quarta-feira, 5 de novembro de 2014

"Diário de Bordo: Ipanema era (para ser) só felicidade!", de Raymundo Netto


Ao lado de Dorival Caymmi e seu violão.

Cheguei no Rio num sábado à noite, me arranchando num apartamento à Beira Sol de Ipanema, na Visconde de Pirajá, Zona Sul, quase ao lado da praça General Osório, onde, no dia seguinte, pousaria a Feira Hippie de Ipanema, dita como "a maior galeria de artes e artesanato do mundo". Mas não é não, ó! Os expositores me asseguraram que ela acontece todos os domingos, desde 1968, aquele ano que o Zuenir, numa Ventura, não deixou terminar, até repousar finalmente no assento da Pedra do Reino Suassuna.
Após visitar a Feira, perguntar sobre um monte de coisas, bulir em tudo e não comprar nada, caminhei para a praia, a duas quadras, curtindo o sol, o mar e as  suas "garotas", certo de que Ipanema seria "só felicidade, como se o amor doesse em paz" e que ali "mesmo a tristeza da gente seria mais bela". Vejam que a poesia é a coisa mais perfeita do mundo, pois se atreve a fazer de tudo uma lindura, mesmo a fealdade ou a tristeza.
Entreguei-me à praia do Diabo, "vagando na lua deserta do Arpoador". Subi em suas rochas, como Dante, numa trilha estreitíssima, a ver o horizonte brilhar de azul enquanto na fronte recebia os estilhaços de ondas quebradas com a violência de uma natureza desesperançada.


Lá embaixo, cansado de esperar, Millôr Fernandes. Lembrou-me ele, que em 1948, Erna Miriam Etz Kaufmann (1914-2010), uma estilista e pintora alemã que vivia no Brasil, escolheu aquela praia para apresentar aos quadradistas nativos, pela primeira vez, o biquíni (na verdade, era um maiô de duas peças que confeccionara).


Caminhei e caminhei, invisível, num calçadão interminável de pedras portuguesas onduladas com cara de novela das oito, cada compasso uma volta de catraca, uma pernada, um movimento radical de skate, até esbarrar com a "Princesinha do Mar". Coisa musical aquilo ali. O vento sussurra que nem João Gilberto e eu não podia ver ninguém com chapéu Panamá assobiando para passarinhos que logo pensava: é o Tom?
Entrei no Forte de Copacabana, construído em 1918, repleto de famílias domingueiras, a beber cerveja gelada da Colombo genérica. O sol estalava no mar, faiscando no verde e no dorso na morena. Visitei o Museu do Forte e as suas exposições. Sentei-me nos bancos, tirei fotos, ouvia as conversas, puxava outras.


Ao sair de lá encontrei o Dorival Caymmi, próximo ao Posto 6. Acho que ficou feliz em me ver. Pediu-me uma canja, mas eu não acho que seja doce morrer no mar e vazei, sentando ao lado de Drummond e lhe perguntando, afinal, o porquê de Raimundo morrer de desastre  em sua "Quadrilha". O entregasse à Teresa ou à Maria, a troco do amor que se leva ou daquele que se tem...

Ao final da tarde, após emburacar numa lan-house ruim para bater um ponto virtual por umas descuidosas horas, regressei ao Arpoador para assistir ao seu famoso pôr do sol, que chegaria, por trás dos dois irmãos, naquele dia, mais tarde, numa hora transgênica de verão.
As pessoas todas, até as criancinhas de chupetões se juntavam, paravam, soltavam bicicletas, skates e pranchas, sentavam no calçadão e lançavam o olhar, como iscas, na direção do alaranjado céu. Era como se a vida pedisse licença ao tempo para se fazer ouvir.

Encerro a leitura do celular e o pensamento rebusca: "É mesmo impossível ir ao Arpoador e não ver o mar."





Programação II Jornada Literária "100 anos de Moreira Campos" (07.11)


Programação II Jornada Literária
"100 anos de Moreira Campos"

Data:  7 de novembro de 2014
Horário: 9 às 16h
Local: Auditório José Albano da UFC.

9h - Abertura: Leitura expressiva de textos de Moreira Campos.
9h15h - “Quem conta o conto de Moreira Campos?”, com Prof. Dr. José Leite de Oliveira Júnior (UFC).
10 às 11h - Sessão de Comunicação
“A porta da percepção: cultura e sociedade na crônica de Moreira Campos”, com Prof. Me.Francisco Carlos Carvalho da Silva (FECLESC - UECE);
“Amor, vida e morte nas narrativas de Dizem que os cães veem coisas, de Moreira Campos.”, com Profª. Geórgia Gardênia Brito Cavalcante Carvalho (FECLESC – UECE);
“O cotidiano fatídico na narrativa de Moreira Campos” (UFC), com Profª. Juliane de Sousa Elesbão (Mestranda em Literatura Comparada UFC).
15h - Leitura expressiva de textos de Moreira Campos.
15h15 - “Proposta de edição crítico-genética do conto 'Os estranhos mendigos', de Moreira Campos”, com Profª. Elisabete Sampaio Alencar Lima (Doutoranda em Crítica Genética/UFBA).
16h - “A crítica por Moreira Campos”, com Profª. Drª. Odalice de Castro Silva (UFC)
16h30 - Exibição e comentário do curta metragem de um dos contos de Moreira Campos, com Prof. Me. Charles Ribeiro Pinheiro.

Leitura recomendada dos contos a seguir:
O peregrino;
A carta;
Os doze parafusos;
O grande medo;

Os estranhos mendigos.

Show-Lançamento de "No Ar, um Poeta", de Henrique Beltrão, na ADUFC (7.11)

Clique na imagem para ampliar!

Lançamento do livro 
No Ar, um Poeta
do radialista, poeta e
compositor Henrique Beltrão.
Sexta-feira, dia 7 de novembro, às 19h, na Adufc
(Av. da Universidade, 2346, Benfica)
Apresentação poético-musical de Henrique Beltrão, Pingo de Fortaleza,
Jord Guedes, Lorena Nunes, Calé Alencar, Wilton Matos, Rogério Franco, 
Marcelo Kaczan, Paulo Branco, Rafael Lima e Rodrigo BZ.

AlmanaCULTURA IN Dica: "Tim Maia: não há nada igual", nos cinemas


Cinema Del Paseo, "Tim Maia: não há nada igual", sessão das 21 horas, sala com 170 poltronas. Dois casais, EU e um grande pacote de M&M's de amendoim. Um vazio imenso que seria ocupado em logo pela trajetória astroheroica de Sebastião Maia, o Tim Maia, brasileiro da Tijuca.
O filme, ficção baseada no livro biográfico de Nelson Motta, Vale Tudo: o som e a fúria de Tim Maia, tem mais pecados que o próprio Tim, urdido em seu Universo em Desencanto, mas vale pela lembrança, pela tentativa de reconstrução e pelo zelo em algumas reproduções (apesar da dificuldade de situarmo-nos no tempo e a desbastação da trajetória de seus anos finais), pela cenografia, figurino, interpretação e pela seleção musical. Ao final, emociona!
O narrador-personagem, uma espécie de mix condensado de seus amigos, se refere ao cantor/compositor, um dos, se não for "o", introdutores do soul na MPB,  como "gênio" e "genialidade" pelo menos três vezes no filme, o que é próprio da paixão da convivência e proximidade com seu objeto de pesquisa. Não acho que chegue a tanto. Aliás, na minha opinião, o Tim é até responsável em destruir, em suas releituras, algumas músicas maravilhosas.
Também acho que houve uma pequena vingança contra o Roberto Carlos, ex-integrante da banda Sputniks, da qual ambos faziam parte, mas também responsável em tirar Tim Maia da escuridão com a gravação de sua música "Não vou Ficar", em 1969, cuja versão apresentada no filme é ridícula, a pior que já ouvi na vida, ao contrário da original, gravada pelo Roberto.
Adorei ter assistido ao filme, que deve ser curtido até o fim, ao som da boa música que o polêmico síndico provoca. Afinal, tudo um dia tem um fim... e acaba!

Trailer Oficial do Filme "Tim Maia"

                                      Para ouvir o clássico "Você", de Tim Maia

De repente a dor
De esperar terminou
E o amor veio enfim
Eu que sempre sonhei
Mas não acreditei
Muito em mim
Vi o tempo passar
O inverno chegar
Outra vez
Mas desta vez
Todo pranto sumiu
Um encanto surgiu
Meu amor
Você
É mais do que sei
É mais que pensei
É mais que esperava, Baby
Você
É algo assim
É tudo pra mim
É como eu sonhava, Baby
Sou feliz agora
Não, não vá embora, não
Não não vá embora
Vou morrer de saudade
Vou morrer de saudade
Não vá embora
Não vá

Para assistir à entrevista do Tim Maia no Jô Soares em 1997,
um ano antes de seu falecimento


https://www.youtube.com/watch?v=qL22kjEwn0k

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Rádio AlmanaCULTURA: "Oração ao Tempo", de Caetano Veloso na voz de Maria Bethânia


Para ouvir e assistir ao vídeo com Maria Bethânia:

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo, tempo, tempo, tempo
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Entro num acordo contigo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo, tempo, tempo, tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo, tempo, tempo, tempo
Quando o tempo for propício
Tempo, tempo, tempo, tempo
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo, tempo, tempo, tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo, tempo, tempo, tempo
O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo, tempo, tempo, tempo
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, tempo, tempo, tempo
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Portanto, peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo, tempo, tempo, tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo, tempo, tempo, tempo

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

"Diário de Bordo: O Passeio Público do Rio de Janeiro", por Raymundo Netto

Frontispício do Passeio Público

"Quando estiverdes de bom humor e numa excelente disposição de espírito, aproveitai uma dessas belas tardes de verão como tem feito nos últimos dias, e ide passar algumas horas no Passeio Público, onde ao menos gozareis a sombra das árvores e um ar puro e fresco, e estareis livres da poeira e do incômodo rodar dos ônibus e das carroças.
Talvez que, contemplando aquelas velhas e toscas alamedas com suas grades quebradas e suas árvores mirradas e carcomidas, e vendo o descuido e a negligência que reina em tudo isto, vos acudam ao espírito as mesmas reflexões que me assaltaram a mim e a um amigo meu, que há cerca de um ano teve a habilidade de transformar em uma semana uma tarde no Passeio público."

Foi ouvindo a voz do conterrâneo José de Alencar (Ao Correr da Pena, Rio de Janeiro, em 29 de outubro de 1855), ecoada numa memória distante de minha juventude, é que flanei, a "tomar fresco", como bom francês que não sou, pelos caminhos possíveis do Passeio Público carioca.
Desci ali, a caminho da Cinelândia, por engano. O reconheci, então, no meio das ruas turbinadas, próximo a uma grande estátua de Mahatma Gandhi, e perguntei a quatro ou cinco pessoas: "É o Passeio Público?" As pessoas olhavam umas para outras, davam de ombros, diziam que era uma praça, sabiam lá o que era isso de Passeio Público...
Mas era, era sim, o Passeio, conforme alguns, "o primeiro parque público das Américas" (século XVIII), localizado onde era a antiga e aterrada Lagoa do Boqueirão da Ajuda, e um dos locais preferidos do Alencar, vez ou outra comentado em suas famosas crônicas, onde costumava ir às noites "peripatético", como se dizia , admirar os lampiões à gás e as estrelas por sobre as árvores tão antigas.


Atravessei seu lindo portão, em ferro e estilo rococó, encimado pelo brasão das armas reais e as efígies de Maria I e D. Pedro III, de Portugal.
O projeto do Passeio, construído entre 1779 e 1783 naquele tempo, havia um belvedere/terraço onde se tinha visão para o mar da Baía de Guanabara, que acabou pegando o metrô do aterro sucessivo e escapuliu , coube ao mestre Valentim da Fonseca e Silva que, além de arquiteto era escultor. Em 1864, o imperador D. Pedro II pediu a Auguste Glaziou, paisagista francês, que realizasse uma reforma, o que alterou a paisagem natural, conferindo-lhe um ar romântico de jardim inglês, preservando, entretanto, alguns de seus elementos arquitetônicos originais.
No início do século XX, em 1904, implantaram um aquário público, sob os cuidados do naturalista Alípio de Miranda Ribeiro, que acabou por água abaixo, como parece ser o destino deles mesmo desde sempre.
Nos anos 20, do século XX, havia ali duas casas de espetáculo (e não de jogos, como pode parecer pelas denominações): Theatro Cassino e Cassino Beira-Mar. Na verdade, havia dancing, salões de festa e de chá, apresentações teatrais e, segundo dizem, chegaram a ser cenário de filme. Foram demolidas, ambas, no início dos anos 30. Suas fundações foram reveladas em prospecção arqueológica realizada no local no início do século XXI, sendo recobertas a fim de serem preservadas para o futuro.
Em 2004, uma reforma da Prefeitura, orientada pelo IPHAN, tentou devolver-lhe os aspectos do passado, restaurando alguns passos do mestre Valentim, como o Chafariz dos Jacarés, também chamada de Fonte dos Amores (tanque de cantaria e peças fundidas em bronze pelo mestre, sendo a primeira obra em bronze fundida no Brasil. Estudiosos também afirmam que essa foi a primeira tentativa de nacionalização da arte brasileira, utilizando-se de animais de nossa fauna. O escritor Joaquim Manuel de Macedo diz que até 1806 havia um coqueiro de ferro que presenciou sair dali destruído, e, em 1906, as garças que compunham a fonte foram transferidas para o Memorial Mestre Valentim) e dois obeliscos/pirâmides, em granito, como "agulhas", com medalhões em pedra lioz (onde se lê "À Saudade do Rio" e "Ao Amor do Público"), também destacados na crônica de Alencar: "As árvores ainda estão muito maltratadas; os dois tanques naturais sobre os quais se elevam as duas agulhas de pedra estão tão bem fingidos que são naturais demais; pelo menos, têm lodo e limo como qualquer charneca de pântano. A arte deve imitar a natureza, mas nem tanto. Há também uma palhoça a um dos lados do passeio, que, a não estar ali como coisa exótica, não lhe compreendo a utilidade. Não digo que a deitem abaixo como uma parasita; mas é bom cuidar em fazê-la seguir o destino das coisas velhas e feias."

Ao lado da "Fonte dos Amores"/"Chafariz dos Jacarés"

De cara, fui encontrando velhos conhecidos, Olavo Bilac, Castro Alves, Pedro Américo, Gonçalves Dias, Alberto Nepomuceno e Chiquinha Gonzaga, dentre outros, o que me conferia um alento à caminhada não mais solitária, pintada de pequenos quiosques maltratados, combustores e alamedas belíssimas, um cenário botânico impressionante e uma aura de decadência elegante, por mim, familiar. Conhecia tudo aquilo da voz de Alencar, de Macedo, do Agassiz, do Bentinho (em Dom Casmurro)...  eles faziam parte dessa história e isso era tudo!
Alberto Nepomuceno


domingo, 2 de novembro de 2014

Diário de Bordo: Casa de Cultura Laura Alvim, por Raymundo Netto


Estando em Ipanema, após uma semana de imersão nas Minas Gerais, bateu-me aquela saudade do cinema, meu maior companheiro das horas mortas.
Foi quando o Adriano Espínola, amigo, poeta e anfitrião, me disse que ali perto, a duas quadras, havia o Casa de Cultura Laura Alvim, aquela mesma casa da qual, há anos, eu recebia material de estudo sobre animação, durante minha passagem-experiência no mundo do cinema.
A Casa, construída em 1906 e 1913 pelo médico Álvaro Alvim, foi doada ao Governo do Estado do Rio de Janeiro em 1983, seis meses antes da morte daquela que lhe emprestou o nome, que "sonhou" a casa, nunca casou nem teve filhos.


Laura Alvim (1902-1983) queria ser atriz, mas a família nunca aceitou. Para reduzir a frustração, transformou a casa num ponto de encontro de artistas da vanguarda carioca, construindo palcos, convidando artistas para encenar e/ou declamar, promovia festas com a participação de artistas veteranos e jovens, dentre os quais Tônia Carreiro, Fernanda Montenegro, Camila Amado, Bibi Ferreira e o grupo "Asdrúbal Trouxe o Trombone" (Regina Casé, Hamilton Vaz Pereira, Luiz Fernando Guimarães, Patrícia Travassos, Evandro Mesquita, dentre outros). Na Casa, porém, uma exigência: Laura fazia questão de assistir a tudo.
A Casa de Cultura, à beira-mar, na Vieira Souto, atualmente conta com dois teatros (Laura Alvim e Rogério Cardoso), três salas de cinema, galeria de arte, Centro de Artes Ângelo Agostini (em homenagem ao seu avô, pioneiro dos quadrinhos no Brasil, e destinado para cursos de teatro, grafite, quadrinhos etc.), livraria, café e um museu.
Chegando lá, assisti ao filme "O Grande Hotel Budapeste" na última fileira, poltrona numerada, de um sala de 30 lugares (ocupada por 6 pessoas, mas assistida por 5, pois meu colega de fileira fingia-se de papel de parede que ronca...).
Era uma comédia, cujos protagonistas são Ralph Fiennes, F. Murray Abraham e o jovem Tony Revolori. Durante o filme (cenografia perfeita), aparentemente despretensioso e com um colorido fantástico, o desfile de um elenco de luxo: Willem Dafoe, Jude Law, Harvey Keitel, Jeff Goldblum, Edward Norton, Bill Murray, Owen Wilson, entre outros.

Assista ao filme, se um dia ele aportar por aqui, mas se for ao Rio, conheça a Casa de Cultura Laura Alvim.

"Nordestinos: preconceitos cruzados", de Plínio Bortolotti para O POVO


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Certa vez, conversando com um grande empresário cearense do ramo de alimentos, ouvi dele uma história exemplar. Quando começou a mandar seus produtos para o sul, ele retirou da embalagem qualquer marca que pudesse identificar a fabricação nordestina, inclusive omitindo o endereço completo da empresa. Como na época era permitido, ele omitia os dados completos da localização da fábrica, anotando o seguinte endereço na embalagem: “BR 116, km tal”, sem enunciar o nome da cidade.
Como poucos sabem o modo como uma rodovia é demarcada, ficava mascarado o exato local da sede da empresa. Foi a forma encontrada para driblar o preconceito contra produtos fabricados no Nordeste. O mais irônico, contou, acontecia em recepções das quais participava: era comum ouvir elogios de “madames” ao produto, considerando-o “delicioso”, em comparação com a “má qualidade” do que era fabricado no Ceará. O empresário, silenciosamente, divertia-se: “Mal sabiam elas que comiam o que era feito aqui bem pertinho”.
Lembrei da história devido à onda de preconceito que assomou com mais vigor depois da reeleição de Dilma Rousseff (PT) à presidência. “Burro” foi a mais gentil ofensa com a qual os nordestinos foram brindados – a escala passava por xingamentos diversos, chegando ao ponto de preconizar um holocausto contra a “raça”. Observem: há uma cerca simbólica (se pudessem muitos a fariam real) de Minas Gerais para cima em que tudo se torna indistinto e abominável. Para esse tipo de gente todos os nordestinos são “burros”; vagabundos, que preferem uma rede ao trabalho; e vivem dolentemente às expensas da riqueza gerada por São Paulo: “Non ducor duco” (não sou conduzido, conduzo) está inscrito brasão da capital paulista.
São Paulo é apenas, digamos assim, um símbolo, dessa má ideia, que encontra adeptos nos demais estados do Sul e Sudeste. Não é por acaso que todo migrante nordestino, chegando a São Paulo, não importa a origem, vira imediatamente “Ceará”; se cair no Rio de Janeiro, é “Paraíba”.
Desditosamente, como podemos observar pela história do empresário, esse preconceito encontra guarida entre os próprios nordestinos, não sei se campeia entre as outras classes, ou apenas entre a “elite”. Assim, o preconceito tem uma espécie de efeito dominó: o Sul/Sudeste tem preconceito contra o nordestinos de modo geral e, estes (normalmente os privilegiados) têm seus próprios “nordestinos”: os pobres, aqueles que vivem nos interiores, no “sertão”.

O que é, senão isso, o ódio contra o Bolsa Família que desaguou em uma “leva de preguiçosas” que não aceita mais trabalhar na casa da madame a troco de um quartinho insalubre e um salário miserável? O que é senão a revolta do sinhozinho contra o trabalhador rural que não se deixa mais escravizar? O que isso senão a ironia contra o pedreiro que fica “botando banca”, sem aceitar uma diária que mal dá para pagar a quentinha e a passagem do ônibus?

sábado, 1 de novembro de 2014

Rádio AlmanaCULTURA: "Paloma Negra", com Lila Downs, em homenagem à Frida Khalo


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e no link para ouvir e assistir ao vídeo



"Paloma Negra", com Lila Downs, em homenagem à Frida Khalo (1907-1954)
("Amurallar el propio sufrimiento es arriesgarte a que te devore desde el interior."), 
desenhista e pintora mexicana nascida em una Casa Azul, em Coyoacán
("Lugar de Coiotes").
Embora seja considerada uma surrealista, nunca aceitou-se assim, pois dizia que o que pareciam aos outros ser "sonhos", era, no entanto, a sua "realidade".

Mulher forte e singular que merece uma visita sua.



Ya me canso de llorar y no amanece.
Ya no sé si maldecirte o por ti rezar.
Tengo miedo de buscarte y de encontrarte,
Donde me aseguran tus amigos que te vas.
Hay momentos en que quisiera mejor rajarme
Arrancarme ya los clavos de mi penar,
Pero mis ojos se mueren sin mirar tus ojos
Y mi cariño con la aurora te vuelve a esperar.

Y agarraste por tu cuenta la parranda.
Paloma negra, paloma negra, dónde, dónde andarás?
Ya no jueges con mi honra, parrandera,
Si tus caricias han de ser mías, de nadie más.

Y aunque te ame con locura ya no vuelvas,
Paloma negra, eres la reja de un penar.
Quiero ser libre, vivir mi vida con quien yo quiera.
Dios, dame fuerza que me estoy muriendo por irla a
buscar.

Y agarraste por tu cuenta las parrandas.


AlmanaCULTURA SUPER IN Dica: "O Lugar Escuro", na Caixa Cultural (até 2 de novembro)


Isabella, Camilla e Clarice
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"Aquele foi o instante da explosão, o marco zero. Pela primeira vez, minha mãe falava a linguagem dos loucos — daqueles que enxergam o que não há. Dali em diante, cairíamos — minha mãe e todos que estávamos à sua volta — em uma espiral assombrada, feita de vertigem e dor, que giraria cada vez mais rápido, apagando o real."

Esse é um dos primeiros trechos do autobiográfico livro O Lugar Escuro: uma história de senilidade e loucura (Objetiva), de Heloisa Seixas, que versa sobre uma família, composta de três personagens, mãe (79), filha (49) e neta (22), que têm que conviver com a doença (Alzheimer) da avó. Aliás, bom sabermos que a Academia Brasileira de Neurologia já prevê que, com o crescimento da população com mais de 60 anos no país, a doença degenerativa conhecida como Mal de Alzheimer se tornará um problema de saúde pública. Atualmente, são mais de 20 milhões de casos no mundo.
Voltando, na sexta-feira, dia 31 de outubro, fui ao teatro da Caixa Cultural (antiga Alfândega Av. Pessoa Anta, 287, Praia de Iracema) para assistir à peça "Lugar Escuro" interpretada por Camilla Amado, Clarice Niskier e Isabela Dionísio.

André Paes Leme, diretor da peça, a traduz como um "corajoso depoimento de Heloisa Seixas [...] uma potente luz colocada sobre as inesperadas e delicadas experiências da vida [...]

E é mesmo! Uma interpretação fantástica e tocante sobre um tema de família, relações interpessoais, medo, inveja, orgulho, abandono, solidão e perdas. Cenografia, luz, som, tudo perfeito, enquanto um pensamento se esvai para um lugar escuro, cantando uma melodia de Chopin, com doçura, em busca da memória, da compreensão, da casa... qual casa?

"Sete oito nove dez"; "Sete oito nove dez";"Seteoitonovedez"
"O escritor é um condenado... "alma exposta em praça pública" [...] e "ele foi embora"... "foi embora!" e "só não enlouqueceu pois colocou as suas histórias no papel".

Um texto bem escrito, fluente, bem expresso e inteligente. Adorei ter ido assisti-lo e aconselho a todos que gostam do que lhes é humano.

Quem tiver velhinhos na família, pode ser uma boa também, principalmente para aqueles que não aceitam a doença. Tudo é um processo e você tem que se encontrar para entender.

A peça está em cartaz até o dia 2 de novembro, sendo que no sábado, dia 1º, às 20 h (com direito ao final da peça de um bate-papo com a autora Heloisa Seixas), e no dia 2, às 17h e às 19h30.

Vão por mim: é imperdível! Convidem seus amigos e familiares!