Quando adolescente, voltando de ônibus do colégio para
casa, no caminho me deparava com uma construção de arquitetura única: a “Itapuca
Villa”.
Deslumbrante,
triste e abandonada, ela pertenceu a uma família importante da cidade. Trazia extensa
varanda de madeira no andar superior, centrada com um frontão decorado em
lambrequins, com mãos francesas e treliças, tudo sustentado por vigas também de
madeira robusta e rodeada por muitas portas com bandeiras envidraçadas e coloridas.
Não havia um dia sequer em que eu não me sentasse à janela, ansioso para revê-la.
Ao
final dos anos 80, a casa foi aos poucos desmontada, resistindo até ser
demolida no início da década de 90. Hoje, o terreno é ocupado por uma escola assombrada
por insaciáveis cupins.
Alguns
anos depois, em 2004 – quando já havia trocado a minha profissão pelo cinema,
quadrinhos, artes gráficas, magistério e por outras fatalidades –, decidi
cumprir a ingênua promessa de escrever sobre aquele absurdo: a demolição de
tamanho patrimônio.
Foi
quando conheci o sr. José Américo Lopes, um homem de 90 anos, portador de memória
prodigiosa. Numa tarde preguiçosa em sua casa na Barão de Aratanha, no Centro,
me confidenciou ter lembranças “daquela casa”. Nela, dizia, vivera uma grande
história de amor. “Como assim?”, perguntei, incrédulo. Sorrindo, pediu à filha,
Cristina, que nos trouxesse determinada pasta com papéis. Era a tal história,
só que escrita por ele mesmo: “Você gostaria de ler?” Em seguida, me falou um
pouco sobre o que encontraria ali. “Você já escreveu algum livro, meu filho?”,
perguntou-me. “Não, eu nunca”, respondi, enquanto folheava com vagar algumas
páginas datilografadas por Cristina. Ela, temendo por aquele material, advertiu:
“Pai, nós não temos cópia...” Ele tentou tranquilizá-la: “Filha, eu confio no
moço.” Na pasta, também repousavam cartas antigas. Quando as toquei, ele
imediatamente as pediu: “Não vai precisar delas. Deixe-as comigo.” Entreguei-lhe
as cartas. Ele as acolheu com sorriso afetuoso e delicado, como quem recebe uma
joia, e tirou do peito um nome sussurrado: “Olívia”. Com carinho, acomodou o
maço no colo e arrematou: “A história toda está aqui.”
Saí
de sua casa tomado de curiosidade, porém nem tanto pelo original que trazia em
mãos, mas pelas cartas, aquelas as quais não pude ler. Afinal, que segredos
trariam?
Na
época, eu morava na Vila Doutor Alencar, um conjunto de casas geminadas no
Monte Castelo, onde as crianças brincavam na estreita rua e os vizinhos, ao
entardecer, colocavam as cadeiras na calçada. Ali, naquela calçada, sentei-me
em minha cadeira de palhinha e pus-me a ler “Um Conto no Passado”, a história
de Américo Lopes: “Eu era um menino como qualquer outro que crescia, até então,
em pequena cidade de ruas descalçadas, a me entreter sentado no cume de
frade-de-pedra, esquecido do mundo...” Incrível, a história me envolveu de tal
forma que não consegui parar até a sua última página. Nela, encontrei aquele
homem ainda garoto e o acompanhei pela vida afora: os dramas, conflitos, a
juventude e o primeiro amor: Olívia! E o mais interessante é que, enquanto
Américo narrava a sua trajetória, revelava uma outra paixão: a sua cidade. Sim,
a grande personagem do livro.
Voltei
a conversar com ele e decidimos publicá-lo. Assim, por meio de um edital público,
a obra “Um Conto no Passado: cadeiras na calçada” teve o seu primeiro
lançamento em 2005, estando esgotada há bastante tempo.
Em
2026, passados 20 anos, a saga de Américo retorna em campanha de pré-venda, em edição
comemorativa aos 300 anos de nossa cidade. Você precisa conhecer esta que é a
maior história de amor a Fortaleza de todos os tempos.
Acesse
o meu Instagram: @raymundonetto67

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