segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

"Entre Peixes, Museus e Relógios", de Túlio Monteiro



A Gentilândia é um daqueles lugares onde a cidade lembra o que foi lugar onde se vive para conviver, para ver, para sentir, para ouvir, para andar, para conversar. Convivência experimentada no cotidiano, fruto das relações sociais alicerçadas pelo tempo. Por isso, ser gentilandino é um estado de espírito e quem já viveu na Gentilândia sabe que é imprescindível voltar sempre.
Elmo Vasconcelos Júnior, curador do Memorial da Gentilândia.

Começou assim: eram meados 1986 – século passado – quando parti do Farias Brito, colégio onde concluí o segundo grau, para as cadeiras de madeiras toscas do Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará. Tinha arriscado mais uma vez a Arquitetura já que tinha dado um chute no destino, qual ele poderia ter me tornado também geólogo pela Unifor, mas os deuses do vernáculo cismaram porque cismaram de me enviesarem a vida para as bandas da escrita, crítica literária ou coisas que os valham.
       Outro mundo, outros seres, outros loucos. O impacto de ver tanta gente diferente demorou tanto a passar que lá se foram, no mínimo, uns dois meses para me acostumar com aquele mundaréu de cabeludos pirilampeando – se me faço entender – para um lado e para o outro. Restinho dos bichos soltos da geração riponga que estava dando lugar a umas tais “Diretas Já!”. Os ares eram outros, pois o sopro maldito da fuligem de armas militares da tal falada Ditadura que tomou de um dia para outro, vinte anos de uma geração inteira que ainda assim não passou em brancas porque não sincerizar negras nuvens negras. Era hora de os facínoras recolherem-se às suas casernas.
       Eis que acabei por ir descobrindo coisas em conversas sempre repletas de imagens e símbolos, com interlocutores de todos os níveis de sabença. Viventes que me repassavam informações que só aprendidas na base do vamos destapar os segredos do Benfica? Fui, a princípio, sendo conduzido para depois me transformar no timoneiro desse barco chamado vida, passando a desconstruir e retelhar o casario da Gentilândia – reza a lenda que a família de João Gentil perdeu quase todos os imóveis do local nos jogos de cartas e outros azares – suas nuanças, calçadas, parapeitos e um anônimo peixe que até hoje sobrevive em seu silente mergulhar pétreo. Explico: uma meia-parede foi erguida para proteger o prédio do atual Museu de Arte da UFC (Mauc), inaugurado pelo então reitor Antônio Martins Filho em 18 de julho do ano de 1961, onde antes funcionava o Colégio Santa Cecília.
       Pois bem. Voltemos ao ser aquático que lá está fixado pelo espírito moleque de algum pedreiro que, tendo descoberto alguns pedaços de pedra derivada de xisto percebeu que aquelas possuíam exatamente o formato de um peixe. Certamente para não perder a chacota e o chiste – talvez sabendo que naquele recém-construído edifício cultural iriam ficar expostas obras de grandes nomes da escultura e pintura cearense, quiçá nacionais, o laboral trabalhador meteu sua colher de ferro para cima e pronto – está lá para quem tiver a paciência de procurar em uma extensão de cinquenta metros da parede que cerca o Mauc pelo lado da avenida 13 de Maio, quase esquina com avenida da Universidade, 2854, encontrar o que temei em chamar de pequeno sítio arqueológico acinzelado.
       Outros enigmas estão espalhados pelos arrabaldes da Gentilândia/Benfica, sendo tudo uma questão de procurar nas entrelinhas, nos espaços menos esperados podendo ser encontradas preciosidades iconográficas de real importância histórica. É o caso da torre dos quatro relógios da igreja dos Remédios, que fica bem em frente à faculdade de Ciências Sociais e ao lado do Cetrede.
Aos 14 de agosto de 1910, foi concluída a pequena capela de Nossa Senhora dos Remédios, inaugurada com grande festa da qual participaram mais de duas mil pessoas – evento de grande aporte levando-se em conta que Fortaleza possuía exatos 65.816 habitantes – tendo sido a missa celebrada por Monsenhor Bruno Figueiredo, nascido em Aracati (CE), ordenado que havia sido desde 1875; educador de grande nome, lente do Liceu do Ceará à época, sendo vigário-geral do Bispado do Ceará.
       De início e até 1927, a igreja dos Remédios era uma delicada ermida, até serem erigidos os atuais dois corredores laterais, custeados pelo ainda abastado benfeitor do Benfica coronel João Gentil Alves de Carvalho. É daquela época, também, a instalação do relógio de quatro faces ainda hoje badalando as horas que marcam o compasso dos que deslizam a pé, em seus carros e nos agora chamados VLT’s (Veículos Leves sobre Trilhos), os metrôs, primos atuais dos antigos bondes com seus motorneiros a serpentear Fortaleza afora.
       Os quatro mecanismos têm sua história singular: foram projetados para serem instalados no monumento ao Centenário da Independência (1822/1922), cuja pedra fundamental foi lançada aos 23 de julho de 1922, na então praça do Cristo Redentor, situada onde hoje é o início da avenida Monsenhor Tabosa e defronte ao Instituto Dragão do Mar de Arte e Cultura, inaugurado em 28 de abril de 1999 com seus 30 mil metros quadrados muito bem divididos em salas de cinema, teatro, cafés, anfiteatro, praça verde, planetário, salas de estudo, sendo anexado à Biblioteca Pública Menezes Pimentel com seus 70 mil livros e 40 mil títulos diversos, hoje sendo todos digitalizados para as gerações pósteras.
           Retornemos aos relógios! Como era de se previr o monumento ao Centenário da Independência não foi inaugurado no dia 7 de setembro 1922, mas, sim, na véspera de Natal daquele ano – por volta de cinco horas da tarde – numa provinciana e agradável Fortaleza de 104.852 almas como testemunhas. A obra fora encomendada pelo prefeito Ildefonso Albano que deixou a cargo do seu sucessor o coronel Adolfo Gonçalves Siqueira a finalização da obra, executada que foi pelos mestres de obras Antônio Machado, Domingos Reis e Severino Moura. Por ocasião dos festejos tomou a palavra o então arcebispo da capital dom Manoel da Silva Gomes. Os marcadores das horas, como já sabemos permanecem na cúpula da igreja dos Remédios, enquanto a praça Comendador Machado – hoje praça do Cristo Redentor – que também abriga o Teatro São José desde 1915, encontra-se abandonada e habitada pelos novos excluídos que todos os dias chegam a metrópole. O motivo pelo qual o nobre quarteto simplesmente não ter sido instalado na torre em questão foi o movimento pendular causados pelos fortes ventos Aracati que insistem em açoitar nossa cidade, vindos lá das bandas da África, oceano Atlântico, por caminhos alísios soprados de lá para cá. Ventos Aracati-tupi-guarani – ventos bons que vêm do mar, todas as tardes, como uma brisa marítima que ganha força ao ter por canalizador o rio Jaguaribe, que desemboca no mar pelas cidades cearenses de Aracati e Fortim. Desde lá navegando o sertão jaguaribano.  Esse Vento Aracati amigo que ora areja minha memória sobre o Benfica...



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Campanha de pré-venda e colaboração para "As Cidades de Rubem Braga e W. Benjamim", de Ana Karla Dubiela


As Cidades de Rubem Braga e W. Benjamim
de Ana Karla Dubiela

Apresentação: Ana Miranda
Artes: Mário Sanders
Projeto Gráfico: Gil Dicelli
Previsão de lançamento: abril
Preço no lançamento: R$ 50,00
Preço antecipado (pré-venda): R$ 40,00

Contato com autora para conhecer o trabalho, comprar e/ou contribuir com a obra: 
ou pelo Facebook: www.facebook.com/dubielaana/

Sobre a obra: O livro é o fechamento de dez anos de pesquisa sobre a crônica de Rubem Braga e uma adaptação da tese da autora de doutorado em Literatura Comparada, feita na Universidade Federal Fluminense/RJ (2011). Além da desconstrução do conceito de crônica, da descoberta de que foi Alencar o autor da metáfora sobre a crônica e o colibri esvoaçante sobre a flor (e não Machado de Assis), As cidades é um encontro (fictício) entre Braga, Baudelaire e Benjamin na Paris dos anos 40. Passeia pela tal moderrnidade, pelo brejo da aura, pela história aberta de Benjamin, sem abdicar de uma linguagem poética. Ao final, há um guia para os novos leitores de Braga, com resumo de cada obra dele, e um roteiro para pesquisadores do tema, que reúne o que de mais importante a autora encontrou durante a sua pesquisa, incluindo estudos acadêmicos, entrevistas, livros sobre o autor etc.

Sobre a autora: Ana Karla Dubiela é jornalista, graduada pela Universidade Federal do Ceará. Especialista em Estudos Literários e Culturais (UFC), mestre em Literatura Brasileira (UFC) e doutora em Literatura Comparada (UFF/RJ). Autora dos livros A traição das elegantes pelos pobres homens ricos: uma leitura da crítica social em Rubem Braga, Um coração postiço: a formação da crônica de Rubem Braga e da biografia Pedro Freitas: a vitória do trabalho. É coautora de As mães de Chico Xavier e O poeta da crônica: Rubem Braga: vida e obra. Ministrou cursos e proferiu palestras sobre literatura e crônica no Congresso Nacional, na Fundação Casa de Rui Barbosa (RJ), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Bienal Nacional da Crônica (Cachoeiro de Itapemirim, ES). Publicou diversos artigos sobre literatura em periódicos e revistas especializadas. É editora de livros, faz pesquisa e preparação de texto, além de revisão e adaptação de teses e dissertações para o formato de livro.

Capítulos do Livro
S U M Á R I O
Apresentação – Paixão Eterna – Ana Miranda
Prefácio – O luar banha a prosa de Braga

CAPÍTULO 1 – O GÊNERO CAMALEÃO
Vestígios da crônica na história
Entre o folhetim e o anúncio, uma mina de ouro
José de Alencar, precursor da crônica moderna

CAPÍTULO 2 – ESVOAÇANDO AO REDOR DE UM CONCEITO
Definir-se, a impossibilidade crônica
O gênero “brasileiro” e os cronistas estrangeiros
Impressões sobre a crônica contemporânea

CAPÍTULO 3 – MODERNIDADE, O FENÔMENO LITERÁRIO
Rubem Braga, um modernista de última hora
Baudelaire, Benjamin e Braga – um encontro em Paris
Modernidade, a cornucópia de sonhos coletivos

CAPÍTULO 4 – PAU-BRASIL: BISCOITO FINO OU MASSA PODRE?
Um gato entre pombos antropofágicos
O brejo da aura
Pós-moderna: a crônica no lugar dos afetos esmaecidos

CAPÍTULO 5 – A FLÂNERIE E O DESPERTAR DA METRÓPOLE
Memória: um sonho feliz de cidade
Flâneur: o urso solitário no pequeno jardim da alma
Deus e o diabo nas entranhas das ruas

CAPÍTULO 6 – PINTURA DO COTIDIANO
Curvas, cores e músicas internas
“Notas de Paris”: no porão dos jornais, crônicas inéditas em livro
As crônicas de Paris

EPÍLOGO – O vento e a lua: um segredo de terra anoitecendo
Referências Bibliográficas
Para gostar de ler Rubem Braga

Um roteiro de pesquisa





sábado, 11 de fevereiro de 2017

"Chuvantiga: crônica nº 1", de Raymundo Netto




Seria uma crônica sobre a chuva? Mais uma, dentre tantas, não fosse o fato de que, ao entranhar a lembrança no pensamento, senti chover-me no peito a chuvantiga. A quedar-me assim, comecei:
Numa das ruas do Monte Castelo, seguia um barquinho de papel a correr-lhe pelas águas frias das coxias. Sem pressa, sem pressa, chuá, chuá, imaginava: todas as aventuras do mundo cabiam naquele barco a desmanchar-se lentamente enquanto vaguejante por sobre um céu baço que parecia ser, na meninice, tão grande.
Nas calçadas, buscando bicas, outros meninos e meninas saltavam felizes a tiritar, braços cruzados ao peito, inda livre, crentes na simplicidade de uma vida a viver ainda distante e muita.
À praça redonda, as peladas nas areias corriam entre pernas ligeiras. Os menores piscinavam no antigo chafariz coberto em mosaicos vermelhos que nem vi crescer, assim como aquelas crianças.
Em volta, pretos guarda-chuvas cumprimentavam-se com bons-dias domingosos; o peixeiro a cantar para as freguesas aos portões; encimando os muros baixos, verdes em limos, as buganvílias, afirmando um vaivém, dançavam; os cães a ladrar o estranhamento; as águas cortinavam, de cores, arco-íris na varanda; as empregadas corriam a desroupar o varal: “Chega, menina!”; o cheirinho de terra molhada entupia as narinas quando os respingos frios — vinham das venezianas do quarto — jaziam no travesseiro; o tactac repenicado no telhado acompanhava o grito do vizinho no alto do muro do quintal; o quintal avermelhecido em acerolas.
Era manhã e na sala inda escura o café esperava — passado no pano —, com leite, o pão francês quentinho e a manteiga de lata.
O pai, a mãe, os irmãos: nunca a mesa fora tão pequena.
Chovi com a chuva a tarde que ribombava.
“Mundo, mundo, vasto mundo”... Ah, se eu não me chamasse Raymundo, como vento gemeria, não em prosa, mas em poesia, todo o vivido retrato que, só no escuro deste quarto, a rasgar os céus azula-me o clarão, pela janela distraída do nublado coração.



"Um Amor, uma Cabana", de Ana Miranda


Nossos pais diziam que para nos tornar seres completos era preciso escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. Meu pai, que era engenheiro, acrescentava: construir uma casa. Escrevi livros, até demais, tenho um filho e plantei uma árvore, no jardim da casa onde cresci, uma muda de pau-rosa, ou flor-do-paraíso, que havia sido esquecida ao lado de uma cova estreita e funda, uma muda frágil, com poucas folhas, mais alta do que a menininha que a salvou. A muda cresceu, transformou-se em um majestoso flamboyant, coberto de flores vermelhas.
Mas nunca construí uma casa. Sonho com isso. Gostaria de construir uma casa de taipa, com as próprias mãos, amassar o barro, atirar o barro nos enxaiméis e fasquias de madeira. Não se trata de uma idiossincrasia, nem de um gesto poético, muito menos uma visão religiosa. A taipa é um material apaixonante. Tem uma nobreza histórica. As reforçadas casas e igrejas coloniais brasileiras foram feitas de taipa de pilão, há ainda hoje na Alemanha casas em taipa construídas no século 13, a própria muralha da China, símbolo da solidez, é taipa. A taipa tem mais de 9.000 anos, serviu a construções no Egito, na Mesopotâmia.
Um amigo meu, arquiteto, projetou e construiu belíssimas casas de taipa. Ele se chama Cydno da Silveira e o conheci em Brasília, poucos anos depois de plantar meu flamboyant. Cydno estudava na UnB quando, observando residências rurais, surpreendeu-se com a quantidade de casas de taipa, feitas de maneira intuitiva, quase como as abelhas fazem suas colmeias. Nunca tinha ouvido falar naquilo em seu curso, e percebeu o quanto era elitista o ensino de arquitetura. Fotografou as casas de taipa todas que encontrava. Ele se formou, passou a trabalhar com as técnicas industriais, como concreto armado, mas nunca esqueceu a taipa. Deu-se conta de que não sabia construir da maneira mais rudimentar e resolveu aprender. Estudou durante anos a técnica. Descobriu taipas diversas, como a de pedra, usada no Piauí, a de madeira com bolas de barro, vista no Maranhão, a taipa de carnaúba, a taipa mista de moldura de tijolos, a taipa feita com sobras de madeira e sucata. Descobriu a maleabilidade incrível do barro, novas estruturas, novos dimensionamentos do espaço e imensas possibilidades de melhoria na técnica tradicional. Estudou a combinação com elementos da cultura industrial, mas sem descaracterizar a antiga construção de estuque. 
A casa de taipa nasce do chão, vem da natureza, é construída com o material que está ali, a terra e as árvores e tem uma grande contribuição a dar a um país que não oferece moradia para todos, como o Brasil. O projeto de casas populares, que Cydno afinal desenvolveu, ensina o homem a construir sua própria casa e a cuidar dela. Tem o sentido de manter viva a sabedoria popular da taipa. Está sendo feita uma experiência na cidade de Bayeux, Paraíba, para treinamento de pessoas no projeto, construção, melhoria e restauração de edificações em taipa de pau-a-pique. Não recebendo a casa pronta, mas construindo-a, o dono toma por ela mais amor. Se for privado de sua terra, ele saberá construir uma nova habitação. O saber lhe pode servir como meio de vida, e a profissão tem um nome: taipeiro.
A casa de taipa é uma grande alternativa para a habitação no meio rural e nas periferias urbanas. Típica das populações mais pobres, é uma forma de independência, uma estratégia milenar de abrigo, preservada nos sertões brasileiros especialmente pelas mulheres. O sistema de autoconstrução elimina a aquisição de material, o transporte, o crédito, elimina o BNH e o processo industrial de construção, permite o mutirão e, principalmente, educa. É rápida a construção, usa-se mão de obra não qualificada, e é um instrumento para a posse imediata da terra. Permite uma construção tanto de caráter provisório quanto perene e a técnica pode ser levada a lugares onde não chega o material industrializado. Uma simples caiação evita a umidade e basta fechar as frestas onde o barbeiro gosta de fazer seu ninho. Integra a família, as mulheres e as crianças trabalham na construção e integra o grupo na sociedade quando em regime de mutirão. Apesar de tudo isso é completamente ignorada pelos meios administrativos, considerada subabitação, não há nem mesmo linha de crédito nos órgãos do governo para casa de taipa. Marcos Freire, antes de morrer, estava tratando de corrigir esse lapso. Nas esferas “civilizadas” há dificuldade em compreender a taipa. Não há legislação nem a favor nem contra. Quando da construção de Carajás, Cydno realizou um projeto de moradias em taipa de pau-a-pique para os empregados, utilizando o fartíssimo material do lugar. Seu projeto não foi aceito e os tijolos, o cimento e o ferro viajaram de avião até Carajás. 
Na taipa não há desperdício de material e nem agressão ecológica, a madeira usada nas estruturas é em quantidade cinco vezes menor do que a necessária na queima de tijolos para uma parede das mesmas dimensões. “A tomada de consciência ecológica, surgida como uma ponte de luz no extremo mais estreito do túnel da crise de energia, vai servindo para provar-nos que nem sempre o habitat humano está condenado a ser feito de concreto, aço e vidro. Assim, quando tudo em arquitetura parecia dirigir-se para uma negação sempre maior da natureza que volta a oferecer uma saída diante das agruras da crise. E o faz com aquilo que lhe é primeiro e essencial, a terra, o elemento mais fecundo de tudo o que nos cerca”, escreveu o arquiteto Roberto Pontual.
Quando, nos anos 1930, Lúcio Costa projetou uma vila operária, em Monlevade, toda em taipa de pau-a-pique, escreveu: “...faz mesmo parte da terra, como formigueiro, figueira-brava e pé-de-milho – é o chão que continua... Mas justamente por isso, por ser coisa legítima da terra, tem para nós, arquitetos, uma significação respeitável e digna, enquanto que o pseudomissões, ‘normando ou colonial’, ao lado, não passa de um arremedo sem compostura”. E aconselha: devia ser adotada para casas de verão e construções econômicas de um modo geral. É uma técnica muito mais barata, atende aqueles casais remediados que desejam uma casinha de campo. O projeto de Lúcio Costa, claro, não foi aceito pela Belgo Mineira.
O Cydno vai projetar a minha casa de taipa. Vou querer na casa uma lareira, um fogão a lenha e uma vassoura daquelas de gravetos. Uma árvore frondosa por perto, pode ser flamboyant, um gramado na sombra para piquenique, contemplação ou leitura. Também dizia meu pai, nas coisas mais simples está o sentido da vida. 


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

"O que é pós-verdade" (parte 1), de João Soares Neto


Estou estudando o adjetivo pós-verdade (post-truth), considerado pelos Dicionários Oxford, da Universidade de Oxford-Inglaterra, como a palavra do ano de 2016. A expressão pode ter sido criada em 1992 pelo sérvio Steve Tesish, dramaturgo. O que me alerta é o dístico  da Oxford ser Dominus illuminatio mea, a nos remeter ao Salmo 27.
Agora, ninguém nos ilumina. Vejamos o que o  dicionário  Oxford  diz sobre a pós-verdade: “Um adjetivo que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm  menos influência em moldar a opinião pública do que o apelo à emoção e as crenças pessoais”.
 Desejo historiar – audácia minha – acerca desse fenômeno que se difundiu de forma exponencial em camadas cultas, na área filosófica e na política de grandes jornais.  
A aceleração da divulgação da pós-verdade decorre das divulgações em todos os modais da internet (e-mail, whatsApp, facebook, instagram, blogs etc) e das mídias convencionais que se renderam ao uso.
Refleti, e resolvi pedir a amigos doutos que dissertassem sobre o assunto. Esta é a primeira parte. Alguns pedem para não citar o nome. Respeito. Direi algo sobre a formação de cada um:
Um PhD em História: “Já é tão usado aqui. Ninguém que escreve bem o usa.  Mas meu neto adolescente – já sabe tudo –, ontem, ficou assustado se isso seria uma palavra que não existe. Nem a sua máquina falante, nem seus amigos nos EUA a conhecem.  Quer dizer, quando você escrever sua coluna sobre essa palavra, o uso dela vai revelar para muita gente no Brasil uma novidade. Nós, aqui, na Alemanha, estamos curiosos. O físico e filósofo suíço Eduard Kaeser vê na era postfaktisch o perigo de uma “democracia de uma sociedade que não quer saber nada/prefere ficar ignorante dos fatos”, como consequência da avalanche de informações no mundo digital, a diluir padrões essenciais e básicos como a objetividade e a verdade.
O estilo de fazer política de Trump muitas vezes é entendido como post-truth.”
Um Romancista: "A filosofia sempre se ateve a discussões sobre o significado da verdade, da justiça, da ética, dentre outros termos de não somenos importância para a condição humana. Em 2016, a pós-verdade ganhou destaque. No mundo moderno agitado e movido pelas redes sociais, a verdade perdeu status, cedendo espaço para a pós-verdade. O que se posta adquire significado de verdade quase absoluta, quase incapaz de ser desmentida ou questionada. Curiosamente, a pós-verdade está aquém da própria verdade, e não além, como o termo supõe".
 Ednilo Soárez, historiador: "A expressão pos-truth pode ser uma consequência do universo que vivemos nas comunicações digitais, nas quais as pessoas não se conformam mais em ser apenas “figuração”. Quase todas aspiram ao papel de protagonistas, daí, querem interpretar os fatos lastreados nas suas emoções, dando-lhes suas interpretações próprias". 
Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes, PhD, emérito da UFC: “Não sei para que inventar um ‘conceito’ novo se estamos em face de fenômeno tão antigo. Em seus processos cognitivos, a humanidade sempre se debateu com a intervenção dos aspectos emocionais, cuja importância de fato é imensa, pois que razão pura só existe na cabeça de Kant ou é como água destilada, que é pura, mas ninguém bebe.
Estou mais ou menos convencido de que esse rótulo de pós-verdade aguarda sua vez na lata de lixo da História, visto fazer parte de muitos outros ‘pós’ que andam por aí a poluir o ambiente.
Todavia, louvo seu esforço em busca de esclarecimento. Mas não se esqueça da palavra de Max Weber, em sua célebre conferência Wissenschaft als Beruf (1917): ‘Pois nada que ele não possa fazer com paixão tem valor para o homem enquanto homem.’”
Este não é o final.  Temos outras reflexões a apresentar. Aguardem.


sábado, 28 de janeiro de 2017

"Dia do Quadrinho Nacional - Gustavo Barroso: Herói?", de Raymundo Netto para O POVO


Oscar, personagem de Gustavo Barroso em O Tico-Tico (1908)

Dia do Quadrinho Nacional
Gustavo Barroso: herói?

No Sul e Sudeste do nosso país, pesquisadores e aficionados do universo dos quadrinhos se perguntam: seria realmente um brasileiro o criador do primeiro super-herói do mundo? Não me interessando em desfiar a polêmica, o que tenho a acrescentar é que esse brasileiro é um cearense e que se chama Gustavo Barroso (1888 – 1959). Sim, um dos escritores que mais produziu obras no país – cerca de 128 –, entre contos, romance, poesia, crítica, estudos, ensaios, além de cenografia, xilogravura, caricatura e... histórias em quadrinhos!
No período em que podemos constatar a participação de Barroso na “O Tico-Tico”, primeira revista em quadrinhos brasileira, esse rapazola de apenas 20 anos, aluno da Faculdade de Direito do Ceará, colaborava em periódicos não apenas em Fortaleza, onde residia, mas no Rio de Janeiro, como ele mesmo nos diz em seu “O Consulado da China” (1941): “Enviava caricaturas e trabalhos literários a jornais e revistas do Rio de Janeiro [...] A ‘Careta’ estampou vários contos humorísticos meus [...], entre 1907 e 1910. De fins de 1908 a princípio de 1909, a primeira página de ‘O Tico-Tico’ foi tomada pela história ‘O Anel Mágico’, ‘textos e ilustrações de João do Norte’ [em vez de ‘João do Norte’, pseudônimo usado por Barroso em algumas composições, vemos a sua assinatura ‘G. Barroso’] que fez as delícias da meninada daquele tempo, segundo o depoimento pessoal de Luís da Câmara Cascudo [...]”
Sua estreia se deu na “O Tico-Tico” nº 161, Ano IV, numa quarta-feira, dia 4 de novembro de 1908, estampando a capa da famosa e popular revista com o seu “O Anel Mágico”, narrativa em capítulos, que, em 1924, seria publicada na íntegra sob o título “O Anel das Maravilhas”, talvez a primeira graphic novel nacional, mais tarde um dos prêmios ofertados em concursos pela própria “O Tico-Tico”.
Mas do que se tratava tal história? Conta o narrador existir num tempo distante um reino dominado pela mais absoluta paz. Ali, as pessoas entravam e saiam com a maior liberdade, bastando atravessar uma pesada ponte levadiça que há anos não se via sair do chão. O seu soberano era o bondoso e justo rei Canuto XXX, pai do casal: Borboleta (19) e Oscar (18).
Entretanto, no entorno do reino, havia outro, tenebroso e horrendo, regido por Higino, um gigante feroz que, sabiam, possuía um anel mágico que lhe conferia grande poder. Um dia, não tão belo, o gigante deu pelo encanto da princesa Borboleta e decidiu tomá-la como esposa, claro, ansiando também pela riqueza do rei Canuto que, certamente, rejeitou a proposta do vilão.
Higino, furioso, convocou toda uma legião de espíritos do mal que, em covarde investida, avançou sobre as muralhas despreparadas do castelo e matou um a um de seus habitantes, com exceção de Borboleta, agora prisioneira na torre, e de Oscar, o nosso herói, que mesmo ferido consegue escapar na densa floresta onde encontra a fada Mariposa. Ela, então, revela ao cavaleiro que a única forma de ele libertar a irmã é conseguir se apoderar do anel mágico de Higino, oculto na torre do cume da montanha Zohnomin, guardada pelo terrível dragão Pyrogrulos. Para tal cruzada, a fada oferece relíquias mágicas: um carbúnculo (talismã), um cavalo (que não se alimenta) – não sei o porquê do cavalo, pois Oscar voa em estrelas, águias gigantes, entre outros seres fantásticos – e uma espada (que nunca perde o fio). Depois, aponta o primeiro de uma série de obstáculos que terá de desafiar para conseguir encontrar a irmã, vingar a morte do pai e derrotar o gigante de uma vez por todas. De posse do carbúnculo, no caminho mostrava-o a seus aliados, como o duque da Prata, guardião da Porta de Ouro, a rainha Batrachia, senhora da Lagoa dos Encantos, São Pedro – que o ensinaria a vencer o dragão –, o rei dos cometas, Volantina, a rainha das águias, entre outros. É curioso perceber que aquele jovem e talentoso jornalista criou e quadrinizou – ilustração, roteiro e história –, há mais de 100 anos, uma narrativa de fantasia que hoje impulsionaria best-sellers e a bilheteria de cinemas...



sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

"As Flechas de Sebastião e o dia T de Trump", de João Soares Neto


É hoje, 20 de janeiro de 2017, a data em que o Rio de Janeiro, em pleno verão, se esbalda pelas praias e morros face o feriado pela morte de são Sebastião, duplamente festejado pelos católicos e umbandistas. Viva Oxóssi.
 São Sebastião, século IV, possui história controversa. Na iconografia em que aparece preso a uma árvore e flechado, não foi o dia de sua morte. Conta a história que uma mulher, Irene, o viu exangue, retirou as flechas, uma por uma, e o curou. Irene virou santa Irene. Sebastião voltou ao rei Diocleciano e o afrontou.
Assim, pela segunda vez, o monarca mandou exterminar, a pancadas, o intrépido combatente da fé. Morto, jogado aos esgotos de Roma.
Voltando ao Rio: reza a lenda que são Sebastião, espada em punho, teria lutado quando da expulsão dos franceses. Os padres Anchieta e Manoel da Nóbrega, o fundador do Rio de Janeiro, Estácio de Sá, com a ajuda milagrosa dos gentios e de são Sebastião (que desviava as flechas desferidas pelos índios tamoios, aliados dos franceses) conseguiram, enfim, retomar a cidade dos calvinistas huguenotes, em um dia 20 de janeiro.
 A cidade é, entretanto, chamada de são Sebastião do Rio de Janeiro, desde 1565, em homenagem ao monarca d. Sebastião I (introdutor do sebastianismo, mas isso é outra conversa). O povo, até hoje, vela e acredita na espada milagrosa de são Sebastião.
Em razão disso, e por ser feriadão a prenunciar longo dolce far niente nas praias e nos morros, nos botecos e nas tabernas no Rio, de todos nós, o povo estará tomando cervejas e cachaças com tira-gostos de todos os tipos, esquecendo os dramas brasileiros e as dívidas do governo Pezão. Saravá.
Enquanto isso, neste mesmo dia, a bela esplanada da capital dos Estados Unidos, Washington, D.C, planejada com arrojo e classe pelo arquiteto francês Pierre Charles L’ Enfant, inaugurada em 1800, estará recebendo a cerimônia pública da posse do Trump, como o 45º. presidente dos Estados Unidos. Tudo será visto ao redor do mundo, inclusive no Rio, e mostrará temperatura de 40 graus, com possibilidade de chuva, e vento frio soprado do Rio Potomac.
Não devemos antecipar como será a cerimônia, mas nos cabe, neste dia, torcer para que os espíritos de A. Lincoln, G. Washington, H.Truman e do imolado J.F. Kennedy possam sobrepairar, tal como são Sebastião fez com o Rio de Janeiro, e dar ao novel ocupante da Casa Branca o equilíbrio necessário para a condução dos Estados Unidos, neste mundo em que qualquer nerd ou fanático pode precipitar acontecimentos indesejáveis.
Que as trombetas deem discernimento e equilíbrio a Trump. Na maturidade dos seus 70 anos, recostado nos novos travesseiros e colchão da suíte presidencial, invocar os antepassados ocupantes daquele aposento, ora retrofitado. Possa, enfim, dormir em paz e acordar ciente das duras responsabilidades que lhe cabem pelos próximos quatro anos.
Good Luck!  


sábado, 14 de janeiro de 2017

"Feliz por Tudo, por Nada e Platão", crônica de João Soares Neto


Vou ficar contente por estar vivo, por morar em um país em que não há terremotos e avalanches de neve, as novelas de TV são picantes e coloridas, há bons jogos de futebol onde as torcidas são animadas, mas corteses. Vou usar o grande tempo em que passo dirigindo para ouvir as músicas pacientemente escolhidas: Tiririca, Wesley Safadão e duplas sertanejas.
Tampouco, reclamarei se me oferecerem água “mineral” a R$1,00 a garrafa batendo no vidro do meu carro. Tirarei fotos dos comedores de fogo, dos esquálidos meninos acrobatas com roupas esfarrapadas e dos afáveis “flanelinhas” sempre risonhos, com suas bisnagas e apetrechos.
Escolhi “A Voz do Brasil” como programa de rádio favorito ao começo de cada noite. Aos domingos, optarei pelo Faustão, tão bem vestido, educado e legítimo representante do humor cordial. Ouvirei prédicas em emissoras pentecostais e as compararei com as suas congêneres católicas.
Anotarei todas as contas bancárias para onde deverei mandar dízimos e comprarei terços, medalhas e imagens pela internet. Estou pensando seriamente em fazer uma nova excursão à Terra Santa, quando arriscarei fazer as pazes entre alguns judeus e palestinos.
Na volta, pararei em Roma onde há um curso sobre “Desburocratização do Vaticano”. Gravarei esses ensinamentos e repassarei para alguns coachings, exímios resolvedores de problemas empresariais, familiares e pessoais.
Pagarei, sem reclamar, os juros altos do meu cartão de crédito e ficarei feliz em colaborar para o desenvolvimento do sistema bancário brasileiro, tão solidário com o povo sofrido.
Ouvirei palestras de ex-diretores do Banco Central e me encantarei em ler artigos de ex-detentores de cargos públicos, sempre disponíveis para solucionar os fáceis problemas que encontraram e não resolveram.
Acreditarei em todas as reformas propostas e aplaudirei os que, aos domingos, tomam banho de sol na avenida Paulista. Uns de bicicleta, outros empurrando carrinhos de bebês que não choram e até aquele ex-bancário gorducho sentado na velha espreguiçadeira deixada pela tia setentona abrigada em excelente casa de repouso para idosos.

Nada de falar de Gramsci, Marx, Deleuse e Guattari, dou a palavra a Platão na República, quando diz: “aquele que verdadeiramente gosta de saber, tem uma disposição natural para lutar pelo Ser, e não se detém em cada um dos aspectos que existem na aparência, mas prossegue sem desfalecer nem desistir de sua paixão, antes de atingir a natureza de cada Ser em si”. 
Falou!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

HOJE (12/01): Roda de Conversa: “A Encantadora Alma das Ruas”


HOJE: Roda de Conversa: “A Encantadora Alma das Ruas”
Data e Horário: 12 de janeiro de 2017 (quinta-feira), às 14h
Local: Biblioteca Pública (Espaço Estação)
GRATUITA e aberta ao público.
Saiba Mais:
Jorge Gouveia, em situação de rua, criador e agitador do Movimento Loucos por Praças, Parques, RUAS e Cultura e do Coletivo Cultural Poeta Mário Gomes, coordena a roda de conversa "A Encantadora Alma das RUAS" (título do livro de João do Rio, famoso jornalista e membro da ABL), com a presença de estudantes do ensino médio da Escola Prof.  Plácido Aderaldo Castelo, do Conjunto Ceará, e de moradores de RUA,  integrantes do Movimento e do Coletivo Cultural Poeta Mário Gomes. A iniciativa foi do prof. Marcos Vinicius.
Na ocasião, o Movimento e o Coletivo lançarão mais dois projetos:
1- Biblioteca "Peregrina", ou seja, itinerante, em um carrinho de catador de lixo.

2- O jornal dos moradores de rua, denominado “A Sopa, o Pão e o Papelão”.

sábado, 7 de janeiro de 2017

"Carta Cansada", de Raymundo Netto para O POVO


Veio-lhe a carta. Poderia ser qualquer uma, mas não, esta era cansada. Exaurida de lágrimas, qualquer resto delas, de fadiga ou de tédio, palavras em desalinho, opressas a batidas quase surdas de um coração ferido.
Ele, nem mesmo para si guardava a dúvida: de nada sabia do amor. Numa arrazoada assertiva o teria como um horizonte distante e inalcançável, como mentira, eternamente paralelo à vida, pelo menos a dele.
Não por isso negasse dias ter pela remetente sacrificado a palavra inda quente entre os dentes, nem sabia o porquê. Seria de mais grado a ambos deixar-se vomitar o “eu te amo”. Mas qual. Fitava-lhe os olhos de âmbar e o sorriso de menina.  Guardava na polpa dos dedos aquele desejo, quase em súplices joelhos, em forma de impressões e ardor da pele dourada. Buscava no lóbulo da orelha sob o cabelos furiosos o corpo que se expandia num abraço de acolhê-lo todo e inteiro – carne, alma e algo mais indescrito – em noites intermináveis de sempre ter um capítulo de fim. Agarrava-se aos cabelos como a tomá-la para si, para dentro de si, beijando-lhes os olhos para não cair de suas lembranças.
No escuro, sua voz ainda corria a curva dos ouvidos: “Eu tentei... ‘Morri no ano passado, mas nesse ano eu não morro’. Talvez eu tenha entendido ter chegado a hora de não querer mais entender. Seja feliz e adeus.”
“Adeus”, repetia, desbastando em retalhos as memórias que lhe vinham uma a uma, atravessando o peito e saltando do trampolim sobre as águas de malogrados esquecimentos.
Noutros dias, ao beijar outra mulher, sua boca estranhou o incômodo da boca distante. Seus dedos, como se perdidos no chão, procuravam encontrar no corpo alheio as mesmas e aquelas impressões e ardores que repousavam à pele dourada. Entretanto, nada encontraram, volvendo-se a noite em escura e desértica. A sua ausência materializou-se e desabou em chuva, a revelar no espelho que o seu pior castigo nem era ser ele mesmo, mas viver sem o perigo daquele abraço.
Do vizinho, uma radiola arranhava em long-play antigo: “entre os defeitos que tenho um é gostar de você.”
“Conte-me uma história...”, indicava no silêncio delicado, enquanto na fúria dos azuis do luar ela despedia-se num abraço calcado quase em morte, em solidariedade de vazios e de saudades, num frouxo rompante:
“Eu te amei, eu te amo, não te amarei nunca mais!”