sábado, 19 de novembro de 2011

"Nossa História, Nossos Autores", antologia da Scortecci, abertas inscrições


Antologia de Poesias, Contos e Crônicas
Nossa História, Nossos Autores
Edição Comemorativa dos 30 Anos da Scortecci

Estão abertas as inscrições de participação na Antologia Nossa História, Nossos Autores - Edição Comemorativa dos 30 anos da Scortecci.

Participação:
200 (duzentas) vagas, em dois volumes, com até 400 páginas cada, ou a data limite de 30 de novembro de 2011, o que completar ou atingir primeiro.

Características da obra:
Formato 14 x 20,7 cm, capa 4 cores (papel supremo 250 gramas), miolo papel 75 gramas offset branco, com ISBN e Ficha Catalográfica.

Regulamento:

A antologia será editada em ordem alfabética por nome de Autor, que poderá usar ou não nome literário.
O tema é livre. Não há obrigatoriedade de ser inédito. Não é concurso e todos os participantes terão seus trabalhos publicados.
Poderão participar escritores residentes ou não no Brasil. Os trabalhos deverão ser em língua portuguesa (de acordo com a nova ortografia), o que não impede o uso de termos estrangeiros no texto.
O Autor poderá participar com poesias, contos e crônicas, desde que o número de páginas não ultrapasse o limite máximo de 4 (quatro) páginas. O número mínimo é de 2 (duas) páginas.
Na página de abertura de identificação de cada Autor constará uma mini-biografia de no máximo 8 (oito) linhas, com aproximadamente 500 caracteres.

Taxa de Participação:
02 páginas - Preço R$ 300,00 - 2 parcelas de R$ 150,00 - 10 exemplares
03 páginas - Preço R$ 450,00 - 3 parcelas de R$ 150,00 - 15 exemplares
04 páginas - Preço R$ 600,00 - 4 parcelas de R$ 150,00 - 20 exemplares
Cada autor receberá 5 (cinco) exemplares da obra por página.

Forma de Pagamento:
Boletos bancários conforme o número de parcelas.
A Scortecci fará uma pré-diagramação do material enviado e enviará orçamento para aprovação e posterior emissão dos boletos. Não haverá reserva de vagas. Não haverá cessão de direitos autorais, ou seja, os trabalhos continuarão pertencendo a seus autores.
Os Autores responderão sobre plágio, publicação não autorizada, calúnia, difamação ou não autoria da obra, isentando a Scortecci Editora de crime de direito autoral.
Cada Autor receberá por e-mail, para revisão, cópia da composição de seus trabalhos que, uma vez revisados, deverão ser assinados, datados e liberados para impressão. Os textos não devolvidos no prazo estipulado serão impressos conforme cópia do arquivo digital postado no ato da inscrição.
Autores de São Paulo (capital) e Grande São Paulo deverão retirar seus livros de direito na editora após o lançamento, no prazo de até 30 dias.
Autores do interior de São Paulo e outros estados receberão seus exemplares pelo correio, via encomenda normal (PAC), no endereço indicado na ficha de inscrição, no prazo de até 30 dias do lançamento.
Autores residentes fora do Brasil deverão fornecer um endereço no Brasil para recebimento dos livros prontos. Não serão enviados livros para o exterior.

Inscrições somente pela Internet (saber mais detalhes no site da Editora).

 A antologia será lançada em São Paulo, capital, no mês de agosto de 2012, no estande da Scortecci, durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo.
Os Autores inscritos poderão ou não participar do evento de lançamento da obra. Para os interessados na seção de autógrafos, a Scortecci providenciará convites, ingresso e e-mail marketing para divulgação.
Ao fazer sua inscrição, o Autor estará de acordo com todas as regras e valores deste regulamento de participação.

Sobre a Scortecci:
A Scortecci nasceu em agosto de 1982, uma sexta-feira 13, na Galeria Pinheiros, loja 13, na Rua Teodoro Sampaio, em São Paulo, Capital. Edita, imprime e comercializa livros em pequenas tiragens. Possui gráfica própria, livraria, três selos editoriais (Scortecci, Fábrica de Livros e Pingo de Letra) e mais de 50 colaboradores. Em sua história, conserva os mesmos objetivos e propósitos desde a sua fundação: publicar livros, organizar concursos e prêmios literários, realizar recitais e eventos culturais, organizar antologias, promover o conhecimento através de cursos e palestras e fomentar o mundo literário e cultural. Ao longo de sua existência, a Scortecci foi laureada com os mais importantes prêmios literários brasileiros: Jabuti, APCA, ABL e FBN. A sua história está sendo escrita pelos seus autores e suas obras. Razão e essência de sua existência.

Mais informações:
scortecci30anos@scortecci.com.br
Telefones: (11) 3032.1179

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Leitura Mundial de obras do Heinrich von Kleist no Armazém da Cultura



A Casa de Cultura Alemã/UFC e o Armazém da Cultura participarão na leitura mundial de obras do autor Heinrich von Kleist (Frankfurt an der Oder, 18 de Outubro de 1777 – Berlim-Wannsee, 21 de novembro de 1811), que cometeu suicídio aos 34 anos de idade.

Local: Armazém da Cultura (Rua Jorge da Rocha, 154, Aldeota, Fortaleza)
Data: 21 de novembro de 2011
Horário: 16 às 19 h
A leitura em Fortaleza conta com os seguintes representantes:
Artistas do Teatro Máquina, Fortaleza sob a direção de Fran Teixeira
Maria Rejane Reinaldo, pesquisadora da UFBA
Tiago Moreira Fortes, ator e professor no Curso de Licenciatura em Teatro – UFC

Certificado: 4 horas/aula
Inscrições solicitadas: cca@ufc.br e 3366 7643

Importante: devido ao prazo exíguo, será possível também a inscrição no local.


Sobre o Evento: O Festival Internacional de Literatura de Berlim (Internationales Literaturfestival Berlin) e a Sociedade Heinrich von Kleist (Heinrich-von-Kleist-Gesellschaft) incentivaram essa leitura no mundo inteiro com obras deste escritor importante. Atualmente constam 137 cidades no mapa do mundo que participarão do projeto, mais detalhes: http://www.heinrich-von-kleist.org/wwrd/

Sobre von Kleist: Hoje, Heinrich von Kleist é visto como uma figura moderna que, na virada do século 1800, vivenciou as mudanças políticas e sociais da Alemanha e, apesar de ser oriundo de uma família de nobres sempre teve condições de vida muito instáveis. A partir das crises vivenciadas ele desenvolveu as suas ideias e os seus projetos de vida que sempre foram revistos e renovados.

O pensamento de reformar as sociedade e os seus experimentos literários andam paralelamente. Já com 15 anos ele entra no exército prussiano e sai dele quando acabou de adquirir o grau de tenente. Ele cursa filosofia, física, matemática e ciências do estado na sua cidade natal Frankfurt (Oder) e se interessa durante a sua vida toda por técnica, educação e administração.

Kleist foi um nômade, teve várias residências, e durante a sua vida viajou. Nas suas obras narrativas literárias e no teatro ele se destaca por seus antagonismos, tanto na representação das relações humanas e do seu fracasso como também no seu desejo da criação radical de formas. Os protagonistas do Kleist não refletem, não são ensimesmados, eles agem e fracassam na realidade e, até hoje, isso torna atraente as obras de Kleist para os seus leitores no mundo inteiro.

Kleist foi versátil em muitas áreas e compulsivo, ele desejava a felicidade e mantinha um ideal que consistia na sua realização como escritor autônomo, e isso o incentivou. Ele almejava a fama que durante a vida não obteve, como também desejava um ponto fixo na sua vida que apenas encontrou numa “alegria indizível” no seu suicídio encenado.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

"Domingo", de Raymundo Netto para o Vida & Arte de O POVO (16.11)



Domingo. Onze horas. Como se marcada hora, barulhentos, acabavam de chegar. Enfileiravam-se à grade branca entreaberta por saudações breves, tomadas de rostos, beijos vãos. As netinhas em cabelos de rabos de cavalos, à frente e com solicitação do pai, apresentavam as bonecas, imediatamente esquecidas diante da tevê na sala.

Os filhos, genros e noras, à cozinha, traziam nos olhos indisfarçáveis traços da preguiça ou da curtida noite alta. Colhiam jornais e a correspondência desviada, cumprimentavam o pai a levantar sorridente da cama — sem omitir saudades — e a mãe a empunhar flores do quintal; puxavam os bancos para o oitão — área mais ventilada — enquanto outros vasculhavam a geladeira em busca das guloseimas que lá já não estavam desde a meninice.

Hora do almoço! Todos tomavam seus lugares, os mesmos e respeitados lugares, pequenas hierarquias. O avô se deliciava à larga cabeceira da mesa de pinho feita à encomenda para caber a família. A avó não sentava enquanto todos não estivessem fartos.

Uma mulher, por trás do balcão americano, com olhos postos à pia no manejo da asa de uma caneca tomada em sabão, ouvia tudo, sabia de tudo, analisava-os, percebia-lhes as mentiras, as vaidades, a disputa entre irmãos pelo amor filial, e assim costumavam seus domingos: fazer o almoço, os pratos de um e de outro, mais pratos, a sobremesa com um doce especial, a correria da criançada a pedir-lhe tudo, sem reconhecê-la nunca, sequer chamar-lhe o nome, e outros pratos. Depois disso, só solidão e silêncio. Notava-se velha e acabada. Não dava mais conta. Sabia-se apenas para servir. E só!

Num domingo diferente, postou-se à cabeceira por trás do avô. Pediu as falas com um sorriso quase terno, a espanar no ar o pano de prato. Na voz rouca e analfabeta desalinhou segredo: pôs veneno! Daquele macarrão tradicional de família, tudo acabaria ali e agora. Pronto era só isso. Desculpassem, mas não ‘guentava mais.

O jovem pai despertou. Correu desesperado por um corredor de soluços, vômitos e gritarias sufocadas em busca das filhas. Na sala, suas menininhas, felizes, limpavam com o bracinho rechonchudo o sorriso lambuzado do molho gostoso, receita da vovó.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

"Vida" (Chico Buarque), momento self-remember do AlmanaCULTURA



Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Deixei a fatia
Mais doce da vida
Na mesa dos homens
De vida vazia
Mas, vida, ali
Quem sabe, eu fui feliz

Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Verti minha vida 
Nos cantos, na pia
Na casa dos homens
De vida vadia
Mas, vida, ali
Quem sabe, eu fui feliz

Luz, quero luz,
Sei que além das cortinas 
São palcos azuis
E infinitas cortinas
Com palcos atrás
Arranca, vida
Estufa, veia
E pulsa, pulsa, pulsa,
Pulsa, pulsa mais

Mais, quero mais
Nem que todos os barcos
Recolham ao cais
Que os faróis da costeira
Me lancem sinais
Arranca, vida
Estufa, vela
Me leva, leva longe
Longe, leva mais

Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Toquei na ferida
Nos nervos, nos fios
Nos olhos dos homens
De olhos sombrios
Mas, vida, ali
Eu sei que fui feliz


Lançamento: Coleção Trava-Língua da APDMCE (Projeto Eu Sou Cidadão - Amigos da Leitura) para 1.500 adolescentes cearenses!

Clique na imagem para ampliar!

Data: 16 de novembro de 2011
Horário: 15h
Local: Auditório Celso Furtado (Banco do Nordeste - Av. Pedro Ramalho, 5700, Passaré – Próximo ao Estádio Castelão)

Mais informações:
Bárbara Janiques: (85)4006-4058//(85)9912-0243 e
Amélia Prudente: (85)9603-8179

Sobre a Coleção e sobre o Projeto: a coleção de livros Trava-Língua, de autoria de Arlene Holanda, composta por oito livros, busca resgatar a cultura popular e unir crianças, jovens, adultos e idosos em torno de uma brincadeira que diverte e ensina. Além disso, promove os Objetivos do Milênio (ODMs) estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU). O material será trabalhado por, cerca de 1500 crianças e adolescentes de 100 municípios cearenses, integrantes do Projeto Eu Sou Cidadão - Amigos da Leitura, e terá a função de levar às famílias a atividade cultural. Não só a escola, mas a família, principalmente, tem papel fundamental na descoberta e no incentivo ao gosto pela leitura das suas crianças. Além de desenvolver o hábito entre os pequenos, o incentivo à leitura pela família cria laços afetivos entre a criança e o adulto, que irão servir de base para o seu pleno desenvolvimento psicossocial. Desde 2002 o projeto Eu Sou Cidadão vem contribuindo com a formação social de crianças e adolescentes e despertando neles a vontade de ler e entender o mundo. A coleção Trava-Língua será mais uma ferramenta que irá colaborar com esse incentivo à leitura e com a formação cidadã desses jovens.

A coleção TRAVA-LÍNGUA foi concebida e elaborada visando aliar os recursos da literatura ao trabalho lúdico-pedagógico com a linguagem. A perspectiva é unir o processo de aprendizagem ao de processo de conhecimento de mundo das crianças. Assim, as oito obras integrantes da coleção possibilitam o trabalho lúdico com a linguagem, associando temáticas presentes nos textos ao conjunto de valores expressos nos temas transversais. As possibilidades de trabalho interdisciplinar são diversificadas: Ciências da natureza, do corpo humano, tecnologias, Matemática, Geografia, História, Filosofia, Artes, patrimônio cultural, meio ambiente.
No campo da linguagem, o trabalho com manifestações da oralidade se constitui numa ferramenta eficiente para a aprendizagem, favorecendo o desenvolvimento de habilidades e competências e estabelecendo uma relação privilegiada entre educador/educando. Nos Parâmetros Curriculares Nacionais há recomendação expressa sobre o uso de trava-línguas nos três primeiros anos do Ensino Fundamental. Os textos que constituem as obras unem os recursos da oralidade aos literários, potencializando o repertório de possibilidades a serem exploradas pelas famílias e pela escola.
O lançamento será acompanhado por 150 crianças e adolescentes, que representarão todos os 1500 atendidos pelo projeto. A Coleção Trava-Língua é uma idealização da Associação para o Desenvolvimento dos Municípios do Estado do Ceará (APDMCE), patrocinada pelo Governo do Estado do Ceará, através do II Edital Mecenas do Ceará, e conta com o apoio cultural da Companhia Energética do Ceará (COELCE).


Abaixo segue a relação dos livros, com seus respectivos ilustradores e resumo bibliográfico:

1 - A Triste História de Três Tigres Tristes

Autora: Arlene Holanda
Ilustrador: Cardoso Júnior

Tigrão, Tigresa e Tigreiro eram três tigres tristes. Nem o fato de serem os astros principais do circo Trianon ou os aplausos que recebiam os alegrava. Tião, o tratador dos tigres, teve pena dos animais e resolveu ajudá-los. Será que Tigrão, Tigresa e Tigreiro deixaram de ser três tigres tristes?

2 - Romeu, o rato que roeu a roupa do rei de Roma

Autora: Arlene Holanda
Ilustrador: Eduardo Azevedo

As aventuras de Romeu, o rato que roeu a roupa do rei de Roma e mudou inesperadamente seu destino. Uma história de suspense e ação, que nos mostra como podemos ser vítimas da nossa própria ambição...

3 - O pinto Pio e a pia que pingava

Autora: Arlene Holanda
Ilustrador: André de Miranda

O pinto Pio piou, piou para avisar que a pia estava pingando. Muita água estava sendo desperdiçada e a torneira precisava ser consertada. Como será que essa história acabou?

4 - O Socó Popó, que coçava sete socós

Autora: Arlene Holanda
Ilustrador: Rafael Limaverde

O socó Popó tinha a difícil missão de coçar seus sete irmãos socós. Não aguentando mais essa “coçassão”, Popó decidiu que precisava fazer algo. A amiga Seriema, solidária ao problema, deu uma sugestão ao socozinho. A solução era bem mais simples do que parecia, e tudo acabou acabando bem.

5 - O tratado da aranha e da rã

Autora: Arlene Holanda
Ilustrador: Sérgio Melo

A aranha e a rã viviam se “arranhando” pelos motivos mais tolos. E quando não havia motivo algum, inventavam ligeiro um. Até que o sapo, vizinho das duas, sugeriu que elas fizessem um tratado. Será que funcionou?

6 - O tatu Tatá taí?

Autora: Arlene Holanda
Ilustrador: Arievaldo Viana

Os tatus Tatá e Teté andavam revoltados com a destruição da mata onde viviam. Será que eles se fecharam em sua toca, para não correr nenhum perigo? Ou será que encontraram uma saída melhor?

7 - A arara Yara, que não era de Araraquara

Autora: Arlene Holanda
Ilustrador: Kazane

Certo dia, a arara Yara descobriu que não era de Araraquara. E que existiam araras iguais a ela vivendo em liberdade, voando pelo céu do Pantanal, comendo coquinhos e fazendo ninhos nos barrancos. Desde então, Yara só pensava em uma coisa: viver como uma arara de verdade, livre de sua gaiola, bem longe de Araraquara.

8 - O sapo Sassá e a sábia sabiá Sinhá

Autora: Arlene Holanda
Ilustrador: Cecília Andrade

O sapo Sassá era o melhor amigo da sábia sabiá Sinhá. Certo dia, Sinhá contou-lhe um terrível segredo sobre as plantações do brejo. O sapinho resolveu investigar e acabou preso em um saco, mas foi libertado pela amiga Sinhá. O que Sassá e Sinhá poderiam fazer para salvar os animais e proteger a saúde dos humanos?

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

"Contra o Suicídio", Tércia Montenegro para O POVO



A imprensa não costuma noticiar mortes por suicídio. Tal aspecto, por um lado, é sinal de respeito para com a família enlutada, que certamente não precisa de holofotes midiáticos sobre si, naquele momento. Por outro lado, o silêncio é também uma medida de preservação da vida, se pensamos que certos imitadores podem achar que se matar virou uma espécie de moda, propagada pelos veículos de comunicação. Afinal, dizem que depois que Werther (personagem de Goethe) deu cabo da própria existência, houve uma imensa adesão de fãs, buscando copiar aquele destino trágico... Há ainda o fato de que o suicídio permanece sendo um tabu, no sentido religioso e em vários outros aspectos. Silenciar, então, parece uma boa saída para não criar polêmicas ou problemas. 
 
Quando acontece, porém, de uma pessoa famosa se matar, não se pode evitar a notícia – embora ela deva ser transmitida com cautela. Um “disfarce da situação” seria desastroso e, a longo prazo, uma falsidade histórica. Foi pensando assim que, outro dia, estava com o amigo Urik Paiva (que é especialmente imaginativo) desenvolvendo esse tipo de suposição. Imaginamos que se instalava no mundo uma paranoia do termo “suicídio”. Isso chegava a tal ponto que as divulgações dos óbitos passariam a ser distorcidas, com elementos fantasiosos para negar os gestos voluntários. Assim, por exemplo, a poetisa Ana Cristina César, que se jogou de um edifício da década de 80, poderia ser computada como uma vítima de acidente com bungee jumping. Sylvia Plath, escritora que abriu o forno e pôs a cabeça lá dentro, na verdade teria escorregado em batatinhas enquanto cozinhava e – plath! – caiu no chão, fraturando o crânio.

Nessa linha de raciocínio, o afogamento de Virginia Woolf também surgiria como uma fatalidade. Diriam que a romancista inclusive era exímia nadadora e costumava atravessar metros do rio Ouse todas as tardes – infelizmente, naquele 28 de março um polvo gigantesco surgiu e laçou as pernas da escritora, arrastando-a para as profundezas da água.
O autor japonês Mishima tampouco teria cometido haraquiri, mas sua morte foi resultado de uma brincadeira desastrosa, com a faca usada para limpar o peixe. E Hemingway jamais atirou contra si mesmo; ao contrário, foi alvejado por um colega caçador (que não estava tão camuflado quanto ele), num safári.

A lista de hipóteses cresce para além dos literatos, e de repente nos damos conta da enorme quantidade de suicidas famosos. O espaço para este texto chega ao fim, mas a imaginação, claro, nunca acaba. Nosso exercício de censura ao suicídio passa pelo riso porque divertir-se talvez seja a melhor maneira de sentir-se vivo.

"Sertão", de Pedro Salgueiro, para O POVO (9.11)



"Se o nosso destino
Não for tão mesquinho
Ai pro mesmo cantinho
Nós torna a voltar"

Triste Partida (Luiz Gonzaga)

Fui, sou e serei apenas um matuto exilado na cidade grande. Vim aqui apenas para sobreviver, terminar os estudos, ganhar a vida, criar os filhos, como muitos irmãos que foram para o Norte da borracha, para o Oeste desbravar fronteiras, para o Sul futurar sustento.

Sou aquele nordestino que saiu do Sertão dos Inhamuns há quase 70 anos e ainda hoje vive sonhando em voltar à terra em que nasceu a cada chuvinha que cai nos subúrbios mais distantes da cidade grande, a cada ventinho (eterno Aracati) que varre as ruas mais longínquas das favelas em que está irremediavelmente incrustado feito pedra de calçamento.

Este homem já quase cego que guarda no baú antigo os muitos discos de Luiz Gonzaga, as fitinhas de São Francisco de Canindé, a imagem de Padre Cícero, a rede com o fundo já trocado mil vezes, a mala de couro cru, a chinela de rabicho ainda com o barro seco, a lamparina de lata de óleo, a cartucheira e a espingarda socadeira. 
 
O que lembra toda noite de cada vereda do torrão natal, de cada terreiro, de cada vaquinha (e até do timbre de cada chocalho), de cada São João, de cada apanha e debulha, de cada inverno e estiagem, de cada surra dos pais, do gosto de cada canapum de beira de caminho, de cada canto de passarinho, de cada relâmpago no nascente...
 
Um sertanejo triste que espera pacientemente um dia retornar para uma visita aos parentes, para enfim conhecer os que nasceram depois de sua partida, ou acender uma vela nas covas dos que já se foram.

***
Sou um daqueles que espera, mesmo que morto, um dia voltar.



sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Lançamento "Ciranda", de Arlene Holanda, pelo Armazém da Cultura (5.11)



Ciranda
de Arlene Holanda
- coleção “Brasil Brincante” do Armazém da Cultura -

Data: 5 de novembro de 2011 (sábado)
Horário: 17h
Local: Livraria Cultura (Av. Dom Luís, 1010 – fone: 4008.0800)
Ilustrações: Alexandre Jales

Para aquisição de livros e maiores informações: armazemdacultura@armazemcultura.com.br

Sobre a obra: Ciranda é o primeiro título da coleção “Brasil Brincante”, selo Armazém da Criança, da editora Armazém da Cultura. A “Brasil Brincante” se destina à difusão de manifestações culturais para crianças, o que confere grande importância ao projeto que, dentre outros, também nos trará o Bumba meu boi, Reisados, Congados, Festas Juninas etc.
Arlene Holanda, autora de vários infantis e de títulos de resgate e preservação de nossa cultura, segura na mão do leitor e o convida a dançar para ninguém ficar parado, num texto que mexe e remexe no mais profundo de nossas tradições, relembrando cantigas e cantares gravados na memória da cultura e imaginários brasileiros.
Investimento certeiro para os pais e escolas que desejam envolver seus filhos e alunos no mundo cultural da forma mais divertida e prazerosa possível.
  
Apoio Cultural

Livraria Cultura


"Cicuta-me", poema de Magna Moraes



CICUTA-ME

No meu caminho
Tinha um Pedro
Lágrima de ácido
Coração empalhado

No meu caminho
Tinha um Pedro
Poeta de bronze
Caramujo letrado

No meu caminho
Tinha um Pedro
Sangue de cicuta
Alma de borracha

No meu caminho
Tinha um Pedro
Na minha vesícula
Tinha uma pedra
Nos meus versos
Tinha uma dor

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

"Coisas Engraçadas de Não se Rir XV: O Estandarte do Coronel", Raymundo Netto para O POVO (2.11)


Coronel Oswaldo era um viúvo octogenário. O síndico perfeito. Homem de temperamento forte e austero, se distinguia pela invulgar habilidade de comando, fruto de anos dedicados às Forças Armadas de um Brasil. Procurassem, fosse na hora que fosse, acolhia pacientemente as lamentações das moradoras — os maridos não lhes davam a menor bola — que o palmeavam e o exaltavam na hora da janta: “Que homem esse é o seu Oswaldo!”
Entretanto, guardava ele um silêncio: a doraguda de um falo desanimado. Para o orgulhoso militar, imperdoável. Soube, porém, num fortuito dia, e decidiu implantar uma prótese peniana. Tudo envolto no mais absoluto sigilo, claro, e que Deus o livrasse se alguém supusesse um dia de a sua vergonhosa fragilidade!
Com a tecnologia a seu favor, Oswaldo não deixaria mais de bulir em seu brinquedo. Nem não acreditava naquilo. Soubesse, teria feito antes... Passou a querer a toda hora, a todo instante. Fosse mulher, passasse a vista, agora sabia: apertava aquela bombinha na mais segura possibilidade.
As domésticas, diaristas, as mocinhas da rua e mesmo uma ou outra colega de faculdade da filha, vacilassem, o coronel as colocava em sua linha de fogo.
Mas, de iniciada a brincadeira, ao acionar a bombinha milagrosa, tinha ele a mania de exigir da companheira a apresentação de continência ao “glorioso estandarte”, como assim apelidara o membro ora ascendente e vigoroso.
As coitadas, a princípio, o faziam por graça, depois percebiam-lhe o modo estranho, exigido cerimonialmente a cada nova intervenção. Atrevessem dispensar-lhe tal continência, o desagrado era profundo, de esboçar uma carantonha, puxar as parceiras ao colo e dar-lhes tapas vigorosos na bunda, que era para discipliná-las. A ordem, então, seria no tapa!
Daí, em pouco, a mania do coronel passou a povoar o clássico fuxico das áreas de serviço do prédio. As senhoras fingiam, outras nem tanto, mas enojavam-se da tara do velho. Os moleques de rua, montados em bicicletas, passavam-lhe a prestar continências gargalhosas. Os maridos não deixavam mais suas mulheres trocarem miúdos com aquele homem, outrora muleta útil do matrimônio alheio, que, por fim, teve a sua primeira grande derrota em campanha sindical, desde que passara a residir no “Morada das Palmeiras”. Estava, enfim, des-mo-ra-li-za-do!
Sem o posto, vítima de chacotas, amargando a solidão da popularidade, o pobre e inútil coronel tombou. Encostou os coturnos.
A cerimônia fúnebre se deu no salão de festas do condomínio. As senhoras rezavam pela alma daquele pecador que, apenas em seus últimos tempos, seduzido foi pelo mundano. A filha era, de fato, a única a dispensá-lo o pranto sincero. Foi quando o absurdo se deu: ao jogar-se com uma coroa de flores sobre o corpo paterno, sabe-se lá como, acionou a dita bombinha e o velho "estandarte", resistindo à morte, apontou ao céu. Abismada e sem saber o que fazer, a filha caiu para trás numa vergonha não apenas tão grande quanto à da plateia feminina que, maquinalmente, batia a desejada continência ao coronel.

Raymundo Netto. Contato: raymundo.netto@uol.com.br