sábado, 23 de julho de 2016

"Arraia: de volta para casa!", de Raymundo Netto para O POVO




O Sol reluz ardente e, ainda assim, insisto em mirar na manhã uma arraia colorida a riscar de surpresa um meu caminho (perdido caminho, escolhido sem quereres).
Por vezes empanada entre nuvens cândidas e melancólicas, ela baila frouxa sobre o suor das rugas em meu rosto (cicatrizes de sonhos), a se amostrar, como a reconhecer-me (eu me lembro dela, mas lembro pouco de mim).
Desce, sobe, se esquiva e desce de volta (eu estou de volta, mas para onde?), como uma rainha dos céus, onde residem os espíritos e o espelho de todas as paixões.
Com o dorso acalentado pela névoa azul, caminha ela, em sorriso largo e inocente, sem limites, nesses ares (mesmos ares), arqueando a sua espinha sinuosa, deixando um rastro lembrançoso no coração (o que foi que eu fiz?).
Embalado numa corrente de perguntas e desejos esquecidos, aprecio cada um de seus instantes e sinto que ela sorri para mim (já faz tanto tempo...): “Como eu gostaria de voar com ela, de ser como ela, de não tê-la esquecido!”
Em um repente, emenda uma mesura rápida e se aproxima vaga e desembaraçadamente como um beijo (minha mãe). Já é hora de partir. Ela sabe...e ela sobe. Pois há no céu outra igual, não tão bela nem tão feliz, a recusar a convivência nas extensas terras celestes. Então, a vejo se defender numa disputa sem razão que prossegue delirante lá no alto (por que me deixei estar tão distante?).
Ao final, foi ela, a minha rainha, perversamente malferida pela rival: “Ela está caindo! Ela está caindo!”. Desespero-me! Mas não tem por que, pois, ao olhar para o lado (e bem no fundo, no fundo...), descendo pela rua, um fiel séquito de crianças – Netinho, Luiz, Lice, Mi, Thetê e Dedé (o que será deles?) – corre entre berros alegres, acenando-lhe em socorro e em amores.
Eles irão ampará-la e dar-lhe abrigo. Eles sabem que ela é, sim, a mais bonita. Sabem que chegou a hora de ela subir e de ser livre outra vez. Eles sabem (e sonham), mais do que eu, que ela é uma estrela única, e, como tal, deve erguer-se, alçar seu rumo, pois no céu não há barreiras, a vida é inteira e o tempo não passa (o meu passou) nunca mais!


terça-feira, 19 de julho de 2016

"História dos Jogos Olímpicos", de Airton de Farias (GRATUITO para download)


"Não bastasse a monumental Uma História das Copas do Mundo com que o historiador Airton de Farias nos brindou às vésperas do torneio no Brasil, em 2014, eis que agora os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro são precedidos por outra obra do mesmo autor e do mesmo valor.”
Juca Kfouri
A editora Armazém da Cultura traz duas excelentes notícias para você.
A primeira é que o historiador Airton de Farias lança, pelo Armazém da Cultura, o livro inédito História dos Jogos Olímpicos, obra que reúne conhecimentos relevantes que o fará assistir a grande festa das Olimpíadas além das emoções, enriquecido(a) por uma leitura que poucos historiadores seriam capazes de contar.
E o melhor: com apresentação de Juca Kfouri, ilustrações do artista plástico e visual Mário Sanders e projeto gráfico de Suzana Paz, a obra está disponível GRATUITAMENTE para download em formato de e-book.
Mas para exercitarmos a nossa cidadania e a nossa responsabilidade cultural, nada melhor do que podermos contribuir voluntariamente COM QUALQUER SOMA para pagamento dos direitos autorais.
No botão 1 você faz o download da obra e no botão 2 você exercita sua responsabilidade cultural.
A seguir o link da página.

Parabéns ao Armazém da Cultura e ao prof. Airton de Farias pela democratização do acesso às informações da história das Olímpiadas.

Divulguem, curtam e compartilhem!


"História dos Jogos Olímpicos", de Airton de Farias (GRATUITO para download)


"Não bastasse a monumental Uma História das Copas do Mundo com que o historiador Airton de Farias nos brindou às vésperas do torneio no Brasil, em 2014, eis que agora os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro são precedidos por outra obra do mesmo autor e do mesmo valor.”
Juca Kfouri
A editora Armazém da Cultura traz duas excelentes notícias para você.
A primeira é que o historiador Airton de Farias lança, pelo Armazém da Cultura, o livro inédito História dos Jogos Olímpicos, obra que reúne conhecimentos relevantes que o fará assistir a grande festa das Olimpíadas além das emoções, enriquecido(a) por uma leitura que poucos historiadores seriam capazes de contar.
E o melhor: com apresentação de Juca Kfouri, ilustrações do artista plástico e visual Mário Sanders e projeto gráfico de Suzana Paz, a obra está disponível GRATUITAMENTE para download.
Mas para exercitarmos a nossa cidadania e a nossa responsabilidade cultural, nada melhor do que podermos contribuir voluntariamente COM QUALQUER SOMA para pagamento dos direitos autorais.
No botão 1 você faz o download da obra e no botão 2 você exercita sua responsabilidade cultural.
A seguir o link da página.

Parabéns ao Armazém da Cultura e ao prof. Airton de Farias pela democratização do acesso às informações da história das Olímpiadas.

Divulguem, curtam e compartilhem!


sábado, 9 de julho de 2016

Projeto EscrevLer, de Jorge Pieiro, enquete e módulos. PARTICIPE!


Imagem: Xilogravura nº 159 da obra Mein Sudenbuch (Munique, 1919), de Frans Masereel.

O renomado escritor Jorge Pieiro* desenvolve o instigante Projeto EscrevLer. Para isso, à guisa de enquete, apresentou algumas perguntas de interesse.
Convido aos amigos e amigas que quiserem colaborar com enquete, que a respondam via inbox do Jorge: https://www.facebook.com/jorgepieiro1?fref=ts
Ou pelo e-mail: jorgepieiro61@gmail.com
Para quem tiver interesse em PARTICIPAR do Projeto (os módulos apresentados a seguir), as vagas estão se encerrando.
Vamos à enquete:
Você gostaria de participar de grupos para:
- vivenciar leituras com textos literários de autores modernos e contemporâneos?
- interagir analiticamente com imagens e textos literários para produzir novos sentidos?
- realizar audições de composições instrumentais em contraponto com textos literários?
ou, talvez,
- trocar ideias e receber orientações em torno de produções autorais literárias?

O Projeto EscrevLer é uma iniciativa do escritor Jorge Pieiro, destinada a leitores, mas também àqueles que intentam caminhar pelas sendas da escrita autoral.
EscrevLer compõe-se de quatro módulos independentes que, juntos, constituem um largo espectro de recepção de sentidos e exercício da criatividade, além de proporcionar momentos de troca de experiências e de audição/leituras em várias modalidades. São eles:
1. Módulo CP: O Corpo da Leitura;
2. Módulo NI: Narrativas Imagéticas;
3. Módulo PS: As Palavras do Som; e
4. Módulo rCD: A (re)Construção dos Dizeres.

O três primeiros módulos são coletivos, com turmas entre 12 e 16 participantes, a que denominamos Leituras Afetivas; e o último, individual, específico para quem escreve textos literários ou pretende desenvolvê-los.
O Projeto EscrevLer visa ampliar a motivação dos participantes para o recondicionamento ou o desenvolvimento das percepções literárias e extraliterárias e para a busca de novos contextos e de novos sentidos.
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INFORMAÇÕES MAIS DETALHADAS VIA INBOX
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(*) Jorge Pieiro iniciou-se nas letras em 1977, no jornal Kuandu, em Limoeiro do Norte. É escritor, ensaísta e produtor cultural. Tem vários livros publicados e premiados. É incluído nas antologias Geração 90: Manuscritos de Computador e Geração 90 – Os Transgressores, pela editora Boitempo, organizadas por Nelson de Oliveira, entre outras. É editor da CAOS Portátil: um almanaque de contos. Colaborou em jornais como O POVO e revistas do Brasil e do exterior, com ensaios críticos, resenhas, traduções, relatos e experiências fragmentárias, além de ter trabalhado no Ministério da Cultura e promovido e ministrado diversas oficinas literárias.


sábado, 2 de julho de 2016

"Sem Futuros", de Raymundo Netto para O POVO


Futuro... O que esperar dele?
Muitas pessoas devotam horas e anos de sua vida na expectativa de virar a esquina e dar de cara com esse ser imaginário, quase um dragão a queimar as ventas e a gravar em tábuas de pedra – que decerto se perderão em braços de anjos – aquelas respostas acumuladas num sótão da vida sobre o seu venturoso porvir.
Outras, talvez tão equivocadas quanto as primeiras, acreditam realmente ter poder sobre o futuro, planejando e calculando cada milímetro de seu tecido entrançado, não apenas no elaborar de metas, mas acreditando piamente que tudo acontecerá no tempo medido, da forma moldada, como se tal futuro, ou seu primo, o destino, tivesse oiças para elas.
Há também aquelas cuja vida não lhes enchem os olhos, de maneira que a morte é o único futuro possível, desde que possa acolhê-las com pronta-entrega.
Desde pequeno, para mim, é como se o futuro não existisse! O que há é um hoje diário e insistente a reamanhecer preguiçoso e à noite ousar vestir-se de preto estrelado. É esse hoje de hoje que definirá o hoje de amanhã. Assim, o hoje se torna mais especial. É o que temos. É quem faz toda a diferença. Nada pode vir depois, se não vier a partir dele.
Para isso, no entanto, há um preço, ou mais de um, que são as escolhas que fazemos voluntariamente ou não durante todos os nossos hojes de uma vida.
Dizem que precisamos ter coragem para escolher, mas é preciso coragem mesmo é para suportar a dor da consequência dessas escolhas, pois seremos cobrados por elas e as consequências de nossa opção virão mais cedo ou mais tarde. Temos que contar com elas, caso contrário, seremos tomados por arrependimento e remorsos.
Em meus 49 anos, posso dizer que mereço tudo que não tenho. Cada coisa. No meu descaso natural, não planejo nada, não penso em futuro, não crio raiz, não acumulo posses, desconfio de tudo que seja “para sempre”, pois penso que o sempre, assim como o nunca, não existe, embora possa acontecer, sim, quase como um fenômeno.
Sou leal: como nos mesmos restaurantes e faço os mesmos pedidos. Saio com as mesmas pessoas e para os mesmos lugares, e, se duvidar, adoro reler livros e revistas. Gosto de fazer as mesmas coisas, embora não goste de rotinas.
O meu quitinetto é apinhado de coisas que não valem nada. E esse nada todo me é, e somente a mim, muito caro. E digo “caro” referindo-me à “moeda-afeto”, desvalorizada no mercado, mesmo quando raríssimo.
No meu afã de impedir que o tempo passe, todas as coisas são “plantadas” num lugar e dele não saem. Como fotografias. E eu respeito esses lugares, pensando duas vezes ou mais antes de trocar uma jarra de abacaxi por um micro-ondas ou um liquidificador.
Na minha casa, é como se todos os dias fossem iguais. Os hojes se encontram sem alarde ou pressa. Não sei usar agenda e, não fosse preciso, nem queria saber que dia seria hoje.
Por distração, sento-me no corredor e me passa uma imagem indesejada de futuro. Nela, canecas, latas, garrafas, livros, HQs, CDs, fotos, porta-copos, bules, bibelôs, tampinhas de adoçantes e minha cadeira de balanço em palhinha – a “companheira” – são despejados pela incompreensão e pelo vão preceito de sua inutilidade.
Para mim, o tal futuro é um enigma maior do que a mega-sena, só iluminado pelo silêncio e vazio no fim de tudo, a ausência certa sem acenos de despedida.
“Como será o futuro?”, se me perguntam, nem me atrevo a chutar. Pensarei no amanhã somente amanhã, quando este dia, se chegar, vier vestido de HOJE, carregado de flores e/ou de espinhos, tão meus quanto a vida inteira que ele encerra.


domingo, 26 de junho de 2016

"Olha pro o Céu e pra mim, meu amor", crônica de Raymundo Netto para O POVO (no passado)


Publicado em Quando o Amor é de Graça! (EDD, 2019)

Anavã! Chegamos a junho, mês em que aconteci neste mundo, no meio do caminho, feito Pedro, ligeiro e cianótico, fugido de Natal, dependurado no bico de cegonha trapalhã e berrando: “Eu quero nascer é no Ceará!” 
Por isso, de não conhecer na Terra nada que me papoque mais as lembranças do que festas juninas, balõezinhos chineses, barraquinhas de palha de coqueiro, o cravo tinindo na castanha do pé-de-moleque ou a voz ecoada do Gonzagão em pagode russo na boate Cossacou: “Foi numa noite/igual a esta/que tu me deste o teu coração./ O céu estava/todinho em festa/ pois era noite de São João.”
Hoje, a cultura invasiva da sociedade do espetáculo sapucaicou as nossas festas, que deperecem ao afetado glamour e ao som de axé ou forró de plástico, que nem de longe imita o que nos fere a saudade.
Por outro lado, dia desses, ao me encostar em mesinha de plástico, numa praça em areias na rua do Sabão, onde se dava uma quermesse de igreja, olhava para o céu estrelado de bandeirinhas coloridas de papel, e recordava a animação dos bairros de uma Fortaleza interior, quando os jovens se aproveitavam das festividades para escolher como par de quadrilha aquele ou aquela a quem o peito devotava gemidos de paixão, mas era desencorajado de se achegar. 
Nos dias de ensaio e de preparação, porém, estariam juntos, mesmo que disfarçando o ribombar da emoção e o desafino típico de primeiro amor, mas de nunca sentir tanta alegria, cortando papel de seda de cor, colando com grude de panela bandeirinhas no barbante de corda, pedindo pelamordedeus que a mamãe não esquecesse de emendar aqueles retalhos na calça e na camisa ou mesmo de costurar o vestido florido de chita.
Afinal, o dia da festa, foguetório no ar: a rua de pedras toscas tomada de barraquinhas de jogos e tabuleiros de paçocas, baião de dois, espetinhos, vatapá, bolos, refrescos e aluá. A fogueira de lenha estalava faíscas nos olhos curiosos da meninada, enquanto os quadrilheiros chegavam: as “damas” com vestidos de babados e tranças caídas em laços de fita nos ombros, empunhando uma peneira de palha. Os “cavalheiros”, sob chapéus também de palha, ao pescoço lenço de cor, em camisas e calças rotas, bainhas tortas e alpercatas de couro. Encontravam-se os pares a ensaiar um passo diferente de “motocicleta”, “cavalo” ou “aleijado”. A moça, mais ousada, pintava a lápis o bigode, a costeleta, o cavanhaque no par desajeitado. Ele, a pretexto de lhe tocar o rosto, ali pintava uns três ou quatro pontos negros, deitando o olhar já cativo àquele sorriso que lhe parecia feito de luar.
Vinha lá o pai Francisco tocando o seu violão bi-rim-rim-bão-bão e o seu delegado. Após o casório, a quadrilha começava com anavãs, anarriês, balanceio, serrote, túnel, parafuso e passeio: “Lá vem a chuva!” “Olha a cobra!” 
As senhoras alimentavam de gás os candeeiros, enquanto o sanfoneiro, no resfolego do seu fole de oito baixos, convidava para o rapapé no salão, que ameaçava ir até amanhecer e a palha voar. Enquanto isso, o cavalheiro, com o coração molinho, molinho, despontava um inocente “Olha pro céu, meu amor, veja como ele está lindo...”, sendo acolhido por um beijo de assalto “tão bonito e tão sincero feito festa de S. João”.


domingo, 19 de junho de 2016

"Cronologia Comentada de Juvenal Galeno", de Raymundo Netto, por Miguel Leocádio Araújo Neto



Alguns anos atrás, a obra de escritor romântico cearense Juvenal Galeno foi publicada na íntegra, em vários volumes, pela Secult, na Série “Memória” da Coleção Nossa Cultura. Não tenho todos os volumes, mas alguns somente; e recentemente ganhei de presente do Raymundo Netto essa Cronologia comentada de Juvenal Galeno, por ele escrita e organizada, fazendo parte da Obra Completa de Galeno.
O livro é todo ilustrado com uma iconografia sobre o poeta cearense. Nele se verão reproduções de desenhos, pinturas, esculturas, fotografias, capas de primeiras edições, partituras, documentos etc.
A cronologia vai da data de nascimento de Juvenal Galeno (1836) até a restauração da Casa de Juvenal Galeno (2010 – aliás, casa milagrosamente mantida íntegra no Centro de Fortaleza, ali pertinho do Teatro José de Alencar). Em linguagem objetiva, o organizador e autor da Cronologia também reproduz documentos, poemas e outros textos interessantes para a compreensão da importância das datas no percurso da vida e do alcance da obra de Juvenal Galeno.
Para quem estuda literatura cearense, mais especificamente a obra de Galeno, a Cronologia é uma importante fonte de pesquisa.

NETTO, Raymundo. Cronologia comentada de Juvenal Galeno. Fortaleza: Comercial, 2010.

sábado, 18 de junho de 2016

"Lama versus Areia: histórias compartilhadas", de Raymundo Netto para O POVO


Em uma época em que o lamaçal no país toma-nos às ventas, provavelmente por não termos outras questões mais prioritárias e emergentes a resolver, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/CE), por meio de sua Comissão de Liberdade Religiosa, pronunciou-se, assim como também a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará apresentou Moção de Repúdio, contra a apresentação da peça “Histórias Compartilhadas: Ou dos corpos que não se bastam”, realizada durante o seminário “Conversas empoderadas e despudoradas sobre gênero sexualidade e subjetividades”, que teve sede no auditório da Universidade Federal do Ceará (UFC).
A imagem de uma fotografia postada em redes sociais em que o ator Ari Areia vertia gotas de sangue sobre um pequeno crucifixo, causou a cólera no coração imaculado de diversas pessoas que, sem assistirem à peça nem a contextualizarem no evento em que se discutia questões de gênero e no qual se falava exatamente sobre a intolerância e a discriminação aos transexuais, passaram a agredi-lo, ofendê-lo e até mesmo ameaçá-lo de morte. Alguns chegaram em sua sandice e fantasia dogmática a denunciá-lo à Santa Inquisição e comprar a sua passagem antecipada a um dos dez fossos do Hades dantesco.
A OAB, incompreensivelmente baseada apenas na visão estática da fotografia e no relato preconceituoso e intolerante de pessoas que também não têm noção do que se tratava a peça, chega a sugerir em seu pronunciamento que o ator poderia ter usado “outros personagens históricos” ao invés do crucifixo cristão (em entrevista à rádio O POVO/CBN, o representante de tal comissão, também preconceituosamente perguntava: “por que não o John Lennon?”). Faz-me pensar se haveria essa reação se ao invés do crucifixo estivesse ali o Buda, Maomé, Iansã ou o Preto Velho. Continuando, ela afirma solene: o “Cristo crucificado que representa para milhões de brasileiros vida, esperança, paz, amor”. Perguntamo-nos: as agressões e ameaças de morte que assistimos por parte dessa legião virtuosa e enfurecida representam mesmo vida, paz e amor?
O pronunciamento da OAB, aprovado por pessoas que por unanimidade não assistiram à peça (conforme afirmação do presidente da Comissão), ainda determina que existem limites para a liberdade de expressão. Ora, quem define esses limites? Delegamos esse poder a quem?
Agora entra em cena o Ministério Público, pede esclarecimentos, entre os quais: de quem partiu a ideia; se a direção se preocupou com eventuais afrontas à comunidade cristã; quem são os produtores e quais os contatos deles; quem autorizou a exibição do espetáculo; se possui filmagens; se havia autorização para ser exibida na UFC etc., numa desfaçado ensaio censurador.
Ouve o Ministério Público essa solicitação da OAB, no intuito de – soaria até engraçado isso – “restaurar o império da lei, da paz e da tolerância”. Paz e tolerância de quem? Daqueles que confortavelmente não estão nem aí para a violência diária e histórica sofrida por gays, lésbicas, trans e travestis, seres humanos que, segundo alguns deles, na sua autoridade religiosa suprema e pacífica, nem são “gente”, como infelizmente já tive o desprazer de ouvir? Justamente quando nessa semana foram eles os personagens-vítimas do pior massacre a tiros nos EUA?
Curioso é que o Brasil foi um dos países a gritar por LIBERDADE quando da execução, por muçulmanos TAMBÉM coléricos e intolerantes, da equipe do jornal francês “Charlie Hebdo”. Hoje, somos nós a querermos calar essa liberdade, quando em pauta deveria estar a maldade, a ignorância e a violência sofrida por aqueles a quem esses caiados fundamentalistazinhos desprezam e que se possível executariam, não fosse a falta de coragem. Graças a Deus!
Ora, OAB, MP e AL, a maior afronta contra o Cristo na cruz são todas as formas de racismo, preconceito e discriminação, pois “tudo que fizermos com o menor de nossos irmãos, faremos a Ele” (Mateus 25). 
E afinal, quem de nós está oferecendo a outra face, irmão? 




segunda-feira, 13 de junho de 2016

Lançamento "Meus Qu(eros)", de Ângela Escudeiro (15.6)



Lançamento
Meu Qu(eros)
poemas de Ângela Escudeiro
Data e Horário: 15 de junho (quarta), às 19h30
Local: Theatro José de Alencar
Atração:
performance poética com Raffael Barroso, Mara Nívia, Mai Puig, Renato Severo e os alunos do curso de teatro do Cuca Mondumbim
Sessão de autógrafos durante coquetel.

“Cuspi na face da lembrança o batom dos teus beijos/ E risquei no ar a mágoa com lápis de sobrancelha/ No sumidouro do palco de rua.” (Ângela Escudeiro)

Quero.
Querer é um ato de busca de completude. Quem quer algo ou alguma coisa se sente metade, ou menos do que isso, ou um pouco mais, e busca no objeto/ser querido preencher um vão qualquer entre as suas necessidades, sejam elas físicas, espirituais, compulsivas ou compulsórias.
Afirmar um “querer”, geralmente embaciado em um renque de escolhas, pode não ser fácil, e compreender o porquê desse querer se torna, quando estamos atentos, um disciplinar exercício de autoconhecimento.
A querência desenfreada pode, ainda, torturar, quando o objeto desejado carimba na alma o estigma do proibido ou do não dizível, o que faz esse querer parecer quase um crime ou uma obscenidade, entretanto encoberto na camisa de força da gula insaciável de diabéticos.
Vem-me daí a desassossegada lembrança de Pessoa: “Querer é não poder. Quem pôde, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer.”. Junto eu aos autos ou baixos da questão a mesma declarada impossibilidade do autor de percorrer a vida por inteiro, de ter a experiência de todas as coisas, lugares e de todos os sentimentos vividos.
Os versos de Ângela Escudeiro nos chegam no calor do seu instante, colhidos numa luminosa manhã de gostosa exaustão, com toda a intimidade de cobertas brancas, amarfanhadas, a revelar o colchão arfante de molas que expressam em gozo, a certeza de que “palavras às vezes queimam queimaduras em terceiro grau”.
E são justamente entre palavras tecidas e costuradas que encontramos a voz feminina de poeta independente na busca de seu prazer, a versar sobre seus quereres e querismos, a princípio em composições sensuais, com matizes de erotismo, “desalinhando sensatez dos pensamentos”, evocando e imprimindo sensações muito próprias do acolher ao peito – em um abraço “a abrir-se em pétalas” – à despedida: “Quero/Nesse dizer urgente/Qual carvão incandescente/ Riscar com giz a partida”.
A atriz-bonequeira, arte-educadora, escritora e diretora teatral, sentada à janela de sua Casa Creme, apresenta-nos seus qu(eros) em acervo rendoso e inumerável, sem ater-se a estéticas, métricas, ritmos, rimas, correntes ou pretensões, seguindo apenas, assim nos parece, o querer de um espírito absolutamente confessional: “Se não explodir/Sem rumo, voarei perdida/Qual gordo balão colorido/ E sem vida”.
O querer da poesia em si viola a vida – e que bela imagem poética seria violar a vida, não no sentido de violentá-la, transgredi-la, mas de colocá-la em viola –, ao tempo em que a humaniza, se for isso possível, assim como se fora possível haver a expressão da liberdade a partir da linguagem e do uso de palavras, que são “lavas que escorreram da boca de um humano vulcão”.
De cadeiras em espera à margem do riacho que percorre a obra, podemos observar vezenquando as estrelas, a montanha verde, a areia da praia, os peixes no mar, o céu em todas as suas tonalidades, as folhagens, o luar, a chuva, os bombons de marula e a sua nudez, a natureza inteira cantada e decantada pelo um seu coração que “bem que podia pelo menos ser de pedra-sabão”.
Para mim, não há dúvidas de que as mãos que apontam o caminho desses versos são manobradas por um coração calejado – isso, claro, se ele for apenas um, o que duvido muito –, sem temor, sem pejos e sem horas. Há muito mais por trás do escrito, como afagos, dor, ausência, tangerinas, lágrimas, dedos acariciados delongadamente, despedidas demorosas em tardes chuventas ou em bancos de praça, no mirar do revoo dos pombos despertados.
Para o leitor, buscando revolver em si as camadas das areias de sua rotina árida e apoética, no “infarto frio dos dias”, será possível se encontrar, deixar-se levar (também) pelo revoar das memórias esquecidas (ou esquecentes), com “fartura nas veias”, pelo desejo de querer querer e querer mais uma vez, nunca sem querer, como em viniciana sentença de que amar “é querer estar perto, se longe; e mais perto, se perto”
É querer, e... eu também QU(EROS)!

Raymundo Netto
leitor




Lançamento "Álbum de Fortaleza", pela Fundação Waldemar Alcântara (14.6)


Lançamento
Álbum de Fortaleza – 1931
(fac-símile)
Fundação Waldemar Alcântara
Data e horário: 14 de junto (terça), às 19h
Local: Palace Bistrô – prédio da Associação Comercial do Ceará
(rua Major Facundo, 30, Centro – em frente ao Passeio Público)
Apresentação: José Liberal de Castro
Informações sobre a Fundação:
(85) 3257.6927
fwa.org.br

Sobre o álbum de Fortaleza: edição fac-similar, com patrocínio do Banco do Nordeste, a obra compõe o acervo da “Coleção Biblioteca Básica Cearense”, projeto editorial singular da Fundação Waldemar Alcântara que, criada e coordenada por Lúcio Alcântara, desde 1997, vem resgatando títulos de relevante importância histórico-literário-documental de nosso estado, entre eles O Ceará, de Raimundo Girão e Antônio Martins Filho, a Revista Phenix (da Associação Phenix caixeiral), revista Fortaleza: revista literária, filosófica, científica e comercial, Libertação do Ceará e Cenas e Tipos, ambos de Rodolfo Teófilo, entre muitos outras obras raras.
O Álbum, que traz uma esplêndida e detalhada apresentação de Liberal de Castro, arquiteto, professor do Departamento de arquitetura da Universidade Federal do Ceará, da qual é um dos fundadores e um dos pioneiros na introdução dos princípios da arquitetura moderna em Fortaleza, traz enumerados e/ou fotografados fábricas, estabelecimentos comerciais, escritórios de profissionais liberais, bancos, jornais, cinemas, artistas, personalidades do governo e da sociedade da época, além de anúncios publicitários e artigos elucidativos sobre economia local.
Traz ainda diversos textos assinados por intelectuais e artistas do período, como Tomaz Pompeu Sobrinho, Humberto Rodrigues de Andrade, Guilherme de Souza Pinto, Martins Rodrigues, Antônio Sales, Elias Malmmann etc.
Foi organizado, na época, por Paulo Bezerra (jornalista, que, no período, morava em Barretos, São Paulo, voltando a Fortaleza com o intuito de criar seu Álbum) e teve como colaboradores Jorge Raupp, desenhista autor da capa em cores, Meton Gadelha, em cuja tipografia (Tipografia Gadelha) se realizaram os trabalhos de impressão, Manuel Guilherme, conhecido por M. Guilherme, desenhista que ilustrou as páginas do álbum, e J. Ribeiro,  fotógrafo cearense de projeção mundial (proprietário da Photo Ribeiro, da praça do Ferreira, recebeu do Ministério da Justiça e Negócios Interiores a Medalha de Ouro como “melhor retratista do Brasil” no ano de 1922).
É de justiça ressaltar o primoroso trabalho editorial de Sílvia Furtado e, sem dúvida, o empenho e o afeto do médico, político e membro da Academia Cearense de Letras, Lúcio Alcântara, na concepção de cada nova obra que nos chega por meio da Fundação que leva o nome de seu admirado pai, uma das poucas sedes culturais cearenses que nos apresentam resultados concretos de seu trabalho, justificando a sua existência e permanência.