domingo, 22 de fevereiro de 2026

"Todo Romance é Histórico", de Raymundo Netto


Foto: Gustavo Stephano


“Os ficcionistas são historiadores que fingem estar mentindo,

e os historiadores, ficcionistas que fingem estar dizendo a verdade”. (Ana Miranda)

 

Sábado, 12 de agosto de 1989. O Jornal do Brasil, em matéria intitulada “Nasce uma Estrela”, festejava: “Prepara-se o leitor para uma joia rara, trabalhada em sua ourivesaria com devoção de monge, pesquisada com rigor de cientista e brilhante em seus resultados como as mais finas predarias. Esta semana chega às livrarias o romance Boca do Inferno, de autoria de Ana Miranda, uma cearense de 37 anos, radicada no Rio. [...] com Boca do Inferno, o ingresso do Brasil num gênero – o do moderno romance histórico – imposto ao redor do mundo por penas como as de Umberto Eco, Margueritte Yourcenar, Gore Vidal e José Saramago. [...] Ela é certamente a maior revelação, em muitos anos, das letras nativas. Nasceu algo de novo e muito bom na literatura brasileira.”

Numa combinação desafiadora entre fatos históricos e ficção, a sua primeira obra no gênero, desde a concepção até o lançamento, durou 10 anos para se concretizar. Leu mais de 100 livros e cerca de 200 publicações sobre o século 17. A versão de 1987 passou pela análise de Rubem Fonseca, rendendo extensa série de troca de ideias, estudos, experiências de leitura e técnicas de narrativa até ser concluída no ano seguinte.

Em novembro ainda daquele ano, a Folha de S. Paulo anunciava um fenômeno: a venda dos direitos de edição da obra estreante entre 56 editoras estrangeiras, entre elas, algumas das mais importantes do mundo. Ao final, 20 países acolheram a obra que, em 1990, receberia o Prêmio Jabuti na categoria “Revelação” e seria inserida, em 1998, na lista dos 100 maiores romances em língua portuguesa do século 20, publicada pelo O Globo. De fato, Boca do Inferno cruzaria mais de 50 semanas na lista dos mais vendidos no país. A Isto é assegurou: era “o lançamento mais importante de um autor estreante na década.”

Ana Miranda, seguindo o gênero, publicaria outros romances de sucesso: O Retrato do Rei (1991), Sem Pecado (1993), A Última Quimera (1995), Desmundo (1996), Clarice (novela, 1996), Amrik (1997), Dias & Dias (2002), Yuxin (2009) e Semíramis (2014), sendo alguns deles ganhadores de prêmios, como o da Academia Brasileira de Letras, da Biblioteca Nacional, Jabuti de Literatura, Green Prize of the Americas etc. Nesta lista não incluo os seus livros de poesia, crônicas, contos, infantojuvenis e biográficos publicados, nem comendas e outros títulos, como a de Doutora Honoris Causa pela UFC.

Essa grande autora que reinaugura o romance histórico brasileiro, reconhecida por muitos como a maior romancista viva no Brasil, durante anos em exílio no Sudeste, retornou à sua aldeia há cerca de 20 anos. E, melhor, disposta a nos dar o privilégio de ouvi-la no curso “Todo Romance é Histórico”, uma imersão de 40 horas na sua experiência e no universo de sua escrita literária, um banquete para quem ambiciona mergulhar na práxis literária da melhor qualidade e por caminhos seguros. Entre as temáticas do curso: estrutura do romance clássico, construção da trama e da linguagem, arte da pesquisa, tipos de personagens, escolha do tema, ética na recriação de personagens e fatos históricos, intertextualidades e fontes, normas técnicas e caminhos para publicação e atividades práticas com acompanhamento individual dos participantes, leitura e avaliação de textos, além de exercícios. Para tal, as vagas são limitadas apenas a 15 ou 20 felizardos, romancistas e escritores praticantes ou iniciantes.

Para interessados, o curso será realizado na sede do Armazém da Cultura a partir de março (informações e inscrições pelo site do Armazém - https://armazemdacultura.com.br/products/todo-romance-e-historico-ana-miranda).




 




 

Nenhum comentário:

Postar um comentário