Lourenço Mutarelli nasceu em São
Paulo há 62 anos. É romancista (10 títulos na Cia das Letras), quadrinista
(mais de 30 títulos produzidos, incluindo os fanzines), ator (participação em
12 filmes nacionais de sucesso, entre eles, algumas adaptações de sua obra) e dramaturgo.
Artista de traço singular, formou-se em
Belas Artes e, jovem, trabalhou no estúdio de Maurício de Souza. Depois, em
carreira solo nos quadrinhos, foi aclamado e reconhecido como um dos principais
nomes do segmento pelo público e pela crítica, afamado no país e no exterior,
ganhador de 2 Troféus HQMIX, 3 Prêmios Ângelo Agostini e 1 Prêmio Portugal
Telecom.
Com esse currículo, é compreensível o
estranhamento geral quando, em entrevista ao podcast de Yuri Moraes, ouvir dele
a sentença: “Eu não sou bem-sucedido, sou um fracasso...” Explica: o que ganha
de royalties num semestre não paga um mês de sua vida. Que deveria viver do que
plantou durante essa trilha, mas, ao contrário, sobrevive daquilo que está
garimpando agora. Poderia até considerar-se bem-sucedido, não fosse preciso aceitar
tantas encomendas, se não precisasse ministrar tantas aulas e se pudesse se dedicar
com tempo a um novo projeto bem legal para os seus leitores. Afirma estar no
“corredor da morte” – tem séria cardiopatia que quase o levou durante a
pandemia –, e que o fracasso maior é ter ainda que pedir empréstimo a sua mãe
para ajudá-lo a pagar as suas contas. E conclui: diz ser um fracasso, mas
não consegue parar de fazer o que faz e tem a convicção de que o fará até o fim.
Claro que Mutarelli se refere ao “fracasso
social”, pois artisticamente ele é, sem dúvida alguma, um vencedor.
Pode parecer chocante, a princípio,
contudo, essa sensação não é incomum para a maioria dos artistas brasileiros no
exercício de qualquer uma das linguagens artísticas. Enquanto isso, grande
parte da sociedade acredita que chegar aonde ele chegou é a garantia de fama, riqueza
e segurança, o que é um tremendo engano.
O mercado é cruel para quem desenvolve
trabalho intelectual e artístico, e as regras do jogo mudaram. Não que fosse
fácil antes, pois para um público historicamente sem repertório cultural e
crítico, talento não é matéria-prima de valor, mas, sim, o poder da mídia e a capacidade
de conquistar likes, “arte” hoje exercida pelos influencers, cujo conteúdo,
geralmente raso e vazio, se afina com a mentalidade de nossa população alienada,
deslumbrada e desinformada.
Nos dias atuais, enquanto a Cultura é vista
e combatida por alguns como ameaça, posto que denuncia e revela realidades, por
outros, ainda é vista como artigo de luxo. Ora, é incompreensível a dedicação
de alguém a um projeto de vida que não lhe promete retorno financeiro, se não é
publicado por grandes editoras, se não aparece em grandes palcos ou nas
telinhas de TV ao lado daqueles artistas globais ou se não põe o pé em terras
estrangeiras. Alguns desses artistas, mesmo a pequena fração que consegue viver
de sua produção, aceitando demandas não queridas, buscando cachês em programas,
criando cursos e outras oportunidades para continuar a sobreviver no ramo,
ainda têm que fingir estarem satisfeitos com o seu sucesso, mesmo quando a
insegurança e a vontade de desistir lhe batem à porta ou lhes dá insônias...
Diante desse “fracasso”, consola-nos o
antropólogo Darcy Ribeiro, outro fracassado, quando confessa: “Fracassei em
tudo o que tentei na vida. [...] Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu
detestaria estar no lugar de quem me venceu.”

Muitas verdades em poucas palavras. Deixar de fazer o que nos dá vida, é a morte antecipada. Raymundo especial sua forma de captar os sentimentos.
ResponderExcluirMuito grato pela leitura e observações, Lucirene. Grande abraço
ExcluirSão incontáveis os Lourenços Mutarellis com quem cruzamos por aí. Ainda bem que eles existem, que eles resistem.
ResponderExcluirSim, esse fracasso, por um lado, é quase uma condecoração. Um espécie de: "Ele resiste!". Obrigado, Zélia.
ExcluirJunto-me, com muita honra, ao Lourenço no time dos fracassados. Bela crônica, mizifio.
ResponderExcluirEu estou nessa lista também. E não em ordem alfabética, ou seja, a analfabética. rsrs
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ResponderExcluir" Fracasso, fracasso, fracasso, fracasso afinal / Por te querer tanto bem ( Ó dona Estética! ) e me fazer tanto mal ( Ó senhor Retorno Financeiro! ). " Pequena variação ( fracassada, na certa ) sobre Fracasso, composição de Mário Lago. Incerta é a condescendência do autor com essa variação.
ResponderExcluirEita, que viagem.
ExcluirMuito real sua crônica, de difícil digestão, fazer o que lhe dá prazer e se ver como fracasso social, financeiro!
ResponderExcluirO amor é cego ou é para cegos? Hummm... Vamos voltar à planilha...
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