segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

"2025, o Velho", de Raymundo Netto para O POVO


Rio, 31 de dezembro de 1854.

José de Alencar, em seus 25 aninhos, cronista do Correio Mercantil, nos conta que havia acabado de concluir a leitura de contos de E.T.A. Hoffman e se preparava para escrever a crônica de final de ano, quando bateram à sua porta. Ficou bastante irritado e escreveu: “Se algum dia fordes jornalista, haveis de compreender como é importuno o homem que vem distrair-vos justamente no momento em que a primeira ideia, ainda no estado de embrião, começa-se a formar no pensamento, e quando a pena impaciente espera o primeiro sinal para lançar-se sobre o papel”. Diz não haver nada tão ruim que se compare a isso, nem mesmo quando o interrompem no momento de uma declaração de amor ou quando o seguram na hora de tomar o ônibus ou a barca. Existe, contudo, exceção: quando for uma mulher bonita, “para quem estou persuadido que não se inventaram relógios.”

Pois sim, mal-humorado, abriu a porta e, veja só, era apenas o Ano Velho, magro “como um varapau”, vestido em preto e com “certo ar de ministro demitido, de deputado não reeleito ou diplomata em disponibilidade”.

Trazia por debaixo do braço grande maço de jornais, planos e projetos realizados ou não. Mas, afinal, o que ele queria? Vinha, muito humildemente, reconhecendo o jovem jornalista, suplicar-lhe a sua indulgência para com ele, sabido que, naquele período, emitiria juízos sobre o ano que se findava, ou seja, ELE próprio!

Alencar, que antes desconfiara ser o visitante um paciente de hospício, assim mesmo não o poupou: boa vontade só não bastava, exigia fatos. E daí deu-se início ao divertido debate no qual o pobre Velho tentou defender os seus atos, enquanto Alencar, em seus apontamentos, repelia a maior parte de seus argumentos: a estrada de ferro não construída, os maus cuidados à cidade, o advento da iluminação a gás – que além de ser uma ideia do outro Velho, o de 1853, teria “roubado o encanto dos belos luares, e de haver privado os namorados daquelas noites escuras tão favoráveis a uma conversinha de rótula ou a um passeio de rua na Ouvidor” –, a demora da instalação de ruas, a reorganização da Academia das Belas-Artes, o risco da cólera... No entanto, quando o Velho de 54 o lembrou que esse “risco” rendeu matéria para um folhetim justamente quando o cronista estava bem “apertado”, acabou perdoando. Mas havia algo que Alencar não o perdoaria jamais: “Ter-me feito mais velho um ano!”

Continuou: passou a bradar de seu desprezo pelas glórias, ambições e pela política, em detrimento às doces ilusões da mocidade, “as primeiras lágrimas do coração, que perfumam os sonhos mais belos desta vida”, as verdadeiras afeições, “as mais belas expansões de nossa alma”, afinal, para que tantas honras e celebrações, se podemos “colher numa linda boquinha rosada duas palavras que nos abrem o céu”?

Não sabendo mais se dizia aquilo tudo ou se apenas pensava, e em compaixão ao hóspede – teria apenas mais dois dias de vida –, acendeu o seu charuto na vela quase a apagar-se, estalou as juntas, e continuou a palestrar com ele sobre as guerras e o futuro do país. Ao final, sem perceber, Alencar adormeceu e não sabe mais o que se passou.

E nós: 2025 finda, como tudo no mundo que nasce e inevitavelmente morre, mas ninguém pode nos tirar a vida vivida, o beijo roubado, o abraço apertado e a palavra sofrida.

Apesar do cânone dos ressentidos, José de Alencar é um dos maiores cronistas brasileiros.

E, com licença, pois alguém me bate à porta... Logo agora?




 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

"'A Arte da Biografia' de Lira Neto", por Raymundo Netto, para O POVO


Primeira turma do curso "A Arte em Biografia" pelo Armazém da Cultura
(Clique na imagem para ampliar!)

“Há muito acredito que o realismo é fantástico”

(Gay Talese)

Biografar, em tese, é uma impossibilidade, pois não há vida que caiba em um livro. Contudo, as biografias são sedutoras e curiosas, ocupando prateleiras do mercado editorial, enquanto despertam paixões ou ódios. Talvez os dois ao mesmo tempo. De qualquer forma, ruins são aquelas a despertar a mais inevitável apatia.

Na vida, como na arte, não importa o que se faz, mas COMO se faz. Quando falamos em arte em biografia, nos referimos à forma como se constrói esse texto. Sim, você pode ter um trabalho de pesquisa profundo, repleto de datas, informações, registros relevantes e precisos, mas se oferecer esse rico “pacote” em um texto maçante, por vezes, de insuportável leitura, de nada adiantará todo o seu empenho: perderá seu leitor.

Daí, nos últimos meses, participei do curso “A Arte da Biografia”, ministrado por Lira Neto e promovido pelo Armazém da Cultura de Albanisa Dummar. Tenho interesse em escrever uma, pelo menos, e o que me atraiu na proposta era a metodologia da pesquisa e de sua catalogação. Entretanto, o curso não se limita a isso.

Em 2022, a Companhia das Letras lançou A Arte da Biografia: como escrever histórias de vida, de Lira Neto, escrita a partir de notas de aula do seu curso ministrado na Universidade do Porto, em 2021. Embora no curso não seja obrigatória a aquisição da obra, ela consiste em grande facilitadora para maior compreensão do seu conteúdo e é um excelente guia de escrita criativa da narrativa de não ficção.

Essa abordagem do “criativo” na biografia é um dos pontos mais fortes no curso. Diferenciar o processo criativo do romance histórico, por exemplo, e da biografia, ambos baseados em histórias reais, embora ficção e não ficção, respectivamente, despertou em mim um gosto maior pelo exercício desafiador desse gênero biográfico.

Virginia Woolf já advertia que o romancista, por trabalhar com ficção, mesmo utilizando personagens e fatos reais, tem toda a liberdade de criação, enquanto o biógrafo é manietado, ou seja, tem as suas “mãos atadas”, é preso ao rigor documental. O que não se pode afirmar, por meio de registros, fotos e documentação, é invenção, fantasia. No caso, a imaginação do biógrafo é limitada pelo “real”.

Por isso, segundo Lira, “o biógrafo deve ter senso de detetive, olhar de antropólogo e espírito de arqueólogo”. Mas, no momento da escrita, deve fornecer o seu trabalho de investigação e pesquisa de forma envolvente, “transportando o leitor à cena”. Assim, o curso se apresenta também como veículo de escrita criativa, entendendo que o biógrafo precisa ter domínio da técnica narrativa: a fuga dos lugares comuns (clichês) e de juízos de valor, mais fluidez, clareza, ritmo, recusa ao maniqueísmo, controle de advérbios, diversificação vocabular, a escolha dos verbos de ação, manejo estético das descrições – impondo o tempo de leitura –, o estabelecimento de relação de alteridade com o biografado, o cuidado de não cair num individualismo exacerbado nem correr o risco de sufocá-lo em contextos monumentais, construção de cenas de apelo sensorial, além de “uma boa dose de fascínio pelo universo inerente à pesquisa”, afinal, “ao se biografar alguém, biografa-se também seu contexto”.

Na tentativa de “por a mão no ombro transparente de um fantasma” (André Maurois), os biógrafos ou “retratistas de almas”, como definia-se Plutarco, um revolucionário do gênero, devem se esforçar para captar minúcias da vida do biografado, os detalhes que aproximam o leitor do objeto da pesquisa, das particularidades que o humanizam, denunciando as suas “imperfeições” e méritos.

No curso, como no livro, Lira ilustra a teoria com a experiência própria de composição de sua reconhecida obra, suas aventuras, desventuras e suas “correções emergenciais de rota”, o que torna cada aula imperdível. O livro em si, já é uma grande aquisição para candidatos a biógrafos e, pasme, mesmo para ficcionistas e escritores de forma geral.

No mais, é “calçar os sapatos do morto”, nem santificar nem demonizar ninguém, compreendendo as suas contradições, vícios, virtudes e a nossa frágil humanidade.






 

domingo, 30 de novembro de 2025

"No Centro do Mundo: A Festa Literária de Ibiapaba", de Raymundo Netto para O POVO


Tive a feliz surpresa de ser um dos convidados para a estreia da primeira Festa Literária de Ibiapaba, a FLIIB, tendo como palco e cenário a antiga Aldeia Ibiapaba, depois Vila Viçosa Real da América, até ser denominada Viçosa do Ceará, uma das mais belas, aprazíveis e poéticas pretensões de moradia humana em nosso estado cearense.

Entre os dias 20 e 22 de novembro, dava-nos a impressão de que a sua população dobrara em número, acompanhando-a durante todo o dia enfileirada ou em grupos, entre artistas, livreiros, leitores, indígenas – principalmente os tremembés de Almofala –, professores e alunos das escolas privadas, públicas municipais e do IFCE-Tianguá tomando, com as bênçãos de Nossa Senhora da Assunção, a praça Clóvis Beviláqua – ele ali também nos assistia a meditar –, os quiosques e o teatro Pedro II nas mais diversas atividades GRATUITAS: rodas de leitura, serenata em calçada, feira de livros, cordéis e quadrinhos, bate-papo com escritores, oficinas, lançamentos de livros, cine-debate, contação de histórias, saraus, declamações, shows musicais, biblioteca móvel, percurso sentimental pela cidade e outras iguarias culturais refletidas nas cores de um casario antigo, não apenas cenográfico, como em Fortaleza, mas real, que além de encantar a festa e deixar tudo mais belo, ainda nos contava histórias, tradições e memórias.

Com o tema “Entre Montanhas e Palavras: a Ibiapaba em Prosa e Verso”, se deu por promoção da Secretaria de Turismo e Cultura do Município, com apoio do Governo Federal, via Política Nacional Aldir Blanc, e com outros importantes apoiadores, como a Câmara Cearense do Livro, BNB, Sesc, Bece, Secult, SEBP, IFCE etc. Tudo devidamente orquestrado pelo competente secretário historiador Gilton Barreto – que me outorgou, há alguns anos e guardada com carinho, a Comenda General Tibúrcio –, com a grata e acertada aprovação do prefeito Eurico Fontenele Arruda. Na curadoria, escritores: Renato Pessoa e Léo Mackellene.

Tive o privilégio de ser convidado para dividir uma mesa com a premiadíssima escritora Marília Lovatel, não podendo eu deixar de aproveitar a oportunidade e lançar luz ao nome do saudoso prof. Juca Fontenele, autor das “Viçosalianas” que me apresentaram a essa “Eldorado cabeça-chata”. Também ali, passei raspando quase como oração nas paredes do casarão de 175 anos do querido farmacêutico Felizardo de Pinho Pessoa, cujo filho, o Césinha, memorialista sentimentalíssimo, ainda tive o prazer de encontrar.

Tomei excelentes cafés em frente à praça General Tibúrcio, jantei no restaurante Silvestre, visitei a Casa de Licores do seu Alfredo Miranda, agora Museu Orgânico do Sesc, e, no local onde antes funcionava a tradicional Sorveteria Bem-Me-Quer, soube mais a respeito da renomada cachaça Viçosa Real, da família de Clóvis Mapurunga, artesanalmente fermentada e destilada em alambiques de cobre e maturadas em barris de madeiras nobres. Para quem aprecia destilados, é uma experiência imperdível.

Saí de Viçosa maravilhado, certo de que essa foi a maior, a mais original e a melhor festa literária que tivemos em 2025. Não há dúvida de que todo o deslumbre ofertado espontaneamente por essa cidade-tesouro-patrimônio contribuiu para nos proporcionar esse efeito mágico mais que necessário para não deixar que nos esqueçamos do nosso propósito como agentes de cultura, guardiões de nossa história e memória, multiplicadores de nossas identidades para as atuais e futuras gerações.

Parabéns, FLIIB e a todos e a todas que a sonharam e presentearam o Ceará com o seu legado. Que venham a segunda, a terceira, a quarta...

 



 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

"Almir Mota: um menino a contar histórias", de Raymundo Netto para O POVO


No sertão cearense dos Inhamuns, abençoado por Nossa Senhora da Purificação, encontra-se hoje a ainda pequena Saboeiro do Ceará.

Cruzando o pátio rústico da igreja matriz, com detalhes coloniais, cercada de coloridas casas geminadas e beirando o mercado municipal, Almir Mota, um menino falante de olhos miúdos, aos seis anos, impressionava o populacho a já contar causos que ouvira de seu pai Osmir e de sua vó Canela, a dona do sítio Cabeça do Boi.

Com pouco, partiria de sua terra natal para residir em Iguatu, onde aos 16 anos estrearia no jornal literário O Tostão com o poema “Pai Democrático”, uma homenagem a Tancredo Neves. Aquela simples publicação “ficou para a vida toda”, e ele não parou mais.

Logo, reuniria um grupo de amigos e juntos produziriam folhetos de poesia mimeografados. Mais tarde, saraus itinerantes, vendendo os seus folhetos, então, impressos em gráficas, o que continuou mesmo quando Almir deixou o interior para aventurar-se na capital.

Em Fortaleza, ingressou no grupo Metamorfose de teatro amador, seria um dos criadores da Cia. Estripulia de Teatro de Bonecos (no futuro, também dirigiria o grupo Garunjos), criaria a Fundação Terra e trabalharia como gestor cultural. Até que, em 1999, publicaria a sua primeira obra literária para crianças: O Cavalinho Amarelo.

Ele acredita: “Para escrever para criança, você tem que se divertir como criança” e que a criança “é um leitor mais exigente, porém, mais honesto”.

Após “O Cavalinho...” publicaria mais de 25 livros para esse público que adora ler e vê-lo a contar as suas histórias, sendo muitas dessas obras publicadas por diversas editoras e adotadas em escolas de muitos estados brasileiros há anos.

Em 2009, iniciou as atividades da Casa da Prosa, sua editora e produtora cultural, no mesmo ano em que seu livro A Fera do Canavial (para jovens e adultos) recebeu o prêmio nacional “Literatura Para Todos” do Ministério da Educação.

O Almir, que não se restringia a escrever e a contar suas histórias, cresceu ainda mais como produtor cultural e militante das causas do livro, da leitura, da literatura e das bibliotecas, desenvolvendo projetos reconhecidos pelos seus resultados e seu poder de agregar artistas, professores e leitores. Entre eles: a Escola da Natureza, A Casa do Conto, a Feira do Livro Infantil de Fortaleza (em 7 edições) e a Feira da Literatura Cearense, a Bolsa de Letrinhas (Bolsa Funarte de Circulação Literária), Lamparinas de Histórias e o Baú de Leitura – ação que já beneficiou, com doações de livros, mais de 500 bibliotecas e espaços de leitura no Ceará, Piauí, Bahia e Minas Gerais.

Todos esses projetos são marcados pela sua liderança, competência e com muito humor, mesmo quando diante das adversidades que os artistas são obrigados a enfrentar se quiserem continuar no ramo, no qual ele traz 40 anos de contínua atuação.

Contudo, como é apaixonado por paisagens, é um viajante incansável, ao lado da esposa, Júlia Barros, uma excelente contadora de histórias (a melhor), já tendo divulgado o seu trabalho também no exterior, como no México, Colômbia, Costa Rica e Portugal.

Em 2025, Almir Mota chega aos 58 anos trazendo consigo uma marca e um currículo admirável de produções e de muita resistência, além de reforçar as visitas às escolas para divulgação de sua extensa obra, agora também reimpressa.

Assim, durante a celebração do Dia da Literatura Cearense, 17 de novembro, dedico minha homenagem a Almir Mota, um menino grande que cedo descobriu na vida o encanto das palavras e a esperança de mundo melhor em uma sociedade leitora.





 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

"Nariz", de Raymundo Netto para O POVO


Como uma princesa, quiçá rainha, assim era tratada Rosânia, filha única do respeitado empresário Cirano Ventes. Aliás, o sobrenome do pai lhe dava salvo-conduto, laissez-passer, como diziam nas colunas sociais, a qualquer local daquela cidade, mesmo os inatingíveis. Para ela não havia “depois”, “não pode”, “não dá”, coberta que era por uma certa vaidade deificada. Assim, não seria possível supor que ela, a filha, tivesse uma ojeriza tão medonha daquele pai.

Nunca a revelara a ninguém, mas via no narigão do pai um não sei o quê de repulsivo, asqueroso, com ares de legítima bruxa da Branca de Neve. Tinha tamanho pavor que assegurava: era aquela “coisa” a responsável por seus piores temores infantis. Tanta doçura e dengos de seu pai não conseguira apagar a imensa sombra que pairava maldita no imaginário virgem da garota.  

O sr. Ventes, coitado, já lhe percebia há muito essa reserva e distância, mas pensava ser natural pela sua condição feminina: “Se fosse homem, seria diferente...”

A mãe, entretanto, via com anormalidade a incompreensível aversão, que a fazia inventar desculpas para sequer cearem juntos, ou desviar o rosto com náuseas quando ele a acarinhava em aniversários e natais. Aliás, em seus álbuns de festa, as fotos ao lado do pai eram sumariamente descartadas. Quem os visse, pensaria ser Rosânia filha só de mãe.

Um dia, já moça, decidira casar. O noivo, bom rapaz e de família, era um príncipe, dizia.

Algumas horas antes da cerimônia, porém, no mais prestigiado salão de beleza da capital, o maquiador Paulinho lhe chegou cheio de mimos, afagando-lhe as madeixas e tocando-lhe o rosto com suavidade quase que sagrada. Ela, como uma rosa de jardim, vaporava alegrias, até que, inesperado, Paulinho pôs uma mão na cintura e com a outra tamborilou a escova no queixo. Silenciado, fitou a moça ao espelho e disse: “Mulher, nós teremos que usar sombra e pontos de luz para suavizar e disfarçar o volume...”

— O volume de quê? O que você quer dizer?

Diante da mudez repentina e geral, Paulinho torceu o canto da boca e disfarçou: “Eu? Nada, meu bem. Nadinha... só...”

— Você insinuou alguma coisa, sim... Diga. Repete!

O rapaz, desafeiçoado a frescuras e achaques, olhou para as colegas que acenavam súplices com as cabeças e indicadores e, num êxtase, rodou a cadeira de Rosânia e berrou numa impiedade carrasca: “Olhe aqui, minha filha, nós vamos ter que dar um jeito para o seu nariz não aparecer mais do que você na filmagem. É isso. Pronto. Falei!”

A noiva encheu-se de lágrimas e tornou ao espelho, como se numa primeira vez. Sim, estava lá, o tempo todo, bem diante do seu... nariz: era o narigão do pai! Sem tirar nem pôr, o mesmo fantástico monstrengo!

Correu pelo salão um brado megaestratosférico jamais ouvido. Há quem nos conte que não ficou um único espelho ou copo em pé. Rosânia saiu correndo à rua, destroçando o penteado e escondendo a sua vergonha entre as mãos, seguido por Paulinho, a equipe do salão, a mãe e o gordo pai: “A culpa é sua! É sua!”

Naquele dia, o casamento não aconteceu e ela não poria mais o nariz fora de casa. Da rua, por muitos anos, quem olhasse a janela triste do primeiro andar, poderia acompanhar o seu perfil generoso, a caminhar de um lado para outro, rodeado de pesadelos num quarto onde não entraria jamais um novo amor, muito menos outro espelho.






 

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

"No Canto da Sereia", de Raymundo Netto para O POVO


“Cavalo-Marinho, mãe. Ele pegou um cavalo-marinho”, apontava a menina para o irmão Zenor, que chegara da praia naquele momento, esbaforido e delirante, agarrado suspeitamente a uma garrafa velha cheia d’água do mar.

Correu ao seu quarto ainda ouvindo a irmã resmungar, após a desatenção da mãe: “Deixa seu irmão, menina! O bichinho...”

No quarto, Zenor botaria a garrafa em cima da cômoda, abriria a janela e passaria o resto da manhã apreciando o seu achado: uma sereia! Ainda pequena, uns 10 cm. A criatura estava naturalmente incomodada, debatia-se contra o plástico e, por vezes, parecia sufocar. “Muita areia...”, pensou Zenor, que logo daria um jeito de pedir ao pai para comprar um aquário de verdade.

Anos se passaram e muitos aquários quebraram enquanto a sereia crescia, sempre aos olhos atentos e obsessivos de Zenor. Os seus pais achavam ótimo que o rapazinho tivesse encontrado um hobby, pois não saía de casa, portanto não tinha amigos, não falava com ninguém, era absolutamente alheio a tudo e a todos, menos à sua sereia.

Enquanto tratava seu aquário, como em um pacto de silêncio eterno entre ambos, passava horas a observar fascinado, quase babando, a sua presa. Os compridos e encrespados cabelos esverdeados, como algas, oscilando lentamente ao movimento do corpo muito alvo, pele aparentemente de bebê, embora áspera. Os seios salientes e sem aréolas, o majestoso pescoço, a ausência de lábios, pequenas brânquias atrás das orelhas, a cauda longa de escamas denteadas e brilhantes. A irmã, quando criança, gostava de ajudá-lo nessa tarefa – tinha afeição pela criatura. Porém, adolescente e feminista, tornou-se contrária ao absurdo cativeiro. O pai, interessado apenas nas coisas do mundo, pensava em como aquilo um dia poderia contribuir nas finanças domésticas. A mãe apenas a julgava pálida e magra demais.

Por curiosidade, vez ou outra algum dos vizinhos adentrava o quarto. Também fotógrafos de revistas científicas e da imprensa local buscavam frestas de janelas para captar imagens da curiosa fêmea marinha. Todos eram violentamente enxotados pelo rapaz grandalhão, obeso e de fala pouco compreensível que se tornara o Zenor.

Tinha ele outro segredo. À noite, nunca conseguia dormir. Ao travesseiro, percebia os olhos dela muito abertos – naturalmente, não tinha pálpebras. Aquele olhar fixo em sua direção trazia o mesmo ar acusador e odioso de todos os dias. Estaria acordada? Estaria dormindo? Não sabia. Contudo, a brilhância do olhar amarelado, no negrume do quarto, parecia a de um farol. Pela manhã, estava em ruínas à mesa do café, preocupando os pais pela sua saúde precocemente debilitada.

Quando adulto, morava apenas com a mãe – o pai falecera e a irmã comprou um apartamento.

Nesse tempo, guardava a sua sereia numa caixa d'água no quintal. 

Era meio-dia. Sua irmã veio visitá-lo e almoçar com ele, a pedido da mãe em viagem. Ele já estava à mesa, quando ela dirigiu-se ao quintal para dar um “oi” à sereia. Não a encontrou: a caixa d’água vazia, encostada ao muro. Voltou à cozinha, muito bagunçada, e perguntou ao irmão por ela, o que acontecera com ela. 

Esfregando a manga do suéter na boca oleosa e garfando o prato, ele apenas respondeu: “Tem gosto de salmão... Adoro salmão”.

E desde esse dia, Zenor dorme um sono formidável, sonhando sempre com outras sereias.

 

 


 

"Maravilhamento: ler é isso!", de Armando Lucas


“Temos direito à fabulação é uma necessidade humana, parte constitutiva da sua realidade.”

 

Árvores centenárias desenham no chão da praça oásis de frescor. Nessas manchas temperadas, mesas se alinham ao longo do passar da gente.  Variam em quantidade de segunda a sexta.  Mas todas têm o mesmo tamanho.  E todas têm duas cadeiras que se entreolham por sobre toalhas de diferentes estampas, de bordas rendilhadas, que colorem os dias do amanhecer ao entardecer.

Agora, as cadeiras esperam e as mesas descansam. Elas, como as pombas da praça, saíram em revoada na busca das mãos que erram neste lugar de passagem.

Ele chega.  Puxa a cadeira.  Senta-se à mesa que tem um vaso ao centro, a única. 

Ela chega. Afasta o vaso para um lado, ajusta-se na cadeira e pede-lhe as mãos.  Ele pousa as mãos com a palma voltada para a estampa da toalha, acendendo-lhe as cores que se refletem em arco-íris nos olhos dela. Ela toma uma das mãos, a que está à sua direita; desemborca.

Suas costas caem no encosto da cadeira.  Logo seu tronco se volta pra frente e ela toma a outra mão. A cadeira cai de pernas pro ar.

De pé, ela anuncia:

- Ele voltou!

As outras acorrem. “A palma das mãos dele", ela aponta.

Todas olham; e todas veem; e todas leem; e todas exclamam com olhos acendidos de maravilhamento arco-íris; e todas anunciam, em regozijo:

- Ele voltou!




 

sábado, 4 de outubro de 2025

"A Capital Cearense dos Quadrinhos: Pacoti", de Raymundo Netto para O POVO

Pôster da Mostra. Autoria: João Belo Jr.
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Pacoti, a “Capital Cearense dos Quadrinhos”, em 2025, recebeu, entre os dias 2 a 4 de outubro, a terceira edição da Mostra Sesc HQ.

Como nas edições anteriores, a equipe técnica do Sesc preparou uma série de atividades para o público presente. Entre elas: lançamento de livros, palestras (com a participação de Paulo Monteiro, responsável pelo Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, em Portugal), oficinas (quadrinhos em sala de aula, desenho para quadrinhos, zine, roteiro para histórias em quadrinhos e desenho de personagens de mangá), feira de quadrinhos (Reboot Comics, editoras Avoante e Riso), teatro de bonecos (Grupo Formosura de Teatro, Bricoleiros e Companhia de Teatro Epidemia de Bonecos), apresentações musicais (Escola de Música de Guaramiranga, Escola de Artes BCA de Pacoti, banda Dona Zefinha, Batuta Nordestina e DJ Ada Porã), oficina de brinquedos ópticos (J. Cambé), disponibilização do serviço da Biblioteca Móvel do Sesc e a Exposição do Mendez (1907-1996), cartunista e caricaturista cearense de grande renome nacional.

A Mostra, desde sua primeira edição, lança a coleção DISCOnversando, álbuns em referência a LPs de artistas cearenses, adaptando as suas faixas em formato de HQs. Foram agraciados: “Além das Frentes”, de Eugênio Leandro, “Avallon”, de Abidoral Jamacaru, e, este ano, “Retrato”, de Luiz Fidelis. O artista, que é um dos maiores compositores e intérpretes de forró da atualidade, esteve na Mostra e apresentou-se no “Concerto Desenhado”, show musical no qual as HQs criadas para o álbum são projetadas em grandes telões de LED durante a apresentação. A maioria dos quadrinistas (desenhistas, roteiristas, coloristas) que participaram do álbum também se apresentaram durantes esses dias, falando sobre a sua carreira e o seu processo criativo.

Além das esculturas gigantes e coloridas de “Reco-Reco, Bolão e Azeitona”, personagens do quadrinista cearense Luiz Sá (1907-1979), desenvolvidas por Dim Brinquedim para receber os moradores e visitantes de Pacoti ao lado do arco de Nossa Senhora de Fátima, o município recebeu a do “Jumento Wanderley”, criação do quadrinista J.J. Marreiro.

Dez anos depois da criação da sua primeira sede, O Ecomuseu de Pacoti, parceiro do Sesc na Mostra, sob a direção do historiador Levi Jucá, recebe uma nova sede, conseguindo o grande feito de conservação e preservação do patrimônio arquitetônico da cidade, ao transformar a antiga sede da Delegacia e Cadeia Pública de Pacoti em um riquíssimo equipamento cultural, no qual, entre outros, receberá o acervo de Mário Mendez.

Desde a sua primeira edição, a Mostra reconhece, por meio do Troféu Luiz Sá, profissionais que têm relevância na história dos quadrinhos cearenses. Este ano, a comenda foi entregue com toda justiça ao quadrinista e professor Daniel Brandão, fundador em Fortaleza do Estúdio Daniel Brandão, escola de desenho, quadrinhos, mangá e outras artes gráficas que, há 23 anos, promove a Nona Arte e forma não apenas quadrinistas, mas desenhistas e profissionais de artes visuais.

Nas edições anteriores, receberam o troféu o professor e historiador Levi Jucá e o quadrinista e cordelista Klévisson Viana.

Por tudo isso e muito mais que sabemos vir por aí, a arte dos quadrinhos no Ceará está em festa. Parabéns ao Sesc, nas pessoas de Luiz Gastão, Henrique Javi, Alemberg Quindins e Sofia Dantas.

Vivas a Nona Arte e a Mostra Sesc HQ de Pacoti!




 

"O Nelson Rodrigues que Habita em Nós", por Beny Barbosa


Quando concluí a leitura de Coisas Engraçadas de Não se Rir, de Raymundo Netto, uma frase de Nelson Rodrigues me veio à cabeça, meio destroçada, é certo, mas o sentido estava ali dentro daquelas histórias. Fui me certificar com a IA se a autoria era dele e pimba! Era mesmo: “o moralista é um cínico disfarçado”.

O título, muito bem elaborado, já indica que teremos leituras paradoxais entre o que vem a ser engraçado e a desgraça humana. Aquilo que culturalmente não é aceito pela sociedade conservadora é disfarçadamente aceito sob olhos com espasmos de miopia. Desse modo, Raymundo Netto, de modo muito peculiar, à Nelson Rodrigues, nos joga na cara estruturas sociais que, apesar das transformações ocorridas ao longo do tempo, ainda permanecem lá, sólidas, resistentes e, muitas vezes, violentas.

Dadivosa, Bigode, Eudócia e Ozires Filho são personagens fictícios, mas que andam por aí: em bares, em mercados, em igrejas, em escolas e em...prostíbulos. Caso a gente frequente um desses lugares criados pela civilização burguesa, certamente nos deparamos com eles e elas, mesmo usando nomes diferentes para se disfarçarem e andarem por aí, impunemente, alheios às críticas dos hipócritas de plantão. E sorvendo os seus desejos mais íntimos, daqueles que a gente não admite nem diante do espelho.

Assim como em Nelson Rodrigues, Raymundo Netto tem a coragem de colocar as mulheres em papel de protagonistas, sem medo e dispostas a arcar com as consequências de suas escolhas diante de homens abobalhados, como aqueles criados pela avó. Não vou negar que torci por elas, entre risos e franzir de testa.

“Nerds” me tocou profundamente, quando ele faz uma narrativa forte, utilizando-se, de certa forma, do realismo fantástico. Muito me lembrou de um conto meu (“O Super Kaká”), mas com final diferente. Trouxe à cena, o sofrimento daqueles e daquelas alcunhados de esquisitos por uma sociedade que teima em ser linear.

Coisas Engraçadas de Não se Rir é uma obra que não tem marcação de tempo, mas de modus vivendi de pessoas reais, que vagam entre o aprisionamento e a liberdade de ser o que se é, sem as máscaras sociais que comumente usamos para poder sobreviver.

“A arte é a mentira que nos ajuda a ver a verdade.”  (Nelson Rodrigues)




 

domingo, 21 de setembro de 2025

Programa "Leruaite" da TVC com Falcão e como entrevistado Raymundo Netto



No “Leruaite”, programa do bregastar Falcão, na TVC, entrevista com RAYMUNDO NETTO, escritor, quadrinista, editor e documentarista cearense. Fala sobre sua obra que transita entre o romance, o conto, a crônica e a literatura infantil, com olhar atento para a preservação da memória e da cultura.

Além disso, no programa mais altamente mais ou menos da TV mundial, toda a filosofage ecumênica, piramidal e esculhambativa do Falcão e seus cupinchas.

Assista ao programa, curta, compartilhe e, se quiser, deixe seus comentários.

  ACESSE: https://encurtador.com.br/frqZW



 

"Lendas e Canções Populares: 160 anos", de Raymundo Netto para O POVO


Raymundo Netto, embora tenha um exemplar original de 1865, 
preferiu postar a foto com a obra que teve a honra de editar
(clique na imagem para ampliar)

“[...] desprezado dos salões, encontrarei bom gasalhado na oficina, na choça, no seio do povo; o operário entoará no trabalho estas canções, as crianças as repetirão no lar e o veterano, o recrutado, o escravo, o oprimido... derramarão muitas lágrimas ao escutá-las. E assim, cumprirei a minha missão.”

Foi dessa forma que o poeta Juvenal Galeno (1836-1931) concluiu a “História deste Livro”, uma espécie de apresentação do autor à volumosa obra Lendas e Canções Populares que, em 2025, completa 160 anos.

Avaliando esse texto, vimos que Galeno afirma ser a sua produção poética uma “missão”. Aos 29 anos, tal qual o arquétipo do herói romântico, abraça essa causa com idealismo, sobejado de emoção e se rebelando contra as convenções sociais que, na época, oprimiam – e oprimem – os mais vulneráveis na sociedade, aqueles que seriam eternizados em seu projeto literário: o escravo, o recrutado (da Guerra do Paraguai), o jangadeiro/pescador, o vaqueiro, o operário, os trabalhadores, os analfabetos, as mulheres, crianças e os velhos etc.

Importante destacar: para cumprir essa tarefa, não se recolheu ao conforto do gabinete de sua casa no aprazível cimo da serra de Aratanha. Ele, filho varão daquele que era um dos maiores comerciantes de café no estado, decidiu ser a sua pena uma humilde exploradora, movida pela curiosidade de trilhar a serra, o sertão e as praias em busca da realidade do povo sofrido a quem dedicaria a sua obra: “Acompanhei-o passo a passo no seu viver, e então, nos campos e povoados, no sertão, na praia e na montanha, ouvi e decorei seus cantos, suas queixas, suas lendas e profecias; aprendi seus usos, costumes e superstições, falei-lhe em nome da pátria e guardei dentro em mim os sentimentos de sua alma. Com ele sorri e chorei, e depois escrevi o que ele sentia, o que cantava, o que me dizia, o que me inspirava”.

Para entender um pouco sobre a envergadura dessa obra ímpar na Literatura Brasileira, imagine que ela nasceu em pleno Romantismo: no mesmo ano, enquanto num berço encontrávamos a jovem “Iracema”, de Alencar, noutro estava o título da musa popular de Galeno. Ambos cearenses; obras completamente distintas.

Embora tenha cruzado várias escolas literárias – quase completou 95 anos – e nunca tenha se afastado da romântica, é interessante perceber as notas realistas encontradas em suas canções, provando conhecer bem sobre as tintas com que pintava.

Lendas e Canções Populares, impressa em tiragem pouco comum naqueles tempos, foi um sucesso no Brasil, apresentando o ambiente, os costumes e essas personagens “nortistas” tão exóticas para a corte no sul do país, merecendo uma série de “juízos críticos” que lhe chegariam de diversas regiões brasileiras, assim como também de Portugal, onde lusitanos se entusiasmavam com essas inspirações ingênuas – como a de trovadores – do ainda muito desconhecido povo brasileiro.

Também viriam as críticas, claro, e não poucas, que mereceriam nos próximos anos defesas extensas de um Araripe Jr. e de Franklin Távora, entre outros grandes expoentes literários, como o próprio Alencar.

Juvenal Galeno nasceu em 27 de setembro de 1836. Adorava comemorar seus aniversários, e talvez por isso tenha vivido tanto. Mesmo cego, colecionando moléstias da idade, sem praticamente descansar de sua rede, havia sempre um novo poema.

Nós, seus leitores e leitoras, ganhamos de presente a sua história, a sua luta e a sua obra.

Parabéns, Juvenal Galeno, que vivas na sua justíssima e legítima imortalidade.




 

"Coisas Engraçadas de Não se Rir", por Gabriel Petter


O que seria da literatura sem o temperamento da vida?

Coisas Engraçadas de não se Rir, novo livro de Raymundo Netto, traça a sensação de conversas casuais entre amigos à mesa de um bar, onde as “causas” mais absurdas brotam espontaneamente, como uma licença poética para o excesso de aversão ao mundo “normal”.

Acreditem, essa obra é muito mais comum do que gostaríamos de admitir, principalmente por tratar também de sexualidade e relacionamentos amorosos, campos em que as possibilidades são muito maiores do que as limitações impostas pela sociedade e suas instituições. Aliás, são justamente essas as questões que dominam a totalidade do livro, dividido em 48 textos curtos, transitando facilmente entre crônica e conto, também situados na tragicomédia.

Os deleites e desgostos de vínculos que vão do casamento monogâmico ao relacionamento aberto mostram que não há nada na vida e no sexo, mas que este seja um elemento determinante na vida humana e em nenhum processo de subjetivação. Seja o poeta que ressignifica sua obra para amar pela primeira vez ou o gênero que nutre um desejo secreto pela sogra, como personagens que viajam pelas páginas do livro apenas permeadas por desejos e sentimentos reprimidos, fantasias, fetiches, é isso que os moralistas condenam nos outros, mas não renegam para si.

O que torna esta coletânea de textos ainda mais prazerosa é pensar que, para a maioria das pessoas, é mais cômodo pensar que práticas morais “desviantes” são apenas marginalizadas, restritas a espaços consagrados para os exercícios “perversos”.

O livro é de fato engraçado, mas de uma graça constrangedora. Não para rir. Coisas Engraçadas de não se Rir pode ser adquirido diretamente com o autor e tem ilustrações de Guabiras.

Vale a pena conferir.

 

Para adquirir o livro:

livrodoray@gmail.com (e-mail do autor e chave-PIX para pagamento e envio do endereço para entrega)




 

“O Riso Feito Faca: algumas considerações sobre ‘Coisas Engraçadas de não se Rir’, de Raymundo Netto, por Carlos Carvalho


Para ver de perto, clique na imagem

Atores e atrizes costumam dizer que é muito mais fácil fazer chorar do que rir. Eles estão certos, pois fazer rir é uma arte que exige de todos aqueles que a exercem uma maestria que beira um dom, uma dádiva.

No campo da literatura, o riso costuma exigir muito mais dos autores do que as construções semânticas que podem causar no leitor sensações de dor, nojo, indignação e cortes na carne de fazer espirrar sangue. E é esse tipo de riso que observamos nos contos “tortos” de Raymundo Netto, em seu Coisas engraçadas de não se rir (2024) que, feito faca, “cortam a carne” de leitoras e leitores, tirando-os de suas zonas de conforto e jogando-lhes na cara situações engraçadas de rir, mas também de não se rir.

Coisas engraçadas de não se rir foi publicado no ano de 2024, com revisão de Mayara Freitas, projeto gráfico de Dhara Sena, Raymundo Netto e Welton Travassos, com ilustrações de Guabiras e design de Welton Travassos.  

O livro é constituído de 43 contos, sendo alguns mais breves que outros, mas que seguem de muito próximo aquilo que nos diz Edgar Allan Poe (1809 - 1849) em seu ensaio Filosofia da composição, de 1846, ou seja, observam as questões relativas ao tamanho, unidade de efeito e método lógico. É claro que os escritores não têm a obrigação de saber ou seguir tais direcionamentos, mas escrever da melhor maneira que conseguir, colocando no papel ou na tela aquilo que desejam, pois, como muito bem nos diz Sérgio Sant’Anna (2021:157): “o conto não existe”. Assim, não deve ser preocupação do contista dizer “o conto é isso”, “o conto é aquilo”.

Mick Jagger, acrescenta Sant’Anna, não fala sobre as coisas: ele é a própria coisa acontecendo. E assim, mais importante que qualquer teorização, é fazer literatura que esteja sempre na vanguarda e em conexão com a realidade que insiste em esmagar o ser humano. No entanto, ainda conforme Sant’Anna (2021:160), não adianta fazer arte de vanguarda se tiranizo as pessoas ao meu redor e colaboro com o fascismo. Fazer literatura também é sobre isso.

Raymundo Netto é sabedor dos caminhos que atravessam a cultura, a arte e a literatura. É um escritor consciente das mudanças e dos impactos que um bom texto pode causar. Logo, ao trançar suas narrativas com o fio do riso, Netto o faz com a semelhante habilidade com a qual Dalton Trevisan costurava seus contos com o fio da dor, da faca no coração. Assim, ao mergulhar nas histórias que compõem o livro de contos em questão, percebe-se nitidamente o domínio da narrativa curta que o autor de Os Acangapebas adquiriu ao longo do tempo.

Percebe-se, a partir de Coisas engraçadas de não se rir, um salto qualitativo na sua escrita, que o coloca entre os melhores autores cearenses contemporâneos. Por ser cronista (leiam do autor o livro Crônicas Absurdas de Segunda), Raymundo Netto traz para o seu conto as minúcias que os olhos treinados do cronista e do jornalista (o autor também é jornalista) conseguem capturar de maneira leve, objetiva e sutil, fazendo com que suas histórias pareçam aquelas conversas que ainda se dão a bordo de cadeiras na calçada.  

E é usando de sua habilidade enquanto escritor, que Raymundo Netto recorre ao riso como o élan necessário para costurar as narrativas do seu mais recente trabalho. Dessa forma, em Coisas engraçadas de não se rir, o riso se apresenta como forma de subversão e corta tal qual a faca só lâmina de João Cabral de Melo Neto, ou como na releitura de A palo seco, de Belchior, quando diz: “e eu quero é que esse canto torto/feito faca corte a carne de vocês”.

A subversão é, conforme o dicionário Aurélio (2010), o ato ou o efeito de subverter (-se). É ainda a insubordinação às leis ou às autoridades constituídas. É a revolta contra elas. É a destruição, a transformação da ordem política, social e econômica estabelecida. É uma revolução. Assim sendo, o verbo subverter abriga o sentido de voltar de baixo para cima; revolver, agitar e, entre outros, revolucionar. E é também pra isso que serve a literatura.

No conto de Raymundo Netto, essa subversão se dá aos olhos do leitor quando o autor se utiliza do cômico e do riso, unindo tudo aquilo a que se propõe na construção dos contos que compõem o livro. Assim sendo, é preciso lembrar que conforme Henri Bergson (1859 - 1941), em seu livro O Riso: Ensaio sobre a significação da comicidade, de 1899, que apenas o humano é cômico. Uma paisagem, afirma ele, poderá ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia; mas nunca será risível. Bergson lembra que é bastante comum ouvirmos a expressão “o homem é o único animal que sabe rir”. Para ele, essa expressão ficaria mais completa se a ela fosse acrescido outra que diz “um animal que faz rir”. E assim teríamos: O homem é o único animal que ri e que faz rir.

Ainda conforme Bergson, o riso é sempre “o riso de um grupo” e “tem uma função social”. Mas afinal, o que devemos compreender pela palavra “riso”? O riso consiste no ato ou efeito de rir. Também pode ser compreendido como alegria, satisfação ou coisa ridícula. Rir também significa zombar ou ridicularizar. Destarte, o riso é por natureza, subversivo, ou seja, é algo capaz de transformar ou destruir o que está posto, estabelecido.

Por muito tempo na história da humanidade, o riso foi considerado pecado, coisa do diabo. Isso ocorria, certamente, pela capacidade que tem o riso de ridicularizar; subvertendo valores estabelecidos e tidos como imutáveis. Assim sendo, o riso foi por muito tempo considerado não apenas um pecado mortal, mas imoral e destruidor do Estado e da fé, por exemplo. Dessa forma, o riso foi censurado, sendo punidos com a morte todos aqueles que ousassem desafiar a Inquisição.

Lembremos, por exemplo, das passagens nas quais os monges copistas são assassinados no livro O nome da rosa (1980), de Umberto Eco por, teoricamente estarem rindo a partir da leitura que faziam do livro A comédia, supostamente o segundo livro da Poética, escrito por Aristóteles.  Em tempos outros, sob sistemas autoritários, o riso continuou a ser perseguido e criminalizado. Muitos artistas, no entanto, utilizaram sua arte para fazer frente aos desmandos das elites políticas, ao arcaísmo da sociedade, bem como ao Estado e seus aparelhos ideológicos constituídos. Assim sendo, é possível afirmar que o autor de Coisas engraçadas de não se rir se utiliza do riso como forma de subverter determinados valores socioculturais observáveis no espaço e no tempo da produção dos seus contos. O riso, tal como está dito no livro de Umberto Eco, mata o temor.

E é por essa razão, entre inúmeras outras, que Coisas engraçadas de não se rir, de Raymundo Netto, mostra-se em consonância com seu tempo por seu caráter universal, contestatório e atemporal, e assim o será enquanto houver alguém que, mesmo pelos cantos da boca, insista em rir do que quer que seja.

 

Carlos Carvalho

Doutor em Linguística Aplicada,  

professor na Universidade Estadual do Ceará (Uece)

e cronista nas horas vagas.