sábado, 31 de outubro de 2009

Sorteio de "O Livro das Horas da Praça do Ferreira" e a "Para Mamíferos" para os seguidores do AlmanaCULTURA



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"(...) Chega o primeiro pregador, Bíblia na mão e paletó anacrônico. Ele observa os circundantes com aquela indulgência superior de quem conhece os caminhos que levam ao céu. Alguém levanta a porta rolante da tabacaria que fica embaixo do Excelsior e um homem de meia idade, postado ao lado da Coluna da Hora, acende um cigarro." (José Mapurunga)


Meus amigos e amigas,

O AlmanaCULTURA receberá, excepcionalmente, até amanhã (01.11.09), as últimas incrições para participar do sorteio do kit com os romances autografados: Yuxin (Ana Miranda), Um Conto no Passado: cadeiras na calçada (Raymundo Netto), Rita no Pomar (Rinaldo de Fernandes) e Exuberante Pós-Nada de Astolfo Lima Sandy.
Para participar é só deixar como comentário (usar o link abaixo) o nome de três livros cearenses com seus respectivos autores.

Dois dos seguidores do AlmanaCULTURA, inscritos até amanhã (até agora são 53), automaticamente estarão concorrendo, RESPECTIVAMENTE, ao magnífico Livro das Horas da Praça do Ferreira (Edital de Artes da SecultFOR), editora Omni, autografado por José Mapurunga, coautor com Jarbas Oliveira, e a uma revista Para Mamíferos nº 1 (disponível também para venda em livrarias e bancas da cidade, sendo o contato para dúvidas pelo e-mail paramamiferos@gmail.com).

Acesse o link a seguir e não perca tempo. É prêmio demais!

http://raymundo-netto.blogspot.com/2009/09/2-sorteio-de-livros-de-autores.html


Literatura Cearense na "BRAVO!"


Nas bancas a edição de outubro da revista BRAVO!, Editora Abril, traz na capa a cantora Maria Bethânia. Em sua seção LIVROS: matéria com João Ubaldo Ribeiro que lançou O Albatroz Azul (Nova Fronteira) e fala sobre sua nova fase pós depressão e alcoolismo, a "resurreição"; outra sobre A Educação Sentimental de Flaubert e sobre Refrão de Fome, de Jean Marie Le Cléxio, Prêmio Nobel de Literatura em 2008, além de uma seleção de livros.
A novidade, desta vez, fica por conta de uma revista-encarte que a acompanha: a Bravo! Ceará.
Totalmente voltada à cultura cearense, a Bravo! Ceará destaca o Dragão do Mar em seus 10 anos de ação, a Casa de José de Alencar, o Theatro José de Alencar às vésperas do Centenário, o GEO Park Araripe, o Parque Estadual das Carnaúbas (meio ambiente), a Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, a Orquestra Eleazar de Carvalho, Panorama das Artes Plásticas Cearenses, Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho, a Arte de Fazer Rir do Ceará (com destaque a Chico Anysio), a Bienal de Dança do Ceará, as Produções Cinematográficas Cearenses e a Cultura Popular.
Na Literatura: O Canto do Patativa, matéria ilustrada sobre a vida e obra do poeta de Assaré na despedida do ano de seu centenário; Cartilha com Rima, o Cordel nas salas de aula (com participação de Arievaldo Viana); Vida Nova às Letras, entrevista com o escritor Raymundo Netto e a participação de Batista de Lima.
Nas bancas, ainda dá tempo de ter a sua.

Os "FitoManos" de Raymundo Netto em "Antropofagia"


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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Luau Literário do Movimento Proparque (01.11.2009)

O Movimento Proparque comemora seus 14 anos com o Luau Literário, dia 1º de novembro, domingo, às 19 horas, no anfiteatro do Parque Ecológico Rio Branco, entrada pela Av. Pontes Vieira ou pela R. Capitão Gustavo.

Show do cantor Calé Alencar com participação especial do Maracatu Nação Fortaleza, que fará cortejo pelas alamedas do parque.

Quem quiser conhecer mais do Movimento Proparque, acesse sua página na internet:
http:movimentoproparque.blogspot.com
Ou se quiser, contato:
e-mail: movimentoproparque@bol.com.br
Fones 3254.1203 e 8838.1203
Ademir Costa e Luísa Vaz

domingo, 25 de outubro de 2009

"Ideal: Sombra, História e Água Fresca", crônica de Ana Miranda para O POVO


Crônica O POVO 16 de outubro de 2009
O Ideal é clube de minha infância, quando passo ali na frente, vejo o muro de pedras, os arcos se debruçando sobre varandas, ainda coqueiros, ainda o branco, ainda a torre, ainda as telhas, sinto o coração se apertar e aquele sabor proustiano de ter mordido um bolinho de madalena. A água azul, o professor russo de balé, a festa de aniversário... O mundo tão amplo, a vida tão encantadora, os dias tão intensos... Minha mãe era moça do interior, e se casara com o doutor engenheiro, em Lima Campos, como num sonho de cinderela.

Depois de mandá-la estudar na Escola Doméstica de Natal, onde ela aprendera alguns refinamentos, meu pai a trouxera para a capital, introduzindo-a num mundo que ela conhecia apenas de comentários. Foi um desafio para ela frequentar os bailes e as demais atividades do clube, ali era a prova de sua aceitação, e de ser aceita por uma sociedade constituída, com seus costumes e sua atmosfera. Ela gostou, era, e é, uma mulher alegre, bem disposta e aberta ao novo. Gostava de dançar, gostava de esportes, de jogos, de conversas, de participar da vida da cidade, de vestidos bonitos...

O Ideal me faz recordar a presença das costureiras e bordadeiras, das rendeiras, que vinham em nossa casa preparar a toalete do casal. Minha mãe conta que havia uma lavadeira só para lavar e engomar as camisas de papai, imaculadas. Mulheres que ganhavam a vida executando suas pequenas obras de arte em tecidos preciosos, recobrindo-os da beleza de suas mãos dedicadas...
O Ideal para mim estava ligado à despedida de meus pais, impecáveis, rumo a uma vida glamurosa e intensa, levados pelo sócio de meu pai numa empresa construtora, meu padrinho querido Edgar Sá, membro antigo daquela confraria cearense.
Na minha volta ao Ceará, lá está ele, o Ideal: distinto, preservado, lindo, abrigando tantas lembranças, de uma Fortaleza alva, espaçosa, bulevares, praças, palacetes, edifícios públicos, no gosto eclético. Intrigou-me a origem daquela arquitetura, que faz lembrar os casarões californianos de inspiração mexicana. Até que chegou a minhas mãos uma revista que conta algo da história do clube, suas origens, sua construção e cotidiano. Um dos fundadores do clube, numa viagem internacional, teria trazido a planta de um hotel da Califórnia em estilo característico da região, o Colonial Mexicano, para servir de modelo, mas o clube foi projetado por um arquiteto importante na história da arquitetura cearense: Sylvio Jaguaribe Eckman, descendente de um dos Alencar que sucumbiram na guerra de 1817.

Também a publicação esclareceu-me a origem do nome e do clube, em versões pitorescas, narradas no discurso de um dos fundadores. No começo dos anos 1930, um grupo de doze amigos, entre comerciantes, banqueiros, industriais, um arquiteto, um exportador, um pecuarista, um médico, costumava tomar banho num tanque, que ficava em terras de um deles, entre goles de bebidas espirituosas e boas conversas. Comentavam que aquele poço "possuía as maravilhosas virtudes da fonte da juventude, onde Juno se banhava para parecer sempre jovem e bonita ao poderoso Júpiter"; e para acrescentar encanto à lenda, inventavam que ali Iracema, a tabajara, descansava à sombra de cajueiros, quando voltava de seu banho na lagoa de Parangaba.
Os homens saíam do banho vibrantes, deliciados com o frescor da água, e comentavam, "É maravilhoso! É ideal!" Daí teria surgido o nome. Mas é verdade, também, que o clube recebeu o nome do local onde se reuniam os doze amigos: Sítio Ideal. Ali, naquela chácara num bairro chamado de Damas porque era repleto das perfumadas damas da noite, foi fundado o clube em sua primeira sede. A segunda, balneária, foi na Praia de Iracema. A de minha infância é a terceira.

A história do clube é repleta de episódios como este: pouco antes da Guerra veio a Fortaleza um vaso alemão; os oficiais desembarcaram e foram conhecer o clube. Convidados para uma tertúlia noturna, souberam que a festa teria de terminar, porque as luzes da cidade eram apagadas em racionamento. Um dos oficiais, então, fez sinais em código para o navio, que fundeara em frente ao Ideal, e num instante dois imensos holofotes do navio foram acesos sobre a festa, que pôde continuar noite adentro, bem iluminada. A força desse clube era tão grande, como padrão de comportamento, que na minha infância, quando em Fortaleza uma pessoa se arrumava bem, comentavam: "Parece que vai ao baile do Ideal!"
Ana Miranda é escritora, autora de Desmundo, Dias & Dias, Yuxin e outros.

sábado, 24 de outubro de 2009

"Faroeste ao Sol" crônica de Pedro Salgueiro para O POVO


Sou de uma cidadezinha, Tamboril, que é uma aresta do Sertão dos Inhamuns (ladinho hoje apelidado de Sertão de Crateús), violenta por natureza.

Seca, de gente seca, de intrigas mil; todo tipo: divisão e limite de terras, arenga de vizinhança, cornagens várias, enfrentamento político... Raiva, birra. Motivo é o que falta (e principalmente o que não falta) pra se ter violência o ano inteiro, na festa de padroeiro (valei-me, Santo Anastácio, sem contar a violência do padre que derrubou as colunas centenárias feita ainda pelos escravos, trazendo tijolos de Pedra e Cal, para poder ser mais bem visto pelos fieis).

Agravamento pela massificação da violência e da bandidagem. Ponto de foco, as drogas que cercam e vencem os vilarejos mais afastados, escondendo-se pelas periferias da beira seca do Acaraú.

E não há uma família, tradicional ou não, que não tenha um descendente na droga, no crime, na rua... Na boca suja do povo.

Quase todas as proles têm estágios garantidos para os rebentos nos arredores da grande São Paulo, nas Rocinhas, Jacarezinhos do Rio. Voltam fugidos, sabidos, impõem o medo, fincam negócios, gastam o medonho medo de voltar.

Os que não vão pro “Sul”, garantem vagas nas periferias de nossa loirinha descamisada pelo sol.
Aqui: o lento tráfego para o inferno; nem mais esperam o próximo inverno.

Ah, guerreirinhos de fomes e sois de nossa sonsa loirota aguada, por que não se tornam políticos de caras redondas, por que não vão tomar uísque com feijoada nas tardes gris dos terraços do Ideal e outros clubes vis mais? Por que não tomam logo de assalto todas as mansões do Papicu e arredores? Por que se fincam em ruas sorrateiros a tomar de assaltos teus quase parentes de enfermidades? Por que desfilam impunes em suas feiras de Lagoinhas e Parangabas?

Sei, bem sei, que o peixe grande nada no fundo do mar, que só bota a cabeça pra fora d’água em lagoas límpidas...

Bandidinhos de panos alugam armas de policiais viciados... Drogas circulam de moto nas telentregas das aldeotas e fátimas... filhos de papaizinhos bebem êxtases com viagras sob o rabo do Dragão: saem em disparadas por todos os forrós da velha tribo, nos asfaltos os pegas de olhos de brasas...

No Centro uma dupla de moto arrasta o pacote das mãos do senhor de meia idade, uma coronhada e o riscar de pneus no sinal vermelho.

Depois da água com açúcar o aperreio e o medo: No pacote apenas os dois pães de resto da merenda da tarde, que ia levando pra Maria e a pequenina jantarem.

PEDRO SALGUEIRO é escritor e edita, junto com Jorge Pieiro, Geraldo Jesuíno e Raymundo Netto, o Caos Portátil: um almanaque de contos e, com Jesus Irajacy, Tércia Montenegro, Raymundo Netto, Nerilson Moreira e Glauco Sobreira, a revista Para Mamíferos.

domingo, 18 de outubro de 2009

Lançamento "Para Mamíferos" # 1 na quinta (22.10)

Para Mamíferos - nº 1
Uma Revista de Letras e Artes que veio para rebentar!

Data: 22 de outubro de 2009 (quinta-feira)
Horário: a partir das 19h30
Local: Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura – espaço ao lado da Livraria Livro Técnico
Editores: Glauco Sobreira — Jesus Irajacy Costa — Nerilson Moreira —
Pedro Salgueiro — Raymundo Netto — Tércia Montenegro
Presença no lançamento: Caio Porfírio Carneiro, Ana Miranda e performance de Ricardo Guilherme e Ghil Brandão
Preço de venda: APENAS R$ 10,00 (dez reais)
Contato da Redação (aquisição de revistas, críticas, sugestões e outros):
paramamiferos@gmail.com

Em Para Mamíferos: Entrevista exclusiva com a escritora Ana Miranda
A Geração Pós-Clã, imperdível e rico dossiê de um capítulo da literatura cearense,
por Caio Porfírio Carneiro, com contos de Caio Porfírio Carneiro, José Maia, José Alcides Pinto, Mário Pontes, Francisco Carvalho e um INÉDITO do saudoso Juarez Barroso —
Conto inédito e exclusivo Para Mamíferos do esquivo contista paranaense Dalton TrevisanLiteratrilhas revela: O Holocausto existiu! — A radicalidade e o radicalismo do Teatro Radical Brasileiro, ponto a ponto, por Ghil BrandãoNerilson Moreira Procura um Poeta de Meia Tigela (e ele existe?) — GlauQUADRINHOS x Beckett — Traduções inéditas dos escritores/tradutores Ruy Vasconcelos e Virna Teixeira para Hemingway e Gertrude Stein — Da Caixa de Espantos nos saltam poesia e prosa selecionadas (Henrique Dídimo, Luciano Bonfim, Carlos Nóbrega, Everardo Norões, Carmélia Aragão, Fayga Bedê, Amílcar Bettega) — e, Como Você Nunca Viu... mas verá, com Sânzio de Azevedo. Essas e outras surpresas
apenas Para Mamíferos!

Você não pode deixar de caçar a sua!


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

"Granja DO(L)ENTE", crônica de Raymundo Netto para "O POVO"

I

"Granja para os Granjenses". Assim foi denominado o Ponto de Cultura inaugurado no município de Granja, iniciativa da ONG dirigida pela Maria Ximenes, uma profunda conhecedora da cultura e da gente da cidade.

E foi por ocasião da inauguração que a Maria nos granjeou o lançamento de “Dolentes”, obra maior do Simbolismo no Ceará, livro póstumo do poeta granjense Lívio Barreto, um dos fundadores da agremiação literária bastante saçaricada por cá: a “Padaria Espiritual”.

Eu não conhecia a cidade e achei que lançar a nova edição de “Dolentes”, publicada pela Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, na terra natal do autor, inclusive numa data que remetia à sua história, ser-lhe-ia uma feliz homenagem. Não sei, mas vem-me sempre a lembrança: “um Profeta só é desprezado em sua terra” ou “santo de casa não faz milagre”...

Ao chegar, à vista dos renques de carnaubais, o céu faiscava num calor flagrante. Disseram-me: “Aqui, para cada morador existe um Sol!”. Atravessamos a cidade de ruas estreitas. Percebi rapidamente que ela, quase toda, ainda trazia na pele de cal as marcas da intensa quadra chuvosa, noticiada fartamente pela imprensa, que lhe banhara todos os cantos. Estranhei que, passado algum tempo, extensas gretas ainda marcassem de pedras soltas as descuidosas vielas.

A Ponte Metálica, às margens tão desverdeadas do Coreaú, estava interditada. Do casario antigo, bastante avariado, rompia das rótulas, das telhas, dos balcões, das portas carcomidas, o mato. Num poste, a placa enferrujada anunciava como “Arquitetura Histórica” um terreno de mato alto, troféu da conquista da violência granjeira e capitalista local.

A belíssima Estação, arquitetura de quase 130 anos, a desabar a qualquer momento, acolhida pelo descaso, não recebe mais ninguém a não ser as crianças que brincam — desconfiadas com a nossa estranha presença — de fazer rolinhos de papel transformados em fumaça de estrelas a evolar-se solta à luz do dia.

Vizinho à Estação, majestoso como um palácio em ruínas, um prédio escuro ostenta em sua entrada os dizeres “Maternidade de Granja” — embora nunca tenha assistido vir à luz um único granjense — revelando o desperdício e o abandono.

Andei pela cidade vazia. Ninguém às ruas. Pelas portas via, aos fins de oitões, redes a balançar. Calor demais. Conversei com alguns moradores: desânimo, desestímulo e ceticismo.

Alguns me contaram das chuvas que lavaram a cidade, principalmente o prédio da Prefeitura e do Fórum: “E olhe que mesmo assim, ainda não deu jeito...” — riam-se.

Foi quando diante da sequidão do tempo e dos humores abafadiços, vi surgir, num cimo, uma casinha amarela de janelas azuis que brilhava vivamente na frágua das fragas cinzentas dispostas num corredor de aves ligeiras. Perguntei que local era aquele, no que, então, me responderam: “Ah, ali? É o Ponto de Cultura. É naquela casa que ele vai funcionar”. Vi uma luz...


II


Fizera noite em Granja. Mesmo tendo que competir com o horário da Missa, a casa amarela do Ponto de Cultura estava apinhada de gente bonita. Ao contrário da tarde, o ar estava úmido, o vento frio, o clima aprazível. As pessoas — todas se conheciam — chegavam e sentavam-se em frente ao palco ao lado das enormes pedras cinzentas e de árvores escurecidas.
A Maria, toda em branco — “O Livinho gosta de branco!” — nos apresentava toda a casa e seus recintos decorados, por todos os lados, de crianças e jovens que se preparavam para atuar em esquetes, danças, performances, música, declamações etc.


Foi quando chegou, com ares de atrasado, o próprio Lívio Barreto. Rapaz novo, nem trinta, moreno pálido, olhar melancólico e expressivo, bigode ralo sobre poucos lábios, corpo franzino encafuado em uma fatiota modesta. Trazia “Só”, por debaixo do braço, e um cachimbo dormente à mão.

A Maria apresentou-nos.

Disse-me que esta seria a primeira vez que assistiria ao lançamento de seu livro “À Toa”.

Emendei: “Dolentes”, você quer dizer...

— Sim, “dolentes” como as súplicas dos granjenses à cidade que resiste “à toa”. Sempre achei que “À Toa” fosse o título mais adequado...

Após a apresentação dos demais artistas, fez questão de falar ao povo de sua terra. Tímido, mas firme, declarou-nos o que ora transcrevo a vocês:

— Agradeço a todos que aqui vêm ouvir este pobre rimador granjense. Acreditem, não há dia que valha-me este dia, todo cheio das pombas e da aurora. Lamento, entretanto, dizer que a andorinha volta ao lar se baixa a noite sombria. Eis-me náufrago e só!

Meus ideais, meus sonhos, meus castelos alvos, de escumilha, caíram todos... e onde Deus um mundo pôs, acho uma ilha. Pela cidade, tristeza só! Vestem-se os muros pardos, escuros, de limo e pó.

No ar passa uma tristeza mole de indolência. Dir-se-ia que as coisas bocejam. Entre tudo isto, pareço uma indecisão: Quando há de o dia esplêndido chegar dos nossos sonhos vermos realizados? Se bem que sempre unidos a esperar já há tanto tempo andamos separados!...

Nos lilases das tardes, enquanto forte chovia, pensava: vamos, inverno, molha, molha, não descansa, p’ra ver se quando te fores vêm para os campos as flores e para nós a esperança.

Hoje, lançando o olhar paciente, sem comoções, sem ansiedade, só vejo a flor roxa e tremente, tranquila e fria da saudade! Creiam, meu coração é uma fornalha acesa, uma cratera a vomitar no abismo. — abriu uma pausa, bebeu água, apertou com a mão o baixo das costelas esquerdas e continuou:

— Amigos, edifiquemos castelos de oiro e de luz, mas para vê-los, voemos para os espaços azuis, para só de longe vê-los. Longe, aonde não chegue a voz, para evitar que os castelos desabem por sobre nós. Não se deixem curvar a fronte, quero lábios a rir risos bons, estridentes, e, em nome das lágrimas, não chores!


Lívio foi aplaudido, e mesmo em sorrisos reservados, levado ao balcão — detesta balcões — para autografar seu “Dolentes”.

No dia seguinte, cedo partimos. Na entrada da cidade, passamos por uma vela amarela gigante, também depauperada, na qual a chama, parece-me, não mais tremeluz, e, mesmo assim, pedi ao Padroeiro que iluminasse o povo daquela cidade cuja beleza e graça se perdiam nos destroços inexplicáveis do esquecimento.

Lívio Barreto (18.02.1870 - 29.09. 895), o Lucas Bizarro da Padaria Espiritual, nasceu em Granja, Ceará. Escreveu e fundou alguns jornais literários como O Pão, Iracema e A Luz. Durante muito tempo teve que, com desgosto, exercer trabalho no comércio. Faleceu em Camucim, por detrás de um balcão de trabalho. Pouco tempo depois de sua passagem, os colegas da Padaria Espiritual publicaram seu Dolentes.

Raymundo Netto. Contato:
raymundo.netto@uol.com.br.
Blogue: http://raymundo-netto.blogspot.com


segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Lançamento "Desvios" de Vânia Vasconcelos (08.10) no Ideal Clube

Desvios
(Scortecci Editora/SP)
Livro de CONTOS de Vânia Vasconcelos
(ganhador do XI Prêmio Ideal Clube de Literatura -2008)

Data: 08 de outubro de 2009, às 19h
Local: Ideal Clube (área da piscina)
Apresentação da autora e da obra: Ângela Gutierrez
Contato com a Autora (para aquisição de livros e/ou outros): vaniavas@gmail.com

Sobre a Obra: Desvios, de Vânia Vasconcelos, dividido em três blocos de seis contos cada, tem certa unidade de concepção literária: O universo feminino. As mulheres da contista são mães, avós, trabalhadoras. Os homens são seus maridos, amantes, filhos, pais, avós, amigos, colegas de trabalho. Em alguns, até protagonistas, como o bibliotecário Antônio, os personagens principais de “Di profundis” e “O último verso” e Inácio, de “Domingo maior”. Há mulheres do morro, da favela, gente sofrida às voltas com roubos, violência e drogas. Há uma velhinha do interior, que se perde na cidade grande e vira mendiga. Há uma menina cândida que sofre pela mãe, trocada pelo pai por outra mulher. Há mulheres da classe média. Enfim, um mundo de mulheres. Mas nada de descrições e narrações naturalistas. Mesmo nas histórias de enredo tradicional (homem, mulher, outra ou outro), a escritora consegue “enganar” o leitor, como no desfecho de “Di profundis” ou no obscuro “Um jardim feito de madrugadas” e também em “Conexões”, com seu final inusitado.

“(...) talvez por isso haja sempre, no meio de tudo, um conflito, um desconforme, um rompimento da ordem, como se a vida só pudesse ser experimentada no gosto do tropeço, da queda, do desvio. Mas desvio que é acima de tudo libertação. Seja pela morte, pela fuga, pela loucura ou pelo desejo, os personagens buscam outras formas de 'encaixe'. Mesmo com um preço a pagar, o bom de tudo é que eles não deixam de tentar, se arriscam, se perdem, enlouquecem, mas deixam sua marca nessa vida tão passageira” (Sarah Diva Ipiranga)

Sobre a Autora: Vânia Vasconcelos nasceu em Salvador (BA), formou-se em Letras e foi professora do Curso de Letras da UNEB. Mora em Fortaleza (CE) desde 1995. É professora de Literatura do Curso de Letras da FECLESC, faculdade da UECE. No Ceará, participou da organização de duas Bienais Internacionais do Livro (2004 e 2006) e trabalhou na Coordenação do Núcleo de Literatura do Centro Cultural Dragão do Mar. Faz parte da ONG Travessias, que trabalha com a promoção e incentivo à leitura. Ganhou o Prêmio Literário Caio Cid com o livro de crônicas Mergulhos e o de Incentivo às Artes, da SECULT, com o mesmo livro, em 2005. Foi, por dois anos, articulista do Jornal O Povo, escrevendo crônicas. Já publicou um livro infantil intitulado Chão de Infância e venceu o Prêmio Fran Martins para obra inédita – contos – em 2008, promovido pelo Ideal Clube de Fortaleza.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

"Os FitoManos" de Raymundo Netto em "O Fruto do Conhecimento"


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"'Iraçéma Or Honey-Lips' e o lorde inglês", crônica de Ana Miranda para O POVO (02.10)


A Casa de José de Alencar, pelas mãos do cearense Tarcísio Garcia
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Uma das figuras mais fascinantes e perturbadoras desta vasta humanidade é sir Richard Francis Burton. Admiro-o de longa data, a partir de um ensaio belíssimo de Borges, Os tradutores das Mil e uma Noites, em que o escritor argentino introduz os feitos do lorde aventureiro autor de uma das versões mais lascivas desse clássico. Burton era apaixonado pelas viagens, pelas inumeráveis maneiras de conhecer o outro e as maravilhas remotas. Além de falar umas quarenta línguas e dialetos, o explorador inglês tinha um impressionante dom de mimetismo que lhe permitiu peregrinar às cidades santas da Arábia como um verdadeiro muçulmano, beijar a Pedra Negra adorada na Caaba, ou, como dervixe, praticar a medicina no Cairo, a fim de penetrar os segredos dos misteriosos habitantes daqueles mundos opostos. Esteve na vanguarda das forças de ocupação da Índia, atravessou o Velho Oeste americano numa diligência em plena Corrida do Ouro... Comandou em 1858 uma expedição em busca das fontes secretas do Nilo, o grande mito geográfico do século 19, acabando por descobrir o lago Tanganica, no coração da África. Em suas viagens, ultrapassava os limites do humanamente insuportável.
Quando vinha de Harrar, cidade vedada aos europeus, no interior da Abissínia, foi atacado por somalis que lhe deixaram uma profunda cicatriz no rosto, desde então jamais dissociada de sua imagem, que se tornou ainda mais inquietante.
Essas odisséias eram comuns na época em que a Inglaterra estendia seus domínios. Os países criavam sociedades geográficas para promoverem naturalistas aventuras “paradisíacas”, como a do famoso Livingstone, personagem da anedota sobre a fleuma inglesa, na qual, ao ser reencontrado maltrapilho, depois de anos perdido nas florestas Ujiji, seu salvador teria pronunciado a antológica frase, “Doctor Livingstone, I presume”. Alguns autores literários do Romantismo foram contaminados pela paixão da viagem, como Goethe, lorde Byron, Shelley, Keats ou Wordsworth. Mais tarde, Flaubert, e Rimbaud.
O capitão Burton foi o maior dos viajantes, não apenas pelo que empreendeu, e como o fez, mas por ter escrito relatos extraordinários sobre essas experiências, formando um acervo fabuloso de conhecimento etnológico, antropológico, avant la lettre. Ele era capaz de fabricar textos minuciosos e longos, com abundância de notas explicativas sobre cotidiano, práticas religiosas, artes, mitologia, ou costumes eróticos dos povos observados; consta que alguns instantes passados num jardim lhe poderiam inspirar umas quarenta páginas de observações inéditas.
Deixou escritos 72 volumes, sobre as montanhas azuis de Goa, sobre um hermafrodita das ilhas de Cabo Verde, ou entrevistas nos campos de batalha da Guerra do Paraguai. Burton desaparecia por meses, sem dar notícias, envolvia-se com nativas, voltava aos trapos e doente, era o tipo de homem que nenhuma mulher escolheria para casar. Mas Isabel Arundell foi sua apaixonada mulher por toda a vida, ficando conhecida historicamente pela beleza, e pelo imperdoável ato de queimar manuscritos do esposo, como O jardim perfumado de Nafzauí.
Burton, claro, esteve no Brasil. Isabel conseguiu uma transferência e o casal aportou em 1864 na cidade de Santos, onde ele seria cônsul. Mas preferiram residir serra acima, na pequena e provinciana São Paulo, mais fresca e saudável. Subiram a serra com a bagagem, saltando na estação da Luz ainda em construção. Alugaram um casarão agradável, antigo convento no alto da ladeira do Carmo, de onde se descortinavam as várzeas inundadas do Tamanduateí. O casarão de sete quartos foi caiado por Isabel, e Burton instalou-se num estúdio amplo e fresco, para seu febril exercício matinal. Ali mantinha onze mesas, cada uma destinada a um manuscrito: a tradução de Lusíadas, a do relato de Hans Staden, a das Mil e uma noites, a de Uruguai, de Basílio da Gama, entre outros.
E, para minha imensa surpresa e júbilo, realizou com Isabel a tradução de Iracema, de José de Alencar, sob autorização do autor. Fiquei imaginando se Burton e Alencar não se conheceram, pois o cônsul passou uma temporada no Rio de Janeiro, entre festas e encontros com o casal imperial. Casado com uma inglesa, José de Alencar nessa época vivia na Corte, como jornalista e escritor. Essa tradução foi publicada em Londres no ano de 1886, com o gracioso título de Iraçéma Or Honey-lips. Burton era mesmo genial.

ANA MIRANDA é autora de Boca do Inferno, Desmundo, Dias & Dias, Yuxin, entre outros romances, editados pela Companhia das Letras.