domingo, 10 de abril de 2011

Lançamento "História Entre Mundos", de Raquel Catunda, prêmio Rachel de Queiroz da SECULT (15.4)

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Lançamentos Títulos Prêmio Eduardo Campos de Dramaturgia da SECULT


Histórias de Roça: ciranda, cirandinha venham monstros cirandar

de Elias de França


Açucena não é Flor que se Cheire

de Lourival Veras


— ganhadores do Prêmio Literário para Autor (a) Cearense

Prêmios Eduardo Campos, de DRAMATURGIA, da SECULT/CE —


Data: 9 de abril de 2011 (sábado)

Horário: a partir das 19h30min

Local: Teatro Rosa Moraes (os autógrafos acontecerão na Academia de Letras de Crateús, Ceará)

Para aquisição de livros e contato com os Autores:

Lourival Veras - lmveras2@hotmail.com – (88-9201.5010)


Sobre as Obras:


Açucena não é flor que se cheire

No meio dos sertões nordestinos, lá nos recônditos, ainda há temas extremamente delicados. Sexualidade é um deles. Para muitos, os gêneros são apenas dois, e basta. Homem é o macho, o provedor, aquele criado com a função primordial de ser o par da mulher. Mulher, por outro lado, é a figura da casa, filha, mãe, esposa... e sem defeitos, que essas figuras não os tem. E quando algum foge a essa lei, é sempre filho de outro, nunca gente de nossa própria prole. Açucena é assim, com gente dos dois gêneros, mas divididos em outros, que ninguém precisa saber. Homens poderosos, brutos, típicos estereótipos do macho, e outros nem tanto. Mulheres femininas, criadas para as prendas domésticas, mas nem todas. Açucena é o "mundo da cidade" invadindo o sertão. São coisas que nunca se viu, embora tenham sempre existido. Peça nascida apenas para suprir um vazio momentâneo de texto da Cia. Os Cara da Arte, de Crateús (CE), acabou caindo no gosto dos atores/atrizes e do público, lotando o teatro em todas as suas apresentações. Premiada no Edital Literário para Autor(a) Cearense, da Secretaria da Cultura do Estado, agora ganha outras possibilidades de divertir mais e diversas platéias. Açucena não é flor que se cheire é como sua protagonista, feito para trazer alegria a todos. Boa leitura, boa montagem, feliz diversão.


Elias de França - escritor


Historias de roça: ciranda, cirandinha venham monstros cirandar


“Botar sentido na roça é proteger as sementes do futuro”. Esta frase do personagem Espantalho resume a mensagem central do texto, que é a atenção que devemos ter com a formação da criança, se quisermos ter uma nação com futuro mais promissor, onde os indivíduos, além de deveres, tenham também direitos assegurados, por exemplo, à saúde, à justiça, enfim, à dignidade humana e à cidadania. Para isso, o autor lança mão de figuras bizarras, conhecidas do universo infantil, de forma concreta ou abstrata, através do folclore, mitos, acalantos e lendas, criadas para assustar as crianças, ou, ainda, fazê-las entender conceitos como: bem/mal, pode/não pode, certo/errado, dominante/dominado... Estas figuras, personificadas nos atores e suas falas e atitudes, irão sutilmente despertar nos expectadores a consciência do “botar sentido no Mundo”, isto é, estar atento e participante. Esta preocupação deve ser constante e, conhecedor desta necessidade, o autor sabiamente se utiliza de figuras atemporais para transmitir sua mensagem. Assim, ao mesmo tempo em que se divertem, estarão diante de algo para além de mero entretenimento, assimilando conceitos que, vivenciados, farão com que mudem para melhor, mudando também o ambiente em que vivem. Montado uma única vez por meninos trabalhadores de Roça de um distrito Rural de Crateús, obtendo três prêmios no Festival de Teatro Estudantil da Cidade, contemplado também no IV Prêmio Domingos Olímpio, em dramaturgia, e agora virando livro com o Prêmio Literário para Autor Cearense da Secult, “Ciranda, Cirandinha, Venham Monstros Cirandar”, como texto, roteiro teatral e como pesquisa do imaginário e das problemáticas infanto-juvenis faz jus ao reconhecimento que tem tido. É uma obra original de raiz e sempre atual. Diríamos mais: é um texto interessantíssimo, oportuníssimo que educa e diverte.


Socorro Bezerra Pinho - jornalista

"Turistas Acidentais", crônica de Ana Miranda para O POVO (9.4)


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Tem gente que detesta turistas. Nossa querida Rachel, mesmo, dá-lhes uma descompostura numa crônica, fala de seus “trajos ridículos”, de seus “impulsos recalcados em anos de inferioridade que rebentam” numa violenta metamorfose cultural, em sua pose de “conquistador em terra vencida”. Insolentes, mal-educados no trato, desrespeitosos, petulantes, gozadores, odiosos, importunos, “gafanhotos à solta num roçado”. São um mal necessário, que “só se tolera porque é uma fonte de renda apreciável”. E sugere que se distribuam livrinhos de boas maneiras, explicando os costumes e tradições locais, ensinando regras mínimas para que se comportem como visita em casa alheia, entendam que “aquela cidade, aquela aldeia, por ser diferente da sua, por carecer de certas amenidades da civilização, é um agrupamento humano respeitável, cheio de tradições, orgulhoso do seu passado, da sua gente, dos seus costumes, daquele complexo de evocações, parentesco e lembranças”.


Dizem que Rachel sofria com turistas que iam ver a sua fazenda, “Não Me Deixes”. Os que chegam aqui na minha praia incomodam, sujam, fazem festas ruidosas madrugada adentro, estacionam na frente da minha garagem e jogam cacos de garrafas e pontas de cigarro no meu jardim, conversam em altos brados debaixo da minha janela em horas tardas, entre outros inconvenientes. Geralmente, pessoas de lugares não muito distantes. Os estrangeiros, alguns, fazem outro tipo de violência. Assim que me mudei para cá, vieram bater à minha porta duas meninas de uns 12 anos, vestidas em roupinhas provocantes, perguntando se aqui ia morar algum “gringo”. Cortaram meu coração.


Realmente, o turismo é uma “indústria” difícil de controlar. Vem gente de todo canto do mundo, trazendo suas ânsias e costumes, suas exigências compradas em geral com economias do ano todo, e a vontade de sair como “marinheiro bêbado em porto livre”.


Mas a verdade é que o turista é também um retrato da cidade que o acolhe. Se há sujeira nas ruas, o turista joga seu copo de papel e guardanapo nas ruas. Se há barulho, ele faz barulho. Se há prostitutas, ele as prostitui. Se há esbórnia, ele esbornia. Se há descontrole, ele se descontrola. E o tipo de turista que viaja para cada cidade vai em busca do que ela oferece. Se a cidade oferece museus, concertos, aquários, passeios bucólicos e ecológicos, paisagens, atividade educacional, científica, folclórica, esportiva, atrai um tipo de turista mais refinado e calmo, mais respeitoso, e mesmo, de maior poder aquisitivo. Se oferece carnavais, boates, bares, humor primário, paredões de som, atrai mesmo é a turma da pancada. “Venham se esbaldar”, oferecem, mas depois, não reclamem. O turista quase nunca é acidental.


Vi uma vez, numa feira europeia, um estande brasileiro coberto de cartazes com fotos de mulatas de costas e quase nuas, enquanto tocava um samba tonitruante. Era o próprio Governo oferecendo nossas plagas, dentro de um conceito colonial, em que “não existe pecado do lado de baixo do Equador”.


Eu mesma, voltando de meu turismo familiar, quando vou à Califórnia visitar meus netinhos, a primeira atitude é atravessar a rua fora da faixa de pedestres feliz da vida com a minha liberdade. Porque lá, não atravesso a rua no sinal vermelho, mesmo quando não há nenhum carro à vista, porque sei que um morador vai me criticar e exigir que eu me comporte dignamente dentro dos costumes locais. E só me sinto bem aqui em meu país, onde me acostumaram com a liberdade. Mas essa liberdade fascinante de que fruímos, e encanta os estrangeiros de países amarrados em normas de comportamento, que aqui se sentem tão felizes, tem um preço. Nosso desafio é encontrar um equilíbrio entre regras e liberdade.


Nós todos somos turistas, algum dia. Mesmo o mais pobrezinho um dia toma um ônibus e vai para o interior, visitar uma avó; bandos se arrumam em frete e o grupo vai espairecer numa praia não muito distante. Quem é que não precisa de contato com a natureza, um banho de cachoeira, um castelo na areia, uma caminhada nas matas, olhar as vaquinhas no pasto, sentir o vento debaixo de um coqueiral, tomar uma cervejinha com os pés nas águas frias do maceió? Ou umas voltas nas antigas ruas parisienses, comprinhas em Miami, diversão em majestosos parques infantis, shows de baleias, ou de jazz? Quebrar a rotina, ver novas paisagens, novos comportamentos, esquecer os problemas, as regras, o frio, a neve, a parede da própria casa, a janela que dá para outra janela, o cimento diante de cimento...



"Famílias Contemporâneas", artigo de João Soares Neto para O Estado (8.4)


Tome cuidado ao falar. Especialmente, se você estiver com gente jovem. As relações entre eles, amizades, namoros, e mesmo os casamentos, são fluidas. Assim, atenção ao perguntar por fulana ou sicrano. Pode já ter deixado o rol de amigos, a relação estável ou até o casamento. Não mexa em caixa de maribondos. Hoje, crianças passam a conviver com outras, até então desconhecidas, que, na verdade, são filho (as) do namorado (a) ou companheiro (a) da mamãe e/ou do papai que já não vivem mais juntos. Até se falam, mas cada um na sua.


Nesse tempo de relacionamento complicado, duas pessoas (pai e mãe), os que não estão — pelo menos naquele determinado momento — com novos relacionamentos, sempre ficam de fora. E, são eles, geralmente, os que apimentam ou fustigam as relações com os filhos, intrigando-os contra os pais/mães e seus novos relacionamentos. Os filhos, muitas vezes, passam a não entender nada e ficam confusos. Os pais se amavam tanto.


E agora? Começam, em face das novas relações de seus pais, a ficar parte do tempo na casa de avós que, se aposentados, têm tempo disponível. Têm tempo, mas ainda não absorveram a volatilidade dessas relações amorosas contemporâneas. O problema, nesses casos, é o ajuste dos sentimentos, das ideias e da linguagem para entender a mistura dos filho (a)s do (a)s filho (a)s com os filho (as) do(a) novo (a) cara permanente ou passageira que desponta nas festinhas de aniversários e até nos cafés e almoços dominicais.


Quem é? Começou quando? Meu Deus, isso é o fim do mundo, são os costumeiros comentários dos parentes, especialmente do (as) tio (a)s que nada têm a ver com a história pessoal do (a) sobrinho (a). Os avós, irmãos do (a) tio(a), ficam compassivos, mudos, olham para o infinito, pouco entendem a peça que o tempo lhes pregou e da qual passam a ser atores.


As ramificações surgidas nessas novas relações ficam embaralhadas. De repente, o (a) filho (a) deixa três crianças na casa de seus pais. Duas, são netos (as) e a outra? É filho (a) do moço que estava na direção do carro e, sequer, desceu para cumprimentar. E o que fazer para juntá-los? Como ter a naturalidade com uma criança estranha que, sem mais nem menos, chega, com os (as) netos (as) queridos (as) para um fim de semana prolongado e a primeira coisa que fazem é pegar e mexer no novo celular do avô para jogar?


Enquanto isso, os amantes, ficantes ou casantes se mandam para algum lugar sem barulho das crianças que geraram e prometeram criar com amor, assistência e presença. Crianças, todos sabem, são manipuladores, e os avós, nas ausências dos pais, pagam o pato, mesmo que estejam a tomar remédios para o diabetes, hipertensão, gota e as colunas vertebrais não aguentem abraços fortes dos netos que vêm em desabalada e inocente correria.


E há ainda as reclamações dos (as) filhos (as) quando voltam dos seus passeios: essas crianças não tomaram banho e as mochilas ainda não estão arrumadas? Os avós, silentes, sem terem sequer recebido um beijo dos (as) filhos (as) que chegam esbaforidos (as) e apressados (as), ajudam a fazer as mochilas, se despedem dos netos e do novo (a) “sobrinho (a)” que, todo (a) feliz, diz: “Tchau, tio. Gostei, vou voltar. Até breve!”

quarta-feira, 6 de abril de 2011

"Coisas Engraçadas de Não se Rir VI: O Mundo do Macho", crônica de Raymundo Netto para O POVO (6.4)


http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2011/04/06/noticiavidaeartejornal,2121981/coisas-engracadas-de-nao-se-rir-vi-o-mundo-do-macho.shtml


Mulheres são os seres mais machos que eu conheço. Não é brinquedo, não! Inimigos, vá lá, mas inimigas, Deus nos sempre livre!


Estava em mourejada redação de jornal quando apontaram Maria Luíza Fontenele e a Rosa da Fonseca. A Rosa, ao sorrisão largo, tascou-me no peito um panfleto onde propagava em alvo no negro, como se lhe costuma: “O Mundo do Macho Acabou!”. Ri-me: — Rosinha, acabou mesmo, mas faz é tempo, viu? Esse mundo em que a gente vive, se engane não, é fêmeo!


Ela protestou, claro, assim não fosse não seria a Rosa, e sim, o cravo, sabido na cantiga imemoriável quem nesta batalha se deu mal. Da mesma forma, aconteceu com o Adão, rascunho divino, desmoralizado perante Autarquia celeste, porque deu ouvidos à costela dominante em troca de noite festiva no paraíso, e já por saber, à sabedoria do Criador, que se ter uma mulher aborrecida ao lado é um inferno! Entre Adão e a serpente, obviamente, ouvia ela à rastejante, modelo que deu origem à atual “ahmiga...”, aquela que não larga do pé de sua esposa e que faz o possível para que ela não esqueça nem perdoe as suas menores falhas, além de vitimá-la, em cada telefonema, da felicidade improvável antecipada à provável traição.


Quem sempre decide são elas — não é à toa que Machado e Alencar as conferiam vulto em suas obras, por sabê-las “formadoras (tomadoras) de opinião”, como ainda hoje elas o são — mas botam a culpa em nós, machos, sexos frágeis e abestados, destinados à escassez e pré-extinção — alguns de nossos representantes também querem ser mulheres e algumas representantes delas também querem “pegá-las”. Só nos é permitida a existência porque as conservadoras não se acostumaram, ainda, com a ideia do sexo não ortodoxo. Aliás, com o rumo da tecnologia genética, o homem está para perder seu status procriante. Há quem se vanglorie por não mais precisar do incômodo de se deitar com um monótono macho para garantir a perpetuidade.


Alguns homens — benditas “havaianas” —, sabemos, só não são chutados de casa porquanto existem baratas, “ser temível e enorme” que, conforme as proféticas conjeturas, sobreviverão por toda eternidade ao holocausto, à guerra nuclear e à humanidade. Assim, longevo se dará o matrimônio, criação humana (provavelmente feminina), pelo “barato”, criação do onipotente.


Fez-me lembrar, agora, uma história de caserna: Um bando de soldados desorganizava-se num pátio quando o sargento gritou para que se alinhassem em duas filas. Na primeira, os homens viris que dominavam as suas mulheres e, na segunda, os pobres diabos que por elas eram dominados. Qual não foi a surpresa do militar — e a nossa, não soubéssemos o quanto esses seres são ingênuos — ao perceber que na primeira fila havia apenas um soldado, enquanto que, na segunda, disciplinadas, as criaturas verdes, nas pontinhas de dedos, cobriam-se (no exército “cobrir” é questão de ordem unida, sem maldade...). Indignado, berrou: — Seus frouxos, vocês não honram nem as calças que vestem! Que vergonha! Ainda têm a coragem de se dizerem homens? Há apenas um, um único macho nesse regimento... — e apontando para o bravo paladino, exigiu: — Soldado, dê-nos o seu exemplo. Diga-nos agora como fez para conquistar a honra de estar nesta fila!


O indivíduo, mais solitário que uma tênia, deu com ombros e respondeu murcho como uma flor de janela: — Eu não sei, não, senhor... minha mulher mandou que eu ficasse aqui...


Raymundo Netto que prefere estar, por todos os motivos, com mulheres a homens.

Contato: raymundo.netto@uol.com.br


segunda-feira, 4 de abril de 2011

Lançamento "Frei Damião: o missionário, pelo Armazém da Cultura (7.4)


Frei Damião: o missionário

de Frei Francisco Lopes de Souza Neto


Data: 7 de abril de 2011, a partir das 19h

Local: Livraria Cultura (Shopping Varanda Mall – av. Dom Luís, 1010)


Sinopse: O livro Frei Damião - O missionário, de autoria de frei Francisco Lopes de Souza Neto, narra a vida e obra do frade capuchinho italiano que veio para o Nordeste brasileiro na década de 1930. Venerado por fiéis, frei Damião fez peregrinações pelas cidades nordestinas, disseminando suas “Santas Missões”. Para muitos é considerado um santo, e atualmente encontra-se em processo de beatificação. Ao mesmo tempo, Damião é visto como um grande comunicador, por conseguir arrastar multidões para ouvi-lo, aguçando a curiosidade da imprensa, tornando-se um mito e símbolo para seu povo. De acordo com o autor, é possível dizer que existe uma aproximação entre frei Damião com Antônio Conselheiro, padre Ibiapina e padre Cícero. Ao folhear e ler as páginas desta obra, percebe-se o empenho do autor num trabalho contínuo de uma vasta pesquisa bibliográfica, a fim de organizar um manual literário com capítulos e temas selecionados de conteúdo sintético, narrando a trajetória de vida de frei Damião.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Momento Teórico-Literário: "O Que é Conto?", por Nilto Maciel


Os manuais e os dicionários de literatura ensinam que o conto deve ter em si um só drama, um só conflito, uma só unidade dramática, uma só história, uma só ação, uma única célula dramática. Por isso, o conto rejeita as digressões e as extrapolações, ou seja, o passado anterior ao episódio é irrelevante, assim como o são os sucessos posteriores. Sendo o tempo limitado ao momento do drama, também o espaço seria circunscrito a uma sala, um cômodo. Sendo tudo tão restrito, por que as personagens seriam muitas? E a linguagem do conto? A da concisão, com predomínio do diálogo. Chegado o epílogo, o contista há de ter guardado um enigma. Ou o desfecho inesperado, embora determinado desde o começo. E mais uma infinidade de regras, limites, modelos.


Se todos os contistas assim elaborassem contos, há muito teríamos deixado de lado esse gênero cada vez mais rico, por se empobrecer, se uniformizar. Pois não é difícil escrever conto com obediência ao enunciado nos manuais. Os próprios escritores de manuais, os dicionaristas, os professores de literatura, os estudiosos do conto seriam bons contistas. Bastava-lhes seguir o modelo. E assim se deu durante muito tempo. E assim se dá há muito tempo. Não se pode negar, no entanto, que bons contistas não se afastaram de todo (ou em todas as composições) desse molde. Machado de Assis elaborou contos de estrutura tradicional. Guimarães Rosa também. E tantos outros. Assim como escritores medíocres realizaram contos de forma nova, moderna ou revolucionária. Ou seja, o bom conto tanto pode se moldar na tradição como na inovação. Ou não se moldar a nada.


Wilson Martins, no artigo “Contistas”, fez estas observações: “Em termos de literatura, escrever um conto não é contar uma história por escrito — é contá-la com estilo literário, ou seja, com elegância linguística, verossimilhança, sábia estruturação no desenvolvimento da intriga, desenho convincente no caráter dos personagens e invenção de pormenores, tudo concorrendo para defini-lo como obra de arte literária. Também nessa arte tem validade a lei de economia segundo a qual a moeda má expulsa a boa: desanimado com a enxurrada de pseudocontos publicados por pseudocontistas, Mário de Andrade, em desespero de causa, declarou ser conto tudo o que os autores designam como conto – afirmação sarcástica cuja ironia passou larga e convenientemente despercebida, com este resultado inesperado e não menos irônico: passou a ser conto tudo o que se publicava como conto…”


Segundo Assis Brasil, em A nova literatura (Rio de Janeiro: Companhia Editora Americana, 1973), o conto brasileiro se renovou com Samuel Rawet, cuja estréia se deu em 1956 na coleção Contos do Imigrante. E assim argumenta o crítico: “Aquela história linear, de começo, meio e fim, prima-pobre da novela e do romance, quebrava sua feição tradicional em busca de outros valores formais” (…) “o conto adquiria uma forma autônoma, não mais ligado ao convencional do enredo.”


Muitos são os contistas e poetas que mantinham engavetados (ou, melhor dizendo, arquivados em computador) seus escritos e, estimulados por leitores de sites e blogs (também escritores em potencial), resolveram publicar o primeiro livro. Alguns não vêm de muitas leituras, de muitos exercícios de escrita, ou leram e leem, apressadamente, tudo o que lhes aparece diante dos olhos, desde piadinhas e os chamados “contos eróticos” até clássicos da literatura universal. Leituras açodadas, sem anotações, sem consulta a dicionários, etc. A maioria desses novos escritores segue uma linha, um roteiro, uma estrada larga e longa, certos de que lhes espera a fama, a glória. Não conhecem as veredas, os atalhos, as pedras no meio do caminho, os córregos escondidos na mata. Muito menos os subterrâneos e os céus. Vão em procissão ou atrás do trio elétrico. Todos juntos, unidos, de mãos dadas. Seguem o padre, o pastor, o caminhão do som. Cantam o mesmo refrão. Estão na folia de reis ou na folia do carnaval. São foliões.


Poucos desses contistas e poetas novos vêm da leitura dos contos de fadas, dos poetas românticos, parnasianos e simbolistas, dos romancistas russos e franceses do século XIX, dos rabiscos na adolescência, dos primeiros versos na juventude, dos arremedos de contos e romances ao tempo da escola e da faculdade. Poucos se vão fazendo escritores. Sabem que não nascemos feitos, prontos. Muito menos que esse “estar pronto” (ou quase pronto) não se dá num passe de mágica.


Estreou em livro Graciliano Ramos aos 41 anos de idade. Isto não quer dizer que tenha começado a escrever tarde. O exercício de escrever está para o escritor como o exercício de andar e falar está para os recém-nascidos. O aprendizado faz-se lentamente. Escrever, no entanto, não é um mecanismo inerente a todos. Como não o é compor música ou pintar quadros. Exercitar o ato de escrever pode resultar num São Bernardo, após anos e anos de exercício contínuo, diário, quase febril. Ou pode redundar em historietas de gosto discutível. Isso quando o candidato a escritor é muito pretensioso. Quando não o é, termina escrevendo artigos ou reportagens. Se chegar a tanto.


A arte, ao contrário da ciência ou da sabedoria, é um mistério até para seu criador. Porque o artista é também um homem comum, embora momentaneamente arrebatado pelo mistério da arte. O artista não “entende” a arte que ele mesmo reflete, exceto no instante da “criação”, ou, melhor dizendo, da captação. Se o chamado artista entende sua chamada arte, nem ele nem ela são artista e arte. São copiadores, no pior dos casos, ou técnicos em escrever, no caso do simplesmente escritor. Ou apenas homens inteligentes. O artista não é necessariamente um homem inteligente.


O narrador (autor de prosa de ficção), como o poeta, é um curioso, um escavador, um repórter. Um vagabundo à cata de aventuras, de pessoas, de fatos. Para disso extrair a matéria-prima de suas “criações” ou “criaturas”. Os outros não percebem nada, porque, no máximo, veem. Ou não veem, porque não buscam ver.


Nenhum ficcionista cria tipos, inventa personagens. Se o fizesse, estaria abstraindo o homem e fracassaria como escritor. O que realiza é, primeiro, uma descoberta, porque o ser humano é sempre terra desconhecida. Descobre o seu semelhante. Crê na sua existência, como os navegadores antigos acreditavam nos mundos novos. E parte no seu rumo. E o explora, sozinho. Penetra-o, confunde-se com ele. Revela-o. O ficcionista é um revelador. De mundos reais e quase sempre ignorados.


A história curta, tradicionalmente conhecida como conto, não só tem servido de objeto de discussões de ficcionistas e teóricos da literatura em busca de definições, como tem dado ensejo a constantes rebatismos, mercê das transformações que tem sofrido. Muitos encontraram belas e grandiosas definições. Arranjar, porém, novos nomes para o gênero parece tarefa sem proveito. Porque a cada definição e a cada transformação seria preciso um novo batismo. Assim, o termo relato, se serve a Borges, não se amolda a Rubião. Até um mesmo escritor cultua o gênero sob diversas formas.


Todo contista sonhará escrever um grande romance? Contos mais longos seriam ensaios para romances? Talvez sim, inconscientemente. Ensaio que não deveria ser levado ao palco, sob pena de vaias do público. Os bons narradores escrevem contos ou romances e novelas. Nunca confundem alhos com bugalhos.


Talvez seja equivocada a ideia de unidade temática em livro de contos. Ora, uma peça curta, como conto e poema, será sempre uma peça curta, mesmo que momentaneamente inserida num volume junto a outras. Quando se fala de “Cantiga de esponsais”, pouco importa se foi publicada neste ou naquela coleção de Machado de Assis, embora só pudesse estar em Histórias sem data, porque assim o quis o autor. Mas isso não significa nada para o leitor (é de interesse do pesquisador, do estudioso, do historiador, etc).


Os gêneros literários estão em constante mutação e interligação. No Brasil ainda se praticam contos aos modos de Flaubert, Balzac, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Edgar Allan Poe, Maupassant, Tchecov e outros, todos diferentes entre si. Uns se perdem no meio do caminho e enveredam pela crônica. Outros querem escrever História, que também é crônica. Há até o conto-ensaio. A maioria, no entanto, permanece presa aos ditames do velho e bom realismo. Uns não se afastam do sertão ou do mundo rural. Outros se transviam pelos becos das urbes. Há os que não sabem de matos nem de ruas e preferem os meandros da mente. Uns leram muito, outros nada leram. Uns souberam vagar pelos abismos de Poe, pularam fora dos livros, outros permaneceram de olhos vidrados na paisagem aberta diante de suas janelas. Uns se exercitaram mais, outros se contentaram com os primeiros mugidos. Tem sido assim, é assim, será assim sempre.

Não há mais o conto, no sentido tradicional, dicionarizado do termo. Conto é apenas termo literário de manual e dicionário. Para orientação dos editores e dos professores de literatura. Quem disse que Machado só escreveu contos, romances, poemas e crônicas? Gilmar de Carvalho escreve legendas, Carlos Emílio escreve delírios verbais, Jorge Pieiro escreve contemas, outros querem imitar Maupassant ou Tchekov. O que importa não é a forma, se há atmosfera ou não, se há enredo ou não. Ser ou não ser conto, isto é lá para os filósofos. Importa ser arte literária.

"Ainda Sobre Sapatos", Tércia Montenegro, para a OPINIÃO de O POVO


A crônica que publiquei há quinze dias, neste jornal, foi tema de conversa em certo ambiente da boemia cearense. Certamente o assunto não teria vindo à baila se eu não estivesse presente, pois dissertar sobre sapatos não parece ser coisa comum ao repertório masculino. Entretanto, como eu tinha feito uma aparição surpresa no tal barzinho, os amigos fizeram essa homenagem, de comentar a crônica e até desenvolvê-la.


“É possível identificar a personalidade de alguém pelo calçado”: era o que me dizia um colega, na hora em que todos atingiam a terceira etapa etílica e se tornavam súbitos sábios. “Sapatilhas românticas não costumam ser usadas por mulheres de estilo vampiresco” – revelou outro – “Essas jamais abandonam o salto-agulha, arma de mil utilidades, que usam, por exemplo, para palitar os dentes no escuro de um toillete, ou para semelhante uso por baixo das longas unhas esmaltadas. Ocasionalmente, os saltos podem transformar-se em punhais, principalmente dentro de uma alcova em que reine o ciúme. Então, dificilmente alguém desconfia do rastro de gotículas... Talvez apenas um velho sapateiro suspire, acostumado a encontrar nas virolas um vestígio de sangue.”


“Mas sandálias havaianas costumam passear por todos os pés em veraneio, sem discriminação”, disse eu. “Porém” – interrompeu um amigo – “apenas os dotados de um perfil malandro ou, para sermos mais sutis, um jeito relaxado, gostam de usá-las todos os dias, a qualquer hora. Nada contra tais usuários! Ao contrário, estes são os da minha simpatia” – continuou ele – “pois demonstram o amor à liberdade e ao conforto.”


“Tênis também passam sensação equivalente” – interferiu alguém. A resposta: “Depende. Conforme o modelo ou o estilo, podem ter a suavidade de um chinelo ou pesar como cimento sobre esquis...” Naquela altura, aproveitei para comentar que sapatos de escritório me parecem sempre antipáticos, com suas pontas agudas, um jeito de jacaré. Ficam ali, em cores neutras e sóbrias, incapazes de tamborilar distraídos: é que, por dentro, trazem dedos tensos, esmagados entre a palmilha e o cadarço.


Ninguém escutou aquelas considerações finais. Estavam todos em novo assunto, que (admiti) era mais apropriado ao ambiente. Eu tivera cinco minutos de prestígio, lançando o mote de um debate; agora, era a vez dos velhos e queridos temas: literatura, fofoca, piadas.


Só por curiosidade, lancei um olhar para debaixo das mesinhas de plástico. Ali, por entre garrafas vazias, unidas no feitio de buquês de vidro, estavam os pés de todos: pares em diversas posições e tamanhos – mas unânimes, àquela hora, em se despir dos calçados que traziam. Inclusive eu tinha me libertado das sandálias e pisava com displicência sobre elas.

"Insônia", conto de Pedro Salgueiro, para O POVO


Começo de madrugada. Cachorros ladram. Um burburinho chega da vizinhança. Agora um vento frio entra pela claraboia. De quando em vez um galo canta, e espera a resposta dos outros. Um soluço corta o silêncio na casa ao lado: alguém chora um antigo amor? um pai lamenta o destino da filha? Ao longe uma sirene, bem mais distante um sino toca. Seria já manhã? Ou todos os ruídos da noite confluíam para aquele quarto simples de subúrbio: todos os lamentos perdidos, súplicas vãs, soluços de arrependimento ecoavam pelas paredes, farfalhavam entre as folhas da acácia, resvalavam nas frestas da persiana — um milhão de minutos pingava no relógio da sala: os rostos dos familiares mortos ganhavam uma nitidez surpreendente. Outro galo confirmava a madrugada, a mesma madrugada de outras épocas, como aquela em que amarraram o bêbado Napoleão no centro da praça — merecido castigo por seu misterioso crime — quando se fecharam todas as janelas: menos uma, logo aquela... a culpada de tudo. Um grilo agora eternizava a madrugada, fazendo com que a manhã fosse uma esperança perdida, um sonho que nunca se realizaria.

PDA da FIEC conclui PLANO DE AÇÃO para a Câmara Cearense do Livro


O Programa de Desenvolvimento Associativo (PDA), realizado no âmbito da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC) pelo Instituto Euvaldo Lodi (IEL/CE), concluiu em março a elaboração de um plano de ação para a Câmara Cearense do Livro (CCL).


A entidade é formada por livreiros do Estado e tem o objetivo de expandir o mercado de produções literárias local pelo país. Nesse sentido, o PDA atuou como catalisador dessas necessidades com vistas à prospecção de novos nichos mercadológicos. Segundo Lúcia Abreu, coordenadora do trabalho, a intenção da iniciativa é reforçar essa cadeia de produção literária no estado para que possam expandir suas atividades pelo Brasil.


Nesse sentido, diz ela, estão sendo sugeridas ações como a criação da Escola do Livro, que será voltada à qualificação de mão de obra para atuar no segmento de produção literária. Outra proposta é realização de eventos para divulgar o trabalho dessas empresas no Ceará, como a implantação da Feira do Livro Cearense.


De acordo com Lúcia Abreu, a CCL é um braço do Sindigráfica, e o que se nota é que muitas das empresas gráficas também atuam no mercado de produção literária. Por isso mesmo necessitam de ações específicas de mercado.


Ela ressalta ainda que não há um perfil definido desse segmento de produção livreira no Ceará, o que exige também um diagnóstico mais preciso visando essa transparência. Lúcia Abreu afirma que, apesar disso, durante o processo de elaboração do plano de ação ficou claro o potencial desse mercado no Ceará, que envolve uma grande cadeia produtiva.


A técnica do IEL afirma que muitas dessas ações poderiam ter maior abrangência fora do Ceará caso houvesse um planejamento voltado a esse objetivo.