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O engenheiro sonha coisas claras:
Construiu em três dias o dormitório
Gastou um ano levantando a torre da camarinha de Vicença, viúva de primeira mão, em nova viagem de núpcias — vista para os três lados, telhado caindo para o poente, amortecendo o sol forte daquelas paragens, canto escuro para a cama (sábia penumbra a esconder desencantos); vento noroeste que traz boa sorte; escada em círculos; chão lisinho; teto alto.
Porém faz sete anos que constrói a cadeia, procurando o ângulo correto para a fresta do calabouço — barulho algum deve chegar às celas; janelas altas com parapeito largo onde os presos devem se postar pensativos, observando o horizonte infinito em que nada, a não ser a cordilheira distante, deve servir de barreira: um horizonte vasto para um cubículo e a noção exata e infinita fora, a diminuir mais e mais o já minúsculo quarto; vasto abismo circulando o prédio, a noção do precário e eterno a mexer com os nervos — estuda cada detalhe como se levantasse o teto que lhe serviria de abrigo pelo resto da vida.

Ciro Colares:
a crônica paixão por Fortaleza
(Expressão Gráfica e Editora)
de Lucíola Limaverde
Ganhador do Prêmio Literário para Autor (a) Cearense
Prêmio Braga Montenegro, de ENSAIO/CRÍTICA LITERÁRIA, da SECULT/CE
Data: 9 de junho de 2011 (quinta-feira)
Horário: a partir das 19h
Local: Salão de Festas da ADUFCE (Avenida da Universidade, 2346, Benfica, próxima à Faculdade de Economia).
Preço promocional de lançamento: R$ 10,00
Para aquisição de livros e contato com a Autora: lulimaverde@gmail.com
Sobre a Obra: Ciro Colares: a crônica paixão por Fortaleza, obra da jornalista Lucíola Limaverde, Prêmio Braga Montenegro 2010 da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, na categoria Ensaio e\ou Crítica Literária, é resultado de pesquisa acadêmica sobre a produção literária e jornalística do cronista Ciro Colares, especialmente analisando Fortalezamada, publicado em 1985.
Ciro Colares (1923-2002) atuou por mais de 60 anos em jornais do Ceará – a exemplo de O Povo, Diário do Nordeste e a extinta Tribuna do Ceará. Dedicou-se à crônica e teve como um dos principais temas de sua obra a cidade de Fortaleza, cantada por ele com lirismo e amor. O livro Ciro Colares: a crônica paixão por Fortaleza remete-se à cidade de meados do século XX e ao gênero crônica como um registro dos seus momentos.
O leitor irá (re)encontrar a crônica desse jornalista e escritor cuja paixão pela cidade se materializava nas páginas efêmeras dos jornais e se alojava nos corações e nas mentes dos inúmeros leitores a partir da publicação em livros, como Fortalezamada. Lucíola Limaverde debruça-se a dialogar com o cronista que deixou saudade, mas é memória pungente para gerações apaixonadas por crônica, por Fortaleza, por sereias, circos, praças, bares, jardins e tudo o mais que se enfeixa na cidade.
Apoio Cultural
Secretaria da Cultura do Estado do Ceará
Associação dos Docentes da Universidade Federal do Ceará/ADUFCE
Curso de Comunicação da Universidade Federal do Ceará

COLETIVO MONSTRA LANÇA
MOVIMENTO ARTÍSTICO E VÍDEO-DOCUMENTÁRIO
Neste sábado, dia 04 de Junho de 2011, das 15h às 19h, o Sobrado Dr. José Lourenço recebe o coletivo MONSTRA para um evento com lançamento de publicações, vídeo-documentário e palestras.
O evento começa às 15h com o lançamento do manifesto EXPRESSIOCINISMO - movimento criado pelos artistas do coletivo MONSTRA.
Além do livreto do EXPRESSIOCINISMO haverá o lançamento do catálogo da exposição; E de um kit com 09 cartões postais.
Na sequência, os 8 artistas do coletivo MONSTRA (Weaver Lima, Franklin Stein, Ise Araújo, Jabson Rodrigues, Everton Silva, Lui Loser, Mychel T.C. e Saulo Tiago) falam sobre o processo de criação das obras que compõem a exposição “Purgatório Paraíso Inferno”, em cartaz no Sobrado Dr. José Lourenço.
Encerrando o evento, será exibido pela primeira vez ao público o vídeo-documentário sobre a exposição e o coletivo MONSTRA. O vídeo foi produzido por Léo Mamede, que acompanhou todo o processo de produção da exposição.
Quem for ao evento também poderá visitar a exposição “Purgatório Paraíso Inferno” acrescida com mais de 20 obras além das que foram apresentadas na data de sua abertura há três semanas. Uma das propostas do coletivo é a de ir modificando a exposição durante o seu período de exibição.
*O livreto EXPRESSIOCINISMO e o KIT DE POSTAIS
serão distribuídos gratuitamente somente no sábado dia 04 de junho.
Sábado, dia 04 de Junho de 2011
Das 15h às 19h
No Sobrado Dr. José Lourenço
Rua Major Facundo, 154 – Centro
3101.8826 / 3101.8827

Mas do jeito que as coisas andam no mundo, só não corre o risco de ficar doido aquele que já está. Estresse, ambição, egoísmo, falsidade, mentira e incompreensão. Somem-se a isso tudo a solidão, o medo e a maldade. A maior loucura é aceitar tudo isso e não ousar seguir em frente, a seu modo, traçando uma vida única e original, sem medos de ser taxado de maluco. A realidade confirma, como escrevi certa vez: “só os egoístas serão felizes!”
Anos-há, tive passagem pelo Hospital Mental, não como interno — fique bem claro —, mas como terapeuta. Alguns poucos meses dos quais não mais me esqueci (nem me recuperei).
A princípio, curiosidade: observar àquelas pessoas, alienadas, delirantes ou alucinadas, frágeis de pensamentos, coloridas por angústias e histórias insonháveis. Depois: o medo. Medo deles? Não, medo de mim! Imaginar que tão absurdo estado poderia tomar-me de assalto de uma hora a outra, sem bater à porta, partindo de a mais inocente esquisitice, “neura”, excentricidade até margear o desvario absoluto, amedronta. Pus-me, dês então, a reconhecer a loucura do outro na minha, um exercício interessante e, por vezes, engraçado.
Por mim, já naqueles tempos, daria alta a um bocado de gente ali, muitos deles bem parecidos com amigos e pessoas queridas aqui de fora, “normais” em suas manias e paranóias e até com um discurso mais organizado e convincente — a literatura, por exemplo, é um celeiro de gente normal. Não via nada demais neles, mas a equipe, diante de minhas argumentações imaturas, assegurava: “Esse aí? Ihhhh, é doidinho da silva...”
Dentre os tipos: o catatônico, feito estátua, parado no pátio; a mulher ao chão a chorar agonias de saudades de uma mãe que não existia; um “rapaz-gato” que miava na orelha das internas; a velhinha em olhar fixo a trazer ao colo uma boneca; um que, de lençol ao pescoço feito “capa”, galopava numa vassoura o dia inteiro levando e trazendo recados; o “poeta” que andava com livros, em espanhol, debaixo do braço e um caderno na mão, sempre explicando sobre “las musas”; enfim, uma ruma de personagens fantásticos, todos devidamente registrados como “doidos oficiais”.
Na emergência, por trás de grades, pacientes pelados — para não usarem peças de roupas como “forca”. Fora delas, outros, entupidos de remédios, andavam em círculos, feitos múmias. Um deles, lembro, com dois dedos em “tesoura”, espetava os olhos dos colegas. Alguém, com ainda alguma sensibilidade, reclamava: “Tu é doido? Quer furar meu olho, seu doido?” O “engraçadinho” saía com passos atropelados e maneando a cabeça: “Sou doido não, macho, sou doido não...”
Havia um velhinho, o Valmir Vapy, nem parecia doente. Era de bulir nas pacientes jovens ou dedilhava o dia em seu violão, isso, enquanto não confeccionava, de próprio punho, o jornalzinho “A Verdade”, informativo que tinha de um tudo: anedotas, atualidades, gastronomia, efemérides e fofocas do manicômio, e que lhe garantia, por meio de “assinaturas”, o trocado do cigarro. Da minha turma, apenas eu o assinava e ele, bom jornalista, cumpria suas edições regularmente. Noutro dia, surpreendeu-me a manchete da primeira página: “Netto, Fisio, é líder da equipe dos babões!”. Indignei-me: “Ô, Valmir, você é doido? Quer perder o assinante, rapaz?” Soube depois, ser ele apaixonado pela minha professora, e estando eu sempre muito próximo a ela, ficara doido de ciúmes.
Mas a loucura é original. Num hospital, todos os meses, elegiam três pacientes para uma entrevista de alta. O médico orientava: faria uma pergunta bem simples a cada um dos três. Respondesse direitinho: alta! Perguntou ao primeiro: “Fulano, quanto é dois mais dois?”. Respondeu: “69!”. Reprovado na lata! Ao segundo: “Cicrano, quanto é dois mais dois?”. Ele: “Terça-feeeira!”. Coitado... Insistiu no terceiro: “Beltrano, quando é dois mais dois?”. Finalmente: “Quatro!” “Muito bem, até que enfim alguém merece receber a alta... Pode nos dizer como chegou à conclusão”, indaga. “Muito fácil, doutor, só prestei atenção nas respostas dos colegas... Olha só: 69 menos terça-feira é igual a quatro!” Ô lôco!
Raymundo Netto. Contato: raymundo.netto@uol.com.br

A alma do lázaro
(Expressão Gráfica e Editora)
de José de Alencar
apresentação de Zilda Maria Menezes Lima
— ganhador do Prêmio Literário para Autor (a) Cearense –
Prêmio Otacílio de Azevedo, de REEDIÇÂO, da SECULT/CE —
Data: 27 de maio de 2011 (sexta-feira)
Horário: a partir das 18h
Local: Museu do Ceará (Rua São Paulo, 51, Centro)
Apresentação da Obra: Zilda Maria Menezes Lima
Preço promocional de lançamento: R$ 5,00
Sobre a Obra: A alma do lázaro, um dos primeiros escritos do Autor, mas que foi publicado anos depois em 2º volume de Alfarrábios (1873), juntamente com O ermitão da Glória, narra as desventuras de Francisco, vítima da lepra em pleno século XVIII, na cidade de Olinda, Pernambuco, nordeste brasileiro.
O desprezo e a segregação impostos pela sociedade da época aos portadores de uma moléstia tida como incurável, um misterioso diário que ressurge do escuro da terra e a sombra de um amor impossível constituem a história, praticamente desconhecida do grande público, apesar de seu autor: José de Alencar.
A genialidade de Alencar mais uma vez está explícita no registro de um tempo, no suspense sombrio de seu enredo e no desfecho surpreendente da trama.
Sobre a Apresentadora: Zilda Maria Menezes Lima é licenciada em História (Universidade Federal do Ceará/UFC), especialista em Teoria e Metodologia da História (Universidade Estadual do Ceará/UECE), mestre em História do Brasil e doutora em História Social (Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ). Autora de Uma enfermidade à flor da pele: a lepra em Fortaleza (1920 - 1937), publicada na coleção Outras Histórias. Atualmente, desenvolve pesquisa no campo da História da Saúde e das Doenças.
Apoio Cultural
Secretaria da Cultura do Estado do Ceará
Museu do Ceará

Lançamento do livro "Inventário de Segredos", de Socorro Acioli
Ilustrações de Mateus Rios, publicado pela Editora Biruta, de São Paulo
Participação especial: grupo Breculê, com o show "Inventário de Segredos", cantando músicas inspiradas nos poemas do livro.
Data: 26 de maio de 2011, às 19 horas
Local: Auditório da Livraria Cultura (Shopping Varanda Mall na Av. Dom Luís)
Entrada: um quilo de alimento não-perecível em prol da Casa do Sol Nascente
Sobre a Obra: O cordel "Inventário de Segredos", décimo quinto livro da escritora Socorro Acioli, é uma narrativa em versos que revela os mistérios, embustes, mentiras e paixões mais arrebatadores da pequena cidade de Urupemba. Quem conta as estórias é um narrador secreto, revelado ao final do livro, que antes de deixar a cidade decide escrever um inventário onde tudo é descoberto e anunciado à população.
Publicado em 2010 pela Editora Biruta, de São Paulo, o cordel "Inventário de Segredos" foi escolhido para representar o Brasil na Feira de Bologna (Bologna Children´s Book Fair) de 2011, Recebeu o Selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e foi selecionado pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola - PNBE, do Ministério da Educação, que distribuirá o livro pelas bibliotecas escolares espalhadas pelo Brasil.
Depois de ter sido lançado no Rio de Janeiro e em São Paulo, o "Inventário de Segredos" será lançado em Fortaleza com a participação especial do grupo Breculê, que musicou 10 poemas do livro e fará uma apresentação única e inédita por ocasião do lançamento. Uma noite imperdível!
Sobre a autora: Socorro Acioli é jornalista, com mestrado em Literatura Brasileira pela UFC e Doutoranda em Estudos de Literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Foi aluna de Gabriel García Márquez na oficina de roteiro "Como contar um conto", em Cuba, no ano de 2006.
Por seus livros infanto-juvenis já recebeu diversas premiações como o Selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ, Prêmio de Literatura da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, finalista do Prêmio João de Barro da Prefeitura de Belo Horizonte e Prêmio Ceará de Cinema e Vídeo pelo argumento da adaptação do livro "A bailarina fantasma" para o cinema.
Sobre o Breculê: formado por Pedro Fonseca (violão e voz), Fabrício Rocha (violão e voz), Milton Ferreira (baixo) e os três percussionistas, Fábio Marques, Tulio Bias, e Igor Caracas. O Breculê desenvolve um trabalho dedicado à música brasileira, em sua diversidade instrumental, ritmica, harmônica e poética, com composições transversadas em uma linha contemporânea de experiência criativa. Criado em 2007, o grupo se pauta pelo som de seu duo de violões, baixo e trio percussivo – contando ainda com um time de apoio de trompete, violino e piano – para trafegar entre harmonias dissonantes e sobreposições ritmicas, explorando timbres e combinações instrumentais, que resultam em belas composições e arranjos ousados.

De vez em quando, e sem o menor motivo, chego a alguma conclusão totalmente inútil; distraído pensando sobre um assunto qualquer, um contratempo no trabalho, a final do campeonato de futebol, certa conversa com um amigo, e de súbito me baixa um pensamento vadio – se desprende não se sabe de onde e vem à tona:
– Mudo bastante de residência, a cada ano o endereço é outro, a vizinhança nova. E divago sobre o assunto – enumero as vantagens: a paisagem da janela sempre diferente, novos amigos (pra mim, que sou tão arredio a novas amizades), etc. e tal; desvantagens também várias: a casa sempre desarrumada, os livros encaixotados a maior parte do ano (e como perco tempo procurando às vezes um autor querido, e que parece encantado, eu estando doido pra lê-lo); além do enorme incômodo de ficar comunicando a todos a nova morada.
Até já criei hábito de tirar um dia no mês para passar nos endereços antigos pegando a correspondência. No fundo, chego à conclusão, causa mais incômodo que vantagens; ou não!?
Deixo as conclusões de lado e passo a contar mentalmente os locais em que já morei – susto: vinte e um endereços em trinta e poucos anos de cidade. Percebo que o caso é sério, foge dos padrões normais.
Dias depois converso com minha irmã sobre o assunto, descubro estarrecido que o assunto já faz parte da crônica familiar, e que todos um dia já comentaram o assunto – alguns com simpatia, outros com uma ponta de malícia; pois é, um assunto que nunca me preocupou há muito faz parte dos comentários dos mais íntimos. Desde então, e com certa frequência, ando matutando sobre o caso; também descubro que na família, muito pratrasmente, outros parentes tinham esta mesma mania: o avô materno não sossegava no mesmo canto, um tio que morava em outro Estado se mudava às vezes mais de uma vez por ano – daí penso em determinismos genéticos e outras bobagens, em sangue cigano no passado da família –; e como sempre (e sobretudo) nunca chego a conclusões definitivas. O máximo que tenho são verdades provisórias, como a em que ando pensando ultimamente: de que a causa de tantas mudanças não é nada mais do que pura insatisfação comigo mesmo, e já que não mudo eu – mudo então de casa.
E pronto, ponto.

Sempre recebo sugestões para ocupar horas vagas com atividades extras, algo rentável, imperdível ou fora de série. E houve um tempo – não distante – em que eu de fato acumulava tarefas profissionais. Durante meses, não vivia; simplesmente funcionava. Perdia a consciência do corpo, pensando na saúde como se ela fosse um mero combustível para que a máquina em que eu me transformara pudesse continuar. Obedecia ao relógio, sentindo imensa culpa com atrasos, e esperava o domingo para soltar um pouco o fôlego. Mesmo assim, lembrava que a diversão gerava compromissos acumulados, com mais pressa e menos descanso nos dias seguintes.
O que aconteceu para que eu percebesse que essa mecanização era absurda e nada compensava o lazer perdido? Será que estive numa fronteira perigosa, correndo riscos sérios por algum motivo, e nessa ocasião iluminei-me? Ou, ao contrário, fui na direção oposta da espiritualidade, com uma mudança guiada pelo dinheiro, uma loteria súbita que me permitisse recusar qualquer renda extra? Nenhum desses extremos foi a causa. Simplesmente enxerguei o abismo que havia entre o período de férias e o resto do ano. Numa etapa eu era feliz; na outra, não.
Claro que chegar a esse dualismo não foi fácil. Nos momentos de lazer, eu tinha uma espécie de abstinência do trabalho e me sentia vazia ou – pior – impregnada de uma auto-rejeição, como se desenvolvesse uma paranóia de me sentir inútil. O meu valor estava atrelado à eficiência, à produção, aos resultados que nasciam com o trabalho... Ora, mas existe um limite para o molde que a sociedade impõe ao sujeito! Nunca quis ser um produto, número ou peça de qualquer coisa. Queria, antes, satisfazer aquela emoção que experimentava durante as férias: a descoberta do ócio. O ócio de uma criança que brinca sem prazo para terminar. O ócio de um bicho, de um pássaro com seus trinados que são só beleza, e não subsistência.
Há quem pense que hora livre é sinônimo de tédio e o moto-contínuo do trabalho serve para driblar os pensamentos ou a necessidade de tomar decisões. Pois a esses eu digo que o ócio não é ficar sem fazer nada; ao contrário, é fazer o que se quer, na hora em que dá vontade. Lógico que existem pessoas que não sabem o que querem e desconhecem as próprias vontades. O trabalho, então, automatiza, afasta o mistério de olhar para si mesmo – e, quem sabe, assustar-se. Para essas criaturas, talvez não exista saída: condenaram-se à própria falta de criatividade.
Mas relaxar pode ser tão simples! Tomar um sorvete, ir ao cinema por impulso, telefonar para um amigo, ler um livro, passear... Para desfrutar dessas coisas, não é preciso grande empenho. O ócio funciona espontaneamente, semelhante a alguém que mergulha num cochilo, sem se dar conta, sem preparo. O prazer que daí surge parece óbvio, mas é difícil de se conseguir, nestas épocas de urbanidade. Ficar à toa, sem remorsos, chega a ser uma dádiva – algo muito próximo da felicidade.
Tércia Montenegro (escritora, fotógrafa e professora da UFC)