domingo, 15 de maio de 2022

"Mendez: Mestre da Caricatura", de Levi Jucá, por Raymundo Netto


O LIVRO DO ANO! Não hesitaria em dizer sobre o volumoso Mendez: mestre da caricatura (EcoMuseu de Pacoti, 2021), de autoria do professor/educador, pesquisador e historiador Levi Jucá, doutorando em Educação pela UFC, um professor de História que FAZ HISTÓRIA.

Levi reside em Pacoti (a sua “ilha verde”), ao lado de sua esposa e parceira Maraline Rocha e filhos, em um imóvel antigo, colonial, sobejado de livros, terminando por um quintalzinho bucólico e convidativo, na aprazível serra de Baturité no Ceará, mesmo município onde exerce o seu ofício de professor do estado (ensino fundamental e médio), escreve e desenvolve projetos reconhecidos como de grande relevância, não apenas histórica, cultural, mas ambiental.

Embora jovem, tem uma extensa e invejável produção que, felizmente, não se restringe à quantidade, apresentando – são diversos os testemunhos sobre essa produção – uma rara e benfazeja qualidade.

Não bastasse a escolha perfeita do nome desse biografado, o caricaturista e pintor cearense Mário de Oliveira Mendes, o “Mendez” (1907-1996), um dos maiores nomes nacionais em sua arte, hoje, um tanto esquecido, a obra, um livro de arte, é uma produção gráfica de entontecer e fazer chorar – certamente seria um livro que eu me orgulharia de ter feito –, com destaque em seu miolo. Em 2018, Levi havia participado de nossa coletânea História das Histórias em Quadrinhos no Ceará (EDR) com o texto “Mário de Oliveira Mendes, o Mendez (1907-1996)”. Havia já uma pesquisa em andamento e o desejo de alçar um voo maior. Seria impensável imaginar que em tão pouco tempo teríamos esse resultado estampado nessa encadernação luxuosa e em vivíssimas 256 páginas.

Para mim, que sou apreciador e diletante na pesquisa histórica, ler uma pesquisa tão bem escrita, fundamentada e, como já me referi, com tamanha riqueza de documentos, entrevistas e imagens (fotos, recortes, páginas de jornais, publicações e uma galeria incrível de ilustrações, caricaturas e charges do biografado – geralmente são tão escassos e/ou nos chegam danificados –), me traz uma esperança patrimonial e cultural imensa.

Poucos artistas tiveram o privilégio de ter, após a sua morte, um tratamento como esse dado por Levi – que apesar de ser um grande talento, não perde a humildade, honestidade intelectual e a generosidade – e pela sua equipe editorial. Assim, da mesma forma que Levi teve a oportunidade de ser o primeiro a publicar a biografia do Mendez, não tenho dúvida de que o Mendez teve a grande felicidade de ter o Levi como seu biógrafo.

Indico demais que todos ADQUIRAM essa obra, a LEIAM, a DIVULGUEM, pois é o retrato de melhor exemplo de produção cultural que o Ceará tem.

IMPORTANTE:

A tiragem é limitada e o preço é promocional: apenas R$ 50,00

 

Contato com o autor:

levijuca@gmail.com

@levijuca (Instagram e Facebook)

 

Para saber mais sobre o biografado, o biógrafo, sobre a obra e adquirir o seu exemplar, ACESSE:

www.ecomuseu.com.br/mendez/

 

Para assistir à entrevista de Levi Jucá com a historiadora Mary Del Priori, ACESSE:

linktr.ee/marydelpriore

 

segunda-feira, 9 de maio de 2022

"Apesar de... SORRIA!", de Raymundo Netto para O POVO


Todo mundo tem aqueles dias em que desperta e por um motivo qualquer, por vezes aparentemente injustificado e/ou desconhecido, sente uma tristeza doída no peito.

Existem outras nas quais essa tristeza é quase uma inquilina, companheira antiga e perseverante, uma angustiante motivadora de silêncios, de cismas de nos colocar de ponta-cabeça, de semear a mais absoluta descrença em nós mesmos, de findar em lágrimas incontidas no escuro das gentes e, como diz o Baleiro, de andar tão à flor da pele que “qualquer beijo de novela nos faz chorar”.

Às sombras, esses demônios domésticos nos cobrem da sensação de não cabermos mais em nós mesmos, de não nos reconhecermos mais no mundo, de vivermos em muda incompreensão, a ponto de que, para continuar – ou não – toma-se a atitude de nada mais importar ou não se levar nada a sério ou mesmo de, simplesmente, ocupar o nosso original espaço, uma espécie de “bolha”, a nos proteger das inconvenientes, agressivas e patéticas tentativas de “inclusão”. Sim, várias vezes se terá a incerteza de sorrir de novo ou de enfrentar os dias do amanhã, não por medo, pois curiosamente não se o tem, mas por não encontrar mais neles algum sentido ou razão.

Desde a minha infância, coleciono alguns poucos “heróis”, e eles geralmente eram solitários, incompreendidos, ridicularizados, perdedores, com a inocência d’O Garoto, sem tempo para amor ou para amar, contudo, sem ambições, não tinham medo de errar e eram inconvencionais.

Um desses heróis era a criatura chapliniana, o vagabundo e andarilho aqui conhecido por Carlitos. Eu, com 11 ou 12 anos, colocava o despertador para me acordar na madrugada para assistir sozinho – éramos 8 lá em casa – ao circuito de seus filmes na Globo – na época não existia videocassete, DVD, muito menos streamings. Sempre me perguntei o que fazia um garoto adolescente a empenhar-se tanto para assistir àqueles pastelões de mímicas (mudos) e em P&B. O certo é que essa criança se emocionava, se divertia e se encantava com a beleza, a sensibilidade e a profunda humanidade contida naquelas narrativas, de maneira que aquelas imagens ainda hoje forram algumas das paredes de suas (e minhas) mais caras memórias.

Nessa mesma época, conheci “Smile”, composta por Charles Chaplin em 1936 – o título e a letra seriam acrescidos em 1954 por John Turner e Geoffrey Parsons.

Além da melodia lancinante, a poesia me advertia: “Sorria, mesmo com o coração doendo/ Sorria, ainda que ele esteja partido.” Eu era cercado de afetos, família grande e barulhenta (leia-se divertida, unida), de pais amorosos, mas havia, sim, uma tristeza congênita, uma ausência de sonhos e um total desinteresse em “buscar a felicidade”, porém aliada a uma certeza que até hoje trago comigo: “tudo passa, seja a dor ou a glória!”

Assim, muitas vezes consegui e consigo cumprir o sorriso, como o artista ao abrir das cortinas, do acenar dos leds das câmeras de TV. Sorrir, mesmo quando no espertar da dor e da tristeza, da perda – seja por morte ou algo parecido –, da dúvida, do desamor.

A grande aventura da vida exige equilíbrio, serenidade e muita coragem. Além de a busca intransigente pelo que se quer (se preferir chamar isso de “sonho”...), o exercício da verdade e do respeito para com os outros, a defesa de SEUS princípios e valores, o abusar de sua capacidade de oferecer afetos, a construção mais ampla da sua liberdade e do seu eu (que deve ser muito debulhado, cuidado e amado) e o desafio constante, entre eles, o de sorrir.

E se você me lê agora, faça-me o favor, respire fundo e SORRIA!


 


 

domingo, 8 de maio de 2022

"Muito Antes, Depois...", de Pedro Salgueiro para O POVO


Eu era bem jovem quando perdi meu pai, cursava a segunda série do segundo grau e fazia um ano e meio que morava longe da família, pois em minha cidade só havia o primeiro grau: foi um choque terrível, cheguei até a pensar em largar tudo e voltar para a pequena cidade natal, porém resisti à dor e às dificuldades (não sem a ajuda de muitos), então criei uma defesa na forma do “pensamento mágico” de que um dia encontraria meu pai por acaso em algum recanto do mundo... E essa ingênua e útil ideia foi sobrevivendo ao tempo, de forma que estou às vésperas de completar a idade dele quando se foi e permaneço de vez em quando vislumbrando seu perfil na multidão de qualquer cidade onde esteja.

Muitos anos depois, lendo o belo livro Aqui nos encontramos, do inglês John Berger, percebi que não era o único a imaginar essas fugas úteis, no romance o autor inicia descrevendo: “No centro de uma praça, em Lisboa, existe uma árvore chamada cipreste lusitano. (...) Seus galhos, em vez de apontar para o alto, para o céu, foram treinados a crescer para fora, horizontalmente, de modo que formam um gigantesco, impenetrável e baixíssimo guarda-chuva com um diâmetro de vinte metros.” Embaixo dessa estranha árvore havia um também estranho poema: “Eu sou um cabo da tua enxada, o portão da tua casa, a madeira do teu berço, a madeira do teu caixão...”. E continua a descrever a praça e seus p(r)assantes, até se deparar com uma velhinha, que – do nada – pega em seu braço: “Abruptamente, (...) ela se levantou, virou-se e, usando o guarda-chuva como bengala, veio em minha direção. Reconheci seu andar. Muito antes de poder ver-lhe o rosto. Era o andar de alguém já aguardando, com impaciência, chegar e sentar-se. Era minha mãe.” Depois de algumas divagações do narrador, ela lhe fala: “Há alguma coisa, John, de que você não deveria se esquecer – você se esquece de coisas demais. Aquilo que você deveria saber é o seguinte: os mortos não ficam onde estão enterrados”.

No seu conto “O outro”, da coletânea O Livro de Areia (1975), o argentino Jorge Luís Borges encontra, também numa praça, a si mesmo, seu duplo, que assovia calmamente e puxa conversa com o narrador/personagem estupefato: “– Eu estou aqui em Genebra, em um banco, a alguns passos do Ródano. O estranho é que nos parecemos, mas o senhor é muito mais velho, com a cabeça grisalha.”, ao que o Borges velho retruca: “–Se esta manhã e este encontro são sonhos, cada um dos dois tem que imaginar que o sonhador é ele. Talvez deixemos de sonhar, talvez não. Nossa evidente obrigação, enquanto isso, é aceitar o sonho, como temos aceitado o universo e termos sido gerados e ver com os olhos e respirar.”

Pois se esses dois grandes escritores (dentre muitos que tiveram essa consoladora ideia) podem encontrar sua mãe e até a si mesmo, então este pobre cronista de província também tem o direito de sonhar um dia encontrar seu pobre pai sapateiro, que deve continuar a sonhar com seus entes queridos que por aqui ficaram e nunca o esquecemos.




 

domingo, 24 de abril de 2022

AlmanaCULTURA In DICA: “As Aventuras de Sherlock Holmes”, de Berardi e Trevisan (Mythos Editora)


Para minha sobrinha Maria Flach

 

Adquiri, ainda este ano, um exemplar de As Aventuras de Sherlock Holmes (Mythos Editora, 2021) em quadrinhos.

O que me chamou a atenção, logo de cara, foi a familiaridade da ilustração da capa. Bastou pouco para perceber a “assinatura” no seu canto inferior direito: (Giancarlo) Berardi & (Giorgio) Trevisan. Não à toa reconheci o “traço”, confirmado depois pelo meu embevecimento diante do estilo (meios-tons, hachurado...) e técnicas empregados no miolo da obra, realçando um londrino e cinematográfico panorama – muitas vezes noturno, nebuloso e misterioso – em pleno século XIX.

Berardi e Trevisan, ao lado de Ivo Milazzo, ganharam o Troféu HQMIX em 2001 pela edição brasileira de Ken Parker, personagem western de fummeti (quadrinhos italianos), um tanto cult, que sempre me impressionou muito, ao lado de outros dos quais é possível que eu escreva futuramente.

O roteirista Berardi também é o criador da incrível criminóloga Júlia Kendall – da mesma forma que Ken Parker traz as feições de Robert Redford, a Júlia é Audrey Hepburn e a amiga/empregada é a Whoopi Goldberg –, que arrisco-me dizer ser uma das melhores revistas do gênero quadrinhos lidas hoje no país – também publicada pela Mythos Editora e precariamente distribuída nas quase desaparecidas bancas de revistas, sendo mais facilmente encontradas nas revistarias especializadas ou no site da editora, muitas vezes em pré-venda – sempre priorizo as revistarias para contribuir que não desapareçam também.

Júlio Schneider, tradutor e apresentador da obra, nos conta que, motivados pelo centenário da criação do detetive da Baker Street, em 2021, foi sugerida a publicação dessa obra, originalmente quadrinizada entre 1986 e 1989 e composta dos primeiros 6 contos de sir Arthur Conan Doyle (1859-1930), reunidos em 146 páginas com o título As Aventuras de Sherlock Holmes: “Um Escândalo na Boemia”, “Um Caso de Identidade”, “A Liga dos Cabeças Vermelhas”, “O Mistério do Vale Boscombe”, “As Cinco Sementes de Laranja” e “O Homem da Boca Torta”.

Arthur Conan Doyle escreveu 4 romances cujo personagem é o nosso famoso mestre da observação, da lógica dedutiva (ou raciocínio abdutivo, como alguém defende) e dos disfarces, o “maior detetive do mundo” – contestando os criadores do “homem morcego”... –, são eles: Um Estudo em Vermelho (1887), O Signo dos Quatro (1890), O Cão dos Baskervilles (1902) e O Vale do Terror (1915).

A partir de 1891, escreveria 56 contos do personagem distribuídos em 5 grupos: As Aventuras de Sherlock Holmes, Memórias de Sherlock Holmes, A Volta de Sherlock Holmes, O Último Adeus de Sherlock Holmes e Os Arquivos de Sherlock Holmes.

As Aventuras de Sherlock Holmes original é composto de 12 contos. Infelizmente, devido a restrições de mercado na época, a dupla quadrinizou apenas 6 deles, como já citamos acima.

A adaptação da dupla é belíssima e bem fiel a esses contos. Quanto aos aspectos técnicos, estamos falando de mestres na arte, e assim não preciso dizer mais nada.

Importante lembrar, para aqueles que não visitam regularmente as livrarias – não desistam delas, por favor –, que a Martin Claret editou um volume com todos os contos (livro azul) e outro com todos os romances (livro vermelho), além de enfeixar neles alguns estudos e trazer ilustrações originais de Sidney Paget da época de publicação na The Strand Magazine. Muito boas edições.


P.S.: nasci achando que conhecia o detetive Sherlock Holmes, assim como conhecia o Drácula, o Frankenstein, o homem invisível e outros personagens que já estão geneticamente incluídos em nosso inconsciente coletivo. Contudo, um dia, recentemente, decidi ler os originais para conhecê-los da “boca” de seus autores. Que surpresa eu tive... e que você pode ter também. No caso, passei a ler o Sherlock após a minha sobrinha Maria, a quem dedico esse artigo, em visita a Fortaleza, me dizer que estava lendo a obra. Foi quando conheci Um Estudo em Vermelho, o delicioso princípio de tudo... mas esta é outra história.




 

"Bonança", de Raymundo Netto para O POVO (na íntegra)


Bonança era uma pacata e acolhedora cidade interiorana, arrostada a uma sempre verde serra, quase uma janela mitológica, costumeiramente fonte das histórias ancestrais do local. Não fossem alguns poucos representantes comerciais a abastecer-lhe mercearias, farmácias, oficinas e papelaria, não haveria comunicação nenhuma entre Bonança e o mundo.

Um dia, chegou por lá, rompendo a serena rotina da Câmara Municipal, um homem grande, todo em preto, de cara amarrada e de poucas palavras, dizendo-se ser a LEI, e que iria arranchar-se por ali. Um dos vereadores estranhou: “Mas lei para quê? A cidade é quase uma família, há anos não sabe nem o que é crime!” O homem, puxando o edil pela gola, vociferou: “Onde não há lei, imperam os criminosos!”.

Largando o homenzinho contra a parede, perguntou onde ficava a Delegacia. Amedrontados, todos se entreolharam: não havia nenhuma. Perplexo e impaciente, a LEI dirigiu-se à praça da matriz, sede social de Bonança, e lá encontrou gente dormindo em bancos, soltando arraias, jogando futebol de meia, damas, gamão, baralho... Apresentando, à cintura, a sua arma – a chamava de “bacamarte” –, espalhou no ar a sua voz estrondosa: “Teje tudo preso, cambada de vagabundos!” Eles não estavam fazendo nada demais, todavia, de tão pacíficos, quase choraram com aquele anúncio: “Vadiagem e jogo de azar são intoleráveis... Prisão em flagrante!”  Um deles, o mais velho, ousou: “Mas presos onde, doutor, se não existe Cadeia na cidade?” De imediato, a LEI respondeu: “Não tem hoje, e por isso vocês construirão uma. Trabalhando, pode ser que consigam remição de pena. Pode ser... Vamos logo, seus preguiçosos!”

Daí, durante dias e noites de trabalho interminável, com pausas apenas para refeições, o clima da cidade era de completo desassossego e terror. Ouvia-se aqui e acolá que todos os dias aumentava, a olhos vistos, o número de condenados na cidade. Eles não entendiam, mas segundo a LEI, todos eles eram de alguma forma criminosos.

Logo de início, o mais antigo jornalzinho da cidade, que denunciou a arbitrariedade da LEI, foi empastelado sob a acusação de crime de imprensa e contra a honra. O prefeito já suava na obra, acusado de cobrança indevida de impostos e corrupção passiva. Os fumantes, assim como aqueles que tivessem um papagaio ou bicho do mato em casa ou colhessem flor do jardim da praça para dar a namoradinha, eram “presos” por crime ambiental. Caso tirassem essa mesma flor ou colhessem frutas do jardim alheio, pedissem qualquer coisa emprestada e não devolvessem, corressem nas calçadas sem motivo que justificasse, eram enquadrados em crime contra o patrimônio: furto, receptação, dano etc. Quem se deixasse ficar em espreguiçadeiras ou cadeiras nas mesmas calçadas após às 21h era recolhido, acusado de crime contra o respeito aos mortos – na cidade havia um cemiteriozinho tão mixuruca que não dava gosto ficar por ali nem alma penada. Namorassem na calçada ou na pracinha, e dependendo de como tomassem sorvete em público, poderiam ser enquadrados sob a acusação de crime contra a dignidade sexual. Deixassem um menor em casa, mesmo que por pouco tempo, ou fizessem parte de pequenas discussões, eram vistos como crime contra a pessoa: abandono de incapaz, lesão corporal, constrangimento. Até fofoca era motivo de prisão, considerada ameaça e inviolabilidade de segredo. Assim, com o crescente número de operários dedicados à obra, com muito pouco Bonança ganharia a sua primeira Delegacia e Cadeia.

A LEI, arrogante e orgulhosa, não pouparia esforços e conseguiria que a imprensa, também a título de remição, divulgasse ao mundo a inauguração da nova sede da justiça no município.

No dia acertado, porém, uma desconhecida van aportou-se na praça e homens em jalecos brancos logo identificaram e pularam com uma camisa de força em cima da LEI. Ele, surpreso, tirou seu “bacamarte” do cós das calças e começou a tirar sons com a boca: “Bang! Bang! Você tá morto...Você também...” Mas aquela gritaria não impediu que eles “envelopassem” a LEI. Sim, meus amigos, a LEI era uma lunática, louca, pirada, mentecapta...

Devido a uma série de explicações, depoimentos e protocolos, os paramédicos decidiram recolher naquelas celas, provisoriamente, o paciente fugido do Asilo, conhecido como Casa Verde de Itaguaí, enquanto resolviam a sua transferência, inaugurando assim a Cadeia de Bonança.

Ao final da tarde, a van se foi da cidade, levando com ela a inconformada LEI a esmurrar o vidro traseiro.

Todos os moradores estavam presentes à pracinha, assistindo à confusão. Caía o avermelhecer do horizonte e já pintavam algumas estrelas no céu, e eles, como tomados por detestáveis constrangimento e vergonha, permaneceram imóveis ali, olhando uns para os outros, até que o prefeito, do nada, pegou uma picareta e pôs-se a enfiá-la freneticamente nas paredes recém-caiadas daquela Delegacia. Então, um a um dos moradores pegaram outras picaretas e marretas e deitavam a sua ira naquelas paredes até não restar nenhuma em pé.

Era tarde demais: a LEI acabara de vez com a ingenuidade, a segurança e a paz, tudo em ruínas, da hoje paranoica e sombria Bonança.




 

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Programa AGIR, rádio O POVO CBN, discute sobre o Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais


Na entrevista do Agir desta sexta-feira, 22 de abril de 2022, Cliff Villar conversa sobre o Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais com Raymundo Netto, Gerente Editorial e de Projetos da Fundação Demócrito Rocha.

Acompanhe também nas rádios O POVO CBN FM 95.5, em Fortaleza, CBN Cariri FM 93.5 e no portal http://radios.opovo.com.br/opovocbn/. #Agir


 

quinta-feira, 21 de abril de 2022

"Centro de Estudos Juvenal Galeno", de Ednardo Honório Lima


AlmanaCULTURA In DICA:

Mais uma obra fruto de pesquisa em Literatura Cearense nos chega.

É Centro de Estudos Juvenal Galeno: juventude, literatura e civismo num momento de escolhas (Imprece, 2021), do historiador Ednardo Honório de Lima (1978), com o apoio da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará.

Ednardo teve a sua estreia como historiador na produção de pesquisa sobre Mário Kepler Sobreira de Andrade, o nosso Mário de Andrade (do Norte), tema do qual me interesso há anos, e não por menos: muito jovem, ele foi um dos responsáveis pela revista modernista Maracajá (1929), diretor e idealizador do suplemento Cipó de Fogo (1931), além do autor do manifesto lido no I Congresso de Poesia (1942), que daria origem ao Grupo CLÃ, sendo também coautor da primeira publicação das Edições Clã: Três Discursos (1943), ao lado de Antônio Girão Barroso e Eduardo Campos.

Ednardo também pesquisaria o “Grupo CLÃ: os intelectuais de Fortaleza nos anos de 1940”, monografia de conclusão do seu curso.

E foi remexendo esses caixões dos anos de 1940 que se deparou com um ainda intacto, o que acolhia os jovens integrantes do grêmio intitulado Centro de Estudos Juvenal Galeno, que teria como sede, obviamente, a Casa de Juvenal Galeno, patrimônio ainda hoje em pé, contra tudo e a favor de todos, desde 1886.

O grêmio, segundo Honório, foi criado em junho de 1938 e perdurou até agosto de 1945. No entanto, baseou-se, principalmente nos Estatutos da agremiação – que não encontrou integralmente –  e nos seus livros de atas, que também não teve acesso a todos, mas apenas aos livros de setembro de 1940 a junho de 1942.

Entre seus fundadores, Francisco Silva Nobre, nome que seria mais reconhecido futuramente, e que assumiria a presidência provisória em junho de 1938, Lima Leite (vice-presidente), Amauri Saraiva (secretário), Hélio Melo (orador) – que ingressaria no Instituto do Ceará em 1975 e seria um dos fundadores da Academia Cearense da Língua Portuguesa em 1977 – e Majela Nobre (bibliotecário).

Mais tarde, entre os centristas, teríamos a presença de Alberto Galeno, descendente do poeta das Lendas e Canções Populares, além de Aluízio Fernandes Bonavides, Flávio Passos Quintela, Francisco Barros Fontenele, Isac Sombra Rodrigues, José Palácio de Queiroz etc.

A princípio, os centristas – como se denominavam – eram secundaristas, a maioria, provavelmente, católicos – alguns de seus informes saíam no jornal O Nordeste, da Arquidiocese de Fortaleza –, e se reuniriam, ordinariamente, aos domingos à tarde, com o pensamento de louvar e exultar o nome do dono da casa, a quem a literatura cearense tanto devia, tudo isso por meio de um discurso cívico, respeitando as restrições do rigoroso Estado Novo. Na continuidade, alguns se tornaram alunos do curso pré-jurídico do Liceu do Ceará, alcançando a cobiçada Faculdade de Direito, enquanto outros estudantes ingressariam na Faculdade de Agronomia do Ceará – chegaram a conhecer e a ouvir Mário Sobreira de Andrade. Entre estes, o mineiro José Sebastião da Paixão, que Honório defende ser o primeiro estudante preto a ingressar no ensino superior cearense. Na foto da capa, entre os centristas, é o único preto. Interessante é que, mais tarde, em um Torneio de Oratória criado pelo grêmio, um dos primeiros temas apresentado pelo associado Flávio Quintela foi “Influência do negro na Literatura do Brasil”.

Durante o lançamento da obra – em 4 de fevereiro de 2022, na Gibiteca da Biblioteca Municipal Dolor Barreira –, na qual fui convidado na qualidade de mediador, questionei sobre alguns pontos curiosos do grêmio. Por exemplo, entre os 31 patronos originais, havia apenas 4 cearenses, todos de projeção nacional: Juvenal Galeno, José de Alencar, Farias Brito e Capistrano de Abreu (entre outros, havia José Bonifácio e até d. Pedro II, em plena República?). Posteriormente, seriam admitidos como patronos Antônio Sales, Araripe Jr e Alberto Nepomuceno. Outro ponto: eles faziam estudos de obras literárias – como de Telmo Vergara, Érico Veríssimo, Alberto Torres, Cléomenes Campos, Alexis Carrel etc. –, e entre essas obras não havia de cearenses (?). As homenagens: a biblioteca do Centro de Estudos se chamava Adelmar Tavares da Silva Cavalcanti, uma homenagem ao jurista e poeta pernambucano(?), membro da Academia Brasileira de Letras desde 1926 – havia um controle rigoroso para evitar a entrada de obras consideradas amorais e que maculassem o nome do sodalício. Sim, eles eram bem conservadores. E sobre a participação de mulheres: como de se esperar, eles permitiam a participação de mulheres em suas atividades – Honório em seu livro cita algumas dessas participações, que inclusive deveriam ser várias, lembrando que o grêmio atuava sob o olhar da dra. Henriqueta Galeno, uma feminista primeva –, mas como na Padaria Espiritual, elas participavam, porém não eram integradas ao grêmio. Destaco a participação de Reine Limaverde, irmã de nosso querido radialista Narcélio Limaverde, no canto de “A Deusa da Minha Rua”.

Para não sair desse caldo imenso de agremiações literárias cearenses, não poderíamos nem sonhar que os centristas também não tivessem ímpetos de lançar uma revista própria, não é? Pois teriam, mesmo que apenas o seu primeiro número, datado de 18 de dezembro de 1938: Jangada era o seu título. O diretor era F. Silva Nobre. Os redatores: Hélio Melo, Antônio B. de Menezes, Gabel Gomes, Evangelista Campos e Ferreira Ângelo.

Os centristas também recebiam intelectuais nas suas sessões: Gomes de Matos, João Otávio Lobo, Euclides César (da escandalosa Academia Polimática), Perboyre e Silva, Martins D’Alvarez, Pierre Luz, Joaquim Alves, Carlyle Martins, entre outros.

Ao final da obra, Honório traça um perfil dos principais nomes do Centro de Estudos Juvenal Galeno.

Muitas lacunas ficaram em aberto ou sob suposições do historiador, é verdade, mas por outro lado, é admirável seu esforço em “tirar leite de pedra”, além de que, em paralelo à pesquisa, vimos outra, sobre o contexto de Fortaleza naqueles anos, a escola secundarista, a Faculdade de Direito e a de Agronomia, entre outros elementos interessantes para pensarmos nossa cidade e seus equipamentos.

Contudo, lamentamos profundamente não termos tido acesso à produção literária desses jovens da qual Honório atribui um distanciamento ainda, em plenos anos de 1940, das “novidades” do Modernismo.

 

Quem quiser adquirir a obra:

Livraria Arte & Ciência (Av. Treze de Maio, 2400) – Tel: (85) 3283.4422

Contatos com o autor:

Telefone: (85) 3484.6310

e-mail: lima78.ed@gmail.com

Instagram: @honorio.ed

Facebook: ednardo honorio de lima




 

SEBO NAS CANELAS: “Nada de Novo sob o Sol”, de Lúcia Fernandes Martins


Para ler mulheres que sejam boas escritoras, uma boa indicação é Nada de Novo sob o Sol, romance de Lúcia Fernandes Martins, a única mulher do Grupo Clã, agremiação responsável pela consolidação do Modernismo cearense.

A obra, que recebeu o Prêmio José de Alencar, foi editada pela primeira vez em 1967, pelas Edições Clã, usando Lúcia o pseudônimo "Sandra Lacerda". Esta edição da foto é de 1996, editada pelo programa editorial da Casa de José Alencar - UFC, com apresentação de Rachel de Queiroz – que enaltece as qualidades daquele “romance diferente” – e a orelha de nosso querido professor Vianney Mesquita.

Uma curiosidade é que a obra, numa tirada só, foi editada em português e em espanhol, um caso raro.




 

SEBO NAS CANELAS: “Os Condenados”, de Oswald de Andrade


Os Condenados, de Oswald de Andrade (1890-1954), obra parcialmente lida (sob vaias desejadas, diga-se) durante a Semana de Arte Moderna de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo.

A obra, o primeiro volume da “Trilogia do Exílio”, ao lado A Estrela de Absinto e A Escada de Jacó. A trilogia, assim como as suas partes, mudou de título ao longo do tempo.

Em 1941, a trilogia é publicada em único volume com o título de Os Condenados e a parte que teria o título de “Os Condenados” passa a ser denominada “Alma”.

Oswald afirmava que a trilogia teria sido escrita entre 1917 a 1921.

A minha edição é a do Círculo do Livro e, provavelmente, já que não tem data, é de 1970 (data assinalada por Mário da Silva Brito, autor do maravilhoso estudo inicial).




 

SEBO NAS CANELAS: "Literatura de Cordel: Antologia", organização e notas de Ribamar Lopes


Uma relíquia, entre tantas da minha estante, esta é uma das mais caras: A Literatura de Cordel: Antologia (1982), publicação comemorativa do 30º aniversário do Banco do Nordeste do Brasil (BNB).

O que a encarece para mim, além de ser uma referência obrigatória aos estudos do gênero, em suas mais de 700 páginas, é o fato de ser organizada e conter notas de um amigo querido: o pesquisador, poeta e contista RIBAMAR LOPES (1932-2006).
Conheci o Ribamar ainda criança. Ele era paciente de minha mãe, que era dentista e tinha um consultório instalado em nossa casa.

Ele sempre chegava com livros (sabia que a minha mãe sempre atrasava) e, cruzando as pernas, se punha, sereno, a ler ou a conversar com aquele menino curioso, que ousava em apresentar-lhe alguns versos muito bobos, mas que ele avaliava e criticava com muita seriedade, pedindo e esperando outros.

Quinze Casos Contados, de sua autoria, foi o primeiro livro de contos que li na minha vida.

Mais tarde, seria o único escritor presente – e que eu conhecia pessoalmente – no lançamento de meu primeiro livro, Um Conto no Passado: cadeiras na calçada, em 2005. Depois disso, virou personagem de uma das Crônicas Absurdas de Segunda, obra ganhadora do Edital da Secult-CE e finalista do Prêmio Jabuti de Literatura em 2016.

Para melhorar, é amigo comum de vários outros também queridos amigos cordelistas e, como para mim, sempre é lembrado com muito carinho.

Viva para sempre, Ribamar Lopes.