domingo, 22 de março de 2026

"A Casa Virou História e o Amor Virou Livro", de Raymundo Netto para O POVO


Quando adolescente, voltando de ônibus do colégio para casa, no caminho me deparava com uma construção de arquitetura única: a “Itapuca Villa”.

Deslumbrante, triste e abandonada, ela pertenceu a uma família importante da cidade. Trazia extensa varanda de madeira no andar superior, centrada com um frontão decorado em lambrequins, com mãos francesas e treliças, tudo sustentado por vigas também de madeira robusta e rodeada por muitas portas com bandeiras envidraçadas e coloridas. Não havia um dia sequer em que eu não me sentasse à janela, ansioso para revê-la.

Ao final dos anos 80, a casa foi aos poucos desmontada, resistindo até ser demolida no início da década de 90. Hoje, o terreno é ocupado por uma escola assombrada por insaciáveis cupins.

Alguns anos depois, em 2004 – quando já havia trocado a minha profissão pelo cinema, quadrinhos, artes gráficas, magistério e por outras fatalidades –, decidi cumprir a ingênua promessa de escrever sobre aquele absurdo: a demolição de tamanho patrimônio.

Foi quando conheci o sr. José Américo Lopes, um homem de 90 anos, portador de memória prodigiosa. Numa tarde preguiçosa em sua casa na Barão de Aratanha, no Centro, me confidenciou ter lembranças “daquela casa”. Nela, dizia, vivera uma grande história de amor. “Como assim?”, perguntei, incrédulo. Sorrindo, pediu à filha, Cristina, que nos trouxesse determinada pasta com papéis. Era a tal história, só que escrita por ele mesmo: “Você gostaria de ler?” Em seguida, me falou um pouco sobre o que encontraria ali. “Você já escreveu algum livro, meu filho?”, perguntou-me. “Não, eu nunca”, respondi, enquanto folheava com vagar algumas páginas datilografadas por Cristina. Ela, temendo por aquele material, advertiu: “Pai, nós não temos cópia...” Ele tentou tranquilizá-la: “Filha, eu confio no moço.” Na pasta, também repousavam cartas antigas. Quando as toquei, ele imediatamente as pediu: “Não vai precisar delas. Deixe-as comigo.” Entreguei-lhe as cartas. Ele as acolheu com sorriso afetuoso e delicado, como quem recebe uma joia, e tirou do peito um nome sussurrado: “Olívia”. Com carinho, acomodou o maço no colo e arrematou: “A história toda está aqui.”

Saí de sua casa tomado de curiosidade, porém nem tanto pelo original que trazia em mãos, mas pelas cartas, aquelas as quais não pude ler. Afinal, que segredos trariam?

Na época, eu morava na Vila Doutor Alencar, um conjunto de casas geminadas no Monte Castelo, onde as crianças brincavam na estreita rua e os vizinhos, ao entardecer, colocavam as cadeiras na calçada. Ali, naquela calçada, sentei-me em minha cadeira de palhinha e pus-me a ler “Um Conto no Passado”, a história de Américo Lopes: “Eu era um menino como qualquer outro que crescia, até então, em pequena cidade de ruas descalçadas, a me entreter sentado no cume de frade-de-pedra, esquecido do mundo...” Incrível, a história me envolveu de tal forma que não consegui parar até a sua última página. Nela, encontrei aquele homem ainda garoto e o acompanhei pela vida afora: os dramas, conflitos, a juventude e o primeiro amor: Olívia! E o mais interessante é que, enquanto Américo narrava a sua trajetória, revelava uma outra paixão: a sua cidade. Sim, a grande personagem do livro.

Voltei a conversar com ele e decidimos publicá-lo. Assim, por meio de um edital público, a obra “Um Conto no Passado: cadeiras na calçada” teve o seu primeiro lançamento em 2005, estando esgotada há bastante tempo.

Em 2026, passados 20 anos, a saga de Américo retorna em campanha de pré-venda, em edição comemorativa aos 300 anos de nossa cidade. Você precisa conhecer esta que é a maior história de amor a Fortaleza de todos os tempos.

Acesse o meu Instagram: @raymundonetto67




 

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