sábado, 23 de julho de 2011

Apresentação banda Jardim Suspenso, no Dragão do Mar, 24.7

Foto: Carlos Gadelha


Apresentação da Jardim Suspenso:

Projeto Domingo Musical, 24 de julho, às 18h, no auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

Ingressos: R$ 2,00 e R$ 1,00


Sobre o show: Protagonista do movimento tropicalista e artífice de uma das mais importantes bandas de rock do Brasil, Os Mutantes, nos anos 60, Rita Lee, foi porta-voz de uma geração contestadora, revolucionária dos costumes, abriu caminho para o rock nacional, pôs em pauta o papel da mulher e as questões pertinentes a este universo. Ao deixar Os Mutantes em 1972, Rita prometeu a si mesma que seria uma das maiores estrela do pop brasileiro.


E foi andando sem pensar em voltar e sem pensar no que aconteceu. Assim, fez parte da banda Tutti Frutti, realizando discos e sucessos como Agora Só Falta Você, Ovelha Negra, Corista de Rock, Luz Del Fuelgo, Esse Tal de Roquem Enrow, dentre inúmeros sucessos.


As atitudes marcadas pela ousadia, pioneirismo e inovação a consagraram como a Tia do Rock Nacional, e até figurando em sétimo lugar na Billboard. São as marcas da Zorra que lhe renderam canonização como Santa Rita de Sampa e completa tradução de São Paulo ao longo de mais de 40 anos de carreira.


Assim, diante da enorme contribuição e desta construção musical, a banda cearense Jardim Suspenso, formada em março de 2010, faz releitura da obra de Rita Lee, focando a fase mais roqueira da cantora e de sua ex-banda, Os Mutantes - repleta de personalidade de seus integrantes. Embora façam tributo à roqueira paulista, a banda não se limita apenas a esta proposta.


O grupo formado por músicos experientes na cena musical cearense:


Joanice Sampaio (voz): Jornalista, compositora, escritora, produtora cultural e integrante do grupo Urbanóides Poemas, pesquisadora musical focando a música cearense. Participou de festivais, integrou a Contrabanda, banda que se apresentava em calouradas. Já se apresentou em shows em que participaram nomes como Blues Label, Karine Alexandrino, Lupe Duailibe, Helô Sales e Alyne Costa. Participou como palestrante convidada da mesa-redonda sobre revistas produzidas no Ceará, na IX Bienal Internacional do Livro do Ceará. Também produz o músico Pingo de Fortaleza, a cantora Jord Guedes e os projetos do músico Carlinhos Perdigão.


Pedro de Farias (guitarra): Acadêmico de Música da UECE, integrou a banda Mafalda Morfina e Ênfase, The Doors Cover.


Victor Fontenele (baixo): Integra as bandas Blues Label, Zepellin Blues, Sabbatage e Hard Volts. Acadêmico de Música da UECEe professor de Música do colégio Antares.


Carlinhos Perdigão (bateria): Professor, músico e escritor integra a banda Zeppelin Blues e o grupo Urbanóides Poemas. É mentor dos projetos Bateria Brasileira, Poesia, Blues e Rock´n Roll, Força Tropical e Meu Canto. Tocou com nomes como Manassés, Lúcio Ricardo, Téti, Isaac Cândido, Marta Aurélia, Tino Freitas, com o guitarrista mineiro Alexandre Araújo e com o gaitista Jefferson Gonçalves, da banda carioca Baseado em Blues.


CONTATOS

Joanice Sampaio

8784 1741/9109 1706

MSN: garagem74@hotmail.com/

E-mail e Gtalk: joanicesampaio@gmail.com

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Lançamento "Sociabilidade e Cultura das Elites Sobralenses (1880-1930)", de Elza Marinho, em Sobral (2.8)


Sociabilidade e Cultura

das Elites Sobralenses


de Elza Marinho Lustosa da Costa


Série Panorama Nacional da coleção NOSSA CULTURA da

Secretaria da Cultura do Estado do Ceará

Data: 2 de agosto (terça-feira)

Horário: a partir das 19h30

Local: Biblioteca Municipal de Sobral – Lustosa da Costa

Para contato com a autora:

elzamarinho@uol.com.br


Sobre a Obra: Sociabilidade e Cultura das Elites Sobralenses (1880-1930), obra da socióloga e historiadora sobralense Elza Marinho Lustosa da Costa, a partir de sua tese de doutorado em História Social defendida junto ao Programa de Pós-graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em maio de 2002, para apresentação no Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (IHGB), em 20 de julho de 2005, integra agora a série Panorama Nacional da coleção Nossa Cultura, da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará.

A pesquisa de Elza Marinho teve como eixo a análise da “cultura de elite” sobralense, concentrando-se, em especial, nos domínios político, religioso e da vida mundana, na tentativa de descobrir como ela pode tomar formas específicas na cidade e como foi apreendida por suas elites. O estudo cobre o período que vai de 1880 (em 1881 inaugurou-se a estrada de ferro Sobral - Camocim, símbolo do prestígio das classes políticas locais) a 1930 (em 1932 inaugurou-se a rodovia Sobral-Fortaleza, promovendo o início do declínio de Sobral).

Como fontes principais de estudo, as principais coleções de jornais de Sobral, além das atas das duas maiores confrarias religiosas: Santíssimo Sacramento e Vicentinos.

O livro, dividido em cinco capítulos, tem como referencial teórico o conceito de representações coletivas, estas formas de conhecimento socialmente elaboradas e partilhadas que contribuem para a construção de uma realidade comum a um grupo social. Reconstitui a história de Sobral desde as suas origens, fornece os elementos do quadro sociocultural da cidade, discute o povoamento da região onde Sobral se situa e analisa as condições de formação das famílias que compõem as elites sobralenses.

O trabalho também examina detidamente a Imprensa local, desvenda a natureza de suas atividades jornalísticas.

Na obra percebe-se o esforço da historiadora em reconhecer os canais de formação e desenvolvimento da “cultura de elite” e, nesse sentido, o estudo da educação constitui elemento fundamental, assim como o teatro, as práticas de leitura e outras produções culturais. A Imprensa, conforme já assinalado, constituiu ainda outra manifestação útil para definir a identidade das camadas mais elevadas da hierarquia social de Sobral.

Obviamente, para construir toda essa análise, Elza Marinho buscou Sobral desde seu início e retratou a pecuária e a ação da igreja como fatores determinantes do surgimento e consolidação dos primeiros núcleos urbanos; fatos históricos como a elevação da antiga Vila de Caiçara à cidade de Sobral; o domínio de Sobral no comércio regional e diante das cidades de entorno; a formação da “cultura de elite” sobralense (inicialmente composta por proprietários rurais e membros da Igreja) e dos novos hábitos, atitudes e comportamentos emergentes e de autopromoção na virada do século XIX para o XX; as noções positivas que as elites tinham da cidade e delas mesmas no papel da classe protagonista desse processo; os mitos criados, a representação do mundo e a consolidação da cultura de elite de Sobral.

Elza Marinho Lustosa lembra, porém, que o livro não pretende ser mais uma apologia das glórias do passado sobralense. É, antes de tudo, uma visão realista, crítica e emancipadora da história local. É uma tentativa de compreender os movimentos contraditórios que contribuíram para o apogeu e a decadência de uma praça-forte. É uma leitura de um processo de transformação que foi da glorificação à consciência, construída a partir do trabalho continuado e persistente de muitos historiadores.

Enfim, um livro que certamente contribui na construção de nossa historiografia e na compreensão da formação de nosso povo cearense.


Sobre a Autora: Elza Marinho Lustosa da Costa nasceu em Sobral. É formada em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará/UFC (1978), com especialização em História (UnB, 1992), mestrado em Histoire et civilisations (École des Hautes Études em Sciences Sociales, de Paris), doutorado em História Social (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro ) e atuou como professora de Sociologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Atualmente, reside no Rio de Janeiro e é professora do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro/Universidade Cândido Mendes.


Secretaria da Cultura do Estado do Ceará

"Quando Meu Amigo Lúcio Flávio se Foi", crônica de Pedro Salgueiro para O POVO (20.7)


Uns choraram feito crianças (um merecido choro), afinal tinham perdido um amigo daqueles que não se encontra em calçada alta.

Outros reclamaram de Deus, por ter levado tão cedo uma alma tão boa, ensaiaram pequenas blasfêmias.

Alguns, ainda, ficaram taciturnos pelos cantos, emburrados pelos cantos, reclamando pelos cantos, lamentando pelos cantos, calados...

Eu, por minha vez, preferi fingir que ele ainda tá por aí: trabalhando, em sua mesa impecável de rapaz velho cheio de manias e humores, na Justiça Federal da Aldeota, ou bisbilhotando as coisas de seu querido (e um de seus poucos defeitos) Ceará Sporting Club, ou indo de vez em quando ao “sebo” do Geraldo na 24 de Maio procurar um livro que emprestou para um amigo (e que se esqueceu de lhe devolver), ou mesmo deitado em sua rede na varanda em frente ao “tanque”, olhando calmamente a Rozi aguar os flamboyants do jardim.

Tanto é verdade que guardo ainda em minha agenda seus dois números de telefone, seu livro rabiscado com uma dúvida para lhe perguntar, e vez por outra releio seus últimos e-mails.

E (prometo, amigo!) qualquer dia desses respondo aquele em que você me confiava um conto falando de como tem gente estranha nesse nosso mundinho.

Ou talvez apenas telefone para deplorarmos o baixo nível técnico de nosso futebol.

Ou, quem sabe, não apareça mesmo por aí para bater um papo com você e o Bivar.


P.S.: Lúcio Flávio Holanda Chaves escreveu um livro sobre o Ceará Sporting Club, Um Retrato Branco e Preto, assim como organizou a revista comemorativa dos 95 do alvinegro de Porangabussu; já o artista plástico Eurico Bivar deixou um legado também no teatro. Os dois foram mestres nessa difícil arte de fazer amigos.

domingo, 17 de julho de 2011

"Um Lugar Limpo e Bem Iluminado", conto de Ernest Hemingway, tradução de Washington Hemmes


Já era tarde e todos haviam deixado o café, exceto um velho, sentado à sombra – produzida pela luz elétrica – das folhas de uma árvore. Durante o dia, a rua era suja, mas, à noite, o orvalho assentava a poeira e o velho gostava de ficar sentado até tarde porque ele era surdo e, aquela hora da noite era calma e ele sentia a diferença. Os dois garçons do café sabiam que o velho estava um pouco bêbado e, conquanto ele fosse um bom cliente, eles sabiam que, se ele ficasse bêbado demais, iria embora sem pagar, então, eles se mantiveram atentos.

“Semana passada, ele tentou cometer suicídio”, disse um dos garçons.

“Por quê?”

“Ele estava desesperado.”

“Com o quê?”

“Nada.”

“Como você sabe que não era nada?”

“Ele tem muito dinheiro.”

Eles sentaram juntos a uma mesa colada à parede, perto da porta do café e olharam para o terraço, onde todas as mesas estavam vazias, exceto aquela à qual o velho estava sentado, sob a sombra das folhas da árvore, que se moviam suavemente à força do vento. Uma moça e um soldado passaram na rua. A luz da rua brilhou no número de metal do colarinho dele. A moça não usava nada para cobrir a cabeça e apressava-se ao lado dele.

“O guarda vai pegá-lo”, disse um dos garçons.

“Pouco importa se ele vai pegar o que está procurando.”

“Seria melhor ele sair da rua, agora. O guarda vai pegá-lo. Eles passaram há cinco minutos.”

O velho, sentado à sombra, bateu com o copo no pires. O garçom mais jovem foi atendê-lo.

“O que o senhor deseja?”

O velho olhou para ele: “Mais uma dose”.

“O senhor vai ficar bêbado”, disse o garçom. O velho olhou para ele. O garçom se afastou.

“Ele vai ficar aí a noite inteira”, disse para o colega. “Estou com sono. Nunca consigo ir para a cama antes das três. Ele devia era ter se matado mesmo.”

O garçom pegou no balcão uma garrafa de bebida e outro pires e encaminhou-se à mesa do velho. Pôs o pires na mesa e encheu o copo de bebida.

“O senhor devia era ter se matado na semana passada”, disse ele ao velho surdo. O velho sinalizou com os dedos: “Só mais um pouco.” O garçom serviu a bebida até a borda, de modo que ela transbordou o copo e derramou-se no pires. “Obrigado”, disse o velho. O garçom levou a garrafa de volta para dentro. Sentou novamente com seu colega.

“Ele já está bêbado”, disse ele.

“Ele está bêbado todas as noites.”

“Por que será que ele quis se matar?”

“Como é que eu posso saber!”

“Como foi que aconteceu?”

“Ele tentou se enforcar com uma corda.”

“E quem o impediu?”

“Uma sobrinha.”

“E por que fizeram isso?”

“Temor por sua alma.”

“Quanta grana é que ele tem?”

“Muita.”

“Ele deve ter uns oitenta anos.”

“Eu diria que ele tem exatamente oitenta.”

“Eu queria que ele fosse pra casa. Eu nunca consigo ir pra cama antes das três. Isso lá são horas de ir dormir!”

“Ele fica acordado porque gosta.”

“Ele é um solitário. Eu não sou solitário. Eu tenho uma mulher esperando na cama por mim.”

“Ele também já teve uma mulher.”

“A essa altura, uma mulher não faria nenhuma diferença para ele.”

“Não diga isso. Ele poderia estar bem melhor com uma mulher.”

“A sobrinha cuida dele. Você disse que ela o impediu de se enforcar.”

“Eu sei.”

“Eu é que não queria ser tão velho assim. Um homem velho é uma coisa nojenta.”

“Nem sempre. Esse senhor é um homem limpo. Ele bebe sem derramar. Mesmo depois de bêbado. Olhe para ele.”

“Eu não quero olhar para ele. Eu quero é que ele vá embora. Ele não dá a mínima para quem tem que trabalhar.”

O velho olhou a praça através do copo, depois se virou para os garçons.

“Mais uma dose”, disse, apontando para o copo. O garçom que tinha pressa veio atendê-lo.

“Chega”, disse, falando com a falta de sintaxe que as pessoas estúpidas empregam para conversar com bêbados e estrangeiros. “Por hoje, basta. Fechado.”

“Mais uma”, disse o velho.

“Não. Chega.” O garçom limpou a borda da mesa com uma toalha e balançou a cabeça.

O velho levantou-se, contou os pires lentamente, tirou do bolso um porta-moedas de couro e pagou as bebidas, deixando sobre a mesa alguma gorjeta.

O garçom o observou descer a rua, um homem muito velho, andando sem firmeza, mas com dignidade.

“Por que você não deixou ele ficar e beber?”, perguntou o garçom que não tinha pressa. Eles estavam fechando os portões. “Ainda não são nem duas e meia.”

“Eu quero ir pra casa dormir.”

“Que diferença faz uma hora?”

“Mais pra mim do que pra ele.”

“Uma hora não faz diferença.”

“Você já está falando como um velho. Ele pode muito bem comprar uma garrafa e beber em casa.”

“Não é a mesma coisa.”

“Não, não é”, concordou o garçom que tinha esposa. Ele não queria ser injusto. Ele só estava com pressa.

“E você? Você não tem medo de ir pra casa antes do horário habitual?”

“Você está tentando me provocar?”

No, hombre, estou só brincando.”

“Não”, disse o garçom que tinha pressa, interrompendo o trabalho de baixar as portas de metal. “Eu tenho autoconfiança. Eu sou muito confiante.”

“Você tem juventude, autoconfiança e um trabalho”, disse o garçom mais velho. “Você tem tudo.”

“E a você, o que falta?”

“Tudo, menos trabalho.”

“Você tem tudo o que eu tenho.”

“Não. Eu nunca tive autoconfiança, além do que, eu não sou jovem.”

“Dá um tempo. Pára de falar besteira e fecha logo tudo.”

“Eu sou daqueles que gostam de ficar nos cafés até mais tarde”, disse o garçom mais velho. “Junto com aqueles que não querem dormir. Com todos aqueles que precisam de uma luz para a sua noite.”

“Eu só quero ir pra casa dormir.”

“Nós somos bem diferentes”, disse o garçom mais velho. Ele já estava pronto pra ir embora. “Não é só uma questão de juventude e autoconfiança, embora essas duas coisas sejam muito bonitas. Toda noite, eu hesito em fechar porque pode haver alguém que precise do café.”

Hombre, há bodegas abertas a noite toda.”

“Você não entende. Este é um café limpo e agradável. É bem iluminado. A iluminação é boa e, inclusive, tem até a sombra das folhas.”

“Boa noite”, disse o garçom mais jovem.

“Boa noite”, disse o outro. Apagando a luz, ele continuou a conversar consigo mesmo. É a luz, claro, mas é necessário que o lugar seja limpo e agradável. A música nem faz falta. Com certeza, a música não faz falta. Não se pode nem ficar em pé, diante de um bar, com certa dignidade, a não ser que não haja outra coisa a fazer nesses momentos. O que será que ele temia? Não era medo ou terror. Era um nada que ele conhecia muito bem. Tudo não passava de um nada e um homem era um nada também. Era só isso e tudo o que se precisava era de luz e uma certa limpeza e ordem. Alguns tiveram isso e nunca se deram conta, mas ele sabia que tudo era nada y pues nada y nada y pues nada.* Nada nosso que estais no nada, nada seja o Vosso nome venha a nada o Vosso reino seja nada a Vossa nada assim na nada como no nada. Onada nosso de cada dia nos dai nada e nada os nossos nadas assim como nós nada a quem nos têm nada não nos deixei nada em nada, mas livrai-nos do nada; pues nada. Ave nada, cheia de nada, nada é convosco. Ele sorriu e ficou em pé, em frente a um bar com uma brilhante máquina de café a pressão de vapor.

“Qual é a sua?”, perguntou o cara do bar.

“Nada.”

Outro loco mas”, disse o cara do bar e se virou.

“Uma pequena dose”, disse o garçom.

O cara do bar o serviu.

“A luz é muito clara e agradável mas o ambiente não é muito fino”, disse o garçom.

O cara do bar olhou para ele, mas não respondeu. Era muito tarde para jogar conversa fora.

“Você quer outra copita?”**, perguntou o cara do bar.

“Não, obrigado”, disse o garçom e foi embora. Ele não gostava de bares ebodegas. Um café limpo e bem iluminado. Agora, sem pensar muito, ele iria para casa dormir. Ele deitaria na cama e, finalmente, com o raiar do dia, adormeceria. No final das contas, ele disse para si mesmo, provavelmente é só insônia. Muitos devem sofrer disso.



Tradução de Washington Hemmes.

Fortaleza, 1o de março de 2004.


* Pus em itálico a palavra “nada” (do espanhol nada) para diferenciá-la da tradução da palavra inglesa “nothing” (nada). (N. do T.)

** Uma dose, um copo (do espanhol). Talvez seja relevante lembrar que o Autor serviu como voluntário durante a Guerra Espanhola, sendo muito comum em seus textos a referência ao vocabulário hispânico. (N. do T.)


Fonte: blogue http://projetocadafalso.blogspot.com

"Orgulho de ser Cearense", crônica de Carri Costa


EITA! Tive um sonho estranho, poeticamente estranho...


Nele, no Ceará todim, de cabo a rabo, todo mundo devorando as culturas, uma antropofagia alencarina. Como resultado se nascia em todas as casas uma cearensidade meio que pão, meio que padaria, meio que espiritual...


Nele, os macunaímas paridos se apropriavam da arte, de sua memória...


Era um orgulho forte feito baobá, doce como o chegadim, livre como Mororó, divertido feito Quintino...


Nele, avistava essa carrada de gente marchando, às margens de um Pajeú, por nossos contos, por nossas danças, por nossos cantos, por nossas cenas, por nossas ruas com cheiro de caju, com cor de oiti maduro, com gosto de história, forma de coração de castanholeira, uma reverência à ancestralidade viva, pulsante, nossa!


Nele, vi uma mulher que poderia ser Bárbara embainhando o arco de uma rabeca como se com ele criasse uma ética republicana.


Nele, vi um dragão arrastando do meio do mar, pelos bilros, uma rede esbranquiçada de sal banhando de encantamento à cidade da jandaia.


Nele, homens, mulheres, crianças, jovens e velhos caiavam as cumeeiras tentando ressuscitar seu tempo.


Acordei com minha avó estalando os bilros e revelando na renda, por entre espinhos do mandacaru, a forte sensação de saudade da história que não vivi.


Mãos à obra!




quinta-feira, 14 de julho de 2011

"Insensatez" para insensatos


Insensatez

(Jobim e Vinícius)


A insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor
O seu amor
Um amor tão delicado
Ah, porque você foi fraco assim
Assim tão desalmado
Ah, meu coração que nunca amou
Não merece ser amado

Vai, meu coração, ouve a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão,
Colhe sempre tempestade
Vai, meu coração, pede perdão,
Perdão apaixonado,
Vai porque quem não
Pede perdão
Não é nunca perdoado

quarta-feira, 13 de julho de 2011

"Quando o Amor é de Graça II: Bem Querer Sem Querer", crônica de Raymundo Netto para O POVO (13.7)


Aprendi de amor assistindo — “das colinas tão distantes” — aos Teletubbies. Eu sei, eu sei, eu sei que isso não é coisa que se diga, de então, perdão, explicarei.

Em verdade, tal esdrúxula afirmação nada tem a ver com aquele maçante e recorrente programa inglês ou com sua famigerada “hora de dar tchau”, nem tampouco com sua bendita “torradinha”, “torradinha”, “torradinha”...

Sempre gostei de televisão. Muito. “Alucineava-me” com as produções cinematográficas, grandes roteiros, interpretações conflitivas, fotografias belíssimas e todas essas coisas que só o cinema traz de ruma, mas com o nascimento de minhas filhas passei a deixar a TV ligada sempre em infantis. Era uma maratona de programas em canais exclusivos para crianças, como Teletubbies; Bob, o construtor; Barney; Clifford, o cão vermelho e outros mais de nomes complicados.

Passados dois anos é que, um dia, encostado ao sofá, dei por mim assistindo à porcaria toda apenas para fazer companhia às meninas. Ali mesmo, diante de intermináveis e coloridos “tchaus”, fiz uma retrospectiva e cheguei à conclusão de que não há no mundo amor mais verdadeiro do que aquele cuja renúncia nasce sem sofrimento. Amor? Só podia de ser!

Aliás, percebi também: quando se têm filhos, todas as crianças do mundo assemelham-se a eles. Batem numa criancinha na Cochinchina e a gente sente daqui. Engraçado isso... Passamos a nos sensibilizar gravemente pelas crianças largadas em cestos de lixo, feridas em guerras no Oriente Médio, espancadas ou encarceradas pela violência do lar. Passamos a afagar a cabeça de pequenos estranhos e a distribuir-lhes sorrisos em playgrounds. Enfim, é como se a paternidade pudesse, ou devesse, ser compartilhada.

Quando a Lua e a Lia nasceram, padeci da experiência de um ano sem dormir uma noite completa. Acordavam-me todas as noites. Era uma seguida da outra, ou, quando às vezes, as duas juntas. Quando apenas uma, plantava-me à janela aberta à escuridão e cantarolava, balançando-me num movimento contínuo — uma espécie de forró em “slow motion” — e esperava seu sono chegar. Não funcionando, o plano B era sair ao sereno do condomínio — enrolava-as numa manta — e caminhava lentamente até o quarto bloco, tempo geralmente necessário para adormecê-las. Porém, quando chegava lá e elas ainda tinham os olhinhos abertos, pulava do plano C para o D, de desespero, a encrenca seria grande e, provavelmente, dessa vez, daríamos bom-dia ao Sol...

Morava num apartamento que não tinha nem 50m2 e quando elas acordavam a chorar, o bloco inteiro, ou mesmo o condomínio, noticiava no outro dia: “Elas deram trabalho ontem, né?” Pois é.

Quando completaram 3 meses, ao surgirem as famigeradas crises das cólicas, as visitas corriam por todos os lados, pulando as janelas em pavor: “Não aguento ver isso, não!” Era o que diziam.

Aos domingos, a mãe delas cumpria seu plantão no hospital e eu passava o dia todo com aqueles bebês do berço do quarto à sala. As cabeças eram grandes e carecas e o pescocinho parecia não poder dar com elas. Eram assim meus domingos: preparava o leite, trocava as fraldas, as banhava e ficava por ali jogando brinquedinhos para elas pegarem ou lendo meus livros no tapete da sala a ouvir aquela conversinha que não me dizia nada, justificada apenas pelo sorriso banguela, engraçado e o olhar brilhante que, de criança, ainda se tem.

Hoje, acho tediosas as frias e intermináveis discussões sobre “o amor que estraga as crianças”. Muito menos critico aos avós que, quase aflitos, o ofertam. As nossas crianças e as do mundo inteiro têm mesmo é que aproveitá-lo, pois, num futuro próximo descobrirão que desta nossa humanidade de discursos vazios e teorizações caleidoscopicamente inúteis o que sentirão falta sempre é de amor.


Contato: raymundo.netto@uol.com.br