buraqueira nas ruas capeadas por betume artificial feito do chorumento do lixo.

Seguindo as avenidas, os OutWindows, imensas telas de diodos orgânicos com imagens tridimensionais anunciam automóveis, dentifrícios, sapatos femininos e lojas da moda.

Condomínios de apartamentos de 45m2, sob redomas de refrigeração e purificadores de ar, encerram centenas de pequenas famílias (o controle da natalidade é rigoroso). Na sala, nos quartos, no banheiro, monitores com programação pay-per-view simulam janelas postas em paredes de espelhos. Nas áreas públicas: playgrounds, lan houses, quadras, lojas de conveniências, decks e muita grama artificial. Por todos os lados, câmeras, cercas elétricas e alarmes sonoros que causam, pela cidade, sobressaltos a todo instante.

As pessoas quase não saem mais de suas casas (muitas trabalham nela). O inesperado não existe (pensam!). Tudo é planejado e previsível. A vida e a morte. Aliás, a eutanásia, como o aborto, a Pena de Morte e o uso da maconha são legais. Sonegar, porém, continua sendo ilegal. Os cemitérios foram extintos. Cremar é obrigatório. Não se discute mais sobre gênero: ser homem ou mulher não faz diferença. Todos são potencialmente híbridos.

Em torno da Cidade Sede, as Satélites — aglomerado de favelas e fracassados conjuntos habitacionais — se disseminam e crescem todos os dias, fomentadas pelo abismo gerado pela exclusão tecnológica e mercantil, fervendo em miséria, doença, violência e rancor, desejosas do inevitável dia em que, juntas e cansadas de privações, tomarão a Sede de inocentes burguesinhos, consumistas inúteis, mantenedores do sistema selvagem de capital.

Nos transportes coletivos, a maioria com andar superior, as pessoas dormem, ouvem música, leem mensagens em seus clocks-mails (relógios especiais em sistema de rede wireless). O celular foi abolido — predispunha o aneurisma e acidente vascular cerebrais — usando-se fones com discagem vocal.

As cidades do interior, por ausência de políticas contínuas que evitassem o êxodo de seus jovens à Capital, foram esvaziadas e arrematadas a preço de nada por igrejas que passaram a comprá-las e a construírem pequenas promessas de “paraísos”. Nelas, as autoridades, todas elas, são pastores, eleitos por “inspiração divina”. Os reverendíssimos mantêm, por meio de legislações intermináveis, a cidade “higienizada” — e o grande comércio local — sobre o jugo da tirania celestial, censura dos meios de comunicação, impostos (físicos e espirituais) altíssimos e uma harmonia exclusiva e dogmática.

Quase todas as faculdades aderiram ao ensino à distância. Em algumas, como a de Filosofia “Livre Pensar” — que há anos tenta obter aprovação do Ministério Federativo de Educação —, seus alunos, alcunhados por "espantalhos" e coordenados pelo prof. Aquino, ainda resistem em aulas presenciais nas quadras, praças e vielas das Cidades Satélites.

Nas farmácias, ambulatórios coloridos destinados aos portadores das pandêmicas síndrome do pânico, TOC e depressão disponibilizam kits-coktails reequilibrantes e fornecem óculos especiais Dreams’Pixels de projeção de imagens e som, “bengalas” endorfinomiméticas.

Os carros à eletricidade fracassaram e abriram espaço para os movidos por etanol celulósico e à água dessalinizada, nos quais, de seus escapamentos, vemos fluir um vapor branco que deixa em nosso corpo aquela sensação grudenta de maresia. Pneu. Droga, nada substituiu o pneu...

Na paisagem, shoppings de resinas poliméricas e aço de usinagem facilitada tomaram dimensão de bairros. O Cocoh é o maior deles, homenagem ao rio completamente aterrado num passado (o antigo shopping do local foi demolido após a falência do grupo). O segundo, o Trilha das Garças, no Lagamar, que dizia promover a conservação ecológica, foi construído sobre o rio onde as alvas pernaltas, agora extintas, e os pescadores, se encontravam.

Os grande fóruns e casas legislativas, parceiros fiéis dos poderes dominantes, para reduzirem o caótico tráfego aéreo e assegurar a distância do povo, mudaram-se de vez para BrasILHA, onde atuam, quando o fazem, por protegidas e impessoais vias e plenárias eletrônicas.

Hospitais públicos (assim como as escolas e a segurança) só existem nas Cidades Satélites. Na Sede, as cooperativas de médicos aliadas aos grandes laboratórios farmacêuticos monopolizaram a atenção — inclusive a financeira — da saúde. As doenças, misteriosamente, só aumentam!

Depois que conseguiram vender o Cine São Luiz aos neo-pentecostais, abrasadas foram as línguas de fogo que consumiram o resto do centro da cidade. Nada mais ficou em pé. Suas ruínas marginais fazem parte de um sítio arqueológico conservado para pesquisas universitárias que não servem para nada. Também estão esquecidas as ruínas de antigos resorts e de parques aquáticos, simulações de um Caribe com modus vivendi metido a besta que expulsaram a população nativa, evadiram divisas e descaracterizaram para sempre a paisagem natural.

Na praça dos Leões, a estátua da Rachel de Queiroz continua sem óculos, e sem cabeça, sendo agora acompanhada da estátua de uma jornalista da cidade que, ao contrário dos demais, conquistou a sua cadeira na Academia Cearense de Letras apenas após a sua morte. Aliás, a Academia, por não conseguir mais o vantajoso ingresso de políticos, juízes ou demais que intermediassem por recursos de subsistência, fechou as portas. Decadentes, outras dezenas de academias foram esvaziadas. Apenas uma resiste — com sede no coreto, mictório improvisado, da Praça dos Leões — tendo como único representante e líder, o Lima Freitas, atualmente com mais de 130 anos. Vez ou outra o velho poeta, com seu surrado fardão, sai bengalando os ambulantes perdidos da praça, acusando-os de macularem aquelas calçadas com suas desprestigiosas presenças, tal qual um Jesus nos templos, gritando: "Academus! Academus!"

Na praça Poeta Mário Gomes, antiga do Ferreira, brincadeira de um prefeito, a coluna da hora sucateada não resistiu ao tempo. Do cacimbão, afloram entulhos do velho comércio e ossadas de jumentos.

Diante da escassez planetária de árvores, a “Livraria” — existe apenas uma rede, a BookMegaStore — vende livros impressos tão-somente em forma de edições de luxo e em pequeníssimas tiragens destinadas a abastados colecionadores de arte. Os demais fazem download, por meio de assinaturas, para leitores óticos (curiosamente, os preços nunca diminuem) ou os adquirem em forma da mídia Blu-Ray MONDO, versão bisneta do CD/DVD. Mesmo com todas as restrições, comercializam-se Pirate Books.

Hoje, a “Livraria” lançará a Coleção Obra Completa de uma autora cearense que residia em Aquiraz, anunciando, como bônus, hologramas seus em circuitos de entrevistas, enquanto outra, agora, romancista, bastante idosa, recebe um prêmio na África em reconhecimento pela obra.

José de Alencar é considerado, então, o mais revolucionário escritor brasileiro, seguido por seu discípulo e amigo Machado de Assis.

Livros impressos também são encontrados na nova Biblioteca Pública (a antiga foi demolida para dar espaço ao Centro Cultural Dragão do Mar, parcialmente arrasado pelo avanço das águas que deixou submersos o prédio da Alfândega, a Ponte Metálica e o Acquário). Com pouquíssimos visitantes, a Biblioteca funciona com o Arquivo Público e mantém um amplo serviço de pesquisa e empréstimo on line por meio de Cientistas da Informação (as dantes bibliotecárias).

Na Universidade Federal, ao lado do bosque Moreira Campos, uma herma em bronze de um antigo professor anuncia “O último crítico literário do Ceará, cujo maior pecado foi não ter deixado substitutos”.

Já há alguns anos, por não se ter mais o que falar de novo sobre os grandes nomes da literatura nacional, os alunos do curso de Engenharia Linguística e de Artes, antigo curso de Letras, viram-se obrigados a estudar os esquecidos autores cearenses, descobrindo na pesquisa de microfilmes de jornais dos séculos XX e XXI que pouco se falava deles, e que menos ainda — raras as exceções em flashs de colunas sociais cheirando a uísque — se tem registro de sua existência e de sua obra.

Rafael, estudante do curso, fora “sorteado” em classe com o nome do autor dessas folhas d’O POVO (“Que droga... pode ser outro, não?). Dirigiu-se à Midioteca — intitulada com o nome de um contista tamborilense devido à generosa doação, pela viúva, de seu acervo bibliográfico particular — e, em meio às crônicas delongadas, como esta, encontrou o seu obituário:
— Caramba, e esse coitado morreu assim?


Raymundo Netto que não sabe onde é que nós estávamos que deixamos estragar tudo! Contato: raymundo.netto@uol.com.br e blog: http://raymundo-netto.blogspot.com



quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Lançamento "Fábrica de Asas" de Katiusha de Moraes (3.12)

Lançamento Fábrica de Asas de Katiusha de Moraes

Ganhador do V Edital de Incentivo às Artes da SECULT em Literatura

Data: 03 de dezembro de 2009 (quinta-feira)
Horário: 18h30
Local: Mercado dos Pinhões (entre Gonçalves Ledo e Nogueira Acioly)
Editora: Corsário

Contato com a autora para aquisição de livros e outras informações:

katiushademoraes@hotmail.com

Apoio Cultural

Este Projeto é apoiado pela Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, lei nº 13.811, de 16 de agosto de 2006.