domingo, 19 de junho de 2016

"Cronologia Comentada de Juvenal Galeno", de Raymundo Netto, por Miguel Leocádio Araújo Neto



Alguns anos atrás, a obra de escritor romântico cearense Juvenal Galeno foi publicada na íntegra, em vários volumes, pela Secult, na Série “Memória” da Coleção Nossa Cultura. Não tenho todos os volumes, mas alguns somente; e recentemente ganhei de presente do Raymundo Netto essa Cronologia comentada de Juvenal Galeno, por ele escrita e organizada, fazendo parte da Obra Completa de Galeno.
O livro é todo ilustrado com uma iconografia sobre o poeta cearense. Nele se verão reproduções de desenhos, pinturas, esculturas, fotografias, capas de primeiras edições, partituras, documentos etc.
A cronologia vai da data de nascimento de Juvenal Galeno (1836) até a restauração da Casa de Juvenal Galeno (2010 – aliás, casa milagrosamente mantida íntegra no Centro de Fortaleza, ali pertinho do Teatro José de Alencar). Em linguagem objetiva, o organizador e autor da Cronologia também reproduz documentos, poemas e outros textos interessantes para a compreensão da importância das datas no percurso da vida e do alcance da obra de Juvenal Galeno.
Para quem estuda literatura cearense, mais especificamente a obra de Galeno, a Cronologia é uma importante fonte de pesquisa.

NETTO, Raymundo. Cronologia comentada de Juvenal Galeno. Fortaleza: Comercial, 2010.

sábado, 18 de junho de 2016

"Lama versus Areia: histórias compartilhadas", de Raymundo Netto para O POVO


Em uma época em que o lamaçal no país toma-nos às ventas, provavelmente por não termos outras questões mais prioritárias e emergentes a resolver, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/CE), por meio de sua Comissão de Liberdade Religiosa, pronunciou-se, assim como também a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará apresentou Moção de Repúdio, contra a apresentação da peça “Histórias Compartilhadas: Ou dos corpos que não se bastam”, realizada durante o seminário “Conversas empoderadas e despudoradas sobre gênero sexualidade e subjetividades”, que teve sede no auditório da Universidade Federal do Ceará (UFC).
A imagem de uma fotografia postada em redes sociais em que o ator Ari Areia vertia gotas de sangue sobre um pequeno crucifixo, causou a cólera no coração imaculado de diversas pessoas que, sem assistirem à peça nem a contextualizarem no evento em que se discutia questões de gênero e no qual se falava exatamente sobre a intolerância e a discriminação aos transexuais, passaram a agredi-lo, ofendê-lo e até mesmo ameaçá-lo de morte. Alguns chegaram em sua sandice e fantasia dogmática a denunciá-lo à Santa Inquisição e comprar a sua passagem antecipada a um dos dez fossos do Hades dantesco.
A OAB, incompreensivelmente baseada apenas na visão estática da fotografia e no relato preconceituoso e intolerante de pessoas que também não têm noção do que se tratava a peça, chega a sugerir em seu pronunciamento que o ator poderia ter usado “outros personagens históricos” ao invés do crucifixo cristão (em entrevista à rádio O POVO/CBN, o representante de tal comissão, também preconceituosamente perguntava: “por que não o John Lennon?”). Faz-me pensar se haveria essa reação se ao invés do crucifixo estivesse ali o Buda, Maomé, Iansã ou o Preto Velho. Continuando, ela afirma solene: o “Cristo crucificado que representa para milhões de brasileiros vida, esperança, paz, amor”. Perguntamo-nos: as agressões e ameaças de morte que assistimos por parte dessa legião virtuosa e enfurecida representam mesmo vida, paz e amor?
O pronunciamento da OAB, aprovado por pessoas que por unanimidade não assistiram à peça (conforme afirmação do presidente da Comissão), ainda determina que existem limites para a liberdade de expressão. Ora, quem define esses limites? Delegamos esse poder a quem?
Agora entra em cena o Ministério Público, pede esclarecimentos, entre os quais: de quem partiu a ideia; se a direção se preocupou com eventuais afrontas à comunidade cristã; quem são os produtores e quais os contatos deles; quem autorizou a exibição do espetáculo; se possui filmagens; se havia autorização para ser exibida na UFC etc., numa desfaçado ensaio censurador.
Ouve o Ministério Público essa solicitação da OAB, no intuito de – soaria até engraçado isso – “restaurar o império da lei, da paz e da tolerância”. Paz e tolerância de quem? Daqueles que confortavelmente não estão nem aí para a violência diária e histórica sofrida por gays, lésbicas, trans e travestis, seres humanos que, segundo alguns deles, na sua autoridade religiosa suprema e pacífica, nem são “gente”, como infelizmente já tive o desprazer de ouvir? Justamente quando nessa semana foram eles os personagens-vítimas do pior massacre a tiros nos EUA?
Curioso é que o Brasil foi um dos países a gritar por LIBERDADE quando da execução, por muçulmanos TAMBÉM coléricos e intolerantes, da equipe do jornal francês “Charlie Hebdo”. Hoje, somos nós a querermos calar essa liberdade, quando em pauta deveria estar a maldade, a ignorância e a violência sofrida por aqueles a quem esses caiados fundamentalistazinhos desprezam e que se possível executariam, não fosse a falta de coragem. Graças a Deus!
Ora, OAB, MP e AL, a maior afronta contra o Cristo na cruz são todas as formas de racismo, preconceito e discriminação, pois “tudo que fizermos com o menor de nossos irmãos, faremos a Ele” (Mateus 25). 
E afinal, quem de nós está oferecendo a outra face, irmão? 




segunda-feira, 13 de junho de 2016

Lançamento "Meus Qu(eros)", de Ângela Escudeiro (15.6)



Lançamento
Meu Qu(eros)
poemas de Ângela Escudeiro
Data e Horário: 15 de junho (quarta), às 19h30
Local: Theatro José de Alencar
Atração:
performance poética com Raffael Barroso, Mara Nívia, Mai Puig, Renato Severo e os alunos do curso de teatro do Cuca Mondumbim
Sessão de autógrafos durante coquetel.

“Cuspi na face da lembrança o batom dos teus beijos/ E risquei no ar a mágoa com lápis de sobrancelha/ No sumidouro do palco de rua.” (Ângela Escudeiro)

Quero.
Querer é um ato de busca de completude. Quem quer algo ou alguma coisa se sente metade, ou menos do que isso, ou um pouco mais, e busca no objeto/ser querido preencher um vão qualquer entre as suas necessidades, sejam elas físicas, espirituais, compulsivas ou compulsórias.
Afirmar um “querer”, geralmente embaciado em um renque de escolhas, pode não ser fácil, e compreender o porquê desse querer se torna, quando estamos atentos, um disciplinar exercício de autoconhecimento.
A querência desenfreada pode, ainda, torturar, quando o objeto desejado carimba na alma o estigma do proibido ou do não dizível, o que faz esse querer parecer quase um crime ou uma obscenidade, entretanto encoberto na camisa de força da gula insaciável de diabéticos.
Vem-me daí a desassossegada lembrança de Pessoa: “Querer é não poder. Quem pôde, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer.”. Junto eu aos autos ou baixos da questão a mesma declarada impossibilidade do autor de percorrer a vida por inteiro, de ter a experiência de todas as coisas, lugares e de todos os sentimentos vividos.
Os versos de Ângela Escudeiro nos chegam no calor do seu instante, colhidos numa luminosa manhã de gostosa exaustão, com toda a intimidade de cobertas brancas, amarfanhadas, a revelar o colchão arfante de molas que expressam em gozo, a certeza de que “palavras às vezes queimam queimaduras em terceiro grau”.
E são justamente entre palavras tecidas e costuradas que encontramos a voz feminina de poeta independente na busca de seu prazer, a versar sobre seus quereres e querismos, a princípio em composições sensuais, com matizes de erotismo, “desalinhando sensatez dos pensamentos”, evocando e imprimindo sensações muito próprias do acolher ao peito – em um abraço “a abrir-se em pétalas” – à despedida: “Quero/Nesse dizer urgente/Qual carvão incandescente/ Riscar com giz a partida”.
A atriz-bonequeira, arte-educadora, escritora e diretora teatral, sentada à janela de sua Casa Creme, apresenta-nos seus qu(eros) em acervo rendoso e inumerável, sem ater-se a estéticas, métricas, ritmos, rimas, correntes ou pretensões, seguindo apenas, assim nos parece, o querer de um espírito absolutamente confessional: “Se não explodir/Sem rumo, voarei perdida/Qual gordo balão colorido/ E sem vida”.
O querer da poesia em si viola a vida – e que bela imagem poética seria violar a vida, não no sentido de violentá-la, transgredi-la, mas de colocá-la em viola –, ao tempo em que a humaniza, se for isso possível, assim como se fora possível haver a expressão da liberdade a partir da linguagem e do uso de palavras, que são “lavas que escorreram da boca de um humano vulcão”.
De cadeiras em espera à margem do riacho que percorre a obra, podemos observar vezenquando as estrelas, a montanha verde, a areia da praia, os peixes no mar, o céu em todas as suas tonalidades, as folhagens, o luar, a chuva, os bombons de marula e a sua nudez, a natureza inteira cantada e decantada pelo um seu coração que “bem que podia pelo menos ser de pedra-sabão”.
Para mim, não há dúvidas de que as mãos que apontam o caminho desses versos são manobradas por um coração calejado – isso, claro, se ele for apenas um, o que duvido muito –, sem temor, sem pejos e sem horas. Há muito mais por trás do escrito, como afagos, dor, ausência, tangerinas, lágrimas, dedos acariciados delongadamente, despedidas demorosas em tardes chuventas ou em bancos de praça, no mirar do revoo dos pombos despertados.
Para o leitor, buscando revolver em si as camadas das areias de sua rotina árida e apoética, no “infarto frio dos dias”, será possível se encontrar, deixar-se levar (também) pelo revoar das memórias esquecidas (ou esquecentes), com “fartura nas veias”, pelo desejo de querer querer e querer mais uma vez, nunca sem querer, como em viniciana sentença de que amar “é querer estar perto, se longe; e mais perto, se perto”
É querer, e... eu também QU(EROS)!

Raymundo Netto
leitor




Lançamento "Álbum de Fortaleza", pela Fundação Waldemar Alcântara (14.6)


Lançamento
Álbum de Fortaleza – 1931
(fac-símile)
Fundação Waldemar Alcântara
Data e horário: 14 de junto (terça), às 19h
Local: Palace Bistrô – prédio da Associação Comercial do Ceará
(rua Major Facundo, 30, Centro – em frente ao Passeio Público)
Apresentação: José Liberal de Castro
Informações sobre a Fundação:
(85) 3257.6927
fwa.org.br

Sobre o álbum de Fortaleza: edição fac-similar, com patrocínio do Banco do Nordeste, a obra compõe o acervo da “Coleção Biblioteca Básica Cearense”, projeto editorial singular da Fundação Waldemar Alcântara que, criada e coordenada por Lúcio Alcântara, desde 1997, vem resgatando títulos de relevante importância histórico-literário-documental de nosso estado, entre eles O Ceará, de Raimundo Girão e Antônio Martins Filho, a Revista Phenix (da Associação Phenix caixeiral), revista Fortaleza: revista literária, filosófica, científica e comercial, Libertação do Ceará e Cenas e Tipos, ambos de Rodolfo Teófilo, entre muitos outras obras raras.
O Álbum, que traz uma esplêndida e detalhada apresentação de Liberal de Castro, arquiteto, professor do Departamento de arquitetura da Universidade Federal do Ceará, da qual é um dos fundadores e um dos pioneiros na introdução dos princípios da arquitetura moderna em Fortaleza, traz enumerados e/ou fotografados fábricas, estabelecimentos comerciais, escritórios de profissionais liberais, bancos, jornais, cinemas, artistas, personalidades do governo e da sociedade da época, além de anúncios publicitários e artigos elucidativos sobre economia local.
Traz ainda diversos textos assinados por intelectuais e artistas do período, como Tomaz Pompeu Sobrinho, Humberto Rodrigues de Andrade, Guilherme de Souza Pinto, Martins Rodrigues, Antônio Sales, Elias Malmmann etc.
Foi organizado, na época, por Paulo Bezerra (jornalista, que, no período, morava em Barretos, São Paulo, voltando a Fortaleza com o intuito de criar seu Álbum) e teve como colaboradores Jorge Raupp, desenhista autor da capa em cores, Meton Gadelha, em cuja tipografia (Tipografia Gadelha) se realizaram os trabalhos de impressão, Manuel Guilherme, conhecido por M. Guilherme, desenhista que ilustrou as páginas do álbum, e J. Ribeiro,  fotógrafo cearense de projeção mundial (proprietário da Photo Ribeiro, da praça do Ferreira, recebeu do Ministério da Justiça e Negócios Interiores a Medalha de Ouro como “melhor retratista do Brasil” no ano de 1922).
É de justiça ressaltar o primoroso trabalho editorial de Sílvia Furtado e, sem dúvida, o empenho e o afeto do médico, político e membro da Academia Cearense de Letras, Lúcio Alcântara, na concepção de cada nova obra que nos chega por meio da Fundação que leva o nome de seu admirado pai, uma das poucas sedes culturais cearenses que nos apresentam resultados concretos de seu trabalho, justificando a sua existência e permanência.


sexta-feira, 3 de junho de 2016

"Mutirão # 2", comentários de Miguel Leocádio Neto


Capa (ilustração): Zé Tarcísio
Há pouco tempo, entrei em contato com o nº 2 da Revista Mutirão, feita em Fortaleza e lançada em 2016. A revista é de literatura (poesia e prosa) e também de artes visuais (fotografia, desenho, colagem, poesia visual, experimentações...), com capa do maravilhoso artista José Tarcísio e textos de artistas jovens, tudo organizado pelo Poeta de Meia-Tigela, como num quebra-cabeça já sugerido pela folha de rosto (o mesmo desenho da capa “desmontado”, para recortar, remontar e colar ao final da revista em espaço indicado para isso).
Nenhum dos textos tem indicação da autoria na própria página, mas só ao final, numa “escala”, que aponta somente os nomes dos artistas e a página de onde está o trabalho. Esse recurso me obrigou – curioso que sou – a manipular a revista de frente pra trás, de trás pra frente, num ir e vir próprio de quem quer saber quem escreveu aquele texto de que gostei (ou de que não gostei). Fico com a impressão de que o editor/organizador queria que a revista fosse encarada como um objeto cuja materialidade pudesse fugir aos padrões de leitura das revistas, ou seja, à maneira relativamente linear e sequencial de ler textos em revistas, embora não seja obrigatório – pois todo leitor tem uma margem de liberdade de condução de sua relação com o objeto a ser lido.
Os temas, as linguagens e os estilos são variados, heterogêneos. Já a li toda e estou tentando preparar um texto pro meu blog, só pra organizar as ideias. Para o momento, destaco: a sequência do poema-visual experimentação de Nataly Pinho; os textos do Luciano Bonfim (cujo livro de histórias e considerações “Móbiles”, de 2007, Edições do Caos, Fortaleza, eu recomendo); os textos desafiadores da Nina Rizzi, sobretudo o poema “noturno do benfica”, uma lindeza; o texto também desafiador de Talles Azigon “Carta de destruição ou Praça Portugual”. Mas tem muito mais coisa bacana nessa revista.

Tão bacana quanto seu editorial cheio de trocadilhos com os textos e os estilos dos autores, feito com o bom humor do Raymundo Netto, a quem agradeço por ter me apresentado à revista e pela gentileza costumeira, coisas próprias de quem sabe conviver.

MEIA-TIGELA, Poeta de (Org.). Mutirão #2. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2016.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Lançamento "A Densa Bangkok", livro de contos de Arelano Barroso


LANÇAMENTO
A Densa Bangkok e Outros Contos
de Arelano Barroso
 Data: 1º de junho de 2016, às 19h30
Local: Livraria Saraiva Iguatemi
Investimento: R$ 25,00
Sobre a obra: Primeiro livro do autor, a obra reúne 15 contos escritos entre os anos de 2014 a 2015, em narrativas curtas que trazem características realistas, fantásticas e/ou pós-modernas. O conto-título retrata uma aventura romântico-existencialista em terras tailandesas e os demais se desenvolvem em temáticas diversas, em linguagem por vezes poética, observadora, humorada – por fina ironia – e psicológica. 
Durante a sessão de autógrafos será servido coquetel.
Sobre o autor: Arelano Barroso nasceu em Fortaleza. É advogado e músico. Iniciou sua trajetória literária nos anos de 1990 ao conquistar o 1º lugar no Concurso de Contos e Poesia da Faculdade de Direito da UFC. 
Mora em Fortaleza onde exerce suas atividades. 




domingo, 29 de maio de 2016

"Você não é Daqui!", de Manuel Casqueiro para o AlmanaCULTURA


AVISO: Esta é uma obra de ficção. Então, qualquer semelhança com pessoas vivas, zumbis, vampiros, situações e lugares, é mera coincidência. Desculpem.

Esta fábula fabulosa passou-se num Reino, não tão antigo assim, abençoado por Deus e bonito por natureza, que beleza...
Quando você foi dormir havia uma rainha no trono eleita pelo povo. Quando você acordou havia um rei muito sisudo escolhido pelos traidores do povo. Mas você calou, pois você não é daqui.
Assim, você que fala a mesma Língua deles, tomou ciência de tudo o que mudara naquela noite de lua escura. Seus direitos à equidade, à comunicação, à cultura, à aquisição da casa própria e à saúde pública tinham sido suprimidos ou enfraquecidos. Mas você calou, pois você não é daqui.
A Polícia do Reino publicou sombrio aviso que você não poderá participar de manifestações políticas a favor ou contra o real governante de plantão. A respectiva pena, informa, didaticamente, o Órgão de Segurança do Reino, é de 3 anos de reclusão seguidos de deportação.
Deceparam-lhe o livre-arbítrio por meio do Estatuto dos Forasteiros que você nunca ouvira falar, ou tendo conhecimento dele, a ele nunca recorrera por não necessitar. A nobre rainha lhe resguardava os direitos mesmo você não sendo daqui.
 Eu sei, você tinha-se esquecido que era de fora. Todavia, de imediato, você aprendeu que pagar o Imposto de Renda na Fonte ou fora dela, o IPTU mais o DPVAT, arrostar com todos os diversos e enigmáticos impostos embutidos em suas compras, ter Folha Corrida limpa, estar em dia com a Fazenda Real, seu nome não constar no SPC do Reino, e, até ter o recibo quitado do Condomínio em mão, não bastam para torná-lo um cidadão, mesmo de segunda categoria, confiável. Mas você calou, pois você não é daqui.
Aí chegou notícia que “eles” lançarão Decreto contra seu livre-pensar e contra sua privacidade. Então, você, a partir da data da publicação da Lei, fica expressamente proibido de falar mal dos maus políticos do Reino nas redes sociais. Mas você calou, pois você não é daqui.
Prevenindo-se, você passa a trazer, em pasta especial, seu Passaporte, sua Cédula consular, sua Carteira de Identidade, seu comprovante de residência e o seu importante Cartão do Plano de Saúde. Porém, sendo você, neste quesito, igualzinho aos outros do Reino, isso não o livrará das abordagens policiais, de levar uma tapa no pé-de-ouvido, do gás-pimenta nos olhos, das bombas de efeito moral (que moral há nessa bomba?) e do assobiar das bordoadas em seu lombo. Mas você calou, pois você não é daqui.
Anteontem, “eles” mandaram o Ministro do Tesouro Real dar-lhe um recadinho: "Você precisa pagar mais impostos!" Assim, para sua desgraça, “eles” farão a mágica de ressuscitar a CPMF por Real Medida Provisória e aumentar alguns tributos com o comprovante que a arrecadação real despencou e que há precisão de equilibrar, urgente urgentíssimo, as reais Contas públicas. Mas você calou, pois você não é daqui.
Ontem, “eles” mandaram o real Ministro da Imprevidência, desculpe, da Previdência, dar-lhe um recadinho: “Você, agora, irá se aposentar aos 75 anos!” Assim, para seu alívio, “eles” não o deixarão morrer sozinho. Você baterá as botas ou as pantufas numa repartição qualquer, diante dos colegas e dos clientes que o aplaudirão pela sua ousada aposentadoria na expulsória da vida! Mas você calou, pois você não é daqui.
Hoje, quem sabe? O dia ainda não terminou, “eles” mandem o real Ministro das Relações Estrangeiras, que não é ligado em História nem Geografia, lhe dar um recadinho, que, de maneira nenhuma, o deixará surpreso: “Você aí, veja bem, por ser muito longe, perigosa e sem charme nenhum, estou a pensar em fechar nossa Embaixada no seu país e umas tantas outras na África e no Oriente, se bem que ainda não saiba em qual Oriente seja, essas reais representações diplomáticas, atualmente, não servem para nada!” Mas você calou, pois você não é daqui.
E o desmundo, num bater de panelas amarelas e zabumbas vermelhos, segue sua via sacra. Já tomaram e vão tomar ou restringir os Direitos Humanos no Reino, suas salvaguardas jurídicas e éticas, com a deslavada justificativa de ajustes pontuais na política interna e externa e nos Planos e Projetos Sociais da rainha afastada.
 Por você, valentemente, se manifestam e já marcham, pelas ruas e praças do Reino, nesta travessia indigesta, as mulheres, os idosos, os pobres ou acabados de sair da pobreza, os trabalhadores urbanos e rurais, as minorias raciais e de gênero. E os professores e estudantes, com certeza. Mas você calou, pois você não é daqui.
No entanto, eu não sendo daqui, estou aqui. E, ao contrário de você, não me calarei. Não posso silenciar. Em minha trajetória, a liberdade custou sangue. Nunca temi o que existe para ser temido e não vacilarei ante o improvável abstruso temer.

NOTA: Como toda a (in) decente fábula, esta também tem uma moral: “Quem cala consente, quem luta vence
                                                                       

Manuel Casqueiro é presidente da Academia Afrocearense de Letras, escritor e palestrante da República da Guiné-Bissau. O texto acima foi apresentado em 21 de maio de 2016, na Casa de Juvenal Galeno, durante evento  alusivo ao 2º Aniversário da fundação da AAFROCEL e ao Dia da África.


sexta-feira, 27 de maio de 2016

"O Esgoto das Ruas", de Raymundo Netto para O POVO

Até há pouco, estranhava o silêncio daqueles a quem pensava povo brasileiro. Havia apatia e insensibilidade aos acontecimentos, descaso à miséria e à opressão de muitos e ausência nas decisões políticas que interferiam diretamente na sua vida. Daí, a necessidade de sensibilizar e mobilizar, conduzi-lo à arena popular, ocupando o espaço que a ele pertencia, reivindicando melhorias e defesa das conquistas sociais, antevendo o país que queríamos ser, o que nos definiria perante o Mundo.
Hoje, nos parece que algo surpreendentemente mudou: pedíamos vozes, mas vimos emergir o esgoto das ruas, o discurso da individualidade, do egoísmo, da exclusão, da intolerância, do oportunismo, da tirania, da tortura e do estupro, numa sabotagem clara dos direitos humanos, do diálogo, do respeito às diferenças e da justiça social. Do contido esgoto, odioso recalque, a busca de vantagens pessoais e/ou de classe, de dominação de gênero e cor, do preconceito e de reconstrução de privilégios de uma colonial elite de salão.
O Brasil, historicamente golpista (d. Pedro I, Deodoro, Getúlio, Castelo, Temer...), sabendo que os filisteus não fogem a luta, nos guardou debaixo do tapete os velhos discursos de censura ideológica, do conservadorismo familiar, do divino autoritarismo, de “salvação nacional” pela ordem (leia-se “repressão”) e pelo progresso (leia-se “alimentação do capital”), num remake vintage da política “revolucionária sem sangue”, como vangloriavam os EUA, país terrorista que apoiou o Golpe de Estado de 64.
Usa-se a bandeira, como a exigir identidade fácil e futebolesca, símbolo de utilidade apenas ao jogo do poder, à manobra política e interessada que todos os dias somos obrigados a assistir com naturalidade e impunidade pela lama de machados, jucás, renans e sarneys, com a certeza de que vem mais frotas por aí. Nas conversas, o GOLPE, que diziam ser “viagem”, é declarado abertamente, com possibilidade de deter a operação Lava Jato, na qual sobrará para muitos que orientam o discurso do esgoto, o que está fazendo que se negociem mais manobras, como a de enfraquecer delações e a de oferecer a “paz mundial”, como antes, num “Brasil: ame-o ou deixe-o”.
O governo suposto interino, associado a um legislativo fake e a um judiciário que lava as mãos enquanto tem a pequenez de negociar aumento em oportunidade de crise, conseguiu emplacar sete ministros do Lava Jato (foro privilegiado?), indicando também, como líder do governo na Câmara um dos defensores do Eduardo Cunha, sendo ambos investigados, além de colocar logo na Justiça e Cidadania um homem com atuação reconhecidamente repressiva, advogado em mais de 100 processos associados à lavagem de dinheiro e corrupção pela organização PCC. Até a frase que inspirou o discurso de posse do temerário conspirador (“Não fale em crise, trabalhe!”) *, sabe-se agora, pertence a um condenado por tentativa de homicídio, venda de combustíveis roubados, sonegação fiscal, estelionato e formação de quadrilha. E então, como querer reação desse esgoto, como querer que ele bata panelas pela educação, pela moralidade e justiça? Como querer que ele, por sua natureza, não comungue com essa merda toda?


(*) www.conversaafiada.com.br/politica/homicida-e-sonegador-preso-inspira-temer

quinta-feira, 26 de maio de 2016

"Um Brasil de Caranguejos", de Raymundo Netto para o blog "Matutando o Brasil"


Você que inventou esse estado e inventou de inventar
toda a escuridão. Você que inventou o pecado

esqueceu-se de inventar o perdão
Apesar de você, amanhã há de ser
outro dia!
(Chico Buarque)

O Ministério da Cultura voltou! O presidente interino – não por bondade nem por entender a necessidade estratégica da cultura para o desenvolvimento do país, o que é lastimável – voltou atrás e decidiu manter o Ministério.
Para quem sabe o que é cultura – e não estamos falando de mero entretenimento – e percebe o que a diversidade cultural de um país de proporção continental e miscigenado como o nosso representa enquanto riqueza – quem pensa que riqueza é apenas um tríplex com piscina e um Ferrari na garagem, não sabe, mas é pobre, pobre, pauvre de marré deci – o anúncio da extinção desse Ministério, que não já não atuava em toda a sua plenitude – nunca foi prioridade de governo – e que levaria anos para alcançar seu objetivo, é de uma gravidade extremosa e reveladora.
Vivemos num país no qual o seu conceito ainda é muito mal interpretado, menos ainda interiorizado como pertença e não é abraçado por muitos, além de que a sua ausência favorece aos interesses dos doutores da elite burra e gananciosa, afinal: um povo sem cultura é gado que em vez de chocalho bate panelas e desgasta o sofá no horário nobre de TV.
O tecnicismo de alguns governos que veem apenas a riqueza material como fonte de sobrevivência da nação nos indica o nível de miséria cultural de seu povo. E essa miséria cultural atrai a outra, de agarro e abraços com a injustiça e a desigualdade social. Claro que quem tem uma pontinha de segurança, os favorecidos historicamente e muitas vezes com poucos méritos de conquista, principalmente os homens, os brancos e os de classe alta e média, não se importam com questões de cultura e muito menos com a defesa de garantias sociais. Não é com eles! Daí, tremem de raiva ao ouvir falar de bolsa família, lei de cotas – que beneficia os negros e aqueles em situação de vulnerabilidade social –, favorecimento de casas populares, questões do aborto, o direito de transexuais e travestis em usarem um nome social (direito ora ameaçado por projeto (des)encabeçado por parlamentáveis dos partidos do atraso, como o PSDB, PRB, PV, PR, PHS, PSC, PROS, DEM e PSB, sempre eles), do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos – afinal, vociferam: “lugar de mulher bela e recatada (recalcada?) é servindo, por obrigação, ao macho em seu lar (cárcere privado)”; “negro não é raça” (e o branco é o quê?); e “direitos humanos é coisa de comunista (mas fui mal aluno em sociologia)” – entre outros benefícios que rondam a periferia de suas vidas e que só incomodam quando lhe chegam na esquina e gritam: “Fortaleza – a nossa – apavorada!”
Junte-se a esses atrasados, a bancada cruel, ignorante e preconceituosa mantida pelos evangélicos, e não pelos evangelhos (que significam “Boas Novas”), e que usa o nome de Deus e da família – recusam as novas configurações familiares –  para patrocinar a tortura e a opressão humana, o machismo e a domesticação feminina, a castração da sexualidade, a visão da arte como vagabundagem (só entendem de dinheiro, que é o negócio deles), e a expropriação livre daqueles que já nada tem em troca da vacina da resignação e da promessa de um paraíso de fundo de rede.
Cadê a manifestação dessa turma diante da atualíssima crise no sistema público de educação? O que há na cabeça desses infelizes, egoístas e infiéis à revolução cristã? Ora, Jesus não nasceu e defendeu os pobres, as minorias, os excluídos, com quem conviveu e dividia pães e peixes até a sua execução ser encomendada pelo poder e pela bancada sacerdotal da época?
A Educação e a Cultura, as maiores e mais duráveis conquistas de um povo, os verdadeiros instrumentos do progresso e do desenvolvimento, da harmonia e da autoestima de uma nação, sempre foram colocadas em segundo ou terceiro plano, e só lembradas durante campanhas eleitorais.
Há de se chegar a hora de ser abominosa e inaceitável toda a hipocrisia desses fariseus que manipulam as leis e as manobram em sacrifício do povo e em benefício próprio. Há de chegar a hora do povo despertar desse sono profundo e entender que somos um todo e que este país só será forte e respeitado pelo Mundo quando houver transformação social. Que esse dia venha pelas mãos do nosso povo e não por aventureiros. É querer demais?


sábado, 14 de maio de 2016

"Ainda sobre o Golpe!", por João Alfredo Telles de Melo


55 votos (no Senado) X 54 milhões (nas urnas).
Um processo aberto na Câmara por um desafeto da presidenta e de seu partido, retaliando o processo de cassação de seu mandato de deputado. Um pedido de impeachment encomendado (e pago!) a uma "jurista" pelo partido derrotado nas eleições presidenciais. A falta de fundamentação legal para as razões do pedido de impeachment, já que práticas semelhantes (as chamadas "pedaladas") já haviam sido realizadas não só por ex-presidentes, mas, também por ex e atuais governadores, inclusive o relator do processo no Senado; prática esta que era considerada legal até ontem pelo TCU. Um "tribunal" político, o Congresso Nacional, onde a maioria de seus membros é composta de investigados ou até réus em diferentes processos de corrupção, inclusive, na operação Lava Jato. Um judiciário politizado até à medula, que, desde a ação ousada de juízes de primeiro grau, através de "pequenos golpes" (como o vazamento seletivo que atingiu até a presidência da República e o impedimento da posse de um ministro) até a complacência conivente da mais alta "corte" (o nome é sugestivo!) do país - teve participação ativa para garantir a "roupagem legal" do processo de impeachment.
Uma mídia, cuja principal rede de comunicação (que, lembre-se, sempre foi regiamente cevada com dinheiro público, inclusive dos governos petistas) funciona como um verdadeiro partido político e que, como porta-voz das classes dominantes e de suas elites políticas, teve papel fundamental para (de)formar a opinião pública favorável à destituição da presidenta. Aí vêm dizer que não foi GOLPE???
GOLPE, sim. Institucional, legislativo, midiático e, acima de tudo, inconstitucional! É preciso reafirmar SEMPRE! Portanto, está mais do que na hora de devolver ao povo o que lhe foi roubado: a sua SOBERANIA!
A votação de hoje antecipa já a cassação definitiva de Dilma e a entronização definitiva do golpista e usurpador Temer, com seu saco de maldades contra o povo brasileiro. Por isso, temos que lutar por NOVAS ELEIÇÕES. Eleições gerais, porque esse Congresso, por sua maioria, perdeu completamente a legitimidade ao "legitimar" o Golpe.