segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

"Receita para um Ano Bom", de Pedro Salgueiro para O POVO


Há mais de meio século tento (sem sucesso, claro!) uma fórmula competente para começar bem o ano novo. Desisti faz tempo das antigas listas de desejos, metas impossíveis e promessas mirabolantes, pois nunca cumpri razoavelmente nenhuma; poucos itens foram levados adiante – seja pela falta de forças, ou mesmo por culpa dos ventos (ou espumas) irregulares dos dias que nos surpreendem com novíssimas vontades, imposições prementes...
Entretanto vamos lá novamente arriscando renovar pelo menos as velhas esperanças... Tentarei (inutilmente, bem sei) cuidar um pouco mais da combalida saúde, diminuir uns bons quilos, regrar os excessos de bebidas e comidas e raivas; ler melhores livros, aqueles fundamentais que vamos deixando eternamente de lado tangidos que somos pela brisa fácil das novidades... 
Enfim, mais preocupações de pousos que de voos; de terra que de mar e ar – cousa da idade (ora direis!), que nos vai (ou seria se esvai?) apertando, encantoando-nos nessa antiquíssima sinuca de bico que chamamos simploriamente de velhice. 
Mas deixemos de coisas e cuidemos da vida (pois senão...), procuremos – ora, pois-pois! – as pérolas bem escondidas, aquelas raras, já que pouco tempo teremos pras banais... Porém tenham cuidado (e lá vou eu com os conselhos inúteis!), pois as mais valiosas se encontram frequentemente nos estercos da lida, pelos monturos das velhas amizades de infância, das paixões antigas, dos sonhos perdidos, daqueles medos evitados... 
E vamos, pouco a pouco, buscando desbravar menos os longínquos horizontes; entanto seria prudente cuidar mais do jardim e quintal; melhor tirar boas horas do dia para tanger os ventos que – roseanamente – redemoinham pelos terreiros; depois, então, sentar numa gasta cadeira que já foi do avô, simplesmente olhando, mais e mais, para as tortas unhas dos pés; enfim, espreitar menos espelhos... Fazer menos arrodeios! 
Contudo, se o leitor quiser mesmo começar melhor o ano novo, deve evitar principalmente ler velhos cronistas ranzinzas, desesperançados! Pule direto para os jovens otimistas, moços novidadeiros que adoram (como todos vós, não é mesmo!?) lustrar em público o limpo umbigo.


"Carta para você, jovem, neste começo de 2016", de João Soares Neto


Vista pelos jovens, a vida é um futuro infinitamente longo;
vista pelos idosos, um passado muito breve.”
Shopenhauer(1788-1860)

Sei existir lenda de que o jovem de hoje não lê jornais. Meia verdade. Talvez o leia pouco em papel, mas os jornais têm as suas mídias sociais e tudo fica lá, de forma permanente nos sítios, blogs, face e nas nuvens. Não há mais jornal de ontem. Há escrito não lido, ainda. Este artigo é reproduzido em blogs com qualidade. Essa certeza me faz ciente de que é preciso contar sempre com o jovem para tudo o que é novo.
O ano de 2016 está tinindo de novo. É hora de acabar com essa onda sadomasoquista de não acreditar no Brasil e falar: o jovem não tem futuro. O jovem tem futuro, sim. Desde que se prepare, estude e cumpra as etapas da vida. Ela cobra a cada dia. O maternal – ou a creche ou a casa de parentes – é o primeiro passo para a criança de hoje, com pais lutando para lhe dar melhores condições de vida. Depois, vem a escola, seja pública ou privada. Encare-a como necessária, como uma ginástica para a sua mente. As mentes precisam de informações. Elas, pouco a pouco, se transformam em conhecimento.
E aí chega o Enem, o Exame Nacional de Ensino Médio, nivelando a todos e os desafiando a sair do quadrado existencial onde os hormônios da juventude impõem arritmias, de formas distintas. Nós, os que fizemos vestibulares, tínhamos as mesmas apreensões, mas os que não brincam com as letras, com a memória e com os números, passam.
Não precisa ser gênio, basta não ser dispersivo, anotar o importante e ouvir, sempre. Repare, nós não tínhamos essa ferramenta fabulosa, o computador. Você a tem. E não só isso, sabe usá-la de forma rápida e eficaz.
Nessa fase da vida, é natural fazer parte de uma turma, de um grupo. Mas, não tenha medo de ser careta. Procure saber dos costumes de cada um, dos vícios surgindo do nada e dos convites mais inusitados. A opção é sua, não importa zoarem contra você. Os maiores amigos são seus pais. Não influi, por acaso, se estão separados. Eles amam a você, independente do casamento deles não haver dado certo. A vida não é estrada reta, possui curvas sinuosas, outras mais suaves, há atoleiros. Use a sua cabeça, uma espécie de tração 4X4 ou off Road.
Esta carta não é autoajuda. É apenas uma maneira de dizer que já passei por essas etapas. Ouvi irrisões, bati de frente com boquirrotos, recusei bebidas – além do meu limite – e fiz tudo do meu jeito. Estou aqui para dizer que não tenha medo do ano de 2016. Nós é que fazemos o ano, a partir do que somos e do que desejamos atingir. Não se poupe, dê duro.
A vida não é vitrine de loja atraente. A vida é o caminho que se traça sem alardes, com estudo, com coragem e fé em nós mesmos. Você não precisa ser validado por ninguém. Crie o seu estilo.
Os pais ficam velhos, mas nem sempre são caretas, acredite. Eles são psicólogos diplomados pela dureza do existir. Eles sempre serão os seus melhores amigos, mesmo quando dizem um “não”. Pare, pense e a resposta vem lá de dentro. Pode ser o contrário do desejado, mas use bem o recado da sua razão. 
Vou ficando por aqui e desejo a você, jovem desconhecido: trace rumos próprios e os persiga como se estivesse participando de uma maratona. A vida é uma longa maratona. Ajuste os cadarços. Feliz 2016.


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Exposição Fotográfica “Cartas para Iemanjá”, por Jean dos Anjos (9.1)


Exposição Fotográfica “Cartas para Iemanjá”, por Jean dos Anjos.
Abertura: dia 9 de janeiro de 2016, às 19h.
Local: Espaço do Bem Viver (rua Silva Paulet, 903, Aldeota)

Sobre a Exposição, por Jean dos Anjos

Queridas amigas e queridos amigos.

Escrevo-lhes para dar notícias minhas. E espero notícias de vocês também. Como vão passando? Tenho saudades de vocês. Em 2015 quase não escrevi no blog. Vocês notaram? Estou quase terminando a faculdade. Tenho planos, muitos planos. Vou contando a vocês no decorrer do ano por aqui ou através dos Correios. Como vocês sabem, eu adoro cartas.

E é sobre cartas a minha próxima Exposição Fotográfica. Cartas para Iemanjá é o nome que escolhi. Dialoga com a anterior: O Céu de Iemanjá. Está linda, são oito fotografias escolhidas com muito carinho. As fotografias falam sobre as nossas intenções quando estamos na beira das águas de Iemanjá. Os nossos pensamentos que são lançados ao mar. As imagens falam de destino e destinatária. Falam de relações. E falam de religare, aquilo que liga e une o humano e o divino.

As cartas contém as nossas intenções dentro de envelopes. Ou mesmo um cartão-postal vindo soltinho pelas mãos do carteiro. A gente encontra na caixinha dos correios pregada no muro ou no chão da área de casa. Que sentimentos as cartas provocam em vocês? Vocês ainda recebem cartas? Vocês recebem cartas por e-mail? Enviam cartas de amor (ridículas)? Como vocês têm se relacionado com as pessoas distantes? Apenas pelas redes sociais? Vocês ainda escrevem com caneta e lápis ou apenas digitam no computador? Digam-me.

Eu tenho voltado a escrever cartas, queridos e queridas. Tenho enviado e tenho recebido. Tenho demorado na fila dos Correios. Tenho conversado mais com pessoas desconhecidas. Com a moça da agência, com o carteiro aqui do bairro. As cartas me trazem relações. Elas têm produzido milagres na minha vida, no meu corpo. Tenho sido mais feliz. E é assim que me despeço de vocês. Convidando novamente para ver as cartas em formato de fotografias. Imagens e intenções visíveis e invisíveis. De tantos destinos para a destinatária. Do Ceará à Bahia. As cartas para Iemanjá.

Fortaleza, 4 de janeiro de 2016.




domingo, 3 de janeiro de 2016

"Adriano Espínola: um poeta solar", de Sânzio de Azevedo


Poeta, ensaísta e ficcionista, o cearense Adriano Espínola é autor de uma dezena de livros, sendo cerca de meia dúzia de poemas.
     Neste ano de 2015 ele resolveu reunir o que de melhor havia em quatro desses volumes de poesia, acrescentando-lhes alguns inéditos, e o resultado foi o livro Escritos ao Sol.
     Andou bem o poeta em pôr esse título na obra: com a primeira e a quarta capa amarelas, o livro, publicado pela Record, do Rio de Janeiro, mostra-nos um artista solar, o oposto dos penumbristas, cuja obra floresceu às vésperas do Modernismo. É como se o autor fizesse questão de se dizer filho da região que Gustavo Barroso chamou de “Terra de Sol”.
     Postos em ordem decrescente, os livros são Praia Provisória (2006), Beira-Sol (1997), Trapézio (1985) e Táxi (1986), sendo que os dois últimos quebram a ordem das datas.
     No texto que serve de prefácio ao livro, “O Poeta em movimento”, Eduardo Portella, entre outras coisas, diz: “O poeta, ‘beira-mar/beira-sol’, avança em meio à inconfidência da luminosidade”.
     Evocando famoso soneto de Sá de Miranda, diz o poeta cearense em “Verão”, de Praia Provisória:
                                            O sol é grande.
                                    As aves e a praia, livres.    
                             Tua carne, alegre e ardente.
                            Sim, sobre ela eu lerei todos os livros.

     O poema que dá título ao livro Beira-Sol se inicia com estes três versos de uma beleza plástica:
                                        Nasce da luz solar um pescador.
                                              Sobre uma pedra,
                                           fisga a carne prateada.

     Trapézio é todo de haicais; não na forma consagrada por Bashô, no século XVII, em versos brancos, mas rimados, seguindo a inovação de Guilherme de Almeida, que introduziu rimas nesse poema. Escolho dois do poeta cearense:
                                         Um só fio dela
              − da aranha – se estica e apanha
                                         o sol na janela.
                                  
                                          Pipas no ar, estio.
                             Alguém na praia sustém
                                         o sol por um fio.

     Como, porém, toda regra tem exceção, o poema que fecha o volume, “Táxi ou poema de amor passageiro”, o texto mais famoso do autor, não é tão ostensivamente solar. Mas nos mostra o poeta “bebendo a luz da tarde refletida em caras que nunca mais verei”, falando da “Fortaleza de trezentas mil bocas ardentes como o sol”, ou de “farelos de sol sobre a terra ressequida”, e só. Trata-se de longo poema de notas algo surrealistas e cheio de inventividade incomum.
     Tem o poeta plena consciência do que é a poesia, por isso não alimenta nenhum tipo de preconceito, como ocorria com os modernistas da chamada “fase heroica”, os quais fugiam do soneto, confundindo fôrma com forma. Escritos ao Sol abriga sete sonetos, todos perfeitamente modernos, e compostos em bloco, como os compunha Camões. É o caso de “A Serpente”, “Língua-mar”, “Martim Soares Moreno”, “Matias Beck”, “Silva Paulet”, “O Jangadeiro” e “A Rendeira”. A um olhar menos atento parecerá que todos seguem o esquema do soneto inglês, composto de três quartetos e um dístico, como os compostos por Shakespeare. Isso pelo fato de rimarem entre si os dois versos finais.
     Engano. Com exceção do penúltimo, “O Jangadeiro”, todos apresentam as mesmas rimas nos dois primeiros quartetos.
     Reproduzo um dos mais belos, com esquema rimático em ABBA/ABBA/CDD/CEE. Trata-se de “Língua-mar”, que certa vez vi na TV, declamado por artistas portugueses:

                                A língua em que navego, marinheiro,
                                na proa das vogais e consoantes,
                                é a que me chega em ondas incessantes
                                à praia deste poema aventureiro.
                                É a língua portuguesa, a que primeiro
                                transpôs o abismo e as dores velejantes,
                                no mistério das águas mais distantes
                                e que agora me banha por inteiro.
                                Língua de sol, espuma e maresia,
                                que a nau dos sonhadores-navegantes
                               atravessa a caminho dos instantes,
                               cruzando o Bojador de cada dia.   
                               Ó língua-mar, viajando em todos nós.
                               No teu sal, singra errante a minha voz.

     Diante de um livro como Escritos ao Sol, a vontade que tem o comentador é de transcrever quase o livro todo. Mas só o que foi lido aqui já basta para se conclua que Adriano Espínola é hoje um dos grandes poetas que o Ceará deu ao Brasil. 


sábado, 2 de janeiro de 2016

"Rua do Escritor, Número Tal", por Ana Miranda, para O POVO

Uma das coisas que eu amo em Fortaleza é a quantidade de ruas batizadas com nomes de escritores da prosa ou da poesia, nos meus percursos. São muitas. E ruas importantes.
Ao entrar na cidade, e a todo tempo, tomo a rua Padre Antônio Tomás, nome de um poeta que não quis publicar nenhum livro e ainda assim ficou na história literária; foi o primeiro Príncipe dos Poetas Cearenses e autor de sonetos puros, nítidos, como este:

Muito cedo senti que a poesia
tinha a sua apoteose no soneto.
Eram tempos saudosos em que lia
duas quadras gentis, mais dois tercetos.

Dentre as flores o soneto lembra a rosa,
dentre as joias luzentes, o diamante,
das mulheres, a musa mais formosa,
dos perfumes, o olor inebriante.

Tu, poeta, que buscas nesta hora,
doce pólen, a mítica ambrosia,
acharás no soneto, sem demora,

a pintura e moldura da magia,
o legado dos clássicos de outrora,
a beleza inconsútil da poesia.

O meu posto de gasolina favorito fica na avenida Rui Barbosa, e passo ali lembrando de nosso Águia de Haia, o sujeito mais inteligente deste país, que foi jurista, mas também escritor, filólogo e tradutor. E trafego na que leva o nome do Barão de Studart, o qual, mesmo tendo escrito excelentes livros de geografia, biografia, de medicina, era um brilhante historiador, que nos deixou centenas de textos valiosos sobre a história do Ceará.
Outra rua com nome de escritor é a Domingos Olímpio, da qual pego um trechinho quando vou ao jornal e, quando quebro a esquina, lembro do enigmático romance Luzia-Homem. Paula Ney, o boêmio e eloquente poeta, companheiro de Olavo Bilac, é rua transversal que me leva à casa de amigos, onde costumo ir. Raramente, mas já passei na rua Justiniano de Serpa, poeta da Abolição, nascido no Aquiraz e dono de uma obra poética condoreira, guindada, hiperbólica.
E sempre que saio da cidade passo pela avenida que homenageia Antônio Sales, um dos fundadores da Padaria Espiritual, e, claro, sinto vontade de rir nessa rua engarrafada. Apesar de poeta, Sales ficou mais conhecido por seu único romance, de título profundamente cearense: Aves de arribação. Relendo suas poesias, encontrei esta, que parece ter sido escrita hoje de manhã:

Este país vai todo em polvorosa!
A anarquia por toda parte impera,
a lei sucumbe inerme e dolorosa,
a tirania estúpida prospera.

Da traição medra a planta venenosa,
a semente dos ódios prolifera,
a dilapidação campeia e goza
das vacas gordas a ditosa era...

As eleições são conto de vigário,
couro e cabelo tira-nos o erário,
geme a lavoura, os bancos não têm fundos.

Mas – para consolar-nos deste inferno –
brevemente a mensagem do governo
dirá que estamos no melhor dos mundos.

Voltando do aeroporto para casa, percorro a avenida com o nome de Oliveira Paiva, autor do romance Dona Guidinha do Poço, leitura inesquecível de minha adolescência e que continua me fascinando. Tudo gente do século 19. Mesmo a rua onde moro já se chamou Professor Manoel Albano Amora – mudaram para o nome de um pescador, como ditam os sabores da política. Albano Amora é autor de Crônicas da Província do Ceará, e de livros de geografia sentimental, síntese histórica, e Direito. Passo às vezes na avenida Historiador Raimundo Girão, autor de mais de cinquenta títulos, de história, geografia, ou apontamentos genealógicos. E, pensando bem, nasci num bairro que tem o nome de um livro, o romance de Alencar, Iracema, obra-prima da literatura! De formas que, pelo menos simbolicamente, quando ando por Fortaleza, chego em casa como se tivesse passado o dia numa imensa biblioteca.
Não sei se uma cidade com um grande número de ruas com nomes de padres é uma cidade religiosa, assim como não sei se a nossa é uma cidade literária. Mas Fortaleza quis manter viva a memória de escritores, dando seus nomes a ruas. Parafraseando o mestre Câmara Cascudo, a alma da cidade está na sua toponímia.


quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Votos de um feliz Ano Novo, por Raymundo Netto para seus amigos, colegas e familiares


Não apenas o ano que passou, mas todo os demais percorridos, mesmo aqueles ainda em preto e branco, nem teriam sentido não fosse a necessária existência e/ou presença dos familiares e verdadeiros amigos.
O passar dos dias aligeirados pelos tempos a galope, muitas vezes não nos permite contemplar a beleza das folhas das árvores a cruzar hoje as nossas vistas como nódoa verde e sem vida, assim como silencia o canto dos pássaros e mesmo o das estrelas, que apenas nas nossas memórias mais distantes emitem com seu piscar celestial um cricrido de paz.
Noutros tempos, éramos nós a sentir o brilho do sol num afago de nuvens, a noite esparramando luares, as verdes palmas reverenciando aos ventos assoprados de marés, as areias finas e brancas a calçar-nos os passos alheios à maldade, a incompreensão e às dúvidas. Éramos nós, a sentarmos à mesa e a nos permitir conversas delongadas com sabor de café adocicado de histórias e afetos. Éramos nós, construindo a experiência única de sermos apenas nós.
Em 2016, que deixemos os “éramos” e “sejamos”, que corramos para a vida, para o que ela nos dá de graça – o que fica para sempre, geralmente assim nos chega –, e não nos esqueçamos do outro, esse universo paralelo de sempre desconhecido; sempre presente; sempre necessário. Lembremos: “É impossível ser feliz sozinho”.
Desejo assim, a todos aqueles que compartilham essa minha tela de vida, um ano realmente novo, em desafios, e mesmo quando a derrota ou a tristeza persegui-lo(a), que possa erguer-se novamente, como se adentrasse outro ano e a vida se renovasse na sua própria e próxima respiração.
Com o abraço e a gratidão de Raymundo Netto


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

"Papai Noel com Alzheimer", de Raymundo Netto para O POVO


Papai Noel dá descarga, sai da privada e não lava as mãos. É verdade. Nunca antes havia sabido do bom velhinho ter tais necessidades, mas quem anda em shopping vê de um tudo.
Época culturalmente festiva, o Natal alimenta o comércio, muitas vezes o salvando de prejuízos de um ano inteiro de investimentos com design e campanhas de vendas incompatíveis com a saúde financeira do consumidor ainda programado a “ter que comprar” presentes. Há algum tempo se dizia que bom mesmo era o presente original, preparado artesanalmente, com cheirinho de grude ou cola branca, polvilhado de glitter colorido num pequeno riscado de lápis de cores e canetinha hidrocor. Ora, ninguém tem mais tempo nem ideias para isso. Até os cartões de Natal já vêm com texto prontinho adequado ao freguês. Sentimento, sentimeeento de verdade é duvidoso, embora as famílias ainda se encontrem, cada vez mais numerosas, mais sonolentas, mais glutonas, menos interessantes.
Nas ruas é possível cruzar com pessoas que nos desejam um Feliz Natal, ainda que não nos conheçam, e nós respondemos, ou não, com alguma mesura ou com os mesmos votos, pensando qual o sentido disso tudo ou não pensando em nada completamente, a não ser na nossa rotineira pressa de fazer qualquer coisa da vida, menos viver, pois que nos seria insuportável.
Pessoas cheias de Jesus em seus corações – ou pelo menos cheias na língua – continuam destruindo ou planejando destruir os outros, que não reconhecem como irmãos, mas frutos de uma divina pulada de cerca celestial, tais como os praticantes das religiões africanas, os negros (pobres), os doentes (pobres), os moradores de comunidades (pobres) – para muitos, todos traficantes, drogados e prostitutas – ou em situação de rua (pobres), ciganos, entre outros, além daqueles que não concordam com as suas opiniões ou gostos, seja eles qual forem.
Nunca entendi por que para eu me sentir bem deveria olhar para o meu redor e ver que muitos estão em condição pior do que eu. Essa psicologia de contentar-me com a miséria alheia sempre me foi intragável, assim como sempre afirmei que só os egoístas serão felizes, pois não me sinto no direito de empurrar nos olhos esse colírio desagradável de conforto, enquanto assisto à injustiça, corrupção, descaso, exploração, intolerância, desigualdade e, por que não dizer, de maldade bem vestida (nua jamais) e crua (em forma de sashimi), temperada com presunção e extremo individualismo.
Nas igrejas, as pessoas clamam ridiculamente pela SUA salvação (o mundo que se vire), melhores dias para os seus, a megasena da virada para torrar em viagens ao redor do mundo, em banheiras com torneiras douradas, privadas automáticas, no carro do ano de nunca arrancar os plásticos dos estofados de couro, em silicones, acessórios de luxo e de grife. É uma pobreza espiritual de dar dó e pau em doido, nesse imenso mundo de vendilhões em busca de bons negócios espirituais.
Eu só acreditaria no Natal se Jesus viesse com chicotes arrastando as ovelhas e os bois, despertando a humanidade de sua sonolência salteadora – só existe o rico porque existe o pobre – para a prática da gentileza e da gratuidade, do amor incondicional, do reconhecimento do outro numa enxurrada de empatia e de amor, coisa que não se pratica muito comumente, nem é valorizado por aqui, mesmo por aqueles que os pregam pateticamente em praças, calçadas e ônibus por meio de berrantes aparelhos sonoros de baixa qualidade, de CDs de padres e pastores, esbanjando a sua falta de noção. Aliás, já era tempo do Senac oferecer um curso de “Noção”. O povo precisa e muito.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

"Da Noite pro Dia", com Alan Mendonça e convidados, HOJE

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Espetáculo
Da noite pro dia
de Alan Mendonça
- Celebração de 15 anos de escrevências -
Data e Horário: 14 de dezembro, às 20h
Local: SESC Iracema, Fortaleza/CE
Lançamentos
CDs “Mesmo que seja tarde” e “Do tempo faltando um pedaço”
E do livro “De peixes e aquários (poemas signos)”
Sobre o espetáculo: Celebrando 15 anos de escrevências, o escritor e compositor Alan Mendonça lança os CDs “Mesmo que seja tarde” e “Do tempo faltando um pedaço”, e o livro “De peixes e aquários (poemas signos)”. Os CDs são compilações de músicas suas gravadas por grandes nomes da música cearense e de além fronteiras. No livro, há um ciclo de poemas sobre os signos do zodíaco que ganharam uma versão sinfônica pelo talento de Liduíno Pitombeira. As ilustrações são assinadas por Yuri Yamamoto e o prefácio por Fabiano dos Santos Piúba, Dércio Braúna e Liduíno Pitombeira. Haverá, no hall de entrada do teatro, uma exposição contando sobre momentos marcantes dos 15 anos de escrevências de Alan Mendonça. Participarão, em sons e palavras, artistas como Aparecida Silvino, Mona Gadelha, Marta Aurélia, Ayrton Pessoa, Makito Vieira, Thiago Arrais, Jânio Florêncio, Carlos Hardy, Marcos Paulo Leão, Daniel Sombra, Rodrigo Castro, Felipe Rubens, Joyce Custódio, Lenine Rodrigues, Felipe Breier, Fernando Rosa, Simone Sousa, Andréa Piol, Rafael Torres, Cinco em Ponto, Pingo de Fortaleza, Auri D’yruá, Linda Pedra, Ana Rios, Fernando Leão, Lauriene Marreiro, Henrique Beltrão, Francélio Figueredo, Raymundo Netto, Ivânia Maia, entre outros e outras...

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Para quem acha que conhecia a casa onde nasceu José de Alencar...

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Será aberta domingo (13), às 10h, a exposição Casa de José de Alencar: há 50 anos patrimônio brasileiro, que celebra o cinquentenário do tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) da casa onde nasceu, em 1829, e viveu até os nove anos de idade o romancista cearense José de Alencar.
Em 1964, o então presidente Humberto de Alencar Castelo Branco providenciou a compra do imóvel e de oito hectares ao redor da construção, transferindo para a UFC a administração e a guarda desse patrimônio histórico para ser um equipamento de extensão acadêmica e de incentivo à produção literária.
De caráter permanente, a exposição reúne cerca de 50 peças, entre imagens das décadas de 1910 a 2000 e raridades encontradas na prospecção arqueológica feita nas ruínas do engenho que foi propriedade do senador José Martiniano de Alencar, pai do escritor. Há louças, moedas e artefatos de ferro do início do século XIX.
Entre as fotos expostas estão algumas da antiga casa grande; do antigo engenho (o primeiro movido a vapor do Ceará); da inauguração oficial do equipamento cultural em 1966, com a presença do presidente Castelo Branco e do reitor Antônio Martins Filho; e dos trabalhos da prospecção arqueológica realizada em 2000, por equipe comandada pelo prof. Marcos Albuquerque, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
A exposição, que integra a programação dos 60 anos da UFC, tem curadoria e organização da própria Casa de José de Alencar, com apoio do Memorial da UFC.
EQUIPAMENTO DA UFC – Em 1964, a casa grande do sítio Alagadiço Novo já havia sido demolida e as únicas edificações que restaram foram o pequeno imóvel tombado e as ruínas do engenho do senador José Martiniano.
Atualmente, o sítio Alagadiço Novo é um equipamento cultural pertencente à UFC, que possui, além do patrimônio histórico tombado pelo IPHAN, a Pinacoteca Floriano Teixeira; o museu reunindo as coleções Arthur Ramos (cultura afro-brasileira) e Luiza Ramos (renda de bilros), além de peças de couro, pano, barro, cerâmicas e instrumentos líticos (de pedra); a Biblioteca Braga Montenegro; a Sala Iracema, com 33 desenhos a bico de pena em nanquim feitos por Descartes Gadelha; restaurante; centro de treinamento com salas e auditório, e considerável área verde, onde são realizadas diversas atividades culturais, como o Pic-Nic Literário do Clube da Sivozinha.
A Casa de José de Alencar está localizada na Av. Washington Soares, 6055, em Messejana. Visitas ao acervo do equipamento podem ser feitas de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, e aos sábados e domingos, das 8h às 12h. O Acesso é gratuito. Outras informações são encontradas no site da CJA.


Fonte: Frederico Pontes, diretor da Casa de José de Alencar – fones: 85 3276 2379 e 3229 1898

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

I Festa Literária do Humor Cearense, de 10 a 20 de dezembro, no Museu do Humor Cearense


De 10 a 20 de dezembro de 2015, o Museu do Humor Cearense apresenta a I Festa Literária do Humor Cearense.
Como tema, a homenagem aos 140 anos de Quintino Cunha e os 100 anos do bode Yoyô, além da comemoração do Dia do Palhaço.
A programação é diversa, incluindo lançamento de livros e cordéis, palestras, exibição de filmes e vídeos, espetáculos e brincadeiras infantis, cantorias, recitais de poemas, shows de humor, entre outros. Programação para todas as idades e, de quebra, você poderá conhecer o Teatro Chico Anysio e o maior acervo (incluindo o literário, na biblioteca Professor Raimundo, e peças/curiosidades do próprio Chico) deste que, sem dúvida, é o maior humorista brasileiro de todos os tempos.
Entre as obras a serem lançadas, Crônicas Absurdas de Segunda, de Raymundo Netto, O Genial Quintino Cunha, de Stélio Torquato Lima, Leandro Gomes de Barros: o mestre da literatura de cordel, de Arievaldo Viana, álbum Fortaleza a Pé, de Gerson Linhares, O Teatro de Jorge Ritchie, de Jorge Ritchie, Causos, de Totonho Laprovitera, Paula Ney: o primeiro humorista cearense, de Jader Soares, O Direito de Rir e Vir, de Giovani de Oliveira.
E ainda há espaço para ações não programadas, ou seja, VOCÊ pode se candidatar a fazer parte dessa grande Festa Literária do Humor Cearense. Entre em contato com Jader Soares, curador dessa Festa: (85) 3252.3741/99991.0460.
O Museu se localiza na Av. da Universidade, 2175, Benfica.

Não perca. A programação completa pode ser conferida em museudohumorcearense.com.br