“Alô, amigos.
Aqui, Cid Carvalho.”
Assim
começava por numerosos anos, no pingo do meio-dia, um dos quadros de maior
audiência e credibilidade do rádio cearense. O radialista, jornalista,
advogado, ex-senador da República, professor e poeta Cid Saboia de Carvalho veio
à luz em Fortaleza, em 25 de agosto de 1935, despedindo-se desse mundo com
grande pesar e repercussão em 10 de julho de 2026, prestes a completar bem
vividos 91 anos.
Começou
muito cedo, aos 12, a trabalhar em comunicação, como um dos redatores do jornal
de seu pai, o combativo Diário do Povo, resistência aos arbítrios do
Estado Novo. É preciso dizer: no sangue, o jornalismo gritava, sendo filho de
um casal brilhante de jornalistas, Jáder de Carvalho e Margarida Saboia de
Carvalho, e neto de Eduardo Saboia, o “Brás Tubiba” da Padaria Espiritual, que,
como Cid, foi jornalista, escritor, professor da Faculdade de Direito e
político.
Mas
não se deteve a jornais, adotando desde a juventude outra tribuna, a mais
legítima de sua vida: o microfone de rádio. Aos poucos desenvolveu estilo
próprio de narração e expunha o seu ponto de vista sobre os mais diversos
assuntos e denunciava, primeiramente nas rádios Uirapuru e Assunção, e depois
na Dragão do Mar, atuando como comentarista político e esportivo – era torcedor
do Fortaleza. Mais tarde, em emissoras de televisão, quando inaugurada a TV
Uirapuru, canal 8, em 1978, e a TV Cidade, em 1981.
Graduou-se
em Direito pela UFC, em 1966, onde atuaria no magistério, assim como ministrou
aulas nas Ciências Econômicas, na Filosofia e na Comunicação Social.
Como
senador, eleito em 1986, participou ativamente na Assembleia Nacional
Constituinte, que originou a “Constituição-Cidadã” de 1988. Outro orgulho seu:
a cocriação da Advocacia-Geral da União (AGU).
Em
sua trajetória, desde sempre se orgulhou de dizer ser independente, honesto e
defender os princípios e valores humanos, entre eles, espírita que era, a
caridade.
Outro
grande amor na sua vida, além da família – e de seus almoços de domingo –, era
o livro. Adorava viver, ouvir música, dar aula e ler livros. Tanto os amava,
que até aprendera com artesãos a encadernar e a restaurá-los. Lia e escrevia. Entre
suas obras, publicou ensaios, discursos e textos jurídicos, mas também
inventava tempo, no meio de inúmeras atividades, para encontrar as musas de sua
poética. Daí, ingressou na cadeira nº 20 da Academia Cearense de Letras, assim
como no Instituto do Ceará, na Academia Cearense de Retórica, Academia Cearense
da Língua Portuguesa, Associação Brasileira de Bibliófilos e na Academia
Fortalezense de Letras, na qual foi o seu primeiro presidente.
Durante
uma homenagem da “Feira do Sebo” na praça do Ferreira, o assisti dizer que
ainda haveria de escrever uma biografia de seu pai, Jáder de Carvalho. Ouvir
aquele homem, popularmente reconhecido, em seus 70 anos, embargar a voz entre
lágrimas ao proferir essa “promessa” de admiração foi tocante. Era absoluta e
justificadamente fascinado pela figura paterna, seguindo-a em seus passos.
Assim, também se comoveu ao receber O Canto Novo da Raça (1928), marco
do modernismo cearense, do qual o pai foi coautor, editado por mim durante minha
passagem pela Secult. Hoje, com a sua partida, imensa lacuna foi aberta no
Ceará. Porém, nas palavras do seu “Pássaro de Fogo”, o alento: “[...] se no teu
morrer diário,/na tua angústia noturna/pensares que ele se foi,/ele ainda
restará no coração.”
Diria
o Cid: “É o amor que me move... DOA A QUEM DOER!”

Sabendo escrever com a memória e o coração emocionado.
ResponderExcluirParabéns, Raymundo Netto.
Cid Carvalho, assim seu irmão Fernando, Narcélio e Paulo Limaverde e Jurandir Mitoso, toda essa turma do rádio, eu conheci pessoalmente dentro e fora da minha casa, pois eram amigos e colegas de juventude do meu pai. E uma vez eu perguntei ao Cid porque ele substituía o "e" pelo "i" quando falava "ninhum", "diputado" e outras palavras e ele respondeu rindo "aprendi a falar assim desde cedo e não vou com a cara do 'e'".
ResponderExcluir