domingo, 23 de novembro de 2014

"Manoel de Barros e a Orfandade da Poesia", de João Soares Neto


“Um mérito inegável da poesia: ela diz mais e em menor número de palavras que a prosa”.  (Voltaire)

Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em 19 de dezembro de 1916 no Mato Grosso. Que, depois, virou dois estados. Nasceu em Cuiabá, morreu em Campo Grande. Dois em um. Formou-se em Direito, advogou até. Casou-se, teve filhos, cansou de advogar e virou fazendeiro/poeta. Sofreu. Perdeu filho em desastre aviatório, mas nunca usou a tristeza como mote. Há um ano padecia e se finou no dia 13 passado [novembro/14]. Quem quiser procurar, ele está em alguns escritos meus. Ora como epígrafe, ora com suas frases despidas de retórica, mas poéticas. O que escrevo abaixo é mera pesquisa/colagem. Reúno o que falaram sobre Manoel de Barros. Falta-me envergadura para descrevê-lo. Uso os outros como meio. Eu sou a mensagem. Carlos Drummond de Andrade, em 1986, teve a coragem de dizer que Manoel de Barros era o maior poeta brasileiro vivo. Não mentia.
A morte de Manoel de Barros nos entristece e mostra uma dura realidade: há poucos bons poetas no Brasil de hoje. Há rimadores e metrificadores, mas lhes falta essência na poesia, sobra a não naturalidade. Ele, Manoel, quis apenas dizer o simples,  não se propôs a voos condoreiros que não mais cabem neste mundo transformado por mudanças que o dealbar deste século nos impuseram. Voou fora de sua própria asa.
  Cada época da história deu à civilização um novo compasso. Ocorre que a invenção do chip, do computador, da internet, dos D.Js., da quebra de fronteiras, dos livros digitais e do surgimento de novas linguagens, incomuns aos renitentes, mostram o atraso que nos persegue.
A “vanguarda primitiva” de Manoel de Barros possui sintaxe própria, sem o rebuscamento inglório dos que não sabem ser simples. Alguns se lastimam, outros cantam amores e há apenas os que tartamudeiam. Ele elegeu a singeleza. Vejamos: 1. Gravata de urubu não tem cor; 2.O esplendor da manhã não se abre com faca; 3. Mais alto que eu só Deus e os passarinhos. A dúvida era saber se Deus também avoava. Ou se Ele está em toda parte como a mãe ensinava. 4. A poesia está guardada nas palavras – é tudo que sei. Meu fado é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades. Não tenho conexões com a realidade. Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim, poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas). Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado de elogios.
Em um especial da televisão GNT vê-se profunda identidade entre Manoel de Barros e o seu simplório caseiro, ambos felizes. Manoel de Barros poetou, pela primeira vez, em 1937, em plena ditadura Vargas, pouco antes da eclosão da Segunda Grande Guerra Mundial. Talvez, quem sabe, optou por ser lírico ou onírico. Nada de engajamento, de questionamentos, de dores de amores, de metáforas buarqueanas, que viriam depois.  Era direto ao ponto. No filme documentário feito por Pedro Cézar, de 2008: “Só Dez por Cento é Mentira”, o autor parte de um chiste de Barros: “Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira”. Para Armando Freitas Filho, citado por Sérgio Rizzo, na Folha de São Paulo, em 14.11.2014, Manoel de Barros “começou como um poeta formal, clássico, de dicção nobre, até chegar a uma poesia singular”. Refinou-se. Como ele próprio dizia: “Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma”.
Barros teve a sua fase revolucionária, diz Noemi Jaffe, doutora em literatura. Foi comunista e rompeu, sem tecer armas, com Luiz Carlos Prestes, quando o marido de Olga Benário, deportada para a Alemanha por ordem de Vargas, aliou-se ao Getulismo, por ser útil. Como se sabe, Manoel de Barros era a favor da utilidade do inútil. Mia Couto, escritor moçambicano, enamorado pelo Brasil e que gosta muito de aparecer por sua fotogenia, não perdeu a oportunidade: “Não era apenas um poeta, um recriador de um idioma que, depois dele, se tornou mais nosso... Era um filósofo que pensava e repensava o mundo por via da poesia”. Óbvio.
Agora, editados os cadernos literários por sua morte esperada e as menções de praxe, Manoel de Barros vai continuar a ser lido por poucos. Não era funileiro de palavras. Era poeta, só. Cumpriu o seu fado. Poeta não é confeiteiro de frases. É músico sem metrônomo que escuta compassos e dissonantes e os transforma em versos melodiosos. Se a poesia é uma religião sem esperança, como queria Jean Cocteau, Manoel de Barros ultrapassou esse estágio. Viveu de esperança. Sua filha Martha despediu-se do pai com uma frase dele: “Do lugar onde estou, já fui embora”.


sábado, 22 de novembro de 2014

"Diário de Bordo: Confeitaria Colombo (Rio de Janeiro)", de Raymundo Netto


Pois não é que no rumo perdido nas vagas em busca da Ouvidor me deparei com a Gonçalves Dias? Nem saberia, mas como um Cabral descobri a Colombo.


Fundada em 1894 por dois imigrantes portugueses e considerada uma das mais belas do mundo, sempre ouvi falar dessa famosa confeitaria, assistindo passivo do lado de cá a momentos de encontros refletidos em seus imensos espelhos de cristal da antuérpica belga, emoldurados em frisos de jacarandá, assim como em seu mobiliário esculpido pelo mestre-artesão e marceneiro paulista (filho de imigrantes italianos) Antonio Borsoi que, ao final da primeira década do século XX, conferiu aos salões da Colombo uma art-noveauidade, fruto de uma Belle Époque que ainda coça a pele de quem arrasta as solas por ali, ou encosta-se no frio mármore italiano das suas bancadas.




Em 1922, a Colombo passou por uma grande reforma que lhe conferiu o andar superior, onde podemos encontrar o Restaurante Cristovão, de culinária portuguesa e espanhola, e aproximarmo-nos da iluminação de lustres e arandelas e da claraboia belíssima e colorida de vitrais, numa lembrança de um Rafael de areia.



No cardápio, receitas próprias, diferentes e contextualizadas historicamente, que resistem desde o início da segunda e/ou terceira década do século XX, como biscoitos artesanais para lanches e gelados (biscoito leque), biscoitos à base de castanha de caju que dispensam o uso de farinha na massa (Petit Four), discos de pão de ló recheados com doce de leite e com cobertura de fondant (Rivadávia), doces portugueses tradicionais (pastel de nata, pingo de tocha e trouxinha de ovos), pão Blumenau (que foi criado por um empregado que, depois, se tornou um dos sócios da confeitaria), pão vienense (receita criada na década de 1940 por um austríaco, confeiteiro da casa), camarão recheado, bolinho de bacalhau (com bacalhau imperial português), pasteis de carne, torradas Petrópolis, casadinhos (biscoitos recheados com doce de leite, baba de moça, goiabada e damasco), sorvete cup fio de ouro (cobertura de fios de ovos produzidos na Colombo), dentre outras e tantas iguarias.
Nem é difícil imaginar, quantos e quens já passaram por aqueles salões a bebericar cafés, chás e a degustar pasteizinhos, em conversas saborosíssimas, a engatilhar xícaras de fina louça (aliás, comprei uma para mim que, penso, verei todos os dias de minha futura vida).
A confeitaria, que também é ornada de elementos que nos levam a outras épocas, acusa a presença de Chiquinha Gonzaga, Emílio de Meneses, Rui Barbosa, Olavo Bilac, Lima Barreto, Villa-Lobos, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, José do Patrocínio etc. etc.




Enfim, mais um feliz encontro no Rio de Janeiro. Quem for à “Maravilhosa”, não deixe de por lá passar, oui



"À Semelhança de Barcos", de Raymundo Netto para O POVO


Este ano, completa-se 102 anos do naufrágio do “Titanic”, o famoso navio que diziam, na época, “nem Deus conseguiria afundar”.
Fato: Deus deve ter coisa mais importante a fazer do que assistir a passeio de barquinhos nessa coxia (leia-se “oceano”) de subdesenvolvido planetoide. Nem não precisaria conferir qualquer esforço para de rápido pôr ao fundo o chaminenoso grandalhão, cemitério d’água de quase 2.000 pessoas, a maioria da terceira classe, claro, assim como o é a do terceiro mundo. Entretanto, não há tamanho para a queda, e esta, mesmo um dia, é certa para todos!
Barcos vêm e se vão numa vaga rosa ou escaudalosa rota, muito própria — e única — de cada. À semelhança de nossas vidas, nascem, navegam, se encontram, aportam, se perdem, soçobram, afundam e apodrecem.
Imagino-os com bandeirinhas festivas e, em seu interior, dezenas e ou centenas de pessoas acenando: “Não se esqueça de mim, também fiz parte de sua vida.” Às vezes, dentre tantos e inúmeros rostos de se acharem importantes, um ou dois, apenas, valem a cor de uma sua lembrança. Como barcos, carregamos coisas demais, a ponto de imaginarmos como ainda ser possível continuar a navegar. Mas, como dizia o infante português d. Henrique, criador da primeira escola virtual — a de Sagres — e visionário incentivador do internAutismo: “Navegar é preciso; viver não é preciso!”
Navegamos, porém, buscando lastros a nos sustentar ante o marzão de loucura, de violência, de consumo, de desperdício, de maldade, de incompreensíveis discursos e regras vazios, de burríssimos “homo lattes” pontuados na forja da pressa de se arvorar e não de contribuir, inventar, originalizar-se.
Passo o olhar na “Crônica...”* do “Gabo”: “Escreveu-lhe então uma carta febril de vinte folhas, na qual soltou sem pudor as verdades amargas que trazia apodrecidas no coração desde a noite funesta. Falou-lhe das cicatrizes eternas que ele deixara no seu corpo, do sal da sua língua, do rastilho de fogo da sua verga africana. Entregou-a à funcionária dos correios, que ia à sexta-feira à tarde bordar com ela para levar-lhe as cartas, e convenceu-se de que aquele desabafo final seria o derradeiro da sua agonia. A partir de então já não tinha consciência do que escrevia, nem sabia de ciência certa quem escrevia, mas continuou a escrever sem tréguas durante dezessete anos.”
O cantar dos galos, disso tinha “ciência certa”, calam os apitos do barco, e calam profundamente, mas não podem com os marulhos dos ventos soprantes. Não apenas com os ruídos, mas com a força que carrega as coisas para o mais distante dos ermos e dos remos.
Os barcos quando nascem de “quilha torta” compreendem bem de a extensão do caminho, mas não se iludem com trajetórias pré-traçadas, nem creem tanto na força de seu timão. Preferem as velas ao motor e as estrelas são seu único guia — enxergam mais à noite de astros. O risco de ir à pique é sempre iminente e, por vezes, desejado, senão seguro. Para eles, as noites são sempre frias e apenas o luar aquece os seus corações. Contemplam as madeixas verdes das águas, ouvem os sons de seus duelos, apreciam o encontro breve — a certeza do seguinte adeus — de outros barcos a navegar nas espáduas daquilo que ignoram. Tristes, singram solitários em cursos inexplorados, por entre dragões e sereias, a pôr demãos de futuro esquecimento, sem acenos de saudade, mas com olhares de arrebóis lacrimosos de nunca se esquecer.

(*) Crônica de uma Morte Anunciada, de Gabriel Garcia Marquez.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Ferrez e Carrascoza, dobradinha desta semana no Espaço O POVO de Cultura & Arte



O Espaço O POVO de Cultura & Arte, nesta semana, 19 e 20 (quarta e quinta-feira) trará dois convidados muito especiais:

O poeta, contista e romancista paulista Ferréz (19), ligado à corrente considerada literatura marginal, por ser desenvolvida e tratar de temas a partir da periferia. É fundador do DaSUL, grupo interessado em promover eventos e ações culturais na região do Capão Redondo, ligados ao movimento hip-hop, também possuindo um quadro no programa Manos e Minas da TV Cultura, dentre outras atividades.

O, também paulista, escritor João Anzanello Carrascoza (20), graduado em Publicidade e Propaganda pela USP, onde é professor desde 1993. Em 1994 publicou o seu primeiro livro de contos Hotel Solidão. Dentre alguns dos prêmios literários recebidos, o Jabuti, o Guimarães Rosa/Radio France Internationale, Fundação Biblioteca Nacional, dentre outros.

Espaço O POVO de Cultura & Arte
Av. Aguanambi, 282, Joaquim Távora
(anexo ao jornal O POVO - quase esquina com a av. Domingos Olímpio)
- O Estacionamento Central, ao lado, terá vagas gratuitas para os participantes -
Mais informações: 3255.6037/9228.1218





"Cabelos Brancos", de Ana Miranda para O POVO


Toda noite quando deito
Um pesadelo me abraça
Meu cabelo que era preto
Está da cor de fumaça

Ficou branco após os trinta
Eu não quis gastar com tinta
O tempo pintou de graça.

Os versos do repentista João Paraibano já mostram a verdade: pouca gente se conforma com os cabelos brancos. Mas eu, eu amo cabelos brancos. Sejam muitos, sejam todos, seja uma mecha saindo à raiz da testa, um discreto aglomerado nas têmporas, fios que se espalham pelos cabelos escuros ou claros, grisalhos suaves, fios que vão aparecendo, pouco a pouco, ou surgem num raiar do dia. Uns chegam antes do esperado, outros bem tarde na vida. Mas sempre vêm.
Sei que as opiniões são contrárias, algumas pessoas gostam, usam, tecem loas, rebelam-se contra a vaga e inconstante leviandade de uma falsa juventude, recusam-se a se tornar escravas da tinta e da amônia, das conversas tolas nos cabeleireiros, e não se conformam com as horas perdidas a esperar; outros alegam que algumas profissões – como de escritores, juízes, filósofos – requerem uma imagem de madureza, e quanto mais velha a pessoa, mais venerável. Que o ar é de coragem, segurança, plenitude e luz. O ar da experiência. Cabelos naturais. Saudáveis. Calmos. Mostram a doçura de bem envelhecer. Por que irmos contra a natureza?
Outras abominam, fazem a pregação da jovialidade, acham que os cabelos brancos dão um aspecto abatido, frágil, que não combinam com uma pessoa jovem, uma pele lisa se tornará indefinida, emoldurada por cabelos enevoados. Que são intrusos, parecem uma névoa fria. Que os fios brancos são ressecados e quebradiços. Para esses, os cabelos lavados em neve parecem descuido. Desistência. Dizem que não devemos nos impressionar com essa alvura, ela nada significa, pois os maus, os vis, também envelhecem. E nem sempre as cãs mostram uma pessoa que soube aproveitar as experiências da vida. Inventaram até um remédio que elimina os fios brancos com sessenta cápsulas. Ainda assim, senhoras e senhores elegantes, e mesmo jovens, em cidades deste vasto mundo, em sertões, campos, aldeias, usam a cor natural de seus cabelos, e muitas pessoas ostentam a brancura com orgulho, sentindo-se belas.
Não é comovente reencontrar alguém que não vemos há anos, e ali estão nas têmporas os primeiros fios brancos, onde dormem lembranças? Poetisas nos encantam com seus versos e com sua figura envolta por uma névoa também poética – os cabelos de Adélia Prado cobrem sua imagem com a virtude dos lírios. Comovente ver passar um homem comum, concentrado em seus pensamentos, os cabelos alvos brilhando ao sol. Ou na foto uma senhora que trança suas cãs em torno da cabeça; tão forte nos parece essa mulher.
Claros fios de prata em minha fronte
que tanto me abreviais a vida breve,
e os dias, que me leva o tempo leve
e que eu não quis contar, mandais que conte.

Como dizem os versos de Guilherme de Almeida, os cabelos brancos contam histórias que não quisemos contar, ou que nem precisamos contar. Fazem lembrar como a vida é breve, e que devemos aproveitar cada instante. Nos avisam de que já temos uma longa história a ser honrada. São resinas de lembranças.

Um dia vi, na rua, uma mocinha com os cabelos quase completamente brancos. Era tão linda! Tão diferente de tudo, tão chamativa a sua figura! Ninguém ficava sem olhá-la; uns se espantavam, outros a admiravam com ternura. Acompanhei com os olhos o seu passo, até que ela se foi, com sua grinalda de menina, com seu véu de noiva, um natural véu que celebrava o casamento dela consigo mesma.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Lançamento "Contos de Ir Embora" (EDR), de Natércia Rocha (29.11)

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Lançamento de
“Contos de Ir Embora”
(Edições Demócrito Rocha),
livro de estreia de Natercia Rocha,
ganhador do Edital de Incentivo às Artes da
Secretaria da Cultura do Estado do Ceará.
Data: 29 de novembro (sábado), às 17h
Local: Espaço O POVO de Cultura & Arte
(anexo ao jornal O POVO – av. Aguanambi, 282, Joaquim Távora)
Apresentação da autora e da obra: Eduardo Luz, professor da UFC.

Investimento do livro, com prefácio de Nilto Maciel, posfácio de Eduardo Luz, intervenções poéticas do Poeta de Meia-Tigela e ilustrações de Audifax Rios
será apenas de R$ 20,00 (vinte reais).


Informações: (85) 3255.6037 | 9228.1218 


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

"Diário de Bordo": A Casa Villarino e a Bossa Nova


Era final de tarde. Acabávamos de sair de uma palestra proferida por Antônio Carlos Secchin, na Academia Brasileira de Letras, quando Adriano Espínola e José Mario Pereira (editor da Topbooks) decidiram dar uma passada num "botequim" próximo ao  local, na esquina da av. Calógeras com a Presidente Wilson: a Casa Villarino.
O bar foi fundado, como uisqueria, por Luiz Villarino Perez, em 1º de junho de 1953. Passaram por ali, a bebericar chopps e uísques, beliscar tira-gostos ou simplesmente para jogar conversa fora, diversos nomes dentre nossos artistas, intelectuais, jornalistas, poetas e músicos, como Di Cavalcanti, Ary Barroso, Tom Jobim e Vinicius de Moraes.


Conta-se que Tom e Vinicius se encontraram pela primeira vez, em 1956, justamente ali. O jornalista Lúcio Rangel apresentou o então desconhecido maestro ao poeta e diplomata que procurava alguém para musicar o seu "Orfeu da Conceição". Daí dizerem que a Casa foi um dos berços da Bossa Nova.



Na entrada (uma espécie de mercearia) e também no salão, mobiliário da época, muitas garrafas, um ambiente acolhedor, com rastros de passado aqui e acolá, local escolhido para compor um dos cenários do filme "Tim Maia", mais precisamente da cena em que a Nara Leão canta para um público composto por Carlos Imperial, Roberto Carlos, Erasmo, Tim Maia...
Há no salão cadeiras e madeira e mesas quadradas com tampo de mármore e escolhi uma delas para imaginar o grande encontro: "Sim, tudo bem, mas sai um dinheirinho disso?"


Por ali também cruzou Pablo Neruda, que, contam, registrou alguns versos amarelos na parede, enquanto Di Cavalcanti riscou suas garatujas tropicalistas, ao lado das engenhices do conterrâneo Antônio Bandeira, e Ary Barroso algumas notas de sua famosa "Aquarela" e de seu coqueiro que dá coco. Nessas paredes, também se encontravam autógrafos de Dolores Duran, Aracy de Almeida, Mário Reis, Sérgio Porto, Paulo Mendes Campos, Elizete Cardoso e Carlos Drummond de Andrade. Mas, infelizmente, numa tentação dantesca imperdoável, um dos sócios ousou crer que as paredes estavam "sujas e feias" - ou que dentre aqueles se encontravam caloteiros -  e as manchou de tinta que, embora verde, perdia esperanças, enterrando de uma vez os traços de genialidade, até que se faça uma prospecção num futuro menos "vil larino".





Como consolo, agora, naquelas paredes, muitas lembranças de quem por lá passou e um eco, feito gemido, "que só em teus braços, amor, eu posso ser feliz."




sábado, 8 de novembro de 2014

Rádio AlmanaCULTURA: "Preciso me Encontrar", de Cartola


Para ouvir a música, acesse:


Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Lançamento de "Mensagens Enviadas Enquanto Você Estava Desconectado", de Raisa Cristina


Clique na imagem para ampliar!
As relações no espaço sideral e virtual ganham escritos, imagens e texturas no primeiro livro da artista visual e escritora Raisa Christina. Mensagens Enviadas Enquanto Você Estava Desconectado destaca, em letras e cores, a geografia dos afetos. Publicada pela editora Substânsia, a obra traz textos que transitam entre poesia, conto e crônica.
O lançamento é amanhã, às 17 horas, no restaurante Mambembe: comida e outras artes, com sessão de autógrafos, apresentação musical dos irmãos Colares (Vitor e Rodrigo) e irmãos Saraiva (Bruno Rafael e João), além de performance do bailarino Edvan Monteiro.

“Esse livro é um manual de ciências naturais do sentir, que calcula a gravidade baseado na textura da pele, que mede a velocidade pela latência da espera por uma visita ou uma resposta”, escreve Bianca Ziegler na orelha do livro.
Raisa explica que sempre se interessou por eventos e notícias relacionados à astronomia. Escrever um livro de ficção foi uma forma de ressignificar tudo isso. Com títulos que trazem termos que se referem à geografia, o livro combina terrenos, distâncias, nuvens e clima ao mapa de afetos dos corpos. Nessa narrativa, a escritora une os fenômenos naturais à sutileza dos encontros. O resultado é o encontro entre acidentes geográficos, mas também humanos.
“São coisas que aparentemente distantes, mas eu acho que, de alguma forma, essas notícias acabam brincando com a ideia do que está perto ou longe. Com a Internet, os aplicativos dão a impressão de que você pode estar perto de alguém do outro lado da rede”, diz.
Corpos-paisagem
Raisa esclarece que, embora dialoguem entre si, os desenhos do livro não foram feitos para os textos. Na obra, as imagens não são acessórios das crônicas. Como os escritos, elas têm força própria: “Eles estão no mesmo nível. A apreensão do texto muda ao lado da imagem, assim como a gravura é transformada pelo texto.”

Todos os desenhos apresentam figuras humanas em linhas que se misturam a outros seres ou ao espaço. “Compreendo o corpo humano também como uma paisagem. Quando vou desenhar alguém, tenho de estar muito conectada aos traços, às rugas, aos aclives e declives de cada corpo”, afirma.
Responsável pelo projeto gráfico, Diogo Braga conta que Mensagens Enviadas Enquanto Você Estava Desconectado tem algo de cinematográfico: “É como uma junção de curtas-metragens. Consigo imaginar as pessoas dos desenhos como um conglomerado de personagens.”
Primeiro livro de Raisa, a obra mistura astronomia, paixão e física. É um livro para conexões rápidas e lentas, para o on e offline. E para quando a bolinha verde acesa no computador causa terremoto. (por Eduarda Talicy para o Vida e Arte de O POVO)

SERVIÇO 
Mensagens Enviadas Enquanto Você Estava Desconectado
Autora: Raisa Christina
Quando: amanhã, às 17 horas
Onde: Mambembe (rua dos Tabajaras, 368 - Praia de Iracema) 
Quanto: R$ 30


"VIXIT!", de Raymundo Netto para O POVO


Depois do entardecer lunar, ante o mexerico das estrelas e de um solcris, solavancava, como um galope à beira-mar, o suspiro derradeiro.
O pensamento a distante se perdia e roto banhava-me da luz que chegava daquele olhar perdido na fleuma do passado presente.
Como se manifesto de miasmas, sentia o corpo a se aquebrantar no exalado aroma incandescente a excrescer no escuro lembramento, como um corredor frio e senzalavrador de medos.
Senti febre de me roubar o ar. Na garganta, a palavra feria purulenta, amara e frouxa como sangue, a correr venosa na pele, a se desmanchar em escamas, a me pedir: "Desista!"
Contudo, não sabia a voz, que o mar cedo já me batia às paredes do coração encruecido, ensurdecendo a cada dia, conforme a indecisão infantil das marés e dos ocorridos, dos conflitos, dos aflitos, da insânia assoleirada em minha porta.
Inapto ao mundo e à vida, lancei a pedra na Lua, saltei por casas de angústias que não se calam. Devastei pessoas que traziam flores nas palmas das mãos e sorrisos nos dedos, mas que não suportaram viver por trás de paredes brancas que construí na esperança de pouso e de ninho. Na verdade, aquele ar deletério a que tanto me acostumei, embora saiba que me consuma aos poucos até não mais possível vingar-lhe a chama, como garras, as estrangulava.
Um dia, entre nuvens dos olhos e do céu, recolhi um desejo azul, tingindo de firmamento o rosto por debaixo da máscara de sorriso contraído e arranquei a pele e os espelhos para nunca mais encontrar-me outra vez. E a perdi. Me perdi. Só. Completamente.
Durante anos, sem sabê-lo, percorri o (meu) mundo à procura daquela imagem que cuidei destruir, mas nos sonhos, muitas vezes recortados e infrequentes, via com assombro aquele rosto que não o meu, e ainda tão mais eu.
Às noites, cansado de esperar a queda de meteoros, promovia deicídios, feria os rituais, deitava no teto, desenhava caricaturas por sobre espelhos, tentava ignorar aquele "ninguém", que estava sempre ao lado, a acenar com a cabeça: "Agora!"
"Agora, ainda não!"
Tinha que escolher. Havia tempos, escolhi por não escolher. Não podia fechar portas, nem janelas. "Quem tem depressão não pode fechá-las nunca." Não gostava de multidões. Vozes demais entonteciam. Detestava a mentira. Não suportava posses, nem manias, nem soberba, muito menos ciúmes, certezas ou prisões. Queria ser livre de tudo. Ria e me condoía da hipocrisia do mundo. Não queria crescer, suportar a vida ou a morte. Não queria sonhar e fundei o meu país no reino da ideia, vizinho ao da loucura, onde escrever foi a única forma que encontrei para gritar em silêncio.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

"A menina de Alfred Guillou", de Juliane Elesbão


Hoje pela manhã, eu recebi das mãos da amiga Juliane Elesbão, mestranda em Literatura pela Universidade Federal do Ceará, um exemplar da antologia poética Poesia Livre - 2014: concurso nacional novos poetas, organizada por Isaac Almeida Ramos e publicada pela editora Vivara, na qual ela tem uma participação: "A menina de Alfred Guillou*", para leitura, a seguir:

(*) Alfred Guillou (1844-1926), pintor francês, cujo temas favoritos são retirados do cotidiano do porto e locais de pesca.

A percorrer veredas obsoletas,
Enxergando cegamente (?)
Deparo-me com este rosto cálido,
Estranho...

Essa menina que me fita,
       - Que me direciona esse olhar amorfo, intrigante,
Mostra-me a busca eterna da compreensão.
De quê? Não sei, enfim!

Por um instante, permaneço paratópico,
Mirando-a devotamente
A lhe perguntar:
         - E este olhar cândido e perdido, menina?
         Que mistério te envolta?
          Na vida, muito é nada nítido
          E pouco é muito visível.


As ilustrações são telas de Alfred Guillou.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

"Diário de Bordo: Ipanema era (para ser) só felicidade!", de Raymundo Netto


Ao lado de Dorival Caymmi e seu violão.

Cheguei no Rio num sábado à noite, me arranchando num apartamento à Beira Sol de Ipanema, na Visconde de Pirajá, Zona Sul, quase ao lado da praça General Osório, onde, no dia seguinte, pousaria a Feira Hippie de Ipanema, dita como "a maior galeria de artes e artesanato do mundo". Mas não é não, ó! Os expositores me asseguraram que ela acontece todos os domingos, desde 1968, aquele ano que o Zuenir, numa Ventura, não deixou terminar, até repousar finalmente no assento da Pedra do Reino Suassuna.
Após visitar a Feira, perguntar sobre um monte de coisas, bulir em tudo e não comprar nada, caminhei para a praia, a duas quadras, curtindo o sol, o mar e as  suas "garotas", certo de que Ipanema seria "só felicidade, como se o amor doesse em paz" e que ali "mesmo a tristeza da gente seria mais bela". Vejam que a poesia é a coisa mais perfeita do mundo, pois se atreve a fazer de tudo uma lindura, mesmo a fealdade ou a tristeza.
Entreguei-me à praia do Diabo, "vagando na lua deserta do Arpoador". Subi em suas rochas, como Dante, numa trilha estreitíssima, a ver o horizonte brilhar de azul enquanto na fronte recebia os estilhaços de ondas quebradas com a violência de uma natureza desesperançada.


Lá embaixo, cansado de esperar, Millôr Fernandes. Lembrou-me ele, que em 1948, Erna Miriam Etz Kaufmann (1914-2010), uma estilista e pintora alemã que vivia no Brasil, escolheu aquela praia para apresentar aos quadradistas nativos, pela primeira vez, o biquíni (na verdade, era um maiô de duas peças que confeccionara).


Caminhei e caminhei, invisível, num calçadão interminável de pedras portuguesas onduladas com cara de novela das oito, cada compasso uma volta de catraca, uma pernada, um movimento radical de skate, até esbarrar com a "Princesinha do Mar". Coisa musical aquilo ali. O vento sussurra que nem João Gilberto e eu não podia ver ninguém com chapéu Panamá assobiando para passarinhos que logo pensava: é o Tom?
Entrei no Forte de Copacabana, construído em 1918, repleto de famílias domingueiras, a beber cerveja gelada da Colombo genérica. O sol estalava no mar, faiscando no verde e no dorso na morena. Visitei o Museu do Forte e as suas exposições. Sentei-me nos bancos, tirei fotos, ouvia as conversas, puxava outras.


Ao sair de lá encontrei o Dorival Caymmi, próximo ao Posto 6. Acho que ficou feliz em me ver. Pediu-me uma canja, mas eu não acho que seja doce morrer no mar e vazei, sentando ao lado de Drummond e lhe perguntando, afinal, o porquê de Raimundo morrer de desastre  em sua "Quadrilha". O entregasse à Teresa ou à Maria, a troco do amor que se leva ou daquele que se tem...

Ao final da tarde, após emburacar numa lan-house ruim para bater um ponto virtual por umas descuidosas horas, regressei ao Arpoador para assistir ao seu famoso pôr do sol, que chegaria, por trás dos dois irmãos, naquele dia, mais tarde, numa hora transgênica de verão.
As pessoas todas, até as criancinhas de chupetões se juntavam, paravam, soltavam bicicletas, skates e pranchas, sentavam no calçadão e lançavam o olhar, como iscas, na direção do alaranjado céu. Era como se a vida pedisse licença ao tempo para se fazer ouvir.

Encerro a leitura do celular e o pensamento rebusca: "É mesmo impossível ir ao Arpoador e não ver o mar."