“Os ficcionistas são
historiadores que fingem estar mentindo,
e os historiadores,
ficcionistas que fingem estar dizendo a verdade”. (Ana Miranda)
Sábado, 12 de agosto de
1989. O Jornal do Brasil, em matéria intitulada “Nasce
uma Estrela”, festejava: “Prepara-se o leitor para uma joia rara, trabalhada em
sua ourivesaria com devoção de monge, pesquisada com rigor de cientista e
brilhante em seus resultados como as mais finas predarias. Esta semana chega às
livrarias o romance Boca do Inferno, de autoria de Ana Miranda, uma
cearense de 37 anos, radicada no Rio. [...] com Boca do Inferno, o
ingresso do Brasil num gênero – o do moderno romance histórico – imposto ao
redor do mundo por penas como as de Umberto Eco, Margueritte Yourcenar, Gore
Vidal e José Saramago. [...] Ela é certamente a maior revelação, em muitos
anos, das letras nativas. Nasceu algo de novo e muito bom na literatura
brasileira.”
Numa
combinação desafiadora entre fatos históricos e ficção, a sua primeira obra no
gênero, desde a concepção até o lançamento, durou 10 anos para se concretizar.
Leu mais de 100 livros e cerca de 200 publicações sobre o século 17. A versão
de 1987 passou pela análise de Rubem Fonseca, rendendo extensa série de troca
de ideias, estudos, experiências de leitura e técnicas de narrativa até ser
concluída no ano seguinte.
Em
novembro ainda daquele ano, a Folha de S. Paulo anunciava um fenômeno: a
venda dos direitos de edição da obra estreante entre 56 editoras estrangeiras,
entre elas, algumas das mais importantes do mundo. Ao final, 20 países
acolheram a obra que, em 1990, receberia o Prêmio Jabuti na categoria
“Revelação” e seria inserida, em 1998, na lista dos 100 maiores romances em
língua portuguesa do século 20, publicada pelo O Globo. De fato, Boca
do Inferno cruzaria mais de 50 semanas na lista dos mais vendidos no país. A
Isto é assegurou: era “o lançamento mais importante de um autor
estreante na década.”
Ana
Miranda, seguindo o gênero, publicaria outros romances de sucesso: O Retrato
do Rei (1991), Sem Pecado (1993), A Última Quimera (1995), Desmundo
(1996), Clarice (novela, 1996), Amrik (1997), Dias & Dias
(2002), Yuxin (2009) e Semíramis (2014), sendo alguns deles
ganhadores de prêmios, como o da Academia Brasileira de Letras, da Biblioteca
Nacional, Jabuti de Literatura, Green Prize of the Americas etc. Nesta
lista não incluo os seus livros de poesia, crônicas, contos, infantojuvenis e biográficos
publicados, nem comendas e outros títulos, como a de Doutora Honoris Causa pela
UFC.
Essa
grande autora que reinaugura o romance histórico brasileiro, reconhecida por
muitos como a maior romancista viva no Brasil, durante anos em exílio no
Sudeste, retornou à sua aldeia há cerca de 20 anos. E, melhor, disposta a nos
dar o privilégio de ouvi-la no curso “Todo Romance é Histórico”, uma imersão de
40 horas na sua experiência e no universo de sua escrita literária, um banquete
para quem ambiciona mergulhar na práxis literária da melhor qualidade e por
caminhos seguros. Entre as temáticas do curso: estrutura do romance clássico,
construção da trama e da linguagem, arte da pesquisa, tipos de personagens,
escolha do tema, ética na recriação de personagens e fatos históricos,
intertextualidades e fontes, normas técnicas e caminhos para publicação e
atividades práticas com acompanhamento individual dos participantes, leitura e
avaliação de textos, além de exercícios. Para tal, as vagas são limitadas apenas
a 15 ou 20 felizardos, romancistas e escritores praticantes ou iniciantes.
Para
interessados, o curso será realizado na sede do Armazém da Cultura a partir de
março (informações e inscrições pelo site do Armazém - https://armazemdacultura.com.br/products/todo-romance-e-historico-ana-miranda).


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