segunda-feira, 18 de julho de 2022

"Pelada, Não!", de Raymundo Netto para O POVO


Não aceitava a mulher andar pelada em casa: “Mas de jeito nenhum! Uma indecência!”

Peixoto, diante da súbita e vezeira visão em pelo de Simone, não perdoava e desfolhava um sermão quase litúrgico, enquanto a pobrezinha se punha em trajes, absolutamente envergonhada com a nudez de seu próprio corpo, tão ingênua quanto a “Origem do Mundo” de Courbet: “A mulher tem que guardar o mistério. Sem mistério perde a graça. Mistério é tudo!”

Não tendo outro jeito, ela era obrigada a ouvi-lo, mas não entendia aquele recato exacerbado do marido.

No escritório ou no bar preferido, sem quê nem para quê, Peixoto batia no peito a certeza de defensor de bons costumes. Os colegas também estranhavam a conhecida ladainha de Peixoto: “Lá em casa, mulher minha não se dá a essas imoralidades... Sissi é uma santa! Jamais de andar com essas roupixas mostrando as protuberâncias para o mundo que nem essas mulherzinhas modernas, não. É decente. Por ela, boto a mão no fogo.”

Encabulada, a audiência tentava mudar de assunto, afinal, todos conheciam Simone, uma mulher jovem, linda de morrer, possuidora de um corpo magistral. Aliás, o que ninguém sabia era como uma garota daquelas caíra nas mãos daquele turrão. 

Simone tinha o olhar de uma doçura comovente, angelical, combinando com os cabelos negros e lisos a escorrer até a cintura delicada. Um encanto. Assim, naquele dia, enquanto o homem discorria sobre a nudez proibida da mulher, mal sabia ele que a plateia, completamente muda, abusava da imaginação:

“Tem que haver mistério. O mistério é o segredo do casamento!”, bradava.

Certa feita, não suportando mais o “discurso do mistério”, Simone comprou e passou a vestir uma burca, deixando à mostra apenas os olhos.

Peixoto estranhou, achou até gozado, um exagero, é claro, mas se fosse para afrontá-lo, deixasse estar.

Passou-se um mês, dois, três, e a esposa permanecia reticente. Não tirava aquela burca para nada. O marido começou a ficar cismado. Dizia que não precisava disso, porém ela fingia não ouvir e continuava com a burca em casa e até na rua.

A vizinhança toda sabia da história e havia quem se pendurasse no peitoril da janela de sua casa para ver se era verdade aquilo. Ali, na sala, a mulher parecia um fantasma a assombrar o juízo do obcecado moralista.

Peixoto, às noites, aproximava-se com uma conversa mole qualquer e até suplicava: “Sissi, meu anjo, deixa eu ver a sua boca, vai... Só a boquinha, por favor, eu juro...” Simone olhava para ele, profundamente magoada: “Mistério não é tudo?”

No dia seguinte, a coisa complicou: ela decidiu trancar-se definitivamente no quarto. O marido agora não a via mais de jeito nenhum. Também não ia mais ao seu comércio. Julgava ter a mulher enlouquecido. Sentava-se o dia inteiro ao pé da porta, chorando feito menino, implorando para que mudasse de ideia, que colocasse um dedinho por baixo da porta, qualquer coisa, estava sofrendo o diacho sem ela. Foi quando a mulher falou, após alguns dias: “Se você quiser mesmo me ver, entre, mas eu não vou abrir.”

Peixoto, assim esperançado, surtou. Passou a esmurrar a porta, chutá-la, jogava-se violento contra ela, deu marretadas na fechadura e nada de a porta abrir. Mas, após horas e horas de insistentes e malogradas tentativas, enlouquecido de paixão e desejo acumulados, conseguiu, finalmente, entrar. Como? Atravessou o buraco da fechadura!

Mistério...




 

domingo, 3 de julho de 2022

"O Meu Aniversário de Meu Pai (29 de junho)", de Raymundo Netto


Meu pai (José Pedro), eu e minha mãe (Zenaide)
 

Hoje é aniversário de meu pai.

Faríamos uma festa junina, almoço, alguma brincadeira qualquer, como sempre foi, não fosse pelo fato de hoje ele não estar mais aqui. Digo que ele não está aqui, mas é pura ilusão, uma convenção besta e materialista. Ele está aqui, sim, sempre está, sinto isso em mim, em meus irmãos, nos amigos ou mesmo em velhos conhecidos que me encontram casualmente em qualquer lugar e fazem questão de falar dele, de como ele foi importante na vida deles, de quanto a saudade aperta o peito quando falam de seu nome. Daí, após expressarem em lágrimas uma dor que não consigo medir, nem ouso compartilhar, eles contam piadas ou casos engraçados de um homem sempre animado, sensível, positivo, esperançoso, do diálogo, absolutamente generoso e... pai! Não apenas de seus filhos biológicos, mas de toda uma ruma de gente que precisava de um e o encontrou no senhor José Pedro, o Deca.

Ele era militar. Decidiu ainda novo seguir carreira, certamente influenciado pelo pai, o mestre carpinteiro Raymundo – de quem herdei o nome –, funcionário do extinto Ministério da Guerra.

Quando aquele rapazinho magérrimo se apresentou para servir, a primeira coisa que fizeram foi jogar em suas costas dezenas de sacos arroz (60k cada) para carregar um trem. Diziam: “se quer ser soldado, tem que estar pronto para tudo”. Depois, estando em uma revista do pelotão, tendo apenas o 1º grau, descobriram ter ele o curso de datilografia, coisa de valor naquele passado. Ah, sua vida melhoraria...

Sempre se orgulhou de seu Exército Brasileiro, porque era um ótimo profissional, como outros, espero, ainda existam. Ganhava pouco, não tinha direito à greve, não recebia 13º salário nem hora extra – mesmo quando passava as noites em serviço ou quando, de última hora e sem direito a recusar, tinha que ficar no quartel até o dia seguinte pela falta de um colega. Contudo, sem exagero, nunca o ouvi reclamar de nada!

Não tinha muito estudo – só concluiria o 2º grau depois dos quarenta anos –, mas era “doutor em vida”. Determinado e objetivo, resolvia, com sorriso e leveza, os problemas mais diversos e “impossíveis” dos seis filhos, da esposa, familiares, amigos e até de desconhecidos – nossa casa era “pensão” para mulheres que saíam de casa por conflito com esposo, filhos que se desentendiam com os pais, suicidas e domésticas expulsas das casas por estarem grávidas (ele estava sempre levando uma para o parto), entre outros.

Amava a farda, a vida, a sua família e os passarinhos. Era louco por passarinhos. Acordava de madrugada para limpar as gaiolas e guarnecê-las de alimento e água. Enquanto isso, cantarolava nos despertando em sua paz: “Você, mulher, que já viveu, que já sofreu, não minta./Um triste adeus, nos olhos seus, a gente vê, mulher de 30...” Sofria terrivelmente quando algum deles adoecia. Pudesse, não saía de perto.

Pelo ofício, tinha porte de arma e uma em casa. Mesmo assim, quando sentia que havia alguém andando no telhado, na intenção de roubar, é claro, ele pegava em seu armário um saquinho de papel com bombas “rasga-lata”, jogava no jardim e gritava, assistindo com os filhos às gargalhadas, os meliantes pulando lá de cima e tomando carreira.

Hoje é o aniversário de meu pai. E é o meu também.

Minha mãe dizia: você foi o melhor presente que ele recebeu. Não, mãe, o privilégio desse presente é meu. Como seu legado, continuo tentando por aqui ser um pouco do muito que me ensinou, fazendo valer a sua generosa e feliz passagem neste mundo. Espero que isso baste.

Feliz aniversário, meu amado pai.



O sargento Costa, meu pai.


segunda-feira, 20 de junho de 2022

"O Faroleiro", de Raymundo Netto, na íntegra, para o jornal O POVO


I

Estava hospedado em um pequeno hotel à beira-mar de uma cidade africana.

Sozinho, sem conhecer ninguém nem o lugar, havia acabado de tomar o meu café da manhã, quando decidi fazer uma breve caminhada de reconhecimento nos arredores. Ainda no hall envidraçado do hotel, algo incomum me chamou atenção. Havia, não muito distante dali, envolta a uma densa névoa, uma espécie de torre escura em alvenaria erigida em um alto rochoso conhecido – me disseram – como Ponta Tenebrosa, por ser remotamente um “cemitério de navios”.

Curioso, segui por uma vereda de areia e cascalhos, e chegando mais próximo da construção, confirmei tratar-se mesmo de um antigo farol a precipitar-se na ponta da tal rocha, como se a qualquer momento pudesse lançar-se contra aquelas ondas extremamente verdes e brilhantes com o mesmo vigor com que elas banhavam o seu torreão octogonal.



Em torno dele, havia uma estrutura de um fortim. Como o largo portão azul da fachada estava aberto, entrei. Nas laterais da entrada havia depósitos ou armazéns, que deveriam guardar provisões, gerador ou materiais de manutenção dos seus mecanismos. O seu terrapleno de pedras era cercado por uma mureta pequena e, em um de seus lados, havia dois envelhecidos canhões de bronze.



Mesmo sendo um dia ensolarado, ao olhar para cima, ainda via aquela grossa névoa a tomar toda a parte superior da torre.

Chegando próximo à mureta, senti a força dos ventos naquele local rodeado por imensas rochas negras, salpicada de mexilhões, de cujas frestas saltavam alvas espumas do mar e um som cortante, como de intermináveis gemidos.

Na base da torre, uma pequena porta encimada por uma saudação à rainha de um tempo distante se abria, e dela saía um homem idoso, negro, magro, que se dirigiu a mim com um extenso sorriso de boas-vindas, apresentando-se: Zacarias. Era ele o faroleiro. Não apenas o faroleiro, disse-me, mas provavelmente o último faroleiro de toda a África.



Perguntou-me se queria entrar, conhecer de perto aquele farol. Não me preocupasse, não seria incômodo nenhum, asseverou, movimentando as mãos ligeiras e trêmulas.

Entrei. Logo ali, uma saleta escura e bastante úmida, impregnada da maresia, o seu local de trabalho. Havia uma cadeira, alguns bancos, uma fileira de latões, um rádio e uma escrivaninha de madeira com grandes gavetas. Por cima da escrivaninha, desenhos, pincéis, pinças, tesoura, martelinho, borracha, flanelas, algodão, dezenas de relógios, de todos os tipos e modelos, assim como nas paredes, relógios de capela e carrilhões.



Percebendo meu estranhamento, Zacarias sorriu: “Sou relojoeiro. Um hobby apenas. As pessoas acreditam que não se tem muito o que fazer em um farol. Parece não ter mesmo. Muitas vezes, somos úteis, o farol e o seu faroleiro, em uma única vez na vida. Mas esta única vez pode salvar muitas vidas. Nos consolamos com isso e ficamos atentos para a chegada deste momento... o nosso!”

Aproveitando o ensejo e imaginando encontrar ali um bom motivo para voltar, perguntei se ele não poderia dar uma olhada em meu relógio. Eu pagaria, é claro. Tirei o relógio e o entreguei. Ele aceitou, desconfiado, me pareceu. Colocou-o à mesa: “É muito novo. Uma limpeza talvez... Trabalho com relógios de família, mais antigos, como pode ver.”

Nesse momento, percebi que me flagrou olhando, ao fundo soturno da saleta, a antiga escada em espiral que nascia ali e que deveria findar no alto da torre: “Você quer subir lá? Tem certeza disso?” E riu, com certo deboche, pensei, tentando me fazer hesitar, mas respondi: “Sim, eu quero muito!”

 

II

Pois bem-vindo ao meu purgatório.”

Apesar do tom jocoso, não sei por que, diante daquelas palavras, senti um estranho arrepio percorrer o meu corpo. Nunca havia estado em um farol antes, coisa que só via em livros ou filmes antigos. Com ele, um imaginário de lendas e narrativas repletas de criaturas fantásticas e sobrenaturais, monstros marinhos, polvos gigantes, nereidas, sereias, tritões, piratas, deuses e demônios. O ar impregnado de miasmas, as artérias verdes que sulcavam as paredes a afunilar à medida que, em direção ao topo, galgávamos mais degraus da íngreme e estreita escada em espiral, me faziam entontecer, sufocar e quase alucinar.

Zacarias ia à frente, ágil como quem percorrera aquele trilhar por uma vida inteira. Percebia que falava o tempo todo, creio, movido pela costumeira solidão, mas eu não conseguia compreender nada do que dizia. Além do som da agitação e do choque brusco do mar que ecoava ali, e do meu inesperado mal-estar, me dispersava com o implicante rangido dos degraus aos meus pés – que me pareciam mais pesados do que o normal –, o fluente suor a gelar o meu rosto, a visão de aranhas a mordiscar moscas, como que mumificadas, em extensas teias a tomar as paredes úmidas e escuras da construção, além do uivar do vento a zumbir nos meus ouvidos.



Parei em uma pequena janela, a primeira que encontrei, próxima ao contrapeso que pendia no centro da torre, e lancei meu rosto para fora em busca de ar puro.

Àquela altura, o horizonte baço, como berço, acolhia o firmamento. Alguns albatrozes ou fragatas ligeiras, não tenho certeza, transpunham o céu azul-acinzentado. Logo abaixo e distante, um barco pequeno oscilava, com dois homens, provavelmente pescadores. Eles acenavam, colocando a palma da mão sobre a testa para avistar o farol. Deveriam passar por ali muitas vezes, acredito, mas mesmo assim achavam dever alguma reverência àquele impávido gigante.



Zacarias já havia chegado à plataforma e apressava-me. Estava no alto da escada. Exceto a brancura de seus olhos e dentes a se destacar na escuridão, mal conseguia enxergá-lo. E assim, subi os últimos degraus para a claridade.

Era impressionante a vista que tínhamos da plataforma. Tanto do mar, quanto da cidade. Talvez por esse motivo, o convívio diário e zeloso com aquela silenciosa e solitária vastidão, muitos faroleiros se tornavam pessoas excêntricas, ensimesmadas. Apoiei-me no guarda-corpo que circulava a plataforma. Devido à maresia, estava bastante carcomido. Zacarias alertou-me: “Não confie...”

Enquanto ele fazia sua rotineira faxina e a manutenção das lentes do farol, eu contemplava o panorama, esforçando-me para ficar em pé, resistindo à força dos ventos dali.



O faroleiro aproximou-se, trazendo nas mãos uma flanela velha: “Você consegue ouvir a voz?” Não entendi, e ele me disse: “A voz do mar. Com o tempo, a gente aprende a ouvi-la. Ela ensina, nos conta histórias e nos alerta. O oceano é a maior testemunha da eternidade.”

Enquanto limpava um a um dos dedos de suas mãos, perdia o olhar no espaço distante, quando, do nada, sentenciou: “O mundo, meu amigo, vai acabar aqui.”

Seu olhar se transfigurou, de doce a sombrio. Tive a impressão de um aviso, um mau presságio, sei lá. Uma angústia profunda me tomou por inteiro. Gaguejando, disse-lhe que tinha que ir-me logo, havia esquecido um compromisso. Ele riu: “É mesmo como o oceano... quem vê o vaivém suave de suas ondas na superfície, não imagina a vida que se passa nas suas profundezas.” Nem esperei a sua conclusão e, aflito, desci ligeiro, correndo perigosamente pela escada, tomado por uma insólita sensação de perigo e possessão, sem olhar para trás e alheio ao som da voz cada vez mais distante do velho Zacarias.




III

Naquela noite de perturbado sono, despertei subitamente ao som de carrilhões e sinos ecoando na cabeça. Com eles, a imagem distorcida de dezenas de relógios amontoados nas paredes salsuginosas do farol. Cambaleando e quase involuntariamente corri à janela. Chovia muito. Tentei avistar o farol e não consegui: “Estaria desligado?”

Desci as escadas desertas do hotel e, movido por uma estranha e incômoda curiosidade, ou talvez por uma outra força sobre-humana que não saberia explicar, enfrentei a tempestade fria e relampejosa, envolta a sons guturais de ventos e trovoadas, seguindo por um caminho da lama a descer em corrente do alto da Ponta Tenebrosa.

No meio da trilha escura, uma surpresa: pude ver, por meio da fosforescência das águas revoltas do mar, um navio se dirigir à costa. O farol estava mesmo apagado, como se imerso na sua própria melancolia, e previ ali uma tragédia.

Corri o mais rápido que pude na esperança de alertar o faroleiro. Porém, lá chegando, bati à porta diversas vezes. Chamei por Zacarias, desesperadamente, e ele não me atendia. Não, ele não poderia estar ali. O que teria acontecido? Chutei a velha porta. O cadeado se manteve firme, mas ela se arrebentou e eu entrei.

Diferente da última vez em que lá estive, subi mais do que depressa os degraus da escada da torre e alcancei a plataforma. A torre inteira parecia tremer diante do lamber agressivo das ondas. O navio, dali, parecia ainda maior, assim como o perigo que o conduzia. Mesmo com a visão dificultada, percebi ser um navio antigo, tais quais os contratorpedeiros japoneses da Primeira Guerra Mundial. No convés não havia ninguém, assim como não havia sinal de iluminação ou de vida em parte alguma na superfície da embarcação, que mantinha o curso em rumo de colisão com os recifes e as rochas.

Mesmo sem nunca ter operado um farol, na tentativa de atrasar o tempo, desci novamente e ousei acionar os botões, interruptores e pequenas alavancas do painel até conseguir emitir os aguardados lampejos brancos e vermelhos do aparelho, além dos sinais sonoros. Milagrosamente, consegui!

Voltei à plataforma e de lá busquei atento por qualquer movimento do navio que me confirmasse terem percebido o sinal luminoso. De repente, o mar, diante dele, começou a se abrir. A embarcação pôs-se a descer, como se em rampa, em direção ao fundo, sendo aos poucos tomada e coberta pelas ondas até desaparecer por inteiro. Foi quando a chuva e os ventos cessaram. As nuvens dissiparam no céu e uma enorme lua surgia totalmente indiferente a tudo aquilo que eu assistira. Seria apenas um delírio? Uma ilusão? Aquilo realmente acontecera?

Decidi voltar ao hotel. Contudo, passando pela saleta de Zacarias, dei pela parede e seu amontoado funesto de relógios que me assombraram à noite e me trouxeram ali. Para o meu espanto, entre eles, em um prego velho, pendia o meu relógio, estranhamente parado no horário em que lá estive pela primeira vez. Fixado a ele, um bilhete com letras garranchudas: “O mundo acaba aqui.”

Senti minhas pernas falharem e ajoelhei-me. Uma voz, como a que ouvimos em conchas, tomou-me os ouvidos. Tive a certeza de que eu não poderia mais sair dali. O farol, conforme a voz, havia me escolhido. Não era Zacarias, mas seria eu, o último faroleiro da África.



Fotos: Raymundo Netto (2011)





 

sábado, 4 de junho de 2022

"Chiclete com Banana", uma antologia antológica


Em outubro de 1985, com ares da “Nova república”, surgia a revista de humor underground Chiclete com Banana, um sucesso inquietante que chegou a vender cerca de 3 milhões de exemplares em suas 24 edições (a última em novembro de 1990) por todo o país e talvez até em Vênus (o planeta, e não a camisa).

Eu tinha 18 anos, havia há pouco ingressado na faculdade (Fisioterapia), e apesar de ler esporadicamente uma coisa ali e acolá que saía nos jornais (no “Ilustrada” da Folha de S. Paulo, por exemplo) ou em pequenas coletâneas, respirando formóis da Ana(tomia) e nas fileiras do movimento estudantil, só viria conhecer a revista em si muito mais tarde, juntamente com a Animal: feio, forte e formal, Lúcifer, Striptiras, Piratas do Tietê, Níquel Náusea e as coletâneas geniais de Calvin & Haroldo, entre tantas outras.

De resto, guardo essa coleção/antologia lançada em 2007 (e umas 10 a 15 edições originais), que traz alguns dos melhores momentos da produção desses sempre heroicos quadrinistas brasileiros em 16 edições (tenho apenas 8).

No editorial da revista (ou seria gibi?), Angeli declarava o seu objetivo: “Queremos apenas beliscar a bunda do ser humano para ver se a besta acorda.”

Irreverentes, criativos, inigualáveis, iconoclastas e demolidores eram os “titios” da Chiclete com Banana: Angeli (o grande e original líder dessa bagunça toda), Laerte, Luiz Gê, Fernando Gonsales, Edi Campana, Rui Resenha, Cacá Rosset, Christiane Tricerri, Toninho Mendes, Gonçalo Júnior, Paulo Caruso, Sérgio Machado, Glauco Mattoso, Marcatti, Furio Lonza e blá-blá-blá.

Ali, cabia de tudo, quadrinhos, resenhas, fotonovelas, charges, entrevistas (fictícias ou não), gurus, punks, hippies, junkies, revolucionários, sexo, drogas, rock’n’roll, cultura pop, solidão, política (e podridão) e o mais ridículo que poderia existir na sociedade e caber no olhar desses criadores.

Não há dúvida de que esse legado Chiclete com Banana, e não aquele outro que precisava de trios elétricos e encheu os bolsos do BEL vil metal, foi, de fato, revolucionário, delirante e transgressor, apesar de ter sofrido da mesma anemia pecuniária infinita que a arte e acultura brasileira traz em seus genes.

Viva a cultura da liseira (ou a liseira da Cultura?)




 

terça-feira, 31 de maio de 2022

30 de maio de 2012: Outorga da Medalha Boticário Ferreira e lançamento "Os Acangapebas", de Raymundo Netto


30 de maio de 2012. Há 10 anos. Enquanto muitas pessoas celebravam os 120 anos da PADARIA ESPIRITUAL, eu recebia, na Câmara Municipal de Fortaleza, a comenda Medalha Boticário Ferreira, uma proposição do médico e vereador Antônio Machado Neto (o “Machadinho”), pelos trabalhos em prol da cultura que realizei, especialmente até aquele ano, na Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (trabalhei na Coordenadoria de Políticas do Livro e Acervo da Secult de 2008 até fevereiro de 2012, quando ingressei na Fundação Demócrito Rocha/FDR).

Foram anos de muitos aprendizados e desafios, vitórias e fracassos, nos quais tive o privilégio de editar e publicar (praticamente com apenas um colaborador) centenas de livros, alguns deles raríssimos e importantes para a historiografia literária cearense, além de permitir, por meio de editais, outras dezenas; de criar o Prêmio Literário para Autor(a) Cearense, única edição, que pela primeira vez contemplou a criação e distribuição de obras literárias; de elaborar e coordenar a I Feira do Livro do Ceará em Cabo Verde (África): “A Terra da Luz na Claridade”; de integrar o Conselho Curador de uma Bienal Internacional  do Livro (as outras, eu dispenso); de reconhecer e promover, o quanto pude, autores e autoras cearenses no circuito cultural interno e dos equipamentos da Secult, entre outras, modéstia às favas, difíceis, exaustivas, mas gratificantes ações.

Também nessa noite, aconteceu o lançamento do livro Os Acangapebas (meu primeiro livro de contos), finalista do Prêmio Sesc de Literatura (Nacional), ganhador do Edital de Literatura da Funcet/SecultFOR e do Prêmio Osmundo Pontes de Literatura da Academia Cearense de Letras.

Quem tiver curiosidade de ver algumas das fotos do meu álbum de Facebook, pode acessar: https://bit.ly/3lZnHce




 

Despedida ao amigo Francisco (Chico) Veloso, por Raymundo Netto


Partiu ontem, tarde de 30 de maio de 2022, o nosso amigo FRANCISCO (CHICO) VELOSO, arquiteto graduado pela UFC (1975), técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que teve grande e relevante atuação na área, participando sempre que convidado de departamentos, comissões, grupos de trabalho, projetos, entrevistas, eventos, entre outros, quando o assunto, para ele muito caro e indispensável, era PATRIMÔNIO.

Durante anos compartilhamos da gestão da Associação dos Amigos do Museu do Ceará, na qual era presidente. Em sua casa, há uns 2 quarteirões da casa da minha infância, traz uma discografia invejável, coleção de uma vida inteira, sendo a música uma de suas maiores paixões, assim como o cinema e ainda a literatura, excelente e crítico leitor que é.

Quando soube que ambos éramos encantados com a obra “Doutor Jivago”, do original russo Boris Pasternak (1890-1960), fez questão de gravar e me entregar um CD com a trilha sonora da qual pontuava o clássico “Tema de Lara”.

Ser humano de qualidade incomparável, de conversa boa, rica e mansa, leu meus livros, desde o primeiro, conversava sobre eles, e vez ou outra, para iniciar uma conversa, puxava da memória uma situação, um personagem ou um tema deles.

Há muito pouco, era ele amargando a perda do amigo CAMPELO COSTA, também arquiteto.

Pensando hoje, tive a alegria e a honra de tê-lo como apresentador do “Álbum Fortaleza Ilustrada” (EDR, 2020), ninguém mais merecedor do que o grande Chico para abrir esse trabalho que é, acima tudo, uma coleção de afetos de uma Fortaleza continuamente EM RISCO, nas mãos de políticas frágeis, políticos e empresários inescrupulosos (e ignorantes) e de uma população que confunde cultura com entretenimento barato (e cachês milionários) de vitrines sem espírito.

Ao Veloso, minha eterna gratidão, por ser dessas pessoas que fazem o trilhar da nossa vida ser pulsante, suportável e valer a pena. Muita luz para você, meu amigo.




 

sábado, 28 de maio de 2022

AlmanaCULTURA In Dica: "Bode Ioiô: uma entrevista com o bode mais querido do Ceará", de Klévisson Viana


Uma celebridade cearense que nunca precisou estar nas redes sociais, mas que sempre arrepanhou centenas de milhares de seguidores foi o bode Yoyô.

Chegando a Fortaleza para escapar da seca de 1915, logo passou a ser funcionário de uma distinta firma inglesa que aqui mandava e desmandava. Como era de alto escalão, vagueava livremente entre a praia de Iracema e a praça do Ferreira, e da praça à praia, e por isso ficou conhecido por Yoyô, que nem o brinquedo.

Na praça, todos sabem, visitava os cafés e os quiosques, sendo tão popular a ponto de ser eleito vereador de Fortaleza e ganhar beijos das mocinhas. Todas essas histórias você já deve ter ouvido. Porém, duvido que você saiba da última...

O cordelista, ilustrador e chargista Klévisson Viana me contou que daqui a 8 anos, o prof. Piracuca inventará uma máquina do tempo (in lamparina’s form) e com ela partirá para o ano de 1918, em sua “Missão Nirez”, na tentativa de fazer uma entrevista justamente com o bode Yoyô.

Mas como? Falar com um bode? Sim, o notório cientista também criou um aparelho, o Vox Communis que permite a tradução dos discursivos berros do caprino.

Fiquei com tanta inveja dele... passear pela praça do Ferreira, ver os seus quiosques, caminhar pela praia do Peixe, Passeio Público, ver os bondes, o cajueiro da mentira, e ainda conversar com Quintino Cunha, Leonardo Mota, Rodolfo Teófilo, Antônio Sales, João Tomé, Demócrito Rocha, João Brígido... e ouvir as ideias do bode mais famoso do Ceará: “Todos aplaudiram o bode/ Pelo seu plano acertado,/ Disseram: — Caprino sábio!!!/ Que bode mais preparado!!!/ Parece o “Águia de Haia”,/ O Rui Barbosa afamado!”

Felizmente, o Klévisson transcreveu essa entrevista do futuro... e do passado... que confusão... no folheto Ioiô: uma entrevista com o bode mais querido do Ceará, que traz gravura de Rafael Limaverde, e que TODO MUNDO pode adquirir, ler e se divertir com essa presepada.

Fale com o autor/editor e SAIBA COMO: aestrofe@gmail.com

Ou pelas redes sociais @tupynanquimcordelbrasil






 

quarta-feira, 25 de maio de 2022

AlmanaCULTURA In Dica: "Traços e Troças: crônica vermelha | leitura quente", de Pedro Nolasco Maciel (Armazém da Cultura, 2013)


“Traços e Troças [CHRONICA VERMELHA] Leitura Quente” - Maceió 1899.

Pronto. Apenas isso na estampa da pequena capa do livro. Nem indicação do autor nem da tipografia de origem. Como se lançado ao vento, o romance, de título curioso, Traços e Troças: crônica vermelha – leitura quente, veio ao mundo, mais especificamente ao mundo maceioense das Alagoas.

Mais tarde, a partir de “pistas” em sua literatura, em sua atitude política e ideológica, o jornalista Pedro Nolasco Maciel passou a ser considerado, por historiadores e críticos, o “responsável pela criança” que, nesse caso, já nasceu andando, melhor, dançando.

Mas, afinal, o que nos traz de novo esse autor? Para tentar saciar a curiosidade dos seus novos leitores, irei me valer dos “Traços Biobliográficos”, assinado por Moacir Medeiros de Sant’Ana, historiador, membro da Academia Alagoana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, publicados como introdução à segunda edição da obra, pelo Departamento Estadual da Cultura, cujo diretor, à época, 1964, era o jornalista Arnoldo Jambo, que também assina o texto que antecede a referida edição, pela qual nos guiamos na condução editorial desta nova edição.

Pedro Nolasco Maciel nasceu em Maceió, Alagoas, em 1861. Filho de Raimundo José de Sant’Ana e de d.ª Silvina Ferreira Guimarães, iniciou-se no trabalho de tipógrafo no Diário das Alagoas.

Jornalista, um dos mais atuantes de seu tempo, conforme pode-se observar pelas diversas atividades exercidas e pelo seu legado literário e jornalístico, foi um dos fundadores e redatores de Gutenberg, órgão da Associação Tipográfica de Socorros Mútuos, veículo mais veemente na difusão das ideias republicanas, que surgiu, pela primeira vez em janeiro de 1881, e, posteriormente, administrador do Gazeta de Notícias, surgido em 1879.

Em fevereiro de 1886, Nolasco Maciel publicou, em volume único, pela Tipografia Mercantil, o romance A Filha do Barão com o também curioso subtítulo “estudos românticos e históricos” , que, segundo estudiosos de sua obra, a estética, peculiaridades e estilo, trazem semelhanças que confirmam-lhe a autoria de Traços e Troças. A Filha do Barão, considerado o primeiro romance de costumes da sociedade alagoana, foi escrito, originalmente, em folhetins, ou seja, em fragmentos veiculados no Diário das Alagoas, a partir de 20 de novembro de 1885, sob a assinatura de iniciais “M.P.N.”

Em 1887, ano em que era redator do Tribuna do Povo, outra produção: Estilha­ços: produções literárias e sobre política. Em 1888, ano de publicação de Conferência Pública, colaborava com o semanário Lâmpada.

Nos últimos anos da monarquia, os movimentos abolicionista e republicano chegaram a Alagoas. Grassavam entre os membros, entre eles, entusiasticamente o Pedro Nolasco, da Sociedade Libertadora Alagoana, fundada em 28 de setembro de 1881, e pelos jornais Gutenberg – já citado – e Lincoln.

Jornalistas, intelectuais, professores influenciavam a adesão de jovens à campanha da abolição e da república, campanha esta divulgada pelo Centro Republicano Federalista, o Clube Federal Republicano e o Clube Centro Popular Republicano Maceioense.

Era também afiliado do Club Literário José Boni­fácio, onde exerceu a função de vice-presidente. Além dessas, participou de outras associações e, dentre elas, foi orador do Montepio dos Artistas Alagoanos, o que comprova a sua tendência gregária.

Em 3 de janeiro de 1889 foi nomeado carteiro interino no Departamento de Correios e Telégrafos e, em abril, é efetivado. Em 1890 seria promovido a 2º oficial, sendo, entretanto, exonerado das funções em 1903.

Em 1891, publicou Galeria de Alagoanos Ilustres ou Subsídios à História das Alagoas, e, em 1892, o Indicador Postal. Em 1893, sob o pseudônimo de “Maceiolino”, escreveu para O Momento.

Em 1899 colaborou com Constelação, e, em 1908, com O Popular.

Foi em 1899 que publicou Traços e Troças. O motivo do anonimato do autor, assim como de sua origem tipográfica pode ser compreendida, a priori, pelo viés da segurança, embora essa seja uma hipótese. O fato é que, devido às características de seu estilo, entre eles o uso de descrições de lugares e citação de personagens reais em meio a sua ficção, atribuíram-lhe a autoria da obra. E do que trata Traços e Troças?

Arnoldo Jambo supõe que o subtítulo “crônica vermelha” foi “concebido como com o propósito de caracterizar o livro como coisa não recomendável para certo gênero de pessoas puras ou ainda em formação”. Continua, sobre a obra: “Um quadro de costumes onde o bulício preguiçoso e os preconceitos provincianos se fixam como estereotipando figuras de ‘croizé’, fraques pintalgados de caspas, barbas e bigodes hirsutos percor­rendo velhas e incertas ruas maceioenses, sob casas de bi­queiras e sobre calçadas irregulares, cruzando de quando em quando com matronas severas, tímidas ou mexeriqueiras, todas atufadas de panos desde o queixo até a ponta dos borzeguins de camurça. E por entre vestes e bisonhas apa­rências, em cada figura, um tipo popular daqueles dias: o português que tocava cavaquinho e de cujo instru­mento tomou o nome toda a sua descendência , um bar­beiro, um livreiro, um jogador de bilhar, um mestre de banda de música, um leiloeiro, um comerciante de teci­dos, um alferes, um coronel comandante, um veterano do Paraguai, um condutor de trens, carteiros, amanuenses, en­graxates, magistrados, sacerdotes, médicos, jornalistas, tribunos, vivendo todos aquela vidinha miúda, imposta pelo acanhado do meio, pelo atraso e pobreza material e, sobretudo, policiada pela rígida moral do catecismo dominante.”

Afirma Félix Lima Júnior, na apresentação à segunda edição de Traços e Troças, que Arnoldo Jambo escrevera, no Jornal de Alagoas, em 1962, sob o título “Romance apócrifo em Maceió do passado”, o desconhecimento por parte dos que fizeram e dos que fazem a literatura alagoana dessa experiência de romance em Maceió.

De fato, o núcleo principal da história é composto pela trama romântica de Manoel, jovem trabalhador, ingênuo e sério, completamente apaixonado “estava no céu” e iludido pelos “dentes alvos e as faces rosadas, levemente caiadas a ‘poudre-riz’” de Zulmira, na verdade uma “pimenta, menina quente, irrequieta e mal-educada”. Ao paralelo, Juquinha, um ex-namorado e amante, homem forte, sem-modos o que atraía Zulmira , caixeiro do Centro Comercial; a d.ª Maria, mãe de Zulmira, mulher ambiciosa e alcoviteira, “cínica [...] que arreganhava a boca sem dentes como um buraco de morcegos nas catacumbas do cemitério velho da Viçosa”, atenta a encontrar um futuro de segurança para si, por meio de bom compromisso da filha, sendo cúmplice de diversas artimanhas polvilhadas no enredo de encontros e desencontros de Traços e Troças.

Um dia, após passar por desventuras, “achado dentro do mangue, roído de mosquitos”, encontra Serafim, amigo do Juquinha, a revelar com galhofa a triste sina do noivo de uma “criatura endiabrada e tentadora”, muito bela, que exibia desrespeitosamente em uma fotografia. No momento, Manoel, tomado de vergonha e de ira, reconhecera na fotografia a sua amada Zulmira. A princípio, como todo apaixonado, procurou motivos para entendê-la e passou a delegar toda a culpa da moça àquela mãe horrorosa da menina. Conclui: “A sociedade é corrupta. Não pergunta onde se foi ver a riqueza, inda mesmo que tenha certeza de sua má procedência”. Mais tarde, acorda: “Zulmira, embora formosa, não era mais do que uma caveira bem vestida”.

Aparentemente, a dúvida plantada no coração de Manoel é o estopim da trama que passa a desenrolar-se mais rápida e conflituosamente, e é em suas mãos que se coloca o destino da história. Por outro lado, o personagem Zulmira cresce, evolui no texto de forma surpreendente, podendo se equiparar às heroínas de nossos grandes clássicos da literatura.

A história carrega uma crítica à sociedade da época, passeando pelos cantos mais esquecidos do meretrício, do brejo, da podridão, passando pela falácia e pelos joguinhos de faz de conta da vida real, geralmente, denominados de “novelescos”. O final é envolvente.

Nolasco Maciel descreve, como em fotografia, cada detalhe de sua cidade: os bondes, os estabelecimentos comerciais, as repartições, os prédios, bilhares, logradouros, as ruas, as travessas, os arrabaldes, as igrejas, os quartéis, os hábitos, os modos de linguagem, fatos históricos como a deposição do governador Besouro, a Cabanada, a varíola que dizimou os “escravizados” em 1888 , os toilettes, os costumes provincianos saraus, pastoris, festas, serenatas, comemorações, etc. e, envolvidos na trama, personagens reais, políticos, intelectuais, abolicionistas, tipos populares, comerciantes, artistas, inclusive o próprio Nolasco, identificados com precisão em centenas de notas do historiador Félix Lima Júnior, que tivemos o prazer de apresentar nessa edição graças à gentileza da autorização de seu filho, Cláudio Fernando Oiticica de Lima.

Em A Tribuna, em outubro de 1908, Nolasco publicaria seu Resumo da História de Alagoas para Uso dos Incipientes, e, ao final de abril de 1909, publicou a novela Japy-Açara. Também em forma de folhetins deixou a novela Os Camunhenques e o História de Alagoas, compêndio de cunho histórico. Colaborava com A Tribuna desde 1896, inclusive com uma seção “A Lápis”.

Afirma Moacir Medeiros de Sant’Ana que, na sua última fase de existência, Nolasco “entregou-se a boêmia”.

Parecia calar-se, então, nas Alagoas, aos seis dias de dezembro de 1909, e com apenas 48 anos, a voz de Pedro Nolasco Maciel. Sua literatura quente, a sua crônica vermelha, entretanto, rompe as barreiras da mortalidade comum aos comuns, e rasgou o verbo, entre traços e troças, e persiste no clássico da literatura que hoje nos apresenta sua Maceió, ainda cidade-tempo acanhada, a rebolir e a borboletear muito graciosa entre séculos.  


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