quarta-feira, 8 de julho de 2020

"As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira", pela Arribaçã Editora (Cajazeiras-PB)


A coletânea As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira, organizada pelo poeta Rubens Jardim, será publicada pela Arribaçã Editora. Publicada até agora apenas de forma virtual, a coletânea é uma das mais completas a abordar o universo poético feminino e reúne poetas de todas as épocas e gerações do Brasil. Ao lado de nomes como Hilda Hilst, Cecilia Meireles, Olga Savary, Cora Coralina e Maria Firmina, entre outros, estão grandes poetas da literatura contemporânea de diversos estados do Brasil.
Em pronunciamento em suas redes sociais, o organizador da coletânea, Rubens Jardim, saudou a decisão da Arribaçã Editora de transformar o projeto em livros impressos. Ele fez um apelo para que as autoras presentes na coletânea enviem termos de autorização, para que a edição seja agilizada.
De posse dos termos de autorização, a Arribaçã inicia imediatamente a edição dos três volumes. As autoras que não enviarem a autorização, ficarão de fora da coletânea. Em relação as poetas que já faleceram, que ainda não estão em domínio público, as autorizações devem ser feitas por familiares e/ou herdeiros. As autorizações devem ser enviadas para o email de Rubens Jardim: re.jardim@uol.com.br
As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira é um projeto do poeta Rubens Jardim desenvolvido em sua página nas redes sociais. A cada postagem, novas autoras eram enfocadas, sempre divulgando um poema e a biografia da poeta abordada. O projeto foi transformado em PDF e distribuído via internet e só agora vai virar realidade impressa.
Natural de São Paulo, Rubens Jardim, organizador da coletânea, é poeta com diversos livros publicados. Também organiza eventos e saraus poéticos. Fez parte do Catequese Poética, movimento iniciado por Lindolf Bell em 1964 com o objetivo de tirar a poesia das gavetas, tornando-a mais acessível através de apresentações, declamações, conferências e debates nas ruas e em universidades.
A expectativa dos editores da Arribaçã é de que até o final do ano os três volumes estejam impressos, dependendo da agilidade dos trâmites burocráticos.
Criada pelos jornalistas e poetas Lenilson Oliveira e Linaldo Guedes, a Arribaçã Editora tem suas raízes fincadas no Alto Sertão da Paraíba, mais especificamente em Cajazeiras. A editora trabalha com obras literárias, acadêmicas, biografias, entre outras. Contatos podem ser feitos na página da editora no Facebook, Twitter e Instagram ou pelo email: arribacaeditora@gmail.com
A editora também tem canal no Youtube. Endereço do site: www.arribacaeditora.com.br




"Leitores", de Pedro Salgueiro para O POVO



Sempre me chamava atenção quando, no meio dos afazeres na sua pequena oficina de sapateiro, entre consertos e cheiros de solas e colas, meu pai desamassava um velho jornal que viera embrulhando materiais de encomendas da capital, com paciência botava as folhas, muitas delas rasgadas, em cima de uma mesa ampla e riscada de ponta de faca no fabrico de sapatos, sandálias, cartucheiras... Com uma paciência tocante, deixava quase novinhas as páginas, que depois eram lidas com esmero por vários dias; não raro chamava um amigo para comentar uma notícia antiga que para ele tinha sabor de novidade, naqueles tempos em que as informações demoravam a chegar ao sertão.
            Alguns amigos que viajavam traziam também surrados revistas e almanaques, recordo de algumas “Seleções” amarrotadas, “Almanaque Fontoura” carcomido nos cantos, meio ensebados pelo manuseio das diversas mãos que passavam pela oficina, páginas dobradas indicavam histórias mais divertidas, até sovela já encontrei como marcador de páginas; às vezes eu chegava sorrateiro, perambulava por lá sentindo o cheirinho gostoso da cola na vaqueta, ia ao quintal, sem que ele me percebesse, tão entretido estava na sua leitura: uma vez, pego na distração, largou rápido a revista e recomeçou o trabalho, com jeito de menino que tivesse sido pego em flagrante nalguma danação.
            Seu Arimatéia (que devido as suas insistentes leituras era apelidado, não sem ironia, por alguns amigos de “Ari Mundial”, do que se orgulhava) escondia na gaveta da máquina de costura alguns cordéis com poemas populares, alguns com temas picantes que sempre lia pros amigos longe da vista da gente; não conto as vezes em que, subitamente, ele parava uma dessas leituras pela chegada de um estranho, mulher ou criança... Quando eu estava por perto logo me mandava fazer alguma tarefa bem distante, dar um recado inútil, que mesmo na minha pouca idade já sabia ser apenas uma forma de continuar, sem plateia indesejada, aquela leitura traquina.
Quando não queria testemunha para alguma conversa proibida ou leitura picante com os amigos, mandava-me ir à bodega do meu avô materno, logo do outro lado da rua – o que eu adorava, pois por lá sempre ganhava uns bombons e ficava peruando ele jogar damas com amigos, mas na maioria das vezes o velho Chico Inácio estava de cabeça baixa com seu livrinho de caubói em distraída leitura, aí não adiantava pedir a bênção nem olhar guloso pra lata de bombons, das páginas ele só arredava se algum freguês insistisse em bater com o nó dos dedos na gasta madeira do balcão.
Indo pra casa, costumeiramente avistava (no terreiro da sua casa de esquina no Alto das Pedrinhas) minha tia Maria sentada numa antiga cadeira de balanço com seu livrete à mão, então corria para casa buscar a velha edição de O País dos Mourões, de Gerardo Mello Mourão, que meu velho guardava na gaveta do guarda-roupa: pegava o volume e fingia lê-lo com aquele delicioso prazer dos adultos.
E hoje, matutando sobre meu vício por livros, chego à conclusão de que bem mais que ensinamentos na escola, conselho de professores etc., o que verdadeiramente me influenciou nesse gosto foram esses inveterados leitores que fui vendo pela minha infância afora. 







sábado, 4 de julho de 2020

"Boca de Inferno", de Raymundo Netto para O POVO



Eurídice era o diabo! Mulherzinha casca grossa, cruel, fofoqueira, mais fria do que uma noite sem amor. Não à toa, afirmavam os cidadãos daquela pacata cidadezinha esquecida, acabou sozinha: “E tem homem que aguente aquilo?”
Morava Eurídice em uma casa alta, a mais elevada da rua principal. Às tardes, sentava-se atrás da balaustrada, observando a todos de sua posição superior. Quando em vez, gritava com os passantes, os criticava, revelava seus segredos compartilhados pela funesta “rádio fofocaria” da cidade. Soberba, não temia ninguém e adorava uma discussão, na qual, sem escrúpulos, saía vitoriosa.
Todavia, um novo pároco, cansado de ouvir o seu nome malcitado pelos fieis, a alertou: “Acautelasse, pois daquele jeito poderia cair no inferno!” Ora, o medo de ser rebaixada à condição de inferno, logo ela, detentora de um espírito elevado – e não movida por outro sentimento meritório –, a fez refletir e tentar amansar seu coração tão “verdadeiro”.
Nos dias seguintes, passou a bater à porta daqueles que havia injuriado. Para surpresa deles, ela figurava um sorriso tão desconhecido quanto sinistro, acompanhado de um discurso de falsas moralidades cristãs. Às mãos, uma cestinha de pães, doces, geleia ou biscoitos. Certa de sua recompensa espiritual, após um curto e desconcertado abraço, saía pela rua, pescoço altivo, ao olhar basbaque daqueles que, logo, logo jogariam aquelas oferendas pela janela, com receio de estarem envenenadas.
Embora soasse falso e interesseiro, ela, reconhecemos, se esforçava. Por conta daquele abraço, ao cruzar a porta de sua casa, corria para tomar um demorado e esfregado banho. Chegava a doar ou jogar fora a roupa que usara. Diante de uma abundante raiva de si, se inclinava ao oratório: “O Senhor está vendo, hein?”
Entretanto, algo se deu. Aquelas pessoas começaram a confabular sobre o estranho comportamento da “bruxa”. Cogitaram ter ela alguma culpa secreta, íntima, algo grande, uma fraqueza qualquer. O que seria? Fato: a criatura estava ficando mole!
Baseados nessa certeza, a vizinhança deixou de temê-la. Olhavam-na com desdém, sorriam cinicamente ao cruzar com ela no mercado, às vezes dando-lhe até cotoveladas e esbarrões. Foi na feira, que aproveitando-se dessa fase de paz e amor, uma incauta, antes perseguida, olhou-a com uma aversão singular e atirou: “Bruxa velha solteirona!”
Eurídice não acreditou no que ouviu. Teve vontade de espancar, morder a orelha e matar aquela infeliz, mas, lembrando-se do alerta do padre, segurou como nunca seu ímpeto atroz, caindo numa convulsão e agonia, seguida por uma espetacular ânsia de vômito.
Em meio a todos os curiosos, a mulher se contorcia, enguiando, enguiando até vomitar um imenso dragão. A fera, saindo de sua boca, rugia aterrorizante, macabra e, voando com as suas negras asas de morcego, cuspia fogo nas casas do entorno, colocando o povo para correr – com exceção dos já desmaiados – e depois partindo em direção ao horizonte.
Na semana seguinte, Eurídice era de uma docilidade impressionante, dando bons-dias, desta vez sinceros, livre agora da antiga azia que lhe tomava a boca do estômago há anos. Mesmo assim, todos, desde então, a tratavam com excessivo respeito, imaginando que outros terríveis monstros estariam abrigados, ali, no ventre daquela mulher.



"O encantamento de Arievaldo Vianna e sua chegada no Céu", de Klévisson Viana


Que a Divina Providência
Inspire esses versos meus,
Traga a verdade e a doçura
De Jesus, Rei dos Judeus
E o sopro incontestável
Da influência de Deus.

Arievaldo Vianna
Foi poeta brasileiro,
Cordelista de renome,
Bom irmão, bom companheiro;
Tudo que fez tinha o brilho
De um talento verdadeiro.

Aqui no plano terrestre
Só semeou a bondade,
Ajudou o semelhante,
Nunca perdeu a humildade,
Foi um artista dotado
De grande simplicidade.

Tinha verve de humorista
A qualquer hora do dia
E, quando contava um causo,
Botava encanto e magia
E, por onde ele passava,
Brotava um pé de alegria.

Encantador de plateia,
Com voz bonita e possante,
Culto, suave e profundo,
Com sua prosa instigante,
Da cultura popular
Era devoto e amante.

Viveu 52 anos,
Porém produziu por dez
Artistas mais dedicados.
Cumpriu bem os seus papéis
E teve destaque como
Um dos grandes menestréis.

Deixou mais de 30 livros,
Folhetos bem mais de 100.
Com imensa facilidade,
Escrevia muito bem
E, em matéria de humor,
Não tinha para ninguém!

‘O Baú da Gaiatice’
Foi o seu livro de estreia,
Sua prosa e o seu verso
Tinha o dulçor da colmeia
Do mel silvestre extraído
Pra o deleite da plateia.

Escreveu pra São Francisco
Um livro bem pesquisado
Com tudo que era folheto
Sobre o tema registrado.
Com paciência, anotou
Depois deixou publicado.

Com o “Acorda Cordel”
Alçou voos nacionais
E teve oportunidade
De produzir muito mais
Junto com Jô Oliveira,
Artista muito capaz!!!

E, para Leandro Gomes
De Barros, fez com valia
Um livro muito importante
Contendo a biografia
Do mestre lá de Pombal
Que foi rei da poesia.

Vários livros publicados
De sua verve tão fina...
Fez “Sertão em Desencanto”,
“No Tempo da Lamparina”.
Cada obra que escrevia
Era única, genuína.

Na família era estimado
Por pais, irmãos e por filhos.
Pra ajudar quem precisava
Nunca botava empecilhos,
Pois seu vagão de bondade
Nunca saía dos trilhos

Deixou centenas de amigos
Que choram sua partida
Prematura, na verdade,
Sem direito a despedida.
Todos lembram de Ari
Nos bons momentos da vida.

Dizem que os bons morrem cedo,
Ari cumpriu a missão!
E o bom Deus o levou
Pra residir na Mansão
Celeste onde a poesia
É linda igual oração.

Marcos Aurélio chorou,
Autemar tá descontente,
Chora Itamar e Vandinha
Sua presença inda sente,
E Klévisson Viana luta
Pra tocar o barco em frente.

Sua mãe, dona Hatiane,
Seu paizinho Evaldo Lima
Rezam para o filho amado
Por quem nutrem grande estima.
Ari fez da vida um verso
Com oração, métrica e rima.

O seu filho Daniel,
Sua filha Mariana,
O Yuri e o João Miguel
E a esposa Juliana
Lamentam a partida súbita
De Arievaldo Vianna.

Contudo, o bom Deus achou
Por bem chamar o poeta,
Pois viu que sua jornada
Já estaria completa.
Como Deus tinha outros planos
Traçou pra ele outra meta.

Quando o corpo de Ari
Sucumbiu à bactéria
E o espírito do poeta
Se desprendeu da matéria,
Os anjos levaram Ari
Dessa terra deletéria.

Chegou no Céu Arizinho
Com uma mala de cordel.
No portão logo avistou
Alzirinha e Seu Manoel,
Os seus avós estimados
Que abraçaram o menestrel.

E Ari, não mais sentindo
Dores, fraqueza e cansaço,
Vendo seus avós queridos,
Os envolveu num abraço
E confirmou que a família
É incontestável laço.

Após descansar um pouco,
São Pedro, bem sorridente,
Cumprimentou o poeta,
Que já estava contente,
E não sentiu mais tristeza
Daquele instante pra frente.

Num belo jardim que havia
Perto da Santa Mansão
Estava Alberto Porfírio
Improvisando em quadrão
E junto a ele encontrou
João Firmino e Azulão.

João disse a Arievaldo:
— Que bom lhe ver por aqui!
Se achegue, ande pra cá
E venha olhar de per si
A festa que hoje faremos
Pra lhe receber, Ari.

E chegou Ribamar Lopes
Escrevendo num caderno.
Quando viu que era Ari,
Deu-lhe um abraço fraterno
E disse: — Ari, lhe esperava
Na morada do Eterno!

Ariano Suassuna
Cumprimentou o poeta,
Chegou Gonzaga Vieira
Andando de bicicleta
E logo foi se formando
Uma plateia seleta.

Chegou ali Santo Antônio
(Seu santo de devoção)
Ao lado de São Francisco,
Veio apertar sua mão.
Ari segurou as lágrimas
De alegria e emoção.

A Santa Virgem Maria
Lhe mandou carta lacrada.
Quando Ari abriu e leu,
Disse a Santa Imaculada:
“Fique calmo, sua mãezinha
Por mim será confortada.

A seu pai, Evaldo Lima,
Já mandei uma mensagem.
Ele é maduro e entende
Que a vida é uma passagem
E as riquezas terrenas
Não passam de uma miragem”.

João Firmino se achegou,
Perguntou: — Arievaldo,
Como vai Klévisson Viana,
Meu amigo de respaldo,
Rouxinol do Rinaré
E Evaristo Geraldo?

Ari disse: — Eles estão
Com medo da pandemia,
Mas, mesmo em tempos difíceis,
Nunca perdem a alegria
E não abandonam o front
Em defesa da poesia.

Ari disse: — Também tem
O Pedro Paulo Paulino,
Marco Haurélio e Eduardo
Macedo, poeta fino!!!
E o nosso Jota Batista
Que é um cabra malino!

Tem Paiva e Paulo de Tarso
Poeta e declamador,
O pessoal da AESTROFE
Digno de todo valor
Os vates do CECORDEL
E a Casa do Cantador.

Depois chegou Valdir Teles
Com a viola afinada
Junto a João Paraibano,
Vate de mente afiada,
Cantaram pra Arievaldo
Uma bonita toada.

Chamaram então o poeta
Patativa do Assaré
E Paulo Nunes Batista,
Com inspiração e fé,
Deu vivas ao bom poeta
Que viveu em Canindé.

Ari olhou para um lado
Onde se avistavam uns jarros
Chegou uma comitiva
E estacionou uns carros
Trazendo o grande poeta
Leandro Gomes de Barros.

Leandro deu-lhe um abraço
Com efusiva alegria,
Lhe cobriu de elogios,
Recitou uma poesia
E agradeceu Ari
Por sua biografia.

Ari louvou a Leandro
(Aquele espírito de luz),
Quando o foi chamar de mestre
Disse Leandro: — Jesus,
Só ele é quem é o Mestre
Que morreu por nós na cruz!

Foi uma festa bonita
Que durou mais de um dia
O jardim celestial
Se encheu de alegria
E em toda parte nasceram
Muitas flores de poesia.

FIM


sábado, 20 de junho de 2020

"De Alma Lavada", de Raymundo Netto para O POVO



O casamento acabou!” Há tempos, sabiam, mas agora estava na casa do sem jeito.
Amalarico era obcecado pelo trabalho, a “razão primeira de sua vida”. A esposa, demorou, cansou-se da competição com aquele que denominava ser a sua “amante” – ou quem sabe, a amante seria ela? Não estava enganada. Compulsivo, trabalhava o tempo inteiro, mesmo quando em lazer, ao comer, ao dormir e nas horas mais íntimas. Sentia um gosto formidável em produzir, acordando muitas vezes à madrugada com novas estratégias, ideias, que lhe chegavam mais velozes do que gatos correndo pelo telhado.
Saindo de casa, já em novo apartamento, comemorou, a princípio, o silêncio absoluto, a ausência das interrupções de seu delírio laborioso para reclamações ou inúteis solicitações da incompreensiva mulher. Por outro lado, para sua surpresa, em poucos dias, aquele silêncio se apresentara um pouco demais, como de quase morte.
Para piorar, não sabia viver só. Com a separação, montar o apartamento, ter que pensar em atividades banais de rotina, no que comer, em limpeza da casa, lavagem de roupa, tudo isso o estorvava profundamente, pois que o afastava do seu bem querer: o trabalho!
Desabafando, quase em prantos, a uma colega, ela o aconselhou, entre outros, a adquirir uma boa máquina de lavar. “Não dá trabalho nenhum. Faz tudo e deixa sua roupa bem sequinha...”, assegurou.
De primeiro, diante do aparelho recém-instalado, o enfadonho maquinismo e a fria leitura de seu manual. Resignado, aprendeu o uso e comprovou a sua eficiência. E mais: com pouco, passou a atentar a um movimento estranho na casa, um barulho novo, que ia e vinha em pausas intermitentes, rompendo aquele silêncio lúgubre... era a sua máquina de lavar! Contemplando-a na sala, pensou: “Ela não me deixa sozinho.”
Despertando agora daquele nada social, às vezes, parava o seu trabalho e sentava-se diante de sua porta circular, quase um imenso olho, a ele atento e servil. Tomava um sorvete, ali, quando durante um sobressaltado e quase hipnótico ciclo de secagem, sentiu em seu peito algo que há muito não sentia. Uma excitação, uma vontade de virar-se ao avesso, o coração premido. Aquela máquina, como ele, trabalhava todos os dias, com grande ânimo, e sem lhe exigir nada. Sim, não tinha dúvida: ele a amava, numa adoração de botar em joelhos as musas do brega.
E desde esse dia, passou a conversar com ela e a almoçar na área de serviço. Logo mais traria também o seu colchão, onde dormiria ali, pelo menos, às tardes. Trazia-lhe presentes e a vestia em belas capas florais. Para ela, só o melhor sabão – líquido, claro, pois em pó achava áspero demais para sua amada – e amaciantes com essências perfumadas: lavanda, alfazema.
Meses depois de tal aliança, porém, sonhava Amalarico com umas seis ciclópicas criaturinhas metálicas cirandando ao seu redor, quando acordou assombrado: um estrondo, seguido por um tremor escandaloso, ouvia-se na sala. Quando ainda entontecido correu a ela, flagrou a sua amada, em sacolejos sobre os pequeninos e alvos pés, arrastando sua mangueira, a sair em fuga pelo hall e escadaria afora, na tentativa de livrar-se de uma vez daquele amor sebento e abusivo.




domingo, 7 de junho de 2020

"Ari: no tempo da lamparina", de Raymundo Netto para O POVO

Selo comemorativo dos 50 anos de Arievaldo Vianna, por Jô Oliveira.

Arievaldo Vianna não era apenas um homem, mas um sonho.
Para alguns, um quixote, um quaresma, uma sherazade de calças, um fabulador de voz grave e declamante, com seu colete de couro a berrar suas histórias em palcos naturais das calçadas, das praças, dos postes, numa delirante genialidade quase beirando à dulcíssima loucura, como alguns outros com quem dividia a sua mala de romances e baú de gaiatices.
“No ano sessenta e sete/Do outro século passado/Nasci naquele recanto/E fui por Deus inspirado/A beber daquela fonte/Perto do reino encantado.”
E bebia e se banhava, de quase se afogar, dessa fonte de trovadores, tocadores, violeiros, sanfoneiros, bumbas-meus-bois e, claro, à lamparina, na rede ou em alpendres, ou nas manhãs azuis, sobre o tapete da bagaceira de engenho, em meio à capoeira, à voz alta, dos folhetins de cordéis, “sua leitura de primeira hora”.
O bravo menino sertanejo do sítio Ouro Preto, alheio às necessidades que a vida lhe trouxe para fazer-se forte, crescia assim, imerso entre a roça e o mundo fantástico: beijocador de princesas, amigo de reis, escalando muralhas de castelos, desafiando dragões, assistindo a gargalhar muito às pelejas de demônios com cangaceiros.
Quem diria que essa tripinha de gente “desasnada” pela leitura da vó Alzira se criaria poeta, ilustrador, fanzineiro, radialista, publicitário, xilogravurista, colecionista, historiador, biógrafo, capista, editor, pitaqueiro, amigo de todos... e alguém a quem as letras brasileiras deveriam tanto?
Quando nos encontrávamos, era uma grande alegria, e se eu não pedisse arrego, não me deixava ir. Num galope à beira-mar atropelava uma história com uma pesquisa, uma leitura com uma piada, uma reclamação com uma proposta editorial que iria nos enriquecer a todos... Mesmo quando depois confirmava: “Minha mulher chegou à triste conclusão de que eu não sei vender a minha arte, não nasci para ganhar dinheiro. As pessoas me procuram e eu sempre cobro muito abaixo do que deveria”.
Meses mais novo do que eu, tinha no falar – e eu o admirava por isso – uma extrema autoridade, uma altivez, mas uma autoridade legítima, uma altivez não pedante, de quem sabe e que transmite esse saber, não o ocultando sovinamente como se fosse um privilégio, uma dádiva divinal. Estive com ele em diversas ocasiões distintas e NUNCA o vi se gabar de nenhum dos prêmios que recebeu, das inúmeras publicações e dos livros que vendia em editoras nacionais, de entrevistas de toda parte do país das quais era convidado. Sabia o amigo Arievaldo, por ser ele um dos grandes, que os prêmios são apenas reflexos e consequências daquilo que fazemos e do que realmente nos importa. Para os fracos e os pequenos, tais desnecessários reconhecimentos podem se tornar armadilhas de espírito. Arievaldo não precisava deles. Era um artista!
Militava na educação, na leitura, nas artes populares e sertanejas. No palco, falava desenvolto, cheio até a tampa de histórias para contar. Criativo, inteligente, impulsivo e impossível.
Agora, dia 30 de maio de 2020, os quase anjos João Grilo, Pedro Malasartes e o Cancão de Fogo, sob a bênção de São Francisco, desceram dos céus em busca do menino grande Ari e o levaram para se assentar ao lado de Patativa, Santaninha, Leandro Gomes de Barros, Alberto Porfírio, Leota e Ribamar Lopes numa conversa que se já era sem fim, agora é que não se acaba no meio desse sereno de estrelas do cordel, a literatura mais genuína e brasileira de nosso Brasil.
Nossa gratidão, irmão Arievaldo, príncipe do cordel cearense.