sábado, 21 de agosto de 2010

"Poemas de Mesa", coletânea de poemas do Ideal Clube

Clique na imagem para ampliar!

O Ideal Clube, não é a primeira vez, reuniu, em breve coletânea, poemas de 37 autores cearenses, frequentadores (ou não) da Cesta Literária, dentre os quais: José Telles (editor do Poemas... e Diretor de Cultura e Arte da casa), Ubiratan Aguiar (Presidente do Conselho Curador de Cultura), Aíla Sampaio, Adriano Espínola, Tércia Montenegro, Fernanda Quinderé, Barros Pinho, Batista de Lima, Lúcio e Beatriz Alcântara, Dimas Macedo, Carlos Augusto Viana, Giselda Medeiros, Lourdinha Leite Barbosa, Eduardo Pragmácio Filho, Hermínia Lima, Horácio Dídimo, Dummar Filho, Jorge Tufic, Juarez Leitão, Leda Maria, Luciano Maia, Majela Colares, Pedro Henrique Saraiva Leão e outros, e enfeixou o Poemas de Mesa: coletânea de poemas oferecidos pelo restaurante do ideal Clube.

Composto pela Book Editora e impresso na Tiprogresso, a coletânea de 80 páginas traz alguns dos nomes mais reconhecidos da poesia cearense, como
José Alcides Pinto, Linhares Filho, Artur Eduardo Benevides, Francisco Carvalho e José Costa Matos.

Como recorte, alguns dos poemas, ou de seus trechos, esparramados à mesa do Ideal:

O que mais doi
não é o retrato na parede,

mas o prego ali cravado,
persistente,

no centro da mancha
do quadro ausente.

(O Prego, Adriano Espínola)

(...) a face que me revela
não traz na sua geometria
o sorriso que persigo,
aquela que procuro
perdeu-se sem brilho,
dormiu e sonhou
mas não acordou comigo!

(trecho de Sem Brilho, Aíla Sampaio)

(...) Enxuguem lágrimas
Nas estrelas
Do meu universo
Para que se tornem
Poças de luz
No azul
Da minha poesia morta.

(trecho de Em Tempo, Fernanda Quinderé)

Triste não é saber que não há
nem que não haverá
triste é saber que nunca houve
e que agora para todo o nunca
choraremos.

(trecho de Triste, Horácio Dídimo)

Os poetas são desvarios
vários rios
rindo na solidão
revelam seus matizes
suas torrentes de palavras
e quando negam o sagrado
são pura contradição.

(Trecho de Desvarios, João Dummar Filho)

Eu vi
quando a seta dos teus olhos
furtivamente, como quem se
esconde,
feriu os meus.(...)

(Trecho de Prelúdio, Hermínia Lima)

Os pés dos homens são frágeis,
mas a teimosia de seus passos
acaba alisando as pedras da rua.

(O Milagre das Paciências Itinerantes, José Costa Filho) *

(*) caramba, esse é bom demais!!!

Varanda da intemperança
fio da navalha
tempo de pura ousadia.
No riso de astuta pantera
a paixão nos espera
e a vida vale um dia. (...)

(Trecho de Namoro, Juarez Leitão)

(...) Meus olhos são como os crepúsculos...
Retém o silêncio das torres da matriz
e a voz queixosa dos sinos... são o alaúde
que restou, sem cordas, sobre as ancas do
tempo.(...)

(Trecho de Sonata ao Luar, Giselda Medeiros)

ninguém lembrará
do flandre enferrujado
impresso nas rugas
das mães zelosas
que desaparecem
no fundo das casas
no oco dos cansaços
onde se cose uma família.

(Impressões, de Webston Moura)

"Era uma Vez? Não Mais Era", do Poeta de Meia-Tigela


Era uma vez? Não mais era.
Que te foste e me deixaste
Comigo, sem que eu me baste.
Lançaste-me a mim, à fera

Que me sou: tigre, pantera.
Lacerei-me-laceraste.
Para erguer-me, qual guindaste?
O chão, meu corpo o encera.

Viraste a Contraquimera.
Mas esperei. Troncho, traste.
E agora que retornaste,
Sei que vivi dessa espera.


HomemPrimitivo, sentado à sombra
de Odilon Redon (1840-1916)

Extraído do "CONCERTO Nº 1NICO EM MIM MAIOR PARA PALAVRA E ORQUESTRA", 2º Movimento, Livro 1, Intermezzo, do Poeta de Meia Tigela

Cariri Mostrando a 9ª Arte de Quadrinhos e Animação

Um dos momentos mais bonitos da mostra, fora da mostra. O ilustrador Jô Oliveira, de Brasília, acordava cedo todos os dias e, com sabor de café da manhã, desenhava e pintava as "figurinhas" da Casa Grande de Nova Olinda. Um experiência inesquecível para quem vai guardar carinhosa recordação.

Abertura da Mostra com as palavras de Alemberg Quindins, do teatro da Fundação Casa Grande

Políticas Públicas para Quadrinhos e Animação: Tibico Brasil (BNB), Raymundo Netto (Secult) e Paulo Amoreira (Gibiteca de Fortaleza/SecultFor)

Banda d'além mar (Portugal): Nelson Dona (do Festival de Amadora), Luís Afonso (cartunista) e Paulo Monteiro (Festival de Beja)

Gervásio Santana (TexBR), Sidney Gusman (Universo HQ) e André Diniz (NonaArte)

Nos dias 6, 7 e 8 de agosto, na Fundação Casa Grande - Memorial do Homem Kariri, em Nova Olinda, Ceará, aconteceu a Cariri Mostrando a 9ª Arte de Quadrinhos e Animação.

O evento, patrocinado pelo Banco do Nordeste, BNDES, com parceria do SEBRAE, SESC e Prefeitura de Nova Olinda, reuniu alguns dos artistas envolvidos na cadeia produtiva e de difusão dos quadrinhos e da animação, dentre eles: os desenhistas e/ou roteiristas Spacca (SP), Jô Oliveira (DF), Klevisson Viana (CE), Weaver Lima (CE), André Diniz, Luís Afonso (Portugal), Sônia Luyten (SP), os gibitequeiros Paulo Amoreira (Fortaleza, CE), Maristela Garcia (Curitiba, PR), os colecionadores Max Krichanã (CE) e G.G. Carsan (Pb), os produtores de eventos da Banda Desenhada (histórias em quadradinhos) Paulo Monteiro e Nelson Dona (ambos de Portugal, é óbvio), os animadores Daniel Schorr e Belinda Oldford (com suas experiências no National Film Board of Canadá) e Ricardo Julianni (Núcleo de Animação do Ceará), os músicistas e arranjadores Brandão e Elizah Rodrigues e outros, incluídos na programação ou não, mas apaixonados pela Arte Sequencial e dela fieis trilhadores.

A Fundação Casa Grande apresentou a todos a sua Gibiteca, um trabalho que inveja a qualquer estudioso do gênero. Obras e mais obras sobre formação, roteiros, desenvolvimento da técnica para a boa produção, repito: boa produção, de quadrinhos enquanto arte.

Não sei por que, mas tenho a impressão de que os quadrinhos no Ceará estão experimentando uma fase boa de "renascimento": a Mostra do Cariri, a criação da Gibiteca da Fundação e da Biblioteca Dolor Barreira em Fortaleza, a formação do Fórum de Quadrinhistas, a manutenção da Oficina de Quadrinhos da Universidade Federal do Estado do Ceará (cuja criação teve a participação do Prof. Geraldo Jesuíno), o espaço destinado aos quadrinhos durante a organização da IX Bienal Internacional do Livro do Ceará (com a presença de Waldomiro Vergueiro, Ricardo Jorge, Paulo Amoreira, Hemetério, Baião Ilustrado, Ziraldo, Maurício de Sousa, Sylvio Amarante), a criação do Prêmio Luiz Sá de Álbuns em Quadrinhos da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, enfim, algumas iniciativas que trazem uma nova perspectiva dos quadrinhos à população.

Nossos parabéns à Fundação Casa Grande pela promoção do evento, pelo acolhimento da equipe, e aos convidados pela simpatia e integração durante os dias da Mostra. Que venham as próximas edições.

Informações sobre a Mostra: www.mostradequadrinhosfcg.wordpress.com
ou pelo telefone: (88) 3521.8133

"Admirável Riso Novo", de Klévisson Viana

Clique na imagem para ampliar!

Quiá! Quiá! Quiá! Gargalhadas garantidas para quem conhecer o mini-álbum Admirável Riso Novo (Brave New Laughter) do desenhista e cordelista Klévisson Viana.

Editado pela Tupynanquim, o livreto-antologia de 34 páginas apresenta cerca de 33 cartuns em preto e branco com características do humor cáustico e ao mesmo tempo fino, de uma ingenuidade endiabrada, que o cearense Klévisson há muitos anos distribui aos quatro cantos (do jeito que ele é folgado arranja mais quatro) do mundo.

Klévisson (38), natural de Quixeramobim, é editor da Tupynanquim. Trabalhou em diversos jornais locais como cartunista e ilustrador. Desenvolveu, dentre outros artistas, vinhetas para os intervalos da Rede Globo de Televisão. É autor da A Quenga e o Delegado, que deu origem ao episódio homônimo do programa Brava Gente da emissora. Foi ganhador do prêmio HQ Mix para melhor Graphic Novel nacional, em 1998, com o álbum Lampião: era o cavalo do tempo atrás da besta da vida. É autor da belíssima adaptação de Dom Quixote para quadrinhos. Participou de diversos festivais de humor e em publicações catalográficas em países como a Bélgica, Turquia, Holanda e Itália. Além de difundir a Literatura de Cordel e publicar e comercializar folhetos, e outras publicações do gênero, foi coordenador, em diversas edições, do espaço destinado ao Cordel nas Bienais Internacionais do Livro do Ceará. *

(*) perfil adaptado do texto de apresentação de Max Krichanã

Para adquirir o Admirável... e conhecer mais do trabalho do autor: kleviana@ig.com.br


"Tex no Brasil", de G.G. Carsan



G.G. Carsan, um Cosplay que fala!



Alô, texianos de todo o Brasil, lança-se em todos os rincões e pradarias (note: não falei em padarias...) deste imenso país, pela Sal da Terra editora, de João Pessoa, Paraíba, a obra Tex no Brasil: o grande heroi do faroeste, de G.G. Carsan.

G.G., ou melhor, Geraldo Guilherme, fotógrafo de profissão e amante dos quadrinhos de Tex, por conta própria se aventurou em elaborar e desenvolver este livro que tem 300 páginas e o prefácio escrito por Gervásio Santana de Freitas, responsável pelo Portal TexBR (www.texbr.com).

G.G. não é apenas um colecionador, mas um incentivador dos motivos e valores que movem o ranger americano.

Essa paixão, que traz desde menino, e prova (no livro tem uma foto sua aos 10 anos vestido a la Tex, o que faz até hoje), o fez ter vários contatos com Sérgio Bonelli (que também aperece-nos em entrevista exclusiva), proprietário da editora responsável pela publicação do heroi (criado por Giovanni Luigi Bonelli, o pai dos quadrinhos italianos, e desenhado por Aurélio Galleppini, o Galep), desenvolver roteiros (inéditos) e realizar as Expo-Tex, eventos de divulgação do fumetti italiano que completa, em 2010, 62 anos.

No livro, o leitor vai conhecer os principais desenhistas, roteiristas do personagem, saber mais das características de seus parceiros (Kit Carson - o "Cabelos de Prata"-, Kit Willer, Jack Tigre), amigos (Pat Mac Ryan, Jim Brandon, Montales, El-Morisco) e, claro, inimigos (Mefisto, Yama, Tigre Negro, Macredy, Ruby Scott), e, enfim toda essa gente bacana que desfila nas páginas em preto e branco (lindíssimas diga-se de e da passagem) do oeste texiano.

Com ilustrações, inclusive algumas coloridas e outras inéditas (na contracapa uma ilustração do cearense Fred Macedo), Tex no Brasil ainda se dá ao luxo de explicar as razões do sucesso da Tex, descrever quem são seus leitores, compradores, editores, fazer um estudo das capas, falar sobre os temas abordados na revista, curiosidades, as viagens e o currículo (?) do heroi. Não há dúvida que a obra de Carsan certamente é referência obrigatória para quem deseja conhecer um pouco mais da verdadeira saga do "Águia da Noite" que é a sobrevivência no mercado brasileiro de quadrinhos.

Adiós, amigos!

Para adquirir o livro e maiores informações: g.g.carsan@gerafoto.com


Videoconferência "A Reforma da Lei do Direito Autoral e o Livro e a Leitura", convite FLLEC (24.8)


Convite Aberto

O Fórum do Livro, da Leitura e da Literatura do Ceará/FLLEC, o SINDILIVROS, a Câmara Cearense do Livro, a Câmara Baiana do Livro e a Rede Nordeste do Livro e da Leitura, com apoio da Representação Regional Nordeste do Ministério da Cultura, convida escritores, livreiros, editores, gráficos, capistas, tradutores, ilustradores, gestores municipais e estaduais, representantes do SEBRAE e BNB, e demais interessados para Videoconferência que acontecerá na próxima terça-feira, 24 de agosto, das 14h às 17h, no BNB Passaré, com o tema “A Reforma da Lei do Direito Autoral e o Livro e Leitura”.

A videoconferência contará com a participação dos seguintes representantes do Ministério da Cultura:

- Samuel Barichello, da Diretoria de Direitos Intelectuais da Secretaria de Políticas Culturais (DDI/SPC);

- Maria Helena Signorelli, da Diretoria de Livro e Leitura da Secretaria de Articulação Institucional (DLL/SAI).

IMPORTANTE: em função da capacidade das salas do BNB, solicitamos que as inscrições sejam realizadas pelo e-mail augusta.minc@gmail.com, preferencialmente até o dia 23 de agosto de 2010, às 12h, informando nome, e-mail, RG e a localidade de origem.

O FLLEC conta com a participação de todos para o debate!

Responsáveis:

Mileide Flores (Rede Nordeste do Livro e da Leitura) - (85) 3491 7868 / 88029656

Tarciana Portella (Rede Nordeste do Livro e da Leitura)

Outras informações: (81) 3184.1300 ou 3184.1302

Fórum de Literatura e Leitura do Estado do Ceará-FLLEC
www.forumdeliteraturace.wordpress.com
Conselho Administrativo
Mileide Flores: 85 8802.9656
Luiza Amorim: 85 8804.0503
Francilio Dourado: 85 8681.6582

Sítio "Letras & Livros", ampliando seu acesso!


Clique na imagem para ampliar!

O sítio multicultural (literatura, música, cinema e variedades) Letras & Livros, criado, editado e mantido por Vladimir Araújo, ultrapassou a marca de 1.000.000 de acessos.

O editor nos solicita a divulgação de seu agradecimento a todos que acreditaram e compartilharam da ideia, em especial aos leitores e colaboradores.

Aproveitamos para destacar algumas das novidades de sua edição de agosto:

- Em Textos Escolhidos: Quintana Revisitado

- Em Livros : O adolescente de Fiódor Dostoiévski, e 2666, de Roberto Bolaño

- Em Artigos : Sobre livros e leitores, por Antonio Ozai, e Ao final das contas, por Maíra Araújo.

Os leitores e visitantes podem participar do sítio com o envio de textos, artigos, resenhas, produções literária, ou simplesmente com comentários ou críticas.

Para aqueles que farão sua primeira exploração, garantimos a leitura dos artigos, matérias e resenhas já publicadas em outras edições.

Aos autores cearenses o Letras & Livros reserva uma coluna especial, a Letras do Ceará, aberta a todos que quiserem participar com envio de material. Boa oportunidade para ganhar espaço no universo da rede mundial.

Visite, divulgue e participe:

www.letraselivros.com.br

e-mail para contatos :

siteletraselivros@yahoo.com.br

"Chuva de Cajueiros", crônica de Ana Miranda para O POVO (20.8)


"O Cajueiro" de Zezé Aum

Uma chuva saiu em linhas prateadas das brumas da noite e adentrou a manhã, levantando o cheiro antigo da terra molhada. Meus cajueiros, felizes, foram trabalhar, e passados uns dias botaram flores, que se abriram, cândidas. Depois as florinhas se cobriram de estrias encarnadas, de perfume como o lírio dos vales, conforme consta na mais antiga descrição do cajueiro, feita por Thevet, em 1558. Flor “lindíssima, variegada, a cor muitas vezes rosácea; a tal ponto rescende, sobretudo de manhã, que, durante todos os três meses de setembro, outubro e novembro, perfuma bosques inteiros, com grande deleite dos viajantes”. Depois do perfume, os frutos, e os talos vermelhos e amarelos. E cá estão os manás orvalhados, à minha mesa, perfumando a manhã.

O cajueiro é nosso. Em seu livro O cajueiro nordestino, Mauro Mota levantou algumas comprovações. Foi em nossa costa que o cajueiro decidiu existir e, generoso, escolheu os lugares mais secos, mais áridos, tirando da areia e da luz o que precisava para ser tão bonito, nutritivo, e saboroso. Quando colho um caju vermelho, ou amarelo, suculento, e o como ali mesmo debaixo do cajueiro, os pés no chão – cuidado com os bichos de pé!, experimento a plenitude da natureza. Uma vizinha costuma me mandar um vidro de compota de caju temperada com louro, e sinto-me a própria dona Brites, mulher do governador-geral, que se deliciava com o doce tirado dos tachos, ou o caldo sagrado das igaçabas indígenas.

Tenho quatro cajueiros no quintal, mas sei que aqui, onde fica a minha casa, havia muitos outros pés nativos, que foram derrubados, as crianças do povoado vinham antigamente comer cajus nesta duna em que habito. Quando colho baldes de caju, mando entregar na casa de mestre Oliveira, e de outros, que deviam ser aqueles meninos hoje despojados de seus bosques naturais, de sua infância, mas não de suas lembranças. A caminho de casa, pelos matos eu vejo um cajueiro ali, outro acolá, soterrando-se pelas areias, dando suas flores e talos e frutos. Textos antigos, como o de Laët, contam que havia bosques e bosques de cajueiros a cobrir praias, areais, a subir colinas, o chão ficava vermelho, “cajus em tal quantidade que não se pode dar consumo, pois os matos estão cheios deles”, ou o comentário de Conrad Guenther, segundo o qual podia-se andar durante horas através das matas de cajueiros da costa nordeste do Brasil. Não há mais tantos cajueiros assim, nós fomos ingratos, cortamos aos milhares essas árvores tão amigas e acolhedoras, capazes de acabar com a desnutrição, a fome, dá para fazer mil coisas com caju, com a árvore, com a casca, a seiva, as folhas, até as folhas secas servem, são um maravilhoso adubo. O cientista cearense, professor Carioca, descobriu utilidades combustíveis para o rejeito da pele da castanha, na química verde. Ele conta que nós jogamos fora por volta de um milhão e meio de toneladas de caju, todos os anos, só considerando os cajueiros cultivados. Estão estudando a transformação do caju em pó de caju, para a merenda das crianças. Caju tem proteína, tem vitaminas, tem ferro, sais minerais, zinco, fibras, uma oleosidade que previne colesterol alto... a casca é adstringente... a seiva produz tinta... o tronco produz goma...

Os botânicos seiscentistas já conheciam algumas propriedades do cajueiro. No tempo colonial, quando um marinheiro ou soldado chegava por aqui com escorbuto, cortavam seus lábios para o mal não progredir, mas então descobriram que o caju minorava essa enfermidade. Os índios conheciam ainda mais as qualidades do caju, chegavam a fazer guerras pela posse de cajuais, assim que caíam as chuvas de setembro, as chamadas Guerras do Acayu. Alimento de migração, tombança, comida de resistência... Maurício de Nassau deveria voltar com a sua multa de cem florins por cada cajueiro derrubado. Mil florins. Para cada cajueiro derrubado, dois cajueiros plantados. Colonos levaram as sementes para África, Índia, os elefantes as espalharam. E lá estão eles, produzindo frutas. Aqui, tantas derramadas no chão... Nem existem mais aquelas placas antigas, na porta das casas, Dá-se caju!

Ah cajueiros lindos, cajueiros de nossa infância... Quem é que nasceu por aqui e não tem um cajueiro em seu coração? Minha babá me ensinava os versinhos de Casimiro de Abreu, recordo vagamente... “Não te recordas, debaixo do cajueiro, lá da lagoa nas bordas, aquele beijo primeiro?”... e cantava, “Cajueiro pequenino, carregadinho de flores, eu também sou pequenina, carregadinha de amores...”

Ana Miranda, autora de Desmundo, Dias e Dias, Yuxin e Boca do Inferno.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

"A saga de uma unha do dedão do pé direito", crônica de Pedro Salgueiro para O POVO

Bem, se todo cronista tem o direito de passar a vida chafurdando seu próprio umbigo, como se todos nós leitores estivéssemos muitíssimo interessados nele, acho que, como projeto mal acabado de escrevinhador de província, também tenho o direito de fazer certas digressões sobre uma parte do meu corpo não tão nobre: O Dedão do Pé Direito, ou melhor, sobre a Unha do Dedão do meu Pé Direito.

Explico antes, o dedão do meu pé direito não é uma parte do corpo tão desprezível assim, pois quando criança e adolescente me deu destaque no futebol como um bom batedor de “bicudo” (coisa que pouquíssimos jogadores de futebol foram capazes, mais recentemente só o artilheiro Romário conseguia bater com maestria de bico de pé). A ponto de ter sido apelidado de “Pedro Bicão”, tamanha a facilidade pra bater na bola com essa esquecida parte do corpo, e, diga-se de passagem, com direção e força. Sempre consegui botar a “redonda” onde queria com o bico de pé.

Mas, descambando dos 40 rumo aos 50, ultimamente o velho bico de pé voltou à sua costumeira insignificância, tendo como tarefas mais nobres furar meias, segurar linha de anzol e uma que outra topada. E esquecido do glorioso dedão ia eu em viagem para Fortim, perto de Aracati, onde o rio Jaguaribe adentra o mar, quando uma criança se trancou no banheiro do ônibus, e fui eu tentar salvar o barulhento pimpolho. Final da cena que não quero lembrar, o garoto livre e eu com a unha entre a porta do banheiro e o carpete do piso. Dor intensa, unha de imediato pretinha de sangue pisado. Uma dor insuportável, uma vontade de urinar nas calças, um manquitolar de volta pra minha poltrona. O dedo todo preto, dormente por um tempo e doendo muito em seguida. Nada de gelo para pôr no local.
Chegando ao destino a decisão de não estragar o passeio por tão “simples” acidente. Aguentei a dor, travei os dentes e fiz de conta que não era nada. Fomos, criançada barulhenta, família desorganizada e eu (triste) atrás para a costumeira barraca de praia (graça a Deus quase vazia). Lá pus o pé sobre um tamboretinho de madeira e fiquei assoprando de longe, lágrimas pra cair no canto do olho. Foi quando seu Dadá (marido de Joana, a barraqueira amiga de muitos anos), jangadeiro experiente, percebeu a arrumação e deu o diagnóstico de unha perdida, sem jeito, e aproveitou e passou o primeiro de uma série de remédios usados por mim nesta saga pelo alívio da dor: “Tinta de Caneta!”... “Como?”, perguntei incrédulo. “Tinta de Caneta! Seca e depois cai!!!”, e foi logo providenciando a dita Bic azul sem tampa e com a metade avariada pelo uso... E lá me vi eu, enquanto crianças faziam castelos de areia, adultos descosturavam caranguejos, riscando pacientemente a minha dolorosa unha do dedão do pé direito. A companheira pondera, como tentando aliviar o ridículo da cena, que talvez seja verdade, pois a violeta genciana usada em ferimentos e machucaduras era também azul.
O dia passado a custos não deu o alívio esperado para a noite, agora a maldita unha latejava. Fomos ao hospital da cidadezinha, sexta à noite, sem médico (uma vergonha que já virou hábito: uma criança com falta de ar tentava desesperadamente chorar e não conseguia, um enfermeiro inutilmente tentava dar um jeito), me mandei prum hospital particular em Aracati, espera (o médico jantava, ou cochilava, ou não sei o quê...), uma olhada rápida sem levantar da cadeira, um antiinflamatório na receita. Saí puto em direção à farmácia.

O alívio do remédio permitiu dormir em paz, no dia seguinte (glorioso sábado de um sol maravilhoso) a dona da pousada vaticinou novamente: “Vai cair”... “É bom pôr um pouco de água quente de noite pra desinflamar”... Mas como conseguir água quente, bacia adequada para um banho-maria de alívio? Fui desta vez para a foz do rio e caminhei pacientemente em direção ao encontro com o mar, o dedo já inchado, luminoso e saindo uma gloriosa secreçãozinha pelo canto da unha. Sentei numa pedra e enfiei o pé na água salgada, cobri com um pouco de alga marinha. Fiquei me lembrando da infância, quando passávamos frequentemente por problemas parecidos e até piores, simplesmente jogávamos um pouco de terra em cima (quem foi criança e nunca usou este infalível método?) e pronto.

Mais uma tarde de capengado caminhar, sem querer admitir batalha perdida. Acompanhando a custo a turma feliz que ganhava a praia, a praça. De noite consegui um pouco de água morna, que de pouco adiantou. O retorno adiantado pra Fortaleza, a esperança do alívio imediato com a volta pra casa. Ledo engano. Mas agora a higiene demorada, a água quentinha três vezes ao dia. Quarta a ida a outro médico, que se admirou da infecção e passou antibiótico, comprimido pra dissolver na água quente e pomada noturna. Nada disso deu resultado! Uma semana depois novo e fortíssimo (e caríssimo!) antibiótico! Uma semana depois o vaticínio: Uma pequena cirurgia pra extrair a unha! A simples notícia já me foi bastante dolorosa, porém seria enfim o alívio... Engano, antes uma bateria de exames de sangue (suspeitavam de diabetes, causando a demora da cicatrização), continuando o tratamento passado antes pra desinflamar...

Hoje completou três semanas de sofrimento e já começo a contar os minutos pra extração da unha (prometi a mim mesmo que a pintarei de novo de azul e a pendurarei no pescoço, em promessa até o fim do ano). Antes já experimentei pelo menos uns quinze remédios diferentes, passados pelos amigos, familiares, curiosos... Ontem fui a uma benzedeira no final do Montese, que garantiu que não demorará a cura.

De bom apenas a solidariedade geral: o atencioso chefe na repartição me deu dois dias de folga (e contou um caso idêntico vivido por ele), minha mãe fez chás e liga todo dia, em casa uma vida de rei, todos olhando pra mim com certa pena. Na rua tratava de manquitolar um pouco mais, o passante olha e põe a mão na boca com espanto. Descobri que (como disse Nélson Rodrigues, mas atribuindo a frase a Otto de Lara Rezende: “O mineiro só é solidário no câncer!”) todo cearense é solidário com unha bichada!

Aprendi muito de medicina caseira, da convencional também. Esta semana fui ao consultório de um muito bom médico e boa gente, Dr. Veras, que recentemente perdeu três dedos do pé por conta de uma simples infecção na unha, nas complicações da diabetes. Ele me prestou solidariedade, aprovou com elogios o tratamento passado pela minha irmã médica Rute, e me receitou paciência, que não extraísse a dita cuja, não fizesse mais um trauma no meu já tão sofrido dedão do pé direito.

Bom, mais de três semanas de sofrimento, dor, raiva, paciência, automiseração, ainda padeço do problema, e agora mesmo, enquanto completo esta mísera crônica, feliz por ter passado a manhã olhando de vez em quando pra unha sequinha e desinchada, percebo um filetinho de secreção bem no canto dela, que curiosamente ainda tem resquícios da tinta azul do primeiro remédio.

P.S.: Também preocupa que já começo a me acostumar com o problema, e ontem à noite me flagrei bolando uma maneira de, assim que sarar, machucar outra unha, só que desta vez do dedo mindinho do pé esquerdo...

Pedro Salgueiro é escritor e funcionário público. Publicou alguns livros de contos (O Peso do Morto, O Espantalho, Brincar com Armas, Dos Valores do Inimigo e Inimigos), um de crônicas (Fortaleza Voadora). Tem no prelo um panorama do conto fantástico no Ceará (O Cravo Roxo do diabo) e um livro de contos curtos (Movimento Esperado).

sábado, 14 de agosto de 2010

Lançamento Show "Controle Remoto" de Tino Freitas na CULTURA! (15.8)

Clique para ampliar a imagem!

O Músico e jornalista cearense, radicado em Brasília desde 99, um dos mantenedores do projeto ROEDORES DE LIVROS de incentivo à leitura para crianças, estará em Fortaleza, 15 de agosto, domingo, às 17 horas, com o SHOW (músicas e histórias para crianças) + LANÇAMENTO do livro Controle Remoto, um programa para pais, filhos, sobrinhos, netos, afilhados e amigos.

Será na Livraria Cultura (Shopping Varanda Mall).