segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

"Amante" (parte VI), de Raymundo Netto para O POVO


“Aconteceu durante a festa de formatura da escola”, descreveu Vitória à amiga. “Enquanto todos estávamos muito felizes, mesmo diante da tensão de um Vestibular, Ramon, naquela noite, eu sentia, estava demasiadamente eufórico. Mas ele era bem assim mesmo, pensei... Quando deram início à dança dos formandos, ele me abraçou e dançamos. Creio que ambos aguardávamos muito aquele momento. Senti o mundo desaparecer à nossa volta, assim como o chão de nossos pés. Ainda consigo lembrar-me da música [“A Whiter Shade of Pale”], da sensação de ter o seu coração pulsando acelerado tão ao lado do meu. Nossos dedos entrelaçados, o seu perfume de sempre e o olhar dele posto em mim. Acho que essa é uma das coisas que mais me impressionavam e que eu amava nele: o olhar. Eu tinha a impressão de que ninguém me via como ele. Para ele, eu era realmente importante. Ele me fazia acreditar nisso: eu era importante.” Silenciou como se a mergulhar naquela lembrança: “De repente, ele me tirou do salão. No jardim, abraçou-me e nos beijamos. Então, ele tirou do bolso do paletó uma caixa. Era, claro, uma aliança. Ali, tremendo e com aquele sorrisão no rosto, me pedia em casamento. Vê se pode? Ele querendo enfiá-la em meu dedo e eu dizendo que não era assim. Não havíamos conversado, não podíamos assumir aquilo. Éramos jovens demais... ‘Minha família não vai aceitar’, eu disse, e ele, como se decide ir à esquina, sugeriu: ‘Nós fugimos!’. ‘Você quer matar a minha mãe?’ Sim, eu sei, foi bem infantil, mas nós éramos assim mesmo: crianças. Disse que iria pensar... mas eu não queria pensar. Não, não. Estava apavorada! Depois, durante as provas do Vestibular e no início de curso na faculdade, consegui adiar esse papo. Vez por outra ele insistia, cobrava-me uma decisão e, diante de sua falta, alegava eu não ter certeza de amá-lo. No entanto, certeza mesmo eu tinha de querer me formar, concentrar-me na profissão escolhida, ganhar o meu dinheiro, viajar, conhecer pessoas, tantas coisas... Já Ramon queria casar logo e ter filhos. Moraríamos com a irmã dele no início, arranjaria um trabalho qualquer enquanto concluía o seu curso... Eu não queria nada disso. Foi quando conheci o Carlos. Como eu, estagiava na área, já reunia economias, queria abraçar a futura profissão, curtia a vida e namorava sem gerar expectativas. Acho que isso me atraiu. Não aguentava mais aquela pressão do Ramon. Tinha que acabar com aquilo, mesmo que me doesse e o machucasse. Pensava: ‘Se tiver que ser, um dia nos encontraremos novamente’, o que sabemos, nunca aconteceu”.

Virgínia ouvira toda a história. Levantou-se e, em despedida, abraçou a outra: “Vi, eu não conheci esse Ramon. O homem que esteve comigo era infeliz, desesperançado, a ponto de sua tristeza não caber nele. Pior: tinha de sobra para distribuir a quem tivesse coragem de estar ao seu lado... como eu. Ele era incapaz de enxergar qualquer futuro. Vivia apenas para remoer o passado, pois era lá, somente lá, onde ele poderia encontrar você.”

Assim, impossível seria dormir naquela noite. No dia seguinte, como em outros antes, bateria à porta da casa de Ramon para mais uma excursão silenciosa ao seu encontro.

Jandira demorou mais do que o de costume para atendê-la. Sua fisionomia também não era das melhores. Acostumada, Vitória entrou e, quando abriu a porta, estarreceu: o quarto estava completamente vazio! Voltou-se para a sala e ouviu de Jandira: “Eu tinha que acabar com isso. É muito louco, é imoral. Você tem que deixá-lo descansar. Ele está morto, criatura... morto! É tarde demais para ele... mas para você... Esqueça. Pelo amor de Deus, esqueça.”

 

(A última parte em 15 dias)

 






 

sábado, 18 de fevereiro de 2023

"Literatura Cearense versus Brad Pitt", de Raymundo Netto


Noite de lançamento de livro. O secretário da Cultura fez-se presente, assim como o responsável pelo equipamento cultural e o coordenador de Literatura, além de diversos escritores, amigos e familiares do autor estreante, colega de faculdade do secretário, de todo nervoso e satisfeito pela honraria aos olhos das autoridades e personalidades ilustres do meio dito intelectual da província.

O secretário abriu a solenidade esquivando-se do protocolo. Discorreu numa voz frouxa, escorregado em sorrisos tímidos, sem abusar dos velhos jargões da veia e dos excessos vocabulares e loas tão apreciados pelos panegiricais aspirantes a estátuas, revelando a intimidade para com a “estrela” da noite, um grande e enfatiotado desconhecido de todos, que naquele momento se ia por ali ralhando em cochichos com a companheira que o convencera ao uso daquele terno, enquanto nem o próprio secretário, visse ali, o fazia. Ela, no entanto — a mulher sempre tem mais razão e se não tiver é melhor que tenha —, desdenhava batendo-lhe as caspas dos ombros: “Errado está é ele! Como pode, um secretário... Não tem mulher em casa, não, é?

As palmas fluíram no primeiro engasgo do homem, garantindo o ponto final. O secretário, que nem era candidato a nada, misturou-se à plateia, conhecesse um a um de seu ninguém, estampando a carranca denteada às máquinas fotográficas de adolescentes e aos incômodos celulares a deixar todo mundo com a mesma cara de borrão.

O seu auxiliar, na esperança de receber ainda das sobras da ovação de seu antecessor, pôs-se a repetir, noutras palavras, tudo dito antes sobre o amigo do secretário, embora de forma mais vibrante, como sói um bajulador-mestre sabe cumprir: era o autor pessoa querida, da melhor cepa, intelectual de primeira linha, quiçá um novo Machado de Assis da Sociologia. Ao final, recebeu palmas modestas, mas, o mais importante, o abraço acolhedor e compreensivo do seu secretário.

O coordenador de Literatura foi mais cerimonioso, ao disputar a atenção do chefe que precisou de ajuda para largar-se do grudento assessor quase a rasgar-lhe o peito. Em posição solene, discorreu sobre a importância do livro — não daquele, porque dali ninguém o lera — e do momento para a história cultural do estado. Com um sorriso ao canto da boca remendou uma fala de meritória dúvida sobre termos a primeira academia de letras do Brasil, encerrando assim completamente seu repertório historiográfico, ao repetir isso ainda umas três vezes até concluir com uma frase numa língua que ninguém reconheceu, menos entendeu, mas aplaudiu.

O autor “então-era-aquele” foi convocado. Leu umas quatro laudas de seu improviso repleto de lembranças do pai e da mãe, da professorinha da alfabetização, de louvor a Nossa Senhora e de agradecimentos à mulher, companheira de tudo, maior crítica e incentivadora, ali, ao lado, a esfregar o olhar úmido e a contrair os lábios em promessa de beijo. Muita emoção!

Em ato democrático, facultada foi a palavra, e, para desespero do público, na ânsia do requentado coquetel, um dos participantes, outro desconhecido de todos, tomou o microfone. Iria, sim, falar. O rapaz, jovem de nem trinta, apertava o nó da gravata — usava jeans e botas (?) — e cumprimentou a todos em voz grave. O motivo de estar ali era simplesmente aproveitar a ocasião para dar a boa nova: era também (mais um) autor cearense. Escrevia desde a meninice e, agora, finalmente, teria recebido o justo reconhecimento. Uma obra sua chegara aos Estados Unidos. Um diretor famoso, o Coppola, comemorava. Escrevera já o roteiro daquela joia tropical a ser filmada no melhor estilo Hollywoodiano, aspiração de Oscar. De mais, já era certo, enfatizou, o contrato com o Brad Pitt para o papel principal.

As palmas admiradas tomaram conta da noite enciumando o secretário a também aplaudi-lo desmotivadamente. Correram-lhe para cima, inclusive o opaco amigo do secretário a oferecer-lhe, gratuitamente, exemplar com dedicatória especial do novo livro: “Entregue ao sr. Copolla. Sou fã dele!”

Dias e burburinhos depois, confirmada a suspeita: aquele rapaz era mesmo um maluco, um doidivanas, um bronco delirante. Sequer sabia escrever o próprio nome. Foi preso ao caminhar pelado, alienado de tudo e clamando por um tal “Brad”, no calçadão da beira-mar.

Aloucado, pode ser, mas que teve os tais privilegiados “quinze minutos de fama” em que conseguira ele ser ouvido e aplaudido pelos dublês de autoridades e intelectuais da nossa desprezada e legítima cultura cearense.

Acredite se quiser...




 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

"B. de Paiva: um legado do talento e do afeto", por Rosemberg Cariry


Dentro do despojado caixão, cercado por algumas pessoas queridas, filhos, netos, irmãos e a querida e incansável Lurdinha – a companheira solidária e firme em seu amor –, estava o corpo de B. de Paiva. Tudo me pareceu guardar uma simplicidade comovente. Afora os filhos (Rafael e Carlos), alguns parentes, amigos e fiéis companheiros.

Ali estava, prestes a voltar ao pó de onde um dia veio, o corpo de um homem de grande talento e generosidade, que fundou teatros e escolas de dramaturgia, e das lides teatrais. Ali estava o homem que dirigiu universidades, que administrou as mais importantes casas de espetáculos do país, que formou companhias e fez movimentos, que juntou e disponibilizou um formidável acervo sobre o teatro, as artes e a cultura brasileira, sempre aberto aos jovens estudantes e pesquisadores. Ali estava um homem que atuou em centenas de peças teatrais, novelas, recitais, leituras dramáticas, filmes e programas radiofônicos e televisivos.

Ali estava o ousado pioneiro, um dos que abriu portas no terreno hostil, afastou pedras e espinhos (com as mãos e com o coração) para que fossem construídas as avenidas mais largas.

Abracei Lurdinha, abracei os filhos, abracei amigos e depois saí caminhando pela cidade. Pensava, emocionado: se no pequeno caixão cabia o corpo do homem, o extraordinário legado do artista e ativista B. de Paiva transbordava aquele espaço e se afirmava maior do que o esquecimento, mesmo sabendo que a memória nessa terra de sofrimento longo é por demais curta e, muitas vezes, já se esvai em vida.

Na tarde quente, soprou uma brisa suave que invadiu o bairro, estendeu-se por sertões e mares, foi até o Rio de Janeiro, a São Paulo, Brasília e os mais distantes lugares, onde B. de Paiva chegou para plantar a boa roça do seu talento e oferecer colheitas dos seus melhores frutos, da sua arte e dos seus sonhos.

Esse homem era um guerreiro; sabia lutar, mas nunca lhe faltava o afeto e a generosidade.

Obrigado por tudo, mestre!





 

domingo, 12 de fevereiro de 2023

"Amante" (Parte V), de Raymundo Netto para O POVO


Desde que Jandira anunciou a ela o inesperado namoro entre Ramon e Virgínia, Vitória se pôs a investigar o paradeiro daquela que fora a sua melhor amiga e companheira dos tempos de infância e adolescência no colégio.

Nas reuniões anuais entre as colegas daquela instituição de formação católica – elas, às vezes, nem tanto –, a ausência da divertida Virgínia era notada, contudo, havia logo um breve silêncio seguido por uma mudança drástica de assunto. A própria Vitória perguntara diversas vezes por “aquela danada”, mas ninguém a respondia... e agora ela imaginava o porquê. 

Conseguiu, com muita insistência, o seu número de telefone. Ligou. Para Virgínia foi uma surpresa atroz: Vitória a convidava para um encontro. Precisavam conversar. Após a primeira ligação, quase maquinal, veio a segunda, a terceira, já com sinais de irritação, depois a derradeira, até finalmente convencê-la.

Era uma tarde de domingo. Após a costumeira missa, Vitória a encontrou em um banco de uma significativa praça do passado, embaixo de uma árvore que um dia chamaram de “nossa”. Embora não tivesse certeza do rumo que aquela conversa tomaria, determinada, Vitória estava tranquila, ao contrário de Virgínia, absolutamente incomodada.

Vitória foi objetiva. Com a fala pausada, contou como soube da morte de Ramon, do seu encontro com Jandira, e de um suposto namoro entre Ramon e ela: “Você nunca me disse nada. Não me procurou. Nós éramos amigas. Por quê?”

Abalada e com uma expressão emotiva, Virgínia, a princípio, relutou a externar toda aquela memória doída e traumática, porém, talvez por ainda guardar em seu íntimo alguma centelha daquela amizade antiga, aos poucos deixou transbordar tudo aquilo que a machucava há tantos anos, coisas a que ela atribuía a sua atual infelicidade e a sequência de pesadelos de sua existência. Para ela, Vitória foi uma sombra que a perseguiu em tudo. Ela era a causa de tudo. Sim, ao conhecer Ramon, egoísta, abandonou a amizade e desprezou, sem explicação, a sua presença. Ela, Virgínia, assistiu ignorada àquele amor que ela não tinha e, nem teria, pelo mesmo homem: “Como a mim, você também o rejeitou. Éramos, nós dois, os usados e excluídos da sua vida à sua conveniência. Aproximei-me dele. Entendia o que sentia. Tentei confortá-lo. Ele quis namorar e eu me entreguei, pensando conseguir fazê-lo tão feliz quanto ele era com você. Não consegui.” Suspirou profundamente, conteve a dor daquele insuportável fracasso e continuou: “Ele, nem sei se tinha consciência disso, me chamava por seu nome, perguntava-me de você, queria saber histórias suas. Insistia em sabê-las, mesmo quando eu não as queria contar. Ah, que eu achava doentia essa fixação dele, mas, com pouco, percebi ser ainda mais doentio eu me render a isso, fazer esse papel de sua dublê. ‘Gêmeas’... era assim que nos chamavam, não era?”. Meneou a cabeça, baixando a testa por sobre o punho: “Por quê? Deus, eu queria que desse certo, pois eu o amei... Mas ele não. Ele sempre a amou. Só a você. Mesmo depois de tudo... Ah, que ódio eu sentia de você, Vi. Quis que morresse, nos deixasse em paz! Pensava: o que essa mulher tem nessa boca que o enfeitiçou assim? Você é uma bruxa. Lembra? Eu sempre disse que você era uma bruxa.”

“Me beija.”, disse Vitória subitamente. Pasma, Virgínia perguntou se ela estava maluca. “Anda, me beija. Você não quer saber como eu enfeitiço as pessoas? Me Beija. Ou não tem coragem?” Desafiada, Virgínia tomou seu rosto entre as mãos e a beijou. Um beijo de almas, repleto de mágoas, mas também de saudades. Dois corações frágeis, ali irmanados em incertezas e conflitos profundos. Depois, olhando firme nos olhos tristes da outra, Virgínia manifestou um primeiro e ainda tímido sorriso: “Não, não é lá essas coisas... Eca!” E esfregou a manga da blusa nos lábios, estendendo uma gargalhada represada na juventude, compartilhada com Vitória, naquele momento, com os olhos cheios d’água. Como meninas, abraçaram-se e falaram por horas, sem parar. Vinham-lhes lembranças, dores, angústias, mas também as alegrias e descobertas de uma vida inteira.

Anoitecia e ainda podia-se ver aquelas mulheres de mãos dadas no banco, envolvidas num halo de emoção, quando, em um instante, Vitória beijou o dorso da mão da amiga, suspirou e a revelou: “Ele... Ramon... me pediu em casamento.”

 (continua em 15 dias)


 

domingo, 15 de janeiro de 2023

"Amante (Parte IV)", de Raymundo Netto para O POVO


Durante os próximos dias, a cena se repetiria. Geralmente à tarde, após o almoço, nas saídas do trabalho para resolver questões pessoais: Vitória batia à porta e mal Jandira a abria, adentrava. Esta, mesmo incomodada com a frequente e absurda visita, nada dizia, apenas meneava a cabeça ao vê-la sem cerimônia trancar-se no quarto do irmão. 

  Deitando a bolsa na cadeira, Vitória iniciava ali mais uma exploração de reconhecimento. Folheava e lia os livros da estante, recados em post-its, diários avulsos nas gavetas e os poucos álbuns de fotografias. O que buscava, não sabia ao certo, mas há dias uma excitação não a permitia trabalhar nem dormir. Por vezes, à noite, o marido, ao chegar ao seu quarto, a encontrava chorosa, distante. Discreto, pegava o travesseiro e um lençol: “Vou dormir na sala, amor. Está quente aqui.” Jamais passaria por sua cabeça que a esposa sofria de uma angústia obstinada de recordar e encontrar-se com outro homem.

Vitória ousou ligar a vitrola e deixou tocar o compacto pousado no prato: “You know that it would be untrue/You know that I would be a liar…” Entrou no banheiro, evitando olhar-se no espelho. Abriu o armário: ansiolíticos, antidepressivos, analgésicos. Sobre a pia, uma escova de cabelo. Pegou-a lentamente. Havia alguns fios nela: “Ramon!” A menção, a meia-voz, daquele nome ali ecoou, deixando-a trêmula, arrepiada, largando involuntariamente a escova. Passado o súbito mal-estar, pegou-a do chão e dela colheu aqueles fios de cabelo: “Grisalhos... estavam grisalhos.” Sentou-se no vaso e passou a observar, entre as polpas dos dedos, aquele achado. Apropriava-se da sua textura e tentava, fechando os olhos, cheirando-os e passando-os delicadamente pelo rosto, sentir a sua presença. Lembrava: escorria os seus dedos pelos cabelos do namorado, em carícias lentas, enquanto ele, alegre, contava histórias. Encantada, ela estenderia seus lábios àquele sorriso: “Era tão lindo.” Levantou-se. Correu para a sua bolsa, de onde tirou o estojinho do espelho e lá os guardou com o cuidado e a hesitação de quem rouba.

No guarda-roupa, em cuja porta se liam os versos “Todo grande amor só é bem grande se for triste”, encontrou, envolvidos em saco de papel, as cartas e fotos, entre outras coisas que havia devolvido a ele há mais de vinte e cinco anos, assim como as suas também. Com a poeira, vinha uma série de sentimentos de uma outra Vitória já esquecida, exceto por ele: medo, tristeza, incerteza e remorso. 

Anoitecia. No entanto, decidiu ler aquelas cartas. Surpreendeu-a tamanha ingenuidade e inocência. Ali estava uma garota inexperiente, sonhadora – era canceriana –, sentindo-se a mulher mais amada do mundo, apaixonada por um rapaz tão tolo, outra criança, talvez mais do que ela. Dois espíritos que se perderam ao viver um amor que, hoje, ela cria não existir. Mas se esse amor era uma mentira, o que é que estava presenciando ali? O que era tudo aquilo? “Vitória, eu a amo tanto, mais do que tudo, mas do que a mim mesmo.” Passava de uma carta para a outra com o coração apertado de doer. Era uma tragédia. Um amor mórbido a arrancar a vontade de viver de Ramon, compensando a ausência dela com a mais pura saudade. 

Olhou para a cama dele, no centro do quarto, descalçou os sapatos e entregou-se a ela – evitava-a –, aos soluços, agarrando o travesseiro contra as pálpebras umedecidas, e, em instante irrefletido, numa franqueza quase infantil, pedia-lhe perdão.

O quarto escuro recendia ruína. Sobre o corpo de bruços, então indefeso e adormecido, via-se pairar por inteiro uma inusitada sombra, como se a resguardá-lo gentilmente das dores irreparáveis de um passado morto, porém reaceso de paixão. 


(CONTINUA DAQUI A 15 DIAS)


 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

"Amante (PARTE III)", de Raymundo Netto para O POVO


Vitória batia à porta de Jandira logo na manhã seguinte à súbita conversa telefônica na qual revelava: “o coração de Ramon parou pela segunda e última vez”. Conforme a lacônica irmã, a primeira fora quando se sentira rejeitado pela mulher amada: “Depois daquele dia, nunca mais foi o mesmo. Acabou-se, fechou-se para o mundo e para a vida.”

Surpresa, Jandira abriu a porta para Vitória. No entanto, entre a hesitação de convidá-la ou não, a assistiu entrar ligeira na sala, pelo visto trazendo o mesmo peso de silêncio na alma. Não a ofereceu nada, nenhuma gentileza ou cordialidade. Vitória parecia abalada, como se procurasse algo que perdera e que, apesar do tempo, nunca dera conta. Sentou-se no sofá e pediu desculpas por não a ter reconhecido por nome durante a ligação. Claro, era a irmã de Ramon. Não a conhecera pessoalmente, mas o namorado falava muito dela, pois sendo eles órfãos, Jandira era o que ele tinha, não apenas como família, mas como mãe. Jandira sentou-se na cadeira de balanço ao lado de um antigo aparelho de TV. Sentia alfinetar os olhos, disfarçou o tremor do queixo, mas não chorou: “É verdade, eu era ‘irmãe’ dele... do Ramon. Pobre menino, se deixou levar.”

Vitória, com um incômodo sorriso de canto de boca e o olhar perdido no além, ajeitou os óculos e pôs-se, carinhosamente, a falar dele, do adolescente que ele foi, coisas das quais conhecera bastante e compartilhara com ele mais do que com qualquer outra pessoa. E, naquele instante, estranhava ela própria ainda lembrar de tudo aquilo com tantos detalhes. Entre essas lembranças, não diria nunca, mas estava aquela casa. Só fora ali uma única vez, a namorar, justamente aproveitando a ausência de Jandira.

A irmã ouvia em um misto de indignação e de saudade. Uma vontade de mandá-la à rua. Ao mesmo tempo, de trancá-la e guardar para sempre aquelas memórias tão queridas. Suspirou e, de repente, ergueu-se: “Quer conhecer o quarto dele? Está como ele deixou. Não tive coragem de...” Engoliu a voz, espremendo toda sua dor no rosto vermelhecido.

Vitória levantou-se assombrada. De certa forma, achava quase um sacrilégio entrar no quarto do ex-namorado, mas a curiosidade aliada àquela tensão a conduziu.

Seu coração batia forte ao entrar no quarto úmido, escuro e abafado. Impossível não ser contaminada pela melancolia ali apresada. Jandira abriu a janela e saiu.

Vitória, sem ter a certeza de que deveria ou queria estar ali, passou um tempo em pé, quase imóvel, segurando com as duas mãos a alça da bolsa encostada nos joelhos. Após uma breve panorâmica, caminhou lentamente pelo quarto de piso em tacos, a começar pela mesa de trabalho onde encontrou em um velho porta-retrato – um presente dela – uma foto do casal. Ela sorriu. Pareciam tão felizes, tão lindos. Largou a bolsa no chão e, involuntariamente, trouxe com as duas mãos o retrato ao peito, enquanto na sua memória despontavam vozes, promessas e risos, muitos risos. Sim, estavam felizes. Se amavam. E pela primeira vez em tantos anos verteu uma lágrima, talvez não por ele, mas por ela, por aquela felicidade pintada no retrato, apenas nele, não a reconhecendo mais. Mantendo-o ao peito com uma das mãos, passou a vasculhar em torno com a outra. Livros, revistas, canetas, uma antiga máquina de escrever, o notebook e, preso a um clipe, uma outra foto. Desta vez, não é ela, mas outra: “É Virgínia.”

“Virgínia e Vitória”, desde a escola apelidadas de “as gêmeas” devido à semelhança física e a amizade “grudenta” entre elas. Não havia segredos. Viajavam juntas. Dormiam uma na casa da outra e, durante um tempo, até usavam roupas iguais. As melhores amigas, até o surgimento de Ramon, já no ensino médio. O namoro deles, naturalmente, as afastou. Pensava nisso ao olhar aquela desconhecida foto, quando Jandira entrou no quarto: “Você se lembra dessa moça?” “Sim, claro, é... era minha amiga”. Jandira deitou, lenta e pensativa, uma bandeja com uma xícara de café sobre a mesa e, com um tom enrouquecido, revelou: “Ela namorou ele quando você... você sabe.”

 

(CONTINUA DAQUI A 15 DIAS NESTE MESMO CANAL)


 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Entrevista, na íntegra, de Raymundo Netto para O POVO (15 anos de crônicas no Caderno Vida & Arte)


Entrevista de ANNA NÍVEA COSTA

Especial para O POVO

12.12.2022

Num diálogo vivo entre a memória, a cidade, a cultura e o fantástico, o escritor Raymundo Netto celebra quinze anos de crônicas publicadas no Vida&Arte.

Desde 2007, o autor se inspira no cotidiano da capital cearense para a criação de narrativas astuciosas. Autor de obras premiadas, como Um Conto no Passado: cadeiras na calçada, vencedor do I Edital de Incentivo às Artes da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult), Raymundo atuou como jornalista, editor e produtor cultural. Atualmente, desenvolve trabalhos como gerente editorial e de projetos da Fundação Demócrito Rocha (FDR).

Para comemorar a duradoura colaboração, o cronista concedeu uma entrevista em que comenta, entre outros assuntos, sobre o papel da crônica na vida dos brasileiros, a história do gênero e os próximos lançamentos.

O POVO - VOCÊ JÁ SE AUTOCENSUROU EM ALGUM MOMENTO POR ACHAR QUE NÃO DEVERIA ABORDAR DETERMINADO TEMA EM SEUS TEXTOS?

RN: É possível até que em algum momento isso possa ter acontecido, sim, domando algum arroubo por um motivo diverso, mas geralmente não sou disso, pois acredito que essa liberdade que o próprio jornal me permite, deve ser explorada, e que o leitor gosta disso, dessa eloquência, mesmo quando ela chega para eles, no mínimo, trajado de sarcasmo ou ironia.

 

O POVO - AO LONGO DOS ÚLTIMOS QUINZE ANOS ESCREVENDO PARA O CADERNO "VIDA & ARTE", DO O POVO, QUAL TEXTO MAIS TE MARCOU E POR QUÊ?

RN: É uma pergunta extremamente difícil. Nem sei quantos textos escrevi até então nesses 15 anos. Entretanto, posso assegurar que desde a primeira crônica publicada eu tinha um projeto literário. Não é à toa que a maioria delas, após um descanso merecido, enveredaram para enfeixar livros, como é o caso do Crônicas Absurdas de Segunda (EDR, 2015) (ganhador do Edital de Incentivo às Artes da Secult 2015 e finalista do Prêmio Jabuti de Literatura em 2016) e o Quando o Amor é de Graça! (EDD, 2019) (ganhador do Edital de Incentivo às Artes da Secult 2017). E nesses 15 anos, mudei aqui e acolá de estratégia, de temática, de estilo, por necessidade própria de experimentar, de exercitar-me, de curtição mesmo, pois eu curto escrever, não me sentindo obrigado a nada. Não tenho pretensão nenhuma, nem carrego a ilusão cor de rosa de que escrever ou publicar é um sonho. Não, mesmo. A única ambição que tenho é ser lido pelo maior número de pessoas possível, desde que não tenha que ser outra pessoa para isso.

 

O POVO - NA SUA OPINIÃO, POR QUE A CRÔNICA CONTINUA SENDO CONSUMIDA MESMO APÓS O FECHAMENTO DE TANTOS VEÍCULOS IMPRESSOS?

RN: A crônica, apesar de ter surgido, pelo menos se popularizado, no veículo jornal, independe completamente dele. Muitos de nós, leitores de crônicas, as conhecemos já impressos em antologias famosas, por meio de vozes como Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Cecília Meireles, Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta, Rachel de Queiroz, Luís Fernando Veríssimo, Paulo Mendes Campos, entre tantos outros. Claro que muitos desses textos saíram de páginas de periódicos antes de pousar em livros. Sabemos disso. Mas é um gênero muito fácil de ser acolhido, mesmo pelos leitores menos proficientes, por isso muito utilizado em salas de aula, devido às suas características, como a de ser um texto curto, de construção simples, permitindo fluidez na leitura, com vocábulos comuns e termos coloquiais, e geralmente em torno de temas e situações corriqueiras do cotidiano. Além de, boa parte delas, se sustentarem no humor, coisa que o brasileiro gosta demais, e a crônica, como hoje a conhecemos, é mais brasileira do que qualquer outra coisa.

 

O POVO - VOCÊ TAMBÉM ABRAÇA O FANTÁSTICO EM SUAS OBRAS, COMO EM CRÔNICAS ABSURDAS DE SEGUNDA. DE QUE MODO A FABULAÇÃO DO REAL AJUDA NA CONSTRUÇÃO DE TEXTOS QUE ABORDAM O PRESENTE PALPÁVEL?

RN: O fantástico, o absurdo, o estranho, enfim, esses gêneros e subgêneros são muito atrativos e provocadores desde o século XIX. Quando fui convidado a escrever os textos que originaram o Crônicas..., tinha uma exigência editorial: o cenário de Fortaleza. O resto era por minha conta. Na primeira crônica, bati um papo com a estátua da Rachel de Queiroz sobre crônicas, depois nos chega um ET no Benfica quando o mundo acabou. Cruzei a cidade com um José de Alencar de tênis e mochila. Assisti à luta de José Alcides Pinto contra o Dragão de Sobral. Deparei-me com um espantalho que tinha a cara do Francisco Carvalho e com uma barata falante que era mesmo que ver o Airton Monte...  Daí continuaria a encontrar com cronistas vivos ou mortos do Ceará, nas ruas de Fortaleza, em situações absurdas, mas baseando-me sempre em algo que acontecia na cidade. A verdadeira cidade parecia ser essa aparentemente irreal.

 

O POVO - DIANTE DAS MUDANÇAS NO MERCADO JORNALÍSTICO, E DE UM GOVERNO QUE NEGLIGENCIOU A CULTURA NOS ÚLTIMOS ANOS, QUAL A IMPORTÂNCIA CRÍTICO-SOCIAL DAS CRÔNICAS?

RN: A literatura, assim como a arte e as baratas, sobreviverá. Como disse, independentemente do jornal ou mesmo do papel, do impresso, a crônica resistirá, continuará a ser escrita e lida. E devido à ausência de limites e hibridismos, ela há de sempre conquistar o mundo, incomodando-o, provocando-o, denunciando, fazendo pensar ou simplesmente trazendo de volta a cor a corações destintos.

 

O POVO - O QUE OS LEITORES PODEM ESPERAR DE FANTÁSTICOS E COISAS ENGRAÇADAS DE NÃO SE RIR?

Voltando ao que afirmei sobre escrever sempre pensando em um projeto literário, esses dois novos títulos, que espero serem lançados em 2023, me chegaram assim. Fantásticos é a reunião de contos no gênero, ou bem próximos a ele, com características diversas, empregando alguns dos elementos sobrenaturais, de horror, suspense ou mesmo de estranhamento ou fantasia, mas com um tempero nosso, por vezes fugindo do clássico. A literatura não abre mão de ser livre.

Coisas Engraçadas de não se rir é uma reunião de crônicas, também publicadas anteriormente no jornal O POVO, que levanta o tapete da sala de estar e revela o que escondemos por debaixo dele: o ridículo da humanidade. É uma obra mais humorada, às vezes até picante, despudorada, usando da comédia, da ironia e de muito exagero para interpretar o ser esquisitoide que somos.

E o que eu espero: que as leitoras e leitores se divirtam, que curtam, e que essas leituras acrescentem algo na forma como eles veem o seu entorno e como se comunicarão com ele depois de. A vida é curta, mas a arte transcende tudo isso.




 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

"Amante (PARTE II), de Raymundo Netto para O POVO


 

Vinte e cinco anos depois, não parecia ser o seu aniversário se Vitória não recebesse aqueles lírios azuis e os colocasse no vaso da mesa de centro da sala, bem ali, diante de Carlos, seu então marido, e da família que crescia.

Do nada, à noite, na hora da bem frequentada e animada comemoração, não seria estranho se nós a encontrássemos mergulhada no sofá, os pequenos pés na mesinha de centro, bebendo uma taça de vinho, sorrindo sozinha, com o pensamento distante e os olhos voltados para os lírios, alheia à zoada de Carlos, a trocar velhas e grosseiras piadas com seus amigos já alegremente bêbados, tirando troça com as suas esposas, boa parte delas, assim como de seus filhos, espalhada nos cômodos do apartamento ou em fuga nos celulares, videogames ou na TV.

Ao final da festa, no silêncio mais perigoso da noite, saía preguiçosamente a colher as taças e os pratos esquecidos na varanda e na sala. Ao cruzar pelos lírios, chegava-lhe, como um sussurro: “Ele ainda pensa em mim.”

No entanto, jamais ligou para Ramon. Não mandava e-mails nem mensagens de mais simples agradecimento. Se quisesse, ele procurasse por ela. Não se esquecia de seu aniversário, de enviar aqueles lírios, por que não ligava? Tanto tempo se passou desde a última vez que se falaram... não poderiam ser amigos? E assim, a vida tomava o seu rumo. Na verdade, ela, imersa nas atividades profissionais, nos cuidados com os filhos, com o marido e com a mãe viúva, nunca se lembrava de Ramon, até receber aqueles lírios azuis.

Nos frequentes encontros com as amigas da escola, em divertidos momentos de revelações constrangedoras e lembranças batidas do passado, vez ou outra alguém perguntava por ele e, espontaneamente, todas olhavam para ela, esperando alguma novidade que nunca veio.

Contudo, chegou mais um esperado dia de seu aniversário... e nada dos lírios! Vitória estranhou. Não podia ouvir tocar o interfone, que logo pensava: “São eles!” Mas não eram. Ligou à portaria. Perguntou se deixaram algo para ela, e avisou que não sairia de casa, caso chegassem.

Ansiosa, parou em frente ao espelho do banheiro. Incomodou-a as raízes brancas dos cabelos, as rugas em torno dos olhos tristes ao simular um sorriso desmotivado, a falta de um pulsar que embaraçasse o coração. Estava velha? Acabou, é isso? Nunca mais?

O marido, ao contrário, chegava entusiasmado, trazendo cerveja e carne para churrasco, fazendo algazarra com os filhos. Era também dia de jogo e havia chamado os amigos. Vitória respondeu com uma imediata dor de cabeça. Fechou as cortinas do quarto e colocou o lençol no rosto para esconder o sofrimento que lhe escorria na face.

Foi aquele o aniversário mais deprimente de sua vida. Os amigos estranharam: “Ela tá doente?” Carlos não notou: “Está? Não sei.”

No sofá, fingia a duras penas ouvir as amigas sobre a nova série daquele “homem liiindooo”. Evitava olhar para a mesinha de centro, desnuda e profundamente triste, a suportar no peito a dor do misterioso abandono.

No dia seguinte, dormira mal, ficou em casa. Inconformada, decidiu ligar para ele, mesmo faltando-lhe o ar e a coragem: “Alô, Ramon?” Porém, do outro lado da linha, uma mulher: “Pois não, aqui é Jandira.”

Que maçada! Claro, ele poderia ter outra pessoa, sabia lá, uma esposa, namorada... Jandira continuou: “Mas esse telefone é mesmo do Ramon. Quem deseja falar com ele?” “Uma amiga”, respondeu. A voz do outro lado da linha alteou: “Ah, você é a mulher dos lírios?”

Em pânico, Vitória desligou o telefone e caiu, quase desmaiada, no sofá: “Que burra!”.

O telefone tocou. Era Jandira. Mesmo assustada, Vitória segurou a respiração e o atendeu, afinal, não devia nada a ninguém. A mulher foi direta ao assunto: “Eu sou a irmã dele. Ramon está morto.”

 

(CONTINUA DAQUI A 15 DIAS)

 

domingo, 18 de dezembro de 2022

"As Crianças dos Olhos Brancos", Martin Mystère nº 28, por Raymundo Netto


 Sou grande fã dos personagens dos Fumetti (quadrinhos) italianos. Hoje, entre eles, um dos que mais acompanho com regularidade é Martin Mystère, o detetive do impossível.

Atualmente publicado pela Editora Mythos, Martin, um antropólogo, arqueólogo, perito em arte e cibernética e colecionador de objetos incomuns, criado pelo roteirista Alfredo Castelli (criador também de Allan Quatermain), gira o mundo – ao lado de seu assistente Java, um homem de neandertal, e de sua eterna noiva Diana Lombard – na busca de solucionar enigmas com origem em lendas, mitologias, magia, seitas, esoterismos e outras curiosas manifestações místicas que sobrevivem paralelamente, e muitas vezes à sombra, do progresso (ou não) da humanidade.

Em seu nº 28, cujo título é “As crianças dos olhos brancos”, após presenciar a curiosa ressurreição de um menino, o desaparecimento de sua noiva e insolúveis assassinatos, ao lado de Java se dirige à Ilha de Bali, província da Indonésia, na tentativa de resolver o mistério das “crianças de olhos brancos” (as 3 que ressuscitaram) e resgatar Diana.

Como sempre em suas aventuras, somos apresentados à fronteira do desconhecido, a civilizações, culturas, religiões, templos extintos ou em extinção, o que torna muito rico o roteiro e a leitura dessas histórias.

Desta vez, uma das obras literárias fundamentais da Índia, o Ramayana, famoso poema épico em sânscrito, com 24 mil versos, numa métrica de 32 sílabas, distribuídos em 7 cantos, cujo protagonista é o príncipe Rama, uma das divindades hindus mais populares, é o eixo da história, trazendo como tema a eterna luta entre o bem (Rama) – aliado aos macacos sagrados da Floresta dos Macacos de Bali (Bukit Sari) – e o mal (Rawana) – uma divindade que se alimenta dos sentimentos e pensamentos maus das pessoas, ou seja, o “demônio”.

Para quem gosta de quadrinhos, viajar (de verdade), história e cultura antiga, impossível não visitar algumas dessas inquietantes páginas do que há de melhor nas HQs contemporâneas (embora as suas aventuras se passem na década de 80).

PS: o formatinho atual está esteticamente melhor, além de ser mais duradouro (capa em papel cartão plastificado e miolo em papel off-set). E melhor: se você quiser, ainda pode adquirir toda a nova série que está, hoje, no número 31. Eu tenho todas.