terça-feira, 4 de outubro de 2011

"Quando o Amor é de Graça VI: Mãe Zena", crônica de Raymundo Netto para O POVO (5.9)



Mãe só se tem uma. Esta minha, para piorar, é uma idealista. A dona Zenaide estudava no Liceu ao tempo em que também cursava o Normal. Professorinha, recebia a troco denadica, em própria casa, os pequenos aprendizes “mal das pernas”, sem descuidar-se de ajudar sua mãe na criação dos irmãos — eram nove —, de fazer quitutes para venda no bar do pai e de estudar madrugada afora. Assim, ingressou na Faculdade de Odontologia. Aluna exemplar, honesta até dizer chega — não mente nem a pau — e toda pela Fé: se acredita, seja no que for, não tem quem a segure!
Boa parte de vida, Zena dividiu o consultório dentário com a casa de seis filhos barulhentos. Entrávamos e saíamos dele — à noite, brincávamos na cadeira da dentista a subir e a descer no “pedalo” — com dúvidas escolares e/ou domésticas, arengas ou mesmo para auxílio dos deveres de casa, ao pé da parede. Muitas vezes, éramos chamados para segurar os queixos dos pacientes no incisivo (ou molar?) momento do vaivém da extração.
De nunca reclamar da vida e de sempre dizer a toda hora e a todo o momento “Agradeça! Agradeça!”, desconfiava-lhe de algum temor ou tristeza quando ela, do nada, passava a cantar em voz de cantora de rádio: “Eu vivo a vida cantando, ai lili, ai lili, ai lou/ Por isso sempre contente estou, o que passou, passou.../O mundo gira depressa e nessas voltas eu vou/ cantando a canção tão feliz que diz ai lili, ai lili, ai lou/ Por isso é que sempre contente estou... Ai lili, ai lili, ai lou”
Lembro-me dela amolegando uns “capitães” no almoço dos seis filhos, ou sentada conosco no meio da estrada — viajávamos muito —, em garagens tisnadas de graxa e cheirando a gasolina, distribuindo galinha assada guardada em potes de alumínio, fazendo sanduíches de carne de lata, comprando fazenda para a costureira tecer nossas roupas de festa, ou fazendo das contas para conseguir pagar a prestação da casa.
Conselheira do povo, era sempre procurada diante das confusões de vida alheia. Tinha ouvidos para todos, além de palavras acalentadoras acolchoadas do amor a pesar no peito. Pudesse, colocava de um mundo dentro de casa.
Entretanto, à mesa da cozinha, sede de minhas melhores memórias, ao puxarmos assuntos banais, levantava-se sem ter nem para quê. Dizíamos: “Mãe, eu nem terminei...”. Ela respondia “Essa conversa não vai levar a nada. Tenho o que fazer”. Sempre teve, até hoje. Não para nunca a nossa baixinha.
Uma noite, coitada, para que eu não fosse punido no dia seguinte por não ter cortado o meu cabelo — estudava no Colégio Militar — decidiu ela fazê-lo. Errou o corte. Fez um “buraco” que, rapidinho — e rindo muito —, preencheu tascando-me à cabeça, com cola branca, o cabelo caído na pia. E não é que deu certo? Milagre de mãe?
Dia, uma senhora lhe disse perceber-nos, os filhos, carentes — não havíamos assinado a “procuração” —, pois ela não era de nos carimbar de beijos. Ficou grilada. Falou sobre com os filhos. Nem ela nem o pai eram dados a manifestações de amor, como beijos ou abraços. Não sabia. Faziam outros tantos absurdos por nós, mas não beijavam.
Já casado, com filhas, uma tarde, sol pegando fogo, a vi chegar à calçada. Estranhei: meus pais não são de visitas. Nem entrou. Nas mãos, um saquinho com farofa feito de casa, encimado por papelzinho “Netto”, escrito com letra cursiva, da mais linda que já vi. “Preparei a SUA farofa e trouxe, pois não sei quando você vai em casa, né?”. E se foi, "Felicidades", no passo ligeiro de passarinho — pernas pequenas, voos inimagináveis —, tinha muita coisa para fazer. Sempre tem. Ai lili, ai liliiii, ai lou.

Raymundo Netto. 
Contato: raymundo.netto@uol.com.br

Para assistir a um emocionante vídeo, em 1984, de um show, cuja roteirista era Maria Carmen Barbosa, filha de Haroldo Barbosa, autor da versão da canção germânica “Lili (Hi Lili, Hi Lo)”, e em que a cantora Gal Costa, com ajuda da plateia, a canta, acesse: http://www.vagalume.com.br/trem-da-alegria/lili-hi-lili-hi-lo.html

domingo, 2 de outubro de 2011

Programa "Diálogos": Ricardo Guilherme e Raymundo Netto


O programa de entrevistas “Diálogos”, produzido e transmitido pela TVC, com a mediação do ator, escritor e dramaturgo Ricardo Guilherme, recebeu o escritor e produtor cultural Raymundo Netto para um despretensioso bate-papo sobre coisas do tempo e das pessoas, da literatura e da vida.

Para assistir, só clicar:

Envie, caso queira, seu comentário.

sábado, 1 de outubro de 2011

Sobre "Depois do Sempre", de Alexandre de Lima Sousa, por Raymundo Netto



Depois do Sempre, terceiro livro de poemas de Alexandre de Lima Sousa, foi um dos contemplados pelo Edital do Prêmio Literário para Autor (a) Cearense da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, categoria POESIA, Prêmio Caetano Ximenes Aragão, em 2010.
Em sua apresentação de si mesmo, na orelha do livro, Alexandre já diz “poeta, letrista, leitor. Professor de Filosofia e quase cético. Minhas mãos, minha casa, minha rua, praia do Futuro, Fortaleza, você que está lendo, outras pessoas, nós.”
Assim, aponta-nos um “quase”, ainda bem senão não teria se inscrito num concurso público, nem suportaria a vida de professor, inda mais de Filosofia, ao mesmo tempo em que se coloca numa posição determinantemente coletiva, de inclusão, de acolhimento, em plena atitude poética.
Na capa, um envelope (de Rafael Limaverde). Seremos nós, todos nós, leitores, depois do sempre os seus destinatários? E o que isso significa para seu remetente a descrever seu livro como “recados recebidos das coisas, das instâncias, das passagens e das dispersões. Recados emitidos, retransmitidos, incididos no fora. Rol de atalhos, uma saída, pausa, descontinuando. Cadernos no começo. Em seguida Estado de Sítio. Depois do sempre é não mais o mesmo gesto e já outro enredo”.
Depois de Sempre é uma coletânea de ene poemas, divididos em 5 momentos denominados por seus títulos de abertura. Abre-se o livro, como deveriam ser abertos todos os livros, com “novidade”, onde afirma sê-la “é sempre a mais puída e esquecida dentre as demais camisetas que sob o efeito do fastio numa manhã de estio você resgata da gaveta.”
Percebe-se no texto, assim como nos demais que se seguem em fila de angustioso lirismo, além do minimalismo do autor, traduzido no que seus poemas curtos permitem ver, alter-ego de icebergs, o desprezo às vírgulas, aos pontos, às iniciais maiúsculas, o estado de reflexão sobre as coisas do mundo contextualizadas em seu cotidiano, em observações aparentemente corriqueiras, acentos que imprimem características de sua estilística ao mesmo tempo que aproximam o leitor da sua também realidade, identificando-se, conferindo-lhe verdade e humanidade: “o excesso da fumaça de gelo assim como embaça pode enfim reduzir uma fama à mera farsa” ou “Sono da avenida, janela em descanso, catalogação de tudo no espelho do olhar, a parte de um corpo à parte de um outro, duração do descompasso cotidiano e nunca” ou “Sou parte quase à parte de alguém que se passa por mim”.
Poderíamos falar sobre influências, mas sempre as penso como algo perigoso e inútil. Drummond, Bandeira, Gullar, Leminski, quem sabe? Nem precisamos saber. A beleza fala por si, tal qual retrato pintado com as tintas metafóricas: “Ao bailar a só e por si, em plena brisa, a libélula se deu à noite que nua de luar a face do breu silentemente alisa com uma das asas da dama sem par”
Chega-se ao esboço de um tratado. Vê-se a transgressão e a inquietude em Alexandre: “Um grão de areia significa nada e nada significa. Um cisco no olho pode vir a ser um tratado de metafísica”. Ou em seu “Ambíguo”: “Mas do que sou pareço ser”. Ou, simplesmente, o singelo trecho a dizer “quem dera fosse tão menos doce e tão mais mole a rapadura!” Aliás, para que a frustra tentativa de explicar os sentidos ou não da poesia, já que esta não se presta a etiquetas? Esta, sim, que não sabemos a que(m) servem ou a que vem, assim, como todas as artes sem serventia, como todos os ódios, como tudo que embaça a nossa vida. Assisto à confusão do poeta: “Quantas vezes errou o atalho, a palavra, o instante? Quantas vezes errou a nota, o acorde, o ritmo? Quantas vezes errou o bote, o alvo, a mosca? Quantas vezes errou o objeto, o desejo e a culpa? Sempre, sempre que foi uma besta, um homem ou deus.”
Percebe-se facilmente em sua leitura, e daí uma nota à parte, a capacidade imaginativa do autor, às vezes surreal, a sua ousadia, o imprevisto como manifestação artística na tentativa de supor a realidade: “Cala em mim, cada sim, como fosse não.” ou em “O eco pode até falar por si, é apenas uma questão de saber ouvir. Quando em vez, o torpor do respectivo brado descontinua no futuro silêncios do passado...” Ver também o seu dilema solucionado que afirma ou afirma-se: “Não diametralmente um mentiroso; tão somente poeta” ou “Mesmo cansado compus uma canção de ninar capaz de adormecer-me trinta anos atrás”
Mérito também do autor a trazer musicalidade nas paredes de seu verso de precisar ouvidos para ler: “Por onde passam pensares, as sombras destes já passaram” ou “Ária necessária e mais que necessária aos ouvidos. Silêncio. O ser do silêncio esvaindo em sustenido.”
A vida para o artista, em especial ao poeta, é sempre incompreensível. Uma luta diária num mundo artificial de quase plástico, sem muitas vitórias a serem ostentadas: “Sempre desconfio de quem pinta sem se sujar. Natureza morta, aquarela linha do mar. Autorretrato ou em qualquer composição é crucial que as tintas toquem as mãos.” Ou “Muito mais farsantes do que se suspeita, todas as verdades desmoronam ante as frases desfeitas por sob o silêncio naquele momento pelo qual se sabe não ser o suposto mar morto tão morto quanto presumimos, nem tão cristalino, este cristalino que cega enquanto vê.”
Bela ainda é a nítida fusão da imagem com a palavra: “Quando a palavra quando não se divisa, se vê a eternidade”. Ou em “O elefante não era um elefante. Era uma banheira bem cheia de sujeira e espuma.” Ou em  “Quem pode adivinhar os pensares do vento?” ou a invenção engenhosa, quase ou toda lúdica, de sua máquina de sumir: “Sua máquina de sumir consistia numa venda acolchoada com feltro negro confortavelmente cerrando os olhos por meio de um velcro da mesma cor”
Vento, sol, lua, noite, manhã, folhas, pássaros, rio, cogumelos, pólen, moscas. É a natureza impregnada em nosso de novo cotidiano que formula as hipóteses na azáfama laboriosa do autor deste livro leve como “murmúrio latente por entre a língua, o silêncio e os dentes”.
A diversa formatação e a construção de seus poemas também sugere a experimentação e a versatilidade, ou tentativa de não cristalização, da sua escrita. Mas, como próprio diz da estética: “se explicada, estática”.
Um dos elementos mais presentes em sua temática são o vento e o eco. Que bom, pois não dá para Depois do Sempre ainda sermos mais apenas os mesmos, o que vale para toda boa poesia, que o vento não leva e que ecoa no peito de muitos e muitos, o que já é mais que bastante para não se deixar esquecer e colorir a nossa vida.

Lançamento de "A Breve História da Padaria Espiritual", de Sânzio de Azevedo, em bate-papo com Socorro Acioli (3.10)



Breve História da Padaria Espiritual
(Edições UFC)
de Sânzio de Azevedo

Data: 3 de outubro de 2011 (segunda-feira)
Horário: 19h
Local: Livraria Cultura (rua Maria Tomásia, 531, Aldeota – ao lado do shopping Aldeota Open Mall)
Bate-Papo: do autor, poeta e pesquisador, Sânzio de Azevedo com a jornalista e escritora Socorro Acioli.

Sobre a Obra: Agora, Sânzio de Azevedo resgata uma dívida e entrega ao editor esta Breve História da Padaria Espiritual, que vem a ser uma versão concisa daquela tese de 1983. Resumida, mas ao mesmo tempo enriquecida com novas informações que o ensaísta coletou nos últimos anos, a Breve História enfeixa o essencial sobre os padeiros, suas fornadas literárias, sua estética e ousadias. O livro responde a uma demanda que se tornara premente. Era o pão que faltava no balaio da fortuna crítica que consagra o sodalício de Antônio Sales, Adolfo Caminha, Lívio Barreto, Rodolfo Teófilo, José Carlos Júnior...”
Ítalo Gurgel

Sobre o Autor: Sânzio de Azevedo nasceu em Fortaleza em 1938. Iniciou-se em jornais cearenses, mas publicou seus primeiros livros em São Paulo, onde residiu por seis anos e foi revisor d’O Estado de São Paulo. Licenciado em Letras pela UFC, nela exerceu magistério durante 30 anos. Em 1973, ingressou na Academia Cearense de Letras, em sua cadeira nº 1, cujo Patrono é Adolfo Caminha. Doutor em Letras pela UFRJ, teve como orientador Afrânio Coutinho. Seguramente, o maior pesquisador da Literatura Cearense, Sânzio de Azevedo publicou em diversas antologias, escreveu artigos e estudos para destacadas revistas e edições locais, nacionais e no exterior, além de apresentar vasta e diversa bibliografia, referência obrigatória para quem pesquisa na área. Citamos: Cantos da Longa Ausência (1966), A Padaria Espiritual (1970), A Academia Francesa do Ceará (1971), O Centro Literário (1973), Literatura Cearense (1976), Aspectos da Literatura Cearense (1982), O Modernismo na Poesia Cearense (1995), Para uma Teoria do Verso (1997), Cantos da Antevéspera (1999), O Parnasianismo na Poesia Brasileira (2004), Lanternas Cor de Aurora (2006), dentre outros.

Apoio Cultural

Edições UFC
Livraria Cultura

"Alfabetização na Idade Errada", BC Neto para a OPINIÃO de O POVO (30.9)



A divulgação do Censo 2010 revela que 13,9 milhões de jovens, adultos e idosos (ou 9,6% da população de 15 ou mais anos) não sabem ler nem escrever, despertando no Brasil a obrigação de dobrar o “ritmo de queda do analfabetismo”, e assim cumprir a meta assumida perante a Organização das Nações Unidas (ONU) que é de alcançar a taxa de 6,7% em 2015.
Acontecimentos mundiais em favor da eliminação do analfabetismo e elevação da taxa de escolaridade com vistas à melhoria da qualidade de vida e do aumento do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) têm levado autoridades da educação a refletirem sobre um dos mais desafiadores problemas das gestões modernas.
Mister se faz registrar inconteste conquista: pela primeira vez temos na história da educação popular do Brasil uma reserva humana apta a potencializar o País na perspectiva de resolver seu problema de analfabetismo.
Definido pela Unesco o 8 de setembro como Dia Internacional da Alfabetização de Adultos, a Organização passou a conclamar os países para desencadear movimentos na sociedade, respeitando-se a diversidade de concepções e modelos, envolvendo vários atores (governos, sociedades, universidades).
Há pouco assumimos a responsabilidade da orientação inicial e elaboração do projeto de alfabetização para a administração municipal. Com o título “Fortaleza: território livre do analfabetismo”, uma adequação do método cubano “Yo, sí puedo” à nossa realidade. Agora temos o prazer de apresentar uma nova visão, ainda mais avançada, para o MEC, com indicativo de interface com o Pronatec, amparados por experiências exitosas da alfabetização de jovens e adultos com caráter de educação contextualizada.
O programa propõe ser executado mediante o esforço conjunto de instituições públicas e privadas, constituindo-se uma proposta de educação de jovens e adultos para o programa Brasil Alfabetizado. São duas vertentes, integradas e complementares: escolarização e capacitação profissional, complementadas com atividades de ética e cidadania.
Tais fatos evocam conclusão inevitável: “a educação não tem idade”. Considerando a projeção de que a população de jovens, adultos e  idosos será de 154,9 milhões em 2015, o País deveria alcançar 10,4 milhões de analfabetos daqui a quatro anos. Será necessário um esforço muito grande para alcançar a meta afixada pelo Brasil com a Unesco.

PS: Sobre o título, não será demais concluir: qualquer idade é tempo para a alfabetização do homem. Cidadania é para todas as idades.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

"Gentilândia Sitiada", crônica de Pedro Salgueiro para O POVO (28.9)


Estádio Presidente Vargas, o PV, nos anos 40

Faz três anos que voltei a morar na Gentilândia (capital do Benfica), já havia residido por sete anos aqui na época em que eu era estudante. Peguei nestes dez anos um amor pelo bairro, principalmente pelo charme de ser um reduto boêmio, de muita diversidade cultural. Um recanto da cidade que cheira a juventude, a movimento estudantil, a futebol, devido principalmente à presença da Universidade Federal do Ceará (e seus vários equipamentos, como Museu e Rádio Universitários, Casas de Cultura, além dos inúmeros cursos de humanidades), Escola Técnica Federal (que todo ano muda de nome e sigla), Ginásio de Esportes Aécio de Borba e Estádio Presidente Vargas (o charmoso e querido PV).
A pracinha da Gentilândia é o coração do Benfica, o local para onde tudo (de bom e de ruim) do bairro conflui... Tudo mais cedo ou mais tarde acaba sempre na pracinha: manifestações culturais e políticas e (naturalmente) seus diversificados lazeres.
Acontece que diferentemente de outros bairros, a população deste essencial reduto de Fortaleza é, em sua maior parte, flutuante. São os milhares de estudantes (professores e funcionários) da universidade, da escola técnica e de inúmeros colégios públicos e particulares, são ainda outros milhares de desportistas que em pelo menos duas vezes por semana invadem suas ruas, são centenas de boêmios que se espalham diariamente pelos infinitos bares.
Então a população do bairro não é somente a que reside (como eu e quase toda a minha família) nele, e sim uma multidão de moradores de outros sítios, que frequentam suas ruas de madrugada a madrugada nos sete dias da semana.
Outro fator fundamental para entender a quantidade de problemas que assolam o bairro e que o fazem ser hoje um dos mais violentos (em assassinatos e assaltos e distribuição de drogas) de nossa capital. Ele fica entre duas áreas pobres da cidade: o Jardim América (e suas diversas favelas) e os inúmeros becos da Marechal Deodoro (ambos redutos de muitos trabalhadores pobres, mas também de bandidos, traficantes, assassinos etc. etc.).
Pois bem, juntemos os pacatos moradores deste aprazível bairro, a enorme população flutuante de boêmios, estudantes, trabalhadores e desportistas que o frequentam, e temos o prato suculento e ideal para os (também) muitos que querem roubar, assassinar e distribuir drogas.
Em resumo: as autoridades não podem tratar um bairro com estas características como se fosse um bairro qualquer, não podem deslocar seus muitos agentes (de trânsito e de repressão) levando em conta apenas os números de seus moradores (e principais vítimas de tudo de ruim que acontece atualmente aqui).
Resumindo mais ainda (suas burras autoridades): este bairro não é somente este bairro, 90% dos frequentadores deste sítio são de outros locais, então a violência é também multiplicada por mil.

Cuidar do Benfica é cuidar de quase toda a nossa capital, a nossa querida loirinha desmiolada pelo sol.
***
O Benfica, a Gentilândia pedem socorro!!!!!!!!!!

Fonte: "Movimento Esperado", blogue de Pedro Salgueiro 


"Contra o Suicídio", Terça Montenegro para O POVO (28.9)



A imprensa não costuma noticiar mortes por suicídio. Tal aspecto, por um lado, é sinal de respeito para com a família enlutada, que certamente não precisa de holofotes midiáticos sobre si, naquele momento. Por outro lado, o silêncio é também uma medida de preservação da vida, se pensamos que certos imitadores podem achar que se matar virou uma espécie de moda, propagada pelos veículos de comunicação. Afinal, dizem que depois que Werther (personagem de Goethe) deu cabo da própria existência, houve uma imensa adesão de fãs, buscando copiar aquele destino trágico... Há ainda o fato de que o suicídio permanece sendo um tabu, no sentido religioso e em vários outros aspectos. Silenciar, então, parece uma boa saída para não criar polêmicas ou problemas.
Quando acontece, porém, de uma pessoa famosa se matar, não se pode evitar a notícia – embora ela deva ser transmitida com cautela. Um “disfarce da situação” seria desastroso e, a longo prazo, uma falsidade histórica. Foi pensando assim que, outro dia, estava com o amigo Urik Paiva (que é especialmente imaginativo) desenvolvendo esse tipo de suposição. Imaginamos que se instalava no mundo uma paranoia do termo “suicídio”. Isso chegava a tal ponto que as divulgações dos óbitos passariam a ser distorcidas, com elementos fantasiosos para negar os gestos voluntários. Assim, por exemplo, a poetisa Ana Cristina César, que se jogou de um edifício da década de 80, poderia ser computada como uma vítima de acidente com bungee jumping. Sylvia Plath, escritora que abriu o forno e pôs a cabeça lá dentro, na verdade teria escorregado em batatinhas enquanto cozinhava e – plath! – caiu no chão, fraturando o crânio.
 Nessa linha de raciocínio, o afogamento de Virginia Woolf também surgiria como uma fatalidade. Diriam que a romancista inclusive era exímia nadadora e costumava atravessar metros do rio Ouse todas as tardes – infelizmente, naquele 28 de março um polvo gigantesco surgiu e laçou as pernas da escritora, arrastando-a para as profundezas da água. 
O autor japonês Mishima tampouco teria cometido haraquiri, mas sua morte foi resultado de uma brincadeira desastrosa, com a faca usada para limpar o peixe. E Hemingway jamais atirou contra si mesmo; ao contrário, foi alvejado por um colega caçador (que não estava tão camuflado quanto ele), num safári.
A lista de hipóteses cresce para além dos literatos, e de repente nos damos conta da enorme quantidade de suicidas famosos. O espaço para este texto chega ao fim, mas a imaginação, claro, nunca acaba. Nosso exercício de censura ao suicídio passa pelo riso porque divertir-se talvez seja a melhor maneira de sentir-se vivo.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Airton Soares e "Cuide Bem do seu Jardim" no projeto Bazar das Letras do SESC (27.9)


Clique na imagem para ampliar!

O convidado desta edição do Bazar da Letras, Airton Soares, nasceu em Ipu, Ceará.
Phd – Poeta, Humorista e Didata
É formado em Letras, e se especializou em Literatura Brasileira.
Publicou: O mundo fora de esquadro.
Há 20 vinte anos ministra cursos e palestras, para empresas e estudantes, nas áreas de Recursos Humanos, Comercial e Administrativa usando como metodologia o Teatro Empresarial

domingo, 25 de setembro de 2011



Quando o Amor Vacila

Eu sei que atrás deste universo de aparências,
das diferenças todas,
a esperança é preservada.

Nas xícaras sujas de ontem
o café de cada manhã é servido.
Mas existe uma palavra que não suporto ouvir,
e dela não me conformo.

Eu acredito em tudo,
mas eu quero você agora.

Eu te amo pelas tuas faltas,
pelo teu corpo marcado,
pelas tuas cicatrizes,
pelas tuas loucuras todas, minha vida.

Eu amo as tuas mãos,
mesmo que por causa delas
eu não saiba o que fazer das minhas.

Amo teu jogo triste.

As tuas roupas sujas
é aqui em casa que eu lavo.

Eu amo a tua alegria.

Mesmo fora de si,
eu te amo pela tua essência.
Até pelo que você poderia ter sido,
se a maré das circunstâncias
não tivesse te banhado
nas águas do equívoco.

Eu te amo nas horas infernais
e na vida sem tempo, quando,
sozinha, bordo mais uma toalha
de fim de semana.

Eu te amo pelas crianças e futuras rugas.

Eu te amo pelas tuas ilusões perdidas
e pelos teus sonhos inúteis.

Amo teu sistema de vida e morte.

Eu te amo pelo que se repete
e que nunca é igual.

Eu te amo pelas tuas entradas,
saídas e bandeiras.

Eu te amo desde os teus pés
até o que te escapa.

Eu te amo de alma para alma.
E mais que as palavras,
ainda que seja através delas
que eu me defenda,
quando digo que te amo
mais que o silêncio dos momentos difíceis,
quando o próprio amor
vacila.

http://www.vagalume.com.br/maria-bethania/quando-o-amor-vacila.html#ixzz1Z08Cc600

"Verdade Inventada", crônica de João Soares Neto para O ESTADO



Com uma semana de antecedência ela comemora a sua data. Tem pressa para viver no presente. O passado está emoldurado. E o faz cercada da família, das filhas meninas, de um batalhão de colegas e amigos que a acompanham desde o “Canarinho”, o “Santa Cecília”, o “Batista”, “Boca Ciega” e a UECE.
Como defini-la? alegre, irreverente, avant-garde, comunicativa, derramada, afetiva, curiosa, corajosa, calorosa, inteligente, braba, meiga, chorona e beijoqueira.
Nasceu em uma sexta-feira, o dia em que todos se preparam para a festa que é o fim de semana. Ela foi à festa. Primogênita em série que a sucedeu com o mesmo calor, amor e carinho. No seu convite, cita, de forma resoluta, Clarice Lispector: “Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada”. Parece que acertou em cheio. Sua vida é verdade inventada por ela mesma, sem palpite de pai ou mãe.
Fui, além da mãe e da equipe médica, o primeiro a vê-la e beijá-la. Que nome dar a ela? Havia comprado um livro com centenas de nomes, mas nada ficara decidido. A mãe, pressurosa, sugeriu o nome de uma czarina russa. Assim ficou. Como pai-coruja já estava escrevendo deslumbrado no seu livro do bebê. Depois, abreviei o nome, de forma mais conexa.
Primeiro dia de aula. Lá fomos, a mãe e eu, levá-la ao maternal. Haja choro. Nós acabamos chorando, também. Depois, veio a adaptação e a formação de laços de afeto com os coleguinhas. Acontece que a vida não produz só flor. Dizia o doce Vinícius que “filho é uma raiz de dente exposta”. Passamos sete dias em Belo Horizonte. Legal. Findo o maternal, era hora de procurar colégio novo, maior e adequado para o seu perfil. Vai para o Santa Cecília onde esteve por anos. Fazia parte do processo. E a menina recebeu, com alegria, a chegada das irmãs, uma, duas e três. A última, por mãos da natureza, nasceu no mesmo dia que ela, por conta de uma casa de bonecas.
Começam as aulas de balé, aprender a nadar e o inglês. Festivais, carnavais e que tais. A casa de praia nas férias em que ficávamos brincando e recebendo amigos. Quebra um braço e lá se vai o fim de semana para o ar. Chega a puberdade, florescem dúvidas, abrolha a angústia. Nós, atentos e confusos, sem saber como lidar com as mudanças advindas para todos. Surge a ideia do intercâmbio nos USA. Viajo como destacamento precursor, para ver escola, conversar com a direção e acertar, com os tios, a estada. Levei e voltei com duas, carro atulhado, pois a segunda a acompanhava. Fez amizades com colegas e uma delas deve estar agora na festa de que falei no primeiro parágrafo. Choro em rodoviária. Termina o colégio e entra direto na Universidade Estadual do Ceará.
Lá do outro lado da cidade, todos os dias. Mesmo com resmungos, ups e downs, termina o curso sem problema. Resolve estudar teatro e participa de curso completo na Unifor. É bom lembrar ter sido sempre a coreógrafa de sua turma. Reunia irmãs e filhos de amigos comuns, montava peças, desfiles e jogos, tudo sob os nossos olhares.
Viajou mundo afora. E a moça quis casar. E assim o fez, como quis, concebendo duas belas filhotas. Agora, no limiar da segunda metade do existir, decide, cria, arregimenta família e amigos para um “happening” vespertino com o seu feeling e modo de ser. Parabéns, Deus a abençoe, agora e sempre. Cheiro. Estou por perto. Take care.