terça-feira, 10 de maio de 2011

"Cauby, Cauby!", por Audifax Rios, para O POVO

Noites de inverno, ruas desertas, e na pracinha alguns vultos sisudos sob igualmente circunspectos guarda-chuvas negros a conversar à luz dos globos que haviam substituído os antigos lampiões de gás. Uma voz nova ecoava dos roufenhos alto-falantes da Amplificadora Padre Antonio Tomás apregoando ser o amor uma pérola rara, ter o fulgor de um rubi. Era uma versão que Haroldo Barbosa e Roberto Luna haviam concebido para o novo astro tornar sucesso como vinha fazendo acontecer a outras canções estrangeiras como "Innamorata" e "Blue Gardenia". Bom, sem mais suspense, essa nova estrela que surgia fulgurante na constelação da música popular brasileira chamava-se Cauby Peixoto de Barros, um fluminense nascido numa família de músicos, cujo parente mais famoso era nada menos que o tio Ciro Monteiro.


O pai, Cadete, que tocava violão, era certamente um leitor de José de Alencar. Ninguém, sem essa prerrogativa, colocaria nos filhos os nomes de Moacir e Araquém (instrumentistas) e Iracema e Andiara (cantoras). De quebra havia a mãe que arranhava o bandolim e o tio Nonô, pianista. Todos useiros e vezeiros dos palcos da Tupi do Rio, Excelsior de São Paulo e das boates Casablanca, Oásis e Arpege. Nesse meio tempo o empresário Di Veras pretendia renovar o cast da Rádio Nacional (Emilinha, Marlene, Orlando Silva, Alcides Gerardi...) e preparou o garoto Cauby nos moldes americanos, com grande aparato publicitário, visual diferenciado e muitos recursos sonoros adicionais. Uma legião de fanzocas foi posta à porta da emissora no dia da estreia, pronta para rasgar-lhe as roupas adrede pespontadas. Todo o Brasil deu resposta imediata e, desse modo, os alto-falantes da pequena cidadezinha também bradavam, a plenos potenciômetros, o amor a "Conceição" (Jair Amorim e Dunga) jurado ante o "Nono Mandamento" (Renê Bittencourt). E logo vieram os sucessos de "Prece ao amor", "Ninguém é de ninguém" e "É tão sublime o amor". Um passo para o reconhecimento lá fora. A revista Time considerou Cauby Peixoto o maior ídolo da canção brasileira e logo enviou passaporte para excursão na América.


Durante anos Cauby, agora Ron Coby, dividiu sua vida entre o Brasil e o Estados Unidos. Lá fez filme para a Warner Brothers (Lamboreé) e gravou "Maracangalha (I Go)" do Caymmi. Na Itália arrastou o grande prêmio do Festival de San Remo com "Zíngara" (R. Alberteli, versão de Nazareno de Brito). De volta ao Brasil apresentou-se, em diversas ocasiões, nos sets da querida TV Ceará, canal 2, onde fez sólida amizade com a apresentadora Neide Maia.


Ao comemorar os vinte e cinco anos de carreira, Cauby passou de intérprete a personagem. Gravou Cauby, Cauby com músicas feitas especialmente para ele por Caetano Veloso (a do título), Chico Buarque ("Bastidores"), Tom Jobim ("Oficina"), Roberto e Erasmo Carlos ("Brigas de amor") e outros. Logo depois lançou um álbum em parceria com Ângela Maria aberto com "Começaria tudo outra vez" de Gonzaguinha.


Tempos passaram e a antiga irradiadora da cidadezinha (como o circo) foi engolida por aparelhos mais sofisticados, mas é como se na pracinha molhada ainda ecoassem as vozes dos antigos astros: Nelson Gonçalves, Nora Ney, Chico Alves, Dalva de Oliveira. E Cauby Peixoto, aquela nova luz, à procura da musa, Conceição, perdida nos ainda inocentes morros cariocas.


Durante toda essa trajetória uma coisa ficou patente: o irretocável timbre de voz do cantor. Aos oitenta ainda surpreende. Ainda a gema rara e o rubi. O fulgor dos brilhantes, o ouro de lei. Como rezava a composição de Jay Livingstone e Ray Evans. Mas Conceição era uma cabrocha bem brasileira.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Lançamento: "Fragmentos: poemas e ensaios", de Carlinhos Perdigão (13.5)


Clique na imagem para ampliar!

Sobre a Obra: A obra possui trinta poemas inéditos, com temas que envolvem questões sociais e amorosas, numa mistura entre o “eu poético” do autor e o mundo vivenciado. Além das poesias, há dois ensaios literários - um versando sobre as perspectivas relacionais existentes entre o livro e o filme Vidas Secas, respectivamente de Graciliano Ramos e de Nelson Pereira dos Santos, e um outro sobre o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Dentre outros textos, há também um artigo de divulgação científica que problematiza questões relacionadas à leitura - tema de permanente interesse do autor. O livro é todo perpassado por imagens que remetem à musica, com ilustrações da artista plástica Renata Holanda, formada em Belas Artes pela Universidade de Barcelona. O prefácio é do poeta pernambucano/cearense Carlos Dantas.

Sobre o Autor: Carlinhos Perdigão, ou Carlos Alberto Ferreira Junior, tem formação em Administração e Letras, com pós-graduação em Gestão Escolar. É professor de língua portuguesa do curso de Comunicação Social da Faculdade Cearense, poeta, baterista, produtor e pesquisador cultural. É aluno-mestrando do Programa de Doutoramento em Teoria da Literatura e Literatura Comparada da Universidade de Santiago de Compostela/Espanha. Na área da arte-educação, é autor de diversos projetos com circulação constante no Ceará e em outros Estados, tais como: “Seminário de Literatura Brasileira no Cinema”, “Leitores entre mil e uma leituras e textos”, “Machado de Assis: uma (re)visão a partir de seus contos, poemas e de suas crônicas”, “Literatura em Cena: a palavra na obra A Cartomante, de Machado de Assis”, “O Fantástico Literário de Murilo Rubião”, “Toque de letra: música, futebol e leitura”, “Vinícius de Moraes: 30 anos depois”, "Lima Barreto: cronista do Brasil", “Bateria Brasileira”, “Led Zeppelin-Blues: tributo a John Bonham”, “Projeto Cream: tributo a Eric Clapton”, “Poesia, Blues e Rock´n´Roll”, “Força Tropical: uma viagem lítero-musical à Tropicália”, “Meu Canto”, “Poemário Musical” e “Instrumental Blueseiro”.


Maiores informações: perdigaoferreira@hotmail.com

"Brotinhos e seus Problemas", de Lídia Noêmia Santos, Prêmio Guilherme Studart da SECULT (12.5)

Clique na imagem para ampliar!

"Ambientes Aquáticos Tapeba & Encantados das Águas" no Museu do Ceará (12.5)

Clique na imagem para ampliar!

domingo, 8 de maio de 2011

Prêmio Ghandi de Comunicação 2011 - ÚLTIMOS DIAS!

Termina na próxima sexta-feira (13 de maio), às 18h, o prazo de inscrições para o Prêmio Gandhi de Comunicação 2011.

O concurso promovido pela Agência da Boa Notícia vai distribuir este ano R$ 35mil entre os ganhadores de nove categorias.

O endereço da Agência é na Av. Desembargador Moreira, 2120 – Sala 1307 – Aldeota – CEP: 60170 – 002 - Fortaleza – Ceará e o funcionamento é das 8h às 12h e de 14h às 18h.

Podem ser inscritas matérias jornalísticas (rádio, TV e impresso), fotos ou ensaios de fotojornalismo, anúncios e campanhas publicitárias de profissionais e estudantes Jornalismo e Publicidade e Propaganda, veiculados no período de 1º de junho de 2010 a 06 de maio de 2011.

Os Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs) em Comunicação Social (Jornalismo e Publicidade & Propaganda), defendidos e aprovados por banca da IES, devem ser relativos aos períodos letivos de 2010.1 e 2010.2.

A Agência da Boa Notícia promove a quarta edição do Prêmio Gandhi de Comunicação para reconhecer o trabalho de profissionais e estudantes de Jornalismo e Publicidade & Propaganda que divulgam iniciativas voltadas para a harmonia e paz social.

Neste ano, o concurso tem nove categorias, duas a mais que no ano passado, e o valor total da premiação também aumentou. Os melhores trabalhos sobre Cultura de Paz vão dividir o prêmio de R$ 35 mil.

Saiba mais: www.boanoticia.org.br.

Entrevista de Nilto Maciel para a "Diversos Afins"


Para definir um bom prosador, são necessárias palavras que se proponham a extrapolar os limites meramente expositivos de qualquer cenário narrativo. Contentemo-nos, pois, numa análise que sabe ir além de um simples artifício de contar histórias. Numa acepção densamente significativa, um contista, mais do que apresentar situações e tramas, deve ser capaz de dissecar o âmago dos seres apresentados. A partir daí, ganha corpo vigoroso uma noção de interioridade que sabe ser ingrediente fundamental de uma proposta textual rica e consistente. E tal perspectiva encontra abrigo no modo de pensar e agir do escritor cearense Nilto Maciel. Detentor de uma trajetória que contempla incursões predominantes na seara da prosa, o autor, natural de Baturité, revela-se um alguém peculiarmente envolvido de modo especial no fazer literário, qual seja o de se apropriar de modo pungente dos elementos presentes em seu espaço íntimo de abstração para depois transformá-los em matéria viva vertida em palavras e outros tantos signos. Nesse processo, Nilto mergulha no universo de sua catarse pessoal, convivendo de frente com a necessidade primeira de isolar-se do mundo até que o produto de sua viagem ao centro de si mesmo seja expelido sob a forma de texto. Alguns de seus livros renderam-lhe premiações de destaque em concursos nacionais e regionais. Sua obra contempla, dentre outros, Itinerário (contos, 1974, Scortecci Editora), Tempos de Mula Preta (contos, 1981, Papel Virtual Editora), Punhalzinho Cravado de Ódio (contos, 1986, Secretaria da Cultura do Ceará), A Última Noite de Helena (romance, 2003, Editora Komedi) e Carnavalha (romance, 2007, Bestiário). Durante o diálogo do escritor com a Diversos Afins, foi possível compreender certas razões capazes de justificar as imagens que cercam o engenhoso ofício da escrita. Em Nilto Maciel, temos o exemplo vivo e atinente de que escrever, acima de tudo, envolve um criterioso ritual de entrega humana, tudo compreendido num lapso que sabe a desvãos da alma.


Diversos Afins - Muita gente acredita que a única função do conto é a de relatar uma história, aspecto que negligencia a capacidade de transcendência de um texto. Enquanto autor, como você percebe tal discussão?


Nilto Maciel – É verdade: tanto leitores (é só ver na Internet o número de leitores de sítios de contos lineares, de formato tradicional) como escritores ainda veem na história com começo, meio e fim, enredo claro, narração e diálogo (os velhos travessões e verbos dicendi a torto e a direito), personagens bem delineados, etc, o único ou o verdadeiro modelo de conto. Não sei se se discute isso. Não conheço artigos ou ensaios que tratem desse assunto. Para mim, o conto pode ser elaborado a partir de um modelo. E os modelos são muitos: o de Tchekhov, o de Poe, o de Maupassant, o de Joyce, o de Cortázar. No Brasil temos novo modelo (não tão novo, vem de Rubem Fonseca), que é o conto que tem como assunto a violência urbana. Transposto para o cinema, virou febre. É um filme atrás de outro, com a mesma receita e os mesmos ingredientes: muita bala, muita matança, muito morro, muito bandido, muito policial, muito ódio. Na literatura significa cópia de reportagens. Por isso, os escritores dessas histórias não se preocupam com literariedade. Para eles, literatura é arte de escrever. Se assim é, nem precisa estudar, ler, pesquisar. O computador se encarrega de registrar a fala e corrigir o óbvio. Só isso. Basta ter coragem de expor as mazelas do homem e da sociedade. O resto que se dane.

DA – Subjetivamente falando, é possível conceber o contista como sendo um verdadeiro engenheiro de ilusões?


NM – O contista, como o romancista, é, sim, um engenheiro de ilusões. Não apenas das ilusões contidas nos enredos, nas tramas. Mas das ilusões escondidas nas entrelinhas, atrás de véus, debaixo de panos ou papéis. Não a ilusão palpável da vida, do viver, mas a ilusão diáfana da poesia. Sim, sem poesia o conto não se faz arte; amolda-se ao método da reportagem, da informação, do jornalismo. Falo de aparência e exterioridade. Sem ambiguidade e interioridade não há arte, não há conto. Contar, apenas, é fácil. Compor um conto é outra história (desculpe o trocadilho).


DA - Talvez não seja tarefa fácil absorver os excessos contidos na pós-modernidade, algo que poderia até mesmo escamotear sentidos essenciais. Nesse aspecto, como o torvelinho de imagens de mundo movimenta seu processo criativo?


NM – Tenho falado muito de memória. Não sei se estou certo, mas acredito que obra de arte nasce na memória. Sendo assim, pergunta-se: Como teria sido nos primórdios? Ora, a memória literária não vem apenas dos livros, das inscrições rupestres, dos papiros, dos palimpsestos. Há também a memória oral. Tenho certeza de que só escrevo o que vi, ouvi, li, senti. Nada invento. A criatividade não vem de geração espontânea. Por isso, é preciso ter tido infância. Dirão: todos tivemos infância. Sim, mas nem todos conseguem abrir o baú e dele retirar quinquilharias, pedacinhos de pano, pó invisível. E é preciso ter lido muito. Borges recomendava a leitura de apenas cem livros essenciais. Não se referia, porém, à memória. Porque a cartilha é tão essencial como um tratado de filosofia. A imagem no cinema, na televisão, no computador é apenas estopim para mostrar imagens apagadas, soterradas, esquecidas. Não sou teórico, sou apenas escritor. E escritor é aquele que não conseguiu ser cientista, pesquisador, inventor. O que não sabe explicar porque a aranha tece a teia. Alguns não se aceitam tão pequenos e escrevem ficção científica. Acham que são, sim, cientistas.


DA - Acredita que para um autor há limites na utilização dos recursos da memória afetiva?

NM - Os limites existem, porque somos limitados. Se pudéssemos utilizar todos os recursos da memória afetiva, a obra de arte seria muito mais vertical. Escritores verticais são Dostoievski, Machado, Kafka, Virginia Woolf, Clarice Lispector. Outros, os que se esmeram na horizontalidade da fala e dos atos, são meros descritores de paisagens e narradores de movimentos sempre repetidos dos seres que povoam as paisagens. São apenas cronistas de seu tempo. Pois cronistas todos o são. Machado é o cronista vertical do Rio de Janeiro do século XIX.


DA - No romance Carnavalha, você explora com densidade traços que ajudam a mostrar um painel de nossa contraditória brasilidade. Como surgiu a ideia de construir uma narrativa que, mesclando elementos trágicos e cômicos, provoca-nos a todo instante?


NM – Todo escritor acalenta o sonho de erigir uma obra monumental. Alguns não perdem tempo com acalantos e desde cedo iniciam a construção de suas pirâmides de Gizé. Faraós da palavra, chamam-se Cervantes, Dante, Shakespeare e outros. Eu bem que tentei, sonhei, fiz escavações. Não consegui, como a maioria. Carnavalha foi uma das últimas tentativas de levantar pequenas tumbas para meus pequeninos personagens, saídos do fundo da memória. Palma já existia e está em quase todas as minhas narrativas, principalmente as mais longas. Os seres que a habitaram são mortos sem tumbas. Carnavalha (carnaval em Palma) é também um pouco de tragédia, um pouco de comédia. Um pouco do Brasil, um pouco de mim.


DA - Mas será que é realmente importante construir uma obra monumental?

NM – Na pergunta, dois adjetivos equivalentes. Ser importante é ser fundamental, básico, necessário. Acho que é nesse sentido a questão. Dizem alguns teóricos que tudo é importante, toda obra literária é necessária, mesmo a mais rudimentar, a mais medíocre. Porque é dela que surgirá a obra maior. Sem as novelas de cavalaria não existiria Dom Quixote. No entanto, vem mais uma pergunta: Não estariam os autores daquelas histórias também imbuídos da vontade de erigir castelos monumentais? João de Lobeira (ou quem quer que tenha sido o autor do Amadis de Gaula) certamente se sentia um criador de mundos. E o foi, em certo sentido. Quem sabe, um dia surgirá o Cervantes que irá recriar Palma e escrever um romance monumental.


DA - Ao mesmo tempo em que trouxeram facilidades, as mídias eletrônicas externaram também uma verdadeira obsessão de muitos autores em serem reconhecidos, lidos, comentados a qualquer custo. Essa dinâmica frenética não acaba criando um relativismo conceitual e estético um tanto perigoso no que tange às criações?


NM – É muito natural a vontade (mesmo que obsessiva) de ser lido, comentado e reverenciado. Quem não quer? Até aqueles que se fazem reclusos em casa e se dizem avessos a entrevistas, “badalações”, festinhas literárias como lançamento de livro, feira, simpósio, seminário, etc, até esses, no fundo, querem mesmo é fama. Ocorre que quem vive em salões (bares, clubes sociais, academias, redações de jornais) termina se esquecendo de ler e escrever. Se já não é tão talentoso (usarei este adjetivo para não estender demais minha opinião), vivendo essa vida de cortesã ou cortesão, sua literatura será como a bolha que escapa do chope. Em alguns, essa neurose os torna até perigosos. São como aqueles loucos das piadas que se dizem Napoleão Bonaparte.


DA - Com o advento da internet, o seu fazer literário mudou bastante ou ainda preserva hábitos marcantes de outrora?


NM – Sim, meu fazer literário mudou muito desde os anos 80, quando adquiri um computador doméstico. Quase nada restou do meu modo de ser leitor/escritor. Antigamente (parece que faz tanto tempo!), eu escrevia em folhas de papel e cadernos. Uma loucura. Sobre a mesa, tudo espalhado. Anotava ideias separadamente. Uma frase aqui, uma ideia ali, um nome de personagem acolá. Porque o pensamento é lépido demais. E temos apenas duas mãos (só uso a esquerda). Agora está melhor, porque digito com as duas. Mas a memória ainda é o baú principal. Costumo escrever quando me deito para dormir. Porque não me deito para repousar ou descansar. Isto é para cavalos, jumentos, cachorros, gatos, leões. Deito-me para pensar e, em seguida, dormir. Às vezes, não consigo dormir. Passo a noite a pensar (escrever mentalmente). Quando acordo, imagino que sonhei. Mas não foi sonho, foi elaboração mental consciente. Acordado, relembro tudo (ou quase tudo) o que imaginei (escrevi) e digito sob um título provisório: “Conto do homem que olhava formigas”. São dois tipos de anotações: o como será o conto (na primeira ou na terceira pessoa, dois ou três personagens, com ou sem diálogos, etc) e a própria história. Muitas vezes não consigo me libertar daquele conto e passo o dia a elaborá-lo. Em dias assim, não me alimento, não me banho, não atendo chamados, não saio de casa, não ligo televisão. Quando cuido, estou caído no meio da sala, morto de fome, sujo, completamente envolto na loucura, a delirar. Por isso, preciso viver só. Quando vivia com mulher e filhos, precisava me controlar, me policiar, ser normal. Agora posso assumir minha anormalidade, sem medo.


DA - E como andam as perspectivas atuais? Está trabalhando em alguma obra nova?


NM – Quem escreve só deixa de escrever quando morre. Alguns continuam escrevendo até depois da morte (dizia Chico Xavier). Se algum médium puder copiar meus ditados, prometo ditar com paciência. Há um ano, mais ou menos, rabisco um romance. Está todo arquitetado, mas poderá se modificar. Como dizem, alguns personagens costumam crescer; outros, minguar. Voltei à primeira pessoa. Os leitores poderão até dizer: O narrador é o próprio autor. Não deixa de ser.


DA - Afinal, o que se busca com o ato de escrever?


NM – Uns buscam fama, dinheiro, reconhecimento. Outros querem dizer: eis-me, existo, existi. E tudo passa, passará. A fama poderá resistir ao tempo, até depois da morte. Para quê? O dinheiro virará fumaça. Os escritores morrem, seus nomes viram verbete. Algumas obras ficaram e ficarão. Até quando? Depois a humanidade desaparecerá e a Terra será habitada apenas pelos “seres inferiores” que não leem e não lerão. Portanto, o que se busca não passa de pó. E, quando Deus der o sopro final, todo o pó voará pelos ares e se perderá na imensidão das galáxias. Na verdade, não acredito na existência de Deus. Se existe, existirá para sempre. Sem literatura, porém.

sábado, 7 de maio de 2011

Lançamentos em Fortaleza de "O Irresistível Charme da Insanidade", de Ricardo Kelmer

Clique na imagem para ampliar!

Lançamentos em Fortaleza!!!

10 de maio - 19h a 21h
LIVRARIA CULTURA (Shopping Varanda Mall, Aldeota)
Revendo amigos e leitores

10 de maio – das 21h30 à meia-noite
BAR E RESTAURANTE DEGUSTI
Rua Vilebaldo Aguiar, 352, Cocó
Cervejinha com música ao vivo

11 de maio
– das 20h à meia-noite
BAR DO PAPAI
Rua Mons. Bruno, 1386, Aldeota
Show com a trilha sonora do livro

12 de maio
- 18h às 20h
LIVRARIA LUA NOVA
Av. 13 de Maio, 2861, Benfica
Com bate-papo com leitores

13 de maio
- 17h30 a 21h
LOJA ROMÃ
Rua Osvaldo Cruz, 1346, Aldeota
Vinho e bate-papo

14 de maio
- 20h à meia-noite
BAR BEBEDOURO
Rua Norvinda Pires, 22, Aldeota
Barzinho, sambinha...

SOBRE O LIVRO - ADQUIRA PELA INTERNET
blogdokelmer.wordpress.com/livros/o-irresistivel-charme-da-insanidade

quinta-feira, 5 de maio de 2011

"Nova festa, 30 Anos Depois", de João Soares Neto, para O Estado


Hoje será o dia da festa da insanidade coletiva. Estações de Televisão de todo o mundo disputarão lugares estratégicos em um trajeto de pouco mais de dois quilômetros. Dignitários, nobres, bobos da corte, com fraques — muitos deles, alugados — e cartolas; ladies, catadoras de convites e celebridades ocasionais em vestidos curtos ou longos, joias ou semi-joias, estarão à procura de câmeras para os seus sorrisos e, portarão, em seus bolsos, máquinas fotográficas para, furtivamente, registrar o acontecimento. Depois, mostrarão, orgulhosos, às suas famílias e amigos. Vocês sabem que cada convidado recebeu um Manual de Procedimento para dizer horários, lugares a ocupar quais as vestimentas adequadas, as condutas certas e como devem ser os cumprimentos e até meneios de cabeça para os integrantes das muitas famílias reais presentes? Vocês ainda acreditam em contos de fada? Preferem Cinderela? Carruagens mostrarão o anacronismo da tradição que teima em ficar à tona. Uma família, dizem, com graves problemas comportamentais finge se unir e se apega às verbas anuais de um tesouro combalido. E.Burke, político inglês do século 19, já dizia: “Quanto maior é o poder, mais perigoso é o abuso”. O que faz uma família real neste século 21 assolado por grave e contínua crise econômica em toda a Europa?

Cerca de 1.900 convidados estarão presentes à abadia, 650 irão à recepção e apenas 300 comparecerão ao jantar, dito íntimo. Como se vê, haverá, entre os convidados, seleção de castas. O mundo, depois do fim da guerra fria, do ataque de 11 de setembro de 2001, do vertiginoso crescimento da China e dos combates fabricados no mundo muçulmano não pode se dar ao luxo de uma ostentação inócua, inconsequente e dispendiosa de uma boda que pode – ou não – dar certo.

No dealbar desta segunda década, a Europa está em processo anunciado de fadiga econômica. Tenta manter-se altiva e engendra soluções emergenciais para países que posaram de ricos e passam por cortes em orçamentos, pedem empréstimos de organismos internacionais e acreditam que o bloqueio à entrada de imigrantes de países que, em boa parcela, foram colonizados pela velha Albion, pode ser uma das soluções. Domingo, televisões, jornais, tablóides e revistas sérias de todo o mundo, trarão edições especiais da pantomima. É o começo da primavera por lá, mas, se chover, será um sinal lacrimoso do desperdício e da falta do que fazer. Repete-se o que aconteceu há 30 anos e, todos sabem no que deu. Traições e morte. Parafraseando La Rochefoucald: os nobres são como certos quadros: para admirá-los não se deve olhá-los muito de perto. God save the insanes!

Sobre "Memória de Peixe", de Carlos Carvalho (crônicas)


Sempre ouvi dizer que comer cabeça de peixe faz bem à memória. Paradoxalmente, sempre soube que o peixe é um bichinho ruim de memória, de duração média de três segundos, embora ultimamente alguns pesquisadores embasbacados diante de pequenos aquários cheirando a lodo defendem — vejo bolhinhas saindo de suas bocas —, que algumas espécies podem alcançar uma memória prodigiosa de cinco meses! Depois disso, esqueça-os, pois ele também o esquecerá, e então, só nada, nada, nada...

Pois bem, caiu-me à mão, não despropositadamente, o Memória de Peixe, livro de crônicas do Carlos Carvalho, professor de Literatura e de Língua Inglesa na Universidade Estadual do Ceará. Havia ouvido falar dela, obra ganhadora do Prêmio de Literatura UNIFOR em 2009. O Prêmio é ruim porque não paga nada ao autor, oferece uma viagem besta para a terra do Obama (ou do Osama?) e a pequena tiragem de livros que produz têm um descuido gráfico que não combina com a suntuosidade do seu Campus (torço logo que venha uma segunda edição). Mesmo assim, a comissão julgadora é formada por pessoas muito habilitadas e são muitos os que se candidatam e, dentre eles, o Carlos Carvalho que, a despeito dessas considerações desabafosas, conseguiu extrair com sua Memória... do meu pessimismo, introduzido com muito esforço pela cruel desumanidade, um sorriso de luz e de esperança.

O Memória... é formado por 51 crônicas, contei nos dedos por duas... não, três vezes... ou foram quatro? Bem, não criei ainda guelras por trás das orelhas como o Airton Monte, velho cronista.

Pois sim, li suas crônicas com muita suavidade e prazer. O tempo estava bonito para chover (aliás, boa parte das crônicas do livro se passam em chuva), os lençóis frios e o papo bem humorado com o Carlos começou cedo a fazer-me esquecer de mim com “A dor e a delícia de ser o que é”. Como nessa crônica, muitas outras viriam com um ar reflexivo, intimista, introspectivo, humano. A questão era a de ele ser dado a pessoas diferentes, atrair estranhos, ter facilidade de fazer amigos e de perdê-los. Epa! Esse não era eu não, Carlos? E ele continuou a revelar: “Gente é assim: estranha!”.

Enquanto inda me “estranhava”, passou a relatar seus sonhos com Clarice Lispector (ele é fã dela e até emprestou seu nome à filhinha que protagoniza uma das peças do jogo de Memória...) e, numa experiência fantástica, sentia-lhe o cheiro do cigarro pela manhã. Fiquei a matutar esperando vir a minha hora de estrela, enquanto ele perguntava sobre o que fora feito da máquina de escrever que a escritora deitava às pernas na excitação de trabalho. Queria roubá-la, já pensou? Que atrevimento, rapaz... Censurado, mudou de assunto, pôs-se em discorrer sobre generalidades: preços de livros nos sebos, a deliquência de jovens batendo em moças (pensando serem prostitutas), a violência dos “pobres garotos ricos” contra o índio Galdino e a intolerância (temáticas recorrentes nas crônicas “E você, já matou seu mendigo hoje?”, “Ebâneo”, “Maioridade Mental”, “Meninos e meninas, um tostão cada!”, “No olho da bárbarie”, “O homem visível), a “festa do aconchego” americana, onde, pela bagatela de US$30,00, se pode garantir duas semanas de êxtase (ou pelo serviço delivery de “carinho por encomenda”), além de dicas de filmes, de livros (“livros que falam de livros”), de DVDs de shows e musicais, curiosidades como “Madame Oráculo”, o paradeiro do Belchior, a morte de Orides Fontela, o grito do poema de Manuel Bandeira, as saudades de Mercedes Sosa e Maysa, lembramentos dos tempos do Marista Cearense, das mangueiras no quintal de sua avó (parecia que ela era a minha. Seremos parentes?), do show do Edu Lobo no Dragão do Mar e, quebrando a paz estendida, sacrilegiou ao afirmar que “Se Deus existisse, teria inventado José Saramago”, finalizando com o debate sobre a Felicidade Interna Bruta, o FIB, a transformação coletiva, e a crença de que “Tudo está no olho de quem lê”, pondo em desfile as palavras que mais gosta e as que detesta.

Pois é, estava até disperso quando o Carlos voltou à reflexão, a dar cambalhotas no pensamento com a sua inquietude diante desse mundo bárbaro, desigual e injusto. Tão injusto a ponto de achar que “um John bom é um John morto”. Não, meus amigos, ele se refere ao John Travolta e não ao cantor de “Imagine”. Seria bom se todo mundo fosse assim, meio John”... Só lendo para saber, mas o que sei, é que eu também o gostaria. E falando de gente, comenta “Da arte de ser Monga” (a moça gorila, lembra?), sobre o fracassado prefácio prometido ao Mateus da Silva (artista plástico e poeta — “um dândi às avessas”) e deu para perceber que o Carlos nas horas vagas, vagueia, “sem dizer adeus”, entregue ao prazer do “ócio da mais pura vadiagem”. E foi então que descuidou e caiu no engano da poesia... era só o que faltava... A poesia bem vestida em “De antúrios, crisântemos e gardênias” — dia nublado e há vinho suficiente —, em “Ela, o arco-íris” — uma coisa que ele não aguenta é vê-la triste, com todas aquelas palavras não ditas, negadas por sua boca, mas penduradas nos seus grandes negreiros olhos —, em “Quando a primavera chegou” — Era um dia desses em que o vento balança naus em oceanos de desesperança. Quanto tudo nada mais era do que pura cinza, ela surgiu montada numa cadeira ao estilo Salvador Dali, ao estilo Bottero — e em “Olhos de chuva” — sempre que chove, lembro de pessoas que gosto e que gostam da chuva. Algumas delas parecem ter olhos de chuva!

Hoje chove. E muito. Lembrei de quem gosto e do Memória de Peixe, ambos com gosto bom de chuva e de gente.


Raymundo Netto


Para adquirir o Memória de Peixe e/ou conhecer mais do Autor: carlos.oak@hotmail.com