
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Lançamento "Parabélum" no Armazém da Cultura (21.6)

Parabélum
(Armazém da Cultura)
de Gilmar de Carvalho
Data: 21 de junho de 2011 (terça-feira)
Horário: a partir das 19h30min
Local: Espaço Multicultural do Armazém da Cultura (Rua Jorge da Rocha, 154, Aldeota — telefone: (85) 3224.9780)
* Na ocasião, Saulo Lemos, autor de Expectativas heróicas: mito, história e leitura de Parabélum, de Gilmar de Carvalho, ganhador do Prêmio Braga Montenegro de ENSAIO, da SECULT, autografará o seu livro.
Contato com o Autor: gildecar@uol.com.br
Sobre a Obra: Parabélum é um clássico. Ainda não no sentido borgiano, do livro que foi escolhido e lido por geração após geração, pois não se passaram tantas, desde a sua escrita e vinda à luz. Mas clássico nato, no sentido de seu espírito, composto de elementos universais que perpassam mitos coletivos de uma região-aldeia a resumir o mundo. O herói, a honra, a possessão, as heranças, o apocalipse... Também pela grandeza dos significados aqui existentes, nascidos de uma vivência cultural arraigada, autêntica e profunda. O narrador de Gilmar de Carvalho tem os pés enterrados, as mãos se afundam no barro, o rosto é mascarado de lama e essa terra é a alma. Sua voz vem de subterrâneos e soa desesperada. É quase um grito, longamente abafado, agora se derramando em delirantes fábulas de paixão e violência, entoadas como antífonas. Delírio que não está apenas na trama, racional e naturalmente erguida, mas também na linguagem em que tudo se narra. Sentimos a segurança de um criador em intimidade com sua criatura.
Impressiona a dicção do livro. O relato, de uma tensa e sensível virilidade, sai num jorro de pensamentos. São atos de fé, poemas bíblicos, estórias da tradição popular sempre sublinhadas pelo amor telúrico que se expressa em comentários, na própria fabulação e no verbo. A palavra aqui é o arcabouço de significados que quase ela não comporta, abrindo trilhas infinitas história humana adentro.
Para o leitor exigente e cultivado, a experiência da leitura de Parabélum é maravilhosa. Livro transformador e inesquecível, com toda a sua liberdade estrutural, trabalha uma reformação do gênero romance, o qual transcende. Romance da formação de um povo. De um homem que partiu “sem rumo e sem retorno” numa “odisseia de noites incontáveis”, e acaba encontrando a si mesmo.
Ana Miranda
Sobre o Autor: Gilmar de Carvalho nasceu em Sobral, Ceará, em 1949. Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Ceará e em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará, onde lecionou. Doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP). Autor de Publicidade em Cordel (1994), Madeira Matriz (1999), Patativa do Assaré (2000), Patativa Poeta Pássaro do Assaré (2002) e Desenho Gráfico Popular (2000), dentre outros trabalhos acadêmicos. Tem artigos publicados em revistas do Brasil e do exterior. Como ficcionista, publicou Pluralia Tantum (1973), Resto de Munição (1982) e Pequenas Histórias de Crueldade (1987), de contos; Parabélum (1977) e Buick Frenesi (1985), romances; Queima de Arquivo (1983), de crônicas; além dos textos para o teatro: Orixás do Ceará (1974), O dia em que vaiaram o sol na Praça do Ferreira (1983), Vice & Versa (1984) e Leste Oeste Side Story (1986).
armazemdacultura@armazemcultura.com.br
www.armazemcultura.com.br
quarta-feira, 15 de junho de 2011
"Coisas Engraçadas de Não se Rir XI: Mas nem Assim?", crônica de Raymundo Netto para O POVO (15.6)

Foto: Raymundo Netto
Seguramente a insegurança tomou-nos de assalto em tema banal. Vivemos num Rio de Janeiro, entretanto, nosso Cristo Redentor não traz mais uma cruz, esta foi depredada, restando em seu lugar um “T”, provavelmente, de “Também eu fui roubado!”.
O povo pede polícia, mais polícia, mas polícia não resolve o problema — às vezes, até o cria —, nem construir prisões para custear a vida ociosa que proporcionamos aos bandidos, antes vítimas e depois vitimadores. O que precisamos é de professores, mais professores, mais qualificações e melhores salários, além de investimentos certeiros e acertados em Educação, e não estou me referindo a atropelamentos, lançamento de balas de borracha ou spray de pimenta — que nos olhos dos outros é refresco! Esse investimento, sim, é criminoso.
O Governo, por meio de grande campanha, conseguiu levar as crianças de volta à escola, parabéns, mas não garante que elas conseguirão ser alfabetizadas mesmo quando concluem o Ensino Fundamental. Isso assegura que os alunos das escolas particulares, “estudantes profissionais”, continuem, aparentemente de forma democrática — como fosse possível supor como democracia um regime de injustiças sociais tão nocivo e irresponsável —, tomando as vagas dos melhores cursos das universidades públicas, enquanto que o sofrido estudante das escolas, também públicas, mesmo os mais empenhados, passem pelo dissabor de colecionar o fracasso pré-determinado de uma vida escolar e voltar às filas desesperançadas de crescentes senzalas sociais distribuídas a olhos fechados pelo egoísmo de uma cultura de “farinha pouca, meu pirão primeiro”, sabido que tal farinha, guardada a sete vezes sete chaves, é tomada e desperdiçada da forma mais vergonhosa, muitas vezes pelo próprio estudante privilegiado em noites em que sai para beber todas, estourar carros, roubar (por diversão), bater em prostitutas ou queimar os mendigos de rua.
Pergunto-me por que as universidades públicas não obrigam seus médicos, dentistas e advogados, assim como os demais profissionais formados em seus bancos com o dinheiro do povo — inclusive pela maioria que não os tem acesso —, a pagarem, obrigatoriamente e com justiça, após festejada e cara formatura, o investimento do Estado com o suor de seus serviços em equipamentos públicos.
Enquanto isso, os trabalhadores, oriundos das escolas desprivilegiadas, paradoxalmente, são obrigados — têm a esperança de melhoras de vida —, a fazer cursos noturnos em universidades particulares se endividando para pagá-las, porque, infelizmente, ainda têm que comer.
Certo mesmo é que as leis continuam sendo elaboradas e servindo apenas para o controle do pobre, em nome de uma igualdade desigual e de uma capa hipócrita e fantasiosa de respeito ao direito alheio que apenas ele, ou melhor, nós, devemos lembrar que existe.
Também os nossos representantes dos não-poderes, dentre eles juízes, vereadores, prefeitos, governadores, deputados, antes de ingressarem em suas funções públicas deveriam fazer um estágio probatório de um mês circulando em ônibus nessa cidade. Basta um mês. Ou eles desistiriam, ou humanizar-se-iam. O ônibus é a grande tribuna do cidadão. Vê-se e ouve-se de um tudo. Veja que é preciso ser um forte para encarar todos os dias tal monstrengo.
Meses-há, aconteceu algo inusitado na cidade. Havia um velório num bairro de periferia (hoje, em Fortaleza, tirante o shopping Iguatemi, o resto é periferia), quando dois homens invadiram a sala e foram logo tomando carteiras, celulares, terços (deviam ser católicos) dos velantes e, pasmem: os sapatos do morto! Ora, vejam que nem morrendo o coitado escapou da rotina do assalto. Mas, por outro lado, no resta o consolo: não mataram o defunto, pois que ele já se encontrava mortinho da silva e, por isso mesmo, como bem recomenda a preventiva inteligência policial, não reagiu! Cabe-nos saber, agora que o infeliz já tem cadastro no Céu, a quem compete o caso: à providência policial ou à Divina...
Raymundo Netto. Contato: raymundo.netto@uol.com.br
segunda-feira, 13 de junho de 2011
"Prosa de ficção: algumas noções", Nilto Maciel para a Literatura sem Fronteiras

Tenho encontrado leitores que me fazem perguntas embaraçosas como esta: “O que devo fazer para aprender a escrever conto, novela, romance?” No mais das vezes, digo-lhes: “Comece lendo os clássicos.” Alguns me responderam: “Mas eu já li quase todos e, mesmo assim, ainda não sei como escrever um conto.” Ora, há dicionários, manuais, tratados que dão noções sobre espaço, ação, incidente, drama, conflito, unidade dramática, história, célula dramática, lugar, tempo, passado anterior ao episódio, tom, personagens, tipos, caricaturas, linguagem, concisão, concentração de efeitos, diálogo, diálogo interior, monólogo interior, discurso direto, narração, descrição, ponto de vista, foco narrativo, primeira pessoa, narrador onisciente, começo, fim.
Também o conhecimento de tudo isto parece não ser suficiente para dar ao aprendiz de escritor o cadinho para a realização da obra de arte. E, por falar em cadinho, captei a seguinte lição de Adolfo Casais Monteiro, em Os Pés Fincados na Terra: “A arte não é invenção pura; o artista é como que um cadinho em que se realiza a mistura dos ingredientes que são o pó da experiência.” Muitos sociólogos ditos marxistas insistem em afirmar que toda pessoa é capaz de criar qualquer obra de arte, desde que se lhe dêem condições sociais, culturais para o exercício dessa capacidade. Ora, milhares e milhares de pessoas letradas, bem vividas se dizem poetas porque sabem escrever versos. No entanto, não são poetas ou não conseguem escrever bons poemas. Os gramáticos seriam então os melhores poetas, contistas ou romancistas.
Muitos desses escritores principiantes estudaram gramática, leram os principais livros – da Antiguidade aos dias de hoje –, se debruçaram sobre manuais, tratados, dicionários de literatura, e, crentes de já saberem tudo e estarem prontos para a criação literária, tentaram escrever contos, novelas, romances. O resultado, porém, tem sido desastroso. Faltou-lhes o quê? Persistência? Nem sempre. Humildade? Talvez. Imaginação? Quem sabe? Talento? Não sei.
Há quem pense ser mais fácil escrever contos ou poemas curtos que romances. Como se tudo fosse questão de tamanho. Ora, contistas são contistas, poetas são poetas, romancistas são romancistas. Alguns escritores conseguem ser bons como poeta, contista e romancista. Muito contista sonha com um grande romance e freqüentemente o ensaia nos contos mais longos. Já o narrador mais afeito à arte de narrar nunca confunde alhos com bugalhos. Confunde-se também conto com crônica, o que é menos grave. Pior é chamar de conto simples anedota, piada, notícia, comentário, etc. No livro A Nova Literatura: O Conto, Assis Brasil faz didática distinção entre conto, crônica, prosa poemática e poema em prosa. Crônica é um relato, bastante pessoal, onde o autor nomeia e descreve acontecimentos, criando enredos num tempo histórico passado. O poema em prosa e a prosa poemática são formas confessionais, ausentes de fabulação.
À medida que o homem avança no tempo em sentido contrário à caverna (ou todo movimento é um retorno?) mais se torna difícil expressar-se por conceitos. Assim, a oralidade primitiva se confunde cada vez mais com a escrita dos novos tempos. Isto não quer dizer que o caso, o conto oral tenda a desaparecer. Ora, como não encontrar semelhanças entre o conto rural, que se confunde com a lenda, e o conto urbano de feições realistas? Difícil também delimitar os campos do imaginário e do real.
A história curta, tradicionalmente conhecida como conto, não só tem servido de objeto de discussões entre narradores e teóricos em busca de definições, como tem dado ensejo a constantes rebatismos, mercê das transformações sofridas pelo gênero. Muitos estudiosos elaboraram vastas enunciações do conto. Arranjar, porém, novos nomes para o gênero parece tarefa sem proveito. Porque a cada conceituação e a cada transformação seria preciso um novo batismo.
Os manuais, os tratados, os dicionários não tratam de questões menores ou de noções rudimentares da arte de escrever literatura. Pois eu quero aqui dedicar algumas palavras a essas “outras noções” de como escrever “corretamente” prosa de ficção. Ou como não escrever “incorretamente” prosa de ficção.
Comecemos pelo emprego exagerado de lugares-comuns e gírias. Os livros estão cheios de “nariz aquilino”, “lágrimas de crocodilo” e outros chavões. Se não é possível a metáfora, que se descreva o nariz do personagem com criatividade. Vejamos a gíria na frase: “O gatinho andava ao meu redor.” Ora, daqui a alguns anos quem poderá imaginar que o narrador se referia a um rapazinho e não a um felino? O escritor poderá passar como genial: o “gatinho” seria uma metáfora.
Há escritores que abusam da grafia distorcida de vocábulos, na certeza de estarem sendo fiéis à língua do povo, realistas, e de estarem preservando o idioma português. Ora, por que escrever “home” em vez de “homem”, “bêbo” em vez de “bêbado”, “eu tô com fome”? Neste caso, para ser fiel ao propósito de escrever como fala o zé-povinho, melhor seria: “eu tô cum fomi”. Guimarães Rosa fez malabarismos para não cair nessa esparrela. Escreveu sempre a fala do povo do sertão mineiro, porém com invejável inventividade, sabedoria, consciente do significado de cada sílaba, de cada vocábulo, de casa frase.
O mau uso dos diálogos tem sido outro pecado de muitos escritores. É o caso de personagens do tipo Zé-prequeté falando como literatos, isto é, o oposto do uso excessivo de gíria ou transcrição da fala do joão-ninguém. José de Alencar é criticado por ter posto nos lábios de seus índios o modo de falar dos portugueses. Porém o romantismo tinha lá suas leis, como a de que os diálogos nunca reproduzissem a fala dos “sem fala”. O sertanejo que falasse como o doutor da cidade, com acatamento e respeito às normas gramaticais.
Há também o vício da repetição exagerada de vocábulos, na mesma frase, no mesmo parágrafo, no mesmo capítulo, no mesmo conto. Os mais comuns são: “que”, “mas”, “estava”, “era”. Vejamos este caso: “João dos Bois ia levantar mais tarde. Antes de levantar...” Contemos os “que” neste trecho: “Mieko achava que devia voltar à lavoura novamente e conversa com o Noriel e pedir que ele não contasse a ninguém o que tinha acontecido.” Do mesmo livro é a frase: “Foi só depois que o Roberto tinha levado a Arume que a Mieko achou que podia escrever.”
Semelhante ao senão apontado é o uso forçado de figuras de linguagem, o emprego desnecessário dos artigos, o descuido na conjugação dos verbos, os cacófatos. Tudo isso é muito comum em narradores brasileiros do final século XX e depois. Para isto, dizia-se: “Fulano não tem estilo.”
Passemos aos personagens. Um dos erros mais comuns é o excesso de personagens em contos. A não ser que somente dois ou três deles participem diretamente da ação. A primeira causa disso será o surgimento de personagens desnecessários, sem lugar na ação, supérfluos. Depois, a confusão no enredo. O tamanho da narrativa não comporta muitos personagens. E não será a evolução do gênero que irá mudar isso.
E para que personagens sem nome? Cabível em contos com muitos personagens. Somente os principais, dois ou três, terão nomes.
Outro equívoco de alguns narradores: o aparecimento súbito de um personagem secundário, irrelevante, e o seu repentino desaparecimento. Melhor excluí-lo da história.
Vejamos a descrição dos personagens. O narrador não precisa descrever o caráter dos personagens. Se fulano é mau ou bom, não cabe ao narrador qualificá-lo e, sim, ao leitor. Suas ações e suas palavras o pintarão aos olhos do leitor. Também é ocioso descrever o aspecto físico dos personagens, especialmente em conto. No romance realista e naturalista a descrição não podia faltar. Como não se deliciar o leitor com o corcunda de Notre-Dame? Porém a descrição não se fazia gratuitamente. Sem o aleijão do personagem o romance não existiria. A descrição de defeitos ou características não faz sentido, a menos que o aspecto físico do personagem seja imprescindível à história. Se fulano é cego, manco, perneta, se assim descrevendo o personagem quis o narrador simplesmente “enfeitar” a história, homenagear alguém, seja lá o que for – a descrição então será uma excrescência.
Agora a questão do narrador. Durante muito tempo prevaleceu em prosa de ficção a onisciência do narrador, fosse personagem ou não. Porém tudo mudou a partir de James Joyce. O narrador onisciente desapareceu. Os pensamentos dos personagens não podem ser do conhecimento do narrador. “Fulano tencionava matar sicrano.” “Ele se sentiu culpado de alguma coisa.” A interferência excessiva do autor-narrador é um mal maior para a narrativa. Assim como o excesso de observações e explicações. Não deve o narrador dar informações, sobretudo se inúteis à trama. Exemplo: “Na curva do caminho surgiu um cavaleiro: era o Vadico, um velho conhecido que batia muito na mulher.” Tal informação é até sem sentido no conto, vez que Vadico nem sequer volta à cena.
Mencionar nomes de cidades, logradouros, somente se absolutamente necessário ao enredo. Dizer que fulano mora na Rua São Sebastião ou na Avenida Dom João poderá ser necessário, sim. Se não o for, para que o nome do logradouro? Nunca explicar o óbvio. Como assim: “Em Fortaleza, a bela capital do Ceará, vivia fulano.” Aliás, nunca explicar nada. “Isto aconteceu porque...” Melhor o mistério. Cada leitor fará uma dedução. Nunca opinar. “Aquela mulher era má.” Cabe ao leitor o julgamento dos personagens. O narrador não é juiz, não decreta nada. Sua função é tão-somente narrar.
Moreira Campos, um dos mestres do conto brasileiro ou um dos melhores discípulos dos grandes mestres, seguia à risca as lições de Tchecov. Em “Breves palavras”, apresentação do livro Dizem que os cães vêem coisas, escreveu: “Sou fiel, quanto à síntese, ao conceito de Tchecov: ‘Se a espingarda não vai atirar no conto, convém tirá-la da sala.’” Ainda desse mestre a advertência de que, “se você vai derrubar a casa, apodreça de logo a cumeeira.”
Em suma: para escrever boa prosa de ficção é preciso, além de conhecer todas as técnicas de narrar e muito talento, saber lapidar, transpor, alterar, substituir, riscar, cortar, remendar, costurar palavras, frases, parágrafos inteiros. E não ter medo do cesto de lixo, de ser cruel consigo mesmo. Não ter complacência com o vício, o erro, a mediocridade. Não ter piedade nem de si mesmo nem de personagens.
sábado, 11 de junho de 2011
sexta-feira, 10 de junho de 2011
"Engenheiro", de Pedro Salgueiro para O POVO (8.6)

O engenheiro sonha coisas claras:
João Cabral de Melo Neto
Construiu em três dias o dormitório
Gastou um ano levantando a torre da camarinha de Vicença, viúva de primeira mão, em nova viagem de núpcias — vista para os três lados, telhado caindo para o poente, amortecendo o sol forte daquelas paragens, canto escuro para a cama (sábia penumbra a esconder desencantos); vento noroeste que traz boa sorte; escada em círculos; chão lisinho; teto alto.
Porém faz sete anos que constrói a cadeia, procurando o ângulo correto para a fresta do calabouço — barulho algum deve chegar às celas; janelas altas com parapeito largo onde os presos devem se postar pensativos, observando o horizonte infinito em que nada, a não ser a cordilheira distante, deve servir de barreira: um horizonte vasto para um cubículo e a noção exata e infinita fora, a diminuir mais e mais o já minúsculo quarto; vasto abismo circulando o prédio, a noção do precário e eterno a mexer com os nervos — estuda cada detalhe como se levantasse o teto que lhe serviria de abrigo pelo resto da vida.
terça-feira, 7 de junho de 2011
Lançamento: "Ciro Colares: a crônica paixão por Fortaleza", de Lucíola Limaverde (9.6)

Ciro Colares:
a crônica paixão por Fortaleza
(Expressão Gráfica e Editora)
de Lucíola Limaverde
Ganhador do Prêmio Literário para Autor (a) Cearense
Prêmio Braga Montenegro, de ENSAIO/CRÍTICA LITERÁRIA, da SECULT/CE
Data: 9 de junho de 2011 (quinta-feira)
Horário: a partir das 19h
Local: Salão de Festas da ADUFCE (Avenida da Universidade, 2346, Benfica, próxima à Faculdade de Economia).
Preço promocional de lançamento: R$ 10,00
Para aquisição de livros e contato com a Autora: lulimaverde@gmail.com
Sobre a Obra: Ciro Colares: a crônica paixão por Fortaleza, obra da jornalista Lucíola Limaverde, Prêmio Braga Montenegro 2010 da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, na categoria Ensaio e\ou Crítica Literária, é resultado de pesquisa acadêmica sobre a produção literária e jornalística do cronista Ciro Colares, especialmente analisando Fortalezamada, publicado em 1985.
Ciro Colares (1923-2002) atuou por mais de 60 anos em jornais do Ceará – a exemplo de O Povo, Diário do Nordeste e a extinta Tribuna do Ceará. Dedicou-se à crônica e teve como um dos principais temas de sua obra a cidade de Fortaleza, cantada por ele com lirismo e amor. O livro Ciro Colares: a crônica paixão por Fortaleza remete-se à cidade de meados do século XX e ao gênero crônica como um registro dos seus momentos.
O leitor irá (re)encontrar a crônica desse jornalista e escritor cuja paixão pela cidade se materializava nas páginas efêmeras dos jornais e se alojava nos corações e nas mentes dos inúmeros leitores a partir da publicação em livros, como Fortalezamada. Lucíola Limaverde debruça-se a dialogar com o cronista que deixou saudade, mas é memória pungente para gerações apaixonadas por crônica, por Fortaleza, por sereias, circos, praças, bares, jardins e tudo o mais que se enfeixa na cidade.
Apoio Cultural
Secretaria da Cultura do Estado do Ceará
Associação dos Docentes da Universidade Federal do Ceará/ADUFCE
Curso de Comunicação da Universidade Federal do Ceará
quinta-feira, 2 de junho de 2011
"MONSTRA", coletivo de artistas no sobrado Dr. José Lourenço (4.6)

COLETIVO MONSTRA LANÇA
MOVIMENTO ARTÍSTICO E VÍDEO-DOCUMENTÁRIO
Neste sábado, dia 04 de Junho de 2011, das 15h às 19h, o Sobrado Dr. José Lourenço recebe o coletivo MONSTRA para um evento com lançamento de publicações, vídeo-documentário e palestras.
O evento começa às 15h com o lançamento do manifesto EXPRESSIOCINISMO - movimento criado pelos artistas do coletivo MONSTRA.
Além do livreto do EXPRESSIOCINISMO haverá o lançamento do catálogo da exposição; E de um kit com 09 cartões postais.
Na sequência, os 8 artistas do coletivo MONSTRA (Weaver Lima, Franklin Stein, Ise Araújo, Jabson Rodrigues, Everton Silva, Lui Loser, Mychel T.C. e Saulo Tiago) falam sobre o processo de criação das obras que compõem a exposição “Purgatório Paraíso Inferno”, em cartaz no Sobrado Dr. José Lourenço.
Encerrando o evento, será exibido pela primeira vez ao público o vídeo-documentário sobre a exposição e o coletivo MONSTRA. O vídeo foi produzido por Léo Mamede, que acompanhou todo o processo de produção da exposição.
Quem for ao evento também poderá visitar a exposição “Purgatório Paraíso Inferno” acrescida com mais de 20 obras além das que foram apresentadas na data de sua abertura há três semanas. Uma das propostas do coletivo é a de ir modificando a exposição durante o seu período de exibição.
*O livreto EXPRESSIOCINISMO e o KIT DE POSTAIS
serão distribuídos gratuitamente somente no sábado dia 04 de junho.
Sábado, dia 04 de Junho de 2011
Das 15h às 19h
No Sobrado Dr. José Lourenço
Rua Major Facundo, 154 – Centro
3101.8826 / 3101.8827
quarta-feira, 1 de junho de 2011
"Coisas Engraçadas de Não se Rir X: Tá todo mundo doido... Oba!", crônica de Raymundo Netto para O POVO (1.6)

Mas do jeito que as coisas andam no mundo, só não corre o risco de ficar doido aquele que já está. Estresse, ambição, egoísmo, falsidade, mentira e incompreensão. Somem-se a isso tudo a solidão, o medo e a maldade. A maior loucura é aceitar tudo isso e não ousar seguir em frente, a seu modo, traçando uma vida única e original, sem medos de ser taxado de maluco. A realidade confirma, como escrevi certa vez: “só os egoístas serão felizes!”
Anos-há, tive passagem pelo Hospital Mental, não como interno — fique bem claro —, mas como terapeuta. Alguns poucos meses dos quais não mais me esqueci (nem me recuperei).
A princípio, curiosidade: observar àquelas pessoas, alienadas, delirantes ou alucinadas, frágeis de pensamentos, coloridas por angústias e histórias insonháveis. Depois: o medo. Medo deles? Não, medo de mim! Imaginar que tão absurdo estado poderia tomar-me de assalto de uma hora a outra, sem bater à porta, partindo de a mais inocente esquisitice, “neura”, excentricidade até margear o desvario absoluto, amedronta. Pus-me, dês então, a reconhecer a loucura do outro na minha, um exercício interessante e, por vezes, engraçado.
Por mim, já naqueles tempos, daria alta a um bocado de gente ali, muitos deles bem parecidos com amigos e pessoas queridas aqui de fora, “normais” em suas manias e paranóias e até com um discurso mais organizado e convincente — a literatura, por exemplo, é um celeiro de gente normal. Não via nada demais neles, mas a equipe, diante de minhas argumentações imaturas, assegurava: “Esse aí? Ihhhh, é doidinho da silva...”
Dentre os tipos: o catatônico, feito estátua, parado no pátio; a mulher ao chão a chorar agonias de saudades de uma mãe que não existia; um “rapaz-gato” que miava na orelha das internas; a velhinha em olhar fixo a trazer ao colo uma boneca; um que, de lençol ao pescoço feito “capa”, galopava numa vassoura o dia inteiro levando e trazendo recados; o “poeta” que andava com livros, em espanhol, debaixo do braço e um caderno na mão, sempre explicando sobre “las musas”; enfim, uma ruma de personagens fantásticos, todos devidamente registrados como “doidos oficiais”.
Na emergência, por trás de grades, pacientes pelados — para não usarem peças de roupas como “forca”. Fora delas, outros, entupidos de remédios, andavam em círculos, feitos múmias. Um deles, lembro, com dois dedos em “tesoura”, espetava os olhos dos colegas. Alguém, com ainda alguma sensibilidade, reclamava: “Tu é doido? Quer furar meu olho, seu doido?” O “engraçadinho” saía com passos atropelados e maneando a cabeça: “Sou doido não, macho, sou doido não...”
Havia um velhinho, o Valmir Vapy, nem parecia doente. Era de bulir nas pacientes jovens ou dedilhava o dia em seu violão, isso, enquanto não confeccionava, de próprio punho, o jornalzinho “A Verdade”, informativo que tinha de um tudo: anedotas, atualidades, gastronomia, efemérides e fofocas do manicômio, e que lhe garantia, por meio de “assinaturas”, o trocado do cigarro. Da minha turma, apenas eu o assinava e ele, bom jornalista, cumpria suas edições regularmente. Noutro dia, surpreendeu-me a manchete da primeira página: “Netto, Fisio, é líder da equipe dos babões!”. Indignei-me: “Ô, Valmir, você é doido? Quer perder o assinante, rapaz?” Soube depois, ser ele apaixonado pela minha professora, e estando eu sempre muito próximo a ela, ficara doido de ciúmes.
Mas a loucura é original. Num hospital, todos os meses, elegiam três pacientes para uma entrevista de alta. O médico orientava: faria uma pergunta bem simples a cada um dos três. Respondesse direitinho: alta! Perguntou ao primeiro: “Fulano, quanto é dois mais dois?”. Respondeu: “69!”. Reprovado na lata! Ao segundo: “Cicrano, quanto é dois mais dois?”. Ele: “Terça-feeeira!”. Coitado... Insistiu no terceiro: “Beltrano, quando é dois mais dois?”. Finalmente: “Quatro!” “Muito bem, até que enfim alguém merece receber a alta... Pode nos dizer como chegou à conclusão”, indaga. “Muito fácil, doutor, só prestei atenção nas respostas dos colegas... Olha só: 69 menos terça-feira é igual a quatro!” Ô lôco!
Raymundo Netto. Contato: raymundo.netto@uol.com.br

