quinta-feira, 15 de setembro de 2022

"Vida Linda de Morrer", de Raymundo Netto para O POVO

 


A dona Morte estava triste. Tirante uns diligentes suicidas – muitos deles querem se matar, mas não querem morrer –, era mesmo a indesejada das gentes.

Há zilhanos, desde que o mundo é mundo vasto mundo, transitava ela por aqui, sempre à espera do instante solene de sua existência. Sim, existência, porque vida mesmo a Morte não tinha. Seria quase uma condição sine qua non para ela, declinar de qualquer estertor de vidas, não se apegar a nenhuma delas, ser no mundo a grande cultora de cascas vazias. Assim, pensava-se, fora ela criada e experimentada na mais suprema incompreensão, sem possibilidade sequer de curtir seus frios seguidores e sem nunca se permitir prazer nenhum. Afinal, o prazer, assim como a alegria e o amor, dizem, é condição de vida. Entretanto, no nada absoluto do mundo, mantinha ela um segredo: morrera de amores uma única vez na vida – pelo poeta Dante, que conseguiu convencê-la, numa promessa de Vita Nova, que o amor seria o prelúdio da morte, estratagema depois revelado para aproximar-se da sua amada Beatrice. Daí, sepultou de vez todas as afeições e o seu coração traído com Dante foi-se. E a foice com Dante!

É raro que as pessoas dediquem seu tempo – de vida, porque o tempo da morte é o silêncio – em aprender a morrer. Já dizia Sêneca, o moço desafeto de Messalina, “quem não souber morrer bem, terá vivido mal”.

Aliás, a dona Vida, sua irmã, ao contrário, vivia em regalos, quase uma parteira, celebrada e lembrada em festejos, desejada e aplaudida por todos em sopros de velinhas e de línguas de sogra, estampada em camisetas de feira e panos de prato. Sucesso de público e de crítica – mais desta, pois criticar a vida alheia é quase um exercício, sabido que a língua é um músculo.

A pobre dona Morte, não negava, colhia invejas da irmã. Com os pés calejados de tanto acompanhar despojos, sem qualidade de vida ou autoestima, vista com temor e desconfiança, a Morte naquele dia rebelou-se. Plantou o pé e bradou ao infinito: “Nem morta!” E nós sabemos que juramento de morte sempre foi coisa que deu certo – ou muito errado – por aqui.

O fato é que durante esse tempo o sofrimento do mundo aumentou. Ora, a imortalidade é um inferno! Foi quando ela percebeu que, mesmo contra a sua vontade, sua presença inda seria sentida por todos. Pessoas sofriam a perda de amores, de amigos, de afetos, das horas e de outros bem-quereres na distração eterna de todos os dias. Sim, ela seria o que há de mais presente e definitivo na rotina mundana. Pôs-se a sentir na carne a dor mortal dos corações feridos a suspirar diante de porta-retratos, de reflexos em espelhos, do convite para o café que não chegou, na audição daquela música da juventude, no ecoar das gargalhadas daqueles filhos, agora adultos, que não moram mais ali.

Perder é a morte em prestações. A Vida, chama breve, uma sala de estar das tintas pálidas da Morte, servindo-lhe aos poucos – às vezes, aos montes.

O que fica é a dor. E a dor que não passa nunca se chama saudade, e como sussurrou em seu ouvido o cronista, “é na morte onde ela mora”!

Foi quando a Morte despertou e se viu, em essência, tão igual a todos os mortais, no vagar aprendiz do cortejo a caminho da solidão.

 

Publicada originalmente em Quando o Amor é de Graça! (EDD, 2019), de Raymundo Netto (para adquirir o livro, WhatsApp da editora: 85 99183.8515)


quinta-feira, 1 de setembro de 2022

"Liberdade é Não Mentir!", de Raymundo Netto para O POVO

 


Parece mentira, mas não gosto de mentir.

E o quanto não gosto de mentir, gosto em igual volume de dizer “Eu não minto!”. Isso irradia em mim uma sensação de liberdade incrível, comparável até ao quinto, não digo o mesmo para o sexto, mas ao exato quinto dia útil do mês.

Minha mãe, que já herdara esse defeito da mãe dela, detestava a mentira. Para ela, a maior traição. “Quem mente engana a si mesmo!”, repetia com bravura adolescente a quem quisesse ouvir, muitos até, de berço, praticantes do exercício fraudulento da palavra, que ficavam boquiabertos – principalmente se fossem pacientes dela, que era dentista – diante daquele monumento humano de honestidade e inocência. No mínimo, pensavam: “Aí mente...” ou, os mais crédulos, “Ah, coitada...”

Decerto que mentir socialmente pode ser considerado um treino da criatividade e/ou da diplomacia, muito útil para calar aqueles instantes de incômodo silêncio nos quais não é saudável trocar palpites sobre política, futebol ou religião, restando pouco a fazer com a língua. Há quem diga, inclusive, que mentira boa é aquela mais convincente, mais verdadeira do que a duvidosa verdade – muitas vezes, por razões morais, preferem chamá-la de “alegoria” ou “retórica”. 

Ah, e por falar em língua, os bons escritores, verdadeiros canhões da lorota, não pagam por ela, mas por sua pena falaciosa. Isso, quando não transferem o seu talento para a vida prática, mais especificamente para alcova, sede do imaginário ultrarromântico, gastando uma torrente que, melhor aplicada, daria para forjar romances épicos, em vez de crises conjugais ou crimes passionais sob a luz do luar.

Alguém pode confessar, saramagueando o próprio, que seria muito violento viver se não existisse a mentira. Pessoas que, a Milli Vanilli, fingem tão completamente ser o que não são que acabam por perder a identidade e a confiança, tal qual aquele pastel mineiro sem recheio, cujo nome popular é “mentira”. E por falar em Minas Gerais, foi de lá que se iniciou no Brasil o Dia da Mentira, quando em 1º de abril de 1848 publicaram um periódico denominado, acredite: “A Mentira”.

Eu, por aqui, optei por não mentir em troca dessa tal desejada e imensurável liberdade. E quando falo em liberdade, me refiro à tentativa de poder ser nesse mundo, mesmo que apenas no (ray)mundo, o mais verdadeiro possível. Que possa pensar e me expressar como e quando quiser. Quedar-me, ao máximo, ao lado das pessoas das quais mais gosto e/ou amo. Vestir-me, ler, ouvir o que me interessa ou ir apenas a lugares que me fazem sentir bem. Poder viver o luxo de não ter nada e isso ser tudo que eu preciso para me sentir vivo, nem melhor nem pior do que sou. Ter a certeza de que não podem falar de mim, pois ninguém paga as minhas contas. Ora, se às vezes nem eu as pago!

Tudo isso, pois entendo que minha mesmo, apenas a efêmera vida, esta que se abriga nesse corpinho meia boca de cinquentinha, minha única, verdadeira e intransferível morada, quase um trailer riponga, modelo Sgt. Pepper’s.., de pneus recauchutados, mas a quem devo respeito e alguma atenção.

Sim, poderia até jurar, mas minha mãe também me dizia: “quem jura mente”. Então, fico por aqui, de verdade.

 





segunda-feira, 15 de agosto de 2022

"Sonho que não se Sonha Só", de Raymundo Netto para O POVO


Ela passa ao lado de um botequim de mercado, um daqueles cheirando à gordura, a caldo de cana e a suor farto de carregadores, agricultores, caminhoneiros. Vinha com sede, muita sede. Cria coragem, entra e pede um copo de água.

Diante de olhares lascivos ao seu colo branco de estudante, toma à mão o copo americano, limpa o bordo com a ponta dos dedos compridos e o leva à boca vermelha. Enquanto bebe, vê a imagem dele no fundo do copo. A imagem também a reconhece e a abraça com saudade plena. Juntos, de mãos dadas, saem do botequim, sem se importar com o mundo ao redor, mesmo se havia mundo, e caminham se expressando apenas por sentimentos.

Assim, atravessam a cidade. As casas e edifícios se curvam ao seu rastro, deitando telhas e segredos nas ruas e por cima de seus moradores de calçada. No meio do caminho, um portal os devora. Lá dentro, descobrem o teto marchetado em cristais coloridos e espelhados. Olhando para cima, eles se veem, se encontram e se encantam de novo. Ele, subitamente, sente sua mão reclamar uma dor. Ela se preocupa. Toma a mão dele e a coloca entre as suas, quentes e febris: “Vou tirar essa dor de você... para sempre”. Então, como se o mundo fosse de vidro e o tempo coubesse num único ponteiro, eles trocam olhares, se emprestam e se amam.

Depois, ela diz ter que ir embora, não lembra o porquê, mas se fazia hora: “Eu vou esquecer você”. Pede um táxi, que logo chega, todo envolto em néon. Ela acena um beijo para o amante. É quando percebe o rosto embaçado, como uma digital. Entra e senta na poltrona de trás, pois aquela ao lado do motorista está ocupada por uma pessoa morta, coberta por um lençol, com quem o motorista conversa.

No meio do caminho, sem lhe perguntar, o táxi toma outro destino. Ela chama pelo motorista, mas ele só tem ouvidos para o morto. Param em uma travessa e o taxista começa a gritar com ela: “Saia do meu carro! Saia, vamos, e não me procure mais!”

Apavorada, desce e escorre pela primeira porta. Ali, encontra quatro mulheres negras e mudas, cobertas de sal, expostas em uma vitrine escura. Por detrás dela, surge um homem, arranca a sua roupa, cobre de sal o seu corpo e a coloca na vitrine junto com as outras.

Dias-há, o silêncio e o incômodo de uma luz intensa e amarela sobre elas. Então, não se lembra como nem quando, quebram o vidro e todas saem correndo confusas e peladas pelas ruas desertas.

Ela chega a um hotel, sendo recebida pela gerente a falar por um idioma estranho – que mais parecia desenho – a recender no ar. A anfitriã pega-lhe pela mão e a deita em uma banheira de louça, transbordando lágrimas. Esponja seu corpo demoradamente, penteia as ondas de seus cabelos e a veste um robe de celofane revestido de estrelas. Ela, quase adormecida, fita e pergunta ao espelho: “E ele?” “Ainda está aqui em seu quarto”, reponde. Seu coração distraído exulta: “Preciso vê-lo agora!”

Sem sentir o chão em que pisa, acompanha a gerente por desvãos escuros, úmidos e cheio de escadas. Nas paredes, o papel ressoa o som de asas coloridas por borboletas. Entretanto, à porta do aposento, enquanto a mulher bate, ela prevê: “Não é ele quem está por trás dessa porta, mas a esposa dele. É ela!” Começa a chorar... e a rir... a puxar os cabelos por trás do pescoço comprido. Sente uma intensa dor nos olhos e esfrega-os. Eles descem pelo dorso de suas mãos e ela se vê completamente cega.

Tem sede, pede um copo de água. Olha para o fundo e não vê mais nada: “Ela o esqueceu? Mas se o esqueceu, por que ainda de tanta sede?”

Sai do botequim e traz a imagem do morto envolto em lençol pelo resto de seus dias.

(*) escrito a partir de uma narração de sonho que ouvi.


 

terça-feira, 2 de agosto de 2022

"Enlutada", de Raymundo Netto para O POVO


Safira seguia a passo vago ao lado do caixão do marido. Olhava Edmundo de cima a baixo, de baixo para cima, como se a qualquer momento fosse de sua providência acertar o véu, recompor um detalhe, apertar os cadarços, ajeitar-lhe as mãos pesadas no peito mudo. Como se ele, dali a pouco, pudesse lhe pedir qualquer coisa, qualquer uma. Ela o faria, certamente, o faria como sempre.

No mesmo passo, desviava a atenção dos olhos úmidos para as paredes nuas, às imagens de um Cristo triste e rendido a esvair-se em sangue, enquanto a mocinha da funerária, que interrompia o silêncio com irritantes saltos ligeiros, trazia os copos descartáveis e o café para as visitas:

"Não tem ninguém, senhora?"

"Ninguém, por quê?"

O casal se bastava em si, nem filhos, orgulhavam-se, lembrou. Foram morar longe: "Família só serve para dar pitaco!" O amor lhes era tudo. Era o teto, o chão e o cobertor do casal. O que poderia faltar diante do amor de duas almas tão sinceras?

Durante algumas horas, apenas uns poucos, menos de dez, colegas do trabalho, passariam por ali. Alguns deles, cerrados em óculos escuríssimos, mal emitiriam palavras, apenas grunhiam. Poderia ser qualquer coisa, de "lamento" a "demorou”. Perguntariam: "Como foi que aconteceu? Tão jovem...":

"Não sei. Ele estava tão bem, feliz, e de repente... Foi-se." Não demorariam. Teriam outros compromissos, qualquer um, senão ficariam, mas ligasse — se tivesse deles sequer algum número. Entretanto, trariam a mais bela e única coroa de flores. Nela, uma cor clichê: "Saudades".

Ficaria por horas novamente só, imutável, sentada numa incômoda poltrona de viúva a rememorar o sorriso elevado que ora jazia ali, sepultado em algum lugar daquele cadáver, objeto repulsivo a caminho dos vermes que conduzem à desintegração terrena.

Por vezes, tomava coragem, levantava-se e parava diante do corpo do marido. Espalmava a mão na testa lânguida e uma ânsia lhe tomava o corpo em arrepios lancinantes. Como seria possível amá-lo assim? Como poderia guardar na lembrança aquele homem? "Morto!" Punha-se em soluços de agonia. O peito arfava em espasmos sucessivos e ela tremia, esfregando as mãos na saia: "Que nojo! Nojo! Nojo!"

Mais tarde da noite apareceu da penumbra outra mulher. Chegou ao portal do salão e estacou. Vestia o negro na corrente de profundo abatimento. Olharam-se. Não se conheciam decerto, mas era como se se soubessem. Aproximou-se, margeou o esquife, como chegasse aos pés de um precipício, e deitou a mão levemente na perna esquerda do falecido. Com breve, seu olhar transmudou de grave a enlouquecido, desesperado. Deitava lágrimas convulsas, num choro pesaroso e inconsolável de encontrar eco nas demais cabinas mortuárias. Mais um pouco, até seria possível invejar Edmundo na sua condição de morto.

Safira assistia passiva, comovida e atônita. Por um momento, não se sentia mais só. Na verdade, não sentia nem o próprio corpo, nem a mesma dor.

Aproximou-se da outra, tocou-lhe os dedos e pronunciou-lhe um beijo na testa. Voltou à poltrona, tomou a bolsa e, num suspiro profundo e sem olhar para trás, se foi, enquanto a enlutada subia, ainda trêmula, no caixão de Edmundo, aninhando a face saudosa sobre o seu peito e, como uma jura imortal, morreu com ele.

 




 

segunda-feira, 18 de julho de 2022

"Pelada, Não!", de Raymundo Netto para O POVO


Não aceitava a mulher andar pelada em casa: “Mas de jeito nenhum! Uma indecência!”

Peixoto, diante da súbita e vezeira visão em pelo de Simone, não perdoava e desfolhava um sermão quase litúrgico, enquanto a pobrezinha se punha em trajes, absolutamente envergonhada com a nudez de seu próprio corpo, tão ingênua quanto a “Origem do Mundo” de Courbet: “A mulher tem que guardar o mistério. Sem mistério perde a graça. Mistério é tudo!”

Não tendo outro jeito, ela era obrigada a ouvi-lo, mas não entendia aquele recato exacerbado do marido.

No escritório ou no bar preferido, sem quê nem para quê, Peixoto batia no peito a certeza de defensor de bons costumes. Os colegas também estranhavam a conhecida ladainha de Peixoto: “Lá em casa, mulher minha não se dá a essas imoralidades... Sissi é uma santa! Jamais de andar com essas roupixas mostrando as protuberâncias para o mundo que nem essas mulherzinhas modernas, não. É decente. Por ela, boto a mão no fogo.”

Encabulada, a audiência tentava mudar de assunto, afinal, todos conheciam Simone, uma mulher jovem, linda de morrer, possuidora de um corpo magistral. Aliás, o que ninguém sabia era como uma garota daquelas caíra nas mãos daquele turrão. 

Simone tinha o olhar de uma doçura comovente, angelical, combinando com os cabelos negros e lisos a escorrer até a cintura delicada. Um encanto. Assim, naquele dia, enquanto o homem discorria sobre a nudez proibida da mulher, mal sabia ele que a plateia, completamente muda, abusava da imaginação:

“Tem que haver mistério. O mistério é o segredo do casamento!”, bradava.

Certa feita, não suportando mais o “discurso do mistério”, Simone comprou e passou a vestir uma burca, deixando à mostra apenas os olhos.

Peixoto estranhou, achou até gozado, um exagero, é claro, mas se fosse para afrontá-lo, deixasse estar.

Passou-se um mês, dois, três, e a esposa permanecia reticente. Não tirava aquela burca para nada. O marido começou a ficar cismado. Dizia que não precisava disso, porém ela fingia não ouvir e continuava com a burca em casa e até na rua.

A vizinhança toda sabia da história e havia quem se pendurasse no peitoril da janela de sua casa para ver se era verdade aquilo. Ali, na sala, a mulher parecia um fantasma a assombrar o juízo do obcecado moralista.

Peixoto, às noites, aproximava-se com uma conversa mole qualquer e até suplicava: “Sissi, meu anjo, deixa eu ver a sua boca, vai... Só a boquinha, por favor, eu juro...” Simone olhava para ele, profundamente magoada: “Mistério não é tudo?”

No dia seguinte, a coisa complicou: ela decidiu trancar-se definitivamente no quarto. O marido agora não a via mais de jeito nenhum. Também não ia mais ao seu comércio. Julgava ter a mulher enlouquecido. Sentava-se o dia inteiro ao pé da porta, chorando feito menino, implorando para que mudasse de ideia, que colocasse um dedinho por baixo da porta, qualquer coisa, estava sofrendo o diacho sem ela. Foi quando a mulher falou, após alguns dias: “Se você quiser mesmo me ver, entre, mas eu não vou abrir.”

Peixoto, assim esperançado, surtou. Passou a esmurrar a porta, chutá-la, jogava-se violento contra ela, deu marretadas na fechadura e nada de a porta abrir. Mas, após horas e horas de insistentes e malogradas tentativas, enlouquecido de paixão e desejo acumulados, conseguiu, finalmente, entrar. Como? Atravessou o buraco da fechadura!

Mistério...




 

domingo, 3 de julho de 2022

"O Meu Aniversário de Meu Pai (29 de junho)", de Raymundo Netto


Meu pai (José Pedro), eu e minha mãe (Zenaide)
 

Hoje é aniversário de meu pai.

Faríamos uma festa junina, almoço, alguma brincadeira qualquer, como sempre foi, não fosse pelo fato de hoje ele não estar mais aqui. Digo que ele não está aqui, mas é pura ilusão, uma convenção besta e materialista. Ele está aqui, sim, sempre está, sinto isso em mim, em meus irmãos, nos amigos ou mesmo em velhos conhecidos que me encontram casualmente em qualquer lugar e fazem questão de falar dele, de como ele foi importante na vida deles, de quanto a saudade aperta o peito quando falam de seu nome. Daí, após expressarem em lágrimas uma dor que não consigo medir, nem ouso compartilhar, eles contam piadas ou casos engraçados de um homem sempre animado, sensível, positivo, esperançoso, do diálogo, absolutamente generoso e... pai! Não apenas de seus filhos biológicos, mas de toda uma ruma de gente que precisava de um e o encontrou no senhor José Pedro, o Deca.

Ele era militar. Decidiu ainda novo seguir carreira, certamente influenciado pelo pai, o mestre carpinteiro Raymundo – de quem herdei o nome –, funcionário do extinto Ministério da Guerra.

Quando aquele rapazinho magérrimo se apresentou para servir, a primeira coisa que fizeram foi jogar em suas costas dezenas de sacos arroz (60k cada) para carregar um trem. Diziam: “se quer ser soldado, tem que estar pronto para tudo”. Depois, estando em uma revista do pelotão, tendo apenas o 1º grau, descobriram ter ele o curso de datilografia, coisa de valor naquele passado. Ah, sua vida melhoraria...

Sempre se orgulhou de seu Exército Brasileiro, porque era um ótimo profissional, como outros, espero, ainda existam. Ganhava pouco, não tinha direito à greve, não recebia 13º salário nem hora extra – mesmo quando passava as noites em serviço ou quando, de última hora e sem direito a recusar, tinha que ficar no quartel até o dia seguinte pela falta de um colega. Contudo, sem exagero, nunca o ouvi reclamar de nada!

Não tinha muito estudo – só concluiria o 2º grau depois dos quarenta anos –, mas era “doutor em vida”. Determinado e objetivo, resolvia, com sorriso e leveza, os problemas mais diversos e “impossíveis” dos seis filhos, da esposa, familiares, amigos e até de desconhecidos – nossa casa era “pensão” para mulheres que saíam de casa por conflito com esposo, filhos que se desentendiam com os pais, suicidas e domésticas expulsas das casas por estarem grávidas (ele estava sempre levando uma para o parto), entre outros.

Amava a farda, a vida, a sua família e os passarinhos. Era louco por passarinhos. Acordava de madrugada para limpar as gaiolas e guarnecê-las de alimento e água. Enquanto isso, cantarolava nos despertando em sua paz: “Você, mulher, que já viveu, que já sofreu, não minta./Um triste adeus, nos olhos seus, a gente vê, mulher de 30...” Sofria terrivelmente quando algum deles adoecia. Pudesse, não saía de perto.

Pelo ofício, tinha porte de arma e uma em casa. Mesmo assim, quando sentia que havia alguém andando no telhado, na intenção de roubar, é claro, ele pegava em seu armário um saquinho de papel com bombas “rasga-lata”, jogava no jardim e gritava, assistindo com os filhos às gargalhadas, os meliantes pulando lá de cima e tomando carreira.

Hoje é o aniversário de meu pai. E é o meu também.

Minha mãe dizia: você foi o melhor presente que ele recebeu. Não, mãe, o privilégio desse presente é meu. Como seu legado, continuo tentando por aqui ser um pouco do muito que me ensinou, fazendo valer a sua generosa e feliz passagem neste mundo. Espero que isso baste.

Feliz aniversário, meu amado pai.



O sargento Costa, meu pai.


segunda-feira, 20 de junho de 2022

"O Faroleiro", de Raymundo Netto, na íntegra, para o jornal O POVO


I

Estava hospedado em um pequeno hotel à beira-mar de uma cidade africana.

Sozinho, sem conhecer ninguém nem o lugar, havia acabado de tomar o meu café da manhã, quando decidi fazer uma breve caminhada de reconhecimento nos arredores. Ainda no hall envidraçado do hotel, algo incomum me chamou atenção. Havia, não muito distante dali, envolta a uma densa névoa, uma espécie de torre escura em alvenaria erigida em um alto rochoso conhecido – me disseram – como Ponta Tenebrosa, por ser remotamente um “cemitério de navios”.

Curioso, segui por uma vereda de areia e cascalhos, e chegando mais próximo da construção, confirmei tratar-se mesmo de um antigo farol a precipitar-se na ponta da tal rocha, como se a qualquer momento pudesse lançar-se contra aquelas ondas extremamente verdes e brilhantes com o mesmo vigor com que elas banhavam o seu torreão octogonal.



Em torno dele, havia uma estrutura de um fortim. Como o largo portão azul da fachada estava aberto, entrei. Nas laterais da entrada havia depósitos ou armazéns, que deveriam guardar provisões, gerador ou materiais de manutenção dos seus mecanismos. O seu terrapleno de pedras era cercado por uma mureta pequena e, em um de seus lados, havia dois envelhecidos canhões de bronze.



Mesmo sendo um dia ensolarado, ao olhar para cima, ainda via aquela grossa névoa a tomar toda a parte superior da torre.

Chegando próximo à mureta, senti a força dos ventos naquele local rodeado por imensas rochas negras, salpicada de mexilhões, de cujas frestas saltavam alvas espumas do mar e um som cortante, como de intermináveis gemidos.

Na base da torre, uma pequena porta encimada por uma saudação à rainha de um tempo distante se abria, e dela saía um homem idoso, negro, magro, que se dirigiu a mim com um extenso sorriso de boas-vindas, apresentando-se: Zacarias. Era ele o faroleiro. Não apenas o faroleiro, disse-me, mas provavelmente o último faroleiro de toda a África.



Perguntou-me se queria entrar, conhecer de perto aquele farol. Não me preocupasse, não seria incômodo nenhum, asseverou, movimentando as mãos ligeiras e trêmulas.

Entrei. Logo ali, uma saleta escura e bastante úmida, impregnada da maresia, o seu local de trabalho. Havia uma cadeira, alguns bancos, uma fileira de latões, um rádio e uma escrivaninha de madeira com grandes gavetas. Por cima da escrivaninha, desenhos, pincéis, pinças, tesoura, martelinho, borracha, flanelas, algodão, dezenas de relógios, de todos os tipos e modelos, assim como nas paredes, relógios de capela e carrilhões.



Percebendo meu estranhamento, Zacarias sorriu: “Sou relojoeiro. Um hobby apenas. As pessoas acreditam que não se tem muito o que fazer em um farol. Parece não ter mesmo. Muitas vezes, somos úteis, o farol e o seu faroleiro, em uma única vez na vida. Mas esta única vez pode salvar muitas vidas. Nos consolamos com isso e ficamos atentos para a chegada deste momento... o nosso!”

Aproveitando o ensejo e imaginando encontrar ali um bom motivo para voltar, perguntei se ele não poderia dar uma olhada em meu relógio. Eu pagaria, é claro. Tirei o relógio e o entreguei. Ele aceitou, desconfiado, me pareceu. Colocou-o à mesa: “É muito novo. Uma limpeza talvez... Trabalho com relógios de família, mais antigos, como pode ver.”

Nesse momento, percebi que me flagrou olhando, ao fundo soturno da saleta, a antiga escada em espiral que nascia ali e que deveria findar no alto da torre: “Você quer subir lá? Tem certeza disso?” E riu, com certo deboche, pensei, tentando me fazer hesitar, mas respondi: “Sim, eu quero muito!”

 

II

Pois bem-vindo ao meu purgatório.”

Apesar do tom jocoso, não sei por que, diante daquelas palavras, senti um estranho arrepio percorrer o meu corpo. Nunca havia estado em um farol antes, coisa que só via em livros ou filmes antigos. Com ele, um imaginário de lendas e narrativas repletas de criaturas fantásticas e sobrenaturais, monstros marinhos, polvos gigantes, nereidas, sereias, tritões, piratas, deuses e demônios. O ar impregnado de miasmas, as artérias verdes que sulcavam as paredes a afunilar à medida que, em direção ao topo, galgávamos mais degraus da íngreme e estreita escada em espiral, me faziam entontecer, sufocar e quase alucinar.

Zacarias ia à frente, ágil como quem percorrera aquele trilhar por uma vida inteira. Percebia que falava o tempo todo, creio, movido pela costumeira solidão, mas eu não conseguia compreender nada do que dizia. Além do som da agitação e do choque brusco do mar que ecoava ali, e do meu inesperado mal-estar, me dispersava com o implicante rangido dos degraus aos meus pés – que me pareciam mais pesados do que o normal –, o fluente suor a gelar o meu rosto, a visão de aranhas a mordiscar moscas, como que mumificadas, em extensas teias a tomar as paredes úmidas e escuras da construção, além do uivar do vento a zumbir nos meus ouvidos.



Parei em uma pequena janela, a primeira que encontrei, próxima ao contrapeso que pendia no centro da torre, e lancei meu rosto para fora em busca de ar puro.

Àquela altura, o horizonte baço, como berço, acolhia o firmamento. Alguns albatrozes ou fragatas ligeiras, não tenho certeza, transpunham o céu azul-acinzentado. Logo abaixo e distante, um barco pequeno oscilava, com dois homens, provavelmente pescadores. Eles acenavam, colocando a palma da mão sobre a testa para avistar o farol. Deveriam passar por ali muitas vezes, acredito, mas mesmo assim achavam dever alguma reverência àquele impávido gigante.



Zacarias já havia chegado à plataforma e apressava-me. Estava no alto da escada. Exceto a brancura de seus olhos e dentes a se destacar na escuridão, mal conseguia enxergá-lo. E assim, subi os últimos degraus para a claridade.

Era impressionante a vista que tínhamos da plataforma. Tanto do mar, quanto da cidade. Talvez por esse motivo, o convívio diário e zeloso com aquela silenciosa e solitária vastidão, muitos faroleiros se tornavam pessoas excêntricas, ensimesmadas. Apoiei-me no guarda-corpo que circulava a plataforma. Devido à maresia, estava bastante carcomido. Zacarias alertou-me: “Não confie...”

Enquanto ele fazia sua rotineira faxina e a manutenção das lentes do farol, eu contemplava o panorama, esforçando-me para ficar em pé, resistindo à força dos ventos dali.



O faroleiro aproximou-se, trazendo nas mãos uma flanela velha: “Você consegue ouvir a voz?” Não entendi, e ele me disse: “A voz do mar. Com o tempo, a gente aprende a ouvi-la. Ela ensina, nos conta histórias e nos alerta. O oceano é a maior testemunha da eternidade.”

Enquanto limpava um a um dos dedos de suas mãos, perdia o olhar no espaço distante, quando, do nada, sentenciou: “O mundo, meu amigo, vai acabar aqui.”

Seu olhar se transfigurou, de doce a sombrio. Tive a impressão de um aviso, um mau presságio, sei lá. Uma angústia profunda me tomou por inteiro. Gaguejando, disse-lhe que tinha que ir-me logo, havia esquecido um compromisso. Ele riu: “É mesmo como o oceano... quem vê o vaivém suave de suas ondas na superfície, não imagina a vida que se passa nas suas profundezas.” Nem esperei a sua conclusão e, aflito, desci ligeiro, correndo perigosamente pela escada, tomado por uma insólita sensação de perigo e possessão, sem olhar para trás e alheio ao som da voz cada vez mais distante do velho Zacarias.




III

Naquela noite de perturbado sono, despertei subitamente ao som de carrilhões e sinos ecoando na cabeça. Com eles, a imagem distorcida de dezenas de relógios amontoados nas paredes salsuginosas do farol. Cambaleando e quase involuntariamente corri à janela. Chovia muito. Tentei avistar o farol e não consegui: “Estaria desligado?”

Desci as escadas desertas do hotel e, movido por uma estranha e incômoda curiosidade, ou talvez por uma outra força sobre-humana que não saberia explicar, enfrentei a tempestade fria e relampejosa, envolta a sons guturais de ventos e trovoadas, seguindo por um caminho da lama a descer em corrente do alto da Ponta Tenebrosa.

No meio da trilha escura, uma surpresa: pude ver, por meio da fosforescência das águas revoltas do mar, um navio se dirigir à costa. O farol estava mesmo apagado, como se imerso na sua própria melancolia, e previ ali uma tragédia.

Corri o mais rápido que pude na esperança de alertar o faroleiro. Porém, lá chegando, bati à porta diversas vezes. Chamei por Zacarias, desesperadamente, e ele não me atendia. Não, ele não poderia estar ali. O que teria acontecido? Chutei a velha porta. O cadeado se manteve firme, mas ela se arrebentou e eu entrei.

Diferente da última vez em que lá estive, subi mais do que depressa os degraus da escada da torre e alcancei a plataforma. A torre inteira parecia tremer diante do lamber agressivo das ondas. O navio, dali, parecia ainda maior, assim como o perigo que o conduzia. Mesmo com a visão dificultada, percebi ser um navio antigo, tais quais os contratorpedeiros japoneses da Primeira Guerra Mundial. No convés não havia ninguém, assim como não havia sinal de iluminação ou de vida em parte alguma na superfície da embarcação, que mantinha o curso em rumo de colisão com os recifes e as rochas.

Mesmo sem nunca ter operado um farol, na tentativa de atrasar o tempo, desci novamente e ousei acionar os botões, interruptores e pequenas alavancas do painel até conseguir emitir os aguardados lampejos brancos e vermelhos do aparelho, além dos sinais sonoros. Milagrosamente, consegui!

Voltei à plataforma e de lá busquei atento por qualquer movimento do navio que me confirmasse terem percebido o sinal luminoso. De repente, o mar, diante dele, começou a se abrir. A embarcação pôs-se a descer, como se em rampa, em direção ao fundo, sendo aos poucos tomada e coberta pelas ondas até desaparecer por inteiro. Foi quando a chuva e os ventos cessaram. As nuvens dissiparam no céu e uma enorme lua surgia totalmente indiferente a tudo aquilo que eu assistira. Seria apenas um delírio? Uma ilusão? Aquilo realmente acontecera?

Decidi voltar ao hotel. Contudo, passando pela saleta de Zacarias, dei pela parede e seu amontoado funesto de relógios que me assombraram à noite e me trouxeram ali. Para o meu espanto, entre eles, em um prego velho, pendia o meu relógio, estranhamente parado no horário em que lá estive pela primeira vez. Fixado a ele, um bilhete com letras garranchudas: “O mundo acaba aqui.”

Senti minhas pernas falharem e ajoelhei-me. Uma voz, como a que ouvimos em conchas, tomou-me os ouvidos. Tive a certeza de que eu não poderia mais sair dali. O farol, conforme a voz, havia me escolhido. Não era Zacarias, mas seria eu, o último faroleiro da África.



Fotos: Raymundo Netto (2011)