quinta-feira, 7 de maio de 2026

"De volta ao passado: a encantadora Fortaleza do século XX", de Aila Sampaio (Resenha de Um Conto no Passado: cadeiras na calçada")


Aíla Sampaio

(Publicado originalmente no Caderno 3 do Diário do Nordeste)


Um Conto no Passado: cadeiras na calçada, romance de Raymundo Netto, é uma viagem no tempo, um encontro com uma Fortaleza poética e provinciana que só a imaginação pode reconstruir. De mãos dadas com Américo Lopes, o protagonista e narrador, passeamos pelas calçadas do início do século XX e andamos pelas ruas “descalças” de uma cidade menina que parece se fazer mulher aos olhos do leitor.

No livro de Raymundo, o narrador é um senhor de mais de 90 anos que, após receber um pacote de cartas de seu amor de juventude, compreende a razão de ter vivido tanto, e resolve, no ano de 1998, contar a sua história como um modo de eternizar seu romance interrompido pelo destino.

Trata-se de uma narrativa cíclica, cujo introito pode perfeitamente ser colado ao final para atar as pontas do novelo da vida do personagem:

No quarto, passei a cismar sobre a minha vida, toda ela, nos momentos e caminhos que me fizeram ser o que hoje eu sou
Recapitulando os desastrados anos da minha vida, conclui o porquê de ainda estar vivo. Precisava saber, não poderia partir desse mundo sem saber, e agora finalmente eu estava pronto.

Abri o lenço à minha frente e reconheci a letra feita às pressas com o furor de quem está arquitetando um grande plano de paixão: “Não esqueças de me lembrar que não foi apenas um sonho! Voltarei a ti...Sempre!” “Voltarei a ti...Sempre!” Por um momento senti-me naquele quarto acolhido nas asas e no sorriso de Olívia. Peguei o lenço e busquei seu cheiro: não havia nenhum, não havia nada! Pobre Américo, pensei, que sorte o destino lhe pregara. Chorei um pranto esquecido. (p.144)

 

A narrativa memorialista, de que se vale o autor, tomou impulso nos anos de 1970, com o romance-reportagem, uma tendência pós-moderna que se alicerça na transdiscursividade. Segundo Walnice N. Galvão (2004), o memorialismo, há tempos praticado no país, deu um salto de qualidade ao surgir a obra de Pedro Nava: “com uma capacidade invejável de reconstituir os ambientes de sua ancestralidade até várias gerações, e criando com liberdade o que não podia propriamente reconstituir, Pedro Nava acaba por fazer também um pouco de história imaginária, ou do imaginário. Ergue-se ante nossos olhos o passado de Minas”.

 A narrativa biográfica tem, pois, esse mérito de reconstituir, utilizando a trajetória de um personagem real, a trajetória de uma geração, a história de uma época e de um espaço. Assim ocorreu com Pedro Nava, que juntou imaginação e memória nos relatos de suas experiências; com Marcelo Rubens Paiva, em seu Feliz Ano Velho, livro que conta o acidente que o deixou paraplégico e os dias que o sucederam, entre outros que, ao modo de Graciliano Ramos, Érico Veríssimo e Rache de Queiroz, transfiguraram para a literatura episódios de suas histórias. No Ceará, destaca-se Milton Dias com suas crônicas de memórias.

Essa opção por narrar-se, ou seja, transformar-se em personagem, é curiosa e suscita uma reflexão sobre o significado da experiência vivida tanto para quem a expõe, no momento em que a expõe, pois já não é a mesma pessoa que viveu os fatos, como para o leitor.

Marta Campos (1992 p.28-9) faz algumas considerações a esse respeito: “Quando um autobiógrafo confere um significado a um tempo passado, ele certamente optou por um dos muitos significados que o acontecimento pode ter tido ou talvez tenha conferido ao fato um significado totalmente novo, que ele só adquiriu muito tempo depois. Este significado, por sua vez, revela muito mais sobre a situação do autobiógrafo no momento da escritura do que sobre o homem à época do acontecimento”.

O livro de Raymundo Neto, embora traga uma narrativa autobiográfica, não confunde o narrador com o autor. O velho Américo, personagem fictício, conta sua trajetória desde a infância, na primeira década do século XX, quando perde os pais e passa a ser criado por uma tia. Paralelamente, conta-se a história da cidade, tendo-se, dessa forma, dois personagens centrais: Américo e a cidade de Fortaleza.

A onisciência do narrador em 1ª pessoa não torna o relato inverossímil, pois desenrolam-se fatos passados, utilizando-se assim de um meio fundamental para tornar o relato crível. Tudo já foi consumado, vivido. O personagem Américo é ficcional, mas a cidade e sua história são reais e fundem, num só espaço e tempo, verdade e ficção, conduzindo o leitor nessa ambivalência que o leva a duvidar se Américo é apenas um ser de papel. 

 

A CIDADE

A cidade é desenhada em sua arquitetura e pelos fatos debulhados desfilam cenas moldadas nos espaços da época, como as ruas do centro da cidade: Guilherme Rocha, Barão de Aratanha e Formosa, a Praça do Ferreira, a Coluna da Hora, a Farmácia Oswaldo Cruz, o Café Java, o Maison Art-Nouveau, o Café Riche, a lanchonete Leão do Sul, o Passeio Público, a Confeitaria Crystal, o Cine-Teatro Majestic, o Cine São Luiz, o Clube Iracema, o Estoril, a Cidade da Criança (antigo Parque da liberdade, onde encontramos a Ilha do Cupido), o Cemitério São João Batista, a Igreja do Pequeno Grande, a Praça General Tibúrcio, o Palácio da Luz, a cadeia pública, os palacetes, tudo cenário da vida de Américo Lopes, o menino órfão cuja vida se confunde com a da própria cidade em que nasceu e viveu.

A habilidade com que os espaços e os acontecimentos reais são colocados no relato dá a impressão de que tudo é real. Américo fala sobre o Jornal O Pão e a Padaria Espiritual, seus mentores, cita os nomes de guerra dos padeiros e até trechos do estatuto, tudo contextualizado em encontros com amigos, um deles, não despretensiosamente “primo da sra. Maria do Carmo. Ela, há vinte anos residia na rua do trilho e casara com um alferes da polícia na Igreja do Patrocínio” (p.22) uma referência explícita à personagem de A Normalista, romance de Adolfo Caminha... não apenas uma referência, mas um registro da contemporaneidade de ambos, num jogo intertextual bem construído.

 

AMÉRICO: O MENINO E O HOMEM

O menino Américo, órfão de pai e mãe, é criado pela tia e madrinha, dona Severina, “viúva de natureza extremamente afável, conhecida pelo apelido de Sílvia” (p.12). Ela e o menino viviam da pensão deixada pelo marido dela (que morreu na época da grande seca) e dos serviços de costura que ela fazia para a vizinhança.
Ainda bastante jovem, começa a trabalhar como vendedor na sapataria do sr. Campos, pai de Daniel, seu colega de colégio e amigo, um rapaz folgazão e desonesto, que rouba o pai e vive de armações. Em uma de suas provocações ao pai, convida o amigo para um baile na casa de amigos da família e leva-o vestido em um paletó (subtraído do guarda-roupa do pai) reformado, expondo-o ao ridículo. Américo começa a perceber a personalidade do companheiro, mas não se abstém de sua amizade, pois necessita do emprego e sonha com uma promoção a gerente da loja.

Na festa, conhece Olívia, uma bela moça que admira ao piano. Rouba um poema de Antero de Quental para impressioná-la e vivem um idílio até a revelação fatal: ela é casada com um rico visconde, casamento por conveniência, para saldar dívidas da família, e não pode viver seu amor com o jovem rapaz. Juntos, passeiam pela cidade e descobrem a poesia da vida. Após viver uma noite de amor e na iminência de uma despedida, desesperado para não perdê-la, querendo convidá-la para fugir com ele, Américo pensa em roubar o cofre do patrão, e, num ato inconsequente e imaturo, vai à sapataria, onde encontra Daniel se apossando do dinheiro.

Após a discussão, Américo permanece no local e é preso como ladrão. O pai de Daniel sabe a verdade, mas não quer expor publicamente o filho e só retira a queixa quando a dívida do roubo é paga. Mais tarde se sabe, pelo marido de Olívia que, durante a prisão do amado, já voltou à sua casa no Rio de Janeiro.

A família de Daniel vai embora de Fortaleza, e Américo, aos poucos, retoma a vida, sofrendo a perda da tia, mas sempre criando forças para recomeçar. Consegue emprego nos Correios, casa-se com Guilhermina (Guiné) exatamente na época em que termina a segunda Grande Guerra Mundial. Com ela tem dois filhos: Victor e Cristina, levando uma vida pacata e confortavelmente feliz até a morte de sua companheira.

Vivendo já a velhice, recebe, um dia, a visita de Laura, filha de Olívia, que lhe entrega um pacote com cartas e um bilhete onde revela que Laura, sua única filha, não era filha do visconde, mas, na verdade, filha de Américo, fruto da única noite de amor que tiveram. Fica sabendo que Olívia morreu cedo e o visconde voltou a se casar com outra mulher. Ele entende a dimensão do amor que viveu com Olívia e se propõe escrever sua história, cujo relato constitui o romance Um Conto no Passado: cadeiras na calçada. A obra é, pois, bem mais que um romance memorialista; é uma história de amor; é um registro histórico e poético, um resgate dos espaços da cidade, da sua literatura, da sua música, dos seus símbolos, como o bode Yoyô, a figura de Chico de Matilde, o Dragão do Mar, e tantas nuanças perdidas no tempo que precisam ser reativadas no imaginário das novas gerações. 

Embora seja uma obra contemporânea, cujo tempo narrativo é o passado, a linguagem não peca quanto à adequação com o período retratado e a idade do narrador. Raymundo Netto consegue seduzir o leitor ao segurar a mão do velho Américo e percorrer a cidade-menina de um século atrás, envolvendo-o nas histórias de amor que se eternizaram em sua memória anciã... É como se alguém colocasse as cadeiras nas calçadas do tempo e se pusesse a contar sua vida apaixonadamente. Além dos cenários bem descritos, a obra recorre ao registro iconográfico e faz com que a saudade do tempo não vivido se revele no coração do leitor do nosso tempo.

A narrativa final transcorre com Américo sentado na praça do Ferreira, num banco de madeira, rememorando seu amor impossível e revendo a cidade. As cartas de Olívia fizeram-no renascer. De “chapéu de feltro azul com laço de cetim escuro, de óculos Ray-ban, portando um guarda-chuva preto, em camisas de mangas longas e com um pente flamengo no bolso” ele recorda sua vida, renascido, e declara sua saudade... sua saudade de tudo.

Ao final, o autor fala do rumo que tomou aquelas vidas após a conclusão do livro, do significado que a vida passou a ter para Américo depois da certeza de que foi amado por Olívia e da sua partida “dormindo e sorrindo com uma paz de espírito impressionante”.

A obra de Raymundo Netto é um legado a essa geração e às próximas, um registro telúrico de seu amor à cidade e do seu romantismo. Leitura imperdível para os que não tiveram a oportunidade de ouvir histórias contadas em cadeiras na calçada.


REFERÊNCIAS

CAMPOS, Marta. O desejo e a morte nas memórias de Pedro Nava. Fortaleza: Edições UFC, 1992.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1995.
GALVÃO, Walnice Nogueira. “A voga do biografismo nativo” http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142005000300026&script=sci_arttext .

Acesso em 14/10/2008

NETTO, Raymundo. Um Conto no Passado: cadeiras na calçada. 2 ed. Fortaleza: Imprece, 2009.


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segunda-feira, 4 de maio de 2026

"Memória de Encantamento de Audifax Rios", de Raymundo Netto para O POVO

Audifax Rios (1946-2015) era um príncipe... em pele de sapo! Assim, para reconhecê-lo era inevitável, acima de tudo e de tantos, amá-lo, condição única para o desencantar dos olhos viciados a se deslumbrarem com fachadas enganosas, caiadas de injustificada arrogância e empavonamento, ilusões pela conta bancária e por medalhas de araque que, solenes, apenas imitam e plagiam o ouro.

Tímido, virtuose da humildade, não se enganem: trazia no peito amoroso a convicção do seu trabalho, do talento e da originalidade. Empunhava o bastião da cultura “para que não desabasse por falta de quem por ele lutasse, pois olho grande é o que não falta”, e assim inventava “De Um Tudo”: pintava, desenhava, escrevia, pesquisava, publicava, cercava-se de amigos, admiradores e o escambau. Contudo, costumava dizer que os artistas visuais da maroceânica Fortaleza não o reconheciam como tal e por isso preferia, por ora, escrever. Como assim não reconheciam? É “oito ou oitenta!”

Lembro-me de uma ocasião em que estava no lançamento de uma revista nossa – não perdia eventos dos amigos – e soube da presença da Ana Miranda. Acanhado, perguntou se eu poderia fotografá-lo com ela. Chamei a Ana e o apresentei. Ela imediatamente disse que era sua leitora e o nosso artista quase se desmanchou: “Deve ler uma vezinha ou outra...”, disse, disfarçando a face encarnada com sorriso da criança que nunca deixou de ser.

Tive a sorte de conhecer e aprender muitas coisas com o mestre combo-artista. Trabalhamos juntos em alguns projetos. Gostava de estar a seu lado, pois, além de ouvir cambalhóticas histórias da sua confidente e amante lourinha, sentia a segurança de falar, de rir, de ser eu mesmo, e de ele gostar disso! Audifax nada nos pedia, nem queria. Sua alma já estava de todo salpicada de riquezas invulgares.

Certo dia, um gaiato ao ler a crônica que escrevi em que Audifax era o protagonista, disse-lhe: “O Raymundo Netto falou mal de você no jornal!” Ele, por sua vez, com sua voz pachorrenta, tascou: “Cara, o Raymundo é meu amigo, pode falar mal de mim. Os inimigos é que eu não deixo!”

No mais a mais, recebia seus telefonemas ou o acolhia na recepção do O POVO. No meio da conversa, leitor dos cronistas da casa, lançava uma graçola no ar. Às vezes eu “voava”. Ele, percebendo, me chamava a atenção: “Cara, está na tua crônica dessa semana...” E ria-se. Daí, eu retornava falando sobre a sua, a das sextas, de palavreado sertanejo, meio moleque, narrativa gostosa e irônica, de riso, fé e dor, nas quais conseguia o milagre de trazer à vida e à humanidade personagens que se foram há tempos e que, para mim, até então, tinham ares de estátuas frias.

Em “Rio Acaraú: um filete de esperança”, última crônica publicada no jornal O POVO, Audifax profeticamente se despedia da Santana infantil de não tantas priscas eras, pisando na beira do rio, revendo amigos que se foram e o sol risonho que sempre pintou, caminhando por entre o rosário de serras, acenando com lenço branco as velhas promessas, as lapinhas licânicas e histórias como a de um Raimundo, outro que não eu, o canoeiro, vítima, imaginem, de um infarto fulminante. Um infarto. “Haja Nostradamus!”.

Ultimamente tenho escrito frequentes crônicas-obituários, o que entristece e me farta de vazio, exceto pela saudade daqueles que nos deixam no meio do caminho. Penso que o Audifax, trajando uma de suas berrantes camisas, pegou carona em um de seus peixes voadores cobertos de escamas coloridas, feito lantejoulas carnavalescas, entre nuvens miscelânicas, no meio de uma procissão de um conselheiro Antônio, sendo recebido pela luz e pela glória daqueles que ele nunca nos deixou esquecer.

Ah, como é ingrata a dona morte, que pegou na distração nosso amigo de coração mole de ribeirinho, silenciando a ceia larga do seu caprino clube, no qual enquanto fiel sentinela e guardião não nos deixava sair sem assinar o irreverente caderno de atas. Deixa para trás e para nós o lamento distribuído entre Deus e o mundo, ciente de que o Altíssimo dessa vez acertou e levou o melhor entre todos nós. Em 17 de abril deste, completaria 80 anos.

Dobram os sinos e o sineiro, e, como dizia AR: “depois do episódio maligno, tudo divino no quartel de Quirino”. 

Fica com Deus, querido Audi, e voe com a gente quando desmorrer!