sábado, 9 de julho de 2011

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Lançamento nº 1 da revista CORSÁRIO (9 de julho, sábado, às 18h no CCBNB)


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Caros Amigos,


Nossa revista Corsário nasceu com o objetivo de distribuir livremente a literatura, mas distribuí-la com primazia estética. Hoje, a Corsário Editora apresenta seus livros na web (http://www.corsario.art.br//indexV.php/corsario/livros/).


Durante o lançamento de nossa revista, teremos, via net, webcams, twitecam, msn, skipe e nossos colaboradores on-line.


O primeiro número da Corsário tem como temática a Literatura e suas extensões.


Salve a escola de Bahaus, Braque, Picasso, Aldemir Martins - mestres que influenciaram o design inovador de nossa 1a revista em papel. Salve Dadá e os Mariscos e a escola Parafernália com os zines e as festas.


Nossa primeira revista tem os seguintes colaboradores:

André Dias | André Monteiro | Augusto de Campos| Ayla Andrade | Carlos Nóbrega| Constance Brito | D. S. Nano | Darina R. Pérez | Demetrios Galvão | Dirceu Matos | Fabrice Ziegler | Fernando Aguiar | Gulherme Veríssimo | Léo Mackellene | Maíra Rato | Michele Fonteles| Pedro Salgueiro | Pipol| Roberto Barros | Stella Marina | Victor Alencar| Zenner Sarte


Conselho Editorial:

Cláudio Portella| Edson Cruz | Henrique Dídimo | Katiusha de Moraes | Laís Chaffe | Márcio-André | Mardônio França | Nuno Gonçalves | Poeta de Meia-Tigela


Editor Responsável

Mardônio França


Redatora-Chefe

Katiusha de Moraes


Aguardamos a sua presença !


Mardônio França

Corsário

www.corsario.art.br

sexta-feira, 1 de julho de 2011

"Airton Monte, Raymundo Netto, Paulo Elpídio e Lustosa", crônica de João Soares Neto para O ESTADO (1º de julho)

Airton Monte confessa ter amado mais o pai que a mãe. E explica: “Claro é para mim, mesmo carregando uma eterna e edipiana culpa, sou daqueles raros filhos que confessam, com certo pejo, haver amado muito mais o autor dos meus dias que a minha santa e doce genitora. Talvez pelo fato das abalizadas opiniões familiares, desde a minha avó até minha irmã mais nova, ser dotado pela herança genética de uma personalidade demasiado semelhante à do maior filósofo já produzido pelo lírico território do Benfica”.

Preocupe não, Airton, amor não se discute, se tem. Não foi de forma desinteressada que ele, seu pai, colocou em você o próprio nome. Ele sabia. Foi-se, mas o nome e a sua encarnação permanecem em você em seus queixumes, quase diários. Quando nos encontrarmos, amigo Airton, falaremos disso, sobre o Viana, o editor, o nosso comum Fortaleza e os estragos que o velho Freud fez na humanidade, tirando-a da ignorância do pecado original.

Raymundo Netto, escritor que deve acreditar em grafologia, pois assim se justificam o “y” e os dois “t”, abre o coração alegre para falar de família. E diz: “Casados há quatro anos, aguardávamos melhor momento para ter filhos – hoje, elas têm onze, e vejo, pelos critérios da época, tal momento ainda não chegou-, mas um dia, ao ser tangido pela sensação involuntária de que casamento sem filhos é dividir morada, decidi planejar a ‘gravidez familiar’. O estranho nisso? Não comentei tal plano com a futura gestante, certo de ela ser a maior interessada – até hoje não acredita em patavina da história que escrevo”. Pois eu acredito, amigo Raymundo Netto, e vou provar isso no nosso primeiro encontro.

Paulo Elpídio de Menezes Neto, cientista político, disse, anteontem em seu artigo/ensaio mensal que: “Mergulhamos, ao longo dos últimos meses, os primeiros de um novo governo gerado nas entranhas do poder e celebrado pelas multidões, uma seqüência de dúvidas e hesitações que bem demonstram quão árduas são as responsabilidades de governar. Os percalços da decisão multiplicam-se para quem governa, maiores, na justa medida do tamanho e da força da coorte dos aliados e das adesões que um governo majoritário atrai, por reconhecido merecimento ou singular conveniência”. Como se vê, a análise de Paulo Elpídio não é rasa, brilha pelo rastilho que vai deixando na sabedoria que forma os seus períodos. A você, Paulo Elpídio, o meu pedido público de desculpas por não ter comparecido – estava em Belo Horizonte – ao lançamento de seus dois novos livros, em que fala com propriedade e sem medo, sobre as universidades brasileiras, particularizando a UFC. Sem esquecer que você, gentilmente, mandou deixá-los em minha casa. Obrigado.

Por último, por ser o amigo mais antigo, o querido Lustosa da Costa — sobralense -fortalezense - brasiliense — denuncia: “Soube, vou me inteirar direitinho, que a Assembleia Distrital autorizou a seus integrantes continuarem com seus negócios com o governo do Distrito Federal. O deputado ganha o mandato e o direito de fazer bons negócios com a administração da Capital. E vai em frente no enriquecimento ilícito”. Lustosa reluz como em “Política, quase sempre”.

Como vocês acabaram de ler, este escrito foi realizado a cinco mãos, Airton Monte, Raymundo Netto, Paulo Elpídio de Menezes Neto, Lustosa da Costa e eu, que só tive o trabalho de citá-los. Palmas para eles.


(publicado no Jornal O Estado, sexta, 01 de julho de 2011)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

"Quando o Amor é de Graça I: As Primeiras Filhas", crônica de Raymundo Netto para O POVO


http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2011/06/29/noticiavidaeartejornal,2261237/quando-o-amor-e-de-graca-i-as-primeiras-filhas.shtml

“São duas!” Era o que saltava à garganta a um telefone público numa manhã ventosa da praça da Igreja do Carmo, em 1999. Saíra da clínica onde Ana Rachel, minha esposa, grávida, fazia exame ultrassonográfico. “São duas!”: Luana Rachel e Liana Rebeca. A Lua e a Lia de ainda hoje e sempre.

Casados há quatro anos, aguardávamos melhor momento para ter filhos — hoje, elas têm onze, e vejo, pelos critérios da época, tal momento ainda não chegou —, mas um dia, ao ser tangido pela sensação involuntária de que casamento sem filhos é dividir morada, decidi planejar a “gravidez familiar”. O estranho nisso? Não comentei tal plano com a futura gestante, certo de ela ser a maior interessada — até hoje não acredita em patavina da história que agora escrevo.

Pus-me a escolher o destino deste “seria” (como ainda não “era”, ao invés de “ser”, “seria”): nasceria em junho, canceriana — como eu —, signo artístico, emotivo, cujo astro regente é a Lua... Preferia fosse menina — há de sempre me gostava mais as mulheres — e o nome gritava: Lua Rachel. Tudo a ver! — mais tarde, pensando na possibilidade de tornar-se motivo de chacota entre coleguinhas despeitadas de classe — haveria de encontrá-las e de ser linda —, “Lua” virou “Luana”.

Para garantir o êxito do meu plano, consultei um ginecologista, tracei cálculos conceptivos, marquei a data de “lançamento”, o dia propício para o “big-bang” e, finalmente, DEUS-e o resultado. Não vinda, ineditamente, a “regra” — nunca me dei bem com regras —, Rachel procurou sua médica. Contrário ao esperado, esta afirmou que a chance de gravidez seria “de uma em mil”, desfiando, sem pena, o seu rosário semiótico de contas micropolicísticas dentre outros motivistos.

Rachel saiu dali certa da condenação, mas eu, embora não saiba baseado em quê, não. Chegou a data de recebimento do exame laboratorial e — “Para quê?” — não foi buscá-lo. Pois fui eu. Resultado positivo: “Rachel, você está grávida!”, contei-lhe ao telefone. E, assim, a expressão dessa alegria em seu rosto nunca vi, mas por motivos que só pondera o imponderável, eu não a esqueço. Ah, claro, não mais voltou àquela médica agourenta que de nunca será contemplada em loterias.

Meses após, íamos à ultrassonografia e, nesse dia, sonhei: olhava com atenção, deitadas na cama, duas meninas bem parecidas, como os são os irmãos, não como gêmeas. Incomodava, deu-me a entender, imaginá-las de parentesco tão próximo e, ao mesmo tempo, completamente estranhas... acordei!

Daí, a surpresa ao exame. O médico, olhando à tela, disse: “Uma menina... Já tem nome?” “Sim, Luana Rachel, doutor” “Rachel? Pois vamos ver agora a Rebeca...” “São duas?” Sim, eram, e eu, dado a crer em “sinais”, aceitei de pronto o batismo de São Doutor: Rebeca. Liana Rebeca. A nossa Lia.

Nasceram assim, minhas DUAS meninas, porém, em oito meses, malogrando o meu plano de canceriano, na madrugada do dia DOIS de maio de DOIS MIL, no quarto 222 da maternidade.

Onze anos depois, como quando naquele sonho, inda as estranho, principalmente no instante em que me reconheço nelas e as abraço como se fora possível tomar-me de volta uma vida inteira.


Raymundo Netto: raymundo.netto@uol.com.br



sábado, 25 de junho de 2011

"Meu Mundinho", poema de Liana Rebeca, minha filha (25.6)


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Esse é o poema de Liana Rebeca, minha filha de 11 anos (uma das duas), publicado no jornalzinho do colégio Agnus, escola em que estuda. Luana também me apresentou um poema, dia desses, mas a Liana, agora, é “autora publicada”. Aguardo o da Lua.


Sair da gaveta pode parecer é difícil, mas ainda mais difícil é retornar a ela, e, ao final, poder e não querer abri-la.


“Meu Mundinho”, título da peça, quase “Meu RayMundinho”.


Inevitável é não quedar-me no dilema de O Feijão e o Sonho, de Orígenes Lessa, livro-oráculo que me tomou na adolescência (e não mais me devolveu).


Ela, toda orgulhosa:“Pai, não está bonitinha?”. Eu, a pensar no que significa um “meu mundinho tão sozinho”, mesmo “com campos floridos e parques coloridos”.


As contradições de criança, aceitas e desejáveis de crianças, que vê “o céu então todo estrelado, com a lua no alto, com o céu ensolarado”. Meio barroco. Criança pode tudo... Ah, se nós pudéssemos sempre nos rebelar contra a racionalidade das vidas vazias e tristes dos adultos, tão carentes de poesia.


E para que serve a poesia, Liana, senão para humanizar-nos, lembrar de nossos inlembrados sentimentos não-expressos da nossa vida que se escoa rápida, sempre rápida para ligeira, sem ser (suficientemente) vivida, à beira — com a licença de um Audifax — de desmorrer para sempre, embora “sempre”, assim como o “nunca” (detesto essa palavra agourenta, feito estribilho de corvo de Poe), não existe?


Ah, minha Lia, “este mundo de imaginação” é mesmo “mais bonito que uma canção”, mas é tão difícil de ser trilhado e compreendido. Tanta solidão... Será que é esse o tal “mundinho tão sozinho”?


Beijo grande de seu Papai que a admira, enquanto ama

quarta-feira, 22 de junho de 2011

"O Amigo dos Anjos", crônica de Pedro Salgueiro para O POVO (22.6)

Foto: Evilázio Ferreira

"Apago o incêndio do olho

com um simples gesto da mão.

Ando com minha bengala:

a perna esquerda mecânica.

Sou o fantasma de minha rua.

O aleijado mais trágico do meu país.

Ninguém me ama

mas sou amigo do Anjo.

Não negocio a paz do morto

nem o silêncio do meio-dia.

Caminho à sombra de Deus.

O sol me ilumina.

Durmo todo o inverno, à beira dos rios.

Acordo no estio com o canto das cigarras.”

(J.A.P)



Ele, que nunca foi íntegro nem inviolável (a provar isso suas mil e duas contradições, seu corpo magro e vulnerável, que sofreu horrores até tombar triste e bestamente no asfalto ainda molhado das últimas chuvas de julho de 2008), nunca pensou em reconhecimento póstumo, dizia a qualquer um que a cota dele queria em vida.

Com sua costumeira lucidez sabia, mais que todos, que morrendo o corpo dificilmente sobreviveria por muito tempo a obra, mesmo a sua, que também sabia mais que outros de seu perene valor.

Mas desconfiava de nossa memória urgente, curta.

Dia três de julho próximo completaremos três anos sem seu corpo magro, sem seu riso simples, sincero, escandaloso e triste.

Mesmo sabendo que sua sombra incorpórea (e sem faltar um só de seus gestos físicos) continua transitando pelas ruas desertas do Benfica.

Continua todo domingo, impreterivelmente, indo à missa na igreja de São Benedito, acompanhado de seus queridos Antonin, Jamaica e Alessandra.

Ele continuará sendo o velho fantasma de preto escanchado no arame farpado dos quintais de nosso conformismo. Misteriosamente colhendo o silêncio com suas mãos invisíveis e tecendo uma mortalha com o nó dos dedos para vestir o próprio corpo magro.

Mesmo sendo ser hoje apenas um retrato destituído de cor e dependurado nas paredes da velha casinha amarela da Vila Cordeiro, o sabemos vivo, vestido e nu, louco e poeta. Acima de tudo um poeta, lúcido e louco, refletido nas mil luas, nos abismos bem fundos dos poços. Continuará como aqueles místicos intocáveis e impossíveis, que viveram sem jamais se conhecerem.

Por isso santos.

E que jamais conhecerão a morte.



* Singela homenagem aos três anos de ausência física de José Alcides Pinto, usando frases de seu poema “Eu”.

"O Poeta de Meia-Tigela", crônica de Ana Miranda para O POVO


Desde que cheguei do Ceará ouço falarem n’O Poeta de Meia-Tigela. Sempre que seu nome vem à tona, é anunciando um debate sobre a conveniência de um nome assim, as opiniões são divididas, uns a favor, uns totalmente contra, alegam todo tipo de argumento: Falta de estima por si mesmo! Inesquecível! Bem-humorado! Brincadeira com coisa séria! Séria? Poesia é brincar com palavras! Orgulho escondido! Estapafúrdio! Genial! Adorável! Patético! Exibido! Extravagante! Temerário! Quimérico! Ridículo! Sofístico! Fabuloso!

Se me perguntam, digo: Gosto.

Acabei conhecendo o poeta no quintal de Pedro Salgueiro, num de seus animados almoços familiares, com direito ao capote que sua mãe, do Pedro, prepara com aquela arte de antigamente. O Poeta de Meia-Tigela chegou com sua bonita mulher. Ele parece mesmo um poeta, também dos velhos tempos, é jovem, muito magro, pálido, de cabelos compridos, ar de filósofo. Tem uma suavidade e delicadeza que cativam. Um ar desamparado que desperta ternura. Fala pouco e baixinho. Tudo natural.

Mas não se enganem com sua aparência e nome, ele é forte, e sua poesia mostra o quanto. Recebi seu livro, Concerto, N° 1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema. Na capa, o estudo para “O violinista azul” de Chagall, em que o violinista azul é branco, de camisa verde e toca um violino amarelo. Mas azuis são algumas escamas de suas pernas-sereia, azuis a ave, o telhado, a névoa da bicicleta, o anjo, a sombra da paisagem. Assim como o poeta. Pelas páginas do livro ocorrem diversos desenhos feitos pelo autor, muito bem estruturados em poucos traços, kafkianos. Um deles, no ex-líbris do vate, é ele mesmo: a partir do número 1, um homem recurvado pelo peso da quantidade daquilo que é inteiro e completo. Uma figura pensativa, atenta ao dentro e ao fora, com um desconfiado pé-atrás. “Mas tudo volta ao Um, pois / O Tempo me corrobora”. Tantas as interpretações... tanta loucura do pensamento humano... tudo cabendo dentro de uma palavra que ele criou: Amor, te.


“Deixai para trás os parvos.

Os qu’inda têm ilusão.

De viverem hors-caixão.

De acumularem centavos.

Amor o que tenho a dar-vos.

Pegai do punhal à mão.

E avivai nossa União."


Amar-vos, que é? (M) atar-vos.” Como ele é mesmo filósofo, até dá aulas de filosofia na universidade, os elementos de sua poesia se misturam – algo de cordel, algo de Ceará, algo de sertão, algo de coronel, algo de fome, rato, rabeca, arauto – a toda a corja da mitologia clássica e a nativa. Também suas lembranças, “confesso que não vivi”; suas referências literárias, Dostoiévski, Lúcio Cardoso, Gregório de Matos, Alcides Pinto...; suas inquietações, dúvidas, seu modo de ser, “o sórumbático” ao mesmo tempo só e sorumbático e rumba e ático (da Grécia Central), numa desconstrução e reconstrução de palavras que ele tanto aprecia. Organiza tudo num quarteto, construindo uma estrutura à la Joyce, cada parte significando um elemento e função psíquica, trabalhando nas unidades e totalidades do mundo: terra/pensamento, fogo/sensação, ar/sentimento e água/intuição. Parece complicado, mas não é.

Os poemas são de uma riqueza infinita, enigmas para ocupar os professores por séculos, como dizia Joyce de seu Ulisses. E bons de leitura, inteligentes, desafiantes. “O Cristo nasceu / Pobre de mavé / Nascesse agorinha / Viria com fé?”; ou “M, o monstrengo que sou”, “As palavras gentis / Grunhidas, assopradas / São ciladas, ardis, / Pragas edulcoradas”... “Meu corpo, marionete / De engonços e de esgares./ A mente, o Gabinete / do Doutor Caligari” ; ou “ingeri Morgana / como fosse cana. // caí melancólico / num torpor alcólico (sic). // morri dormente / algum tempo: ausente. // depós que acordei / vomitei, sarei. // agora me ocorre / tomar outro porre”. E o eleito pela orelha e pelo marcador de página: “Sim, penso, existo. / Mas o que sou? / Sou o que hesito / Em ser? Ou... Ou / Sou só o que / Sei ser-me sem / Erro, sem se? / Sou o que pen- / So? Mas que pensa / O quem o qual / Sou? É? Hem? Sa- / Berá? Que tal? / Existo, sim. / Que sim sou? Ex- / Isto? Que mim / Sou? Sou? Talvez”. E, afinal, o último poema do livro: “O menino morto”: “já nasci assim. / não morri. Nãosim.”

Jogos, brincadeiras, nomes, com a amplidão da cultura contemporânea que nos arrasa; o anjo torto, o serafim sorumbático assim me dedicou o livro: “À Querida Ana Miranda /Carinhosamente oferto.../... Este Honrado Desconcerto/ De Poesia Nefanda...” Rimar Miranda com nefanda, sinceramente: só Augusto dos Anjos.



ANA MIRANDA é escritora, autora de Boca do Inferno, Desmundo, Dias & Dias, Yuxin, entre outros romances, editados pela Companhia das Letras.

"Pelas Paredes", crônica de Tércia Montenegro para O POVO (22.6)


As paredes de minha casa não são apenas sustentáculos do teto ou fronteiras métricas para cada aposento. Elas inauguram espaços para a existência de livros e quadros. Sim, pois não há convívio mais harmonioso do que entre tais objetos. Sinto-me realmente feliz dentro de um ambiente que alterne bibliotecas com pinturas. Nas prateleiras ou nos pregos, as obras descansam verticais, à espera de contemplação. São novas janelas, abertas para diversas e artísticas paisagens.

Desde que me lembro, sou uma apaixonada pelo olhar – sobre palavras ou imagens, igualmente. Assim, comecei a comprar livros e também réplicas de quadros. Na minha ânsia de adolescente, eu não tinha grande critério, coisa que se consegue aos poucos. Mas recordo muito bem a primeira tela autêntica que comprei, e já de um ótimo artista. Na época, Fernando França era meu colega no mestrado em Letras, e dele adquiri um quadro azul, da sua série dos gatos.

A experiência de ter um original foi viciante. Não me tornei colecionadora nem especialista, mas ao menos comecei a observar com atenção a qualidade das imagens. Passei a visitar museus e galerias, em busca de arrebatamentos. Aprendi os muitos modos de olhar uma pintura ou fotografia, descobrindo detalhes e nuances a cada captura de vista. E também, claro, ganhei outras peças para minha casa, de vários materiais e formatos. Hoje vivo rodeada por vários quadros, desenhos e esculturas do Glauco Sobreira. Tenho duas telas do Weaver Lima e, na cozinha, três pratos pintados pela Mariza Brito. Na geladeira, ímãs reproduzem obras da Frida Kahlo ou azulejos lusitanos: servem para pregar avisos, mas ao mesmo tempo seguram cartões-postais, desenhos e charges que recorto, a depender da circunstância.

No quarto de hóspedes pendurei um tapete vermelho que meu pai trouxe da Índia. A atmosfera ficou perfeita, junto com as almofadas, a estante de livros e o toca-discos com alguns LPs. Pelas paredes, estão ainda exemplos de artesanato anônimo, a preencher prateleiras e nichos secretos. É o caso do ex-voto, uma cabeça que comprei no mercado, por ser parecidíssima com a fisionomia de Drummond. Ela fez um belo par com uma peça africana encontrada na feira das nações. E no meu escritório – agora no chão –, coloquei uma réplica da roda de bicicleta, ready-made do Duchamp.

Finalmente, nas minhas paredes exponho também as fotos que realizo, num painel disposto para esta finalidade, na sala. São as únicas imagens rotativas de toda a casa: ponho-as à vista para estudar, por temporada, as características de seus êxitos ou fracassos. Como sua autora, tenho permissão e rigor para substituí-las e até descartá-las. A obra dos outros artistas, ao contrário, eu sempre recebo como definitiva – e sagrada.

Tércia Montenegro

(fotógrafa, escritora e professora da UFC)

segunda-feira, 20 de junho de 2011