segunda-feira, 25 de setembro de 2023

"Portas Fechadas", de Raymundo Netto para O POVO


Para o amigo Manuel Bulcão

 

Todo mundo sempre me dizia: quem tem depressão, não pode deixar as portas fechadas!

Não entendia o porquê das portas, mas sabia, sim, o que era depressão. Uma tristeza sem fim, sem razão, e, ao mesmo tempo, com todas elas. Uma sensação de vazio imenso, a angústia, o coração apertado, uma vontade sofrida de chorar... Aliás, certa, certa, só mesmo essa vontade, quase vergonhosa, de chorar.

Geralmente, minha casa estava escura. Trancava as portas e as janelas, não queria ver ninguém. Era doído mostrar um sorriso de aparência, fingir atenção ao ouvir as medíocres histórias do dia a dia de todo o mundo, assisti-los a rir de piadas velhas ou a me contar de suas esperanças e crenças e, o pior: vê-los a zombar das próprias desgraças!

Televisão ou rádio, eu nem ligava. Ouvia música, sim, mas sempre, sempre, as percebia tão tristes quanto eu. No mais, sempre me diziam: Olhe, quem tem depressão nunca pode deixar as portas fechadas, hein?!

Pus a fazer assim: não as fechavas mais, contudo, também não aparecia mais à porta, para que não me vissem, não me incomodassem... esquecessem de mim! Então, quando os mendigos ou carteiros batiam palmas no portão, eu ficava imóvel, silenciado, olhando pela fresta da basculante até eles se irem de vez.

Eu escrevia. E escrevia sempre, seja o que fosse, escrevia. A cabeça sempre ocupada, cheia de pensamentos a se acotovelarem, não me deixando dormir. Assim, varava as madrugadas e escrevia. Os meus dedos cumpriam por mim aquelas prometidas caminhadas pela praça ou à beira-mar recomendadas pelos amigos como terapia. Eles já achavam: precisava de terapia.

Em minha mente se passavam todos os tipos de acontecimentos, porém, na minha vida mesmo, sentia que nada acontecia; nada me suportava a vida!

Sentado diante do computador, lembrava momentos passados, rostos quase esquecidos, antigas promessas, dentre elas a maior, a da felicidade, feita ainda à juventude, que se foi sem que me desse conta. Não acreditava um dia envelhecer. As pessoas diziam: “mas você não tem nem quarenta anos!” Eu nem que acreditava...

Olhava a caixa de mensagens de cinco em cinco minutos: nada! Ficava pensando que logo, logo, alguém escreveria falando de seus planos e eu, com ele, sonharia, desfiando o sonho alheio, ponto a ponto, até cansá-lo e tirar-lhe o gosto. Eu mesmo, fazia tempo, não colecionava sonhos, não esperava por nada nem por ninguém. Eu não acreditava mais.

Nisso, de repente, um vento entrou e fechou-me a porta da sala. A casa escura! Lembrei: quem tem depressão não pode deixar as portas fechadas!

Senti medo. O que aconteceria, então? Vozes frequentes ao pé do ouvido mudaram o discurso: ele morreu? ele morreu? ele morreeeu... Uma sombra pesada em tom de cinza pairou sobre minha cabeça. O frio desceu-me a nuca e fiquei em silêncio, atônito, a esperar, mas nada aconteceu. Na sala, tudo parecia olhar para mim: os livros, os quadros, as prateleiras, as canecas... até o gato que numa apatia incômoda não ria nunca, também me fitava... eles sabiam... mas nada aconteceu!

Fui ao banheiro, olhei para o espelho, e não era eu quem estava lá. A garganta apertava-me, e eu chorei, chorei, chorei, abri as torneiras... mas nada aconteceu. Nada acontece nunca e nunca mais abri as portas nem os olhos, trancado para sempre na minha mais absoluta solidão.

 




 

"O 'Livro das Ausências', de Hermínia Lima", por Raymundo Netto

 


Hoje é um dia especial, pois aqui nos reunimos, não apenas para celebrar mais um feito, um legado cultural de Hermínia Lima, que admiramos, enquanto mulher, mãe, amiga, militante, profissional e poeta, mas também porque neste ambiente ora respiramos, falamos, lemos e nos alimentamos de poesia.

Contudo, trago aqui uma constatação nada original, mas sempre necessária: a poesia é de uma inutilidade singular. No mínimo, uma utilidade inútil, como defendida por filósofos, estudiosos e até, com um certo embrulho no estômago, pelos próprios ou pelas próprias poetas ou poetisas.

Entre esses poetas, o marginal Alcides Buss, autor da obra Círculo Quadrado, que afirma que a autenticidade da poesia reside exatamente na sua inutilidade. E entende os poetas como “seres bastante incomuns que escrevem com o corpo todo”, o que os diferem dos demais escrevedores que usam só as mãos, os mais simples, ou aqueles que usam as mãos conjugadas à memória, à imaginação, ao pensamento. Mas nada, assegura ele, se compara ao poeta que escreve com o corpo todo.

E quando fala do corpo todo, admite que o seu corpo e o corpo do mundo também se entrelaçam, se fundem ou se completam sinergicamente, de maneira que o sol, a lua, as estrelas, o crepúsculo, as marés, os mares e os seus mistérios, as árvores, as flores que desabotoam nos jardins, os seus perfumes, os animais, as crianças, os homens, as mulheres, os seus amores ou dores, tudo, tudo é acolhido nesse corpo todo.

Sabemos que a poesia percorre um caminho indefinível que vai da pacífica oração ao exorcismo, da quase inocente magia à bruxaria, da sensação leve da harmonia à angústia do caos. Mas nunca, nunca é passiva.

Diante desse cenário, nos perguntamos para que serve à poesia... Ou talvez, a quem ela serve? Ao sistema consumista? À estrutura do poder, da política? À necessidade premente e imediata de lucro todo o tempo, toda a hora, a qualquer custo, como as demais engrenagens de nossa vida a nos escravizar, aprisionar, a nos adoecer, a nos arrebatar covardemente a vontade de viver? O que assistimos hoje é o amargor vencendo a doçura, a ternura que, juramos, não poderia ser perdida.

Não, a poesia é inegociável e, ao contrário das coisas mundanas, ela é livre, pois ninguém a possui e ao mesmo tempo ela, se a porta estiver aberta, nos encontra quando menos esperamos. Quando abrimos os olhos pela manhã ou ao chegar à janela e nos depararmos com a beleza ainda virgem do céu, de um sol despertando molinho, molinho... Quando diante do olhar cheio de vida de uma criança faladeira; quando nos é roubado aquele beijo, mesmo que ainda mudo, num instante em que parecia que nada, nada mais poderia nos acontecer; ou quando a xícara de café quente nos toca os lábios e divisamos coisas que não estão mais aqui, que se perderam em um dos desvãos de nossos caminhos. Sentimos os cheiros, os sabores, ouvimos as suas vozes e nos dá saudade... E saudade, como registra Neruda, é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já.

Hoje, quando a luz acordou o dia

Cada raio acordou em mim uma saudade.

Uma saudade agigantada,

Dilatada pelo pulsar de desbotadas lembranças.

Lembranças dos dias que não vivemos,

Dos encontros que não tivemos,

Do grito abafado pelo desejo contido.

Lembranças da chuva que ainda nuvem...

E v a p o r o u . . .

Até então falamos da poesia, agora falemos dos poemas.

Algumas pessoas, nós os chamamos de poetas e/ou poetisas, se aventuram e ousam com coragem, talento e renúncia a colher desse mundo imaterial os insumos e, tal qual Prometeu o fez, quando roubou o fogo dos deuses para entregar aos homens, modelam e transformam essa luminância poética em forma de poemas, disponibilizando-os para a humanidade.

É o que a Hermínia faz hoje ao nos oferecer o seu Livro das Ausências, uma coletânea de poemas captados desse universo muito íntimo da poeta, desse corpo em interação com o mundo, mesmo que apenas o seu, que ela classifica de ausências que cantam, que gritam, que pulsam, que saltam e que sangram.

E, em meio a eles, seus poemas, independentemente da classificação da autora, nos trazem outras ausências, entre elas as que nos calam, que nos confrontam, que nos devoram até o ponto de ser tão presentes na nossa vida.

O titã Prometeu foi punido por Zeus, que temia que, com o fogo, os homens pudessem se tornar tão poderosos quanto os deuses. A punição era dolorosa: Prometeu, eternamente amarrado a uma rocha, assistiria a uma águia a devorar seu fígado. O órgão se regeneraria diariamente, e, para todo o sempre, a tal águia o comeria.

A nossa poeta, que ora celebramos, nos fala em algum instante de verso: “o respirar enfermo, o peso insuportável de todas as dores do mundo”. E daí trazemos Vinicius: “assim como o poeta só é grande se sofrer” ou “que todo grande amor só é bem grande se for triste”.

Mas então ouvimos um conselho de Hermínia:

Há momentos em que o grito aprisionado

Se agiganta.

Nessas horas, o melhor,

É escancarar a porteira do peito

E permitir vazão

Ao que vem da garganta.

 

A ausência de alguém, de um tempo, de um lugar é um estado de alma. Algo que pode nos faltar materialmente, mesmo que sintamos ou saibamos nunca distantes, quando desse alguém, desse tempo ou lugar nós precisamos, bastando apenas nos conectarmos com a nossa, vamos chamar assim, consciência.

Há, no entanto certas ausências que parecem um sequestro de si, que por vezes nos doem tanto, principalmente enquanto estamos distraídos, e a gente acha até que não pode suportar:

As fotos no velho álbum

Trazem de volta uma saudade

Que rasga o tecido da tarde.

As fotos sorriem para mim

E me fazem chorar.

 

Marilena Chaui nos faz refletir que “falamos porque cremos nas palavras e nelas cremos porque cremos em nossos olhos: cremos que as coisas e os outros existem porque os vemos e que os vemos porque existem. Somos, pois, espontaneamente realistas.”

E é esse mundo realista e transbordante de poesia que encontramos na tessitura da obra de Hermínia, cuja seiva principal a percorrer suas páginas são memórias, sensações, lembramentos, desejos, delírios, despedidas e distâncias.

Tuas cordas nas minhas cordas,

Minha pele nas tuas mãos.

Tu, um vento; eu, uma canção.

Passaste, passei, passamos,

Em vão?

Hoje, somos sombra, ausência,

Saudade e silêncio,

Ou nuvem a dissolver-se

Na noite, na escuridão.

 

Hermínia escreve com todo o corpo. Cada ausência por ela segmentada nos traz a sua presença, uma faceta distinta e verdadeira, e é na verdade dessas saudades poetizadas é que as suas palavras nos tocam. O corpo da poeta em consonância com o corpo do mundo, de todo mundo. Memórias que também são nossas e nos são tão caras, pois são o nosso repertório de vida.

A casa adormeceu silenciosa.

Só as redes cantavam

Sua canção de punhos em movimento,

Acalantando o sono e os sonhos,

Nos braços alaranjados

Das maternas e ternas varandas,

Volutas ao vento vivo e violento

De um outubro saudoso e sonolento.

 

E mais adiante os seus fantasmas, quando seus medos gritavam saindo de sua boca; a chuva a cantar do lado de fora pela janela; o recanto seguro entre as pernas da mãe a pedalar na velha máquina de costura;  as cadeiras na calçada; o cavalo Ventania; o pião de madeira carrepeteando pelo chão e outras brincadeiras de menina-menino; os temperos-cheiros da avó, como beiju de 3 dias guardado para festejo no café da tarde; o seu avô Luís com seus bolsos repletos de bombons; as saudades da terra que a acolheu, São Luís do Maranhão, com suas histórias, seu bumba-meu-boi, da “batucada dos pandeirões, em couros febris tocando toadas na beirada das fogueiras”; o Bento, em tudo ali, o inesquecível Bento.

Além disso, para não trair sua trajetória, encontramos poemas com teor sensualíssimo, arrebatador, eu diria até terrivelmente apaixonados, de marcar com ferro e deixar em carne-viva de brasas:

Se eu pudesse,

Eu pousaria acesa,

Sobre ti,

Como um sol nascente,

De pele incandescente,

E beijaria, calma e solenemente,

Os teus desejos mais insanos.

Se eu pudesse,

Eu rasgaria a pele dos teus pudores,

Eu seria a soma de todos os teus amores,

Só para desaguar em ti,

Minha lava de anseios,

Sobre as tuas costas.

Se eu pudesse,

Eu te sufocaria com beijos,

E queimaria, com o meu vulcão,

Teus rebanhos apascentados,

Sobre tua tranquilidade de pastos.

 

Hermínia, minha amiga, agradeço demais, em nome de todas e todos nesta plateia, esse livro-presente, que honra e dignifica a poesia, a nossa literatura cearense e brasileira.

Hoje num panorama em que há tantos poetas e tão pouca poesia, chega a nós uma obra como essa em que ela está marcadamente presente, com a sua força e pulsar, assim como nós vemos você, e concordamos:

Quando uma leitura nos encanta,

O livro que nos fala nela,

Enquanto conta,

Também canta e acalanta

Nossos desencantos.

O livro acalma saudades

E peles inquietas.

Preenche lacunas abertas

E irriga o vale da vida

Saciando, com saberes,

Nossas sedes e ausências.

 

Meus mais sinceros parabéns.

 

Raymundo Netto, 23 de setembro de 2023



segunda-feira, 28 de agosto de 2023

"Síndico", de Raymundo Netto para O POVO


“Só pode estar roubando, quem mais faria questão de ser síndico?” Ele faria: o Sebastião. Desde criança, quando aquela tia chata lhe puxou a bochecha e lascou a pergunta clichê: “O que o Tiãozinho da titia vai ser quando crescer, hein, hein?”, ele jogou de lado a chupeta e respondeu franzindo a testa: “Sínico!”

A família toda voltou-se para o rebento, imaginou mil coisas, mas a mãe, recebedora da língua de fogo de pentecostes que lhe dá proficiência no idioma Bebês, traduziu com tranquilidade e surpresa: “Ele quis dizer síndico... mas o porquê eu não sei. Síndico?”

Para uma coleguinha mais tarde, em um papo entusiasmado de adolescente, Bastião confessava: “Não vejo a hora de ser síndico.” Esfregava as mãos com apetite e até babava quando acariciava ali os seus anseios: “o líder maior de um condomínio!”. A menininha sardenta, com sua tola incompreensão, apertava o indicador na testa e dizia: “Mas, Tião, ninguém quer ser síndico...” O rapaz olhou para a moça em uma superioridade hostil, riu com o canto da boca e contestou: “Não é querer, mas poder. Ser síndico é para os escolhidos. Se não entende isso, não me serve como esposa.” É claro que depois dessa a garota lhe deu as costas e ele nunca mais a viu.

Ao final do ensino médio, Tião, que se debruçava eternamente nas quatro operações, foi eleito em uma assembleia do prédio onde morava com sua família. Seria síndico, oficialmente, quite com suas obrigações condominiais. Nos próximos anos, jamais perderia o posto. Começara como voluntário, sem remuneração, mas devido à eficiência quase sacerdótica agora estava contratado.

Não parava em seu apartamento, a não ser para refeições e à noite para dormir, claro, se não faltasse luz ou água, se o motor da bomba ou do portão elétrico não queimasse, se viesse o porteiro, se o elevador não travasse, não houvesse eventos no Salão de Festas, briga de família nos corredores ou alguém com som às alturas depois das 22h... Resumindo, quase não dormia, mas às 6h estava de pé, próximo à guarita da portaria, cumprimentando e desejando bons-dias a todas e a todos.

Seu orgulho maior era um molho de incontáveis chaves coloridas que carregava para cima e para baixo, tilintando e anunciando a passagem do “manda-chuva” do condomínio, ao mesmo tempo que pesava-lhe o cós da calça, deixando à vista o rego das nádegas.

Por falta de um santo especialista, era devoto de são Pedro, o dos porteiros, e, cria que, por extensão, dos síndicos. Com ele pendurado em uma correntinha no pescoço, passava o dia entrando e saindo dos apartamentos quando convidado, o que acontecia com frequência, para ajudar as senhoras donas da casa, as filhas dessas donas ou suas diaristas nos assuntos mais banais, como trocar uma lâmpada, observar uma privada vazando, colocar um pesado garrafão de água sobre a pia, segurar um cesto, empurrar sofás.

Ele, prestativo, tinha tempo para tudo, inclusive para tomar um café e ouvir confissões daquelas pessoas solitárias.

Um dia, anunciou-se um incêndio em um dos apartamentos. Um bem grande. O porteiro interfonou a todos: “Evacuar! Evacuar”!

Tião bateu à porta dos condôminos da brigada de incêndio: ninguém! Foram os primeiros a chegar à calçada.

Rapidamente a fumaça e o fogo se espalharam por todo canto. Não se sabe como, nem ele acreditava, mas as mangueiras não ejetavam água e os extintores não davam vencimento.

Súbito, ouvia gritos desesperados, corria aos andares em brasas, com labaredas que escorriam até dos forros de gesso, e descia com aqueles moradores. Descia, mas iria voltar, poderia ter outros. Pedia que subissem com ele para ajudar. Ninguém subia: “É louco?”.

Os sprinklers estouravam um a um nos andares, porém, era tarde, o edifício era mesmo que ver um quadro de Pompeia. Mesmo assim, como um capitão deve afundar com seu navio, Tião não arredaria o pé dali.

Quando os bombeiros finalmente chegaram, encontraram, em meio ao ambiente úmido e esfumaçado, apenas destroços carbonizados do prédio e de seu maior guardião, reconhecido somente pelo molho de chaves a luzir à luz de lanternas tardias.





 

domingo, 13 de agosto de 2023

"Amor e Mussolini", de Raymundo Netto para O POVO


– Pelamordedeus, não fale em política, não fale!

Rosa parecia absolutamente transtornada ao convidar o namorado Vladimir para um jantar com seu pai, o velho Giuseppe: “Ele não é má pessoa, mas tem umas ideias...”

Vladimir a abraçou ternamente. Era da paz, boa gente como dizem, e a tranquilizava: “De boas, meu amor, acalme-se, vai dar tudo certo. Vou adorar o seu pai. Eu não te amo?”

Na marcada noite, Vladimir chegou pontualmente com um buquê de margaridas, sendo recebido por Rosa a manifestar um sorriso tão aflito, que ele não conseguiu esconder: “Você nunca trouxe outro namorado aqui antes, não é?”

Imediatamente por trás dela viria um alegre e gordo pai, seguido pelo irmão Benito, os quatro se apertando na soleira da porta: “Pode chiamarmi Pepe, figlio mio”, e questionou, “Vladimir é russo, non?” Abraçando-o, Pepe o conduziu pelo estreito corredor, deixando para trás Rosa a ralhar com o curioso e metido irmão.

“La mia casa, tua casa”, dizia Pepe, apresentando a sala de estar, que tinha, em lugar de destaque, um poster imenso de Benito Mussolini: “Nostro grande Duce Mussoliniani!”

Vladimir apenas sorria, intimidado e bastante comprimido pelo largo e forte abraço do velho que logo o levou à mesa de jantar, empurrou-o em uma cadeira e bradou pela Rosa: “Amore mio, viene qui!”

Rosa e Benito correram para a cozinha e passaram a preencher a toalha xadrez da mesa com diversos pratos com massas, molhos e cálices de vinho. No centro dela, uma garrafa verde encimada por uma vela que se derretia pelo gargalo. Os guardanapos eram verdes, brancos e vermelhos, numa clara alusão à bandeira italiana: “Sono um nazionalista. O país é la nostra famiglia, e Dio acima de tutto.” Ali, sem se perceber, Vladimir propôs: “Só nos falta dançar a Tarantella”. Um minuto de silêncio se fez. Rosa engasgou a seco e Benito olhou para o pai. Pepe, por instantes pensativo, se pôs a gargalhar: “Já gostei do ragazzo, já gostei”, tapeando forte nas costas do descarnado Vladimir a tossir, enquanto Pepe colocava um disco com obras de Verdi, Puccini e Vivaldi: “Questas músicas sono divini...”

Sentando à mesa, enfiou o garfo em seu primo piatto, e com suposto desinteresse, perguntou: “O que acha della democrazia?” Vladimir, surpreso, cuspiu vinho na mesa, Benito olhou fixamente para Vladimir e Rosa correu para cozinha para trazer mais guardanapos.

“É um regime para os piccolos”, afirmou Pepe. “La gente non está preparada para decidir. O presidente, este si, tem que ser forte, severo, para comandar la nazione.”

Vladimir assentia com a cabeça, mantendo a boca fechada a garfadas de espaguete, incomodado com o olhar fixo, assimétrico e quase demente de Benito à sua frente: “Por que a Rosa nunca me falou desse irmão?”, pensava.

Percebeu a namorada quase a não parar na cadeira, sempre encontrando um motivo para ir à cozinha, ao banheiro, e sempre voltando com os olhos úmidos, perceptivelmente constrangida. De repente, o Pepe deu um murro na mesa e os talheres quase chegaram ao teto: “TORTURA!”, gritou, “Chi non ama la própria Pátria merece la tortura!” Daí, pôs a mão no peito e cerrou os olhos com firmeza: “L’Italia è il paese più bello del mondo, su questo non ci piove!” Abriu os olhos, suspirou docemente, pegou a mão de Vladimir, apertando-a bastante, e sorriu: “Sono un progressista, figlio. Defendo la liberdade, graças a Dio.” E voltou os olhos cúmplices – assim como todos nós – para o Mussolini na parede, reverenciando-o. Depois, olhou com uma ruga na testa para o calado Vladimir e, trazendo três pequenos depósitos com molhos, perguntou: “Quale preferisci?” Sem saber que molhos eram aqueles, mas sem querer fazer desfeita, respondeu: “Hummm... O vermelho.”

Giuseppe, apoplético, levantou-se e puxou a toalha da mesa, derrubando tudo no chão: “Comunista! Diavolo! Vagabondo! Vai fuori da casa mia, ingrato!”

Rosa correu aos prantos para o seu quarto, enquanto Benito continuava com olhar fixo em Vladimir que, de supetão, arrancou o guardanapo vermelho da gola da camisa e respondeu: “O senhor é que é um maluco fascista... FASCISTA!”

E sem se despedir nem de Rosa, saiu em desabalada carreira, não antes de virar o quadro de Mussolini de cabeça para baixo, ao som das risadas patéticas de Benito.

 

 


 

segunda-feira, 31 de julho de 2023

"Preserve-se Raymundo Netto", de Armando Lucas para o AlmanaCULTURA


O que entra por um ouvido e sai pelo outro chama-se olvido. Dessa passagem costuma não restar qualquer marca, nem mesmo a título de cera residual. É que o esquecimento raspa tudo. Raymundo, como lembram os versos de Drummond, rima com mundo. Parece pouco!? Não o é. Os próprios versos de Carlos, aqui ainda o Drummond, em que se ouve dizer o que parece gracejo (gracejo no sentido de, diante de tão vasto mundo o que pode um homem comum senão tirar um sarro da relação entre a existência e os recursos formais possíveis da representação do real poetizável?), o guardam do alcance do olvido (este buraco negro da memória). Não é pouco rimar Raymundo com mundo, não é pequena a rima de mundo com Raymundo, porque nosso Raymundo dá as mãos ao mundo. Por isso, vale a pena. Sim, vale a pena preservar Raymundo Netto! Que não lhe cubra corpo e alma o manto do olvido! O que se deu com muitos; como se dará com outros tantos.

A sorte dos Carlos, a sorte do mundo, é haver um Raymundo com um pé na poesia e outro no mundo. O mundo de Raymundo Netto é vastíssimo, mas é sobretudo vastissimamente alencarino. Tirar esse mundo, em especial, o seu domínio cultural escrito, de debaixo do manto do esquecimento é uma das faces do trabalho desse Netto do pai de Deca Costa. Eu disse faces. Sim, são muitas. Não cabe aqui listá-las; haveria imprecisões.

Não sou pesquisador como ele o é. Não tenho, como ele a tem, dos Titãs a sanha para passar além da serra da Aratanha. Sou seu leitor; sou admirador de seu trabalho raymundo neste mundo alencarino. E, antes que eu apresente uma materialidade dessa admiração, digo que assim como há o manto do esquecimento, há o da lembrança.

Quando as crônicas quinzenais de segunda no jornal O POVO (absurdas, ordinárias ou memorialistas); quando os editais de incentivo à cultura; quando os cursos à distância pela Fundação Demócrito Rocha; quando a edição de livros sob sua curadoria pelas Edições Demócrito Rocha; quando esse tanto de fazeres diversos não possa mais estampar seu sorriso sempre acolhedor, que possa um novo manto sudário estampar sua face síntese: Raymundo Netto de mãos dadas com o mundo, o mundo alencarino!

Quanto à materialidade da minha admiração, ei-la: em 2019, por volta do mês de setembro, do forro da biblioteca escolar, pendurou-se um nome. Abaixo dele há uma estante: é uma gibiteca. Quando um aluno, em vez de tomar nas mãos um exemplar de HQ, dirige os olhos para o alto, invariavelmente duas são as perguntas que faz: o que é?; quem é? À primeira eu respondo sem delongas: “Um nome: Raymundo Netto”.

À segunda a resposta vem com um convite: "Senta que lá história!" Convoco os Acangapebas; leio uma crônica absurda de segunda; pondero que o amor pode sair barato quando é de graça; puxo um exemplar da coletânea Enem. Então, chamo sua atenção para o nome que aparece em todo esse material e pergunto: "Merece ou não merece estar lá no alto?"

O reconhecimento do merecimento se dá pela exclamação de assombro expressa pelos olhos arregalados e a confirmação desse assentimento, pelo movimento, com o queixo caído, da cabeça para cima e para baixo. É tudo? Não. Eventualmente, algum aluno pede pela explicitação da relação entre o nome e a gibiteca. Então, estendo as mãos e lhe ponho diante dos olhos, ainda arregalados, um fascículo do Curso Básico de Histórias em Quadrinhos, outro do Curso Quadrinhos em Sala de Aula: estratégias, instrumentos e aplicações, o livro História das Histórias em Quadrinhos no Ceará, a revista Antologia HQ. “Vês?” Raymundo Netto: ora organizador, ora coordenador geral e editorialista.
Raymundo rimar com mundo é muito na poesia do Carlos Drummond de Andrade. Pouco são um novo santo sudário e uma singela biblioteca de escola pública. Pois se uma biblioteca municipal inteira não está capaz de impedir que a memória criativa do Carlos Cavalcanti se perca em uma rua qualquer do esquecimento, o que dizer de duas ações pequenas que apenas fazem a vida, enquanto viva, valer a pena?

Os dois Carlos estão mortos. O Drummond é lembrado sempre que Raymundo rima com mundo. O Cavalcanti, olvidado, só é lembrado quando Raymundo, para além de rimar, é, por seu esforço, solução quase milagrosa (lembremos: de água fez-se vinho) para a transformação de seu esquecimento em sua lembrança.

Raymundo Netto está vivo! Vivíssimo! É vasto! Vastíssimo! É alencarino! Alencariníssimo! Por isso, pena em sua lida em prol da memória alencarina. Por isso, por sua pena nos convoca a pelejar em prol do alimento nativo que alimenta nossa memória alencarina. Sem Raymundo não saberíamos o valor do que poderíamos perder ao esquecimento. Com Raymundo sabemos que podemos pelo menos esgarçar o manto do esquecimento daquilo que deve permanecer vivo na lembrança. Viva Raymundo Netto! Preserve-se ( , )Raymundo Netto!




 

"Ora, Sapos!", de Raymundo Netto para O POVO


Pereira gastava muito dinheiro com dermatologistas.

Há tempos, inexplicavelmente, assistia à sua pele engrossar, descamar, tornar-se áspera e grudenta. O porquê daquilo ninguém sabia. Enquanto isso, o homem mais parecia um gato de tanto se lamber e se esfregar com pomadas, cremes, loções e sabonetes por horas intermináveis, e nada resolvia aquela aparente tragédia doméstica. Para piorar, em uma noite sinistra, não conseguiu dormir. Uma coceira profunda tomava-lhe o corpo e o juízo. Na manhã seguinte, ainda torpe, ao confrontar o espelho... Bufo: havia virado um sapo!

Naquele momento, sentiu-se aliviado, pois temia ser algo mais sério. Afinal, a coceira passou e o mistério estava ali resolvido. Retirou o pijama e, ainda diante do espelho, admirava-se. Pensou: “Gosto do verde...” Foi quando sentiu uma sede danada e correu para debaixo do chuveiro, onde se postou de cócoras por prolongado tempo.

Após o banho, tentou vestir-se para ir ao trabalho, mas sentindo-se sufocado colocou apenas a gravata e o chapeuzinho, saltando apressado para tomar a sua habitual condução.

Nem é preciso dizer o quanto o coitado penou. Não é fácil enfrentar as extensas filas, o empurra-empurra e a multidão que entope os transportes urbanos. Com sua estatura e aquelas patas não conseguia se segurar em canto nenhum. Apenas por um milagre não foi pisoteado no bonde pelo populacho insensível às suas debilidades.

No escritório não seria diferente. Recriminaram o seu atraso e a deselegância de seus trajes. Também se tornou alvo de chacota alheia, logo apelidado de “Pereireca”. Aliás, com os novos e grandes olhos, enxergava melhor do que antes e descobria os colegas que lhe apontavam o dedo, riam-se dele e apostavam naquela demissão.

Pereira sentiu-se humilhado, derrotado, solitário como uma freira. Como nunca, sentia na pele verruguenta um constrangimento moral próprio das coisas desnecessárias da vida.

Seu retorno para casa naquele dia foi devastador. Não havia sapo mais desanimado no mundo. Foi quando passava pela calçada a Rosie, uma moça de cabelos curtos, piercing no nariz e braços tatuadamente coloridos. Ao ver aquele sapo, parnasianamente aguado, arrastando a maletinha, seu coração ambientalista e nerd partiu-se em cacos. Soluçava o Pereira com o dedo em riste e o lábio inferior tremulento: “Meu pai não foi rei!”

Empática, Rosie o abrigou em seus braços sinceros, aduziu a face anfíbia aos seus lábios e admitiu-lhe um beijo largo e quase escatológico.

Daí, aconteceu o que acontece todos os dias quando as mulheres beijam os sapos: eles desencantam! Só que, em vez de príncipe, havia apenas o nosso Pereira.

A Rosie, que não era muito afeita a homens e se dava melhor com os bichos, ali mesmo rompeu a relação, bateu as asinhas e venceu o horizonte para sempre.

Só posso dizer que o Pereira um dia encontraria alguém que o amasse do jeitinho que ele era, homem ou sapo, e que nas noites de chuva, após tórrido instante amoroso, poderíamos ouvi-lo a coaxar, enquanto comia moscas, na beira do rio.