segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

"Amante (PARTE I)", de Raymundo Netto para O POVO

 

Lírios Azuis são promessas de amor eterno”, disse Ramon, oferecendo-os com toda ingênua pompa de adolescente recém-aberto à possibilidade de morrer de amor, diante de sua amada Vitória, em seu primeiro aniversário juntos, assim como o faria nos demais, desde que iniciado aquele romance.

O casal se conhecera na escola, no ensino médio. Para Ramon, o primeiro encontro de olhares bastaria para que não mais a perdesse de vista. Diziam os colegas de sala serem feitos um para o outro, inseparáveis, como todos os grandes enamorados de novela, condenados a serem felizes para sempre.

Naqueles anos, além da companhia em carteiras de sala de aula, da saraivada de beijos incessantes e velados nos fundos da cantina durante o recreio, em pares nas atividades e festas escolares, enfrentaram muitas noites juntos, fossem debruçados em apostilas às vésperas de provas, em livros de poesia – pois se permitiam ouvir a voz de anjos – ou por vezes sobre seus corpos nus, em ebulição, quase virgens, em plena alfabetização sexual.

Ao final do curso, ela passou para a Psicologia e ele em Jornalismo. Comemoraram num contentamento de ganhadores de loteria, farto de planos de futuro: muitos filhos, uma casa no campo, escreveriam livros, viajariam, teriam uma música, cachorros, gatos, papagaios e uma velhice extraordinária. Porém, o amor se dá a distrações, e Vitória conheceria Carlos, um aluno do curso de Engenharia que, ao contrário do romântico Ramon, não elaborava projetos alucinados, sustentados em longarinas de sonhos, mas sobre metas, orçamentos e formulentas planilhas. Desde então, os encontros seriam inexplicavelmente adiados um a um, até quando Ramon soube pelo colega Nestor – parece que sempre há um em nossas vidas – sobre o suposto flerte entre Vitória e Carlos.

O seu mundo quedou-se ali mesmo. Ramon não poderia nem queria crer. Só de pensar, morria. Ligou para Vitória. Marcariam um encontro. Ela adiou o quanto pôde, lançando todas as desculpas, as mais esfarrapadas, mas, diante da insistência, cedeu.

Quando Vitória chegou à praça, Ramon não reconheceu o seu olhar, aquele que o conquistou. Sentiu-se, desde então, fracassado. Mesmo assim, criou coragem para exaltar o seu amor, o mais sincero e sem igual no mundo – como todos, aliás. Gesticulava, falava, falava, falava, com receio do inesperado e até então desconhecido silêncio que poderia abater-se entre os dois. As lágrimas desciam navalhando o seu rosto... Porém, percebia que ela, numa frieza beirando a crueldade, de braços cruzados, evitava olhar para ele. Enquanto tentava convencê-la, ela murmurava, impaciente, “que sabia de tudo aquilo, que sabia, mas que era outra coisa”. Ela se repetia, embaraçada, duas, três vezes, maquinalmente: “sabia de tudo aquilo, mas que era outra coisa”. Sentia-se péssima ali, pronta para correr se pudesse. 

Ramon calou-se. Assistindo àquele constrangimento e ciente de que dali não sairia mais nada, sentiu-se ridículo, de uma estupidez medonha. Ora, Vitória era uma manteiga derretida, chorava até em propaganda de fraldas de bebê, mas não derramara uma lágrima sequer diante do seu amargo e profundo sofrimento. Será que ele não merecia uma lagrimazinha de nada depois de tudo que viveram juntos? Não, aquela era a mais absoluta negação que poderia sofrer. “Pois era só isso”, disse e tomou o seu rumo sem olhar para trás, sendo-lhe insuportável assisti-la certamente aliviada e pronta para revelar ao mundo o seu novo amor. Daí, nunca mais a procuraria, mesmo quando indignado recebeu em uma sacola de papel a devolução de cartas, poemas, presentes e fotografias. Tudo acabado de uma vez por todas!

Curiosamente, a única coisa que nunca mudou foi o envio de buquês de lírios azuis sempre na data do aniversário dela. Com ele, um cartão oficioso, quase desinteressado: “Parabéns” e o endereço atualizado de e-mail e telefone. E só!

 

(CONTINUA DAQUI A 15 DIAS, NESSE MESMO CANAL)



domingo, 20 de novembro de 2022

"15 Anos de Crônicas no Jornal O POVO", de Raymundo Netto para o dito cujo


Na capa do Vida & Arte, em 04.02.2007 | Foto: Fco. Fontenele


Durante a última edição da Bienal Internacional do Livro do Ceará, a equipe do jornal O POVO elaborou uma programação na qual constou uma mesa de jornalistas que celebrava os 10 anos de Romeu Duarte como cronista no seu caderno de cultura. Merecida homenagem. Ótimo cronista, contador de boas histórias, Romeu reveza o espaço comigo, às segundas, e temos uma coletânea de algumas dessas crônicas a ser publicada, esperamos, no ano que vem, pelas edições Demócrito Rocha. Pensava nisso quando... epa!... Lembrei-me: em 2022, completei 15 anos no mesmo caderno.

       Daí, não sob holofotes, mas no meu silencioso e reservado eu comigo mesmo, na atitude – hoje quase clichê – de ouvir estrelas, rememorei: em 2007 fui convidado e passei a integrar um grupo composto por quatro cronistas do “Vida & Arte”: Pedro Salgueiro, Jorge Pieiro, Fabiano dos Santos e eu. Fabiano apenas estreou, não chegando a uma segunda participação. Pieiro ainda levou por alguns anos, mas pediu para sair. Restamos apenas eu e o Pedro, debutantes e ainda aprendizes, graças a Deus.

       De lá para cá, muita coisa mudou, seja na vida do mercado jornalístico (espaços menores nos impressos, quando impressos, e a inexistência dos suplementos literários), assim como na dos escritores (escravidão nas redes sociais e exigência de vida social não compatível com sua produção, além de não precisar ser escritor, mas, sim, personagem).

       A crônica, desde o século 19, tornou-se bastante popular por conta de seu maior veículo: o jornal. Na verdade, era um atrativo para que as pessoas comprassem mais jornais. Com o tempo, ao lado de palavras cruzadas, das tirinhas de quadrinhos, das receitas da vovó e mesmo de colunas sociais, a crônica continuaria o seu papel de lazer, de fruição. Esse bate-papo com o leitor, que conforme o autor ou autora teria suas características e estilos bem próprios e distintos – assim como o seu público –, fomentou uma série de publicações que, no meu tempo de estudante, se revestiriam da missão de encantar-nos e nos apresentar ao mundo literário, desenvolvendo o nosso gosto pela leitura. Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Lima Barreto, Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, Cecília Meireles, Inácio Loyola Brandão, Sérgio Porto, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Vinicius de Moraes, Luís Fernando Veríssimo... Uma infinidade de gente muito boa. E, para mim, o mais importante: lia essa turma toda e me sentia feliz!

     Sempre muito solitário, apesar da família grande, a leitura me foi sempre uma grande companheira. Sua fala baixinha correndo pela minha imaginação adolescente fazia-me crer na possibilidade de quase tudo, alimentando-me nas horas vazias, me emocionando e me acolhendo naqueles instantes nos quais me perguntava qual o sentido de existir.

        Quando me dispus a escrever crônicas neste jornal, após o ponto final, eu as lia e as relia, na tentativa de imaginar se a minha leitora e/ou meu leitor teriam esse mesmo sentimento. Se isso não aconteceu ou acontece, FRACASSEI. Não existe outro motivo para continuar.

       Por conta dessas crônicas, publiquei dois livros: “Crônicas Absurdas de Segunda” (2015), ganhador do edital de artes da Secult-CE e finalista do Troféu Jabuti de Literatura, e “Quando o Amor é de Graça!” (2019), também contemplado no Edital de Artes da Secult-CE, e tenho mais dois para sair no ano que vem “Fantásticos!” e “Coisas Engraçadas de Não se Rir”. Elas, as crônicas, seja pelo jornal ou pelos livros, me apresentaram a maior parte das pessoas que hoje dividem comigo suas leituras e amizades. São responsáveis pelos encontros casuais com desconhecidos na cidade a se anunciarem também leitores e, muitas vezes, a compartilhar esses belos e necessários sentimentos.

       Concluo: a crônica é poderosa, mas assim como as estrelas de Bilac, é preciso amá-las para entendê-las.





 

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

"Ninguém Vive sem Amor", de Raymundo Netto para O POVO


Apolônio Eugênio de Mascarenhas Lobo, desde a primeva infância vulgarmente conhecido pela alcunha “Ninguém”, teria algumas qualidades que o distinguiam da maioria dos mortais: era boêmio, ateu, comunista e poeta. Havia outra, para ser sincero com o leitor ou a leitora, que distraídos deixaram cair os olhos nessas apenas sugeridas linhas: Ninguém nunca amara alguém! Sim, se dizia poeta e não vivera sequer a mais mísera história de amor. Porém, como a vida não é nada perfeita e dada a sua condição de reiterada improvisadora, deu-se que um dia Ninguém sentiu um aperto inédito no peito, que, de tão original, pensou ele ser o seu fim... mas, ao contrário, foi o começo!

Ao entrar numa loja de variedades, encontrou-a, tímida, na seção feminina. Belíssima, a mais linda mulher em que já pusera os olhos. Como encantado, aproximou-se dela, sussurrou algo em seu ouvido, e ela parece ter gostado, pois dali sairiam os dois agarradinhos direto para a casa daquele que, até então, ignorava esse estado de graça.

Durante semanas, Ninguém seria o homem mais feliz do mundo, descoberto como num sonho, a percorrer a pé os versos tortos sem eira nem beira dos desvairados amantes.

Quando nos passeios ao final da tarde, Ninguém percebia os olhares zombeteiros e curiosos do populacho para o casal. Ele, claro, sempre subestimado, supunha logo que estranhavam: “O que essa mulher tão linda viu nessa coisinha?” Neste momento, ele olhava para a companheira e, ela, altiva, não dava a mínima para eles. As lentes do coração violam a miopia do olhar humano. Que os maledicentes se lixassem, se roessem de invejas, fossem para o inferno: eles se amavam!

Às noites, vendo-a na cama, deslumbrante e completamente nua, pronta para incendiá-lo, chegava a se envergonhar por merecer tanto. Deitava com cuidado ao seu lado e diante das estrelas cadentes que regem amores assim, tomava-lhe os seios, as nádegas, beijava cada poro de seu corpo, chupava os dedos de seus pés. Daí flagrados pelo sol a espiar cedinho na janela, percebiam a noite não ser suficiente para caber tanta paixão.

Contudo, com o passar do tempo, inexplicavelmente, como injusta é a vida de quem ama, percebia a gélida presença de seu silêncio, uma inesperada e incômoda apatia. Teria se entediado com ele? Estava arrependida? Por vezes, enquanto ele inventava assuntos, contando causos, falando de poetas e poemas ou de seu modesto – e quase insignificante – trabalho de editor, a assistia sentada no sofá da sala, olhando distante pela janela, como a divisar uma despedida anunciada.

Enfim, não aguentando mais a tortura da indiferença e da desatenção, conversou com ela em prantos de morte. Podia partir! Levasse com ela o seu coração, o seu mundo, nada mais importava. Estava ferido, melhor não vê-la nunca mais. Ela, talvez surpresa com o inesperado desfecho, nada falou. E assim se deu o fim de mais uma, entre tantas, histórias de eterno amor.

Meses depois, Ninguém cruzava a calçada da mesma loja em que encontrara a sua amada. Difícil olhar para o prédio e não se recordar sofrido desse dia. Contudo, sobressaltou-se ao ver, expostos na vitrina da loja, ela ao lado de um outro homem. Estava resplandecente como sempre, agora vestida de branco, com véu e grinalda. O sorriso era o mesmo que ela o oferecia todas as manhãs, só que então ela o dividia com aquele outro, um novo amor, de cravo na lapela, também inerte, segurando levemente os dedos da mão enluvada. Parecia feliz, insuportavelmente feliz, como nunca, e isso bastava para ele, que aprendera da forma mais cruel: o verdadeiro amor pede renúncia e desesperança, mesmo que doa... e muito. Foi-se. E até hoje, maldito pelo amor, sangrando de saudades e ciúmes, Ninguém é triste.




 

domingo, 23 de outubro de 2022

"Falso Messias", de Raymundo Netto para O POVO

 


Há mais de 2 mil anos, uma sentença impactaria definitivamente no destino da humanidade. Ali, encontrávamos dois prisioneiros: Jesus de Nazaré e Barrabás.

Existia uma tradição, pelo menos é o que diz o Novo Testamento – e apenas lá –, de se libertar um detento durante a Páscoa judaica. Barrabás era bastante conhecido pelo povo judeu, e estava preso e condenado à morte por ter participado de um movimento rebelde que culminou na morte, talvez, de um ou mais soldados romanos.

O governador romano Pôncio Pilatos, ao que tudo indica, entre os dois, tencionava libertar o preso Jesus, pois não via motivos justos para a sua condenação, contudo, os eloquentes sacerdotes – que já o haviam espancado durante extenso interrogatório – se manifestaram a favor do outro, o Barrabás, convencendo a multidão, o “povo de Deus”, que optasse por ele, e mais: que assassinasse Jesus!

Influenciada pelos seus sacerdotes, a multidão, por aclamação, concedeu a liberdade a Barrabás e exigiu a morte do segundo. Pilatos, surpreso e receoso de uma revolta ali, lavou as mãos e o libertou, prendendo Jesus novamente, torturando-o, e, por fim, o crucificando, como assim os sacerdotes e o povo – de forma alguma comovidos com aquela tragédia e tomados por ódio e indignação – desejou.

Essa história nos é repetida, por diversos meios, desde o berço. Nos apresentam um Jesus lourinho, de olhos azulíssimos – um europeu em pleno Oriente Médio –, uma imagem construída para o símbolo do amor. Da mesma forma, outra imagem, na cruz, a coroa de espinhos encerrada em sua cabeça ensanguentada, o olhar piedoso voltado para cima, “Eles não sabem o que fazem”, ou incompreensivo: “Pai, por que me abandonaste?”

Eu, sinceramente, não tenho dúvidas de que, fosse hoje, a depender de muitos de seus milhares de seguidores, a história se repetiria, talvez em vez da cruz, executado a tiros e, sendo ele pobre, provavelmente negro, mais um caso sem solução, entre tantos.

É desolador assistir a hipocrisia em massa de um povo que se diz “do bem”, de Deus, a se vangloriar de sua família, de sua tradição e costumes, quando na realidade estimulam os preconceitos, os individualismos, o desprezo e a indiferença pelos direitos humanos e pelos diferentes (negros, índios, LGBTQIA+, religiosos de outras crenças e culturas, portadores de necessidades especiais, vulneráveis de forma geral), que exploram trabalhadores e pobres, imersos na ambição e ganância, propagando uma cultura do ódio e da mentira – aliás, não tem noção nem discernimento de reconhecer uma mentira ou delírio, o que justifica tantos e tantos crimes e genocídios historicamente efetivados em nome da fé e desse Deus.

Hoje, por exemplo, nos é possível entender como o Nazismo de Hitler, que resultou na morte de mais de cinco milhões de judeus, se propagou pela Alemanha com apoio de seu povo “adorador” de Deus e da Pátria. Parece-me que suas orações não são poderosas o suficiente para iluminar as suas mentes, libertá-los dos grilhões da ignorância, como alucinados, repetindo ritos vazios e maculando o nome do amor, restrito a suas naves e templos, sem capacidade de crítica e/ou reflexão, em um total analfabetismo político (e até funcional). Daí, em nome de Deus, massacram física e psicologicamente a muitos que, secretamente, odeiam em seus corações divinais, negando-lhes a chance de existência e de paz. A desatenção completa ao segundo maior mandamento (MATEUS, 22), “Ame o seu próximo como a si mesmo” – apenas ele valeria a Bíblia inteira –, é o maior fracasso de todo o Cristianismo.

Aliás, eu sempre tive uma certeza: se o Diabo de fato existir, o lugar mais estratégico para sua atuação seria dentro das igrejas. Aqueles que se assemelhariam a ele, reconheceriam a sua voz, e tomariam em vão o nome do Senhor, o seu Deus, para pregar o pior mal (aquele que se passa por bem) e ludibriar os mais ingênuos, os mais frágeis.

Fica a advertência: “[...] o Senhor não deixará impune quem tomar o seu nome em vão.” (ÊXODO 20). Tragicamente, assistimos a falsos messias que, por meio de falsos profetas, insuflam falsos cristãos, promotores das piores iniquidades.

Assim, verdadeiros cristãos, se atentem às ações e aos seus frutos – conforme os valores de Cristo – e não apenas às palavras superficiais ditas por línguas perversas de serpentes.





I Ceará em Quadrinhos (25.10, Auditório Central Unifor)

No dia 25 de outubro, terça-feira, das 13 às 20h30, no auditório da Biblioteca Central da Unifor, acontecerá o I Ceará em Quadrinhos, uma ação do Centro de Ciências Jurídicas da Unifor, em parceria com o grupo de pesquisa “Justiça em Quadrinhos” e a Gibiteca Municipal de Fortaleza.

O objetivo do evento é “apresentar os principais intelectuais, quadrinistas, roteiristas e professores que elaboram, pesquisam e desenvolvem metodologias de aprendizagens sobre a nona arte.”

A programação (a seguir), que é totalmente gratuita, traz palestras com profissionais que trabalham com o tema no estado.

A Fundação Demócrito Rocha estará presente na participação do seu gerente editorial e de projetos, Raymundo Netto, e também pela apresentação de encerramento do documentário A História das HQs no Ceará (FDR, 2017), cuja coordenação, roteiro e pesquisa também é dele.

O primeiro tema do encontro, trata da lei que define os quadrinhos cearenses, ou seja, a lei que cria o Dia Estadual dos Quadrinhos no Ceará, 28 de setembro, escolhida em homenagem ao cartunista e quadrinista cearense Luiz Sá, proposta esta defendida pelo deputado estadual Renato Roseno.

PROGRAMAÇÃO

·        13h: Abertura - Daniel Camurça e Max Krichanã | Palestra “A Lei que define os Quadrinhos cearenses” | Palestrante: Eduardo Pereira (Diretor da Gibiteca Municipal de Fortaleza)

·        14h: Palestra “Importância dos Quadrinhos para o Ceará” | Palestrante: Raymundo Netto (Fundação Demócrito Rocha)

·        15h: Palestra “A Oficina de Quadrinhos da Universidade Federal do Ceará (UFC)” | Palestrante Ricardo Jorge (Jornalismo UFC)

·        16h: Palestra “Narrativas da Padaria Espiritual” | Palestrante: Charles Ribeiro (Literatura UFC)

·        17h: Palestra “História em Quadrinhos vão à Universidade” | Palestrante: Daniel Camurça Correia (Direito Unifor)

·        18h: Palestra “Quadrinhos: da Persona à Personagem” | Palestrante: Blenda Furtado - Estúdio Daniel Brandão

·        19h: Audiovisual - A história das HQs no Ceará (documentário da FDR) | Encerramento 

SERVIÇO

I Ceará em Quadrinhos
Data: 25 de outubro de 2022
Horário: das 13h às 20h30
Local: Auditório da Biblioteca Central







 

sábado, 22 de outubro de 2022

"Fogoió", de Pedro Salgueiro para O POVO


Talvez o único país seguro, mesmo com seus percalços e incertezas, suas areias movediças e logros, seja o país da infância; lá estão os pilares expostos com suas fissuras e ferrugens, também as represas longamente solidificadas por mil camadas de areias e fungos: um dia dali sairá, não tenho dúvidas, a última resistência... E, quando os abismos forem aos poucos se abrindo à volta, é de lá que tentaremos retirar a pouca (ou muita, sabe-se lá) proteção que nos amortecerá dos medos.

Quando menino havia um amiguinho oculto, não desses imaginados por crianças solitárias (digo logo para que não acreditem em metáforas), que nos seguia bobo e solitário por todos os lugares: não ia pra escola, talvez para sua família não fosse urgente obrigá-lo, também não seguia pro roçado ajudar nas tarefas que sobravam pros miúdos; apenas sabíamos que não aceitava de ninguém ordens nem obrigações, só fazia o que lhe desse na cabeça.

Simplesmente sumia por aí, embora soubéssemos que ele estivesse sempre por perto, de espreita, muito mais próximos de nós do que imaginávamos: na hora do recreio se esforçava para pegar as bolas que escapavam por cima do muro, logo jogando de volta; quando dávamos fé lá estava sua cabeça alourada (dizíamos “fogoió” na época) num canto do muro, como quisesse participar de nossas brincadeiras, mas não tivesse coragem.

Aos sábados todas as famílias da vizinhança iam para a missa e feira na cidade, e como morávamos na roça arrumávamos quaisquer meios que nos pudessem levar, uns iam de animais, que eram amarrados num enorme benjamim ao lado da praça da igreja, raros de bicicletas, um carro de linha com carroceria e escadinha carregava principalmente os de idade avançada; já a leva de meninos do vilarejo corria estradas, descobrindo toda sorte de novidade e brincadeiras que nos entretecem da poeira e pedras da estrada.

Sabíamos que o “de ovelha” nos seguia por dentro dos matos, vezes o víamos feito aparição fosforescente: ele nos pregava sustos de um lado e logo nos jogava pedras do outro, parecia se divertir com seu anonimato, embora estivesse muito mais presente em nossas vidas do que imaginávamos: era um de nós, um qualquer como todos e parecia mesmo nosso irmão; só que um irmão de todos do vilarejo, porque bisbilhotava a todos com igual intensidade: se demorasse a aparecer era motivo logo, entre nós, de queixas.

Apenas os adultos o tinham como atrasado da cabeça, para a meninada era apenas um de nós, invisível, mas muito presente: corríamos com ele, nós pelas veredas e caminhos e ele por dentro dos matos, ria de nós e nós dele: trocávamos pedradas e carinhos e quantas vezes não me ajudou em tarefas pesadas, em meu desespero saia pra chorar um pouco atrás de casa, quando voltava estava tudo bem feito e eu fingia não ver suas pegadas que sumiam na beira do mato.

A maioria de nós veio estudar na cidade grande para nunca mais voltar pro sítio, nas poucas vezes que retornei já preferia os namoros, as festas, o futebol com os adultos: soube apenas que ele nunca deixou de ser criança, que mesmo já barbado e grandalhão continuou suas inocentes traquinagens – afirmam que recusou bebidas, cigarros e correu com medo de uma menina que lhe demonstrou simpatia.

Eu mesmo continuei a vê-lo em muitas páginas de Zé Lins, Graciliano, Rachel de Queiroz e Guimarães Rosa, mesmo nuns livros estrangeiros: eram ele puro, “imperialzinho” como se dizia na roça: até que ultimamente tenho notado em mim, já velho e alquebrado, muitos traços do fogoió: sua estranha mania de andar nas sombras, sempre anônimo, de percorrer caminhos que margeiam as vias principais – os quartos sempre escuros, as ruas sombrias têm me atraído, e até já atiro pedras nos contentes que seguem aos risos esquecidos de mim.




 

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

"Consuelo", de Raymundo Netto para O POVO


Deoclécio se casara com Consuelo inda muito jovem. Tinham filhos e contavam mais de 45 anos em comum, o que sempre parecia impressioná-lo: “Quem diria...”

Na cozinha, por horas, detinha a atenção naquela mulher a varrer, passar o pano, catar feijão e cortar cebolas. Ansiava pela hora em que reencontraria nela a mocinha de olhar brilhante que vira pela primeira vez na pracinha a semear gargalhada inconfundível, a propor ingênuo futuro de amores e a beijá-lo demorosamente como se o mundo fosse acabar ali, naquele instante. Ao contrário, então, ela sorria quase nunca, pouco se expressava, chegava ao ponto de parecer não ter nenhum querer ou esperança na vida. Se o ouvia? Não sabia. O rosto, geralmente sisudo, era sulcado de rugas. O corpo, frio e flácido. Olhava para ela e via a sua mãe. Pensava: “Como tocar em minha mãe?”

Consuelo, também com o tempo, recusava apetites. Quando de muita insistência, se dava a qualquer coisa, muito pouca e tímida, quase ausente, numa friúra de má atuação. O desejo trocado por frustração e impotência. Uma desgraça seguida de boa noite.

A fome e a longa jornada de rejeição abriu portas para um inesperado caso. Deoclécio sabia: “A amante não era metade da Consuelo de sua lembrança, mas o fazia homem de novo, achamado em paixão e ardor.”

Naturalmente, os arranjos se avolumaram e foi difícil manter a discrição: a filha o encontrara ao telefone público diante do bar. A outra, no carro parado em quarteirão escuro. O filho ouviu da vizinha que “parecia” ter visto seu pai com outro alguém num calçadão de praia. As filhas nunca, mas o filho o abordou. Ambos envergonhados, sem jeito, se encaravam: “Você é muito novo para entender.” “Eu não quero entender nada. E a minha mãe, como fica?” Olhavam para Consuelo sentada na sala e alheia a tudo. Apenas duas coisas lhe pareciam fazer algum sentido: a missa e a novela.

Deoclécio continuou vendo a amante, entretanto, o conflito o corroía. Não permitia que ela falasse de Consuelo, uma santa! Nem de longe criticar aqueles filhos. Ela silenciava, mas se impacientava diante daquela imprevista insegurança.

Um dia, a notícia: Consuelo morreu! “Foi o câncer”. Em meio ao sofrimento e à culpa, ainda ouviu da caçula: “Pai, você conseguiu. Agora está livre para sem-vergonhice!” Os outros filhos silenciaram. Nada mais importava agora.

Deoclécio quedou-se em cacos. Chorava a soluçar, feito menino. Esforçava-se, mas não conseguia se lembrar da última vez que conversaram nem sobre o quê. Morria com Consuelo a sua melhor porção.

Deitaram os anos. O homem envelhecera tudo o que podia na vida. A amante desaparecera há tempo. Porém, um dia, no bar, a encontrou agarrada a outro, chamando pelo mesmo apelido de cama que outrora lhe pertencera. Fitava-a e pensava como pôde: “Tão sem graça aquela...”

Voltou para casa escura e vazia. Com a ponta dos dedos acompanhava o desfile de porta-retratos a relembrá-lo da irreparabilidade de uma vida, o desencontro, o desamor, a insuportável saudade daquilo que foram e tiveram.

Daí, um fulminante silêncio tomou conta de seu peito, ao ouvir uma alegre gargalhada lhe chegar daquela cozinha:

“Consuelo? É você, meu amor?”

 

Publicado originalmente em Quando o Amor é de Graça! (EDD, 2019). Se tiver interesse em adquirir, pode fazê-lo pelo WhatsApp (85) 99183.8515




 

domingo, 2 de outubro de 2022

"Laika: caroço de Sputnik", de Raymundo Netto para O POVO


Há mais de 60 anos, na onda de Guerra Fria, o satélite soviético Sputnik I marcaria o início da corrida espacial, deixando a potência estadunidense impotente diante da incalculada e atroz humilhação. Não bastasse, um mês depois, novamente a U.R.S.S. promoveria o cazaque lançamento ao espaço de um novo satélite, o Sputnik II. A novidade maior seria que a bordo deste estaria acomodado o primeiro ser vivo a orbitar a Terra. Para o orgulho feminino, e por um restritivo detalhe anatômico, o ser não seria “ele”, mas “ela”, a cadela Laika, de apenas 3 anos. Ou seja, ela não falava, porém, já latia.

Na época, dada como morta em circunstâncias que iriam além das divisas atmosféricas e, portanto, da jurisprudência mundial, o destino da heroína e mártir socialista se tornou motivo de diversas conjecturas e teorias. Eu, no entanto, não acredito em nenhuma delas e explico o porquê.

Há alguns anos, fotografando as ruínas ferruginosas do mercado da carne da Aerolândia – hoje completamente restaurado –, assisti a uma cena insólita: parecia um cão descendo de paraquedas. Seria possível? Seguindo meu instinto de jornalista diplomado em Ministério, corri até a base aérea para saber o que era aquilo.

No descampado, a vi sobre as patas, mangas arregaçadas, a recolher as longas linhas de náilon e o velame. Apresentou-se: era ela mesma, a Laika, em pessoa... ou melhor, em cachorro. Incrível. E todos pensando que ela, há tempos, teria virado “hot dog”!

Latindo fluentemente em português, não demorou a demonstrar a garganta seca e a perguntar, numa sinceridade quase gentílica, “onde poderia encontrar vodka”. Ofereci-me a levá-la ao Benfica. Não bebo. Então, quando me pedem por álcool, ou levo para a farmácia ou ao Benfica.

No caminho, por meio de fórmulas complicadas, que fingi entender para não parecer mais burro, a pequena vira-lata – insistia na tese de que pertencia a uma linhagem pouco convencional de husky siberiano, mas... – me explicava: devido ao tempo relativo, ela, que, teoricamente, deveria ter mais de 60 anos, gozava de uma jovialidade impressionante. Falou também existir uma Sociedade Sideral Protetora de Animais e que foram alguns de seus integrantes que a mantiveram viva quando a equipe russa a largou de mão... Ouvindo tudo aquilo, eu que desconfiava, agora tinha a absoluta certeza: “as vodcas do Benfica não prestam!”

Contou-me mais. Com tempo de sobra, além de encher o bucho com gelatina russa, leu de trás para frente obras de  Фёдор Миха́йлович Достое́вский e de Анто́н Па́влович Че́хов, “gênios”, sendo agora também uma contista: “Aliás, a nossa literatura é a melhor do mundo”. Pior é que é: Gogol, Tólstoi, Pushkin, Maiakoviski...       

Assim, escreveu também diversos livros. Alguns teriam feito bruto sucesso em Fobos, uma das luas de Marte, que, historicamente, vivia em conflito com o planeta vermelho.

Nostálgica, a cãosmonauta falava de seu exílio, da saudade das noites de lua em Moscou, da boêmia em São Petersburgo, até chegar às alucinações da experiência da proximidade com a morte e do seu encontro com Deus, num arrependimento legítimo de um Raskólnikov: Estive, praticamente, nos braços Dele, mais do que qualquer outro ser... mais até do que o Papa!”

Diante de outras divagações e da tediosa mansidão canina, que percebia ir mais longe do que se foi, arrisquei a obviedade: “Desculpe-me, Kaka, mas a pergunta é inevitável: a Terra é mesmo azul?”

Sorrindo com graça e humildade, lambeu o dorso de minha mão e perguntou: “Ora, Raymundo, você esquece que os cães enxergam em preto e branco?”

 

Publicado em Quando o Amor é de Graça! (EDD, 2019)






 

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

"Vida Linda de Morrer", de Raymundo Netto para O POVO

 


A dona Morte estava triste. Tirante uns diligentes suicidas – muitos deles querem se matar, mas não querem morrer –, era mesmo a indesejada das gentes.

Há zilhanos, desde que o mundo é mundo vasto mundo, transitava ela por aqui, sempre à espera do instante solene de sua existência. Sim, existência, porque vida mesmo a Morte não tinha. Seria quase uma condição sine qua non para ela, declinar de qualquer estertor de vidas, não se apegar a nenhuma delas, ser no mundo a grande cultora de cascas vazias. Assim, pensava-se, fora ela criada e experimentada na mais suprema incompreensão, sem possibilidade sequer de curtir seus frios seguidores e sem nunca se permitir prazer nenhum. Afinal, o prazer, assim como a alegria e o amor, dizem, é condição de vida. Entretanto, no nada absoluto do mundo, mantinha ela um segredo: morrera de amores uma única vez na vida – pelo poeta Dante, que conseguiu convencê-la, numa promessa de Vita Nova, que o amor seria o prelúdio da morte, estratagema depois revelado para aproximar-se da sua amada Beatrice. Daí, sepultou de vez todas as afeições e o seu coração traído com Dante foi-se. E a foice com Dante!

É raro que as pessoas dediquem seu tempo – de vida, porque o tempo da morte é o silêncio – em aprender a morrer. Já dizia Sêneca, o moço desafeto de Messalina, “quem não souber morrer bem, terá vivido mal”.

Aliás, a dona Vida, sua irmã, ao contrário, vivia em regalos, quase uma parteira, celebrada e lembrada em festejos, desejada e aplaudida por todos em sopros de velinhas e de línguas de sogra, estampada em camisetas de feira e panos de prato. Sucesso de público e de crítica – mais desta, pois criticar a vida alheia é quase um exercício, sabido que a língua é um músculo.

A pobre dona Morte, não negava, colhia invejas da irmã. Com os pés calejados de tanto acompanhar despojos, sem qualidade de vida ou autoestima, vista com temor e desconfiança, a Morte naquele dia rebelou-se. Plantou o pé e bradou ao infinito: “Nem morta!” E nós sabemos que juramento de morte sempre foi coisa que deu certo – ou muito errado – por aqui.

O fato é que durante esse tempo o sofrimento do mundo aumentou. Ora, a imortalidade é um inferno! Foi quando ela percebeu que, mesmo contra a sua vontade, sua presença inda seria sentida por todos. Pessoas sofriam a perda de amores, de amigos, de afetos, das horas e de outros bem-quereres na distração eterna de todos os dias. Sim, ela seria o que há de mais presente e definitivo na rotina mundana. Pôs-se a sentir na carne a dor mortal dos corações feridos a suspirar diante de porta-retratos, de reflexos em espelhos, do convite para o café que não chegou, na audição daquela música da juventude, no ecoar das gargalhadas daqueles filhos, agora adultos, que não moram mais ali.

Perder é a morte em prestações. A Vida, chama breve, uma sala de estar das tintas pálidas da Morte, servindo-lhe aos poucos – às vezes, aos montes.

O que fica é a dor. E a dor que não passa nunca se chama saudade, e como sussurrou em seu ouvido o cronista, “é na morte onde ela mora”!

Foi quando a Morte despertou e se viu, em essência, tão igual a todos os mortais, no vagar aprendiz do cortejo a caminho da solidão.

 

Publicada originalmente em Quando o Amor é de Graça! (EDD, 2019), de Raymundo Netto (para adquirir o livro, WhatsApp da editora: 85 99183.8515)


quinta-feira, 1 de setembro de 2022

"Liberdade é Não Mentir!", de Raymundo Netto para O POVO

 


Parece mentira, mas não gosto de mentir.

E o quanto não gosto de mentir, gosto em igual volume de dizer “Eu não minto!”. Isso irradia em mim uma sensação de liberdade incrível, comparável até ao quinto, não digo o mesmo para o sexto, mas ao exato quinto dia útil do mês.

Minha mãe, que já herdara esse defeito da mãe dela, detestava a mentira. Para ela, a maior traição. “Quem mente engana a si mesmo!”, repetia com bravura adolescente a quem quisesse ouvir, muitos até, de berço, praticantes do exercício fraudulento da palavra, que ficavam boquiabertos – principalmente se fossem pacientes dela, que era dentista – diante daquele monumento humano de honestidade e inocência. No mínimo, pensavam: “Aí mente...” ou, os mais crédulos, “Ah, coitada...”

Decerto que mentir socialmente pode ser considerado um treino da criatividade e/ou da diplomacia, muito útil para calar aqueles instantes de incômodo silêncio nos quais não é saudável trocar palpites sobre política, futebol ou religião, restando pouco a fazer com a língua. Há quem diga, inclusive, que mentira boa é aquela mais convincente, mais verdadeira do que a duvidosa verdade – muitas vezes, por razões morais, preferem chamá-la de “alegoria” ou “retórica”. 

Ah, e por falar em língua, os bons escritores, verdadeiros canhões da lorota, não pagam por ela, mas por sua pena falaciosa. Isso, quando não transferem o seu talento para a vida prática, mais especificamente para alcova, sede do imaginário ultrarromântico, gastando uma torrente que, melhor aplicada, daria para forjar romances épicos, em vez de crises conjugais ou crimes passionais sob a luz do luar.

Alguém pode confessar, saramagueando o próprio, que seria muito violento viver se não existisse a mentira. Pessoas que, a Milli Vanilli, fingem tão completamente ser o que não são que acabam por perder a identidade e a confiança, tal qual aquele pastel mineiro sem recheio, cujo nome popular é “mentira”. E por falar em Minas Gerais, foi de lá que se iniciou no Brasil o Dia da Mentira, quando em 1º de abril de 1848 publicaram um periódico denominado, acredite: “A Mentira”.

Eu, por aqui, optei por não mentir em troca dessa tal desejada e imensurável liberdade. E quando falo em liberdade, me refiro à tentativa de poder ser nesse mundo, mesmo que apenas no (ray)mundo, o mais verdadeiro possível. Que possa pensar e me expressar como e quando quiser. Quedar-me, ao máximo, ao lado das pessoas das quais mais gosto e/ou amo. Vestir-me, ler, ouvir o que me interessa ou ir apenas a lugares que me fazem sentir bem. Poder viver o luxo de não ter nada e isso ser tudo que eu preciso para me sentir vivo, nem melhor nem pior do que sou. Ter a certeza de que não podem falar de mim, pois ninguém paga as minhas contas. Ora, se às vezes nem eu as pago!

Tudo isso, pois entendo que minha mesmo, apenas a efêmera vida, esta que se abriga nesse corpinho meia boca de cinquentinha, minha única, verdadeira e intransferível morada, quase um trailer riponga, modelo Sgt. Pepper’s.., de pneus recauchutados, mas a quem devo respeito e alguma atenção.

Sim, poderia até jurar, mas minha mãe também me dizia: “quem jura mente”. Então, fico por aqui, de verdade.