
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Pindaíba de Bolso ("na pindaíba?")

terça-feira, 24 de agosto de 2010
VII Semana de Artes do José Walter (25 a 29 de agosto)
VII Semana de Artes do José Walter
Mostra de bandas do bairro, apresentação de peças teatrais, poesia, folclore, shows musicais, exibição de filmes do festival Nóia, feira de artesanato, literatura de cordel e shows com representantes da cultura cearense, são algumas das atrações da VII Semana de Artes do José Walter que acontece de 25 a 29 de agosto no Centro de Cidadania Adauto Bezerra.
A semana de artes é um encontro anual de artistas, grupos e bandas de todos os estilos do bairro Prefeito José Walter e adjacências em ação conjunta voltada para expressar a arte da comunidade.
Fomentar a cultura da região, plateias e artistas em uma confluência comunitária e cultural provocando o intercâmbio de outros artistas e de Pontos de Cultura de outras localidades é o objetivo a semana de artes do bairro.
A VII Semana de Artes do José Walter é uma realização da associação Cultural do Conjunto José Walter, Rádio Cultura 87, 9, que é Ponto de Cultura do Ministério da Cultura, Secretaria de Cultura do Estado do Ceará e Secretaria da Cultura do Município de Fortaleza com apoio da Secretaria Executiva Regional V.
Serviço: VII Semana de Artes do José Walter
Data: 25 a 29 de agosto.
Horário: a partir das 19 h.
Local: Centro de Cidadania Adauto Bezerra (CSU).
Contato: Virgínia Tavares - 8886.6841
Assessoria de Comunicação SER V: Gerusa Rosa Oliva - 8713-4283.
A Volta de Vinícius de Moraes, na crônica de Ricardo Kelmer, para o blog do Kelmer

Em 1969 o diplomata Vinicius de Moraes foi forçosamente aposentado, após 26 anos de serviços prestados no Brasil, Los Angeles, Paris, Roma e Montevidéu. A decisão do Itamaraty ocorreu no contexto do Ato Institucional no. 5, o famigerado AI-5, que a ditadura militar decretou para conceder poderes extraordinários ao Presidente da República e suspender garantias constitucionais dos cidadãos. A alegação oficial era de que o comportamento boêmio de Vinicius não condizia com a carreira pública.
Na verdade, a boemia foi apenas o pretexto. O que era realmente insuportável para a mentalidade ditatorial era ter, em seu quadro diplomático, um poeta da paz e do amor, artista de sucesso e amigo de todos, um homem popular e amado pelo povo. Vinicius não criticava abertamente a ditadura militar mas a paz, o amor, a liberdade e a alegria que exalavam de sua arte e de sua vida simplesmente não cheiravam bem aos militares.
Evidente que Vinicius ficou muito chateado pela exoneração, ainda mais com a justificativa que teria sido dada pelo governo do Marechal Costa e Silva: “Precisamos limpar o serviço público desses bêbados, corruptos e homossexuais.” Mas ele não perdeu o bom humor. Conta-se que, ao reencontrar os amigos, Vinicius apareceu com uma garrafa de uísque debaixo do braço e foi logo dizendo: “Eu sou o bêbado, viu?”.
Autoexilar-se na Europa e juntar-se aos amigos que viviam lá – Vinicius até pensou nisso mas preferiu ficar no Brasil e continuar fazendo resistência política a seu modo, com a sua arte e sua mensagem de amor e paz. Se oficialmente não era mais diplomata, na prática ele prosseguiu representando e divulgando a cultura brasileira para velhas e novas gerações, no Brasil e no exterior, como nenhum diplomata fez e provavelmente jamais fará. Até que em 1980 ele deitou em sua banheira amiga e deixou-se morrer, vítima de um edema pulmonar. Ele se foi mas nos legou a herança de sua arte imortal e seu inspirador exemplo de vida.
Corta a cena para 41 anos depois. Estamos agora em 16 de agosto de 2010. Nesse dia, em Brasília, numa cerimônia que conta com a presença de amigos e parentes de Vinicius, o presidente Lula assina sua promoção póstuma ao cargo máximo de embaixador, respondendo ao movimento popular que se articulara em pró da reabilitação e promoção de Vinicius. A imprensa de vários países noticiou o fato e certamente muitas garrafas de uísque pelo mundo foram abertas para festejar a reparação histórica. Embora a exoneração tenha sido obra exclusiva de uns militares covardes e mal-amados, a promoção póstuma do nosso mais querido diplomata faz a sociedade brasileira se livrar de um peso moral que carregava havia quatro décadas.
E eu, que comecei a amar Vinicius em minha adolescência, ainda estou aqui vibrando e brindando de contentamento. Mais que poeta preferido, Vinicius de Moraes é um guia que ilumina meu caminho com seu radiante exemplo de vida. E foi para homenageá-lo que criei, em 2009, o espetáculo Viniciarte – Vida, música e poesia de Vinicius de Moraes. Levar às pessoas a vida e a obra de Vinicius, com humor e emoção, é pra mim um grande prazer. Mas também é a melhor maneira que eu poderia encontrar de dizer:
– Obrigado, poeta. Parabéns, embaixador.
domingo, 22 de agosto de 2010
Ensaio de Aíla Sampaio sobre Literatura Fantástica para o Cultura do Diário do Nordeste

Os labirintos da literatura fantástica
"Dolentes", de Lívio Barreto, na Coleção Nossa Cultura

"A Aguadeira e a Flor: memória e ficcionismo", de Arlene Holanda

Publicado pela Conhecimento Editora, em 2009, A Aguadeira e a Flor, obra de 112 páginas, da escritora e designer Arlene Holanda (também autora de Que Bicho é Esse?, Adedonha: o jogo das palavras,Saco de Mentiras; paixão de verdade, Cordel de Trancoso, Caixinha da Memória Ceará, Nina África, O Diário do Sol, Todas as Cores do Negro, O Fantástico Mundo do Cordel e muitos outros), da querida Limoeiro do Norte, que assina também o projeto gráfico e a capa do livro, teve a sua apresentação escrita por mim, e na quarta capa, palavras, como sempre coloridas, de Thiago de Mello. Segue um pouco das duas:
Apresentação
A Aguadeira e a Flor é uma obra para ler, viver e guardar. Livro que tem todo o jeito de uma fotografia, como de Itabira, na parede: como dói... Arlene Holanda, uma artífice da poética e da palavra, em especial a lúdica e popular, liberta as asas guardadas na gaveta, sem remorsos ou alardes, e enfeixa-nos breves histórias que, “cuidadas por ela, vicejam, crescem e florescem numa profusão de cores”. Quase em estilo musical, seu olhar atento, humano, afetuoso, nos apresenta uma trilha fluente de evocações (ou provocações?) da memória, esmerilada em saborosas imagens vividas ou colhidas dos mais antigos, e daí desdobradas e sacolejadas num redemoinho de folhas secas: os comboios em lombo de burros na madrugadinha à procura de arrancho, o cheiro das manhãs de leite mugido, as ferras de touros (só eles — os bisões e as capivaras — “sabem da fúria das flechas e dos homens”), as botijas, os desenhos a carvão na parede em ruínas, os “achadores” d’água, as cacimbas incrustadas no cristalino duro (como a lida sertaneja), as chuvas (e com elas o perfume de terra molhada), as máximas expressas em sabedoria de avós, a serralharia, as vacas pastando em fila indiana, os cata-ventos (muitos deles ventilam o livro), juazeiros, cajazeiras (cajaraneiras?), sapotizeiros, bananeiras, carnaubeiras, oiticicas, juremas, xícaras de café, cadeiras de balanço, velames e rezas, os sítios, os sinos de tempos perdidos, as moças-velhas, o colecionador de chuvas, a encantadora de serpentes, a latada, os medos (“parece ser o destino do homem”), as mantilhas e missais, as cruzes à beira da estrada, e tantas outras mais que nos levam ao “reino do vai-não-torna,/mundo povoado com o assombro/das histórias ouvidas no alpendre”.
Como numa máquina do tempo, descortina as sombras de fantasmas e mergulha em vôo mágico de pavão misterioso que “não permite palavras mordidas entre os dentes/ para que não fizessem um estrago” e nos revela: “O grande segredo/ é que a vida não tem segredo”. E por que escrever? “Sobrevivência?/ Vingança?/ Disputa?” “Essas e tantas outras perguntas jogadas num tempo que ficou para trás quando decidiu parar de perguntar”.
Uma certeza heráclita, porém, sua Aguadeira... nos deixa: “Nunca se lê por duas vezes o mesmo livro./ Nem o livro nem o leitor serão [jamais] os mesmos.”
Raymundo Netto
Li (algumas reli), devagar e como que ouvindo, as histórias que a poeta Arlene teve o gosto bom de contar neste seu livro novo, com um jeito de dizer que é só dela. A sua fala flui como água de regato, que às vezes tem fundura, mas é sempre clarinha. Ela me faz lembrar meu mestre Manuel Bandeira, dizendo que não confiava em poeta que na prosa parece cavaleiro desmontado. Minha confiança nesta cearense não vacila. O leitor há de ver.
As suas palavras caminham pela mão da Poesia, que no andar da contação (era assim que dizia a minha mãe dona Maria, esplêndida contadora), faz questão de dar o ar de sua graça ou vai entrando de cheio pelas frestas da madeira bem lavrada da sua suave prosa. (...)
O leitor vai ficar cismado com o mundo deste livro, que aliás é o mesmo nosso, onde os mistérios têm cores; as coisas têm alma; o verão enlouquece. A nossa única certeza é estar no mundo; as asas são leves como alguém que nada sabe; a saudade não cabe em casa de muitos cômodos; a moça Teresa Brasiliense jaz em continência diante da vida e a ensandecida da casa-do-alto não precisa de corpo para voar.
Te abraço, Arlene, o meu reino é igual ao teu, de árvore e vento, só que o meu tem muita água, da qual te mando a luz de uma escama esmaltada.
Thiago de Mello

