sábado, 11 de junho de 2011

"Um Novo Jeito de se Prostituir?", por Paula Izabela


Nunca escondi que em minha árvore genealógica tivemos/temos mulheres de vida dificílima – isso mesmo! Longe de ser uma vida fácil, a prostituição é uma atividade que desafia a Antropologia, a Psicanálise e a própria Sexologia. Para não entrar nos conceitos e nas pesquisas sobre o assunto, me detenho nas notícias que vejo nos jornais cearenses. Até porque isso é um blog e não um ensaio acadêmico. Se fosse o último, provavelmente belas acompanhantes estariam mais aptas a escrevê-lo do que eu.


Raquel Pacheco, mais conhecida como Bruna Surfistinha, e suas discípulas estão vendendo mais do que muito escritor consagrado pelo cânone. É justamente sobre as vendas a minha provocação. Imoral é aquilo que se vende ou quanto se paga? Porque todo trabalho – vergonhoso ou não – é uma venda de um produto ou de um serviço.


Quem ainda não se deparou com o jingle “Um bom professor, um bom começo”?


A base de toda conquista é o professor.

A fonte da sabedoria, um bom professor.

Em cada descoberta, cada invenção.

Todo bom começo tem um bom professor.

No trilho de uma ferrovia, um bom professor.

No bisturi da cirurgia, um bom professor.

No tijolo da olaria, no arranque do motor.

Tudo que se cria tem um bom professor.

No sonho que se realiza, um bom professor.

Cada nova ideia tem um professor.

O que se aprende e o que se ensina, um professor.

Uma lição de vida, uma lição de amor.

Na nota de uma partitura.

No projeto de arquitetura.

Em toda teoria.

Em tudo que se inicia.

Todo bom começo tem um bom professor.

Tem um bom professor.


Segundo Ricardo Kotscho, um dos fundadores do movimento “Todos Pela Educação”, a Campanha “Um bom professor, um bom começo” propõe a valorização dos professores. Produzida pelo Grupo ABC, com a participação das equipes de Nizan Guanaes e Sergio Valente, a campanha está veiculada em todas as mídias, tendo como idéia mãe as boas lembranças que temos daqueles que nos ensinaram nos tempos de escola. O objetivo principal deste movimento da sociedade civil é garantir uma Educação de qualidade para todos os brasileiros até 2022 – ano do segundo centenário da nossa Independência. “Para isso, ninguém é mais importante do que o professor, mas a tarefa de mobilizar os recursos possíveis pela melhoria do ensino é de todos nós”, afirma o jornalista paulistano.


Muito além desse jogo do contente estão as universitárias – a maioria em cursos particulares – “trabalhando na profissão mais antiga do mundo” para bancar seus estudos. Talvez nem desconfiem que exerçam mesmo é a profissão do futuro.


Basta considerarmos que em média o valor da hora-aula corresponde a 6min de uma acompanhante em Fortaleza. Se passar 02 expedientes em sala de aula um professor pós-graduado recebe algo em torno de 04 salários mínimos. Enquanto uma belíssima jovem que frequenta restaurantes, festas e hotéis luxuosos embolsa no final do mês algo em torno de 15 salários mínimos. Sem o ônus de ter que pagar nada ao fisco ou se irritar com a incompetência de alguns contadores. Obviamente existem outros ônus, mas ela pode ter o luxo de entrar em casa e esquecer seus clientes em suas horas de descanso. Já o professor precisa desligar o celular (para não ser importunado pelos pais e alunos) e contar com a colaboração dos familiares: trabalhos e provas para corrigir. Afinal, quem está se prostituindo? Quem está se vendendo nessa história?


Não é à toa que personagens como Lucíola e Tieta arrebatam os leitores – para não citar a Literatura estrangeira. Quem conhece alguma personagem inesquecível que tenha sido professora? Ninguém vai citar Belinha – minha xará – do romance cearense “Aves de Arribação”? Alguém recordou de Madalena do romance “São Bernardo”? Essa protagonista não se destaca pelas suas atividades escolares, mas por Graciliano permitir as desconfianças de Paulo Honório. O drama de Madalena se torna interessante pelas acusações de ter traído o marido com o Prof. Padilha. Em outras palavras, a importância da personagem surge na possibilidade da professora ter se comportado como quenga!


Agora foquemos nos clientes dessas acompanhantes que são descritos em sua maioria como cinquentões, obesos, casados... e políticos (não me toquem no Dominique Strauss-Kahn’s e no FMI)! Só político para pagar R$ 400,00 (com o dinheiro de quem mesmo?) para uma mulher bonita a cada 60 minutos. Ops! Mas é deles o argumento que R$ 900,00 para um professor educar um batalhão por mês é mais do que suficiente. Alguém aí, por favor, ressuscita o Renato Russo para explicar “que país é esse?”.


Acompanhantes VIPs estudaram em escolas particulares, fizeram cursos de idiomas e não pertencem às famílias de baixa renda. Agora fazem “programas” para pagar boas universidades porque querem mudar de vida. Justo! Mas quem delas vai prestar concurso para professora quando se formar? Quem será a heroína que aceitará ganhar por exatos 60 minutos o que antes ganhava a cada 6min? Ué, ninguém levantou a mão...


Isso me faz lembrar aquela piada de internet do pai decepcionado por achar que a filha era uma professora substituta, mas regojiza ao perceber que ouviu errado. A filha é uma prostituta!


É difícil, frustrante e doloroso oferecer o próprio corpo para um estranho, alguém que só desperta o seu asco. Isso ninguém questiona... Mas tem aluno que faz o professor desejar ter uma serra elétrica. Há turmas que promovem um verdadeiro estupro coletivo nas ideias e nos ideais de um educador. O que é mais traumatizante: um obeso violento por uma noite ou 50 adolescentes atrevidos por um ano? Será que estamos falando de duas profissões igualmente destrutivas?


Alguém aí já presenciou uma mãe de aluno abordando uma professora para defender seu filho? Regra geral, as mães são mais violentas para defender a prole do que para defender seus casamentos. Então, acredite: se ela topasse com a amante do marido os tapas seriam divididos. Enquanto que na escola, cada dia mais, o aluno está com a razão. É senso comum que as crianças e os adolescentes precisam de estímulo para aprender. E quem irá estimular o professor, hein? Esse piso salarial, que como o próprio nome indica, está abaixo dos pés de todos nós?Acompanhante não luta por piso, luta por salto agulha.


Semana passada, em Fortaleza, eu conversava com o engenheiro Régis. Ele reclamava que os piquetes dos professores atrapalhavam o já caótico trânsito da capital, os alunos se prejudicavam e tudo mais. Se professor dá “lição de amor” por que tanto desprezo da população aos movimentos grevistas? Por fim, ele admitiu que um motorista de trator, analfabeto funcional, ganha mais do que eu que leciono há 15 anos. Ah, se eu tivesse vocação, talento e disposição para ser puta VIP... Mas não, nasci educadora. É phoda! Ou melhor: é brochante!

Um comentário:

  1. Estou passando pelos blogs para copiar os links e anexar na lista de autores do CRAVO ROXO. Quando entrei aqui... Aff... Que susto que eu tive!

    Simplesmente esqueci (lesada já sou, ainda mais lesada tomando corticóide...) que já tinha postado e divulgado esse texto.
    Por um segundo fiquei tentando entender como foi que meu rascunho saiu do word e veio para cá, que imagem é essa...

    Aí fui eu quem gritou SOCORROOOOOOO (pra dentro)! rsrsrs.

    Valeu, amigo!

    PS: Divulga com o povo: http://www.jusbrasil.com.br/politica/7143883/participe-do-premio-literario-jose-lins-do-rego-inscricoes-ate-setembro

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