terça-feira, 20 de outubro de 2015

Seminário Entre Livros e Leitores - 21 e 22 de outubro, no Espaço O POVO de Cultura & Arte



O seminário Entre Livros e Leitores, estratégia do Espaço O POVO de Cultura & Arte, com a temática "As Novas Formas de Ler", com inscrições GRATUITAS e vagas LIMITADAS, acontecerá nos dias 21 e 22 de outubro, a partir das 17h. Estão todos convidados. Inscreva-se já!

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

"Ocupação da SecultFOR, a saga continua!", por Raymundo Netto



Domingo, dia 18 de outubro, às 17h, deu-se o início da Assembleia Extraordinária convocada pelos meios mais alternativos e democráticos possíveis para que os segmentos artísticos e culturais, ora representados, dessem a devida resposta à não-proposta recebida da encastelada prefeitura de Fortaleza, cujo fosso piranhoso é banhado pelo sufocado riacho Pajeú.
A Prefeitura em sua não-proposta nos assegura que nada pode fazer a respeito de aumentar o valor superestimado do seu Edital de um milhão de reais, que deverá ser distribuído para fomentar 13 (treze) linguagens artísticas, após três anos de seca e de aridez de ações e de abundantes promessas. Mas, em toda sua benevolência, garantiria que se todos os manifestantes se retirassem da ocupação do prédio da SecultFOR, ele, prefeito, daria entrada em processo junto à Câmara de Vereadores com o objetivo de que o tal Edital de Artes se reverta em lei, havendo então a possibilidade de esticar um pouquinho a baladeira numa próxima vez, provavelmente mais próxima de sua frágil candidatura à reeleição. Ora essa, se até o Cid Gomes, seu padrinho, padroeiro e incubador, afirmou a respeito da cria que “não se viabilizará [a reeleição] se não intensificar as ações em Fortaleza”... Entretanto, o jovem aquarista, tinha que dar o mau conselho, orientando que RC consolide alianças com vários partidos, até os de menor expressão, para tentar chegar à reeleição. Errou, Cid. O voto vem do povo. Não se deve administrar para partidos, não se deve buscar acordões, conchavos, coletar moeda podre em recursos de campanha, mas o gestor público deve trabalhar para o povo, em prol do povo, da qualidade de vida do povo, da construção de uma sociedade mais justa, mais livre, menos desigual, mais humana.
Roberto Cláudio diz não ter um centavo a mais para investir em cultura, mas é sobejante o investimento em publicidade, enchendo a nossa cabeça com aquela grudenta musiquinha que diz que quando o trabalho é pra valer, todo mundo gosta, todo mundo vê. Pois o que todo mundo vê hoje é um grande e imenso nada. E essa recusa não se dirige apenas aos artistas e produtores culturais locais, mas a todo cidadão consciente que se vê privado de seu direito fundamental à cultura.
Os representantes da categoria artística alojados pacífica e temporariamente na SecultFOR mantém um comportamento digno de cidadãos que são, mas diante da truculência comum à nossa boçal tradição executiva, legislativa e judiciária, temem a reação abusiva da milícia colonial, vulgo “polícia”, ao que devemos estar atentos: NÃO ADMITIMOS REPRESSÃO!
Ontem, meus amigos, após três horas de discussão e de encaminhamento de propostas da assembleia lotada e diante de mais de 1.100 assinaturas de cidadãos fortalezenses artistas ou não favoráveis ao movimento, ainda é desestimulador saber pela coluna de Eliomar de Lima, em O POVO, que esse mesmo prefeito que nos nega em silêncio o que é de nosso direito, alegremente anuncia um festejado réveillon em 2015 com a presença de Luan Santana (entre os 10 Top Shows mais caros do Brasil) e do Zé Ramalho. Sem esquecer que os 15 minutos de queimação de fogos na praia de Iracema (custa cerca de 1 milhão de reais) dava para tirar muitos meninos e meninas das ruas, colocando-os, quem sabe, para brilhar num palco de dignidade.
Assim não dá para defender você, SecultFOR... Melhora!

domingo, 18 de outubro de 2015

"Ocupação SecultFOR: solidariedade!", por Raymundo Netto


Quando a mesa cresce, a cultura desaparece”, já dizia há tempos Augusto Pontes.
A mesa continua a crescer nos bastidores políticos, onde toda manipulação é bem-vinda ao preço do poder, da falsa democracia, da falta de bem querer ao povo que se diz representar.
A cultura, em 1988, com a “Constituição Cidadã”, e me refiro a ela apenas enquanto marco legal, pois que isso deveria ser uma verdade atávica, nos foi assegurada como direito fundamental. Desde então, seria de se esperar uma maior motivação para a construção de políticas públicas para a cultura por meio do Estado com ampla participação da sociedade civil, incluindo, naturalmente, os artistas das diversas expressões culturais e todos aqueles segmentos direta ou indiretamente envolvidos.
É vulgar o discurso de que no Ceará não se tem cultura. Esse discurso é mais do que falso e devemos tomar cuidado com ele, ou melhor, erradicá-lo! O Ceará tem sim cultura, ainda, mas nos faltam plateia, por diversos motivos, e essas políticas públicas que incluam a formação (inclusive dessa plateia), o fomento, a difusão e a fruição de seus bens e serviços.
Recursos nunca se tem. Motivos tem-se demais. Qualquer motivo é motivo para não se investir em cultura. Hoje, é a crise, não apenas a econômica, mas a moral, da falta de ética, do partidarismo selvagem, da gula do poder. Ademais, os políticos, curiosamente sempre depois de eleitos, consideram cultura um luxo, coisa supérflua.
Já em entretenimento, pães e circos (que me desculpem aqui os grandes artistas circenses), principalmente no que se refere às “atrações” do mundo, tipo axé-music, bandas de forró de plástico, bandas de rock ou estrelas ditas nacionais, entre outros, as secretarias de turismo encontram bons recursos, aliás, recursos generosos. E qual a justificativa desses infelizes? “É o que o povo gosta. É o que reúne gente (leia-se “eleitores”!”)
O tenor espanhol Plácido Domingo, em única apresentação – com dispensa de licitação – para um grupo fechado (quase particular) de amigos do rei (apenas 3 mil convidados), dentre eles, Roberto Cláudio, o prefeito de Fortaleza, recebeu um cachê que correspondeu à quase totalidade do valor destinado a todas as linguagens artísticas no edital da SecultFOR em 2011, último do gênero até hoje, ou seja: três milhões e trezentos mil reais do bolso do contribuinte. Nessas horas não se fala em crise nem em déficit de recursos. O governador o quer e pronto: jurídico, planejamento, financeiro, todos trabalham para que aconteça e deixem o gestor em extrema feliCIDade. O que deve ter acontecido também quando o gestor assistiu ao Nemo e, num instante epifânico, desejou transformar a praia de Iracema num berço caríssimo de peixes-palhaços, como deve entender o nosso povo.
No ano passado, jornais do Brasil, incluindo a Folha de S. Paulo, anunciavam que Fortaleza teve os shows mais caros do país em seu reveillón, no valor de cerca de DOIS MILHÕES de reais, em apenas nove apresentações, dentre elas: Gusttavo Lima (600 mil), Paula Fernandes (484 mil) e Paralamas do Sucesso (460 mil).
Agora, em 2015, após todos esses anos sem nenhuma grande contribuição à cultura, a SecultFOR apresenta uma proposta de edital – que eu, particularmente, e muitos artistas, acreditam ser um importante instrumento de fomento e custeio à produção cultural – no valor pífio de UM MILHÃO de reais, pensando ela contemplar todas as linguagens artísticas, o que gerou uma revolta generalizada da classe artística do estado, fruto de um desleixo crônico, uma barriga vazia de anos e anos de espera.
Essa revolta se transformou na maior e talvez a mais relevante, certamente a mais legítima, programação artística que a SecultFOR já proporcionou nessa gestão, e de graça, sem gastar um tostãozinho, por meio dos manifestantes e com amplo apoio popular: A Ocupação da SecultFOR.
Não há negociação, não há prefeito, não há diálogo, não há coisa nenhuma nessa nossa oligárquica terra de coronéis, e certamente, a população vitimada pela falta da educação, por um sistema de saúde indigno e pelo excesso de violência ainda continuarão a não entender como a cultura pode contribuir para a construção de um mundo melhor. Entendendo nós que o Poder Público, mais arrogante do que soberano, vai usar da ferramenta da não-cultura para manter esse povo na sua mais absoluta e eterna escuridão. Já dizia Nelson Werneck Sodré, em sua A luta pela cultura: “Uma cultura só pode afirmar suas bases nacionais quando livre, e só é livre quando cada um não conhecer restrições ou ameaça ao seu modo de pensar e ao direito de expressá-lo, de realizá-lo artisticamente. Cultura natural e democracia, assim, são problemas conjugados. E há imensas tarefas à nossa frente, como, só para citar uma, a da integração de enormes parcelas da população na vida nacional, de que estão distanciadas enquanto mantidas na miséria e na ignorância, sua consequência inevitável.”
Assim, prefeito Roberto Cláudio, converse com o seu povo, melhore o discurso e colabore na construção da democracia e plante a árvore (sei que não gosta muito delas, mas...) frutífera da cultura, elemento básico e indispensável na manutenção da nossa identidade, da nossa memória, da nossa dignidade. E, secretário Magela Lima, tão exigente e combativo à favor da cultura em seus tempos de redação, por gentileza, assenhore-se desse espírito, represente o seu papel de gestor PÚBLICO, e lute por essa conquista. Nós, povo de Fortaleza, agradecemos, mas, antes, EXIGIMOS. #solidariedadeocupaçãosecultFOR!.



terça-feira, 13 de outubro de 2015

"As Duras Penas", de Audifax Rios

Publicado originalmente em 23 de janeiro de 2015

Nunca pensei que o sumiço de uma caneta causasse tão grande vexame, mexesse com tanta gente, gerasse desconfiança, provocasse conclusões precipitadas, motivasse tristeza e trouxesse a velha alegria de volta. Depois do episódio maligno, tudo divino no quartel de Quirino. Deu-se que o cabrito Erle, ao arriscar um ponto na rifa do sacristão, esqueceu a esferográfica Parker a qual dormiu em palácio sob a guarda do camelô da liturgia. E o dono de tal preciosidade passou a noite inteira em claro a contar bodinhos.
Tal peça fazia parte de um estojo ocupado ainda por uma caneta-tinteiro com bomba de borracha e uma lapiseira. Tudo da marca Parker 51, o que havia de melhor e mais luxuoso no mercado. Depois é que veio a série 61 e a grife predominou até a chegada da Mont Blanc. Abaixo delas, Sheaffer e Compactor, que, diga-se, não faziam vergonha.
No meu tempo de ginásio dois objetos da moda nivelavam a posição econômica e social: relógios e canetas. Os relógios caros ostentavam as marcas Mido, Cartier, Rolex, Omega, Pateck-Philliphe. Intermediários: Technos, Mondaine, Classic. E na rabada da fila classificatória, o mais peba de todos: Roscoff, sinônimo de ilegitimidade. Já dizia o Zé Lisboa, disk-jockey da Rádio Iracema, “relógio que atrasa, não adianta, é Roscoff”. Maldavam até ser fabricado no Juazeiro do meu Padim. E ainda haviam os japoneses Seiko e Orient invadindo um mercado nitidamente suíço. Tinham mostrador digital à prova d’água e de choque e aportaram quando do naufrágio de um navio que encharcou o mercado.
Pois bem, com as canetas acontecia o mesmo. As últimas da lista de valor traziam as marcas Skater, Cross e Rotary. Antes do advento das canetas-tinteiro eram comuns as penas de aço que se mergulhavam nos frascos (azul lavável, permanente, azul-preto, preto e ainda vermelho e verde) da conhecida marca Quink ou, uma mais ordinária, Jacaré. Eram usadas nas repartições públicas, escolas, redações de jornais, escritórios de contabilidade, gabinetes de advogados ou pedantes intelectuais. Sim, e também pelos maestros das filarmônicas nas feituras de partituras, verdadeiras obras de arte. Naquele tempo praticava-se a caligrafia vertical, não mais com cálamos de bambu ou penas de pato, uma mão na roda. O talhe entre o bico e o orifício onde ficava a tinta, quando flexionado dava a real largura das hastes das letras e das notas musicais. Caracteres capitulares e monogramas; sustenidos e bemóis, claves e colcheias.
No cartório do meu pai havia um tinteiro de chumbo, presente do padre-poeta Antonio Thomaz ao tabelião. Tinha o formato de um pássaro pousado sobre um folha onde se escondia o depósito de tinta. A curvatura da folha era o espaço para o repouso da pena de cabo trabalhado com fitilhos coloridos bordando gregas e as iniciais ASR de Antonio Sales Rios, artesanato de presidiário. Achava que tais valores engrandeciam a caligrafia rebuscada do notário assentada nos imensos livros de registros e, por extensão, as filigranadas letras dos escreventes Antonio Enéas, Batista Lafayette, José Abranches e o mano Dion.
Minha primeira caneta-tinteiro foi uma Skater marron com listras em laranja, imitação de um modelo popular da Parker. Em Sobral, mandei gravar meu complicado nome sobre seu corpo, o que, pra variar, saiu errado. Era o ano de 1958 e cursávamos a primeira série ginasial. E entre os colegas havia um aluno muito habilidoso que ganhava um dinheirinho consertando canetas quebradas, enguiçadas, entupidas. Estênio Lima ou Chicão do Guterres, o nome desse um. Dos mais velhos da turma, o bamba em álgebra, hipocondríaco de constante lenço no pescoço e caixeiro da loja de tecidos do tio Mozart Cavalcante. Onde demorava um tempão para fechar, na escuridão, as seis portas de madeira, cada qual com inúmeras trancas, taramelas e cunhas. Além de vedar com molambos a brecha do chão para evitar um possível incêndio provocado por alguma bagana de cigarro perdida. Ah, sim, o Chicão era agnóstico, muito raro naqueles tempos de fervorosa religiosidade.
Minha irmã primogênita e professora de desenho e trabalhos manuais esnobava com duas canetas folheadas a ouro, adquiridas por uma bagatela junto a uma amiga viúva, Dona Abigail. Objetos testemunhas maiores de seu casamento com o abastado proprietário José Leopércio. Acredito que tais canetas só hajam escrito, em toda a vida, os nomes dos dois pombinhos nos registros paroquiais e cartoriais do matrimônio de conveniência, os nubentes em vias de cair as penas descoloridas.
E para acabar com a farra da garatuja chegou a devastadora esferográfica Bic escrita fina com esfera de tungstênio, arrastando concorrentes similares sem medo de perder espaço. Vieram para ficar. Perdia-se a própria ou levava-se a do outro sem prejuízo para ambos. A coisa mais prática que inventaram depois da calça jeans, a camiseta de malha e a sandália japonesa. Leve, barata, durável, descartável. Como deviam ser as fantasias que deitavam no papel ou no papiro. Desde que Campollion descobriu a pedra de Roseta.

domingo, 4 de outubro de 2015

"Eu também vou reclamar: Gol contra de Neymar!"


As pessoas de forma geral acreditam que as grandes cifras (e bote grandes nisso) apontadas dia a dia nas manchetes jornalescas da corrupção são as culpadas pelo crescente empobrecimento da caixinha do governo, e por tabela, do nosso país, atingindo em cheio a população mais carente de recursos, que abriga aqueles que mais precisam dos serviços proporcionados, quando o são, pelo Estado. Não há dúvida de que ela, a corrupção e a sua parente coxinha, a impunidade (uma forte característica de nosso ainda colonial Brasil), contribuem para pintar esse cenário de (des)desenvolvimento.
Mas o que muita gente ainda não sabe é que muito mais NOS escapa pelo ralo em forma de SONEGAÇÃO, que não é outra coisa senão CORRUPÇÃO, mas uma corrupção que alguns, até próximos de nós, disfarçam que não é, e outros tantos até a justificam e, mais, há ainda aqueles que admiram o sonegador e o reverenciam como pessoas inteligentes, “espertas” e bem-sucedidas.
Há até aqueles que se acham certinhos, pessoas “ficha-limpa” em consciência, mas não disfarçam na hora de comprar produtos roubados, sem nota fiscal, pela vantagem da compra, além daquelas que compram CDs e DVDs piratas, fingindo não saber que estão prejudicando todos aqueles profissionais de diversos segmentos da área cultural e ainda ALIMENTANDO os narcotraficantes, negócio que encontra na venda “inocente” dessa pirataria a sustentação do seu outro negócio, o de destruir vidas.
Agora nós vemos o jogador Neymar, ainda jovem, adorado por muitos, idolatrados por mais uns poucos, geralmente denominado de “herói” pela mídia estúpida do país, carinha carimbada em comerciais de TV, sendo acusado de sonegação, além de outras negociatas por meio de suas empresas particulares, tendo sido bloqueado judicialmente R$ 189 milhões de sua continha.
Esse dinheiro sonegado que garante uma boa vida para ele, sob ricos holofotes do sucesso, asseguram o destino inverso, desigual, injusto e cativo para um grupo IMENSO de crianças e jovens que o admiram, sem saber que por existir muitas pessoas, sonegadores como ele, além de outros corruptos de plantão, não têm direito assegurado à educação, saúde, segurança, justiça... Gol contra, Neymar!
Algumas das grandes fortunas do país realizam verdadeiras acrobacias em suas declarações de IR para reduzirem os valores recolhidos para o Estado e, mesmo cientes do peso da carga tributária brasileira, não podemos aceitar que isso aconteça, pois quando alguém deixa de pagar a sua parte, outros terão que fazê-lo. E se ninguém o fizer, nossos serviços públicos ficarão cada vez mais sucateados e ineficientes, não apenas pela falta de recolhimento, mas pela associação com outras grandes crises, de ética, da moral  e da gestão pública.
Pense nisso e faça a sua parte, repense aqueles amigos que o presenteiam com lembrancinhas de calçada de churrascaria ou que lhe indicam aquele profissional que pode lhe vender recibos para a sua declaração de Imposto de Renda. Lembre-se: não existe corrupção pequena!


sábado, 3 de outubro de 2015

"Alô, Alô, Marciano!", crônica de despedida de Raymundo Netto para O POVO


Foto: Kiko Silva

Alô, alô, Marciano Lopes, aqui quem fala é da Terra. Sou o Raymundo, aquele que quando o encontrava nas ruas do Centro ou no Bar do Pedim parava para compartilhar as dores comuns à desmemória coletiva desta cidade, talvez a sua amante mais fervorosa e completamente infiel.
Você, com sua voz arranhada de vitrola, não era dado a simpatias, avaro em sorrisos e gestos. Gostava de se dizer jornalista, entretanto, mal contava das histórias sobre os feitos do passado – e tinha muitos nas diversas folhas cearenses –, a não ser quando sob pressão e generosa paciência.
Quando lancei meu primeiro livro, em 2005, era seu leitor. Adorava as suas crônicas de menino, aquelas “scenas d’antanho tiradas do baú”, assistindo aos espetáculos das vitrines das lojas chiques, dizendo dos costumes, da beleza dos cinemas, das fotografias amarelecidas e dos reclames. Não sei se ainda lembra, mas fui ao seu antiquário, disse exatamente isso enquanto me apresentava, indiferente ao meu entusiasmo, a diversas peças raras de mobiliário. Entretanto, ao saber que estava ali para convidá-lo para um lançamento de livro, perdeu a inspiração e foi categórico: “Não vou a lançamentos. Livros, tenho os meus. Não dá dinheiro. Maior bobagem escrever livros.”
Eu, que tinha adquirido alguns outros títulos da ABC – editora do admirável ipuense Maurício Xerez –, aproveitei e perguntei se ainda tinha algum exemplar do Royal Briar. Respondeu-me “Não, acabou-se tudo!” Quando, repentino, alargou a vista sempre espremida: “Você não quer publicar meu livro também, não?”
Passaram-se os anos, amigo Marciano, e eu continuei a encontrá-lo ao acaso. Num desses encontros, em meio a belas manecas, me transmitiu um ensinamento: “Não importa apenas que falem sobre a história da cidade, essa história tem que ser verdadeira, pois daqui a alguns anos, quando pesquisarem nos jornais, acreditarão que aquele monte de asneiras é verdade!” Assim, você, que nem gostava muito de aparecer em fotos ou em TV, nem de agradar a ninguém, recebeu meu convite para participar de uma mesa de cronistas da cidade que criei para a Bienal do Livro, em pleno aniversário de Fortaleza.  Porém, negou-se. “Ia não. Fazer o quê lá?” Também se negaram Airton Monte, Christiano Câmara e Nirez. Aceitaram: Narcélio Limaverde, Zenilo Almada e o Ary Bezerra Leite.
Mesmo diante dos descasos para com este amigo, e deixando para lá umas piadinhas ácidas que eram bem de seu feitio, estimulei Albanisa Dummar, editora, a apresentar o seu Royal Briar em concurso de publicação, no qual, para nossa alegria, talvez mais minha do que sua, ele foi contemplado, sendo logo editado e distribuído pelo Armazém da Cultura, assegurando, ainda hoje, mais agora com a sua distância, que os leitores também amantes da “lourinha” possam encontrá-la pintada pelos seus olhos. Eu, final e merecidamente, confesse, após tantos anos, ganhei a edição original (1988) de seu Royal Briar, além da nova (2012) e belíssima edição do Armazém.
Hoje, quando soube de mais essa desfeita, essa partida silenciosa em plena noite dourada, lembrei-me, com amargo gostinho de “nunca mais”, daquelas piadinhas infames, da pergunta nunca respondida sobre a radionovela da Assunção, dos seus rastros que trago na estante. 
Pois é, Marciano, “a crise tá virando zona: cada vez mais down o high society!”


terça-feira, 29 de setembro de 2015

"A Perplexidade e as Escolhas que Fizemos e Fazemos", de João Soares Neto


Ilustração: Rafael Limaverde, para o projeto Enem Projeto de Vida: profissão & carreira, da FDR

“Faço parte do mundo e no entanto ele me torna perplexo”.
Charles Chaplin
Viver é um ato de resistência. A cada instante somos forçados a tomar decisões. Há uma colisão, a rua fica interditada. Como pedestres, ciclistas, motociclistas, passageiros ou motoristas devemos chegar aos nossos destinos. Assim, por razões alheias ao previsto, decidimos: a) ficar parados; b) encontrar uma rua secundária para continuar o nosso caminho.
Se ficarmos parados, nada muda. Só ouviremos as buzinas, a espera interminável pela perícia e pelos guinchos. Viver é conviver com o imprevisto. Ao concluir o ensino médio, somos orientados por pais e professores a fazer escolhas. Eles nos sugerem o que acreditam ser o melhor para o nosso futuro. Mas, e a vida é cheia de “mas”, nós devemos – e precisamos – com a inexperiência de adolescente, refletir se o indicado é aquilo que realmente queremos.
E, cá para nós, é muito difícil fazer escolhas fundamentais em qualquer tempo de nossas breves, médias ou longas vidas. Não temos binóculos para ver o futuro, tampouco sabemos aonde a decisão nos vai levar. Entretanto, se tivermos lido bastante, poderemos seguir, talvez com menos riscos, o caminho novo que se nos abre, a partir das informações e das simulações mentais feitas instintivamente.
Depois da escolha, admitindo que fomos persistentes, estudiosos ou nem tanto, nos deparamos com o primeiro fim de linha. Agora, deixei de ser estudante, tenho uma profissão que escolhi e preciso fazer dela o meu meio de vida. E aí você fica só. A solidão é a companhia dos que procuram tomar decisões para continuar e não ficar engarrafados pelas colisões que o destino nos impõe a cada dia.
Assim, emergimos como profissional ou colaborador de empresa ou órgão governamental. Meio sem bússola vamos procurando o que fazer, como fazer, quando fazer e por que fazer. Não há no mundo real um GPS a indicar aonde chegar. Tudo é tentativa e erro. Nada que a tecnologia da segunda metade do século passado ou o seu emergente aprimoramento nestes primeiros 15 anos dessa nova centúria que é o 21, possa nos dar certeza.
A vida não oferta certezas. Ela sugere opções múltiplas. Temos, com o nosso cabedal de conhecimentos, um samburá para depositar nossas quase vitórias, as muitas desditas e os poucos acertos. O tempo não é aliado de ninguém. Ele simplesmente vai indo. Segundo a segundo, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia.
Entre cada novo dia há uma noite em que, bem ou mal, paramos para refletir e dormir. Das reflexões e dos sonos emergem os sonhos. Os sonhos até hoje não foram bem explicados por neurologistas, psiquiatras, psicólogos e psicanalistas. Nem eles entendem os deles. Tanto é verdade que, de tempos em tempos, “a interpretação dos sonhos”, escrita por Sigmund Freud, sábio, mas conflitado, vai sendo alterada por tantas quantas são as correntes do pensamento científico ou humanístico.
Neste momento brasileiro, em que cada dia surge nova e alarmante revelação, não há como não entrar em engarrafamentos mentais, pois fomos nós os que colocamos os falazes que estão aí. Ou somos os que não fomos suficientes coesos para impedir as suas escolhas. Agora, não importa. O passado sempre chega com os seus fantasmas, as suas cobranças e as muitas mídias querem decisões e soluções que custam a chegar. Quando chegam.

Enquanto isso, porque não podemos parar para nos descobrimos com as manhãs que nos impõem agir com um mínimo de certezas e um balaio de dúvidas. Infelizmente, não possuímos a ventura de, como fez o poeta Fernando Pessoa, criar heterônimos diferentes para dividir e traduzir os nossos múltiplos humores, conflitos e sentimentos. Somos um só e já basta.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Depoimento de Dulce Helena Penna Soares sobre a 1ª edição da coleção Enem Projeto de Vida: profissão & carreira


Dulce Helena Penna Soares*

Gostaria de comentar sobre os fascículos da coleção Enem Projeto de Vida: profissão & carreira publicados no ano de 2014 pela Fundação Demócrito Rocha em parceria com a Secretaria da Educação do Estado do Ceará, que li com muito prazer e atenção. Em primeiro lugar destaco o ineditismo desta proposta. Já havia visto iniciativas semelhantes a esta na França, quando lá realizei meus estudos de doutorado, nos anos 1990.
Aqui no Brasil, no entanto, há uma carência de materiais em larga escala dedicados aos jovens, nos quais eles possam ler, discutir, refletir sobre temas tão decisivos em sua vida, mas que nem sempre encontram espaço nas escolas tradicionais.  Esses fascículos estão escritos de forma leve, numa linguagem acessível, mas com profundidade e conhecimento de causa. Nos meus mais de 30 anos de experiência nesta área, ainda não tinha visto um trabalho de conteúdo e fôlego como este.
Ele abrange os aspectos informativos essenciais para uma boa escolha, como a fundamental descrição sobre as profissões, nos aspectos mais formais, mas também na visão de futuro: Me formei, e agora?, e expõe aspectos importantes do dia a dia da universidade, como a possibilidade de bolsas e auxílios aos estudantes. Também traz um glossário acadêmico onde apresenta as tantas palavras que o jovem vai se deparar ao ingressar nas instituições de ensino superior e que muitas vezes nem imagina o que signi fica. Explicações sobre o que é Enem, Prouni, Sisu e outros tantos programas que o(a) jovem tem pela frente, são essenciais.
Também apresenta textos reflexivos, muito bem escritos, que provocam e abordam questões sobre o conhecimento de si mesmo, sobre valores e competências individuais e ainda sobre o PROJETO DE VIDA. Sem a definição desse projeto, não conseguimos organizar nossa vida, nosso futuro.
A coleção discorre sobre o influência e participação da família no processo de escolha dos jovens, e da importância da conversa sincera entre pais e filhos, que só vem a contribuir para uma melhor resolução da escolha.
Gostei muito dos depoimentos de jovens na sessão Aconteceu comigo!, quando falam com muita verdade sobre suas escolhas, as dificuldades e os acertos. Ficou muito legal esta parte, assim como o Enem + Dicas, com informações bem importantes que valem a pena levar em conta!
Para ajudar num melhor conhecimento de si mesmo, os fascículos apresentam exercícios, palavras cruzadas, questionários etc, todos muito bem elaborados.
O texto é bem organizado, com características lúdicas, cores, ilustrações adequadas, de forma que só tenho a elogiar e desejar que os jovens utilizem, sublinhem, marquem bem esse material, tirem as suas dúvidas e discutam com professores, familiares e amigos sobre todas essas questões referentes à importante escolha de uma profissão.  


(*) Dulce Helena Penna Soares é psicóloga, pós doutora em aposentadoria e tempo livre (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), doutora em psicologia clínica (Universidade Louis Pasteur Strasbourg), professora aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina onde criou e coordenou, durante 25 anos, o Laboratório de Informação e Orientação Profissional (www.liop.ufsc.br) e criou a disciplina Planejamento de Carreira: uma orientação para universitários. É fundadora e conselheira da Associação Brasileira de Orientadores Profissionais (ABOP). Publicou inúmeros artigos em revistas cientificas e coordenou e presidiu vários eventos no Brasil de Orientação Profissional e de Carreira. Possui vários livros publicados em editoras de grande porte, iniciando com a questão da escolha da profissão, depois com o planejamento de carreira e, atualmente, em orientação para a aposentadoria.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

"Ensaio para Crônica", de Raymundo Netto para O POVO


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No Brasil, podemos afirmar que a crônica está para a literatura, assim como o samba está para música. Afinal, quem não gosta de samba bom sujeito não é; quem não gosta de crônica também não.
O fato é: nossas crônicas, todas as boas ou todas as más, mesmo as falsas e as miseráveis, parafraseando um Chico, como nossos sambares, serão bonitas, não importa são bonitas.
Há de boçais pregarem ser a crônica um gênero menor. Bobagem! Gênero menor é o conto, onde se dá por escrever menos. E o que dizer da poesia, uma garatujazinha trepada em degraus em proposta frustrada do indizível?
In verbis ou on verbis, contextualizada a questão de quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha, arriscamos afirmar que foi a crônica, e que esta não é pinto não.
O também cronista Pedro Salgueiro, atento aos meus desastres de vida, costuma dizer: “Rapaz, tinham que inventar um emprego de ‘fazedor de sala’... Acho que nele você se daria bem.” Pois é, escrever crônica é meio que fazer sala, bater papo, jogar conversa fora. Advirto, entretanto, que a escrita poupa o leitor da decepção presencial daquele indivíduo muitas vezes mais interessante por trás de suas palavras. Aquele que, num primeiro ou segundo momento, há de revelar o pensamento disperso, de engolir as últimas sílabas quase impronunciáveis, de gaguejar em digressões extensas sem hora de ter fim, ou de, subitamente, mostrar a face apática de quem se apercebe a qualquer instante que falar sobre a mais bruta bobagem pode ser mais interessante do que versar sobre teorias literárias, acordos ortográficos e gêneros textuais.
Por outro lado, o cronista, por excelência, é um bom ouvidor. Aliás, andar em ônibus e ouvir a conversa alheia são alguns dos instrumentos de trabalho do cronista. Ler jornais, ouvir rádio, prestar atenção nos feitos de outrem, seja numa agência bancária, num banco de praça, em restaurante, em corredores de hospitais e mesas de bares, também ajuda. Em contradição, a falta de assunto é, de longe, um dos melhores e mais frequentes estímulos para o autor. Diante dela, do branco evidencial, cria-se de um tudo, a partir sempre da recorrente constatação: não sei mais o que escrever! (e eu preciso mesmo?)
O Airton Monte, eterno cronista d’O POVO, que o diga. Dias há em que conversava até com as formigas na calçada para extrair-lhes alguma doçura, mesmo que esta, a todo esforço, ainda vingue por adoçante.
Daí, o cronista, como convidado do café da manhã de seus leitores, ter a oportunidade de salvar o dia ou azedá-lo completamente, a partir de uma piada bem colocada ou da constatação inequívoca de nossa total inabilidade para viver neste mundo – existem outros, acredito.
E é nisso, enfim, que reside ainda a possibilidade da crônica, no seu fazer, que deveria ser de todo assim: olhando no olhos, puxando firme o cabelo à altura da nuca, dando ordens ao pé da orelha, e, se couber, dando uns tapinhas, com toda a gentileza que só quem traz um grande amor pode entender.


sábado, 22 de agosto de 2015

"Carta cansada", conto de Raymundo Netto para o AlmanaCULTURA


Raymundo Netto descansando com a adormecida Ariadne, 
filha do rei e esquecida por Teseu num jardim francês.

Veio-lhe a carta. Poderia ser qualquer uma, mas não, era cansada. Uma carta cansada, exaurida de lágrimas, qualquer resto delas, de fadiga ou de tédio, em desalinho, opressa a batidas de coração.
Ele, nem mesmo para si guardava a dúvida: de nada sabia do amor. Numa arrazoada assertiva o teria como um horizonte distante e inalcançável, como mentira, eternamente paralelo à vida, pelo menos a dele.
Não por isso negasse dias ter pela remetente sacrificado a palavra inda quente entre os dentes, nem sabia o porquê. Seria de mais grado a ambos deixar-se vomitar o “eu te amo”. Mas qual. Fitava-lhe os olhos de âmbar e o sorriso de menina.  Guardava na polpa dos dedos aquele desejo, quase em súplices joelhos, em forma de impressões e ardor da pele dourada. Buscava no lóbulo da orelha sob o cabelos furiosos o corpo que se expandia num abraço de acolhê-lo todo e inteiro – carne, alma e algo mais indescrito – em noites intermináveis de sempre ter fim. Agarrava-se aos cabelos como a tomá-la para si, para dentro de si, e beijando-lhe os olhos para não cair de sua lembrança.
No escuro, sua voz ainda corria nos seus olhos e ouvidos: “Eu tentei... Morri no ano passado, mas nesse ano eu não morro. Talvez eu tenha entendido ter chegado a hora de não querer mais entender. Seja feliz e adeus.”
“Adeus”, repetia, desbastando em retalhos as memórias que lhe vinham uma a uma, atravessando o peito e saltando do trampolim para o malogrado esquecimento.
Noutros dias, ao beijar outra mulher, sua boca estranhou a ausência doutra boca. Seus dedos, como se perdidos na multidão, procuravam reconhecer em novo corpo as mesmas e aquelas impressões e ardores que repousavam à pele dourada. Entretanto, nada encontraram e a noite volveu-se escura e fria. A sua ausência materializou-se e desabou em chuva, revelando no espelho que o seu pior castigo nem era ser ele mesmo, mas o risco de viver sem o perigo daquele abraço.
Do vizinho, uma radiola arranhava em long-play antigo: “entre os defeitos que tenho um é gostar de você.”
“Conte-me uma história...”, indicava no silêncio delicado dos olhos, enquanto na fúria dos azuis do luar ela despediu-se num abraço calcado em morte, em solidariedade de vazios e de saudades, num frouxe rompante:
“Eu te amei, eu te amo, não te amarei nunca mais!”