segunda-feira, 18 de maio de 2026

"O Fracasso de Lourenço Mutarelli", de Raymundo Netto para O POVO


Fonte da Foto: Universo HQ

Lourenço Mutarelli nasceu em São Paulo há 62 anos. É romancista (10 títulos na Cia das Letras), quadrinista (mais de 30 títulos produzidos, incluindo os fanzines), ator (participação em 12 filmes nacionais de sucesso, entre eles, algumas adaptações de sua obra) e dramaturgo.

Artista de traço singular, formou-se em Belas Artes e, jovem, trabalhou no estúdio de Maurício de Souza. Depois, em carreira solo nos quadrinhos, foi aclamado e reconhecido como um dos principais nomes do segmento pelo público e pela crítica, afamado no país e no exterior, ganhador de 2 Troféus HQMIX, 3 Prêmios Ângelo Agostini e 1 Prêmio Portugal Telecom.

Com esse currículo, é compreensível o estranhamento geral quando, em entrevista ao podcast de Yuri Moraes, ouvir dele a sentença: “Eu não sou bem-sucedido, sou um fracasso...” Explica: o que ganha de royalties num semestre não paga um mês de sua vida. Que deveria viver do que plantou durante essa trilha, mas, ao contrário, sobrevive daquilo que está garimpando agora. Poderia até considerar-se bem-sucedido, não fosse preciso aceitar tantas encomendas, se não precisasse ministrar tantas aulas e se pudesse se dedicar com tempo a um novo projeto bem legal para os seus leitores. Afirma estar no “corredor da morte” – tem séria cardiopatia que quase o levou durante a pandemia –, e que o fracasso maior é ter ainda que pedir empréstimo a sua mãe para ajudá-lo a pagar as suas contas. E conclui: diz ser um fracasso, mas não consegue parar de fazer o que faz e tem a convicção de que o fará até o fim.

Claro que Mutarelli se refere ao “fracasso social”, pois artisticamente ele é, sem dúvida alguma, um vencedor.

Pode parecer chocante, a princípio, contudo, essa sensação não é incomum para a maioria dos artistas brasileiros no exercício de qualquer uma das linguagens artísticas. Enquanto isso, grande parte da sociedade acredita que chegar aonde ele chegou é a garantia de fama, riqueza e segurança, o que é um tremendo engano.

O mercado é cruel para quem desenvolve trabalho intelectual e artístico, e as regras do jogo mudaram. Não que fosse fácil antes, pois para um público historicamente sem repertório cultural e crítico, talento não é matéria-prima de valor, mas, sim, o poder da mídia e a capacidade de conquistar likes, “arte” hoje exercida pelos influencers, cujo conteúdo, geralmente raso e vazio, se afina com a mentalidade de nossa população alienada, deslumbrada e desinformada.

Nos dias atuais, enquanto a Cultura é vista e combatida por alguns como ameaça, posto que denuncia e revela realidades, por outros, ainda é vista como artigo de luxo. Ora, é incompreensível a dedicação de alguém a um projeto de vida que não lhe promete retorno financeiro, se não é publicado por grandes editoras, se não aparece em grandes palcos ou nas telinhas de TV ao lado daqueles artistas globais ou se não põe o pé em terras estrangeiras. Alguns desses artistas, mesmo a pequena fração que consegue viver de sua produção, aceitando demandas não queridas, buscando cachês em programas, criando cursos e outras oportunidades para continuar a sobreviver no ramo, ainda têm que fingir estarem satisfeitos com o seu sucesso, mesmo quando a insegurança e a vontade de desistir lhe batem à porta ou lhes dá insônias...

Diante desse “fracasso”, consola-nos o antropólogo Darcy Ribeiro, outro fracassado, quando confessa: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. [...] Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”




 


 

12 comentários:

  1. MARIA LUCIRENE FACANHA18 de maio de 2026 às 08:36

    Muitas verdades em poucas palavras. Deixar de fazer o que nos dá vida, é a morte antecipada. Raymundo especial sua forma de captar os sentimentos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito grato pela leitura e observações, Lucirene. Grande abraço

      Excluir
  2. São incontáveis os Lourenços Mutarellis com quem cruzamos por aí. Ainda bem que eles existem, que eles resistem.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, esse fracasso, por um lado, é quase uma condecoração. Um espécie de: "Ele resiste!". Obrigado, Zélia.

      Excluir
  3. Junto-me, com muita honra, ao Lourenço no time dos fracassados. Bela crônica, mizifio.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu estou nessa lista também. E não em ordem alfabética, ou seja, a analfabética. rsrs

      Excluir
  4. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  5. " Fracasso, fracasso, fracasso, fracasso afinal / Por te querer tanto bem ( Ó dona Estética! ) e me fazer tanto mal ( Ó senhor Retorno Financeiro! ). " Pequena variação ( fracassada, na certa ) sobre Fracasso, composição de Mário Lago. Incerta é a condescendência do autor com essa variação.

    ResponderExcluir
  6. Muito real sua crônica, de difícil digestão, fazer o que lhe dá prazer e se ver como fracasso social, financeiro!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O amor é cego ou é para cegos? Hummm... Vamos voltar à planilha...

      Excluir
  7. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir