sábado, 6 de fevereiro de 2016

"Cartas de Amor", de Ana Miranda para O POVO



Ilustração: Carlus Campos

Algo que me admirou, quando voltei a morar no Ceará, foi o amor de homens por suas esposas. Notei logo, desde quando assisti a uma festa em que senhores discursavam. Era uma festa de trabalho. Mas cada um deles aproveitou o momento para fazer uma declaração de amor. Verdadeiras cartas de amor ditas em voz alta. Isso pode ter vários significados, mas como meu pai foi a vida toda apaixonado por minha mãe, e assim aprendi a acreditar no amor matrimonial, interpretei como gestos de puro sentimento.
Guardo uma coleção de cartas de amor escritas por meus pais, nos anos 1930, 1940. Estavam noivos e se separaram por um período, quando ela foi estudar na Escola Doméstica de Natal, preparando-se para o casamento; ou, depois de casados, durante alguma viagem de trabalho do “doutor”. As cartas de amor são sempre saudosas, doloridas, porque são escritas quando o ser amado está distante. Tratavam-se por “minha filhinha”, “meu filhinho”, usavam diminutivos carinhosos: “Aceite mil beijos e saudades do maridinho só seu”. E ela, com uma letra harmoniosa e delicada: “Bem, meu futuro maridinho, aceita muitas saudades e beijos da tua noivinha que muito te quer”. Ele estava sempre preocupado com a saúde dela, e ela, com o excesso de trabalho a que ele se dava. Pode-se perceber que ele ainda era senhor de si, quando noivos, mas depois do casamento demonstra o quanto está arrebatado pela paixão. Por essas cartas, redescubro meu pai como um novo homem.
Lembrei-me dessas cartas e da festa noturna de declarações de amor quando estive a folhear um livro com as cartas trocadas, desde 1882, pelo estudante de direito, Clóvis Beviláqua, com sua “boa e querida” musa, a escritora Amélia de Freitas, após se conhecerem numa praia do Recife – ela quase se afogava e ele a salvou. Ainda uma vez, a emoção destrona a razão, e o rapaz escreve “como quem conversa, sem método, sem concatenação, sem mesmo pensar no que disse nem no que vou dizer”, achando-se um tolo. Nas cartas, um pouco de filosofia, de usos e costumes, de paisagens, sobretudo a história de um eterno amor, que ficou registrado nesta jura: “Juro por quanto há nobre e grande ... que te adoro, que te idolatro, que és o meu mundo e a minha glória, minha ambição e o alvo de meus anelos, juro que jamais se apagará em meu seio este ardor que me é alento e vida...”. Essa jura me faz lembrar as declarações de amor, naquela noite de discursos, assim que cheguei ao Ceará.
Há toda uma literatura de missivas de amor, como as cartas de Graciliano Ramos para a noiva, Heloísa Medeiros. Ela era uma moça de 18 anos, e Graciliano, um viúvo de 35, pai de quatro filhos, empregado na Prefeitura de Palmeira dos Índios. As sete cartas, publicadas em livro, impressionam pelo derramamento de Graciliano; ele, sempre tão contido, reclama da frieza de sua pretendida que lhe mandava cartas de duas linhas; provam que não há matemática na psicologia de um ser apaixonado. “Adeus, minha noivinha amada”. “Adeus, minha santa”. Mas ele continua a ser o homem de poucas palavras, mordaz, negativista: “Eu te procurei porque endoideci por tua causa quando te vi pela primeira vez. É necessário que isto acabe logo. Tenho raiva de ti, meu amor.” Ele diz que não sabe mentir, e “os outros me veem por dentro melhor do que por fora”. Com uma série de confissões amargas, as cartas não esclarecem o “mistério” Graciliano, mas ficamos conhecendo melhor seu temperamento. São conhecidas cartas de amor de Machado de Assis a Carolina, de Dostoievski a Anna Grigoriévna, de Victor Hugo a Juliette Drouet, de Plínio a Calpúrnia; de Mark Twain, de Flaubert, Mozart, Darwin, Beethoven, lord Byron, Robert Browning, a suas amadas, ou de mulheres a seus amados, como Florbela Espanca e Mariana de Alcoforado.
Mas não é preciso ser um escritor para arrancar suspiros do ser amado. A carta de amor pertence a todos os que amam. Ao contrário do que disse Fernando Pessoa, que todas as cartas de amor são ridículas, e se não fossem ridículas não seriam cartas de amor... Ele mesmo escreveu a sua amada Ofélia: “Meu Bebezinho, minha almofadinha cor-de-rosa para pregar beijos (que grande disparate!)” Nenhuma carta de amor provoca riso ou escárnio, a não ser naqueles que têm medo de amar. Portanto, escrevamos cartas de amor, ainda que fiquem guardadas nas gavetas, sem endereço. Escrevamos para a pessoa amada, para nós mesmos. Guardemos nossas cartas de amor em maços perfumados, em caixinhas macias, elas serão a lembrança mais doce de um tempo que nunca passou.


Obs: O livro em questão é De Clóvis para Amélia, org. José Luís Lira, Ed. UVA/ASEL.


"Consuelo", conto de Raymundo Netto para O POVO


Deoclécio casara com Consuelo inda muito jovem. Tinham filhos e contavam mais de 45 anos em comum, o que sempre parecia impressioná-lo: “Quem diria...”
Na cozinha, por horas, detinha a atenção naquela mulher a varrer, passar o pano, catar feijão e cortar cebolas. Ansiava pela hora em que reencontraria nela a mocinha de olhar brilhante que vira pela primeira vez na pracinha a semear gargalhada inconfundível, a propor ingênuo futuro de amores e a beijá-lo demorosamente como se o mundo fosse acabar ali, naquele instante. Ao contrário, então, sorria quase nunca, pouco se expressava, chegava ao ponto de parecer não ter nenhum querer ou esperança na vida. Se o ouvia? Não sabia. O rosto, geralmente sisudo, era sulcado de rugas. O corpo, frio e flácido. Olhava para ela e via a sua mãe. Pensava: “Como tocar em minha mãe?”
Consuelo, também com o tempo, recusava apetites. Quando de muita insistência, se dava a qualquer coisa, muito pouca e tímida, quase ausente, numa friúra de má atuação. O desejo trocado por frustração e impotência. Uma desgraça seguida de boa noite.
A fome e a longa jornada de rejeição deu portas para um inesperado caso. Deoclécio sabia: “A amante não era metade da Consuelo de sua lembrança, mas o fazia homem de novo, achamado em paixão e ardor.”
Naturalmente, os arranjos se avolumaram e foi difícil manter a discrição: a filha o encontrara ao telefone público diante do bar. A outra, no carro parado em quarteirão escuro. O filho ouviu da vizinha que “parecia” ter visto seu pai com outro alguém num calçadão de praia. As filhas nunca, mas o filho o abordou. Ambos envergonhados, sem jeito, se encaravam: “Você é muito novo para entender.” “Eu não quero entender nada. E a minha mãe, como fica?” Olhavam para Consuelo sentada na sala e alheia a tudo. Apenas duas coisas lhe pareciam fazer algum sentido: a missa e a novela.
Deoclécio continuou vendo a amante, entretanto, o conflito o corroía. Não permitia que ela falasse de Consuelo, uma santa! Nem de longe criticar aqueles filhos. Ela silenciava, mas se impacientava diante daquela imprevista insegurança.
Um dia, a notícia: Consuelo morreu! “Foi o câncer”. Em meio ao sofrimento e à culpa, ainda ouviu da caçula: “Pai, você conseguiu. Agora está livre para sem-vergonhice!” Os outros filhos silenciaram. Nada mais importava agora.
Deoclécio quedou-se em cacos. Chorava a soluçar, feito menino. Esforçava-se, mas não conseguia se lembrar da última vez que conversaram nem sobre o quê. Morria com Consuelo a sua melhor porção.
Deitaram os anos. O homem envelhecera tudo o que podia na vida. A amante desaparecera há tempo. Porém, um dia, no bar, a encontrou agarrada a outro, chamando pelo mesmo apelido de cama que outrora lhe pertencera. Fitava-a e pensava como pôde: “Tão sem graça aquela...” Voltou para casa escura e vazia. Com a ponta dos dedos acompanhava o desfile de porta-retratos a relembrá-lo da irreparabilidade de uma vida, o desencontro, o desamor, a insuportável saudade daquilo que foram e tiveram.
Daí quando o fulminante silêncio tomou seu peito, ao ouvir uma alegre gargalhada chegar daquela cozinha: “Consuelo? É você, meu amor?”


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Prof. Myrson Lima sobre sua leitura de "Crônicas Absurdas de Segunda"

Raymundo Netto,
Encerrei a leitura do Crônicas absurdas de segunda, que gentilmente me presenteou. Por que absurdas? De início, admirei-lhe a refinada apresentação, o excelente projeto gráfico, a capa dura com as ilustrações do Valber Benevides, que enriquecem também o miolo, a qualidade da impressão, a leveza da disposição dos capítulos, com a sintética e útil informação dos biografados, a escolha das cores, que já chamam a atenção até do mais distraído frequentador de livrarias.
A surpresa maior foi, no entanto, o conteúdo. Você me lembrou de me haver enviado os primeiros textos, no início da carreira, o que depois me despertou a lembrança. Não me lembra que me tenha na época provocado espanto, como dessa vez. Surpresa agradabilíssima! Não imaginava que iria encontrar textos tão ricos, leves, cheios de verve e de humor. Percebem-se o alto nível de leitura, o culto pela palavra exata e sonora, os criteriosos e eruditos recortes da história da cidade, a realidade e a fantasia interlaçadas em cada página. Parabéns, rapaz!
As apresentações da Ana Miranda e do Sânzio estão à altura do livro, ricas, felizes, justas, carinhosas. O “Dândi pós-moderno” de Salgueiro corrobora a imagem que aos poucos você já criara no confidente leitor de escritor versátil e de adorável figura humana.
Cumprimento-o com entusiasmo e admiração.

Myrson Lima

Serviço:
Crônicas Absurdas de Segunda, de Raymundo Netto
Apresentação: Ana Miranda
Prefácio: Sânzio de Azevedo
Posfácio: Pedro Salgueiro
Ilustrações (capa e miolo): Valber Benevides
Det: Capa dura | 231 páginas | colorido | Formato: 15,5 x 21,5cm
Investimento: R$ 30,00
Compra On-Line: livrariadummar.com.br
Contato com o autor: raymundo.netto@gmail.com




quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

"A Carta", de Pedro Salgueiro para O POVO


— Vinte anos de saudades, amiga —.
Por que temos que guardar o segredo de uma história sempre para o final? — não seria melhor nos livrarmos logo dele; aí então o relato fluiria de maneira mais honesta e tranquila, sem o trunfo incômodo de um mistério apenas conhecido por nós!?

Sempre me impressionaram os que começam seus enredos desvendando esse enigma: tiram um peso das costas, desprezando assim toda a nossa ansiedade — jogam as armas fora, lançam-se de peito aberto ao leitor. Torna-se, então, mais difícil construir uma aventura abrindo mão deste trunfo?... Não temos nada além das palavras, a não ser a própria aventura, e o nosso pouco talento.

A verdade é que decidi dizer logo que Suely morreu — e morreu de morte besta, dessas que não se encontra justificativa senão no acaso, ou no destino, ou… Sabe-se lá o que rege o mundo. Terminou os estudos, casou, teve dificuldades financeiras, mudou-se junto com o marido para uma terra distante. Todo mês a cartinha certa aos pais, o papel embebido em lágrimas — a promessa constante de uma visita no fim do ano. Não fosse o implicante destino.

Uma festinha de aniversário, uma briga louca de bêbados na calçada, um tiro errado e uma bala na nuca; logo a dela. Sexta à noite. Telefone deixando recado para os pais. Arrodeios, depois a notícia triste. Providência dos amigos. Vaquinha para o avião. Embalsamado o corpo — hospitalizado o sogro. Domingo de noite o corpo chegando (a promessa finalmente cumprida), a cidadezinha inteira acordada, desmaios, sofrimento prolongado. Segunda-feira pela manhã o caixão na cova. As lágrimas finas sem serventia. O cansaço, a casa vazia, um silêncio fundo: essa mistura de frustração e revolta. Tarde dessa mesma segunda: a carta inesperada. O carteiro, também, incrédulo. Olhos nas janelas. O choro recomeçado, sem fim, a imagem do Coração de Jesus no abraço apertado da mãe.

Carta, sim! Remetida por Suely — a última, feliz, desta vez perfumada, prometendo a eterna visita no fim do ano, dizendo da gravidez —, que a pôs nos correios na sexta pela manhã. No final até consola a mãe da doença grave de uma vizinha: sofresse não, a vida era assim!

A carta, pois, remetida na sexta pela manhã: Recebida na segunda à tarde.

Antes dela, Suely.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Inscrições Abertas: Prêmio SESC de Literatura - 2016



Estão abertas até o dia 12 de fevereiro as inscrições para o Prêmio Sesc de Literatura 2016, categorias Conto e Romance. Poderão concorrer escritores brasileiros e estrangeiros, residentes no Brasil, com mais de 18 anos. O candidato deverá adotar um pseudônimo, não podendo assinar a obra com o nome verdadeiro. A coautoria é aceita na categoria romance e não serão aceitas inscrições de obras póstumas.
O livro deve ser inédito e o candidato não poderá ter nenhuma outra obra publicada na categoria em que se inscrever. Na categoria Conto o trabalho deverá ter entre 140 a 400 mil caracteres e na categoria Romance entre 180 e 600 mil caracteres. Vale lembrar que será permitida a inscrição de título cuja pequena parcela do conteúdo tenha sido publicada em blogs pessoais ou revistas eletrônicas, desde que não ultrapasse 25% do total da obra.
Os textos serão analisados por uma comissão julgadora composta de escritores, jornalistas, críticos literários e especialistas em literatura. Não podem concorrer funcionários, estagiários e parentes (até segundo grau) de funcionários do Sesc, da Confederação Nacional do Comércio e das Federações do Comércio, da editora Record, bem como estagiários e parentes (até segundo grau) de funcionários e nem dos envolvidos no processo de julgamento do concurso.
O Prêmio Sesc já revelou 21 novos escritores. Em 2015, os livros vencedores foram: o romance Desesterro da paulista Sheyla Smanioto; e na categoria Conto o Antes que seque, da carioca de 49 anos, Marta Barcellos.
A inscrição será online pelo site:

Um código identificador é gerado automaticamente e, com esse, o inscrito poderá acompanhar o processo de avaliação.

O resultado será divulgado em junho os vencedores terão as obras publicadas pela editora Record com uma tiragem inicial de dois mil exemplares.



sábado, 16 de janeiro de 2016

"A Biografia", de Ana Miranda para O POVO


Ilustração: Carlus Campos

Mesmo sendo tão apreciada e frequentadora das listas de best-sellers, a biografia é tida como um gênero menor. Maiores, sabemos, apenas os PEN (do PEN Club): poetry, essay, novel. Poesia, ensaio e romance. Mas os leitores amam as biografias, querem conhecer a vida de gente célebre, como Getúlio Vargas, Carmem Miranda, Padre Cícero, Garrincha... Porém, o melhor efeito da leitura de uma biografia é que, enquanto temos a sensação de vivermos uma vida alheia, relembramos a nossa própria vida. Podemos, mesmo, reconstruir nosso percurso sob novos olhares.
É um dos gêneros literários mais antigos, e dos mais diversos. Há biografias literárias, genealógicas, militares, políticas, psicológicas, romanceadas, até mesmo as que omitem a obra do biografado, como uma de Poe, em que o autor, fascinado pelas mudanças de casa do contista, mal consegue reservar uma linha para os contos. Ou uma de Bolívar, outra de Napoleão, que não mencionam absolutamente nenhuma batalha desses militares.
As primeiras biografias eram tendenciosas, escritas com um intuito certeiro. As escritas por Plutarco sobre romanos e gregos tinham o interesse didático de comparar as virtudes das duas nações. As de Suetônio, sobre doze césares romanos, foram escritas como denúncia da tirania. Os flos-santórios, biografias de santos, no Cristianismo primitivo e no medieval, tratavam de dar exemplos de virtude religiosa e garantir seus resultados milagrosos. Apenas na Renascença foi descoberto o indivíduo como ser autônomo, quando se escreveram biografias de grandes artistas italianos e holandeses. Os protestantes aprofundaram, com as biografias dos reformadores, aspectos da psicologia e do exame de consciência. Só depois disso foi que surgiram as biografias de escritores, como a Vida dos poetas ingleses, de Samuel Johnson. Muitas delas eram escritas por admiradores incondicionais de seus biografados, como a de Dickens por J. Forster, e tinham cunho apologético, omitindo tudo o que fosse menos edificante.
A biografia hoje pretende ser documental, jornalística, desfiando os fatos, buscando a “verdade”, a “realidade”, tentando comprovar cada afirmação com documentos ou com testemunhos. E a sensação é mesmo de acompanharmos uma “realidade”, e de que tudo o que lemos é “verdade”. Mas, como disse Borges, “tão complexa é a realidade, tão fragmentária e tão simplificada a história que um observador onisciente poderia escrever um número indefinido, e quase infinito de biografias de um homem destacando fatos independentes, e só depois de ler muitas delas perceberíamos que seu protagonista é o mesmo”.
Pode-se escrever uma biografia dos sonhos de uma pessoa, outra, das mentiras que ela disse, outra, dos momentos em que ela imaginou pirâmides... Será que podemos confiar nas biografias? Do mesmo modo que confiamos nos historiadores, sim. E nos ficcionistas. Costumo dizer que os historiadores são ficcionistas que fingem estar dizendo a verdade; e os ficcionistas, historiadores que fingem estar mentindo.
A biografia de “desmascaramento” surgiu com a publicação de Vitorianos eminentes, sobre a rainha Vitória, escrita por Lytton Strachey. Ele usa o estudo psicológico para desvendar a verdade histórica, um método biográfico que exige as artes do romancista, tanto na análise como na narração.
O mais confiável biógrafo seria o próprio biografado, ele é quem mais se conhece e sabe sobre sua vida. Por outro lado, é o menos confiável, pois pode cair na tentação de, numa autobiografia, falsear sua vida e esconder fatos que o magoam ou envergonham. E, mesmo sendo uma pessoa honesta, vai selecionar os elementos que compõem o melhor – ou o pior – retrato de si mesmo.
Há biografias tão pequeninas que cabem numa frase. O Otto Lara Resende dizia que a sua era: Nasceu em São João Del Rei, viveu e morreu. Outras ocupam volumes de mil ou mais páginas, como a de Joyce, escrita por Richard Ellmann. A maior de todas, consta ser a de Samuel Johnson, composta por seu discípulo, Boswell, que chega a transcrever toda a correspondência do biografado, assim como muitas de suas longas conversas. E a melhor de todas, no meu entender, é a de Sir Richard Burton, escrita por Edward Rice. Burton foi um agente secreto que fez a peregrinação a Meca, descobriu o Kama Sutra e trouxe as Mil e uma noites para o Ocidente; explorador, aventureiro, militar, naturalista, falava 29 línguas, viveu o cotidiano de povos exóticos e deixou diários fabulosos.
A melhor biografia é aquela da vida que alguém gostaria de viver.


Resenha de Rinaldo de Fernandes para "Crônicas Absurdas de Segunda", de Raymundo Netto


Crônicas sobre o Talento Cearense

Antonio Candido tem um ensaio elucidativo sobre a crônica, no qual afirma que, filha do jornal, comunicativa por pendor, a crônica consegue, com humor, com uma linguagem natural, espontânea, praticamente “conversar com o leitor”. A crônica é leve e, na sua simplicidade, ajuda a dimensionar os temas a que o cronista se dedica. Na mão do cronista, o assunto grave, sisudo, fica ao alcance de todos – enfim, as coisas complicadas da vida descem de seu cume, ficam “ao rés do chão”.
A crônica, que poderia ser descartável como o jornal que a envelopa, ganha sentido de permanência quando transposta para o livro.
E se fazem permanentes, têm força de grande literatura, as crônicas do cearense Raymundo Netto enfeixadas no livro Crônicas absurdas de segunda, que traz um prefácio saboroso e esclarecedor de Ana Miranda e uma introdução do historiador da literatura cearense Sânzio de Azevedo.
Retiro do prefácio de Ana Miranda dois trechos que definem bem a crônica de Raymundo Netto. No primeiro, a autora de Boca do inferno alerta:
“O texto de Netto é descansado, sonhador, ambulante e dialogado, nunca em silêncio. Nunca solitário. Não se importa com o realismo e mesmo quando é realista carrega a fantasia da memória.”

Adiante, Ana Miranda anota:

“O seu narrador me faz lembrar um senhor de chapéu coco e fraque, muito elegante, cortês. Entusiasmado e fervoroso, vaga pelas ruas a olhar tudo e conversar com quem aparece ali. Gosta de conversa. Um narrador carregado de sentimentos, uma afetividade à flor da pele, e um pouquinho de malícia. Fala num tom de certo gracejo inocente, aproveitando todos os momentos para chistes e improvisos.”

O livro é uma seleção de crônicas que Raymundo Netto publicou no jornal O POVO, de 2007 a 2010. Há no livro uma unidade, uma estrutura eficiente, que decorre dos seguintes elementos:

·         emprego constante de intertextualidade (aproveitamento, através da paráfrase, do pastiche ou mesmo da paródia reverencial, de trechos de obras de autores do passado e do presente);
·         utilização do fantástico nos enredos;
·         telurismo (o Ceará – os seus escritores, mortos e vivos – é o grande protagonista das crônicas);
·         didatismo (para cada crônica, há uma nota biográfica sobre o personagem-tema – o que contribui para tornar o livro também um consistente manual sobre a literatura cearense).

Como a crônica de Raymundo Netto, como bem disse Ana Miranda, traz um narrador que “gosta de conversa” (algo análogo ao que formulou Antonio Candido, ou seja, que o cronista enceta uma “conversa com o leitor”), indico aqui as conversas que mais me chamaram a atenção no livro: a com a estátua de Rachel de Queiroz (“A moça do Zepelim prateado”), de caráter metalinguístico, em que é discutido o fazer do cronista; a que trata de uma “mania” do também cronista Pedro Salgueiro (“A dança das cadeiras”), que, no bar, numa roda de amigos, “é sempre o último a se levantar para ir embora”, evitando assim a “falação” dos outros; a com o poeta Quintino Cunha (“Molequintino”), excelente, exemplo do emprego eficaz do humor na crônica; a com o contista e cronista Airton Monte (“Um monte de barata”), que aparece uma noite metamorfoseado de barata; a com o grande contista Moreira Campos (“A casa vazia”), que chega em seu fusquinha verde no estacionamento de um shopping – a crônica permite uma boa reflexão sobre patrimônio e memória; a com o “poeta maldito” José Alcides Pinto (“A peleja de Dom Zé Alcides e o Dragão de Sobral”), texto com preciosos elementos fantásticos.
São ainda personagens-temas das crônicas, entre outros, o romancista José de Alencar, o dicionarista Raimundo de Menezes, o contista e romancista Eduardo Campos, o contista Jorge Pieiro, o cronista Milton Dias, o poeta Francisco Carvalho, a romancista Ana Miranda, o pesquisador, poeta e cronista Audifax Rios, o poeta popular Mário Gomes, o jurista, escritor e crítico Clóvis Beviláqua, o poeta, jornalista e orador Demócrito Rocha, o romancista Antonio Sales, a romancista Socorro Acioli, o poeta Horácio Dídimo, o cronista Lustosa da Costa e o romancista e contista Nilto Maciel. Cearenses notáveis.      
São muitos os exemplos de crônicas bem compostas no livro de Raymundo Netto. Se não comento todas aqui, é para não apagar a curiosidade do leitor.
Crônicas absurdas de segunda é um livro precioso. Um livro para ser adotado em escolas, como forma de divulgar o talento da gente do Ceará.  

Rinaldo de Fernandes, para o Blog da Beleza (http://rinaldofernandes.blog.uol.com.br/)
Escritor e crítico. Doutor em Letras pela UNICAMP e professor de Literatura da Universidade Federal da Paraíba. Organizador do livro O Clarim e a Oração: cem anos de Os Sertões (Geração Editorial, 2002). Como pesquisador, fez os textos da antologia Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século, organizado por José Nêumanne Pinto (Geração Editorial, 2001). Autor de diversos livros de contos, como O Caçador (1997), O Perfume de Roberta(2010), Rita no Pomar (2009) e O Professor de Piano (2011) – os dois últimos foram finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura. Organizador das antologias Contos Cruéis (Geração Editorial, 2006), Quartas Histórias (Garamond, 2006) e Capitu Mandou Flores (Geração Editorial, 2008). Escreve para os suplementos Rascunho (Curitiba) e Correio das Artes (João Pessoa). A Novo Século acaba de lançar seus Contos Reunidos, mais um sucesso desse autor.
    
Serviço:
Crônicas Absurdas de Segunda, de Raymundo Netto
Apresentação: Ana Miranda
Prefácio: Sânzio de Azevedo
Posfácio: Pedro Salgueiro
Ilustrações (capa e miolo): Valber Benevides
Det: Capa dura | 231 páginas | colorido | Formato: 15,5 x 21,5cm
Investimento: R$ 30,00
Compra On-Line: livrariadummar.com.br
Contato com o autor: raymundo.netto@gmail.com


"Monólogo Poético", de Raymundo Netto para O POVO


Dava-se dia ensolarado e, à calçada, encontrei aquele escritor que acabara de lançar o livro príncipe. Poesia, para variar e aderir à coorte. O poeta, me reconhecendo em suposta conta de intelectual — tal como o próprio, certamente — discorreu sobre o sucesso do lançamento de tão aguardada obra. Sorrisando largo o olhar faiscante, segredou, com devido anúncio de reserva, que o “TT da madrugada” anunciara — coisa que fez também, e ele não sabia, com todos os 500 usuários de seu espaço cultural —, o recorde, o maior sucesso da história de lançamentos nesta província.
Discreto como um elefante dançando a macarena, citou a cifra de 100, ou quase isso, livros vendidos — lidos, não garantiria nem o da mãe — e isso porque presentes apenas os seus familiares — membro de família do interior, ocupou o auditório inteiro —, pois os dois escritores, os únicos que conhecia no Ceará, e, portanto para ele os melhores, prometeram de ir, mas no calor do derradeiro instante, diante de assuntos da mais absoluta relevância — e também diante da falta de desculpa mais original — não puderam comparecer, sendo entrementes gratos por tão elevado galardão.
Daí, não deu outra: haja falar compulso de tal “úbere opúsculo”, ler seus trechos, compará-los à obra drummondiana, quitaniana e poetiana em geraliana, explicar-me a escolha dos títulos, denunciar-me a dedo os neologismos e metáforas, enfim, decifrar o indecifrável como se a descobrir ali, em momento invulgar, após a abertura dos sarcófagos da pirâmide do Egito ou da última garrafa de Coca-Cola, o VERSO.
Já delongada a conferência de autoencômios, porém, embaciou o olhar, agora terno e doce. Prenunciava esgotar o martírio do monólogo posto em pé e debaixo de sufocante sol quando ainda desceu a voz, mais macia do que travesseiro de debutante:
— Desculpe-me, senhor, mas é que sou um apaixonado pela poesia. Quando começo, até me emociono... Não estou deixando-lhe falar, não é? Pois bem, agora é a sua vez... Fale um pouco do que achou do MEU livro.
Dito isso, assomou-se todo em orelhas e ouvidos, de me envergonhar por inteiro, certo de que nada que eu dissesse seria o suficiente ou tão preciso para exprimir a grandeza que ele achava — e sabia — que tinha. Uma palavra mal colocada ou esquecida poderia evocar daquela alma lírica e embevecida, os gran terríveis demônios, aqueles mesmos que se regozijam ante os destinos trágicos e merecidos dos poetas, mesmo os falsos e parcos, e que só enaltecem da aventura humana um único e transcendente sentimento: a inveja!
Fragilizado, pressionado e confuso, com a moleira a ferver e a garganta seca, antes de tremer o lábio, nem sei como, senti meus olhos arderem e, creiam, lagrimejarem.
O rapaz, surpreso, fitou-me os olhos saltados, esticou os lábios, quase maternos, tal qual rede em varanda, e, insílabo, abraçou-me demorosamente enquanto me apertava a lembrança, naquele momento, de perder a hora marcada com a minha oculista.


sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

"Dois Filmes que Recomendo", por João Soares Neto


“Na vida real, a maioria dos atores de cinema é uma decepção.”
Marlene Dietrich, atriz.


Sou ‘cinemeiro’ inveterado. Na telona dos cinemas e na tevê do meu quarto. Nunca fiz curso de cinema, mas pertenci ao Clube de Cinema, na sede da Associação Cearense de Imprensa, ali na Floriano Peixoto com Perboyre e Silva. Darci Costa, meu professor de inglês no Ibeu, era o dirigente. Havia conversas e debates. Eu, muito jovem, ouvia. Curioso, comecei a fazer sofríveis resenhas de filmes aos 15 anos. Estão em diários que, qualquer dia, reencontrarei.
Depois, já adulto e consolidando a vida, resolvi montar, com dificuldade, os Cinemas Benfica. São quatro salas, bem equipadas e que seguem a grade das distribuidoras que mandam. Não há lucro para os cinemas. Os percentuais brutos para as distribuidoras são de 40%, 50% e 60%, dependendo dos critérios que elas mesmas impõem. Além disso, paga-se o ISS, os empregados, os altos custos de energia elétrica e o Ecad, entre outros. Há excessos de meias-entradas e gratuidades. Quando um projetor para, temos de chamar técnicos do Rio ou São Paulo, por avião, remuneração e diárias. É duro.
Por outro lado, já ajudei na produção de alguns curtas, mas nada de tão significativo. Deixo um recado aqui: pretendo fazer, em breve, uma exibição de curtas cearenses. Quem quiser participar, logo anunciaremos e os interessados poderão entrar em contato conosco.
Na verdade, este artigo, além do nariz de cera explicativo, é para dizer de dois filmes que vi recentemente. O primeiro, em reprise. Não me arrependi.
Trata-se de “Gênio Indomável”, de 1997, direção de Gus Van Saint. O então jovem ator Matt Damon, no papel de Will Hunting, membro de turma encrenqueira e sem futuro, descobre-se gênio ao resolver problema de alta matemática, exposto em lousa em corredor do Massachusetts Institute of Technology- MIT. Will era simples prestador de serviços na área de limpeza. O filme vai em crescendo do qual fazem parte Robin Williams, como um psiquiatra viúvo e desencantado, e Stellan Skarsgärd, como notável professor de matemática, detentor do prêmio Fields, uma espécie de Oscar da área.
Não vou dar detalhes, mas me chamou atenção o desencanto de Robin Williams que, na vida real, se concretizou. No geral, o filme mostra que alguém superdotado pode, sem fazer esforço, se destacar e achar isso natural. Há outro fato, esse no campo afetivo. O encontro do rapaz pobre, encrenqueiro e superdotado com uma herdeira rica e preparada estudante da Harvard University. O filme vale à pena.
O outro filme é de 2011. “Intocáveis” é francês. Nada a ver com o seu homônimo americano, com Robert de Niro. É filme sério-alegre, realizado por Olivier Nakache, que também produz o argumento. Embora seja comédia dramática consegue, de forma alegre, mostrar a relação crescente entre um irreverente e improvisado “cuidador senegalês” (Osmar Sy) e um rico e sofisticado tetraplégico francês, interpretado por François Cluzet. Mesmo sendo feito em 2011, deixa claro os guetos em que os imigrantes pobres vivem. Esse fato, além do Estado Islâmico, estão na raiz dos ataques ao semanário Charlie Hebdo e, posteriormente, nos atentados em Paris. Chama a atenção que o filme seja baseado em fatos reais, contado em livro por Philippe Pozzo di Borgo. Foi o filme francês mais rentável em bilheteria e recebeu muitas premiações.
Com estas duas indicações, renovo a esperança de que o polo de cinema do Ceará ultrapasse, não por rivalidade, mas por conteúdo, o já consolidado em Pernambuco.

          

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Abertas as inscrições para o I Salão Latino-Americano de Humor


O Memorial da América Latina, com o apoio da Associação dos Cartunistas do Brasil e do Instituto Memorial das Artes Gráficas do Brasil, realiza no próximo mês de abril o 1º Salão Latino-Americano de Humor. As inscrições para participantes já estão abertas. 
O diferencial de outros salões pelo mundo é que nesse os próprios finalistas da competição vão indicar os vencedores. 
Podem se inscrever desenhistas de humor gráfico (cartuns e caricaturas), profissionais ou não. Cada artista poderá inscrever até três trabalhos com o tema “Sons da América Latina”. Os desenhos não precisam ser inéditos, porém não podem já ter sido premiados em outro evento. 
Os cartuns e caricaturas devem ser enviados até o dia 15 de março de 2016, exclusivamente por inscrição dentro do site do evento - www.salaolatinoamericanodehumor.com. Lá estão disponíveis todas as informações e o regulamento completo. 
No total, 150 trabalhos serão selecionados por um júri capacitado e ficarão expostos no Espaço Gabriel García Márquez, do Memorial da América Latina.

Evento
O 1º Salão Latino-Americano de Humor tem como objetivo desenvolver temas relacionados à música, esporte, literatura, turismo e cultura em geral. 
A primeira edição trará painéis cheios de cores, traços e humores sobre o Tango, a Rumba, o Samba, o Bolero, a Bossa Nova, entre outros ritmos musicais, e seus grandes intérpretes e compositores. 
 A curadoria é de José Alberto Lovetro (JAL), com direção de Gualberto Costa.

Premiação
Os próprios participantes selecionados para a exposição é que votarão e elegerão o melhor cartum ou caricatura do Salão, que receberá uma premiação no valor de R$ 12 mil. A votação será aberta e feita por e-mail. Não será permitido o voto do autor no próprio desenho. Essa é uma experiência inédita nos salões de humor.

Memorial da América Latina - Inaugurado em 18 de março de 1989, o Memorial da América Latina é uma Fundação de direito público, sem fins lucrativos, com o objetivo principal de difundir as manifestações latino-americanas de criatividade e saber, buscando o estreitamento das relações culturais, políticas, econômicas e sociais do Brasil com os demais países da América Latina. Projetado e implantado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, o Memorial está instalado próximo do Centro de São Paulo, no bairro da Barra Funda. O projeto cultural foi idealizado pelo antropólogo e escritor Darcy Ribeiro, que propôs um papel importante: desenvolver no Brasil a consciência da integração e aprofundar a convivência e a amizade dos povos da América Latina. 
José Alberto Lovetro (JAL) - jornalista e cartunista, é o atual presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil. Iniciou sua carreira na Folha de São Paulo em 1973, trabalhando depois para os principais veículos de comunicação do país como o jornal O Estado de São Paulo, TV Cultura, TV Tupi, The Brazilians (EUA), Pasquim, Revista Sem Fronteiras (Holanda/Bélgica), DCI, TV Bandeirantes, TV Gazeta(SP), TV Manchete, Revista Semanário, Rádio Tupi, TV SENAC/SESC entre outros. Organizou mais de 150 exposições e salões de humor além de ser premiado pelo jornal Asahi Shimbun (Japão) como cartunista e ter recebido o prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos por sua atuação na Campanha Diretas Já, em 1984. É criador junto com Gualberto Costa do Troféu HQMIX, o Oscar dos quadrinhos que está em sua 28º edição. 
João Gualberto Costa - arquiteto e diretor de arte é o atual presidente do Instituto Memorial das Artes Gráficas do Brasil. Trabalhou como editor e diretor de arte em diversas editoras como PRESS, EBAL, Meribérica (Portugal) e Revista Bundas (Ziraldo) entre outras. Juntamente com o cartunista JAL escreveu o livro "História do Futebol através dos Cartuns" e “A história da seleção brasileira através das charges”. Foi pioneiro nos Salões de humor ao organizar o segundo Salão Mackenzie de Humor em 1978. Organizou diversas exposições e criou o Troféu HQMIX com o JAL.. Editor de diversas revistas, lançou vários desenhistas que hoje são nomes importantes da área. Foi um dos produtores de documentários de humor gráfico sobre o Pasquim e o Salão Internacional de Humor de Piracicaba pela TV SENAC/SESC e TV Cultura. 

Assessoria de Imprensa

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