Muita gente ignora, mas o Ceará é sede de fértil manancial de
artistas de quadrinhos, alguns deles reconhecidos e em exercício, inclusive, no
mercado europeu, norte-americano e australiano. Eles transitam entre nós,
frequentam os mesmos bares, cafeterias, praças e shoppings, mas anônimos, sem
assédios e selfies de fãs deslumbrados, mesmo por aqueles que curtem as HQs nas
quais participaram. Na verdade, há até quem duvide, quando se apresenta alguém
aqui da terrinha que desenhou ou arte-finalizou o Batman, Superman, Mulher
Maravilha, X-Man, Fantasma...
Ao conhecer esse filão, nos é revelado um
paradoxo: são raras as publicações editoriais e não independentes em
quadrinhos no Ceará. Existem vários motivos desencadeadores dessa
realidade, mas, por ora, não iremos nos deter à “gourmetização” dos quadrinhos,
da extinção das bancas de revistas e escassez de publicações a preço popular, a
falta de políticas públicas para a produção específica do segmento e da
incompreensão/preconceito da sociedade em torno das diversas possibilidades que
essa mídia pode ofertar como recurso de formação de leitores, de construção de
conhecimentos e até de estímulo ao debate social.
Prefiro contar a você que existe no Ceará a
Avoante, editora determinada a publicar quadrinhos e dos bons. Entre
outros, este ano, publicou Revisão, de Luís Carlos Sousa, com desenhos
de Rodrigo Matos e arte-final do Camarada Pedro, além da contribuição de
diversos outros atores da cena contemporânea dos quadrinhos cearenses.
É uma graphic novel de 98 páginas em
P&B, com excelente qualidade editorial e gráfica na qual se percebe na sua
execução a intimidade com o gênero e o adequado emprego dos recursos gráficos,
dos elementos visuais e narrativos da Arte Sequencial.
No roteiro sensível, fluido e muito bem
construído, acompanhamos o personagem Carlos, a princípio em sua infância,
tomando conta de Onofre, um pai conflituoso, difícil, e sofrendo o injustificado
abandono de Rosa, sua mãe. Depois, na atualidade, o encontramos trabalhando como
revisor de textos em editora e vivendo uma relação tóxica e ausente com seu
companheiro Eduardo, até um fato promover encontros e desencontros e o
desenrolar de uma série de angústias, revelações inesperadas e as consequentes tomadas
de decisão do protagonista diante do seu drama familiar.
De forma lúdica e sem precisar empregar
discursos enfadonhos, a obra desperta reflexões no leitor, ao mergulhar em questões
psicológicas profundas, versando sobre os people-pleasers (agradadores
compulsivos), a codependência funcional e os impactos de relacionamentos
abusivos.
No desenrolar da história, Carlos vive uma
experiência de empatia e de resgate de seu amor-próprio, provocando nele uma
“revisão” de si mesmo, ao compreender que as suas atitudes – ou a falta delas –
e o seu comportamento – insegurança, ansiedade, baixa autoestima, medo do
abandono e de rejeição – eram as raízes de seu sofrimento.
Acredito que existam muitos “Carlos” por aí
que precisam urgentemente fazer também essa revisão de si, e ler “Revisão”.
A obra está disponível na revistaria Reboot
Comics Store no Shopping Benfica ou no site da Avoante
(avoanteeditora.com.br).
Uma ótima leitura para você.

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