domingo, 18 de outubro de 2026

"O Alvorecer aos TREZE", de Raymundo Netto

 


“O pior analfabeto é o analfabeto político”. Ouvi essa frase – habitualmente atribuída ao dramaturgo Bertolt Brecht – pela primeira vez quando estudante universitário, no final dos anos 80, no engatinhar da redemocratização do país, quando o Brasil, após 21 anos de imposta escuridão, abria as porteiras rangentes de uma ditadura cansada, pútrida, repleta de pústulas e pecados.

Naquele tempo, ausente de qualquer centelha democrática, o que fazia boa parte das pessoas seguir em frente e ainda sorrir era a sua completa ignorância ou indiferença aos fatos omitidos na imprensa à base de violência velada ou de negociatas vantajosas e imorais: globos, folhas, estadões...

Fartava-se no coração dessas pessoas a vontade de não saber, de não querer ver. Contudo, na reserva do quarto, em falas sussurradas, havia um consolo quase canalha: “Minha filha, se prenderam ou se mataram é porque estava fazendo algo de errado... Era terrorista, comunista, só pode!”. E assim, a consciência da família “de bem” conseguia não pesar sobre o travesseiro, mesmo quando ali na cabeceira pendia trêmulo o extenso rosário.

No mais, essa apatia era recompensada pelo futebol, agora transmitido na TV a cores, ou pelo conforto do capítulo da novela – aprovado sob CENSURA –, na qual nada seria mais importante do que assistir à sedutora Gabriela pendurada no telhado ou ao beijo da Regina, a comprovar para todos que, ao final, seremos felizes para sempre.

Essas pessoas não se importavam e nunca se perguntavam o porquê de não poderem escolher seus governantes, seus representantes políticos, nem participar das decisões sobre o rumo das suas vidas e do seu país. Expressar a sua vontade, manifestar-se contra a exploração de seus patrões numa greve, lutar pelos seus direitos, denunciar a desigualdade e injustiça social? Nem pensar! Não gostavam de política. Para esses, a sensação era de aparente paz. E se algo lhes parecia ruim, é porque Deus assim o quis. Eis o analfabeto político!

Votei pela primeira vez em 15 de novembro de 1989. Era o primeiro turno da primeira eleição direta para presidente da República em 29 anos. Na minha inocência e idealismo de 21 anos, nascido em berço da Ditadura, acreditava que todos os males da nossa sociedade decorriam de nossa impossibilidade de votar. Pensava que quando pudéssemos votar o Brasil seria outro, pois a maior parte de nosso povo era – e ainda é – trabalhadora e pobre. É lógico que essas pessoas votarão em quem defende a sua causa, quem os representa e pode lutar pela melhoria da qualidade de suas vidas e a de seus descendentes.

37 anos depois, sou obrigado a rever minhas convicções. Surpreende-me assistir ao grande número de trabalhadores, pobres, jovens, negros, LGBTQIA+ e pessoas com deficiência que, apesar de beneficiados por políticas públicas e programas sociais outrora inexistentes, se deixam seduzir por campanhas milionárias de desinformação, deboche e pela manipulação de seitas religiosas mercadoras da fé. Esses eleitores, como não leem e levaram pau em História, erguem a bandeira fascista – e a norte-americana – sob o lema “Deus, Pátria e Família”, herança do Integralismo brasileiro e do salazarismo português.

A elite econômica brasileira, a mais cruel, une-se aos piores aliados – e aí encontramos um espectro grande de classe média –, aqueles que não confessam (sempre), mas que são racistas/escravagistas, neonazistas, milicianos, corruptos, hedonistas, homofóbicos, pedófilos, misóginos, agressores e outros tipos de conservadores bizarros que repudiam e atentam contra as conquistas sociais, a defesa dos direitos humanos, a mobilidade social ascendente, a inclusão econômica e a erradicação da pobreza.

Acredite: somos nós contra eles. E ainda somos muitos.

De que lado você está? Eu já escolhi o meu lado. Pelo bem da democracia, do povo e do país: sou 13!






6 comentários:

  1. A tragédia não é apenas o analfabetismo político, mas a capacidade de transformar a desinformação em convicção e o voto em instrumento contra os próprios direitos.

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  2. Texto importantissimo

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  3. Texto cirúrgico sobre tudo que tá acontecendo. Dia 25 é 13!!

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  4. eu lamento profundamente que a nossa sociedade esteja tão cega a ponto de não reconhecer quem trouxe benefícios pra ela. estamos estarrecidos com a ingratidão e com a marcha infame que muitos tem seguido rumo ao abismo do obscurantismo

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  5. Lula tem força e coragem,
    Defende o trabalhador,
    Leva a voz do povo humilde,
    Com esperança e valor!

    Dia 25, vamos de LULA 13!

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  6. Esse lema "Dividir para conquistar", isso sob meu ponto de vista quer dizer "AMERICANALHAR'.

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